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Kami no Sensou – Jacinto Roxo (Volume 6: Capítulo 4)

Diante dos olhos negros de Kuroshi, um lugar muito familiar se mostrava. Céu vermelho, solo vermelho escuro, quase preto, nenhum sinal de vida seja humana, animal ou vegetal. Uma gigantesca lua escarlate iluminava tudo.

Não haver sinais de vida não significa que não havia nada ali… Muito pelo contrário, em todas as direções que se olhava, corpos humanos sem vida ocupavam espaço no solo morto. Não era uma cena inédita para Kuroshi, mas ver aquilo o encheu de repulsa e vontade de vomitar. Talvez pelos corpos estarem completamente negros, quase como sombras ou como se tivessem acabado de sair de dentro do solo, ele conseguiu resistir.

Ele não estava perdido, ou sem saber o que fazer, essa era uma situação pela qual ele já passou inúmeras vezes no passado, embora que ainda com algumas diferenças.

Kuroshi foi caminhando adiante, evitando pisar nos corpos ou sequer olhar para eles.

É como meus antigos sonhos… Só que…

Sim. Seus sonhos eram totalmente padronizados, sempre se repetindo da mesma forma com apenas uma mudança ou outra. Isso é, até o momento da “morte” de Seira chegar. Naquele dia, seu sonho foi diferente. Dessa vez este sonho também está sendo diferente de todos os outros, ele pode se mover, ele pode agir livremente. Não há Hades, nem a morte de—

“…!”

Após caminhar por um tempo, Kuroshi viu uma pessoa na sua frente. Ela estava de costas pra ele, mas reconhece-la era a coisa mais fácil do mundo.

Kurona—!

Kurona estava com as mãos nas costas, olhando para a lua escarlate.

A forte luz vermelha atingindo a garota que poderia ser denominada como uma bela flor negra combinava perfeitamente. Como se ela pertencesse a aquele mundo—Não, como se aquele mundo pertencesse a ela.

Ela olhou para trás, como se já soubesse que Kuroshi estava ali.

Isso é um sonho? Ou é real?

Enquanto tentava controlar sua mente em confusão, Kuroshi começou a andar em direção a ela. Só havia um problema… A partir do momento em que os olhos dos dois se cruzaram, os movimentos de Kuroshi aconteciam contra a vontade dele. Cada passo que ele dava não era feito porque ele queria, era como se seu corpo estivesse sendo controlado por uma força maior. Logo, sua espada de sempre surgiu nas suas mãos.

Espere… Espere! Esper—

Os dois ficaram há um metro de distância um do outro. Kuroshi se preparou para perfurar diretamente o coração da garota diante dele, e o que aconteceu depois—

 

 

Kuroshi abriu os olhos.

Ele estava deitado na sua cama, o dia já estava amanhecendo.

Não é como se a volta desses sonhos fosse algo bom ou tolerável, mas Kuroshi acordou bem. Sem gritar, sem suar, sem angústia e sem ver ninguém sendo morto. Ele se sentia relaxado e nostálgico.

Ao se sentar na cama, ele aproveitou por alguns segundos o ótimo perfume que havia no quarto.

Logo em seguida, ele se dirigiu até o banheiro e se olhou no espelho. Talvez ele tenha tido alguma esperança de que seus olhos não estariam naquele forte tom escarlate. Seria um pensamento em vão, no entanto, já que as coisas continuavam as mesmas.

Depois da conversa que ele teve com Axel ontem, sua mente ficou tão pesada que não demorou muito para ele cair no sono. Talvez ele tenha dormido até rápido demais, já que ele mal se lembra do que aconteceu após ter voltado para seu quarto. Mas uma boa noite de sono é sempre essencial, já que ele acordou bem mais leve.

“… Preciso resolver essa situação de uma vez por todas.”

Conseguindo a calma necessária para dar um passo adiante, Kuroshi decidiu começar a agir.

Sem perder muito tempo, ele tomou banho, se arrumou e saiu do quarto.

Ainda era bem cedo, por isso, os corredores do dormitório estavam vazios, silenciosos e um tanto quanto desnecessariamente escuros.

Era um cenário um pouco assustador, mas não tanto quanto lutar contra alguém mais perigoso que uma bomba atômica. Por isso, Kuroshi continuou seu caminho rotineiro normalmente.

Andando e andando em um corredor que parecia interminável, Kuroshi começou a sentir uma sensação estranha e parou de andar.

“…”

Era como se alguém o observasse.

Aquela pressão invisível era altamente desconfortável.

“…!”

Subitamente, Kuroshi se virou, tentando ver se havia alguém atrás dele. Mas nada havia ali.

Estou ficando paranoico ou…

“?!”

Ao se virar para frente novamente, ele deu de cara com um homem. O susto o fez saltar cinco metros para trás. Mas logo após essa ação, ele percebeu que não havia mais ninguém lá. Com o nascer do sol, os corredores ficaram mais claros.

Ele só se lembra de ter visto alguém desconhecido, de cabelos roxos. Foram as únicas coisas que aquela fração de segundo permitiu sua memória gravar.

Eu…

O que diabos está acontecendo comigo?

Quando isso se tornou uma história de terror psicológico?!

Droga!

Eu preciso—

“O que houve, Kuroshi?”

Com um forte toque no ombro, Kuroshi foi trazido a realidade novamente e ao olhar para trás, lá estava um amigo bem recente seu, Masaya.

“Masaya? O que…”

“Ryoka-chan me pediu para buscá-lo. Ela queria fazer uma nova reunião…”

Entendo… Acho que entendo o rumo que isso está tomando…

Vendo a cara de desgosto de Kuroshi, Masaya arregalou os olhos, surpreso.

“Woah woah, achei que você gostasse das garotas, ao menos um pouco.”

“Eh?”

Dessa vez foi a vez de Kuroshi ficar surpreso.

“Do que está falando?”

Ele não percebeu?—Pensou Masaya por um momento.

“Não, é… Você parecia descontente com a ideia.”

Ele propositalmente usou a palavra ‘descontente’ para parecer menos grave.

“Uh…”

No entanto, pela reação (Ou falta dela) totalmente confusa de Kuroshi, ele percebeu que não foi proposital.

“Bem, esqueça isso. Nós vamos para um local diferente de qualquer forma.”

“Huh? Como assim?”

“Ao invés de fazer o que a Ryoka-chan me pediu, pensei em termos uma conversa a sós. O que me diz?”

Kuroshi não tinha ideia do que estava passando na cabeça de Masaya, mas ele era alguém de confiança. Talvez por causa da sua personalidade, ou pela sua história, mas Kuroshi sentia que ele era até mais confiável que a própria Ryoka.

“… Certo.”

Tendo a confirmação que queria, os dois se dirigiram até o terraço da escola.

Kuroshi já estava uniformizado, mas como Masaya não era mais um estudante do ensino médio, ele vestia roupas casuais como uma calça e uma jaqueta preta junto com uma camisa azul. Ele estava com as mãos no bolso, embora parecesse relaxado, o ar em volta dele era completamente o oposto disso.

“Tem certeza que irá ignorar o pedido de Ryoka?”

“Ela parece durona por fora, mas quando você a conhece mais de perto, percebe que não é tão complicado assim lidar com ela.”

“…”

A pergunta de Kuroshi não era realmente algo que ele estava preocupado. Ele estava mais preocupado com o que Masaya queria falar com ele, e por isso decidiu falar a primeira coisa que veio a sua mente. Uma atitude incoerente considerando que ele já havia aceitado vir até aqui para conversar de qualquer forma. Mas talvez ainda seja melhor do que ter uma reunião com as garotas, ele pensou.

“O que eu tenho a dizer é algo simples.”

Masaya olhou diretamente nos olhos de Kuroshi, ele estava totalmente sério. Por isso, Kuroshi nem sequer o interrompeu.

“Nos conhecemos há pouco tempo, mas sendo um grande amigo da Ryoka-chan, não hesitei em te dar um voto de confiança. Mas…”

O que Kuroshi ouviu em seguida o deixou perplexo.

“… Se você fizer algo que cause um impacto negativo muito forte, não só na Ryoka-chan, mas no [Partenon] em si, não hesitarei em te chutar para o planeta mais próximo.”

Não havia tom de brincadeira, nem exageros. Sem tirar nem por, Kuroshi acabou de ser ameaçado por um aliado.

“Eu não sei sua história ou suas circunstâncias, mas você é a principal causa das preocupações do nosso grupo atualmente. Você já soube sobre meu passado, então talvez já tenha alguma noção, mas eu não pretendo ter respeito por alguém que não é verdadeiro aos seus próprios sentimentos.”

“… Espere um momento!”

Claramente irritado por algo no discurso de Masaya, Kuroshi deu dois passos adiante e agarrou a camisa dele pela gola. Ele não tirou as mãos do bolso em nenhum momento.

“O que? Quer lutar contra mim? Não sou tão piedoso com quem faz a Ryoka sofrer, você pode perguntar ao Noah se duvidar.”

Nenhuma das palavras de Masaya foi dita com um sorriso no rosto, muito pelo contrário, Kuroshi sentiu uma pressão ao ouvir aquilo.

Aquele momento de reflexão deu a oportunidade para Kuroshi notar que, apesar das ameaças, Masaya está apenas protegendo o grupo.

Eu sou o vilão da história agora?!

Kuroshi soltou Masaya e recuou.

“… Eu me exaltei um pouco. Embora me chamar de falso logo após dizer que não sabe nada sobre mim tenha sido realmente insultante…”

O que está acontecendo comigo? Eu não deveria ser tão agressivo… Apesar da culpa ser dele também. Meus sentimentos são absolutamente verdadeiros, ao menos os que criei aqui.

“Hmph, lamento por isso, mas é o que eu acredito.”

O rosto de Kuroshi se contorceu ao ouvir a resposta dele, mas dessa vez ele respirou fundo e decidiu continuar a conversa.

“Você disse que lutou contra Noah? Não imaginei que você fosse tão violento…”

Por algum motivo, Kuroshi puxou outro assunto com um tom de provocação.

“Isso é óbvio. Ele não só fez a Ryoka-chan chorar ao matar a Sayaka-chan, como feriu a Ryoka-chan vencendo-a em um duelo. Eu tinha que despejar a raiva nele de alguma forma.”

Ele responder como se fosse a coisa mais natural do mundo pegou Kuroshi de surpresa, já que o mesmo esperava que ele caísse na provocação.

“E agora você está seguindo o mesmo caminho, para prejudicar o [Partenon] direta ou indiretamente, mesmo que não seja proposital.”

Novamente essas acusações…!

“… Já deu. Cansei disso.”

Kuroshi declarou, se virou e caminhou em direção a porta para voltar para dentro da escola. Masaya não fez nada para impedi-lo. No entanto, ao abrir a porta, Kuroshi parou e olhou para Masaya mais uma vez.

“Só mais uma coisa. Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

Para a pergunta de Kuroshi, um silêncio de alguns segundos. Segundos esses que pareceram uma eternidade.

“… Hah…”

Masaya suspirou, como se estivesse cansado.

“Isso importa? Eu sou eu independente da existência de uma influência externa ou interna. Diria até que essa influência pode nada mais ser que parte do nosso subconsciente. Querer justificar ações, desejos ou características suas colocando a culpa em algo sobrenatural não é nada mais nada menos que insegurança ou covardia.”

“…”

Kuroshi não respondeu nada. Apenas se virou e se retirou do local.

Masaya, agora sozinho, encostou-se à grade de proteção e olhou para o céu.

Sim… Você é você independente de qualquer coisa. O que você faz, o que você pensa, o que você sente, sempre será ‘você’. Mesmo que exista uma influência por trás disso, é irrelevante. Afinal, porque você saber disso e mudar a si mesmo também não seria parte dessa influência?

Você falhou em um dos princípios básicos, Kuroshi. Aceitar-se do jeito que você é.

 

 

Droga… Droga… Droga…!

Kuroshi caminhava rapidamente.

A discussão com Masaya claramente o afetou bastante.

Mais importante ainda, com as faíscas geradas pelos dois, uma reunião de grupo inevitavelmente trará problemas.

Nos corredores do dormitório, Kuroshi parou e se encostou à parede.

Não é culpa minha… Eu não fiz nada de errado… Sim. A culpa é toda do… Hades. Ele que está mexendo comigo e tentando colocar meus amigos contra mim…!

O que pode ser feito contra algo que está dentro de você?—Kuroshi pensou. Se o problema de tudo for Hades, a única solução seria—

Maldição… Não vou ganhar nada gastando minhas frustrações aqui…

Decidindo se mover, Kuroshi foi em direção ao seu quarto.

Mas ao abrir a porta, ele deu de cara com alguém que ele realmente não esperava ver dentro do quarto dele.

“… Seira…?”

 

A situação era a seguinte: Kuroshi estava sentado na sua cama, braços apoiados nas coxas e olhando para o chão. Seira estava próxima a ele explicando o motivo dela estar lá.

“… Então basicamente por estarmos demorando demais para aparecer, Ryoka pediu para você vir até aqui e a Julie até o parque onde eu estava no outro dia, enquanto ela espera para ver se eu apareço no lugar combinado.”

Não havia como ter certeza de onde Kuroshi estaria, então o melhor a se fazer seria dividir. Kuroshi reagiu de maneira estranha a informação, sua cabeça estava abaixada então não tinha como ver o seu rosto, mas Seira não se sentia bem-vinda ali.

“… Sim… Nós precisávamos fazer uma reunião para resolver melhor sua situação, Kuroshi…”

“Minha situação?”

“… Você sabe, você tem agido estranho ultimamente, então… Queremos te ajudar.”

Até você…?

“Vamos, Kuroshi. Quanto mais cedo resolvermos o seu problema, melhor, né?”

Seira esticou a mão para Kuroshi, mas…

Meu problema… Isso não é…

Um estalo ecoou pelo quarto. Kuroshi deu um tapa na mão de Seira.

“Eu não preciso da ajuda de vocês!”

E levantou o tom de voz.

Aquilo foi tão “fora de personagem” que Seira ficou completamente paralisada.

“… Uh… Eu…”

Ela segurou sua mão atingida na altura do seu peito.

“… Acho que você precisa pensar um pouco… Quando se acalmar, pode… Sempre nos procurar!”

Com dificuldades, Seira terminou de falar e imediatamente se virou e saiu correndo, saindo por onde veio, a janela. Kuroshi não sabe se foi impressão dele ou não, mas pareceu ter visto uma lágrima cair do rosto dela.

O silêncio tomou conta do quarto.

Kuroshi colocou a mão no rosto.

O que… O que diabos eu estou fazendo?

Seus amigos estão obviamente preocupados com ele. Eles querem ajudá-lo.

Para Kuroshi ser ajudado, eles primeiro precisam descobrir qual a fonte do problema. E para isso, Kuroshi precisa conversar com eles. Para uma pessoa ser ajudada, ela primeiro precisa ajudar a si mesma.

Quanto tempo havia passado? Kuroshi estava há horas sentado na mesma posição.

Dessa forma eu acabarei sozinho… Eu preciso ir até meus amigos e falar tudo que eu preciso dizer… Se continuar assim…

“Kuroshi? O que aconteceu?”

Sem nem sequer notar a familiar presença entrando no quarto, a voz de Kurona fez Kuroshi levantar a cabeça, surpreso.

Já são essas horas?!

Kurona sempre aparece no quarto em horários específicos.

“…”

“Kuroshi?”

Eu…

“Tem algo de errado comigo?”

Kuroshi perguntou, preocupado. Mas Kurona apenas entortou de leve a cabeça para o lado, confusa.

Ela então se aproximou dele e colocou suas mãos nas bochechas de Kuroshi, logo em seguida se aproximando do rosto dele até ficar a centímetros de distância.

Kuroshi estava surpreso, mas Kurona olhava seriamente para os olhos dele.

Após alguns segundos, ela se afastou e colocou as mãos na cintura.

“Não há absolutamente nada de errado com você!”

Isso é uma piada?! NADA de errado? Será que ela… Nem sequer nota mais as diferenças em mim…?

Ele ficou incrédulo, e logo em seguida confuso. Ela não comentar nem sobre a cor dos seus olhos era um sinal de que ela nem sequer olha para ele direito… Ou ao menos era o que se passava na mente de Kuroshi.

“Não sei o que aconteceu, mas você parece estar criando um grande labirinto na sua cabeça para algo extremamente simples.”

“…?”

Kuroshi realmente ficou perdido com o que Kurona estava falando, apenas observando ela pegar algumas roupas.

Mas é a Kurona… Então talvez faça algum sentido…

“Nessas horas o melhor a se fazer é agir sem pensar muito.”

“…”

“Bem, era só isso que eu queria dizer. Faça o que você quer fazer. Força, Kuroshi!”

Kurona fez sinal de positivo com o polegar enquanto piscava o olho para ele e então se virou.

“… Você… Já está saindo?”

“Uhum. Você precisa de um tempo sozinho para refletir e decidir sua próxima ação, certo?”

Ao terminar de falar, ela levantou a mão acenando para ele e saiu do quarto.

Diante do silêncio novamente, Kuroshi refletia sobre o que Kurona havia acabado de dizer para ele.

 

 

Algumas horas depois. Kurona Yoshida se encontrava no seu quarto de hotel, deitada de barriga virada para baixo na cama, lendo um livro. No seu título dizia, em inglês, A Victorian Flower Dictionary.

Enquanto lia—

“Hm?”

A campainha do quarto tocou.

Kurona estranhou, já que a recepção nem sequer ligou para ela para pedir permissão para deixar alguém passar. Mas mesmo assim, ela se levantou e se dirigiu até a porta.

Ao abri-la.

“Ohh, que surpresa.”

Para o trio na sua frente, Kurona ofereceu uma reação natural. Ela então se virou e voltou para a cama, deixando a porta aberta.

Interpretando isso como um convite, as olharem umas para as outras, as três garotas entraram no quarto.

Kurona se sentou na cama. Com seu corpo um pouco jogado para trás, apoiado nos seus dois braços, e suas pernas cruzadas, ela sorriu para as três.

“O que a íris amarela, a jacinto azul e a cravo vermelho desejam?”

Ryoka, Seira e Julie não estavam gostando muito do tom de voz de Kurona, mas ignoraram por enquanto. Seira em especial parecia um pouco para baixo.

Kurona pensou em questioná-las como subiram até o quarto dela sem interferências e até cogitou a possibilidade do uso dos seus poderes como [Avatares de Deuses], mas ao olhar para Ryoka ela percebeu que, tal como ela, era bem óbvio os meios usados para chegar até aqui.

Ryoka fechou os olhos por um momento para considerar a melhor maneira de perguntar o que iria perguntar, e então ao se decidir, abriu os olhos novamente, dando um olhar perfurante na direção de Kurona.

“Nós viemos apenas para encontrar uma maneira de ajudar o Kuro-kun. Já que você é a amiga de infância dele e a única com conhecimento do passado dele, nós—“

“Eu recuso.”

Antes que pudesse terminar sua explicação, Kurona já descartou a proposta dela, o que deixou Ryoka bem surpresa.

“Você não nos ouviu? Nós estamos agindo pelo bem do Kuro-kun! Ou você não se importa com ele?!”

Kurona se ajeitou um pouco e levantou um dos braços, e com o punho fechado, levantou dois dos seus dedos.

“—Duas coisas.”

A ação de Kurona fez as três pararem e esperarem ela continuar.

“Primeira. Eu jamais irei contar para vocês algo que o Kuroshi escondeu até então.”

A escolha de palavras dela irritava todas as três, sem exceções. Ryoka deu um passo a frente.

“Não é como—“

“Segunda.”

Mas foi interrompida antes mesmo que pudesse dizer algo.

“Você disse ajudar o Kuroshi… Mas não é justamente o contrário que vocês vem fazendo? Quer dizer…”

Por um momento, as três ficaram sem reação, o que deu tempo para Kurona concluir seu pensamento.

“… Se vocês realmente quisessem ajudar, deixariam ele em paz.

Seira foi a primeira a reagir, e a com mais ferocidade. Ela já tentou andar em direção a Kurona com a intenção de lutar.

—Tentou.

Ryoka, que estava um passo a frente, colocou seu braço no caminho para impedi-la.

“Ryoka?!”

“Acalme-se, Sei-chan. Eu disse, não disse? Não viemos para lutar.”

Ao olhar para Seira e ver que ela recuou, Ryoka olhou novamente para Kurona.

“Você está dizendo que deveríamos deixar Kuro-kun do jeito que ele está agora?!”

Dessa vez, foi Kurona que expressou surpresa para o comentário de Ryoka.

“’Do jeito que ele está’? Eu não sei do que você está falando, mas agora eu sei quem andou fazendo a cabeça do Kuroshi para fazê-lo acreditar que tem algo de errado com ele.”

A expressão de Ryoka se contorceu. Ela não conseguia acreditar que a garota diante dela estava falando sério. Mas ela era obrigada a isso… Afinal—

Meu [Analyzer] não detectou nenhuma mentira, essa garota—

“Vamos embora, Sei-chan, Julie-chan.”

As duas concordaram, e sem se despedirem, as três se retiraram do quarto.

Kurona suspirou.

Me pergunto o porque das três terem vindo se não pretendiam lutar… Bem, elas não pretendiam lutar, talvez tenham considerado que eu poderia começar uma luta e vieram em maior número por precaução?

Além disso, elas nem fecharam a porta. Que rude.

Suspirando novamente, Kurona se levantou para fechar a porta.

 

Nos corredores do hotel, as três caminhavam em direção a saída.

“Está tudo bem sair assim, Ryoka-senpai?”

“Mhmm.”

Ao ouvir a pergunta de Julie, Ryoka apenas “afirmou” positivamente com um som. Aquilo ainda mexia com a cabeça dela.

“Sei-chan, Julie-chan.”

As duas pararam ao serem chamadas, Ryoka então parou e se virou para elas.

“Era só uma hipótese antes, mas agora é possível dizer que é quase certo que a causa do Kuro-kun estar daquele jeito é aquela garota.”

Seira parecia estar esperando por isso, uma vez que ela balançou a cabeça para cima e para baixo imediatamente.

“Ela não mentiu em nenhum momento da nossa conversa.”

Tal revelação surpreendeu as duas.

“Mas isso não significa que ela esteja falando a verdade também.”

“Ryoka… Você quer dizer—“

“Eh? O que vocês pensaram?”

A explicação é simples.

“Meu [Analyzer] pode perceber uma pessoa que esteja mentindo… Mas eu não sou onipotente, nem tenho controle sobre a verdade. Mesmo que ela não esteja dizendo a verdade, se ela acreditar que não está mentindo…”

“Ahh!”

Julie então percebeu.

O [Analyzer] não pode analisar palavras, mas sim comportamentos. Uma pessoa que está mentindo e sabe que está mentindo quase sempre irá apresentar sinais, por mais banais que sejam, de que ela sabe que não está falando a verdade.

Mas e se a pessoa em questão não achar que está mentindo? Uma pessoa que ouviu uma mentira de alguém de extrema confiança pode acabar considerando tal mentira como verdade, e ao contar para outra pessoa, na sua cabeça ela estará apenas expondo um fato, sem chances de ser falso.

O mesmo vale para pessoas com certos tipos de distúrbios ou problemas mentais e emocionais. Em muitos casos específicos, não importa o quão absurdo seja o que a pessoa está falando, dependendo do problema psicológico, ela pode ter certeza que está falando algo normal.

Se por um acaso a teoria de Ryoka estiver certa—

“Então ela está afetando o Kuroshi e fazendo-o ficar daquele jeito, mas na sua cabeça nada mudou?”

Sim, é como Seira diz.

Ryoka acenou positivamente com a cabeça.

“O maior problema é… Sem saber quase nada sobre o passado dela com o Kuro-kun, não tem como sabermos exatamente a fonte do problema. Logo, não tem como agirmos para solucionarmos esse caso. Nessa situação, se continuar a piorar, a única saída seria—“

Ela não precisou terminar de falar para Seira e Julie entenderem.

Seguindo essa linha de pensamento, provavelmente Kuroshi está naquela situação por algo que Kurona fez. Ou seja, uma habilidade da [Avatar de Perséfone]. Além disso, se ela realmente tem algum problema psicológico, grandes são as chances de isso ter sido causado pela [Guerra Divina]. Então, a solução mais simples seria—Matá-la.

As três ficaram em silêncio.

Fosse uma pessoa qualquer, seria uma opção mais considerável. Mas sendo a amiga de infância de Kuroshi, a situação se torna muito mais delicada.

Ryoka imaginou como ela se sentiria se fosse o Masaya no lugar da Kurona, e ela no lugar do Kuroshi.

Sua face distorceu só de imaginar.

Quanto tempo nós ainda temos?—O pensamento de Ryoka se referia até Kuroshi passar do ponto crítico.

Toda essa situação de hoje aconteceu por causa da atitude agressiva de Kuroshi em relação a Seira.

Quando Ryoka ouviu isso dela, ela ficou incrédula.

Nesses quase um ano que ela conhece Kuroshi, se tem uma coisa que ela tem certeza absoluta que nunca aconteceria, é ele tomar uma atitude agressiva em relação a Seira em uma situação comum.

Se o Kuro-kun não quer revelar seu passado, e a Kurona Yoshida também não, eu…

Para alguém como Ryoka, com um forte senso de justiça, algumas coisas são intoleráveis.

Invadir o quarto do Kuroshi para tentar achar algo que desse pistas da fonte do problema já era uma ação que ela muito repudiou.

Mas…

Existe uma maneira de descobrir sobre o passado dos dois facilmente.

Sim—[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].

Uma técnica que Ryoka possui, que pode “reviver” qualquer história, tendo algo que faça a conexão para uma história específica. Se ela forçasse Kuroshi a se submeter a tal técnica, ela poderia investigar o passado dele sem dificuldades.

Absurdo. Eu nunca, nunca irei recorrer a isso.

Ela já se sentiu enojada só de considerar a possibilidade.

“Ryoka?”

Só ao sentir um toque no seu ombro e ouvir a voz de Seira que ela voltou a realidade.

“… Desculpe. Vamos indo.”

As três se retiraram do hotel.

Está certo. Eu não falei para a Sei-chan, mas o maior problema desse caso e o motivo para ele estar tão difícil de resolver é…

Era algo óbvio, que Ryoka percebeu assim que parou para pensar. Talvez Seira já tenha percebido também, ou talvez ela simplesmente não queira perceber. O tal estopim, o motivo que formou essa situação, não é algo atual.

A verdade é que…

Nós não sabemos absolutamente nada sobre Kuroshi Kouji.

Admitir era doloroso. Isso para Ryoka, ela nem imagina como Seira iria se sentir.

Mas era um fato.

Claro, teve toda a história de quando Kuroshi era uma criança, e seus pais morreram em um incêndio.

Mas e depois disso? O que aconteceu nesse intervalo de cerca de 10 anos desde as mortes dos pais dele até o dia em que ele se transferiu para o Colégio Aohoshi?

Não é necessário um relatório super detalhado sobre a vida pessoal da pessoa, mas dentro dessa roda de amigos, Kuroshi é o único que ninguém sabe absolutamente nada de parte da sua infância até metade da sua adolescência.

Aquilo estava colocando Ryoka contra a parede.

Seu grande amigo, que já lutou muitas lutas ao seu lado, agora é um grande ponto de interrogação para ela.

Por já estar acostumada a trabalhar sobre pressão, Ryoka conseguia esconder esse fato. Mas por quanto tempo essa bomba ficará desarmada?

Talvez ele esteja com medo de revelar seu passado justamente por pensamentos como esse… Tch!

Sentimentos obscuros que estavam tentando ocupar o coração de Ryoka foram expelidos pela luz da justiça. Antes de qualquer coisa—

Eu preciso confiar nos meus amigos, para que eles possam confiar em mim.

A determinação de Ryoka foi renovada naquele momento.

 

 

No dia seguinte—

“Ryoka!”

“Uuh… O que foi?”

Ao ouvir sua colega de quarto chama-la, Ryoka relutantemente acordou. Ainda era cedo demais para levantar, mas como sua colega de quarto pratica exercícios constantemente, ela acorda mais cedo que o normal.

Ryoka se sentou na cama e olhou para sua colega.

Ela estava com um papel na mão, entregando para Ryoka.

“… O que é isso?”

“Uma carta. Para você.”

As duas ficaram paradas em silêncio por alguns segundos.

Ryoka então mexeu nos seus cabelos da cabeça como se estivesse pensando em algo.

“Não podia se confessar em um horário mais normal?”

“Hahaha, se você tem tempo para fazer piadas a essa hora, então pode vir correr comigo!”

“… Desculpa.”

Ryoka pegou a carta ao se desculpar.

“Agora se me dá licença, até mais!”

Sua colega de quarto se virou e rapidamente saiu do quarto.

“… Hah…”

Ela então olhou para carta, a parte frontal estava selada.

Quem envia cartas hoje em dia?

Ryoka então olhou a parte de trás da carta—

“?!”

Entendo! Então foi isso que você decidiu…!

 

 

Ryoka imediatamente reuniu todo mundo na sala do conselho estudantil.

Todo mundo, exceto Kuroshi.

“O que aconteceu, Ryoka?”

Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, então Seira perguntou.

“Eu recebi essa carta. Eu ainda não a abri.”

Ela mostrou a carta de longe.

“O que tem ela, Ryoka-chan?”

Agora foi a vez de Masaya perguntar.

Como resposta, Ryoka virou a parte de trás da carta para todos verem.

“Vejam.”

[De: Kuroshi

Para: Todos

Sobre minha vida—Meu passado.]

Dessa vez todos reagiram com surpresa.

“Aqui nesse envelope está, provavelmente, tudo que precisamos saber sobre o Kuro-kun. Com sorte um jeito de ajuda-lo.”

Além disso, outra coisa que passou pela cabeça de Ryoka, foi que de fato ele se sentiu inseguro em relação ao seu passado.

Não era realmente tão diferente de uma pessoa que prefere confessar seus sentimentos através de uma carta ao invés de falar com a pessoa diretamente.

Ryoka nem sequer consegue imaginar o motivo dele ter escondido seu passado esse tempo todo, ou o motivo dele não ter tido a coragem de falar com eles diretamente. Mas ela irá aceitar uma carta de bom grado se for para descobrir a fonte do problema.

Ele propositalmente enviou a carta para Ryoka, sabendo que ela sem duvidas apenas leria a carta com todos juntos.

E cumprindo com essas expectativas, ela abriu a carta e tirou um grande papel dobrado, com uma grande quantidade de texto. Não só um, mas sim dois deles. Ambos numerados com ‘1’ e ‘2’.

“Pois bem—“

O que todos estavam ansiosos para saber, começou a ser revelado.

 

 

Enquanto isso, Kuroshi andava pelo campus.

Sua mão estava no seu rosto, seu olhar direcionado para o chão—Não, para algum lugar distante.

Ele andava um pouco torto.

Para onde você está indo?

A voz o atacou novamente, ao olhar para trás, ele viu sua sombra se estendendo em um tamanho surreal. Além da forma humanoide, sua sombra tinha um sorriso e olhos maléficos.

Kuroshi começou a correr.

Você não pode correr de mim.

Correr de mim é o mesmo que correr de você mesmo.

Impossível.

Sem dar ouvidos para aquela coisa, ele continuou correndo.

Eu sou eu, você é você! E você está tentando acabar comigo! Tentando me consumir! Eu não deixarei!

Antes que percebesse, a voz já havia sumido.

Ele estava na praça novamente, diante do chafariz.

Kuroshi então olhou para a água. O que ele viu—

Um homem de cabelos roxos e olhos vermelhos, uma pessoa que ele nunca havia visto antes.

Quem diabos é você?!

Furioso, ele atingiu a água com um tapa e caiu de joelhos no chão.

Quem diabos é você? Quem diabos é você?

Você está falando comigo? Ou consigo mesmo?

A voz novamente o atormentou.

Cale-se! Eu não vou mais cair na sua farsa!

Eu… Eu sou… Eu definitivamente… Uh… Quem…

“… Ah… Hah…”

Kuroshi colocou as duas mãos no rosto, deixando visível apenas seu par de olhos escarlate.

Subitamente, uma [Dimensão Reversa] foi aberta.

“HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! AAAAH HAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!”

Ali, naquela [Dimensão Reversa], apenas um [Avatar de Deus] residia.

Apenas uma pessoa presente ali dentro.

Quem era essa pessoa?

Kami no Sensou – Cravo Amarelo (Volume 6: Capítulo 3)

O que está acontecendo comigo?

Voltando rapidamente para seu quarto, Kuroshi se deitou na cama de braços abertos e começou a encarar o teto.

As aulas do dia nem sequer passaram pela sua cabeça.

Eu estou… Confuso?

Ouvir a história de Ryoka e Masaya fez Kuroshi se sentir mal. Mas o motivo não estava claro na sua mente.

Amigos de infância?

Relações complexas?

Problemas familiares?

[Guerra Divina]?

Esses sentimentos não identificáveis… Uma possível causa para eles é…

“Kuroshi?”

Ao ouvir uma voz muito familiar, Kuroshi se sentou na cama no susto e olhou em direção a saída.

Na sua frente estava uma linda garota de olhos e cabelos pretos.

“Kurona…”

“Você não deveria faltar aulas após tanto tempo sem ir.”

Enquanto falava, Kurona casualmente foi até uma gaveta e começou a pegar algumas roupas.

“Aah, me pergunto por que alguns dias me sinto mais a vontade com certas roupas…”

“… Kurona.”

“Hm?”

Ver aquela garota na sua frente fez seus sentimentos entrarem em conflito. Muito embora a garota olhasse para ele com um olhar de curiosidade, algo nela parecia dizer que seu nível de inocência era zero.

“… Você… Mesmo podendo dormir neste quarto, você ainda fica em um hotel… É porque você se recusa a dormir sobre o mesmo teto que eu?”

… O que diabos eu estou dizendo?

Ela nem sequer devia estar morando no dormitório masculino…

Porque eu perguntei isso…?

Percebendo que a pergunta já estava feita, Kuroshi colocou a mão na testa em frustração.

Nenhum dos dois falava mais nada, e Kuroshi não tinha coragem para olhar para a cara dela depois de uma pergunta estranha dessas, então ele não sabia o que fazer. Até que—

“Pfft! Hahahahaha”

Ao ver a reação dela, a frustração de Kuroshi aumentou.

“Hahaha… Desculpa, não precisa fazer essa cara.”

“…”

Kurona colocou algumas peças de roupas em uma bolsa e se preparou para sair.

“Não fique mal-humorado. Mas não tinha como eu reagir diferente a uma pergunta dessas, certo? Afinal…”

Ela então se virou para Kuroshi e terminou:

“… Nós já até dormimos na mesma cama. Dormir sobre o mesmo teto seria o de menos.”

A resposta espontânea e natural dela pegou Kuroshi de surpresa.

Ela não estava tentando provoca-lo, tal como ela também não estava envergonhada pelo próprio comentário. Essa naturalidade fez Kuroshi se sentir extremamente estúpido por estar agindo daquela forma. Mas é justamente por isso—

Ah.

Era tão óbvio…

“Então, nos vemos em breve. Até mais, Kuroshi.”

Repentinamente, Kurona se despediu e se dirigiu até a saída.

“Kurona!”

Mas Kuroshi a impediu antes.

Ela somente parou, sem olhar para trás.

“Porque… Porque você voltou para o Japão?”

Se virando apenas o suficiente para olhar na direção dele, Kurona respondeu:

“Para corrigir um erro.”

“Um erro? Que erro?”

“Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.”

E então se retirou do quarto.

Kuroshi, agora sozinho, só pode amaldiçoar a si mesmo.

Veja esse meu estado patético…

É óbvio que ela não ficaria aqui quando ela sabe que é a causa desse meu estado…!

Para me dar espaço para organizar meus sentimentos, ela mantem a devida distância…

Era como uma bola de neve.

Cada vez maior e mais difícil de parar.

Kuroshi estava errado, e ele saber disso só o faz se sentir pior.

Talvez a história de Ryoka e Masaya tenha servido para guia-lo para alguma direção.

Ele só precisa segui-la.

 

 

Uma bela cena acontecia escondida dos olhos de todos.

Kurona dançava. Girando seu corpo de braços abertos com um leve sorriso no rosto.

Ao redor dela, o mais perfeito jardim se encontrava. Flores das mais comuns até as mais exóticas ou mesmo flores completamente desconhecidas, todas elas com uma coisa em comum: O perfeito estado de beleza e bom cuidado, independente da raridade, todas elas brilhavam de maneira sobrenatural.

Dizem que “nada é perfeito”. Ao menos não quando relacionado aos humanos e suas criações.

Talvez isso se aplique a essa situação também, dependendo do ponto de vista.

O jardim de fato é perfeito. A beleza natural de Kurona não mancha em nada a aparência do jardim, muito pelo contrário, até auxilia.

No entanto, fazendo um contraste surreal com o grande jardim, o céu escarlate criava uma atmosfera extraordinária no local.

Do jardim, era possível ver na distância, um portão de tamanho colossal, completamente negro e que passava um ar sinistro.

“Realmente não irá desfazer a lótus, Kurona?”

A pergunta direcionada a ela a fez parar de dançar.

Ao olhar para uma área especifica do jardim, Kurona avistou uma moça.

A beleza de Kurona já não é novidade para ninguém, isso é um fato. No entanto, a mulher diante dela chega a um nível além. Kurona realmente é muito bonita, mas ainda dentro dos padrões comuns da sociedade. Já a mulher diante dela possuía uma beleza exorbitante, algo que a maioria das pessoas normalmente nunca veriam diretamente no seu curto tempo de vida. Embora alguém como ela certamente seria usada como modelo para alguma pintura famosa, expondo sua aparência quase divina ao mundo.

Ela estava sentada na grama, mexendo nas flores. Seus cabelos, assim como os de Kurona, eram negros. A diferença é que eles eram surpreendentemente longos. Ao contrário de Kurona cujo cabelo não passa da cintura, os cabelos da dama muito provavelmente chegariam até os seus pés. Como tal, por estar sentada, seus cabelos se estendiam pelo chão, criando uma imagem verdadeiramente pitoresca combinado com o jardim.

Seus olhos eram verde esmeralda, e seu longo vestido era uma túnica grega de cor verde água-marinha.

“Eu não posso voltar atrás até nisso… Se ele não se reencontrar sozinho, de nada adiantará. Entendo o que quer dizer, mas independente da escolha que ele fizer, eu o apoiarei.”

“Imagino se ele também se envolverá nisso…”

A mulher olhou para a distância com um olhar solitário.

“… O que exatamente são vocês?”

O sorriso de Kurona já havia sumido quando ela terminou a pergunta. Mas como se tivesse sido trazida de volta para a realidade, a mulher apenas sorriu gentilmente ao olhar para Kurona e disse:

Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.

“… Haa… Você me pegou nessa.”

Kurona rapidamente desistiu e deu de ombros ao ouvir exatamente a mesma frase que ela havia dito pouco tempo atrás.

“Em todo caso, mesmo no escuro minha promessa de trazê-lo de volta para você se mantém.”

“…”

“Não faça essa cara. Eu sei o que isso significa e estou pronta para lidar com isso, principalmente quando um dos motivos para eu reconhecer meu erro ter sido você.”

Com o sorriso de volta no rosto, Kurona declarou antes de se virar.

Não foi muito depois que Kurona simplesmente desapareceu daquele lugar.

“Essa garota… O quanto ela consegue aguentar sozinha?”

 

 

“Ainda restam duvidas de que há algo de errado com ele?”

No dormitório feminino, mais especificadamente no quarto de Ryoka, três garotas, ela incluso, conversavam.

“Mhmm, depois da história da Ryoka-senpai, ele não deu mais as caras ontem…”

A pergunta foi de Seira e a resposta de Julie. Havia se passado um dia desde que Ryoka contou sua história com Masaya.

Após aquilo, Kuroshi não deu mais sinais de vida, ao menos não pessoalmente. As garotas mandaram mensagens para ele, as quais ele respondia, mas sempre tentando evitar se explicar.

“O melhor jeito de se resolver isso é falando diretamente com ele. Masaya me enviou uma mensagem há pouco tempo atrás avisando que avistou Kuroshi se dirigindo até a praça.”

Como de costume, Ryoka sempre era a voz da razão nas discussões.

“Então…!”

“Espere, Sei-chan. Eu irei até ele.”

Ao ver a cara de decepção da sua grande amiga, Ryoka até ficou com um pouco de pena, mas era apenas a escolha mais lógica.

“Você ir até ele provavelmente só irá criar uma pressão desnecessária e o fará ficar na defensiva. Por outro lado, se a Julie for, ele provavelmente vai dispensá-la sem leva-la a sério, como sempre.”

“Fueh? Porque eu tenho a impressão de que estão tirando sarro de mim?”

Julie olhou para cima, refletindo seriamente. Ryoka apenas decidiu ignorá-la por enquanto.

“Enquanto eu dialogo com ele, vocês duas farão outra missão.”

Ao ver que conseguiu a atenção e curiosidade das duas, Ryoka continuou.

“Não é algo que eu goste ou ache certo, mas nossas circunstâncias não são normais, então pedirei para que vocês deem uma olhada no quarto dele, da maneira menos invasiva possível. Vocês podem recusar, se quiserem, claro.”

Invadir a privacidade alheia deixava Ryoka aflita, pior ainda é passar essa tarefa para suas amigas. Mas ela preferiu seguir o lema ‘não me arrependo do que faço, mas sim do que deixo de fazer’. Quando for tarde demais, não terá mais volta.

“Nós faremos.”

Seira afirmou sem hesitar, Julie acenou positivamente concordando com a resposta.

“Nesse caso…”

 

 

Kuroshi estava sentado no banco da praça olhando para o céu.

Ele não escolheu vir para cá aleatoriamente, havia um motivo para isso.

E este era—

“Kuro-kun.”

Seu par de olhos vermelhos imediatamente demonstraram surpresa ao arregalarem e olharem para direção da voz.

Alguém que ele jamais esperava ver ali, justamente a essa hora, apareceu.

“… Ryoka…”

Sem esperar nenhum convite, Ryoka se sentou do lado dele. Ao fazer isso, ela olhou diretamente nos olhos dele, que tentou desviar o olhar como resposta.

“O que está acontecendo com você?”

“… Não é nada…”

Dada a situação, tal resposta devia até mesmo ser considerada inútil, mas mesmo assim ele a usou.

“Não tente mentir. Você sabe que eu posso identificar mentiras com o meu [Analyzer], certo?”

Ao ser lembrado disso, Kuroshi notou que já estava em um beco sem saída.

“… Você tem razão… Eu… Contarei a verdade…”

“Hah… Francamente. Devia estar com essa mentalidade desde o começo. Somos amigos, não somos?”

Ryoka suspirou, como uma mãe tendo que lidar com o filho que fez alguma besteira, mas está com medo de contar.

“Por sinal. O que eu disse sobre o meu [Analyzer] era só um blefe, jamais usaria algo assim para tentar desmentir algum amigo, isso só significaria que eu não tenho confiança na pessoa.”

Ryoka não sabia se estava explicando isso para dizer como se sente ou por se sentir culpada por conta da missão que deu para Seira e Julie.

Eu realmente caí nessa… Devia ter imaginado…

Amaldiçoando sua própria ingenuidade, Kuroshi apenas aceitou que caiu facilmente nos jogos mentais de Ryoka. Se é que pode ser chamado disto.

“E então?”

Novamente pressionado, Kuroshi decidiu revelar a verdade.

“… Eu já te contei sobre a minha amiga de infância, Kurona Yoshida, certo?”

Era uma pergunta retórica, por isso, Kuroshi não esperou resposta e continuou falando.

“Bem, nossa história é um tanto quanto mais complicada do que eu fiz parecer para vocês…”

Ryoka ficou um pouco surpresa. Não por essa revelação, no entanto.

“Entendo, então por isso minha história com o Masaya te afetou mais do que deveria.”

“Sim… Não esperava algo tão relacionável naquele momento…”

“Desculpe, Kuro-kun.”

“Huh?”

“Originalmente eu iria apenas contar as partes mais importantes do meu passado, como o efeito colateral do [Analyzer] ou a minha relação com o Masaya… Mas ao te ver agindo estranho ali, decidi contar tudo e tentar te dizer indiretamente que você podia contar conosco, seus amigos.”

“…”

As palavras ditas por Ryoka ontem vieram a mente de Kuroshi.

Existem alguns motivos para eu ter decidido mostrar essa história a vocês… O primeiro e mais óbvio, é a confiança e afinidade do nosso grupo. Todo mundo tem uma coisa ou outra que gostaria de esconder, mas creio que conhecer a origem do que somos hoje é algo necessário.

O quão perceptiva e o quão longe essa garota consegue pensar…?

Ele tentou evitar, mas desde sempre esteve no alcance dela. Se o dissessem que Ryoka não precisa do [Analyzer] para ser inteligente e perceptiva, ele usaria essa situação como exemplo. E o mais importante de tudo, a atenção que ela deu a ele mesmo enquanto se concentrava em mostrar seu passado para todos era insana, ainda mais por se tratar dela, que certamente deu a mesma quantidade de atenção para todos os outros.

Definitivamente uma pessoa que luta no melhor estilo “um por todos”. Essa é Ryoka Illsbert.

“Então, o que essa amiga de infância tem a ver com a situação atual? Você não se sentiria mal se esse segredo não nos afetasse de alguma forma.”

Ryoka conduzia a conversa cautelosamente, mas cada pergunta dela era feita com uma boa expectativa de qual seria a resposta.

“Ela também é uma [Avatar de Deus]. E ela, que estava morando no exterior, está aqui na cidade agora.”

A expressão de Ryoka não sofreu mudanças, tudo dentro do esperado.

“Desde que ela voltou, coisas estranhas começaram a acontecer comigo… Como esses olhos…”

Ou como essa maneira insegura de agir—Pensou Ryoka no momento. De fato ele estava muito fora do comum, e de fato a maior causa provavelmente é a tal garota.

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é…”

 

 

“Você realmente está bem com isso, Seira-senpai?”

Julie questionou Seira, já demonstrando um pouco de hesitação enquanto as duas estavam de pé diante do dormitório masculino, logo debaixo da janela do quarto de Kuroshi.

“Não estou. Mas é como dizem, há males que vem para o bem. Então vamos logo.”

Decidindo não gastar mais tempo já que não sabiam quando Kuroshi voltaria, as duas saltaram do chão até a sacada. Rapidamente descendo na pequena varanda e entrando no quarto, as duas—

Encontraram uma pessoa, uma garota, deitada na cama de Kuroshi, abraçada com o travesseiro dele.

A virada inesperada de eventos fez Julie simplesmente congelar. Enquanto Seira ficou duas vezes mais séria ao ver aquela situação.

A garota apenas olhava casualmente para as duas com um olhar de surpresa.

“… Quem é você? Entrar no dormitório do sexo oposto em permissão é passível de expulsão…”

A jovem moça de cabelos pretos diante de Seira e Julie cobria toda a parte inferior do seu rosto com o travesseiro enquanto se sentava. Não era possível ver sua boca, mas seus olhos pareciam rir das palavras de Seira.

“Ora? Eu tenho permissão, este é meu quarto, afinal. Vocês duas por outro lado… Talvez eu devesse avisar alguma autoridade sobre essa invasão?”

A expressão de Seira instantaneamente mudou de seriedade para choque.

Se o que a garota disse é verdade, Seira acabou de pisar em um campo minado.

O choque fez ela ficar totalmente sem reação.

Uwaaah, o que eu faço? O que eu faço?!

Julie começou a entrar em estado de pânico ao ver a tensão no ar subir.

Só há um jeito…!

Julie.exe parou de funcionar.

Quando Seira conseguiu se recuperar do baque, ela deu um passo a frente.

“Nós somos amig—“

Julie usou suas habilidades físicas sobre-humanas para se mover rapidamente para trás da garota.

A estratégia de ‘apagar as testemunhas’. Colocá-la para dormir e resolver o problema a partir daí.

Quando o braço de Julie, claramente agindo sem pensar, se aproximou da garota—

“Espere, Julie!”

Ela instintivamente parou ao ouvir a voz de Seira.

Todas as 3 pararam de se mover. Não tinha como Seira deixar aquilo passar.

“… Quem é você?

Seira repetiu a mesma pergunta de antes, porém, com uma entonação completamente diferente. Mais ameaçadora.

“S-Seira-senpai…?”

Visto que nenhuma resposta vinha da misteriosa pessoa, Seira estendeu seu braço para frente e no momento seguinte—

Todas as cores se inverteram completamente.

—[Dimensão Reversa].

Julie se surpreendeu ao ver a ação de Seira, mas levou um real susto ao ver que a garota de cabelos pretos ainda estava presente.

“Você… Acompanhou os movimentos da Julie com os olhos, nenhum humano normal teria essa capacidade.”

“… Haa… Você é muito séria. E você agora está bem mais energética do que antes, huh.”

A garota—Kurona—soltou o travesseiro após se dirigir primeiro a Seira e depois a Julie.

O maior choque para Julie foi finalmente poder ver o rosto da pessoa.

“Você é… A garota da flor…”

A garota que deu uma flor para ela, a mesma que guiou Kuroshi e os outros até o local onde ela estava escondida.

Ao ouvir as palavras de Julie, até Seira se surpreendeu.

Indiretamente, a pessoa diante dela ajudou no resgate de Julie.

Vendo que conseguiu desarmar as duas, Kurona se levantou da cama.

“Podemos parar com as hostilidades? Vocês atacam os outros do nada normalmente assim mesmo ou é algo pessoal contra mim?”

Kurona levantou os dois braços na altura dos ombros, enquanto mantinha um sorriso no rosto.

Seira a encarou por alguns segundos, antes de respondê-la.

“Nós nem sequer te conhecemos, não temos nada pessoal contra você. Mas é apenas natural manter a cautela diante de um [Avatar de Deus] desconhecido, certo?”

A discussão novamente se tornou entre Kurona e Seira, Julie não conseguia ver brecha para dizer algo.

Ao ouvir a resposta de Seira, Kurona olhou para ela, surpresa, talvez tão surpresa que parecia um tanto quanto falso.

“Ora. Kuroshi não deve ter contado sobre mim para vocês, então.”

Uma única frase foi o suficiente para destruir o equilíbrio que Seira estava reconstruindo depois do choque inicial.

“Pela terceira vez… Quem diabos é você? Você tem alguma relação com as mudanças que aconteceram no Kuroshi?”

Ela não esperava uma resposta assumindo culpa nem nada do tipo, mas a fez mesmo assim. No entanto—

“Hah? Mudanças? No Kuroshi? Ele não sofreu absolutamente nenhuma mudança até onde sei, ao menos não recentemente. Tem certeza que não é só impressão sua?”

Ela não parecia estar mentindo, mas por alguma razão, cada resposta de Kurona deixava Seira mais no limite da paciência.

“Definitivamente não é só impressão minha, eu já o conheço há muito tempo, algo desse nível não passaria despercebido por mim.”

“Heh~ Será mesmo? Me pareceu que você nem sequer conhece ele direito, no entanto.”

“… O que você disse?”

As palavras de Kurona atingiram Seira violentamente. Aquilo foi praticamente uma afronta a tudo que os dois já haviam passado para ela.

Com o braço estendido, um tridente dourado se formou na mão de Seira e a ponta dele ficou há poucos centímetros do pescoço de Kurona.

“E-Ei, Seira-senpai… Não está exagerando um pouco…?”

Julie finalmente viu uma brecha para tentar impedir as duas.

Mas ela foi ignorada por ambas.

“Desafio você a repetir o que disse.”

O sorriso que estava até agora presente no rosto de Kurona desapareceu.

“Você acha que é próxima dele, mas pelo visto isso é apenas uma ilusão de uma garota imatu—“

Antes de conseguir terminar a frase, o tridente se moveu violentamente em direção horizontal mirando o pescoço de Kurona.

“Seira-senp—Eh?!”

O estrondo, seguido da ventania que se espalhou pelo quarto, foi originado pela colisão do tridente com o lado externo do pulso de Kurona. Tudo que o ataque de Seira conseguiu fazer foi mover os cabelos de Kurona com a onda de impacto.

Em um momento de susto, mesmo em um local fechado, Seira saltou para trás. No entanto—

Rápida?!

Em um movimento quase imperceptível, Kurona já estava extremamente próxima de Seira, ela então aproveitou o movimento precipitado da oponente e usou o seu antebraço, atingindo o pescoço de Seira e empurrando ela contra a parede.

“Criar uma [Dimensão Reversa] desse tamanho foi um equivoco. Não que o tamanho dela fosse fazer diferença, de qualquer forma.”

“Seira-senpai!”

Já com sua lança criada, Julie partiu para o ataque. Vendo o movimento feroz da lança na sua direção, sem tirar o antebraço do pescoço de Seira, Kurona levantou sua perna e defendeu o ataque com a sola do pé. A força da colisão jogou Julie para trás. Porém—

“?!”

Kurona saltou para trás ao sentir uma queimadura no seu antebraço. Ao olhar, ela percebeu que tal queimadura era simplesmente gelo, seu antebraço estava congelado.

“[Water Whip]!”

Um longo chicote de água atacou Kurona incessantemente, que tentava desviar de todas as investidas.

“Uh!”

No entanto, em um dos seus rápidos movimentos, ela acabou chegando em uma das quinas do quarto, sem espaço para desviar.  O que ela disse antes acabou se voltando contra ela mesma.

Saltando no último momento, ela evitou um ataque certeiro, mas o chicote amarrou seu tornozelo. Com a habilidade especial do constante fluxo da água, o chicote puxou Kurona em direção a Seira.

“Não ache que conseguirá algo lutando de mãos vazias!”

Na direção que Kurona estava sendo puxada, a ponta do tridente de Seira avançava na direção dela. Quando os dois estavam prestes a se encontrar, Kurona usou a palma da sua mão para colidir com a ponta do tridente.

O barulho de vidro quebrando ecoou pelo quarto, e através dos fragmentos do tridente destruído era possível ver a expressão de choque de Seira.

Se aproveitando do efeito do [Water Whip], Kurona conseguiu chegar até Seira rapidamente e com um giro do seu corpo, ela atingiu o rosto de Seira com o lado externo da mão, jogando ela contra a parede.

Seira conseguiu se levantar sem problemas, para alguém que destroçou seu tridente, o ataque dela até que foi fraco.

Nesse caso, eu—Huh?…

Enquanto pensava no seu próximo movimento, o corpo de Seira ficou pesado e caiu de joelhos no chão. Assim que isso aconteceu ela notou que Julie também estava caída no chão, ainda consciente, mas sem conseguir se mover.

Kurona se aproximou de Seira e empurrou ela contra a parede, sua mão acima do seu ombro e seu rosto há meros centímetros do rosto dela.

“Desculpa, não lutei de mãos vazias por subestimar vocês. Eu simplesmente não sou uma [Avatar de Deus] especializada em lutas.”

Seira não soube como reagir. Seu corpo não se movia.

“Muito bem, agora…”

Kurona colocou sua mão no rosto de Seira, quando—

“!”

Um feixe de luz passou pelos seus olhos e perfurou o chão entre as duas.

“Se afaste dela, Kurona Yoshida.”

Em frente a janela—

“Ryoka!”

Exato, Seira estava perfeitamente certa.

Kurona se levantou lentamente e levantou os braços, como um gesto de “cessar fogo”.

“Mais qualquer tentativa de agressão as minhas amigas e serei obrigada a travar uma batalha de verdade contra você.”

O sorriso de Kurona já havia voltado ao seu rosto a essa altura, mas ela não dizia nada.

Um leve olhar no cenário já dava para dizer o que estava acontecendo, então Ryoka afirmou:

“Seus poderes não funcionarão contra mim. Não sei o que te fez atacar Sei-chan e Julie-chan, mas em questão de conhecimento, podemos concluir que eu estou na frente, não acha… [Avatar de Perséfone]?”

Ryoka propositalmente revelou a identidade de Kurona para demonstrar superioridade na situação, mas ainda não foi o bastante para quebrar o seu sorriso. Muito pelo contrário, por algum motivo, Kurona parecia até mais confiante. Mantendo-se calada, ela conseguiu o feito de deixar Ryoka um pouco impaciente. Como se tivesse sido atingida por uma premonição, a face de Seira se contorceu.

Ryoka então disse:

“Parece que você não entendeu ainda… Cancele essa [Dimensão Reversa] de uma vez, caso contrário considerarei isso uma declaração de guerra.”

Era exatamente o que Kurona estava esperando ouvir.

“Uwah, que medo. Medo de como nossa sociedade se tornou tendenciosa e ignorante, não é mesmo, Seira?”

Kurona por algum motivo dirigiu-se a Seira, o que deixou Ryoka confusa.

“… Eu fecharei a [Dimensão Reversa]…”

As palavras de Seira deixaram Ryoka chocada.

“Definitivamente hoje não foi um bom dia, huh? Invadem o meu quarto, me atacam e ainda tentam me colocar como a vilã da história, esperava mais do famoso [Partenon]…”

O tom de voz dela era provocativo, mas as palavras e sua expressão eram sinceras.

“…”

Ryoka ficou totalmente sem ação.

Seira cancelou a [Dimensão Reversa]. Kurona fechou os olhos e pegou suas coisas, se dirigindo até a saída sem dizer mais nada ou olhar para qualquer uma das três.

Após a saída de Kurona, o quarto ficou em silêncio por um bom tempo.

“Desculpa, Ryoka…  Por eu ter agido de cabeça quente, eu acabei fazendo você fazer uma falsa acusação. Sei o quão forte é o seu senso de justiça, então imagino o quanto isso deve ter te afetado… Desculpa…”

Seira já não conseguia mais dizer nada. Nem Ryoka. Nem Julie.

A princípio, entrei em choque por medo de ser expulsa do Colégio Aohoshi e ter que voltar para casa do meu tio… Mas então, deixei meus sentimentos falarem mais alto quando ela disse aquelas coisas e comecei uma luta desnecessária…

Refletindo suas ações, Seira colocou a mão no rosto em frustração.

Enquanto isso, a única coisa que Julie conseguia pensar era: Como uma única pessoa pode desestabilizar tanto um grupo?

O mais frustrante para ela era que não havia provas contra Kurona, e ela em nenhum momento agrediu ou atacou ninguém. Seria isso realmente um efeito colateral de deixar uma amizade falar mais alto do que o justo?

Ryoka se dirigiu até a varanda do quarto, onde o vento balançava seus cabelos, e olhou para o céu.

Ela se lembrou da sua conversa com Kuroshi…

 

 

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é… a [Avatar de Perséfone]…”

Essa era a primeira informação que surpreendeu Ryoka de verdade.

A esposa de Hades, huh…

Perséfone—A deusa da agricultura que sempre se preocupava apenas em colher flores, mas foi crescendo e com isso sua beleza foi encantando a todos, e encantou o deus Hades, o senhor dos mortos. Posteriormente se tornando a rainha do inferno. Sempre disposta a receber e atender os mortais que visitavam o reino dos mortos à procura de ajuda, era uma deusa do bem, mas ao mesmo tempo temida.

“… Influência, talvez?”

“Huh?”

Kuroshi, sem entender o que Ryoka quis dizer, olhou para ela com seus olhos vermelhos.

“Inevitavelmente todos nós, [Avatares de Deuses], sofremos influência dos deuses que representamos. Podendo ser algo mais forte ou mais fraco dependendo da pessoa, mas que pode nos atingir a qualquer momento.

Lembra da história da irmã mais velha da Julie? Talvez o mesmo esteja acontecendo com você. Talvez esse conflito de emoções seja, na verdade, suas emoções entrando em conflito com as emoções de Hades.”

Ouvindo tal resposta, Kuroshi olhou para o chão.

É claro… Só pode ser isso…

Hades está tentando impor suas emoções em cima das minhas…

Aceitando até que fácil demais, Kuroshi deu um fraco sorriso.

“… Para ser sincero… Eu só vim para essa praça pois nesse momento a Kurona deve estar no meu quarto…”

As palavras de Kuroshi surpreenderam Ryoka.

… Droga! Cometi um erro!

Ryoka se levantou bruscamente.

“Ryoka?”

“… Sugiro que você reflita sobre o que eu falei, eu preciso resolver outras coisas agora, mas lembre-se: Pode sempre contar com seus amigos…”

Inconscientemente, Ryoka desviou seu olhar enquanto dizia a última frase.

Ela então se retirou do local, deixando Kuroshi sozinho novamente.

 

 

“Maldição!”

Ryoka socou a sacada controladamente para não quebrá-la.

Eu não só acusei injustamente uma pessoa, eu invadi a privacidade do meu amigo e ainda menti para ele…!

Ela não conseguia se conformar.

Por quê? Por quê?! Onde as coisas começaram a dar errado?

Em algum momento, todos foram condicionados a cometerem erros ao mesmo tempo. Qual foi o estopim?

Qual exatamente é o problema desse caso?

Ryoka tentou pensar o mais longe que conseguia.

Tem que haver uma resposta. Era o que ela pensava.

Até que—

“…”

O olhar de Ryoka ficou distante, sua raiva e frustração desapareceram.

Ah…

Entendo…

Ha…Haha… Se eu contar isso para a Sei-chan, ela certamente irá chorar…

Todos nós estávamos fadados a cometer erros nesse caso desde sempre…

Talvez… Talvez eu tenha cometido um erro maior do que eu imaginei…

 

 

O sol já estava se pondo. As aulas já haviam acabado.

Em um dos banheiros masculinos da escola—

Kuroshi se olhava no espelho.

Ele olhava diretamente para os seus próprios olhos escarlates.

“Eu achei que você estava do meu lado… Mas parece que não…”

Não havia absolutamente mais ninguém no banheiro, talvez nem na escola.

Kuroshi estava falando com seu próprio reflexo.

“Tentando me manipular, me induzir a ser você… Foi realmente um plano venenoso e que conseguiu me confundir…”

“Mas eu não pretendo cair mais nessa… Eu sou eu… Eu definitivamente serei eu…”

Somos um só, garoto. Você sou eu, eu sou você. Lembra?

“!!”

Absolutamente do nada, um fantasma apareceu atrás de Kuroshi. Cabelos roxos um pouco mais compridos que o de Kuroshi, olhos vermelhos, túnica negra com detalhes dourados, manoplas e grevas totalmente negras. Seu rosto não era visível, apenas seus olhos, mas era possível dizer que ele estava sorrindo.

“… Hades!”

Kuroshi expressou raiva, ainda olhando para o espelho.

“Sua falcatrua foi exposta! Suas mentiras não me afetarão mais!”

Hou? Minha falcatrua foi exposta, você diz? E a sua falcatrua? Quando ela será exposta? Quando suas mentiras não te afetarão mais?

Você é o farsante, garoto.

No limite da sua paciência, Kuroshi se virou já invocando sua espada e atacando o fantasma.

Porém, o ataque atingiu apenas o ar. Não havia mais ninguém.

Kuroshi colocou a mão na testa e andou para trás até encostar em uma parede, escorregando por ela até sentar no chão.

Minha nova vida… A que eu trabalhei para construir aqui… Os sentimentos que cultivei e as relações que criei, esse sou o verdadeiro eu… Sem dúvidas, aqui representa minha vida verdadeiramente… Sem dúvidas…

 

 

Um bom tempo depois…

Kuroshi estava voltando para o seu quarto, já estava de noite.

“Oh, Kuroshi.”

“Kuro-chan!”

Ao olhar para trás, Kuroshi viu Axel e Alisha vindo na sua direção, de mãos dadas.

Axel estava maior a cada mês que passava, daqui há um tempo ele já deverá estar até maior que Kuroshi.

“Huh? Seus olhos…”

“… Estou fazendo um treinamento pessoal, é por isso.”

Ao ouvir o comentário de Alisha, Kuroshi usou uma desculpa que ele já havia preparado de antemão.

“Está voltando para o quarto agora? Eu já irei me despedir da Alisha, se quiser podemos voltar juntos.”

Ao ouvir a proposta de Axel, Kuroshi aceitou naturalmente e se sentou em um banco enquanto observava os dois de longe, se despedindo como um casal normal.

Após dois minutos, Axel veio até Kuroshi.

“Vamos indo.”

Caminhando lado a lado, Kuroshi perguntou:

“Axel… Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

“Huh? De onde veio isso?”

“… É só uma coisa que estive pensando em momentos de tédio…”

“Hmm…”

Enquanto Axel refletia, os dois caminhavam em silêncio debaixo do céu estrelado.

“Eu diria que tudo depende do avatar.”

“… Do avatar? Como assim?”

“Sim… Eu não acho que os deuses tentem moldar o avatar ao seu gosto, mas acredito que eles naturalmente possuem uma presença divina que talvez induza a pessoa a fazer certas coisas ou pensar de certa forma, mas no fim das contas, quem decide se vai permitir essa indução é a própria pessoa.”

Kuroshi ficou sem palavras para a resposta complexa de Axel.

“Eu acho que você não se conectaria com algum [Avatar de Deus] apenas porque uma mitologia dita essa conexão. Se isso acontecer, é porque você já estava propício a isso desde o começo. É o que eu acredito.”

“… Isso foi um pouco específico demais…”

A primeira parte da breve teoria de Axel foi natural, mas a segunda ressoou diretamente em Kuroshi. Era como se Axel pudesse ler mentes.

“Hahaha, desculpe. Talvez as memórias do meu passado tenham tido influência na minha resposta.”

Kuroshi arregalou os olhos em surpresa, pois ao ouvir a explicação dele, ele se lembrou daquele determinado dia, um tempo antes da sua luta contra Noah.

Está certo…

Axel perdeu a pessoa que ele amava para Loki no passado…

Essa pessoa era… a [Avatar de Sif]. Sif era a esposa de Thor na mitologia nórdica…

A semelhança era tão forte que Kuroshi esqueceu de continuar andando.

No entanto…

Kuroshi conseguia se lembrar. Naquela época, eles tiveram uma conversa bem similar.

Só que, naquela época, a resposta de Axel foi totalmente oposta. Segundo o palpite dele, dois [Avatares de Deuses] conectados pela mitologia só se conectariam realmente por causa do que a mitologia dita. Hoje ele diz que não é a mitologia que conecta as pessoas, mas seus próprios sentimentos. O que mudou de lá pra cá? Porque ele mudou o ponto de vista? Kuroshi queria perguntar, mas acabou desistindo por se tratar de um assunto delicado.

“E se…”

Por ter parado de andar, Axel estava um pouco mais na frente que Kuroshi. Ele também parou ao ouvir a voz de Kuroshi.

“… E se nossos sentimentos fossem ditados pelos deuses em si e não pelo que realmente sentimos?”

Diga, e se as coisas forem exatamente como a Ryoka previu?

Axel se virou lentamente com um sorriso no rosto.

“Bom, nesse caso, por exemplo, sua relação com a Seira seria uma farsa, não?”

Naquele momento, Kuroshi entendeu porque Axel mudou seu modo de ver as coisas.

Kami no Sensou – Gardênia (Volume 6: Capítulo 2)

Em pouco tempo o treino diário de artes marciais de Masaya começaria, mas ele se encaminhava adiantadamente até Yan Quon. Era com ele que Masaya buscaria respostas.

Antes de chegar até o campo de treinamento, Masaya cruzou com Daisuke.

“Masaya, precisarei de você hoje.”

“Tio Daisuke?”

Ao ouvir seu chamado, Masaya olhou para Daisuke, expressando um pouco de pressa.

“Teremos uma festa para ir hoje a noite, precisarei que tome conta da Ryoka para mim. Tudo bem por você?”

Era um pedido simples, mas que dada a situação atual de Masaya e Ryoka, se tornava muito mais complexo do que Daisuke poderia imaginar.

“… Sim, claro.”

“Obrigado. Contarei com você.”

Daisuke agradeceu e colocou a mão na cabeça de Masaya antes de se retirar.

Ryoka… Huh, tenho que ir de uma vez.

Voltando a se focar no seu objetivo, Masaya foi até Quon.

 

“Mestre, tem um momento?”

“Umu.”

Conseguindo a confirmação de Quon, Masaya pensou em como perguntar o que queria.

“Mestre… O que fazer quando alguém perde o propósito para lutar? O que fazer quando você não consegue destruir a parede diante de você?”

“Hmm…”

Quon, que até então estava olhando para a distância, finalmente se virou e olhou para Masaya diretamente.

“Lute por sua família, Masaya. Assim como por aqueles que são preciosos para você.”

A resposta de Quon irritou um pouco Masaya. Seu mestre claramente não entendia sua situação…

“Nem sempre as coisas funcionam dessa forma! E se você for forçado a lutar?! E se você não tiver uma família?!”

Deixando seus sentimentos fluírem para fora, Masaya levantou o tom de voz.

Quon fechou os olhos e esperou o jovem se acalmar.

“Você está se perdendo, Masaya. Deixar os sentimentos negativos serem a fonte dos seus movimentos servirá apenas para te cegar e eventualmente leva-lo a autodestruição. Lute pelos sentimentos positivos, pela sua família. Nós humanos instintivamente tentamos criar laços uns com os outros, por isso, a não ser que você se isole do mundo, sempre existirá pelo menos uma pessoa que se importa de verdade com você. Essas pessoas que tentam de verdade conseguir um espaço nos nossos corações—É o que significa “Família”. Não são só os laços sanguíneos que formam uma família, mas também os laços emocionais.”

Dando uma leve pausa no discurso, Quon continuou.

“Masaya, quando eu digo para lutar por sua família, isso também significa lutar por você mesmo. Pense, alguém que se importa muito com você ficará triste caso você sofra, talvez essa pessoa até tente lutar por você para te ajudar. É por isso que lutar pelos outros também pode significar lutar para se proteger. Nesse momento parece que você está falhando nesse ponto, mas você ainda pode mudar isso.”

“…”

Masaya não tinha palavras para responder a visão de Quon. Mas definitivamente mudou algo dentro dele.

“… Obrigado, Mestre!”

Se curvando para Quon, Masaya se virou e se retirou.

 

Talvez realmente seja melhor esquecer tudo isso e seguir em frente…

Sentado no fim da cidade, Masaya olhava em direção ao mar e o horizonte. Não havia nenhuma praia ou algo do tipo, por isso, se ele pulasse dali cairia direto na água.

O vento ia e vinha constantemente, o que criava uma atmosfera tranquila e relaxante.

Repentinamente ele sentiu algo gelado no rosto e olhou para trás.

“Agir assim não combina com você.”

Ryoka estava ali, encostando um picolé no rosto de Masaya. Ele pegou o picolé e olhou para o horizonte novamente.

“Você poderia não mais machucar a si mesmo?”

“Huh?”

O comentário de Ryoka, que estava de pé do lado dele, o deixou confuso e o fez olhar para ela.

“Toda vez que eu o vejo machucado, física ou psicologicamente, sinto como se meu corpo estivesse sendo perfurado constantemente…”

“…”

“Se realmente estiver precisando de ajuda, pode sempre contar comigo!”

Tentando suavizar a atmosfera, Ryoka deu o sorriso mais espontâneo que conseguiu.

Ah…

Está certo… Essa garota também pode ser considerada minha “família”.

Famílias não são formadas apenas por laços sanguíneos, mas também por laços emocionais.

“Desculpe. Irei me cuidar mais a partir de hoje. Embora não possa prometer que não vou me ferir caso seja uma situação sem saída.”

“Masaya… Obrigado!”

Ryoka, bem feliz, se jogou em Masaya e o abraçou. Um forte sentimento tomou conta do seu peito ao ver Masaya voltando ao normal.

“Ei! Você vai me derrubar no mar!”

Apesar das reclamações, Masaya não desgostou da situação. Pela primeira vez em muito tempo ele sentiu uma leveza no peito.

Ah… O melhor é deixar tudo isso para trás mesmo.

Tomando sua decisão, Masaya finalmente conseguiu sorrir de verdade.

 

 

Apesar de tudo, o destino parecia não estar do lado de Masaya naquele dia.

Ele terminou de vestir suas roupas de guarda-costas, o que parecia mais um cosplay do que realmente uma roupa de trabalho em uma criança como ele.

Seu próximo passo foi ir conferir se Ryoka estava pronta.

“Ryoka, já terminou de se arrumar? Não podemos nos atrasar.”

Batendo na porta e chamando por ela, Masaya aguardou por uma resposta, mas não recebeu nenhuma.

“Ryoka?”

Ele bateu mais duas vezes, agora com mais força.

Estranhando a situação, ele colocou o ouvido na porta para tentar ouvir algum som, mas não conseguiu escutar nada.

“Estou entrando.”

Decidindo dar uma olhada no quarto, Masaya colocou a mão na maçaneta.

Talvez por estar muito em paz consigo mesmo, ele por algum motivo se lembrou de como em animes e mangás de comédia romântica, situações assim sempre levam a cenas inusitadas.

Mas ao abrir a porta—

Ele se lembrou que vive uma história de um gênero diferente.

A janela aberta foi a primeira coisa que chamou a atenção de Masaya. O quarto estava todo em ordem.

Inspecionando direito, ele encontrou um bilhete.

“Não se preocupe, Masaya. Como uma aliada da justiça, eu salvarei o seu pai!

– Ryoka”

Naquele momento, Masaya congelou.

De tantas e tantas possibilidades, havia uma que ele não parou para considerar—Ryoka tentar resolver tudo sozinha… Novamente.

O motivo para ele não ter parado para pensar nisso era bem simples. A realidade da [Guerra Divina] ainda não havia atingido ele… E muito menos ela. Lutar um contra outros [Avatares de Deuses] até a morte, algo que inevitavelmente eles teriam que fazer, nunca passou pela cabeça de Masaya que Ryoka participaria de algo brutal como isso.

Sem perceber, Masaya estava amassando o papel violentamente.

Sem pensar duas vezes, ele saltou pela janela, torcendo para não ser tarde demais.

Talvez ele estivesse sendo presunçoso demais, mas graças a derrota humilhante que ele sofreu antes, Masaya simplesmente assumiu o pior para Ryoka também.

Maldição… Maldição… Maldição!! Porque!!

Enquanto estava no processo de aceitação com o que aconteceu com o seu pai, ele acaba tendo que passar por isso. Se ele perder Ryoka também—

Viajando pela cidade a uma velocidade absurda, ele procurou incessantemente. Quanto tempo já se passou? 1 minuto? 2? Talvez pareça pouco tempo, mas para alguém na velocidade que ele estava viajando, era tempo até demais.

Eis que repentinamente todas as cores do mundo se inverteram.

“…!”

Finalmente! … Ryoka!

Agora dentro da [Dimensão Reversa], Masaya procurou por Ryoka.

Felizmente a dimensão não era muito grande, então encontra-la foi uma tarefa bem simples.

Mas—

“Ora ora, o que temos aqui?”

“… Vocês…”

Ao ouvir a voz da garota de cabelo violeta, o cérebro de Masaya começou a processar a situação lentamente. Ela estava levantando o corpo caído de Ryoka pelo cabelo quando parou o que estava fazendo para olhar na direção de Masaya.

Perto dela estava seu parceiro com sua grande espada—Zinon.

Ryoka estava coberta de ferimentos e lágrimas escorriam pelo seu rosto, limpando algumas manchas de sangue no caminho.

“Ma… Masaya… Corra…”

Ryoka tinha dificuldades para falar, mas conseguiu dizer o que queria.

Corra? Corra?!

Ele não conseguiu acreditar no que ele havia acabado de ouvir.

Corra… Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra.

Ah……

Masaya olhou para o chão, e viu seus pés equipados com um par de botas douradas com pequenas asas nos calcanhares.

É isso que eu posso fazer? É só disso que [Hermes] é capaz? Correr?!

Ele notou que sua própria existência como um [Avatar de Deus] estava errada. Ele queria proteger, lutar por quem ele preza, por sua família. Mas… Ele é apenas um mensageiro, no fim das contas. A pessoa que deveria lutar pelos outros está ali, no chão.

Acalme-se.

Masaya deu um passo adiante.

“Hmm?”

Em resposta a ele, Zinon também deu um passo adiante e preparou sua espada de duas mãos.

“Não o mate, Zinon. Quero testar onde fica exatamente o limite da mente dele, hehe.”

“Entendido.”

Masaya não conseguiu se dar ao luxo de ligar para o que Antonia estava dizendo.

Toda a euforia de antes desapareceu.

Ou melhor dizendo, ela foi escondida. Seguindo os conselhos do seu mestre, emoções negativas são apenas mais um obstáculo em uma luta.

“Vamos lá, cara, não me decepcione dessa vez!!”

Fazendo um forte movimento horizontal, Zinon nem precisou sair do lugar para atacar Masaya. A rajada de energia que voou na direção dele era perigosa por si só, mas a onda de impacto que a acompanhava também era.

No entanto—

“Huh?!”

Antes de Zinon completar o movimento do seu ataque, Masaya já havia se movido para trás dele.

Por isso, não havia como ele se defender do ataque de Masaya, que acertou um chute certeiro na cabeça dele, o jogando para longe.

Zinon se levantou rapidamente, com um pouco de sangue no canto da sua boca.

“Agora está falando minha língua!”

Segurando a sua espada com uma única mão e a puxando para trás como se fosse a linha de um arco, Zinon preparou um ataque que Masaya já havia visto.

“HAH!”

Dando uma poderosa estocada no ar, todo o espaço na frente dele se distorceu. Mas—

“Muito lento!”

Masaya novamente já estava atrás dele.

Dando um chute com toda a forte nos calcanhares do oponente, ele conseguiu derrubá-lo. Mas antes de cair de costas no chão, Masaya ajudou a gravidade socando o estomago de Zinon com todas as forças e explodindo o chão no processo.

Ele saltou para trás e esperou o inimigo se levantar. Através da cortina de fumaça, Masaya via apenas a silhueta dele se levantando.

“Huhuhu…”

Assim que a fumaça se dispersou, o rosto sorridente de Zinon foi revelado. Sangue e saliva escorriam pelos dois cantos da boca enquanto ele segurava a espada com uma das mãos e o estomago com a outra.

“… Muito bom. Eu estava mesmo querendo testar a fúria da [Durga] em alguém. Você é a cobaia perfeita!”

Durga. Deusa guerreira da mitologia Hindu. Um aspecto guerreiro da Devi Parvati com 8 braços, cavalgando em um leão, carregando armas e assumindo mudras, ou gestos simbólicos com a mão.

Os olhos de Zinon se tornaram vermelhos e começaram a brilhar fortemente.

“Vamos continuar.”

“…”

Repentinamente, a tensão da atmosfera aumentou em 10 vezes.

Zinon saltou e segurou sua espada como se fosse um arpão. A espada começou a brilhar e mudou de forma.

“[Rudra]!”

Se tornando um tridente azul, ele jogou a arma em direção a Masaya com toda a força.

A velocidade do arremesso era assustadora, mas ainda não era o bastante para ultrapassar a velocidade de Masaya, que saltou e desviou do ataque em cima da hora.

Porém—

“Isso é—!”

Incontáveis raios começaram a sair do tridente e do solo ao redor dele, indo do chão para o céu. Era como se estivessem no meio de uma tempestade , com o céu e o chão tendo os lugares trocados.

O ataque repentino pegou Masaya de surpresa, que só conseguiu se defender enquanto via raios rasgarem algumas partes do seu corpo.

Graças ao dano, Masaya não conseguiu aterrissar direito e caiu capotando no chão.

Antes que conseguisse se levantar, ele viu o tridente começar a brilhar novamente e tomar um formato circular.

Um chakram—!

O chakram voou até a mão de Zinon, que o pegou e o jogou em direção a Masaya.

“[Vishnu]!”

Apesar de ter conseguido se esquivar a tempo, o chakram continuou perseguindo ele sem parar. O alvo era especificadamente o pescoço de Masaya.

Se isso me acertar…!!

“Corra! Corra! Hahaha!”

A provocação de Zinon chegou até o ponto mais profundo de Masaya.

Me dizendo para correr novamente…

Ele parou e encarou a direção em que o chakram vinha.

Isso é algum tipo de piada?!

Essa não é minha única arma!

Masaya atingiu o chakram com a sola da bota.

O sorriso da certeza da vitória chegou ao rosto de Zinon.

Ele tinha certeza que tentar parar o chakram seria suicídio.

Mas—

O barulho de vidro se quebrando ecoou pela área. O chakram foi partido em milhares de pedaços.

“Como?!”

Zinon não conseguiu esconder o choque ao ver sua arma destruída.

“Desculpe, mas acho que eu sou um trapaceiro divino.”

Existe um motivo por trás do evento que acabou de ocorrer, mas é muito arriscado deixar os inimigos ficarem sabendo dele.

“Huh!”

Se movendo a uma velocidade ainda maior, Masaya apareceu diante de Zinon dando uma joelhada no estomago dele com toda a força, exatamente no mesmo ponto que havia atingido antes.

Zinon foi jogado para longe, capotando no chão e parando apenas na parede invisível do limite da [Dimensão Reversa].

Ele é muito mais lento que eu, graças a sua espada de duas mãos, ele era capaz de se defender dos meus ataques… As variações de armas foi uma surpresa, mas embora o poder destrutivo dele tenha aumentado muito, sua defesa foi sacrificada no processo.

Se ele não usar a espada, eu posso continuar atingindo ele constantemente. Mas se ele usar a espada, ele não poderá me atingir. Xeque-mate.

Zinon se levantou e recriou sua espada de duas mãos. Ele segurava seu estomago enquanto agonizava de dor.

Desculpe, mas… Eu já tomei minha decisão. Sairei daqui com a Ryoka custe o que custar!

Masaya avançou com toda a velocidade em direção a Zinon.

Um dos combatentes moveu sua espada para tentar afastar o oponente enquanto ele estava longe, mas o outro respondeu indo para o céu e evitando a onda de impacto.

Usando o “teto” da [Dimensão Reversa] como impulso, Masaya se aproximou rapidamente de Zinon, que usou a espada para se defender.

Ele evitou o dano, mas por estar segurando com apenas uma das mãos, foi jogado para trás e bateu novamente no limite da [Dimensão Reversa].

Com um braço só, você não—

Se movendo para atacar novamente, Masaya notou seu erro tarde demais. O sorriso no rosto de Zinon mostrava evidência do momento em que a luta mudava de rumo.

Puxando seu braço para trás como a linha de um arco—

Masaya parou seu movimento forçadamente, mas era tarde demais.

Um ataque de área que destrói tudo que está no caminho.

Da última vez, Masaya se esquivou do ataque se movendo para trás de Zinon, a única área segura.

No entanto—Ele se encontra atualmente no limite da [Dimensão Reversa]. Não existe meios para se mover para trás de Zinon nesse momento.

O que significa…

A estocada de Zinon lançou uma catastrófica onda de impacto, Masaya só pode usar os braços para se defender e tentar resistir ao dano.

“U-UUUAAAAAAAAAAHHHHHH!!!!”

Todo o solo sendo despedaçado e a atmosfera tremendo, Masaya foi engolido pela onda de impacto e jogado para longe.

“Masaya!!”

Ryoka gritou por ele. Ela queria poder fazer algo, mas no momento era impossível.

“Aah… Ahhaahh…”

Masaya se levantou lentamente. Sangue escorria pela sua cabeça. Todo seu corpo estava dolorido. Sua roupa estava totalmente desgastada.

“KAH…”

Quando conseguiu se levantar, ele tossiu sangue. Seu corpo estava totalmente ferido não só por fora, mas por dentro também.

“… Huh?!”

Antes de conseguir recuperar o fôlego, Masaya viu Zinon se preparando para lançar seu ataque novamente.

Eu…

A distância entre eles era enorme.

Naquele momento uma certa ironia da vida o atingiu.

Só há um jeito de evitar o próximo ataque e eventualmente a total derrota.

O que ele tanto rejeitou pouco tempo atrás agora voltou para pegar no seu pé.

Existem certas coisas na vida que você só precisa aceitar que são do jeito que são.

Masaya se preparou para avançar.

Parar de tentar nadar contra a maré, achando que é a única solução viável. Diante de uma situação de risco, Masaya foi forçado a mudar algo dentro de si.

Masaya…

Falando consigo mesmo, ele avançou.

Corra!

Correr nem sempre é algo com conotação negativa.

Zinon estava no meio de concluir seu ataque.

Corra! Mais rápido! CORRA!!

Mais rápido que o som. Mais rápido que a luz.

Mesmo aquela distância tão grande entre os dois não seria um empecilho. Não importa a distância, as barreiras ou qualquer que seja o obstáculo. Como o deus mensageiro, transgredir todas as fronteiras não é uma possibilidade, é uma obrigação!

Como se o tempo tivesse parado, Masaya conseguiu alcançar seu inimigo. Seu punho atingiu pela terceira e última vez o estomago de Zinon. Por estar logo na frente do limite da [Dimensão Reversa], o corpo de Zinon foi imprensado pela parede invisível e o ataque de Masaya, multiplicando ainda mais o dano. Sentindo suas entranhas quase saírem pela boa, Zinon apenas cai no chão sem forças para fazer mais nenhum movimento.

“Haa… Haa…”

A luta acabou.

Ao menos a luta contra Zinon.

“Huh?!”

Sentindo uma presença se aproximar, Masaya saltou para trás.

Só então ele ouviu o som das palmas se batendo.

“Oooh, incrível. Ver como sua mente funcionava naquela situação foi a coisa mais incrível que eu já presenciei!”

Antonia abriu os braços e expressou toda sua felicidade.

Ela se aproximou de Zinon que estava caído e se abaixou.

Levantando um pouco o corpo dele, ela percebeu que ele ainda estava consciente. Ele provavelmente não conseguia sequer falar, mas não importava para ela.

“Você cumpriu bem o seu papel, Zinon.”

Antonia então aproximou seu rosto beijou os lábios dele como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Por um segundo tanto Zinon quanto Masaya expressaram surpresa, mas a expressão de Zinon rapidamente se tornou de choque. Como se tivesse provado de um veneno mortal, o brilho nos olhos de Zinon desapareceu e ele entrou imediatamente em estado vegetativo.

Antonia o soltou descuidadamente e se levantou. Ela então se espreguiçou e alongou o seu corpo como alguém prestes a começar a se exercitar.

Masaya estava completamente confuso enquanto observava a garota olhando suas próprias mãos com um sorriso no rosto.

“… O que você fez?”

Ele estava com receio de fazer tal pergunta, mas precisava saber.

“Eh? Ah, isso? Bem, agora você irá lutar contra mim, certo? Mas eu não era uma lutadora, então eu precisava fazer alguma coisa para render uma luta digna, não acha?”

Ela explicou casualmente, mas Masaya ainda não havia juntado os pontos.

“Eu repliquei todos os atributos físicos e características do Zinon em mim, agora eu posso lutar contra você!”

Com um sorriso no rosto, Antonia disse algo surpreendente.

Masaya já sabia que os poderes dela eram relacionados a mente, mas nunca imaginou que algo assim seria possível.

Isso significa que em troca de conseguir os atributos físicos de outra pessoa…

Ela destruiu a mente dele… Essa garota é insana…

Certo. É como se ela sugasse a mente de outra pessoa para ela, uma espécie de refeição.

Isso é ruim…

Com seu dedo indicador, Masaya afrouxou a gravata da sua roupa de guarda-costas.

Mas se eu vencê-la, tudo estará seguro.

“Venha! Vamos brincar!”

Espere só mais um pouco, Ryoka!

Mesmo no estado em que se encontrava, Masaya avançou com todo o vigor para cima de Antonia, atacando o rosto dela diretamente—

Ou era o plano dele, seu ataque foi redirecionado e atingiu apenas o ar.

Essa brusca mudança o deixou totalmente aberto, o que obviamente não seria desperdiçado por Antonia, que socou o peito de Masaya com toda a força, jogando ele em direção ao limite da [Dimensão Reversa].

Masaya ficou sem ar por um momento, tossindo e com a mão no peito. Quando percebeu, Antonia já estava na frente dele o atacando novamente.

Felizmente a velocidade dela era a mesma que a de Zinon, o que permitiu que ele se esquivasse a tempo.

Ataques diretos não funcionam…!

Masaya saltou para trás e pisou no chão com força, levantando um grande pedregulho, do qual ele chutou em direção a Antonia. Ela vinha caminhando casualmente em direção a ele, sem sequer se dar ao trabalho de desviar, ela viu o pedregulho passar direto por ela.

Eu errei?! Não… Droga!

Ele tentou avançar novamente, dessa vez tentando atacá-la por trás, mas o resultado foi o mesmo. Não só isso, Antonia virou seu corpo e atingiu o rosto de Masaya em cheio com um chute.

Ela não precisava ver o ataque, todos os ataques a erravam. Além disso, seu timing era perfeito na hora de contra-atacar, era como se ela previsse o futuro.

Masaya se levantou e colocou a mão no nariz, percebendo que ele estava sangrando.

Não havia tempo para descanso, Antonia já estava correndo em direção a Masaya, pronta para atacá-lo novamente. Quando ele foi desviar mais uma vez, perdeu um pouco do equilíbrio e sua visão ficou embaçada.

Meu corpo está cedendo…

Todo o dano recebido estava o afetando drasticamente. Ele não conseguiu desviar e Antonia não perdeu a chance.

Um soco na barriga, um soco no rosto, um chute no abdômen e outro nas costas. Por alguns segundos Masaya apanhou sem conseguir reagir.

Ela o pegou pelo rosto e bateu sua nuca no chão com toda a força.

Quando o controle do seu corpo voltou ao normal, já era tarde demais. Antonia havia pegado o seu tornozelo e saltado o mais alto que conseguia o carregando. Já no céu, ela atirou Masaya em direção ao solo com toda a força, causando uma grande explosão na área.

Caído de cara no chão, Masaya já estava sem forças para reagir.

“Masaya!!”

Ao levantar a parte superior do seu corpo, ele viu Ryoka correndo em sua direção.

Mas Antonia apareceu diante de Ryoka logo em seguida.

Ryoka!

“Ei.”

Ela falou com Ryoka em um tom bem humorado.

“…”

Ryoka, em choque, não conseguiu responder.

“Você quer salvá-lo, não quer? Vamos fazer um trato.”

Ryoka ficou confusa com o comentário de Antonia. Já Masaya…

Não… Estou com um péssimo pressentimento…! Ryoka…!

Ele estava tentando levantar seu corpo, um dos seus joelhos já estava no chão.

Meu corpo já não me obedece mais direito…

“Eu farei. Se for para salvar o Masaya, eu farei! O que você quer?!”

Não faça isso, Ryoka!

Ele queria gritar, mas não conseguia.

Pela primeira vez, um sorriso maléfico surgiu no rosto de Antonia.

“Venha comigo. Se torne meu pertence e eu pouparei a vida dele. Nós iremos para bem longe daqui.”

“…”

Claramente espantada, Ryoka não conseguiu reagir a proposta de Antonia.

Até Masaya parou de se mover.

“Não se preocupe, não te maltratarei, muito menos te matarei.”

“… Então porque?”

Respirando fundo, Ryoka perguntou as razões de Antonia.

“Hmm? Isso é óbvio, para observar como a mente daquele jovem se quebrará e se reconstruirá hehe.”

Anormal.

A garota era claramente perturbada. Tudo que ela fez, faz e fará é simplesmente para estudar a mente humana.

“Eu…”

Ryoka já estava decidida sobre o que fazer. As palavras que ela ouviu naquele sonho vieram a sua cabeça.

Recuse, Ryoka! Se lutarmos juntos conseguiremos vencer, sem duvidas!

“Tudo bem… Eu aceito.”

Masaya estava incrédulo, sua boca permanentemente aberta.

Por quê?

Por quê…?

É por eu ter sido incapaz de te proteger?

Não… Não é isso…

Ryoka…

“Hehehehe. Trato feito então. Vamos indo?”

As duas deram as costas para Masaya e começaram a andar, se afastando mais e mais.

As lembranças do dia em que viu seu pai sendo levado voltaram a sua cabeça.

Ela está se sacrificando por mim. Para me salvar. Pela justiça que ela acredita.

“PAREM!!”

Dando um forte grito e um violento soco no chão, Masaya forçou as duas a pararem.

Mesmo no limite do limite, ele se levantou mais uma vez.

As duas garotas olharam para ele. Uma com grande interesse, outra com grande tristeza.

“Masaya… Pare, por favor…”

O pedido de Ryoka entrou por um ouvido e saiu por outro. Masaya respirou fundo e gritou…

“Cale-se, Ryoka!”

“Eh?”

De todas as coisas que ela esperava ouvir, essa não estava nem sequer listada.

Com suas roupas sujas e rasgadas, Masaya removeu a sua gravata. Sua blusa já estava aberta, todos os botões já haviam arrebentado durante a luta. Ele só precisava estar o mais confortável possível.

“Eu não dou a mínima para seus ideais ou qualquer que seja a justiça estúpida que você encontrou! Meu trabalho é um e único… Te proteger!”

Conveniência ou não, o papel de guarda-costas que Masaya recebeu de Daisuke veio a calhar no último momento.

“Mas…”

“Não é só meu trabalho! Meus sentimentos também! Você é a coisa mais importante que eu tenho hoje, definitivamente não permitirei que tomem você de mim!”

O rosto de Ryoka corou após tal afirmação, seu coração batia violentamente. O velho conflito entre a lógica e os sentimentos fez Ryoka hesitar.

“Woah! Não esperava um discurso desses!”

Antonia bateu palmas novamente para Masaya e se colocou na frente de Ryoka.

Fuu… Essa gritaria me custou mais energia do que eu esperava. Agora…

A última parede diante de Masaya.

Eu queria dizer algo legal como “mesmo que eu perca meu corpo, jamais permitirei ferir aqueles que amo”, mas eu não posso me sacrificar aqui.

Lutar por minha família, as pessoas mais queridas para mim. Mas ao mesmo tempo lutar por mim mesmo, não é mesmo, mestre?

“Venha, vamos acabar com isso de uma vez!”

Com um sorriso assustador no rosto, Antonia avançou em direção a Masaya.

“Hehehehehehehe”

Antonia começou a atacar Masaya descontroladamente. Ela não tinha com o que se preocupar, afinal.

Masaya estava desviando facilmente de todos os ataques. Mas quanto mais ele esticava a luta, mas difícil de se manter de pé ficava.

“Huh?”

Enquanto tentava atingir Masaya, Antonia viu ele desaparecer completamente da sua vista.

Ele reapareceu alguns metros atrás dela e começou a correr.

Correndo em alta velocidade, ele formou um circulo cujo Antonia era o centro dele.

“Hehh, acha mesmo que isso vai funcionar?”

Antonia parecia bem confiante.

Todo e qualquer ataque eu direcionar a ela será desviado. Após atacá-la por trás eu percebi… Ela consegue manipular o subconsciente, por isso é impossível atingi-la. Não é que o ataque muda de direção, ela nos força a errar nossos próprios ataques…

Nesse caso…

A velocidade de Masaya aumentava mais e mais.

O nível que eu atingi quando derrotei Zinon, preciso alcança-lo novamente… Não, preciso superá-lo!

Quanto mais rápido ele se movia, mais seu corpo doía.

Ele teria no máximo a chance de mais um ataque.

Se o ataque falhar ou não for o bastante para derrotar Antonia, tudo estará acabado.

Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido!

Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido!

AGORA!

O círculo foi quebrado e Masaya avançou com toda velocidade em direção a Antonia.

Ela sequer estava o enxergando. Não era necessário. O ataque de Masaya será desviado pelo próprio subconsciente dele—

Quando Antonia percebeu, ela apenas sentiu a dor se espalhando por todo seu corpo.

Um chute certeiro atingiu o corpo dela.

Ela pode programar nosso subconsciente a nunca atingi-la… Mas ela não pode prever o futuro.

Nossas ações são alteradas sem nós percebermos.

Mas—

Rachaduras se espalharam por toda a dimensão.

Ryoka viu algo de outro mundo. Uma visão impossível.

A dimensão foi destruída na força bruta.

Antonia foi lançada a vários metros de distância. Por grande parte da força ter sido gasta na dimensão em si, ela não foi jogada tão longe.

Mudar nossas ações, ou realizar uma determinada ação, não significa que ela certamente será concretizada.

Se minha velocidade de movimento for alta demais, será impossível mudar o curso do meu ataque.

Entretanto, com grande dificuldade, Antonia se levantou.

Masaya estava perplexo.

“Hehe…”

Não existe mais espaço  para continuar a luta. Masaya está de pé agora, mas se ele se mover mesmo que um centímetro, seu corpo cairá.

“Você se superou. Observar sua mente valeu muito a pena hehe…”

Masaya não sabia o que dizer, então apenas esperou.

“Mas… Não há muita felicidade te esperando adiante.”

Naquele momento, Ryoka havia se aproximado de Masaya e apoiado o corpo dele.

“Vocês dois… Ideais opostos… Talvez vocês não entrem em conflito entre si… Mas sem duvidas entrarão em conflito com a história que estão criando.

Alguém que luta por vários e alguém que luta por poucos lutando juntos só pode terminar em tragédia.”

“…”

Masaya não entendia totalmente o que ela estava falando, mas algo dentro dele o fazia concordar um pouco com ela.

Não é como se ela conhecesse os dois o suficiente para fazer afirmações desse tipo. Mas ele sabia que devido ao poder dela, era bem provável que esses comentários que ela está fazendo sejam baseados em algo que só o poder dela consegue enxergar.

“Eu gostaria de observar a reação de vocês para o que ainda está por vir nos seus futuros, hehehe…”

Antonia então caiu de joelhos e logo em seguida de cara no chão.

“Acabou…”

Todos os ferimentos no corpo de Antonia desapareceram completamente, o mesmo já havia acontecido com Zinon.

Mas Masaya…

“Masaya!”

Usando Ryoka como apoio, Masaya deixou seu corpo cair.

Porque os ferimentos dele não sumiram?!

Por conta da destruição irregular da [Dimensão Reversa], os danos causados em Masaya não foram revertidos.

Aquela batalha. Aquela noite. Definitivamente ficaria marcada no corpo de Masaya para sempre.

 

Após aqueles eventos, Ryoka conseguiu ajuda para carregarem Masaya, Antonia e Zinon.

Quando questionada pelo seu pai, Daisuke, ela inventou uma história dizendo que precisou ir na casa de uma amiga e levou Masaya junto, mas que se distraiu na rua e quando ia ser atropelada, foi salva pelo Masaya que sofreu o atropelamento no lugar dela.

Graças a esses eventos, Daisuke deixou Ryoka ficar com Masaya no hospital ao invés de irem para a festa.

Quando diagnosticado, relataram que Masaya sofreu ferimentos gravíssimos. E que era um milagre ele ter sobrevivido.

No dia seguinte—

“Ei, Ryoka. Acorde.”

“Umm…”

Ryoka foi chamada, depois sacudida. Então foi obrigada a abrir os olhos.

“… M-Masaya?!”

Ela ficou surpresa ao ver Masaya sentado na cama. Ela estava sentada em uma cadeira do lado dele, mas acabou pegando no sono.

“Isso está ficando rotineiro, não acha?”

Masaya se referia a um dos dois desmaiar, e o outro tomar conta.

“Haha… Mas mais importante, você está bem?”

“Hmm, meu corpo ainda dói em todos os lugares, mas sobreviverei.”

Ryoka encarou Masaya firmemente por alguns segundos.

“O que?”

“Você disse que ia se cuidar para não se ferir tanto!”

“Err… Não é como se eu tivesse alguma escolha…”

“…”

“…”

Um silêncio tomou conta do quarto do hospital por algum tempo.

“Ei, Ryoka.”

“Diga…”

“Sei que é egoísta da minha parte, mas quero que você evite o máximo possível usar aquela técnica ocular.”

“…”

[Analyzer]. Uma técnica que talvez seja crucial para mudar o rumo de uma batalha, mas o custo dela não é baixo. Uma técnica contraditória, que concede uma visão poderosa o bastante para ver o futuro, mas também consome a visão lentamente até a pessoa ficar cega.

“… Tudo bem.”

Ryoka aceitou o pedido de Masaya.

Ela não pretende parar de usar a técnica, seria ingenuidade demais. Mas ela ao menos tentará deixá-lo menos preocupado.

Após mais algum tempo com os dois em silêncio…

“Ei, Masaya.”

“Hmm?”

“Sobre aquilo que você disse ontem…”

“”Aquilo”?”

“Sim.. Uhm… Sobre eu ser a pessoa mais importante para você…”

“…”

Ryoka estava totalmente corada, olhando de um canto para o outro.

Uma certa tensão se levantou no local.

“… Eu realmente disse aquilo, não disse? Afinal, você é uma grande amiga!”

A tensão que existia no ar evaporou naquele momento.

“Então era isso que você queria dizer…”

“…”

“… I…”

“I?”

Já tremendo, Ryoka se levantou e pegou o travesseiro da cama.

“IDIOTA!!”

E começou a atacar Masaya.

“Woah! Era uma piada! Espere! Me escute!”

Depois de conseguir acalmar Ryoka.

“Hah, eu estava apenas tentando quebrar a tensão, não precisava reagir daquela forma…”

“Hmph. Não é como se eu me importasse!”

Eu chamo isso de se importar multiplicado por 100…

Respirando fundo, Masaya começou a falar sério.

“O que Antonia falou no final continua na minha cabeça até agora…”

“Masaya…”

“Escute, Ryoka. Eu quero te dizer o que eu sinto direito. Mas quero que seja em um momento onde possamos realmente nos focar nesses sentimentos. Eu quero primeiro terminar essa [Guerra Divina]… Você esperaria até lá?”

Ryoka ficou surpresa, ela não esperava algo tão sincero.

“Hmm, não posso fazer nada, não é mesmo? Irei aceitar esse egoísmo seu, fique agradecido.”

A conversa terminou ali, principalmente porque—

“Masaya!”

Ao ouvir alguém vindo correndo pelo corredor e abrindo a porta violentamente, os dois viram uma figura que não esperavam ver tão cedo.

A única coisa que Masaya conseguiu dizer foi:

“Pai?!”

Suguro correu para abraçar o seu filho, que ainda chocado, o abraçou de volta.

Tudo que foi causado pela Antonia se desfez.

Suguro foi solto e seu nome foi limpo como se fosse a coisa mais normal a se fazer. E Suguro disse que havia “voltado de viagem”, o que Masaya sabia que não era verdade.

De alguma forma a realidade foi remodelada, as memórias de todos os humanos normais envolvidos foram alteradas e tudo voltou ao normal.

E então, os dias de grande felicidade daquelas duas famílias voltaram.

 

 

Voltando ao presente…

O [Zenchi Kūkan: Oujibyoubou] desapareceu lentamente, e logo a [Dimensão Reversa] também.

Ryoka suspirou ao cancelar seus poderes.

“Bom, acho que é isso. Essa é nossa história.”

Seira e Julie estavam impressionadas com o que viram.

“Existem alguns motivos para eu ter decidido mostrar essa história a vocês… O primeiro e mais óbvio, é a confiança e afinidade do nosso grupo. Todo mundo tem uma coisa ou outra que gostaria de esconder, mas creio que conhecer a origem do que somos hoje é algo necessário.”

Após uma leve pausa, Ryoka continuou.

“O segundo é para vocês conhecerem melhor o Masaya. E o terceiro… O terceiro foi mais um experimento.”

“Experimento?”

Julie perguntou enquanto virava a cabeça um pouco para o lado, curiosa.

“Eu precisava testar se minhas capacidades haviam evoluído agora que eu posso controlar o [Reisei], e eu estava certa. Eu posso de fato observar o passado, mas antes eu não era capaz de mostrar o que eu via para os outros.”

“Então isso significa…”

“Exato, Sei-chan. É possível aprimorar nossas técnicas para um nível além usando o controle de [Reisei].”

Em suma. Ryoka quis mostrar para Seira, Julie e Kuroshi que ela confia neles tanto quanto ela confia no Masaya, apresentá-lo para eles e testar as possibilidades do controle de [Reisei].

“Eu tenho algumas ideias de coisas que podemos treinar e gostaria de discutir com vocês em breve.”

Enquanto Ryoka discutia tais assuntos com Seira e Julie, Kuroshi estava em silêncio.

“…”

Passado.

Confiança.

Algumas palavras afetaram Kuroshi da maneira errada.

Diante daquilo, sua mente começou a viajar para longe. Bem longe—

“Se continuar assim, elas irão perceber.”

Com um toque no ombro, Masaya trouxe Kuroshi de volta para a realidade.

“Huh? O que você está fazendo, Kuroshi?”

“Eh?”

A pergunta e o rosto confuso de Masaya deixaram Kuroshi sem saber como reagir.

“Você aumentou seu poder para 20%, não? Seus olhos estão vermelhos.”

“Ah…”

Kuroshi deu um passo para trás.

“Kuroshi?”

“Ahaha… É que eu tinha esquecido que eu precisava ir em um certo lugar, então aumentei meu poder para chegar lá mais rápido. Até mais!”

Praticamente fugindo, Kuroshi se virou e se retirou rapidamente.

“O que aconteceu, Masaya? Porque Kuroshi foi embora sem falar conosco?”

Notando a estranha situação. Seira perguntou.

Masaya pensou em simplesmente falar o que aconteceu de fato, mas algo dizia que era melhor não falar sobre isso por enquanto.

Pensando em uma maneira de livrar Kuroshi sem comprometê-lo, Masaya respondeu:

“Hmm… Dor de barriga, eu acho?”

Nanatsu no Sekai – (Volume 2: Capítulo 6)

Capítulo 16

Dämon von Hölle

 

 

O choque era nítido no olhar de todos os presentes no recinto, com exceção, obviamente, daquele que acabara de destroçar um coração humano com suas próprias mãos. Aquele indivíduo continuava a falar lentamente enquanto olhava para os três mas suas palavras pareciam não sair de sua boca. Não, não eram as palavras que não saíam. O medo paralisava Terry, Samantha e Klug de tal forma que nenhum deles conseguia pensar em qualquer outra coisa que não fosse em como fariam para sobreviver naquele momento. Aquela situação se manteve por algum tempo até que o olhar, inicialmente indiferente do demônio começava a se transformar em um olhar visivelmente irritado. Ele, então, disse em um tom um pouco mais alto que o utilizado até aquele momento:

“Se não vão responder às minhas perguntas vocês são tão inúteis quanto esses corpos no chão. Na verdade, não vejo motivo para não torná-los ainda mais semelhantes.”

Terry em um momento de extrema lucidez e pensamento rápido acabou por acordar do transe em que se encontravam e responder a esta frase:

“Pedimos perdão! Nós nos perdemos. Entramos aqui por acaso e não conseguimos mais sair mas não foi nossa intenção perturba-lo de maneira alguma senhor.”

“Ora, ora…então vocês realmente sabem falar. Uma informação vinda em boa hora uma vez que, devo admitir, eu já estava ficando impaciente.”

O demônio, então, sentou-se novamente em seu trono cruzando suas pernas e apoiando seu queixo em uma de seus punhos que, por sua vez, estava apoiado no braço do trono. Ao ver aquela pessoa se sentando, Samantha e Klug também despertaram do choque e, se é que era possível, se acalmaram um pouco. Ele, então, prosseguiu:

“Há algumas semanas atrás eu os mataria imediatamente onde estão por mentirem para mim. Quero dizer, vocês estão no Tártaro e não sabem sobre esse lugar e nem sobre quem está aqui? Isso só poderia ser mentira.”

Samantha e Terry pareciam atônitos com tal frase. Já estava bastante óbvio mas agora não havia mais espaço para dúvidas de que eles haviam adentrado no território de algum peso-pesado daquele mundo. Este prosseguiu seu discurso:

“Contudo, ultimamente alguns ratos estão aparecendo constantemente por aqui e isso jamais aconteceu antes. Eles também pareciam perdidos mas ao contrário de vocês não pareciam dispostos a dialogar. Por isso houve a necessidade de se tomar medidas mais drásticas. Mas agora que sei que vocês possuem a capacidade de falar vocês podem responder minhas perguntas anteriores a começar por: quem são vocês?”

Samantha estava preocupada com algo que muitos poderiam considerar de importância irrisória dada a situação em que o grupo se encontrava. No entanto, sua curiosidade falou mais alto e a Ritualista acabou por cometer um deslize:

“Como você conseguiu compreender o que Terry disse? Você por acaso fala élfico?”

Ao ouvir a pergunta da jovem, o demônio abriu um pequeno sorriso de canto de boca e imediatamente desapareceu. Para a surpresa de todos os presentes, ele reapareceu atrás de Samantha enquanto respondia:

“Mulher insolente, você parece não entender a posição que se encontra nesse momento não é mesmo? O que te faz pensar que é você quem faz as perguntas aqui?”

Samantha, Terry e Klug voltaram a tremer de medo mas a Ritualista conseguiu encontrar forças pra virar seu rosto na direção em que ouviu a voz daquele homem amedrontador. Para sua imensa estupefação ele já não se encontrava mais atrás dela e, quando ela voltou a fitar a direção que visava antes disso, lá estava ele, calmamente sentado em seu trono olhando os três aventureiros com um misto de indiferença e desprezo.

“O que foi isso? Uma ilusão? Não. Eu não posso afirmar com certeza mas não creio que tenha sido uma ilusão. Essa é mesmo a velocidade dele. Isso é completamente absurdo. Ele está em um nível completamente diferente.” pensou Samantha ainda apavorada.

O demônio, então, disse algo que surpreendeu o grupo positivamente:

“Bem, se vocês realmente não são daqui não posso os culpar por não saber a quem dirigem suas insolentes palavras. Pois saibam que vocês estão diante de Dämon von Hölle, o Rei dos Demônios. De qualquer forma eu já perdi meu interesse em vocês. Como recompensa por não terem agido como estes lixos ensanguentados, abrirei uma fenda dimensional que os levará de volta para a entrada dessa caverna. Considerem isso o meu primeiro e único presente. Vão embora. Agora.”

Tal informação pegou todos de forma abrupta mas Terry e Klug estavam mais preocupados em sair daquele lugar o mais rápido possível que qualquer outra coisa naquele momento. Samantha, no entanto, lembrou-se de algo que os dois preferiam que ela tivesse esquecido: os rumores de que o Rei Demônio era um viajante de mundos como eles. E então, tudo começou a dar errado para aqueles três:

“Espere! Se você é mesmo o Rei Demônio então com certeza pode nos dar informações preciosas sobre este mundo e sobre o que está acontecendo conosco não é mes…”

Antes que pudesse terminar sua frase, Samantha fora agarrada pelo pescoço e erguida a uma altura de cerca de pouco mais de 2 metros. Apenas então ficou claro o quão alto o Dämon realmente era pois ele a erguia pouco acima de sua cabeça, ou seja, com certeza sua altura beirava ou mesmo ultrapassava estes 2 metros. Klug imediatamente urrou de raiva e avançou em direção ao Rei Demônio no que foi prontamente interrompido e arremessado contra uma parede por uma espécie de campo de força ao redor dos dois. Terry, que mal havia tido tempo para assimilar aquela situação tão precária, fazia menção a iniciar uma luta mas foi interrompido por Samantha, que gesticulou com suas mãos para que ele parasse enquanto tentava não engasgar e sufocar. Dämon, então, continuou:

“ Você, você, você. Diga-me, garota, na presença de um Rei você o trata por ‘você’ ou por ‘Vossa Majestade’? Está bem óbvio para mim que você possui uma curiosidade tão grande que, mesmo em face de um perigo mortal, você não consegue contê-la. Pois fica mais um aviso: esta será sua ruína. Por que? Por que você abusou de minha benevolência e agora eu mesmo me encarregarei de trazer esta ruína.”

Dämon agora empunhava uma espada escarlate sem que nenhum dos três aventureiros percebesse como e de onde ele havia a desembainhado. Klug, enfraquecido pela queda e pelo choque da barreira de Dämon, tentava distribuir inúmeros socos no campo de força visando quebra-lo de fora para dentro. A essa altura, Terry já havia ignorado o pedido de Samantha e havia invocado o Espírito do Urso para ajudar Klug. Em vão.

“Não se preocupe. Caso seus amigos sejam tão insolentes quanto você eu não hesitarei em os mandar para fazer companhia a você. Agora morra.”

Tudo parecia rodar em câmera lenta naquele momento. A espada fazia seu percurso em direção ao estômago de Samantha enquanto Klug e Terry se desesperavam e tentavam, de todas as formas, ampliar o número de golpes mas estes estavam cada vez mais fracos. Até que uma “explosão” aconteceu e uma cortina de fumaça cobriu o local em que Samantha e Dämon se encontravam. Quando a fumaça se dissipou, apenas Dämon estava no mesmo lugar. Terry se desesperou:

“Não…não é possível…”

Um urro de Klug, no entanto, provou que o pior não havia acontecido. Ao menos por enquanto. Samantha se encontrava de costas para uma das paredes do local, bastante ferida e coberta de sangue. Suas vestes estavam rasgadas em alguns pontos mas ela ainda estava de pé e respirava aceleradamente. Tal feito rendeu reconhecimento de seu agressor:

“Uh? Entendo. Você não é simplesmente uma garotinha fraca e imbecil. Imbecil e insolente mas não fraca.”

Ainda com dificuldades para respirar em um ritmo normal, Samantha disse, também com dificuldades:

“Este pequeno…evento…serviu para eu confirmar duas coisas. Primeiro, você colocou uma barreira ou uma espécie de feitiço em toda essa caverna com exceção do seu próprio campo de força para que o fluxo de magia não fluísse de forma normal. Esse foi um dos motivos pelo qual eu pude sobreviver ao seu ataque, uma vez que eu estava dentro dessa área e, portanto, pude voltar a conjurar uma magia protetora ainda que apenas por um instante.”

Von Hölle faria pela primeira vez, até então, uma cara de surpresa enquanto ria com certa satisfação:

“Você arriscou sua vida por essa possibilidade? E o que você teria feito se sua suposição estivesse incorreta?”

Klug e Terry pareciam completamente alheios a tal diferença de “humor” em toda aquela situação. Samantha respondeu a pergunta do Rei dos Demônios com um sorriso enquanto parecia finalmente recuperar um pouco do seu fôlego:

“Você sabe muito bem que eu teria morrido.”

“Entendo. Você sabia muito bem quais eram as duas opções e ainda assim resolveu arriscar. Interessante. Eu aplaudo sua bravura, mulher. Seu nome é um nome digno de ser conhecido pelo Rei Demônio. Diga-o para que eu possa lembrar a primeira pessoa a sobreviver a um ataque meu nas últimas duas décadas.”

“Meu nome é Samantha Blutbad. Encantada em conhecê-lo.”

“Pois bem, Samantha…você disse que nosso pequeno “confronto” serviu para confirmar duas coisas. Diga-me, qual é a segunda coisa que confirmou?”

Naquele momento, estava claro que Dämon von Hölle havia retomado o interesse no grupo. Mais particularmente em Samantha. Ele, então, andou calmamente em direção a escadaria e sentou-se novamente em seu trono enquanto aguardava a resposta de Samantha com entusiasmo.

“Você falou sobre a minha curiosidade mas isso pode ser considerado uma tremenda hipocrisia visto que você talvez seja ainda mais curioso do que eu. É a única explicação que eu consigo encontrar para se conter quando me atacou.”

Os olhos de Terry se esbugalharam com aquela informação. Toda aquela situação era um Rei Demônio se contendo? Absurdo. Era absolutamente incabível para o Druida pensar que aquilo pudesse ser verdade. Dämon, no entanto, riu novamente e, para espanto de Terry, confirmou a informação:

“Então quer dizer que você percebeu? Hahahaha. Interessante, muito interessante. De fato, é mesmo incrível que tenha assimilado tudo isso prestes a morrer. Eu já tenho uma ideia da razão pela qual acha que me contive mas gostaria de ouvir de você para confirmar meus pensamentos.”

“Ora, esta é a segunda e última razão pela qual eu ainda estou viva. Pelo que apresentou em termos de velocidade e até mesmo pelo nível de poder que podemos sentir em você, minha magia não me protegeria de nem mesmo 1% de um golpe seu com máximo poder. O próprio golpe que dividiu essa caverna e provocou nossa queda aqui foi mais forte do que o que efetuou contra mim, estou enganada?”

Von Hölle se mostrou surpreso pela segunda vez até então. O motivo foi revelado logo em seguida junto com uma recomendação:

“Quer dizer que vocês já estavam na caverna nesse momento? Hmm. Eu deveria ter sentido isso. Provavelmente estava entretido demais com os ratos. De qualquer forma, creio que a ‘atuação’ de sua colega rendeu aos senhores uma segunda chance de sair com vida deste local. Eu sugiro que não a deixem escapar dessa vez.”

Dämon dessa vez estava convicto de que não haveriam mais surpresas por parte de nenhum deles e Terry já fazia menção a agradecer a generosa proposta mas Samantha mais uma vez traiu todas as esperanças de um desfecho simples e amigável ao dizer:

“Eu sinto muito, senhor Dämon mas eu tenho uma proposta a fazer…”

Terry voltou a se desesperar. Não era possível que aquela mulher não pudesse ficar quieta por meros 5 minutos sem colocá-los numa situação delicada. Será mesmo que ela entendia melhor do que qualquer outro ali o quão perigosa era a situação? Ou poderia ser que ela era apenas uma pessoa viciada na adrenalina de situações de vida ou morte?

“Uma proposta? Veja bem, eu certamente duvido que possua algo a me oferecer que desperte meu interesse…”

Samantha sorriu e em seguida respondeu:

“Ah mas eu tenho. Você, em menos de 15 minutos, nos mostrou dois traços de personalidade. A primeira foi a de alguém frio e insensível que parece apenas querer ficar sozinho sem nunca se incomodado enquanto a segunda foi a de alguém curioso por outros e, mais especificamente, por nós, que não somos deste mundo…”

Dämon coçava levemente o queixo. Ele parecia entender onde Samantha queria chegar mas Terry e Klug continuavam completamente alheios à situação. Samantha, então, prosseguiu:

“Traços conflitantes, não concorda? Você quer ser deixado em paz mas ao mesmo tempo quer conhecer mais sobre o que desconhece e isso inclui pessoas. Pois eu tenho uma solução para tal dilema.”

Dämon sorriu. Ele realmente já sabia o que viria. E foi então que este interviu na explicação pela primeira vez:

“Você está, pela segunda vez nesses mesmos 15 minutos que disse, recusando a oferta de um Rei. Eu, infelizmente, não posso fazer vista grossa para tal afronta. Vamos fazer da seguinte forma então. Caso sua oferta, ou o que quer que tenha para dizer sobre ela, capture meu total interesse, eu os deixarei viver. Caso contrário, eu os matarei aqui e agora. O que acha disso?”

A aura de Dämon Von Hölle voltara a exalar um enorme nível de poder demoníaco. Um poder maligno e macabro que até mesmo Klug conseguia sentir. Estava claro que, desta vez, não haviam segundas intenções. Não era uma brincadeira, era real, muito real. Medo voltara aos corpos dos três viajantes. Entretanto, tal medo não fora suficiente para abalar a decisão de Samantha:

“Está bem. Eu não posso dizer sobre eles mas posso dizer sobre sim mesma. Eu aceito sua condição.”

“Samantha pelo amor de Deus pense no que está dizendo. Você mesma disse que esse cara está num nível completamente diferente do nosso. Pelo Espírito da Floresta, olhe os corpos ao redor dele!!! Você vai mesmo jogar sua vida fora assim por um capricho?”

Terry estava genuinamente preocupado. Não apenas com sua vida mas com as intenções de Samantha. O que poderia ser tão importante que faria a garota arriscar sua própria vida? Samantha, então, fez um pedido:

“Por favor, Terry. Confie em mim.”

Terry não confiava em Samantha. Não o bastante naquele momento. Contudo, ele sabia que as chances de sobreviverem sem Samantha e McGavin em mundos diferentes poderia ser drasticamente reduzida e que Samantha, possuidora de conhecimento quase infinito, não poderia estar fazendo isso sem uma boa razão. O instinto de viver disputava espaço com a razão dentro de Terry. Até que tal indecisão fora interrompida por um novamente impaciente Rei dos Demônios:

“Pois bem, você aceita e seus companheiros não caíram fora daqui ainda o que quer dizer que eles estão com você. Agora diga o que tem a dizer e saia ou morra depois disso.”

Samantha não se abalara por essas últimas palavras de Dämon. Ela sabia que teria de ser persuasiva o suficiente para convencer o próprio Rei Demônio de suas intenções. Ela, então, começou:

“Dämon Von Hölle, como você provavelmente sabe nós somos de mundos diferentes. Nós três compartilhamos o mesmo planeta mas vivemos em planos diferentes. Se você realmente for como nós vai acreditar nessas palavras. Em um dos planetas que estivemos, o avanço tecnológico era absurdamente maior do que qualquer outro e lá, tivemos acesso a algumas das mentes mais brilhantes daquele mundo. A causa para tal fenômeno ainda não pôde ser descoberta mesmo por tais mentes equipadas com o que há de melhor na tecnologia mas certas informações nos foram reveladas. A começar pelo fato de que provavelmente existem sete destes mundos o que indica sete indivíduos cujas leis do espaço-tempo não se aplicam. Além disso, todos nós compartilhamos o mesmo DNA apesar das visíveis diferenças físicas entre nós o que era, até então, completamente incabível sequer considerar. Portanto, caso algo aconteça com um de nós, há a chance…”

Samantha não precisava nem mesmo continuar sua explicação. Ela provavelmente queria chegar no ponto de que eles teriam de descobrir juntos a causa para tais fenômenos e, como McGavin, reunir o grupo para que pudessem se proteger e, ao mesmo tempo, descobrir mais sobre o que estava acontecendo. Faria sentido já que despertaria a curiosidade de Dämon sobre novos mundos e indivíduos bem como, a longo prazo, solucionaria seu “problema” com visitantes indesejados. No entanto, aquela última informação que ela estava providenciando acabara por cavar sua própria sepultura:

“…há a chance de todos nós morrermos, certo? Se, de fato, dividirmos o mesmo DNA sendo que é absolutamente impossível existir uma cópia exatamente igual de uma pessoa mesmo entre irmãos gêmeos mas que isso está acontecendo devido a interferências nas leis do espaço-tempo então ao eliminar um dos sete espécimes, os outros seis podem sofrer o mesmo destino não é mesmo?”

“Exatamente. É claro, isso pode não ser verdade pois há pouco  tempo algumas das coisas que estão acontecendo conosco sequer podiam ser tomadas como possíveis mas…”

“Eu não preciso ouvir mais nada. Obrigado pelas informações.”

Imediatamente após dizer isso, Dämon desapareceu de seu trono e reapareceu em frente a Samantha novamente. Dessa vez, a lâmina dava lugar a uma enorme luva escarlate.

“Merd…”

Tampouco completara a palavra, Samantha fora arremessada novamente contra uma das paredes. Ela, no entanto, se encontrava exatamente da mesma maneira que a primeira vez: coberta de sangue e ferimentos mas ainda viva e de pé. Uma espécie de aura azul-gelo a protegia.

“Hmm, que descuido da minha parte. Eu esqueci que eu ainda estava me contendo e acabei não aumentando meu poder. Bem, não vai acontecer de novo. De qualquer forma eu a parabenizo por conjurar feitiços tão rapidamente.”

“Ei, você disse que iria ouvi-la antes de tomar sua decisão! Ela não havia terminado de falar!” reclamou um Terry completamente amedrontado mas fiel à suas palavras

“De fato. E pra ser sincero, o que ela disse cativou meu interesse mas essa é uma oportunidade que eu não posso deixar passar.”

Dämon andou lentamente em direção à Samantha que mal conseguia se manter de pé depois deste segundo golpe. Ela tentava levantar as mãos em direção ao Rei dos Demônios mas seus esforços eram em vão. Provavelmente seu braço estava quebrado. Provavelmente ambos os braços estavam quebrados. Ele iria matá-la e não havia nada que ela pudesse fazer. Ninguém ali era forte o suficiente para detê-lo. Pelo que havia mostrado até então, provavelmente nem mesmo McGavin. Até que algo surgiu entre Samantha e Dämon:

“Saia da minha frente.”

Ignorando a ordem de Dämon, um gigante de rochas se posicionava em frente à Samantha e olhava com fúria para o, agora diminuto, Rei dos Demônios. Um urro e um soco se seguiram:

“NÃO! KLUG, SAIA DAQUI, AGORA!!”

O apelo de Samantha fora tarde demais. Dämon Von Hölle segurou o punho de Klug sem a menor dificuldade e, em seguida, disse em voz baixa:

“Tanto faz. Se aquela hipótese estiver certa você também serve.”

Um segundo depois Klug explodira em milhares de pedaços. Suas enormes rochas davam lugar a minúsculas pedrinhas que se espalharam por todo aquele salão e se banharam no sangue das vítimas anteriores. Os rostos perplexos de Samantha e Terry mostravam a face de quem não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. Com enorme frieza em sua voz, Dämon apenas disse:

“Hmm, ainda estamos vivos. Parece que sua teoria estava errada.”

 

————————————————-

 

Em outro lugar naquela caverna, um indivíduo com uma pistola reluzente pulava e corria de um lugar para outro carregando outra pessoa em seu braço e apoiado em seu ombro.

“Samantha, Terry, Klug, onde estão vocês? Este lugar já está me dando nos nervos. Me desculpem por agir com tanto impulso. Vamos sair daqui logo. Juntos.”

Craver, então, riu freneticamente:

“Não, não vão não. Não juntos. Não mais…”

“O que quer dizer com isso, velho? Você não quer dizer que…”

A resposta de Craver foi apenas mais uma gargalhada maléfica e viciosa. McGavin sentiu um frio na espinha enquanto acelerou o passo.

 

———————————————————

 

No mesmo lugar em que os outros se encontravam:

“Por favor, parem com seus esforços inúteis. Vocês sabem muito bem o quão sem propósito essa resistência é.”

Samantha estava completamente desgastada bem como Terry que suava bastante além de apresentar muitos ferimentos. Ambos respiravam com dificuldades. Samantha, então, proferiu as seguintes palavras para Dämon Von Hölle:

“Seu traidor maldito. Assassino. Um Rei sem honra. Eu posso não conseguir matá-lo mas me certificarei de arrancar um ou dois membros do seu corpo para vingá-lo. EU PROMETO A VOCÊ DÄMON VON HÖLLE, VOCÊ NÃO SAIRÁ DISSO IMPUNE!!”

Samantha puxou uma faca de dentro de sua meia-calça parcialmente rasgada e, novamente, fez um corte na palma de sua mão deixando as gotas de sangue caírem ao seu redor. Terry entendera o que aquilo significava:

“Um Ritual de Sangue…Samantha…não…”

O demônio invocado levitava enquanto pairava sua foice por trás de Samantha mas dessa vez, para a surpresa de todos os presentes, em vez de cortá-la nas costas como da outra vez em que a Ritualista ofereceu seu próprio sangue em troca de algo, Baphomet fez diferente. Ele fincou sua foice nas costas da garota e mergulhou dentro de seu corpo. Imediatamente seu globo ocular deixou de ser branco para se tornar negro e o vermelho de suas pupilas se intensificou. Dois chifres ondulados surgiram em sua cabeça e sua pele se tornou da cor de um roxo pálido. Por fim, seus cabelos negros e voluptuosos se tornaram brancos e frágeis. Sua aparência havia se modificado por completo e até mesmo suas vestes haviam mudado uma vez que o vestido provocante havia dado lugar a uma armadura pesada negra. Um par de asas surgira atrás de Samantha mas não era possível ver se eram “naturais” ou parte da armadura. Dämon, então, ficou surpreso pela terceira vez naquele dia, definitivamente um novo recorde em muito tempo. Ele disse:

“Ora então você também é um. Quero dizer, sua verdadeira forma…você também é um…

 

 

 

“…demônio.”

Kami no Sensou – Anêmona (Volume 6: Capítulo 1)

“Pois então, tudo começou quando… Bem, acho mais fácil mostrar do que contar, não é? Kuro-kun.”

“Huh? … Ah!”

Por estar um pouco distraído, Kuroshi demorou um pouco para entender o que Ryoka queria dizer.

Imediatamente ele fez a conexão entre os 5 com o [Soul Linker]. Já que nenhum dos 4 estava usando seus poderes, Ryoka ganhou liberdade para exceder um pouco seu limite e chegar aos 30% de poder sem riscos.

A intenção dela é—

“[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].”

O espaço ao redor deles se alterou completamente. Na dimensão que carrega toda a história da existência, é possível acessar o passado de Ryoka e Masaya casualmente e mostrar diretamente para os 3 o que precisa ser mostrado.

“Muito bem, agora… Fechem os olhos.”

Todos seguiram seu comando. Se concentrando e utilizando sua habilidade, como se fosse um sonho, todos começaram a reviver memórias que não eram deles.

Apesar de Ryoka e Masaya também estarem vendo aquilo, ainda era quase uma novidade. Isso porque a história estava sendo recontada, era realmente como se estivessem assistindo a uma história fictícia.

 

 

A família Illsbert sempre teve muito sucesso financeiro na vida, e sempre foi uma família feliz. Daisuke e Emily Illsbert eram casados há pouco tempo, e estavam no ápice da felicidade das suas vidas. Eles viviam quase uma lua de mel constante, que só teve o ritmo diminuído quando Emily descobriu que estava grávida. Nove meses depois veio a nascer a única filha do casal, Ryoka Illsbert.

Durante a vida deles, Daisuke fez um grande amigo, Suguro Fujiwara. Devido a situação complicada da família de Suguro, Daisuke decidiu dar a casa ao lado da sua para ele e o contratou para trabalhar como caseiro para ele, a diferença financeira dos dois nunca foi uma barreira. Após 3 anos depois do nascimento de Ryoka, o foco no trabalho voltou para o casal, embora eles sempre fizessem o máximo para educar e cuidar de Ryoka, muitas vezes eles dependiam do seu vizinho para cuidar dela… Ou mais precisamente do filho de Suguro, que era o primeiro amigo próximo de Ryoka, Masaya Fujiwara.

“Ei, Ryoka-chan ,vamos!”

“Espere, Masaya, você está correndo muito rápido…”

Masaya era bem agitado e animado quando criança, mesmo não tendo uma presença materna na sua vida.

“Você não conhece sua mãe?”

“Sim, ela foi embora quando eu tinha 3 anos, então não tenho quase nenhuma memória dela.”

Os dois estavam sentados em um balanço.

Ryoka desceu do balanço e colocou a mão na cabeça de Masaya.

“Não se preocupe, agora eu estou aqui.”

“Não me venha com essa, você é menor do que eu!”

Vivenciando essas interações quase todos os dias, nenhum dos dois se sentia solitário.

Até chegarem aos 12 anos de idade.

Por ser alguns meses mais velho, Masaya foi o primeiro. Sua vida normal começou a desandar quando ele fez aniversário. Informações chocantes chegaram a sua cabeça, e sem poder rejeitar aquilo, ele acabou dentro da [Guerra Divina].

Aquela coisa de outro mundo fez ele esconder essa realidade dos outros, e seu comportamento começou a mudar, o garoto agitado e animado começou a ficar mais distante e quieto. Mal ele podia esperar que ao seu lado, outro caso similar viria a existir.

Após o aniversário dos dois, certo dia, Ryoka chamou Masaya para contar um segredo.

Que para sua surpresa era o fato dela ser uma [Avatar de Deus]. Ela achou que ele não acreditaria a principio, mas também para sua surpresa, ele disse que também era um [Avatar de Deus].

“Masaya também…”

“Uh…”

Os dois acabaram ficando sem palavras.

“Nesse caso, devemos aproveitar essa coincidência para nos unir!”

Para tentar quebrar a estranheza, ele sugeriu isso.

Sem realmente entender a profundidade daquilo que estavam entrando, Ryoka sorriu e concordou em claro e alto tom.

E então, os dois se tornaram uma animada dupla… Por muito pouco tempo.

Certo dia, Masaya acordou devido a comoção que estava havendo na sua casa.

Ao ir descobrir do que se tratava, uma chocante imagem veio aos seus olhos—Seu pai estava sendo levado.

Levado pela polícia.

“Pai…!”

Muito chocado, Masaya só conseguiu chamar por ele. Suguro olhou para o seu filho com um olhar triste e desolado.

“Vá para a casa do tio Daisuke, Masaya.”

Foi tudo o que ele disse antes do policial que o segurava urgisse para que ele fosse até a viatura.

Masaya continuou  olhando perplexo para as costas do seu pai, sem notar as lágrimas começando a escorrer pelo seu rosto.

No caminho até a viatura, Suguro passou por Daisuke.

“Suguro… Eu cuidarei do Masaya… E farei o possível para te inocentar.”

Suguro deu um sorriso fraco para seu amigo de longa data. Ele estava feliz de verdade por saber que ele acreditava na sua inocência. Podendo deixar Masaya nas mãos dele sem se preocupar, ele não hesitou mais e entrou no carro.

Daisuke foi até a porta onde Masaya estava em pé, parado.

“Vamos Masaya. Nós precisaremos conversar sobre esse ocorrido, mas antes de mais nada você precisa tomar um banho e comer algo para se acalmar.”

Obviamente, naquele dia Masaya não digeriu nada.

Daisuke tentou ao máximo explicar o que havia acontecido. Basicamente, o pai de Masaya havia sido preso por roubo, havia filmagens dele assaltando a loja e o dinheiro e materiais roubados estavam na casa dele.

Conseguir provar que Suguro é inocente seria uma missão quase impossível, mas Daisuke estava disposto a lutar, pois ele sabia que tinha algo estranho nesse caso.

Masaya não sabia o que dizer, o que pensar, ou como reagir. Ele permaneceu quieto, seus olhos não expressando nenhuma emoção.

A criança de antes havia sido completamente destruída.

“… Masaya?”

Abrindo a porta do quarto onde Masaya tem vivido agora, Ryoka tentou falar com ele. Não era a primeira vez, mas a comunicação entre os dois simplesmente não acontecia mais. Ela tentou de tudo, mas nada surtia efeito.

Ela, no entanto, conseguiu pensar em mais uma alternativa.

“Eu tive uma ideia, Masaya…”

Ela olhou para os dois lados do corredor, confirmando que não tinha ninguém por perto, antes de entrar no quarto e se ajoelhar diante de Masaya que estava sentado na cama, em posição fetal.

“Eu tenho uma habilidade especial chamada [Analyzer]. Ela é uma habilidade ocular que me permite enxergar coisas impossíveis de se ver normalmente. Eu acho que usando ela eu conseguirei descobrir um jeito de soltar seu pai!”

“…”

Mesmo assim, não parecia ter surtido efeito. Notando que era inútil, Ryoka se levantou sem desanimar.

“Não se preocupe! Começarei minhas próprias investigações e trarei resultados, prometo!”

E deixando uma perigosa promessa no ar, Ryoka se virou e se retirou do quarto.

Sem perceber que, por um momento, ele havia esboçado algum tipo de reação, acompanhando ela com os olhos e mexendo a boca como se quisesse dizer alguma coisa.

 

Era difícil dizer se ele escolheu certo ou errado, mas depois de algumas semanas, Masaya mudou novamente.

Pode-se dizer que ele encontrou sua própria maneira de lidar com o caso. Ele se tornou mais frio, e também mais rebelde.

Até que chegou o dia que Daisuke deu uma direção pra vida dele.

“Masaya. Este é Yan Quon, ele é um grande artista marcial que eu contratei para te treinar.”

Daisuke apresentou um homem que embora parecesse já ter mais de 60 anos, tinha um corpo com músculos bem definidos e vestia uma tradicional vestimenta chinesa. Mesmo sendo para uma criança, Yan Quon o cumprimentou respeitosamente.

“Me treinar? Pra que?”

Mas Masaya só o ignorou e continuou o diálogo com Daisuke, o que o deixou um pouco sem graça.

“A partir de hoje, você será guarda-costas da Ryoka. Ela está para começar o ensino fundamental, e depois do último incidente resolvi ser um pouco mais cauteloso. Ah sim, você irá estudar junto com ela.”

Por incrível que pareça, não é como se Ryoka tivesse mais chances de sofrer algo em comparação a qualquer outra criança. Daisuke nunca expôs sua família para a mídia, então ele não precisaria se preocupar tanto. Mas sendo pai, acima de tudo, ele sempre manteve alguém de olho na Ryoka por precaução durante toda sua infância.

Com sua filha crescendo e chegando a adolescência, é natural que ela queira ter mais espaço pra ela. Tentando encontrar um balanço entre a privacidade da filha e a segurança da mesma, a resposta que Daisuke encontrou foi: Masaya.

Como os dois cresceram juntos, se estudassem juntos não haveria problema em irem juntos para a escola. E se Masaya fosse treinado para defendê-la, não precisaria de muita preocupação.

Por causa da nova fase rebelde de Masaya, Daisuke esperava uma forte negação, mas depois de ouvir os seus motivos, surpreendentemente Masaya apenas desviou o olhar para a direção de Yan Quon fazendo um som de “hmph”.

Não sendo apenas muito vivido e experiente, mas também um homem. Daisuke precisou segurar a risada ao ver aquilo. Não era uma risada de deboche ou algo do tipo, mas talvez de felicidade, pois pela primeira vez ele sentiu que conseguiu compreender um pouco o que se passava na cabeça de Masaya.

“Então, Quon-sensei, contarei com você.”

Daisuke falou com Yan Quon antes de se retirar.

 

Apesar de estar diante de um mestre de artes marciais, na visão de Masaya ele era lento e provavelmente poderia o derrotar com um golpe. Mesmo assim, sem saber se era por ainda ser uma criança ou por conseguir enxergar algo que uma pessoa normal não enxergaria, ele via um grande brilhantismo nos movimentos de Yan Quon. Claro, Masaya não podia simplesmente se mostrar ser um super-humano diante de alguém que não está na mesma situação que ele, por isso, ele escondeu o fato o máximo que pode.

Já nos primeiros dias, Masaya se viu interessado em aprender, e apesar da comunicação quase inexistente entre mestre e discípulo, eles produziam grandes resultados facilmente.

Em uma certa noite…

Ryoka abriu a cortina da janela do seu quarto devido a barulhos no seu quintal. Ela sabia o que era, pois acontecia toda noite.

Eram os sons de Masaya treinando sozinho. Mesmo depois das aulas de Yan Quon, ele permanecia praticando por horas.

De longe era possível notar a musculatura de Masaya tomando forma, apesar do pouco tempo de treino e a idade dele. Usando uma simples camisa branca e uma calça comprida preta, aquele era o uniforme de Masaya. Ele estar suando só provava o tanto de esforço que ele colocava no treino, devido a fisionomia sobre-humana dos [Avatares de Deuses].

Ryoka sabia o propósito desse treinamento, seu pai já havia comunicado ela. Uma parte dela estava descontente com a notícia, enquanto a outra queria estar feliz, mas não conseguia, o que gerava grande frustração nela. Isso acontecia devido ao fato da relação dos dois ter ficado muito estranha desde a última vez que se falaram—Há mais de um mês atrás.

Como ela prometeu, Ryoka tem se esforçado do jeito dela para tentar ajudar Masaya, mas ela ainda não havia encontrado respostas, por isso tem evitado contato com ele. Devido ao estado atual de Masaya, ele também tem evitado contato com ela, logo, de alguma forma eles pararam de se falar.

“Masaya… Seu idiota…”

Com um olhar triste no rosto, ela murmurou e fechou a cortina.

Suas palavras contradiziam seus sentimentos. Acima de tudo, ela culpava a si mesma pela sua covardia, assim como culpava o fato dela ter feito uma promessa que não sabe se conseguirá cumprir.

Vestida só com um pijama quadriculado verde e com seus longos cabelos soltos, ela se jogou na cama e começou a encarar o teto.

O que eu devo fazer?

Esperar?

E se continuarmos nisso pra sempre?

Agir?

E se ele se decepcionar por eu não ter cumprido minha promessa?

Ele faria algo assim?

O Masaya de antigamente não, mas o de agora… Eu não sei…

“Aaaaah, que droga!”

Ela se virou na cama e atirou um raio de luz com o dedo no interruptor, apagando as luzes do quarto.

 

Os dias continuaram passando rapidamente, até finalmente chegar o primeiro dia de aula dos dois.

Vestido com seu uniforme escolar, Masaya aguardou por Ryoka do lado de fora da mansão.

Quando ela apareceu saindo do portão, o coração de Masaya pulou uma batida.

O uniforme da escola era um uniforme de marinheiro preto com listras brancas. E pela primeira vez Ryoka apareceu com o cabelo preso em um rabo de cavalo. Ela estava definitivamente muito bonita, eis a causa.

Mesmo assim, foi algo que ele guardou para si, sem esboçar nenhuma reação.

“V-Vamos indo.” – Ryoka se esforçou para não gaguejar, mas foi tudo em vão.

Os dois começaram a caminhar lado a lado, nenhum dos dois puxava assunto.

Desviando o olhar para evitar contato olho a olho, os dois chegaram na escola antes de perceberem. Diferente de uma situação de um casal tímido demais para se comunicar, aquela atmosfera era feita completamente de estranheza entre eles, por isso, estava bem desconfortável.

Em um primeiro dia de aula, todos os alunos da sala tentaram se conhecer. Isso é, exceto Masaya. Sentado do lado da janela com o cotovelo na mesa e a mão apoiando a cabeça, ele passou o dia de aula com uma aura de poucos amigos, logo, poucos se aproximaram.

Cada resposta dele para seus colegas de classe era fria e curta, se conseguir a antipatia da turma era seu objetivo, ele estava no caminho certo. Era capaz de confundirem ele com um delinquente.

Aquilo preocupava bastante Ryoka, mas ela não conseguia se permitir a fazer alguma coisa. Ela nem conseguia puxar uma conversa com ele direito, afinal.

Aquele primeiro dia de aula se tornaria uma rotina rapidamente. Ou quase.

 

“Haa! Haa! Haa!”

Os treinamentos de artes marciais de Masaya continuavam diariamente.

“Você precisa se focar, Masaya.”

Essa não era a primeira vez que Yan Quon dizia aquilo, o que irritava um pouco Masaya.

“Você tem a força, o que é importante, mas força é algo que pode facilmente ser dominado quando se sabe os segredos das artes marciais.”

Você realmente pode dizer isso? Eu posso te derrotar sem que você sequer perceba.

Claro que a reflexão de Yan Quon se restringia aos limites humanos.

“O que você faria para lidar com alguém muito mais forte que você, Masaya?”

“…”

Ele sabia que a resposta que ele tinha não era o que Yan Quon queria ouvir, por isso ficou em silêncio.

“Eu vou fazer uma demonstração. Me ataque com toda a força.”

Ficando frente a frente, Yan Quon entrou em posição de defesa pessoal.

Talvez eu deva dar um susto nele…

Masaya não pretendia exagerar, mas para aliviar sua frustração decidiu usar uma força muito além do comum para uma criança de 12 anos.

“Haa!!”

Avançando em uma velocidade anormal, Masaya tentou socar Yan Quon com bastante força, mas—

“Hu!”

Arregalando os olhos por um instante, Yan Quon desviou a direção do braço de Masaya com uma mão e levou a outra palma da mão direto até o queixo de Masaya, que o forçou a dar alguns passos para trás.

Apesar de ter conseguido enxergar claramente toda a cena, Masaya não entendeu como aquilo aconteceu.

“Lembre-se disso, Masaya. Tendo o conhecimento e as técnicas necessárias, você pode derrubar alguém muito mais forte que você.”

Ele ainda estava surpreso. Naquele momento, Masaya passou a ver as artes marciais um pouco diferente.

 

Os dias iam e vinham. Em um certo momento, algo surpreendeu bastante Masaya.

Era um dia comum em que ele aguardava por Ryoka para ir para a escola.

“Vamos indo, Masaya.”

Quando ouviu a voz dela, ele parou de observar o céu e olhou na sua direção.

“R-Ryoka?”

Havia um detalhe diferente nela.

“U-Umm… O que?”

“Isso…”

Ele colocou a mão no rosto. Agora ela estava usando óculos.

“A-Ah, isso… Minha visão tem piorado recentemente haha…”

Masaya estava chocado. O que mais sobre Ryoka ele simplesmente não tem mais notado? Quando a distância entre eles ficou tão grande?

N-Não, esqueça isso…

“E-Entendo… Vamos indo para não nos atrasarmos.”

Ele balançou a cabeça e se livrou dos pensamentos.

 

Na escola Ryoka acabou se enturmando bem com seus colegas. Masaya sempre observava de longe (Sobre o pretexto de ser o trabalho dele), mas ele mesmo não fez nenhum amigo.

Refletindo um pouco sobre sua situação atual—

“Hey, Fujiwara.”

A atenção de Masaya foi chamada ao ouvir seu sobrenome enquanto caminhava em direção a cantina.

Três colegas de classe o cercaram. Um deles, que parecia o líder, colocou o braço por cima de um dos ombros dele e a cabeça por cima do outro.

Sendo meio que um observador por praticamente todo o tempo enquanto na escola, ele já sabia da índole desses três jovens.

“Nós ‘esquecemos’ de trazer o dinheiro do nosso almoço, e então pensamos “Ah, claro! Fujiwara com certeza irá nos ajudar”. Tenho certeza que você quer contribuir com uns 3000 ienes, certo?”

“Huh. Quem é você?”

Masaya perguntou despreocupadamente, o que irritou o rapaz.

“Como assim?? Você sabe sobre mim, certo?! Seu colega de classe!”

“Normalmente você não se importa com os diferentes nomes dos insetos, certo? Insetos são insetos. E tal como um, você tá me incomodando.”

Aquilo foi passar do limite, o garoto, furioso, se afastou e disse “Peguem ele”. Sem se importar com as testemunhas visuais por ali, eles avançaram para tentar segurá-lo.

Masaya desviou do líder e bateu com seu cotovelo no rosto dele, fazendo-o cair já inconsciente. Outro que se aproximava levou um forte golpe com a parte de trás da mão de Masaya no seu queixo e desmaiou imediatamente. O terceiro, obviamente, parou e optou por algo mais inteligente: Correr gritando.

Era um resultado esperado. Mesmo se fossem três adultos, o resultado seria o mesmo.

Como consequência, Masaya foi suspenso.

 

“Ouvi dizer que você foi suspenso da escola.”

Yan Quon comentou, sem olhar diretamente para o garoto, enquanto continuava o treinamento.

“Uh… Tive que ficar horas ouvindo o sermão do tio Daisuke.”

A conversa parou por ali. Durante alguns minutos os dois continuaram treinando em silêncio.

“Mestre, você acha que eu estou errado por ter agredido eles?”

Yan Quon olhou com surpresa para Masaya, era a primeira vez que ele havia o chamado de “Mestre”. Mas foi só por um instante, logo Yan Quon retomou o treinamento.

“Sim e não.”

“Sim e não?”

Masaya não havia compreendido a lógica por trás de uma resposta como essa.

“Alguns dizem que resolver as coisas através da violência sempre será errado. Não é um ponto de vista ruim.”

“Então eu estou errado?”

“Sim, mas não por isso. Tudo depende do seu estado emocional.”

“Estado emocional?”

“Sim. Usar da violência por raiva ou ódio devido às ações de um terceiro não passa de uma vingança, usar da violência por frustrações pessoais não passa de algo supérfluo, de fato, quase todas as situações podem ser resolvidas sem o uso da violência. Tudo depende do estado da sua mente, você precisa pacificar seu coração e tornar sua mente imperturbável diante de uma situação onde exista essa opção. Alcançando esse estado controlado de espírito você conseguirá encontrar a resposta certa para suas ações.”

Masaya não entendeu completamente o que Yan Quon queria dizer, mas seu discurso o afetou mesmo assim, fazendo aquelas palavras ficarem na sua mente.

“E quando usar a violência seria a opção certa?”

“Salvar alguém de um perigo inevitável? Impedir alguém incontrolável de espalhar o caos? Isso você mesmo precisa encontrar a resposta.”

A conversa novamente morreu ali. Dessa vez sem volta.

 

 

Terminando de se vestir, Ryoka se olhou no espelho e viu seu reflexo vestindo roupas casuais. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo e ela estava usando seus óculos. Ela estava pronta para sair.

Mais uma vez.

Já havia se tornado uma rotina, todos os dias ela saia mais ou menos na mesma hora. Ela não ia muito longe, por isso Daisuke não se preocupava. De fato, ela nem sequer saia dessa rua, muitas vezes nem sequer ia 2 casas de distância daqui.

Antes que pudesse sair do quarto, ela ouviu batidas na porta.

“Ryoka-sama, Daisuke-sama chama pela senhorita.”

Ao ouvir a voz de uma das empregadas da casa, Ryoka respondeu com um formal “Estou indo” e voltou a terminar de se preparar para sair.

Após isso, ela desceu as escadarias da mansão e se dirigiu até o escritório de Daisuke, que aguardava por ela.

“Pai? O que houve?”

“Ryoka… Você soube sobre a suspensão do Masaya, certo? Afinal, vocês voltam da escola juntos.”

Ryoka não conseguiu responder de imediato. Ela não esperava esse assunto. Com bastante esforço ela respondeu positivamente.

“É bem simples, hm… Eu sou muito ocupado, mas não consigo deixar de me preocupar com aquele garoto. Eu percebi que vocês andam se falando muito pouco, tentei evitar tocar nisso já que a situação dele é tão delicada, mas… Ryoka, você precisa fazer algo.”

“… Eu?”

“Eu sei que pedi a ele para ser seu guarda-costas, mas isso não significa que você precisa deixar que ele resolva tudo sozinho, Ryoka.”

“Eu não—“

“Ryoka.”

Ela parou de falar e notou que estava tentando não apenas mentir para si mesma, mas tentar enganar seu próprio pai para não admitir isso.

“Você pode fazer isso. Ou melhor, só você pode. Recupere o Masaya enquanto é tempo, antes que ele se perca de vez. Se eu o contratei para ser seu guarda-costas, agora estou te pedindo para ser a ‘guarda-costas’ dele. O que me diz?”

Apesar de tudo, aquilo era uma pergunta retórica. Aquela garota, no fim das contas, era filha de Daisuke, ele sabia muito bem o que ela iria dizer.

Comovida com as palavras do seu pai, Ryoka respirou fundo e respondeu, com um sorriso no rosto, um forte “Sim!”.

 

Ryoka estava na frente da casa de Suguro, pronta para mais uma tentativa.

Algo que ela vinha fazendo faz tempo… Tentando encontrar pistas que provem a inocência do pai de Masaya.

Normalmente isso seria uma tentativa inútil, não tem como uma criança fazer algo que a policia não conseguiu. Mas isso, obviamente, não se aplica aos [Avatares de Deuses].

Graças a sua técnica especial—[Analyzer]—Ryoka pode tentar encontrar pistas “invisíveis” a olho nu.

Ela já havia procurado por toda a casa, dessa vez estava investigando o jardim.

Se alguém estava tentando incriminar Suguro, para colocar o dinheiro e os materiais dentro da casa esse alguém precisaria entrar nela em algum momento. Como é possível não haver marcas deixadas?

Mas não só era possível, como era o caso. Ryoka não encontrou nada. Absolutamente nada.

Sua vista já estava cansada e ela havia olhado por todo o lugar.

Minha vista está piorando…

Ela já havia percebido o efeito colateral do uso contínuo do [Analyzer], mas continuava a usar mesmo assim.

Quando pensou em desistir, as palavras do seu pai vieram a sua mente.

Não posso desistir! Se o [Analyzer] não consegue me dar respostas, então eu só tenho que encontrar outro meio!

Já tendo feito alguns testes, Ryoka sabia que poderia descobrir novas habilidades caso elevasse seu nível de poder.

Confirmando sua decisão, Ryoka começou a aumentar drasticamente seu nível de poder. Ela sentiu um calor crescer dentro dela enquanto mudanças físicas aconteciam nela.

Informações antes desconhecidas vieram até sua mente.

—Encontrei!

[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].

A técnica capaz de acessar toda a história da criação.

Com algo assim, descobrir a verdade por trás da prisão do pai de Masaya será fácil.

Não há o que esperar…

“[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou]!”

O espaço se distorceu e se alterou completamente, uma nova dimensão apareceu diante de Ryoka.

Agora, Zenchi Kūkan, me mostre a verdade!

E então, imagens apareceram na mente de Ryoka—Ou melhor dizendo, memórias.

Os olhos de Ryoka se arregalaram completamente.

I-Impossível… Por quê?

Foi difícil compreender.

Duas pessoas.

Poderes especiais.

[Avatares de Deuses]?

Ao ver claramente as ações de uma garota usando estranhas habilidades para incriminar Suguro, Ryoka só pode se perguntar qual era o sentido daquilo.

Eu… Eu preciso contar isso ao Masaya urgente!

Cancelando sua técnica e voltando tudo ao normal, Ryoka decidiu correr até Masaya imediatamente. No entanto—

Eh?

Um choque passou pelo seu corpo, sua visão escureceu e logo ela perdeu a consciência.

Ignorante dos efeitos colaterais de usar muito poder, Ryoka ficou inconsciente durante dias.

 

 

Ryoka se levantou, um pouco tonta.

Tudo estava escuro, mas não era como se ela não enxergasse e sim como se o chão e o espaço ao redor fossem, de fato, pretos.

“… Onde…”

Ao sentir uma luz vindo de trás dela, ela se virou. Descendo do céu vinha uma grande esfera de luz.

“… Ryoka.”

Ao invés de curiosidade, medo ou surpresa, ela só conseguiu sentir fascínio ao olhar para a luz.

“Q-Quem… Quem me chama?”

A esfera ficou a uma altura próxima do solo e começou a tomar forma.

Uma garota com cabelos loiros esbranquiçados e olhos dourados sorria para Ryoka.

“Ryoka.”

“… Quem é você?”

Mesmo estando fascinada, Ryoka não conseguia deixar de notar… Ela parecia estar se olhando no espelho. A garota tinha cabelos e olhos diferentes, mas de resto era exatamente igual a ela.

“Eu sou Palas Atena.”

“A-Atena…”

“Haverá tempos em que você precisará tomar decisões importantes, Ryoka.”

“Decisões… Importantes?”

“Meu dever é te guiar. Mas… Vejo que você já está trilhando o caminho da justiça.”

“Caminho da justiça?”

“Entretanto, acima dos seus sentimentos pessoais, você deve priorizar a ordem e usar a sabedoria para guiar os perdidos.”

“…”

“Haverá tempos em que você precisará assumir a liderança, para assim triunfar sobre todas as impossibilidades.”

“…”

“Você não precisa de mim, Ryoka. Sei que buscará a justiça acima de tudo. Estarei te observando de longe, como sua outra metade, até o momento em que nós duas eventualmente nos separemos para toda a eternidade.”

O corpo de Palas Atena começou a se deformar e se tornar luz novamente.

“… E-Espere, Atena!”

Ryoka tentou esticar a mão e tocar na luz, mas a esfera se afastou e começou a voar para a distância.

Ryoka tentava correr atrás, mas parecia que a luz estava cada vez mais distante.

Se realmente quiser paz, lute pela justiça.

A luz então desapareceu completamente.

“O caminho da justiça…”

Enquanto olhava para direção da luz, a consciência de Ryoka foi se tornando mais e mais pesada, até que ela caiu de joelhos no chão e caiu deitada logo depois.

 

Como eu deixei isso acontecer?

Masaya estava sentado em uma cadeira do lado da cama de Ryoka.

Já faziam 4 dias desde que encontraram Ryoka inconsciente.

Mesmo o melhor médico da cidade não conseguiu encontrar a causa. Por isso, Masaya tinha uma ideia de que poderia ser algo relacionado aos [Avatares de Deuses].

Devido a isso, ele também começou a teorizar que a visão dela ter ficado ruim tem a ver com a habilidade ocular especial dela.

“… Masaya?”

A voz de Ryoka trouxe Masaya de volta para realidade.

“Ryoka! Você está bem?!”

Um pouco agitado, ele se aproximou dela, mas foi impedido com um leve gesto de mão.

Ryoka se sentou na cama e olhou para ele diretamente.

“Eu finalmente descobri.”

“Uh? Do que você está falando? O que aconteceu?”

“Quem incriminou o seu pai… Eu descobri.”

Por um momento o tempo parou para Masaya. Em choque, ele sequer soube o que pensar.

“Espere só mais um pouco, conseguirei informações sobre eles. São dois… [Avatares de Deuses].”

O impacto em Masaya foi inimaginável, e o diálogo entre os dois acabou forçadamente interrompido ali. Posteriormente houve uma comoção quando Daisuke e Emily descobriram que Ryoka havia despertado. A causa do seu desmaio permaneceu um mistério e alguns dias depois Ryoka conseguiu as informações que precisava através do seu pai.

Hildegard Antonia e Yiannis Zinon. 12 e 13 anos respectivamente.

Antonia tinha longos e chamativos cabelos violeta, e olhos da mesma cor, uma jovem garota exótica. Já Zinon tinha cabelos curtos, era loiro e com olhos verdes.

Através da sua técnica especial, Ryoka conseguiu descobrir a aparência e o primeiro nome dos dois, o resto foi fácil de encontrar. Zinon parecia vir de uma família normal, por outro lado, não havia nenhuma informação sobre a família de Antonia.

“Masaya?”

Ryoka bateu na porta do quarto de Masaya e o chamou, em poucos segundos ela foi atendida. Masaya não havia dado as caras desde que ela revelou a descoberta.

“Conseguiu as informações?”

Seu tom parecia mais frio que o normal, sua expressão estava escondida.

“S-Sim… Aqui.”

Ela entregou o que pareciam duas fichas sobre os dois. Masaya deu uma rápida olhada.

“Agora nós temos que pensar em um jeito de—“

“Você fica aqui.”

“Eh?”

Demorou alguns segundos para Ryoka entender o que Masaya quis dizer. Só quando ele deu as costas para ela e se dirigiu para a janela que ela conseguiu reagir.

“Espere, Masaya—“

“Esse é um problema que EU preciso resolver. Espere eu voltar aqui!”

Tendo dito isso, Masaya abriu a janela e saltou para fora.

“Masaya… Será que eu cometi um erro?”

Ryoka se perguntou se, no fim das contas, todo o esforço dela só serviria para piorar a situação.

 

 

Masaya já tinha a aparência, os nomes e até mesmo o endereço. Seu destino era só um.

Ainda era de manhã cedo, mas seus nervos estavam à flor da pele.

Ao chegar no bairro que constava nos papeis, ele começou a procurar. Como ele viajava saltando de teto em teto, sua visão era bem ampla.

Surpreendentemente, muito mais fácil do que ele imaginava, seus dois alvos foram avistados caminhando lado a lado com um uniforme escolar que ele desconhecia.

Sem esperar nem mais um segundo, ele saltou diretamente na frente dos dois.

Um jovem rapaz— Yiannis Zinon.

Uma jovem moça— Hildegard Antonia.

“Huh? Quem é você?”

Com uma das mãos por cima do ombro carregando sua pasta, Zinon questionou o misterioso garoto que apareceu na sua frente com um olhar de leve irritação e duvida.

“Uhmm, parece que fomos descobertos, Zinon.”

Antonia, com um sorriso arrepiante no rosto, comentou casualmente.

“Huh? Foi por isso que eu disse para não fazermos algo tão aleatório como você queria.”

O olhar de irritação dessa vez foi direcionado a Antonia.

“Eeeh? É minha culpa?”

Sem mais aguentar ver os dois discutindo como se ele não existisse, Masaya levantou o rosto.

“Vocês armaram para meu pai ser preso, não foi?!”

Um olhar de ódio ocupava o rosto de Masaya.

“Ah…”

“Sim, foi isso mesmo!”

Enquanto Zinon procurava o que responder, Antonia confessou o crime como se não se importasse.

“Hey! Não confesse o crime como se não tivesse nada a ver com você!”

“Eeeh? Estou errada?”

Masaya simplesmente sentiu como se estivessem debochando dele, já tendo a confirmação que queria, ele decidiu se mover.

Apesar de sido instintivamente, ele escolheu atacar Zinon primeiro. Ele deu um soco na cara dele e o jogou para longe.

Antonia acompanhou o corpo de Zinon sendo jogado para longe com a cabeça.

“Ooh… Espere, isso é um problema! Precisamos lutar na [Dimensão Reversa], não?”

Ela entortou a cabeça enquanto falava com Masaya.

Ele não sabia qual era o problema dela para agir dessa forma com ele, mas ela tinha um bom ponto.Antonia abriu a [Dimensão Reversa], grande o bastante para ter espaço para os três lutarem, o que cobriu parte da rua.

“Nós fizemos seu pai ser preso por algo que ele não fez. Se quiser podemos soltá-lo, mas pra isso você terá que vencer nós dois! O que acha? Você só terá uma chance. Se ganhar, desfaremos essa armação, mas se perder, terá de aceitar a prisão dele hehe.”

Masaya olhou com os olhos arregalados para a proposta de Antonia, ele não conseguia acreditar no que ela estava falando.

“Eu já pretendia chutar vocês dois para o quinto dos infernos de qualquer forma. Mas antes eu preciso saber… Por quê?”

Masaya nunca havia visto esses dois na vida, que ligação eles tem com Suguro? Porque eles fariam algo assim? Isso era o mínimo que ele precisava fazer.

“Antonia queria te testar. Huh, talvez seja melhor dizer ‘testar sua mente’?”

Masaya olhou surpreso para Zinon, que se aproximou só com um pequeno corte na boca.

“Testar minha mente?”

“Huh… Sabe, a Antonia é a [Avatar de Mens]. Mens era a personificação do pensamento, consciência e da mente na mitologia romana. Por isso, ela queria testar sua mente, é algo tipo um instinto natural para ela. Quando ela te encontrou e viu seu dia-a-dia, ela insistiu que precisávamos destruir aquilo para ver como você lidaria com a situação.”

“Então eu usei meus poderes para causar a prisão do seu pai, e você se tornou completamente outra pessoa hehe.”

Pasmo. Era a melhor definição para Masaya naquele momento.

Ele havia se decidido, esses dois eram loucos.

Já era um pouco notável a aura meio psicótica de Antonia, mas ele não imaginava que ela tentaria destruir a vida de um estranho porque seus “instintos” queriam assim.

“Lamento pelo seu pai, cara. Mas a Antonia pode ler mentes, ela descobriu que você era um [Avatar de Deus] junto com aquela sua amiga imediatamente. Você só deu azar de estar no lugar errado, na hora errada, agora é seguir em frente.”

Zinon também claramente não era normal. Dando conselhos para aquele que você tentou destruir a vida era simplesmente bizarro.

Não havia mais porque dialogar.

“Entendo…”

Masaya fechou os punhos com força e cerrou os dentes.

“… Estejam prontos para pagarem pelo que fizeram!”

As botas de Hermes apareceram nos pés de Masaya, que avançou em alta velocidade na direção de Zinon e tentou atingir seu rosto mais uma vez.

No entanto—

“Duas vezes seguidas não!”

Agora com um sorriso no rosto, Zinon já havia largado sua pasta e agora segurava uma espada de duas mãos, que ele usou para se defender.

“Você luta, Zinon. Eu não sou uma lutadora, então ficarei olhando, okay?”

“Huh, desnecessário dizer.”

“Tch!!”

Masaya tentou novamente, saltando e atacando com socos e chutes em alta velocidade, mas Zinon ainda conseguia se defender, os poucos ataques que o atingiam pareciam não surtir muito efeito.

“Hahahaha, agora está falando minha língua!”

Zinon balançou sua espada de duas mãos, mas Masaya recuou e se esquivou, uma rajada de energia com formato arcaico voou na sua direção, mas ainda era lento demais para atingi-lo, que desviou rapidamente para a esquerda—

“!!”

Masaya sentiu um forte impacto atingir seu corpo e jogá-lo para longe.

Capotando no chão, ele sentiu seu interior ficar bagunçado.

O que foi isso?! Um ataque invisível?!

“O que aconteceu, cara? Seu ódio só vai até ai?”

Caindo totalmente na provocação de Zinon, Masaya avançou para cima dele novamente.

“Aaaaaah!!”

Zinon não tinha velocidade o suficiente para se esquivar, mas enquanto conseguisse se defender, o dano seria mínimo.

Ele saltou para trás, segurou a espada com uma das mãos e levou o braço para trás como se estivesse puxando a corda de um arco. Em seguida, ele deu uma estocada na direção de Masaya.

A distância entre os dois era grande, logo, a espada nunca tocaria em Masaya dali.

Mas depois do primeiro ataque, Masaya já sabia o que esperar. Ele tentou se afastar o máximo possível, mas…

Sua visão se distorceu junto do seu corpo.

Ou melhor… O cenário estava se distorcendo.

A rua, as paredes, as casas, tudo estava se curvando de maneiras impossíveis. Em um instante, uma onda de impacto foi liberada e destruiu tudo ao redor do local, Masaya foi lançado para longe.

“Ufa, esse foi um bom aquecimento!”

“Eeeh? Já acabou? Esperava algo mais emocionante…”

“Huh… Pare de esperar coisas psicologicamente ou emocionalmente mais efetivas de tudo.”

Mais uma vez, Masaya se levantou. Seu corpo mal conseguia se manter de pé.

“Ah, ele levantou novamente!”

“Aprenda a desistir, cara.”

Os dois olharam para ele, Antonia com um olhar de curiosidade, Zinon com um olhar de pena.

Se ao menos a usuária do poder… Ao menos ela… Talvez…

Última tentativa. Masaya preparou-se para usar toda sua energia restante em um único movimento.

Ele sabia que Zinon não era rápido o bastante para entrar na frente do seu ataque. Se ele conseguir derrota-la com um golpe…

“HAH!!”

“Huh?!”

Em um movimento ultra veloz, Masaya surgiu na frente de Antonia, quando Zinon percebeu era tarde demais!

Dando um soco diretamente na direção do coração de Antonia, ele terminaria a luta imediatamente.

Talvez ele tivesse conseguido… Se tivesse acertado.

O brilho nos olhos de Masaya desapareceu quando ele notou que seu ataque não atingiu Antonia.

Não foi ela quem desviou, foi ele quem errou o ataque.

Como… Como isso é possível…

“Você cometeu um erro, cara!”

Aproveitando o momento, Zinon acertou o corpo de Masaya com a espada e o jogou diretamente no muro de uma casa, o impacto fez o ar sair dos pulmões dele.

Todas as suas forças acabaram, todo seu corpo doía. Ele estava sentado no chão, em um péssimo estado, e olhando para o nada.

“Bububu, você perdeu. Seu pai ficará preso por anos agora!”

O tom de voz de Antonia não era de deboche, nem nada do tipo, ela apenas o informou casualmente.

“Huh, ele parecia que seria um oponente melhor.”

Zinon pegou sua pasta no chão, e se virou.

“Vamos indo, Antonia.”

“Nós vamos nos atrasar, não vamos?”

“Se nos apressarmos talvez consigamos a tempo.”

A voz dos dois lentamente desapareceu.

Masaya logo perdeu a consciência graças ao dano recebido.

Com a [Dimensão Reversa] cancelada, toda destruição e ferimentos de Masaya desapareceram.

Mas um dano em específico permaneceu.

 

 

“Masaya, o que houve? Você não tocou na sua comida ainda.”

A voz do seu pai, preocupado, veio aos seus ouvidos.

O pequeno Masaya, com 6 anos de idade, não estava com fome.

“Papai, quando a mamãe vai voltar?”

Suguro congelou quando ouviu a pergunta do filho.

“M-Masaya… Sua mãe não vai voltar…”

“Mas eu sempre vejo todo mundo com suas mães…”

Masaya olhou para o seu prato, o pouco de comida que tinha ali era triste de se ver.

“Porque só eu não tenho mãe? Porque comemos tão pouco? Eu não gosto disso!”

Suguro não soube como agir. Vendo isso, Masaya saiu correndo para seu quarto.

“Desculpe, filho…”

 

Dentro do seu quarto, Masaya se lamentava. Ele não queria entristecer seu pai.

Para Masaya, Suguro era a única família dele.

“Desculpe, papai…”

Apesar de não falar diretamente para Suguro, por sentir vergonha após ter agido daquela forma, ele ainda se arrependia.

“Eu prometo que serei mais animado daqui pra frente e ajudarei em casa…”

Seu maior medo era perder a única coisa que lhe restou.

Desde aquele dia, ele se forçou a ser mais animado, a demonstrar menos tristeza.

Eventualmente essa coisa forçada se tornou algo natural quando conheceu alguém importante para ele…

 

 

“…ya!”

Uma voz trouxe sua consciência lentamente de volta para a realidade depois de um sonho azedo.

“Masaya!”

Ao abrir os olhos, o rosto de Ryoka estava diante dele.

Entendo… Eu perdi. Desculpe, pai…

“Alguém me viu inconsciente?”

“Não… Eu te trouxe pra cá sem que ninguém percebesse.”

“Desculpe por isso.”

Por algum motivo ele se sentia mais à vontade para falar com Ryoka agora.

“… Você está bem?”

“Sim, não se preocupe. Eu só preciso descansar mais um pouco, então…”

“Ah… Tudo bem, eu vou deixa-lo descansar… Se precisar de mim é só chamar.”

Ele acenou positivamente com a cabeça, tentando parecer o mais gentil possível. Assim que Ryoka saiu do quarto, a atmosfera ao redor dele ficou mais depressiva.

Deveria eu realmente… Apenas desistir?

O que ele pode fazer? Quais são suas opções?

Para Masaya, os sentimentos pesados no seu peito o faziam ter duvidas sobre tudo. A ponto de considerar aceitar as coisas do jeito que estão.

Se isolando sentado no canto da cama, ele começou a pensar no que fazer.

Foram algumas horas até que alguma ação relevante chegou na mente de Masaya.

Talvez… Talvez me comunicar traga alguma resposta…

Decidindo se livrar de vez dessa atmosfera que o circundava, ele se levantou e saiu do quarto.

Contos de Ustrael – Cidade de Ballas (Capítulo 6)

A cena era no oceano de Kanszes.

Aos poucos…E de maneira lenta….Kaori foi abrindo os olhos.

“!”

Levou um susto pelo fato de estar sendo carregada as costas de alguém.

“Hu?Finalmente acordou, princesa?”

“Last…?”

“Estava passando por ali e a vi, então ainda continua com esses treinos loucos e sem sentido?Dessa vez passou mesmo dos seus limites, ficou sonsa, fechou os olhos e afundou no meio do mar, podia morrer afogada se não tivesse ninguém por perto, não seja tão irresponsável da próxima vez.”

“…”

Deu apenas um sorriso fraco.

“Sim, obrigada…”

Foi como o jovem bem disse, a herdeira de Kanzes treinava há duas horas interruptas dois golpes que exigem demais de seu corpo, se colocar na balança que ontem a noite teve um sparing realmente puxado com Ground que ainda faz seus membros estarem doloridos, o certo seria passar a manhã em repouso.

Porém…

Não.

Não conseguia.

O casamento estava cada dia ficando mais perto, tomou para si que jamais deve achar que sua força atual é boa o suficiente para lutar contra Perseus, mas é um fato que se encontra passando um pouco dos limites atualmente.

Last não é o nome deste garoto, o verdadeiro é Lastarus, sim, uma bela de uma porcaria segundo o detentor do que chamou de “maldição” de uma mãe.

Last é um jeito carinhoso que Kaori se refere a ele.

É um dos estudantes da academia de paladinos que existe na ilha três e em algumas outras, o jovem é um verdadeiro prodígio que dominou inúmeras técnicas avançadas de maneira veloz se tornando extremamente hábil na arte da espada e magia ao mesmo tempo.

Por seus resultados foi selecionado para entrar rapidamente no exército e realocado para a ilha principal.

Inclusive, como o guarda-costas de Kaori recentemente.

Por não estar trabalhando nesse momento vestia roupas casuais do verão infinito do país.

Possui cabelos dourados que caem até a orelha com belos olhos verdes.

18 anos e 1,80cm.

—–

Chegaram a margem da ilha e caminharam até o hotel que ficava ali perto construído em cima da própria água.

Como princesa, era apenas claro que não precisava pagar por nada, sendo assim, entraram sem problemas em um dos quartos.

Primeiro trocou as roupas molhadas pelo fato de ter naufragado, depois se sentou a cama enfaixando a canela.

Forçou demais uma postura e pareceu que o osso ia quebrar, era difícil andar e cada toque fazia parecer que se quebraria em mil pedaços.

“Você devia pensar mais em mim.”

“Hã?”

Olhou para frente e o viu cruzando os braços.

“Se a princesa morrer em um acidente de treino a cabeça do guarda-costas vai junto!Quem acha que ia te salvar naquela parte deserta do oceano se eu não estivesse te procurando há uns 40 minutos, heim???”

“Desculpe, desculpe!”

Essas palavras foram em um tom totalmente irônico sem um pingo de arrependimento, aliás, a própria pergunta de Lastarus foi uma ironia, a chance dela morrer afogada era 0.

“Por que não ligou pro meu celular???”

“Por que você não atendia!”

“Ah…Eu o esqueci mesmo no quarto…”

“IDIOTA!”

Mas…Agora sim.

Agora fez um olhar preocupado e se aproximou sentando na cadeira ao lado.

“Entendo o turbilhão de coisas que devem estar passando na sua mente neste momento por causa do casamento, mas saiba de algo, se forçar além de seus limites assim não vai melhorar nada, aliás…”

Cerrou os olhos.

“Por que está treinando tanto assim?Não parece que você quer simplesmente ficar mais forte do nada, QUER IMPRESSIONAR O PERSEUS, É?!”

“CLARO QUE NÃO!”

Obviamente que Lastarus não sabia a verdade dos eventos de 18 anos atrás, tinha para ele, tal como todo o povo do país, que a pessoa a sua frente era a filha de Órion.

Então…É apenas natural.

Nada anormal não entender por que se esforçar tanto assim nos treinos sendo que “não iria” se rebelar contra Perseus e nem traria bons resultados a curto prazo arriscando tanto assim a saúde.

Qual seu objetivo?

O que exatamente quer?

Foi pego em total curiosidade.

“Eu apenas…Tenho algo a provar para um certo alguém que vai estar aqui no casamento e-

Deu um grito e abaixou a cabeça.

O motivo?

Ele a socou.

“NOVAMENTE, IDIOTA!NÃO COLOQUE SUA SEGURANÇA EM RISCO POR ORGULHO!”

“Não é orgulho…!!!”

Pelo golpe repentino fez bico.

Mas…O deu um sorriso sincero.

“!”

Foi do nada.

Veio completamente do nada e fora pego de guarda totalmente baixa.

Injusto!

Não conseguiu encará-la e virou o rosto.

“Mas obrigada por se preocupar comigo, eu não posso te contar agora, mas vai entender em pouco tempo.”

“Entender, é?”

Fez um olhar reflexivo.

Kaori nunca foi orgulhosa.

Muito pelo contrário.

Se existe algo que não pode atingir sozinha…Pede ajuda e a aceita sem problema algum, nunca viu problema em depender dos outros para atingir lugares ao qual sozinha são inacessíveis.

Então…

Realmente não pode ser algo tão idiota como orgulho se nunca o teve.

Logo… Se está se esforçando tanto assim nesses treinos recentemente…A situação que iria ocorrer em breve realmente pedia esse esforço, certo?Sendo algo assim não pode culpá-la.

Na realidade ele sempre soube disso.

Apenas tentou fazer um jogo de palavras para Kaori dividir este problema com ele.

Pois não saber os problema que a garota que ama está passando é horrível.

Se sente um inútil por não ter força para fazer nada, queria fazer algo, qualquer coisa independente do que fosse, por que toda vez que pensa no dia em que provavelmente será entregue a Perseus…

Se sentia frustrado.

Completamente irado.

Queria ajudar e tinha vontade de gritar estes sentimentos a ela, mas…Não vai, ela não vai dizer nada, já podia ler essa resposta vendo a expressão da jovem.

Se fosse tão fácil já teria dito.

O paladino ergueu o braço o que a fez fechar os olhos achando que ia vim outro soco.

Mas…Tocou o ombro dela o que a fez levar um susto.

“Apenas não se esforce demais.”

“Sim…Obrigada por compreender.”

“Hu, você é bem injusta.”

“QUE FOI DESSA VEZ?!”

Olhou para cima, o notou fazer um olhar sério.

“Tendo me escolhido em meio a tantos outros com esse casamento marcado, hu, não sabe como me sinto por só poder ficar olhando.”

“Ah…”

O sentimento de amor era recíproco.

Mesmo antes de Lastarus ser movido a ilha principal, enquanto ainda estava em formação na ilha três…Ele e Kaori sempre andavam juntos até que evoluiu a algo maior recentemente.

Mas…

O casamento impedia de realmente terem planos futuros.

A ordem de momento, por enquanto, era aproveitar estes dias e vê o que o futuro aguardava.

“Ei, Last.”

“Hum?”

Ela disse.

Falou claramente.

“Meu irmão está vindo chutar a bunda do Perseus.”

Sim.

Porém…Falou em outro idioma, um que Lastarus não era nem um pouco fluente.

“…”

“…”

“FALE EM UM QUE EU POSSA ENTENDER!”

“Acredite!Quando você entender o que eu acabei de falar, vai mudar tudo, MAS NÃO USE NENHUM TRADUTOR!”

“POR QUE!?Ah, olha aqui, dane-se você!”

Ficou em pé caminhando até a porta, saiu e fechou com força fazendo o cômodo tremer

Ela deu uma risada.

“(Onde você vai????)”

“(Não sei!)”

Foi por telepatia.

Kaori levou a mão até os dedos do pé e começou a se alongar, a pressão não devia demorar tanto tempo a passar a partir de agora.

Se jogou de cabeça no travesseiro e olhou para a direita vendo o oceano.

Estava animado.

Banhistas nadando, praticando snorkel e outros esportes, lanchas, navios….

O mar de Kanszes era extremamente vivo.

O conhecido “tráfego oceânico”.

Uma das coisas que estava treinando era…Usar o elemento de gelo, ao qual, é o mais compatível a ela buscando atingir a maior temperatura negativa possível que para todos os átomos, e, para tal era necessário usar a Unlimiteds.

A usando, pode ir aos extremos de qualquer elemento que existe no planeta.

Mas não era fácil.Dominar esses extremos que tem a porta aberta pela unlimiteds força demais o corpo.

E logicamente não fora isso que quase quebrou sua perna.

E sim um golpe que estava criando.

Apenas suspirou.

Com certeza não ficará pronto em apenas três meses.

“Isso é difícil…”

Levantou o punho na direção do teto.

“Mas bem…”

Fechou os olhos.

“Eu vou ter que ir para Ballas amanhã negociar com o Rei, é melhor que paremos por aqui.”

“Hu!”

Ele voltou.

Só o percebeu quando o “viu” jogar uma garrafa de suco em sua direção que agarrou por puro reflexo.

“Termos que dar apoio a esse futuro aliado idiota que não pode resolver seus próprios problemas, é um tanto problemático.”

A situação de Ballas no momento…É complicada.

Olhando de fora…

Não entendia.

Nenhum dos dois podia ver o que teriam a ganhar se aliando a um país com tantas dificuldades ao qual nem mesmo de Rank-5 é.

Mas sem duvidas tinham um poder militar imenso, apesar disso.

A intenção de Adeko era clara.

Está escancarada.

Negociar um tratado que vise o melhor para Kanszes quando terminarem de ajudar Ballas com seus problemas.

Negociar um tratado que vise o melhor para Kanszes.

Sim.

Isso está em suas mãos.

“Meu tio sempre faz tudo pelo país e dificilmente tem uma visão errada sobre qualquer coisa ao redor, e se você quer mesmo saber…”

“Hã?”

“Está bem claro que ele quer que eu negocie com o Rei, e nesse tratado…Uma brecha seja aberta para uma traição e tomar tudo depois.”

“Ho?”

Deu uma risada.

Era realmente algo típico de Adeko por outras atitudes basicamente idênticas.

“Mas eu posso entender, por trás dessa tirania e desejo de proteger Kanszes acima de tudo..Ele não quer deixar tudo que seu pai protegeu se perder.”

“(Meu “”pai””, né?)”

“Você só se tornou um paladino por causa do “meu pai”, né?”

“Não só a mim, Órion foi uma inspiração para todas as crianças de Kanszes, quando alguém nos diz o que ele fez não tem como não querer proteger este país com todas as nossas forças, hu, se certifique que quando for a primeira rainha que comandará este país, ter a mesma influencia do seu pai, tio, e os outros.”

“Rainha, é?”

Não.

Não tinha o que rebater no momento.

Apenas esperar…O destino de todo o país seria decidido em três meses.

Até lá…Não tem outra escolha se não arcar com os títulos que possui.

“Ah, sim, isso era o por que estava lhe procurando.”

“Hã?”

Jogou uma pequena caixa de presente na cama ao lado dela, ficou em pé e a segurou.

“Estava destinado a você, me pediram para entregar.”

“Um presente…?”

Desconhecido.

Só tinha o seu nome e não constava o remetente.

Bem…É estranho.

Com certeza.

E por tal hesitou um pouco, mas decidiu abrir.

“!!!!!!!!!!!”

“KAORI????”

O olhar dela se abalou.

Ira.

Um ódio que corrompeu cada célula em seu corpo.

Era a cura.

A cura do androgênesis mandada por Perseus com uma mensagem.

“Para minha noiva preferida.”

“Vá pro inferno…!!!!!!”

Isso foi uma clara provocação.

Pegou a seringa ao qual continha o soro, e então…A jogou no chão o despedaçando!

“KAORI!?”

—–

Kai e Lumia haviam alugado um quarto de hotel.

E ela se sentia mal enquanto o ex-príncipe ainda estava rindo, ele usou a manipulação de Ki…Para criar dinheiro falso.

Pegaram um quarto cinco estrelas do melhor hotel da cidade de graça.

“Qual o problema, bruxa?”

Estava deitado ao sofá.

“Qual o problema…?Me diga, Kai, como você vive sua vida até hoje?Enganando todo mundo assim, é?”

“Cada um faz o que pode para sobreviver.”

“O que pode, é?”

Não parece muito.

Ela é uma maga de nível extremamente alto.

Então é apenas natural que note algumas coisas.

A energia vital dele está fraca.

Terrivelmente fraca.

Não iria demorar muito para chegar a 0 em alguns anos e morrer.

Seria algum tipo de maldição?

Não queria se intrometer na vida dele e perguntar, mas…Visto que disse que iria ajudá-la mesmo quando viu ser enganado queria tentar fazer algo para retribuir o favor.

Lumia é talentosa.

O suficiente para destruir o androgênesis caso venha a se focar nisso.

Porém, ao menos por enquanto não falaria nada.

Se ele não quer dizer, mesmo sabendo que poderia ajudá-lo, pois com certeza já sabe a essa altura, é bem claro que não queria ninguém envolvido.

Mas, terminando o que vão fazer em Ballas.

Iria tocar no assunto se nada for dito.

—–

Uma cachoeira estava desaguando neste local.

Tomando banho nela…Havia um homem que se encontrava de olhos fechados meditando.

Devagar…Os abriu.

Pegou a lança ao lado, a girou e atacou!

Mudou por alguns segundos o fluxo da água a fazendo subir para cima.

E então…Voltou a cair normalmente.

Era o Rei de Ballas.

“Daichi.”

Ao escutar ser chamando, se virou para a direita.

Um soldado se aproximou.

“A princesa de Kanszes chegará em pouco tempo.”

“Ah?”

Sorriu.

“Entendo, obrigado pelo aviso.”

—–

Um navio cruzava o oceano.

Era aquele que levaria Kaori e Lastarus até Ballas,saíram as três da manhã e mesmo o navio se movendo a mach 2 iriam demorar 12 horas para chegar a seu destino.

Sim, a distancia entre os países é enorme.

Kaori estava apoiada nas grades olhando o oceano ao mesmo tempo que usava fones de ouvido.

Calma.

Se encontra aparentemente calma demais para quem até ontem praticava ao espelho como se portar.

E isso foi percebido pelo paladino que parou ao lado.

“Está bem calma, não é?”

Deu uma risada.

“Não, nem um pouco, só tento transparecer.”

“Ho?Ao menos pode blefar para o Daichi com essas expressões falsas, você pode ser uma boa manipuladora se quiser.”

“…Pelo o que meu tio disse…Tentar mentir para aquele homem é um suicídio.”

—–

Kai e Lumia chegaram em Ballas.

A cidade era em completo estilo medieval com as casas tendo em sua maioria de dois a três andares.

Um rio cruzava ela por inteiro em formatos aleatórios ao qual pontes ligavam uma parte da cidade a outra.

Também existiam pontes longas para o percurso.

Inúmeras praças eram presentes que no total superavam trinta onde o comércio de tudo que existia era feito.

Tal como estradas em todos os lugares visando a melhor locomoção de carros, motos, caminhões, etc…

A natureza também é bem presente tendo bastantes arbustos e árvores pelos locais fazendo diferentes espécies de pássaros estarem ao redor.

Ele olhou para a direita e cerrou os olhos, viu um panfleto na parede anunciando a chegada da princesa de Kanszes.

Kai não ficou surpreso.

Nem um pouco.

Já sabia a alguns dias que Kaori viria.

“Qual o problema?”

“Hun?”

Lumia andava alguns passos a frente e o viu ficar para trás.

“Ah?Você?Um gênio que ontem fez o teste e deu mais de 200 pontos de QI perdido em pensamentos por causa dessa Kaori?”

Sorriu.

“Vai dizer que logo você é daqueles garotos que tem nas princesas suas ídolos sendo que nenhuma delas sabe da sua existência?”

“Lumia.”

Conseguiu notar alguma irritação.

“Eu já avisei para não ler minha mente.”

“É algo passivo para poder me antecipar a ataques, só que a sua está uma bagunça tão grande que os pensamentos simplesmente explodiram na minha cabeça e-

Parou.

Perdeu a voz.

O motivo?

Kai sorriu.

A segurou pelo queixo e aproximaram o rosto.

Estão perto.

Muito perto.

Perto até demais.

“Se você quiser saber do meu drama, com certeza vai se apaixonar.”

“!”

Corou e o empurrou para trás.

“O QUE ACHA QUE ESTÁ FAZENDO?!”

“Hu, isso foi uma reação bem fofin-

Dor.

Pareceu que algo segurou…Segurou e apertou forte seu coração.

Colocou os joelhos no solo e bateu a cabeça.

“E…KAI???”

E apareceu.

Ou melhor.

Desapareceu.

O que fez a bruxa arregalar os olhos ao ver a energia vital ao redor de Kai…Simplesmente diminuiu de modo assustador.

Ele forçou um sorriso.

Sabia muito bem o por que disso acontecer.

“(A Kaori…Chegou, é!?)”

—–

Exatamente.

O navio atracou no porto.

Ela sentiu a mesma coisa.

Só que…Não.Não foi fraqueza.

Por absorver a energia vital de Kai…Se sentiu mais forte, um súbito ganho de força surgiu que até mesmo a fez se sentir bem.

“…”

“Kaori?”

“Hã??”

Lastarus chamou a atenção alguns passos a frente, nem tinha percebido que instintivamente parou de caminhar.

“Houve algo?”

Balançou a cabeça negativamente.

Nem ela saberia explicar o que sentiu, correu até ele e começaram a descer as escadas.

Um soldado bebia cerveja sentado a um barril, escutou alguns passos e teve sua atenção para a direita onde viu a dupla.

Era aquele responsável por recepcioná-los.

Jogou a lata para a esquerda, tocou o solo e fora se aproximando.

Esticou os braços.

“Bem vindos, amantes da praia!”

Os soldados de Kanszes entraram em formação.

Atrás da princesa e do cavaleiro formaram cinco fileiras de seis homens cada.

Era um membro dos pressa negra, um dos clãs mais poderosos deste continente.

Ele é negro e seu corpo é musculoso.

Até demais.

De tal modo que academia alguma e muito menos treino poderia lhe dar este físico dos Deuses.

Os cabelos, tal como as sobrancelhas são completamente brancos e arrepiados, indo pelo menos 20 centímetros para cima.

NT: No verdadeiro estilo de um Super Sayajin.

Usava um colar de cruz, duas munhequeiras brancas longas até o cotovelo e uma bermuda que batia nos joelhos.

Seu olhar passava uma confiança extrema e possui um intimidar natural com seus 1,96cm e 24 anos.

“Bem vindos a Ballas, eu, o grande Heavy estava esperando, e você, boy, tire a mão da espada, eu não mordo, as vezes.”

Exatamente.

Lastarus por impulso estava prestes a retirá-la em uma ação de defesa.

Deu uma risada sem graça.

“Desculpe ,mas…Você possui um certo intimidar.”

“É bom saber disso!”

Ela deu alguns passos a frente e parou a três metros do pressa negra.

“Eu sou a princesa de Kanszes, Kaori Kanszes Lancelot.”

Fechou os olhos fazendo uma referência.

“É um prazer.”

“Pare com as formalidades para alguém como eu!”

A deu um tapa nas costas o que a fez gritar e cair ajoelhada.

“Epa, não era para ser tão forte!Mas seja mais informal!Estamos entre amigos aqui.”

De um sorriso sem graça.

“….S..Sim..”

Mas…Então era este homem, certo?

Heavy…

“(O braço direito do Daichi, né?)”

“Vamos.”

Esticou o braço para a direita.

Uma limousine se encontra ali na estrada.

“Eu vou levá-los ao boss.”

—–

Kai estava sentado na praça com um olhar abalado.

Era apenas o natural.

A distancia que fazia o androgênesis não se ativar…Foi quebrada.

Lumia usou incontáveis magias de cura.

Mas…Completamente inúteis.

Como bem esperava, essa “maldição” era complexa e não poderia curá-lo do dia para noite.

Antes de tudo teria que saber o que estava causando os efeitos e estudar durante um tempo indeterminado o que poderia fazer.

Envolvia a Kaori?

Afinal…Ele não parava de pensar nela desde que chegaram em Ballas, e agora isso acontece.

Se os dois tem mesmo alguma relação…Era isso que o estava ferindo?

Gritos.

Olharam para a direita, a fonte de onde vieram.

E o motivo era claro.

Daichi passava a pé no meio da rua sendo cumprimentado por todos.

Possui realmente uma aparência imponente.

Seus longos cabelos negros caem até um pouco abaixo dos ombros.

Vermelho.

Seus olhos eram vermelhos e profundos como sangue, trajava uma longa capa imperial azul que balançava ao vento junto a roupas bem nobres.

Carrega consigo sua arma característica.

Uma lança de três metros nas costas maior que o próprio.

Tem 26 anos e 1,85cm.

Só passava uma única imagem.

Invencível.

O ar que todo Rei é obrigado a colocar nas pessoas.

“Eu já escutei histórias daquele homem.”

Kai a encarou.

“É engraçado…Perdeu tudo nas mãos desse país, vivia em um clã nas planícies que sempre produziu inúmeros guerreiros para este reino, e todos eram de elite protagonizando verdadeiros milagres nas guerras, por causa disso, o Rei escolheu nunca interferir visto que podia fazê-los “perder” o que os tornava tão especiais, então as tradições foram mantidas durante todo o tempo que existiram, mas…”

Ballas no passado vivia uma crise.

Era terrível.

E mesmo até hoje não a conseguiram superar.

O clã sempre teve sua existência escondida para que as forças inimigas não tentasse um ataque as escondidas.

Mas…Espiões de outros reinos existem dentro de Ballas assim como em qualquer outro lugar.

O clã…Foi descoberto.

Um ataque seria armado ali, raptariam todos e usariam sua força contra o próprio país.

Pelas péssimas condições daquele ano, era impossível.Simplesmente impossível colocar todos dentro do país e fazer a migração.

Então…Explodiram tudo.

O único sobrevivente foi Daichi.

Kai cerrou os olhos.

“Um plebeu órfão jogado no lixo que ascendeu ao posto mais alto possível dentro de um império, realmente o admiro por ter entendido que a vida de milhões de pessoas valiam mais do que as de sua família e hoje coloca sua força sobre esta bandeira em vez de jurar vingança, é um jeito condenável de se pensar?Pode ser, mas o mais correto em tempos como esse quando analisa a situação matando suas emoções.”

Colocou a mão no joelho e ficou em pé.

Alguns metros a frente de Daichi…Heavy, Kaori e Lastarus estavam ali.

Sim.

Kai a viu.

Mas…Se virou na direção de Lumia.

“Vamos, temos que ir até a biblioteca, não é?”

“Como você está?”

“Hum?A mesma porcaria, não há nada que possa ser feito por enquanto.”

Kaori olhou para a direita.

Também viu.

Fora capaz de ver ambos andando para frente.

Uma sensação nostálgica a preencheu.

Suas pernas…Iriam se mover sozinhas para correr atrás mas fora impedida.

Daichi parou a frente e sorriu.

“É um prazer a tê-la no meu país, filha do herói, Kaori Kanszes.”

“….Igualmente.”

—–

Estavam dentro do quarto de um hotel que fora preparado para esse encontro.

A esquerda…Daichi e Heavy.

A direita….Kaori e Lastarus.

As duplas se encontravam sentadas aos sofás.

O Rei sorriu.

“Eu posso ver a ansiedade em seus olhos e este silêncio faz as batidas do seu coração serem audíveis aos meus sentidos, está com medo?Por que?”

“…”

Como Adeko bem disse, seria impossível mentir ou blefar perante este homem por ser alguém que consegue ler através de qualquer tipo de expressão seja real ou não…

Apenas fechou os olhos dando um sorriso.

“É nervosismo, eu nunca participei de qualquer tipo de negociação antes, e a “estréia” é logo com um Rei, e tem mais, seu olhar é bem penetrante, sabia?”

“Oh, por que revelou que é sua primeira vez?Pode ser fácil manipulá-la.”

“Você não vai tentar.”

“E por que?”

“Por que?É facilmente perceptível pela  sua situação nesse país, é amado por esse povo vide a recepção e se realmente não estivesse disposto a lutar por esse pessoal já poderia ter feito um acordo com a “outra parte” para mudar de lado, aliás, isso é inútil, o fato de ter aceitado lutar por este lugar após o que aconteceu na sua infância entrega o quanto ama Ballas, e claro…”

Cerrou os olhos.

“O mais importante de tudo, a ultima coisa que pode tentar fazer é sair por cima em negociação de aliança e ver a ajuda indo embora.”

Sim.

Exatamente.

A situação de Ballas é complicada.

Se existe mesmo um país disposto a prestar reforços, jamais deveria deixar a ajuda ir embora, mesmo sendo amadora…Qualquer um iria perceber quando o outro lado está “passando dos limites” em uma negociação.

“Essa garota é astuta.”

Só conseguiu pensar nisso.

E sorriu.

Não deveria ser enganado por aparências, foi excelente saber disso antes de começarem pois se tentasse levar a conversa para um lado favorável…

Iria sair sem nada.

“(Ou…Este homem apenas quis ter uma noção da minha intuição com essa pergunta?)”

Também podia ser uma verdade, a pergunta talvez desde o inicio foi uma pegadinha para descobrir com base na resposta o tipo de pessoa que negociaria.

“Nada mal, vejo que fez bem o dever de casa antes de vir aqui conversar comigo e pesquisou algumas coisas a respeito da situação deste solo, muito bem, eu quero uma aliança com Kanszes para retornar Zwuan.”

Zwuan…

É a cidade que faz fronteira com a capital de Ballas que está sobe ataques da “outra parte”, e se a perderem..O caminho para esta cidade capital do reino estaria aberto.

“E também sei de algo, pelo jeito Adeko já fez os primeiros contatos com Calibri e nada os impediria de fazer uma aliança com eles e os ajudarem a dominar este país, é realmente a decisão mais fácil, mas não seria nada vantajoso ajudá-los em vez do nosso lado, segredos, tesouros, heranças, terras mais fortes, estão todas aqui, ficar do lado deles é só perder homens e destruir o tesouro que poderiam colocar as mãos.”

Calibri…

No começo era apenas mais uma cidade dentro do reino de Ballas, mas de maneira secreta e silenciosa fez várias contatos com reinos de outros continentes e foi aos poucos crescendo, crescendo e crescendo.

Hoje domina 40% do país.

Ballas foi dividido em dois e vivem uma forte crise interna.

A deu um sorriso desafiante.

“Mas claro, vocês também tem coisas a ganhar, faça sua proposta.”

“…”

Ela sabia.

Sabia muito bem das riquezas deste país.

O conhecimento extremamente vasto que adquiriu do continente pelos livros que Adeko a faz ler até agora eram para momentos como esse.

Mas…Simplesmente…

Deu branco.

Por ser sua primeira vez parecia que estava em uma prova e as respostas sumiram de sua mente.

Sorriu assustada.

“(E agora…?)”

Mas…Começou a se acalmar e raciocinar.

Vide algo que tinha a seu favor.

Daichi não estava em posição de recusar quase nada.

Sim.

Lembrou de algo.

Com certeza seria o que Adeko iria propor em troca.

“O mar de Estrael.”

Daichi apenas sorriu.

Não tinha outra coisa para ser pedida.

 

—–

No teto de uma das casas…Havia uma pessoa ali de braços cruzados.

O vento batia confortavelmente em seus cabelos os fazendo dançar.

Foi mandado diretamente por Prometheus.

Sentiu a presença de Destroyer neste local.

Veio recuperá-lo.

“Na direção da biblioteca, é?”

As coisas definitivamente…Irão ficar agitadas.

Habitantes do Cosmos – Artemísia – (Volume 1: Capítulo 1)

Capítulo 1

 

Então em seu peito, Hermes Mensageiro Argifonte

mentiras, sedutoras palavras e dissimulada conduta

forjou, por desígnios do baritonante Zeus. Fala

o arauto dos deuses aí pôs e a esta mulher chamou

Pandora, porque todos os que têm Olímpia morada

deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão.

 

(Hesíodo – Os Trabalhos e os Dias; v. 77 — 82)

 

 

LEMBRANÇAS

 

Sentada sobre uma rocha, uma mulher mantém seu olhar fixo no horizonte. O vento do deserto acaricia seus cabelos negros. Sua respiração é quase imperceptível. Ela fecha os olhos e se lembra de uma briga com seu pai quando tinha dez anos.

 

 

— Vá brincar no jardim. — Uma mulher diz à filha, com semblante triste.

— Sim, mamãe.

A menina segue pelo largo corredor que dá acesso ao jardim e à sala sagrada da casa. Ela vê o pai saindo da sala, mas percebe que a porta não havia se fechado totalmente. Ela poderia ter avisado ao pai, ou simplesmente ter ignorado o fato e seguido para o jardim, mas algo parecia chamar-lhe para dentro. Quando percebe que o pai desapareceu, no final do corredor, ela entra.

Um frio intenso quase paralisa a menina, era medo de ser pega. Seus olhos apreciam, admirados, toda a beleza que há ali, e quando observa bem ao centro, vê a bela espada ancestral. Ela corre para perto da espada, suspensa sobre um sol dourado cravado no chão. Os olhos da menina brilham e a lâmina da espada parece refletir a luz de sua alma. Como se estivesse em transe, ela ousa empunhar a espada com as duas mãos; nesse momento seu pai entra na sala, furioso. Ele toma a espada bruscamente, bate no rosto da menina e a pega com força pelos ombros, sacudindo-a e proferindo sandices aos berros, então conclui:

— Como ousa profanar o salão das armas com sua presença imunda? Você é uma mulher, jamais deve tocar nessas armas; você nunca poderá usar uma espada como essa; é a espada de meus ancestrais. Você me desonrou com sua imprudência e sua desobediência.

O pai a tira da sala puxada pelos cabelos. Perto da porta, no corredor, alguns criados, a mãe e suas damas esperavam pelos dois. O pai joga a menina aos pés da mãe.

— Veja, mulher; sua filha não recebeu a devida educação. A culpa é sua. — A mãe ouve tudo de cabeça baixa. — Por não ter educado direito essa menina, agora não terei mais a bênção de meus ancestrais. Esta família cairá em desgraça.

— Peço perdão, meu senhor. Cuidarei de castigá-la.

— Castigos agora seriam tardios demais. O mal já está feito. Tenho uma reunião com o Conselho, quando voltar decidirei o que será feito de vocês. Que nenhum dos presentes comente o ocorrido com mais ninguém. Se essa história chega aos ouvidos do Conselho, a menina será sacrificada. Tal desonra é punida com a morte, como todos aqui bem sabem. — O pai olha com ódio para a menina. — Talvez, no seu caso, seria mais sensato entregá-la ao Conselho.

Após o pai sair, a mãe vai chorando para o seu quarto. A menina continua no chão, sozinha, com o olhar fixo, quase morto. Rangendo os dentes de ódio, fica ali por um tempo, com seu choro sem lágrimas.

 

 

— Artemísia, o mestre a espera. — Um jovem discípulo diz.

Artemísia abre os olhos e retorna para o deserto. Seu olhar agora contempla o horizonte vermelho de Marte. Ela se levanta e segue em direção ao templo.

— Bela Artemísia, seja bem-vinda! — O mestre do templo diz.

— Obrigada por me receber, mestre.

— Não me chame assim; por enquanto, para você, continuo sendo apenas Andyrá. Você sabe que para recebê-la como discípula há provas pelas quais precisa passar.

— Sim. Eu sei.

— Venha. Vou lhe mostrar o seu quarto. Descanse um pouco da viagem, depois conversamos.

Artemísia não se sentia cansada. Pretendia passar logo pelas tais provas e ser admitida no templo de Andyrá, mas sabia que não adiantaria argumentar com um dos sábios mais antigos de Apolo. Ela ficou no quarto meditando até que sua presença fosse solicitada novamente.

O clã de Artemísia seguia costumes tão antigos quanto os tempos. Quando Artemísia nasceu, a humanidade já havia superado vários tipos de preconceitos, dentre eles, os preconceitos relacionados ao gênero e à expressão da sexualidade. A ciência já havia evoluído ao ponto de provar que a sexualidade humana variava em cada indivíduo, assim como a tonalidade da pele, a cor dos olhos, a textura dos cabelos, etc. Os seres humanos não se dividiam mais em grupos marcados pela sexualidade. Os dois gêneros, masculino e feminino, conviviam naturalmente, sem vantagens ou desvantagens sociais por se pertencer a um gênero específico, mesmo porque, àquela altura, o gênero de nascimento poderia ser alterado em qualquer fase da vida, se essa fosse a vontade do indivíduo.

As questões que envolviam o gênero e a expressão da sexualidade já haviam perdido o sentido há séculos para a população do sistema solar Apolo, exceto para o clã de Artemísia. O Clã Nômade, como ficou conhecido por séculos, insistia em preservar conceitos primitivos sobre a existência humana e com isso também preservavam costumes e uma organização social extremamente primitivos.

Quando a humanidade ainda habitava a Terra, o Clã tentou várias vezes constituir uma nação autônoma, mas o Governo Mundial nunca permitiu, pois considerava um retrocesso para a humanidade que tal sociedade se estabelecesse. Enquanto nação reconhecida mundialmente, o Clã Nômade poderia influenciar sociedades menores, podendo um dia se mostrar um poder contrário ao Governo, o que seria um problema, pois geraria guerras e instabilidade. Assim, o Clã sobreviveu por séculos como um grupo mal visto pelos demais, tendo que migrar de tempos em tempos para que não sucumbisse ao desprezo de seus vizinhos, com os quais sempre entrava em conflito.

Após o grande desastre, que expulsou de vez a humanidade do planeta Terra, o Clã foi diminuído a um pequeno grupo de poucas centenas de indivíduos. Esse grupo, diante do desespero, se tornou mais fanático com suas crenças e seus costumes, pois entendeu que disso dependeria a sobrevivência do Clã. Foi nessa época que definiram seu código sagrado de leis e costumes, e a pena de morte foi estabelecida para aqueles que descumprissem as principais regras do grupo.

Desesperados e determinados, os homens do Clã se tornaram guerreiros ainda mais temidos do que seus ancestrais. Extremamente impiedosos e primitivos, seu exército era sempre solicitado para resolver conflitos em todo o sistema Apolo. O Clã Nômade havia se tornado um exército de mercenários e, assim, ao longo dos tempos, foi prosperando.

Os primeiros habitantes de Vênus pertenciam a um grupo formado por cientistas, engenheiros e arquitetos. Conseguiram em pouco tempo transformar o planeta hostil em um lar. Mas a humanidade nessa época estava desesperada. A Terra já não era mais uma opção de sobrevivência e encontrar corpos celestes que pudessem abrigar a vida humana era também razão para guerras pelo direito de ali viver.

Cansados de serem invadidos constantemente, e sem habilidades bélicas suficientes para se defender dos invasores, os venusianos contrataram os serviços do Clã, mas com uma oferta que seria irrecusável para eles. Após uma decisão do Conselho, os venusianos pretendiam oferecer ao Clã metade do planeta, com a condição de que os guerreiros nômades cuidassem para sempre da segurança de Vênus. O Clã entendeu a oferta como um presente dos deuses e, como honravam sempre seus compromissos, nunca tentaram tomar o planeta para si. Em Vênus o Clã prosperou. Ali se isolaram do resto do sistema solar, preservando seu pensamento primitivo e suas ideias insanas. Nenhuma mulher tinha permissão para sair de sua nação; não podiam sequer cruzar a fronteira para o lado dos venusianos originais. A punição para quem descumprisse essa lei, é claro, era a morte.

Um dos discípulos de Andyrá bate à porta do quarto.

— O mestre a aguarda no jardim principal.

Artemísia segue o jovem até o portão que leva ao jardim principal. Andyrá está sentado sob a sombra de uma bela árvore, contemplando os gansos se movendo lentamente sobre o lago. Com um semblante sereno, quase preguiçoso, ele faz sinal para que Artemísia sente-se ao seu lado. Ela obedece.

— Então, você tem trinta anos e nasceu na Terra, certo? — Andyrá pergunta, em tom de brincadeira.

— Não brinque comigo… Sei que se há alguém em Apolo que conhece a minha verdadeira história, esse alguém é você; o Sábio Oculto.

— Sim, minha querida, eu conheço a sua história. Sei mais do que imagina e mais do que você mesma sabe.

— Sei o suficiente, e muitas vezes gostaria de não me lembrar de nada.

Andyrá olha dentro dos olhos de Artemísia.

— Agora compreendo porque Hikari lhe pediu que me procurasse.

— O mestre Hikari se arrependeu de me admitir como discípula. Falou que só seria meu mestre novamente se eu fosse admitida por você e recebesse a sua indicação para continuar meus estudos.

O Mais Antigo dos Sábios nunca erra. — Andyrá comenta.

— Quando começam as provas?

— Elas começaram quando você saiu pela porta do templo de Hikari.

— Da cabana?

— Sim.

— E como vou saber se estou passando nos testes se nem mesmo sei o que é um teste?

— Desde que você nasceu está passando por testes todos os dias. O caminho que sua Alma decidiu trilhar está cheio deles, o tempo todo. Mesmo nas situações aparentemente insignificantes você é levada a fazer escolhas. Para saber se passou em um teste desse tipo, basta observar o seu caminho, o seu propósito na vida. Se você sente que está se aproximando do seu objetivo, então você passou em um teste; mas se sente que está retrocedendo e se afastando do seu objetivo, saiba que foi reprovada em um teste e talvez tenha que começar tudo novamente.

— Nem ao menos sei o que minha alma escolheu.

— Bela menina, se você não soubesse, certamente não estaria aqui. Acalme a sua mente e o seu coração, somente assim terá consciência das respostas que tanto busca. — Andyrá diz. Artemísia respira fundo e se cala. Ela sente que suas palavras seriam impróprias naquele momento. — Veja este templo. Um belíssimo Oasis neste vasto deserto. Foi construído pelo pai do meu mestre e deixado aos meus cuidados após sua morte. Toda essa beleza foi idealizada por um único homem, mas construída através do trabalho de vários seres humanos; homens e mulheres. Quando eu era apenas um discípulo, sentia que aqui era o meu lar, o meu lugar, mas desde que me tornei o mestre do templo, sinto que preciso construir o meu próprio templo. Agora me responda, como posso ter certeza de que o correto seria mesmo construir outro templo ao invés de cuidar do templo que meu mestre confiou a mim?

Temendo que se tratasse de um teste, Artemísia pensa bastante antes de responder.

— O correto não seria honrar a vontade de seu mestre?

— Isso foi uma pergunta, minha jovem?

— Não sei.

— Então só me responda quando tiver segurança suficiente para fazer uma afirmação.

— Me desculpe.

— Não se desculpe, me dê uma resposta; mas antes, pense mais um pouco, busque em seu coração uma resposta sincera. Não pense no que eu gostaria de ouvir de você, não imagine que se trate de um teste e que exista uma resposta correta. Simplesmente se coloque na situação que indiquei e me diga o que você faria se estivesse no meu lugar.

— Tudo bem.

Uma leve brisa gera ondas na superfície do lago. Artemísia consegue se ver na situação que Andyrá propôs e encontra uma resposta.

— O correto é você construir seu próprio templo. Este templo é uma extensão da Alma do pai do seu mestre, ele representa em cada detalhe tudo que ele pôde compreender neste mundo. Tudo aqui conta a história dele, assim, esse “chamado” que você ouve, indicando que um novo templo deve ser construído, é na verdade a sua Alma lhe indicando que necessita contar a sua própria história. Não acredito que seu mestre se oporia a tal feito.

— Eis uma resposta digna de uma discípula de Hikari.

Artemísia sorri.

— Então, você vai construir um novo templo?

— Já estou construindo. Se tudo correr bem, um dia te levo para ver a obra.

— E este templo, o que será feito dele?

— Isso não cabe a mim decidir. Agora vou deixá-la aqui no jardim. Aprecie o pôr do sol. Sem testes no momento, você está livre para ir aonde quiser.

— Obrigada, Andyrá; mas isso também é um teste, certo?

Andyrá sorri e segue rumo ao portão.

Artemísia olha um pouco ao redor, mas não espera o pôr do sol. Ela decide conhecer melhor o templo, a “extensão da alma” do pai do mestre de Andyrá.

No salão principal havia vários quadros indicando o que cada sala representava. Artemísia escolhe visitar o salão que contava a história do templo.

Mestre Ybytuura … Então esse homem foi o idealizador do templo! — Artemísia aprecia um quadro com a representação artística do mestre, depois busca nos arquivos digitais o holograma com o histórico dele.

Artemísia passa horas analisando a história e a filosofia daquele lugar. Depois se dedica a contemplar os quadros, verdadeiros trabalhos artísticos executados pelos discípulos que por ali passaram. Um deles lhe prende a atenção. Era uma bela mulher, com olhar firme e determinado, postura de guerreira destemida. A mulher trajava roupas escuras, aparentemente de couro, traje bem primitivo, mas só destacava a nobreza dela. Os olhos de Artemísia brilhavam enquanto observava cada detalhe daquela mulher. Em baixo, em uma espécie de placa de metal, havia algo escrito em caracteres desconhecidos. Artemísia aciona seu bracelete dourado, um dispositivo desenvolvido por Hikari, presente do seu antigo mestre.

— Identificar idioma e tradução.

Em uma projeção holográfica ela lê as respostas: “GREGO DO PERÍODO HELENÍSTICO. ARTEMÍSIA”.

Artemísia sorri e sente um calor percorrendo todo o seu corpo. Sentia-se como se estivesse acabando de nascer. Nos olhos daquela mulher, Artemísia reconheceu a si mesma.

— Vejo que você encontrou minha singela contribuição para a galeria do templo. —Andyrá diz, enquanto se aproxima da venusiana. Ela então olha para ele, que logo percebe algo diferente em sua face.

— Você é o autor dessa obra?

— Sim.

— Quem é ela?

— E isso importa?

— Talvez.

— Essa mulher viveu em uma época muito distante da nossa. Naquele tempo, o patriarcado dominava praticamente todas as culturas espalhadas pela Terra. Essa mulher foi uma guerreira em todos os sentidos dessa palavra. Superou as dificuldades de ter nascido um ser humano do gênero feminino em um momento em que a humanidade desprezava tal gênero e o submetia a todo tipo de humilhação que se possa imaginar. Mesmo assim, ela foi forte e vitoriosa. Liderou exércitos e conquistou a confiança e a admiração de um grande rei. Sua essência parece resistir ao tempo.

Artemísia volta seu olhar para o quadro.

— Olhando pra ela, não vejo uma feminista que venceu a opressão do machismo, seria uma interpretação medíocre.

— E o que você vê?

— Vejo um ser humano que superou seus limites.

— Hum… Então você compreendeu bem a mensagem que essa pintura carrega. O primeiro nome que pensei em dar à obra foi “Superação”, mas não quis limitar a interpretação do observador. Mas vamos, menina… O jantar já está sendo servido.

Atravessando os corredores do templo, ao lado de Andyrá, Artemísia permanece calada. Os dois passam pelo portão que dá acesso ao jardim. Ela vê ao longe a árvore em que esteve há algumas horas, sentada junto de Andyrá, lembra-se da conversa. Artemísia para de uma vez. Andyrá percebe que ela deseja falar-lhe algo.

— O que foi?

— Andyrá; quando meu mestre Hikari me disse para procurá-lo, falou que eu precisava aprender algumas lições com você, antes de retomar meus estudos com ele. Sinto que tais lições já foram aprendidas.

— Seja mais objetiva, minha jovem. — Andyrá diz, com um sorriso sereno no rosto.

— Sinto que o caminho da sabedoria não é o meu caminho. Olhando seus discípulos meditando pelo templo, vendo suas faces serenas e celestiais, senti que não há identificação por parte da minha alma com esses futuros mestres. Mas quando olhei o quadro que você pintou, senti meu sangue pulsando em minhas veias.

— Você é exatamente como Hikari a descreve. Uma joia rara. Sua Alma tem um caminho longo a seguir, cheio de perigos, mas há muita força em você. E se engana quando diz que o caminho da sabedoria não é o seu. É exatamente o caminho da sabedoria que você busca, mas antes de segui-lo é necessário que você aprenda a controlar todo esse ódio, essa mágoa e essa paixão que você traz em seu peito.

— Vou construir o meu próprio templo.

— Sim. Mas antes que ele fique pronto, você ainda encontrará outros mestres.

— Não serei mais discípula, senão de mim mesma.

— É o que todos nós somos, minha querida. Nossos mestres não passam de espelhos. No momento, o espelho que você deve buscar está na Terra. Mas venha, vamos jantar. Quando se sentir pronta para partir, terá tudo que precisa levar.

Artemísia se sente feliz, mas não sabe direito explicar por quê.

 

O MESTRE

 

Artemísia está carregando uma pequena bagagem nas costas; ela está caminhando entre as pessoas em um porto de uma cidade flutuante na Terra, ainda sem saber aonde ir. Quando desce as escadas do prédio portuário, que estão do lado de fora, ela olha para o alto e vê, através da cúpula transparente, um céu com nuvens nervosas; era mais um dia de chuva ácida naquela região.

Nuvens Negras… Adoro esses bons presságios. — Artemísia comenta, de forma sarcástica. Ela sorri, enche os pulmões com o ar artificial da cidade e segue seu caminho ainda sem rumo.

De repente, uma cena chama a atenção da guerreira. Do outro lado da rua, em uma praça, uma garotinha brinca de mercenária com outras crianças. A garotinha empunha uma espada de brinquedo e, com atitude selvagem, acaba machucando três crianças, dois meninos e uma menina. As outras duas crianças, uma menina e um menino, estão no time da garotinha da espada. Os perdedores saem chorando. Artemísia observa a brincadeira até o fim.

— Cenas impossíveis de se ver no lado negro de Vênus! — Artemísia comenta e suspira enquanto sente uma mistura de nostalgia e alívio devido às lembranças de seu planeta natal.

Ao perceber que a moça estava distraída, um garoto controla um pequeno drone que rouba a bagagem dela. Artemísia se assusta, mas derruba o drone com uma flecha de seu arco de energia, depois se aproxima do drone que está destruído no chão. Ela se abaixa e pega seus pertences, então o garotinho aparece, irritado.

— Por que você fez isso? Esse drone foi um presente da minha avó.

Artemísia olha curiosa para o garotinho.

— Então ele não devia estar por aí roubando as coisas dos outros. Teve o que mereceu. — Artemísia diz, em tom descontraído. Ela ri da situação e segue em frente.

— Moça! Ainda não terminei. Não vire as costas pra mim.

Artemísia para, pensa em dizer uns desaforos para o garoto insolente, mas só balança a cabeça, sorrindo, e continua seguindo em frente.

O garoto corre e fica parado na frente dela.

— Quero outro drone.

Artemísia já estava se preparando para bater no garoto, então uma mulher, que parecia ter aproximadamente uns 40 anos, se aproxima.

— Por favor, desculpe o atrevimento desse menino. Já tentamos de tudo, mas ainda não conseguimos consertar um bug em sua programação.

Artemísia entende que o garoto é um humanoide.

— Ele lhe pertence?

— Sim. Já está na família há três gerações. Foi construído por meu bisavô; por isso temos muito apreço por ele. Mas o velho não era bom programador. — A mulher sorri. — Sou Yuki. — A mulher estende a mão.

— Artemísia. — Artemísia diz, hesita um pouco, mas acaba cumprimentando Yuki.

— O que te traz à Terra, Artemísia?

— Ainda não sei.

— Você tem para onde ir?

— Talvez.

— Está na hora do chá, uma tradição antiga na minha família; se quiser nos fazer companhia, sinta-se bem-vinda!

— Acho que um chá me faria bem no momento. — Artemísia sorri e segue Yuki e o garotinho humanoide marrento.

Na casa de Yuki, todos estão sentados à mesa. Era uma família muito unida e alegre. Após o chá, algumas pessoas recolhem os talheres.

— Fique à vontade Artemísia. Vi que você se interessou por nosso jardim, pode explorá-lo como quiser. — Yuki diz amavelmente.

Artemísia agradece a gentileza e segue para o jardim. Era muito comum as casas construídas nas cidades flutuantes manterem seus jardins particulares. A flora na Terra já parecia alienígena para os humanos, e muitas das plantas que ali existiam eram tóxicas para a humanidade, mas eles haviam conseguido preservar a flora dos tempos em que a Terra ainda os acolhia como filhos, e os jardins haviam se tornado um recanto sagrado, não só nas cidades flutuantes da Terra, mas em cada canto do Sistema Apolo onde os humanos insistiam em sobreviver.

Caminhando pelo jardim, Artemísia percebe ao longe uma mulher fazendo leves movimentos, como se fosse uma espécie de dança em câmera lenta. Ela observa um tempo, então a mulher percebe a atenção que Artemísia estava lhe dando. Sem alterar seus movimentos ela olha para Artemísia e monta um sorriso de boas-vindas. Artemísia se aproxima da mulher.

Quando Artemísia já está bem próxima, a mulher para, com o corpo reto, junta as mãos e faz um sinal de reverência ao Sol. Então sua atenção se volta para Artemísia.

— Bem-vinda nobre guerreira! Eu a aguardava.

Artemísia sorri.

— Andyrá…

— Sim, ele me veio em um sonho e me avisou que você estava a caminho. — A bela mulher diz. Artemísia a observa, um pouco constrangida.

— Me desculpe, mas não posso ser sua discípula.

A mulher olha para Artemísia como se estivesse lendo cada célula em seu corpo.

— Percebo que a decepcionei. Parece que você não esperava encontrar uma figura feminina como mestre.

— Peço desculpas, mas não me identifico com mulheres, pois os exemplos que tive em minha infância são execráveis. Seres submissos, fúteis, fracos e extremamente infelizes. Conheci mulheres diferentes, fora do meu povo, mas as referências da infância ainda se sobressaem. No Clã, os homens representam força, coragem, determinação; mas ao mesmo tempo que o machismo lhes garante uma nobreza aparente, também os impede de superar os seus defeitos, lhes condenando a uma existência presa à ignorância, esse é o preço que pagam por perpetuar uma ilusão patética. Sem a couraça do machismo, aqueles homens não passam de meninos inseguros, bebês chorões; e as mulheres nunca se esforçaram muito pra mudar isso, são cúmplices da ignorância e das fraquezas do meu povo.

— Compreendo.

— Isso também é um teste, certo?

A mulher sorri.

— Você é nossa convidada; fique o quanto precisar.

— Artemísia agradece.

A mulher já estava de saída, então para e, sem virar o corpo, olha para trás e diz:

— A propósito, sou Itá. Acredito que a pequena queda d’água lhe ajudará a refrescar seus pensamentos. — Itá diz e segue rumo à porta da casa, que dá acesso ao jardim.

Artemísia fica pensativa, o fato de seu novo mestre ser uma mulher lhe tirou totalmente a motivação para ficar na Terra. Ela pensa em desistir e ir embora dali mesmo, mas algo lhe impede.

— A viagem foi longa, acho que um mergulho me faria bem. — Artemísia pensa alto, enquanto segue para a pequena cachoeira do jardim.

A pequena queda d’água vinha de uma pedra grande, e alimentava um lago de tamanho médio, que era uma espécie de piscina. Artemísia se despe e pula na água. Em seu mergulho, percebe algo dourado ao pé da pedra grande. Ela nada até o objeto e vê que se tratava de uma inscrição em ouro. Era uma língua extinta, mas não muito antiga. Artemísia a conhecia e conseguiu decifrá-la. “EMPURRE”.

Artemísia empurra a inscrição e uma porta se abre. Ela nada para dentro. A porta se fecha. Artemísia segue até um local onde pôde emergir e encontra um pequeno pátio, dentro de uma caverna iluminada por luzes artificiais. Logo em frente há um portal, todo enfeitado com imagens, que parecem uma espécie de escrita totalmente desconhecida para Artemísia. Ela atravessa o portal e chega até uma bela sala, com o chão coberto por um piso de pedra branca, liso, as paredes estão cheias de desenhos em alto relevo, quadros e demais objetos de arte.

Artemísia caminha pela sala, e quando olha à sua esquerda, vê ao fundo um objeto suspenso sobre uma pequena estátua de mulher, segurando um vaso do qual caía água. Esse objeto chama sua atenção; Artemísia vai até ele.

Na estátua há uma inscrição, na mesma língua da inscrição encontrada no lado de fora. Artemísia traduz a inscrição: “NOSSA HISTÓRIA”.

O objeto parece um amuleto, mas é um projetor de hologramas. Artemísia o pega e aciona o equipamento, que cai no chão e projeta uma história, contada através de imagens e de uma narração.

No início, não havia homem ou mulher, somente a humanidade, sem distinção de gênero. Um dia isso mudou, e o que era um só se torna dois. Homem e Mulher, agora precisavam conviver e perpetuar a raça que habitava a Terra. Mas a humanidade, que já havia se corrompido há um tempo, não sabia lidar muito bem com as diferenças, e as mulheres entenderam que por manterem em seus corpos o dom da reprodução, seriam superiores aos homens.

Os homens sentiram-se traídos pela Natureza, pois seus corpos estavam incompletos, tornando-os totalmente dependentes da mulher para gerar seus descendentes. Nesse tempo, ambos possuíam a mesma força, os mesmos costumes, a mesma essência; mas a mulher se impôs, aproveitando o complexo de inferioridade e dependência no qual o homem foi jogado. Assim, os homens foram subjugados por séculos, sendo obrigados a viver sob o sistema rígido do matriarcado, que transformava as fêmeas humanas em verdadeiras divindades, que exigiam culto dos homens.

Mas a Terra tremeu, sacudiu e jogou pelo chão toda a organização artificial humana. Muitos morreram, sobrando uma humanidade atormentada pelo medo e pela fome. As orações antigas já não resolviam, nem mesmo os antigos sacrifícios eram aceitos pelos deuses. Sozinha, em meio à escassez, a humanidade precisava sobreviver, e uma nova organização estava surgindo.

O corpo da mulher, que já era considerado sagrado, tornou-se mais importante ainda; pois dele dependia a perpetuação da humanidade. Mas exatamente por ser tão importante, o útero tomou o lugar da mulher; pois somente ele importava. Aos homens foram dadas as tarefas mais duras. Eles deviam lutar pela sobrevivência do grupo. Assim, os homens caçavam, enfrentavam perigos extremos atravessando ambientes hostis atrás de alimentos e ainda precisavam defender as mulheres dos ataques de outros homens, pois quanto maior o número de fêmeas em um clã, mais descendentes estavam garantidos, isso implicava em mais guerreiros, caçadores e coletores; e era isso que tornava um clã forte.

A princípio, homens e mulheres aceitaram essa nova organização social, pois a sobrevivência do grupo dependia disso; nesse contexto, somente mulheres que não geravam filhos podiam executar tarefas perigosas, as outras deviam permanecer em seus acampamentos, gerando e cuidando dos descendentes do Clã. Com o tempo, essa forma de vida deixou as mulheres mais fracas, pois se dedicavam somente a trabalhos leves, não exercitavam seus corpos correndo de perigos e nem condicionavam suas mentes para enfrentar os riscos impostos pela sobrevivência; se tornaram dependentes dos homens, pois ao permanecerem nos acampamentos, sendo vigiadas e protegidas por eles, o medo encontrou um lugar seguro em seus corações, desde então a mulher deixa de ser uma divindade e os papeis sociais são invertidos; mas agora, a mulher perde até mesmo a sua humanidade, se tornando um animal procriador sem outra razão para existir. Assim surge o patriarcado.

Os olhos de Artemísia se enchem de lágrimas e ela não consegue ver mais. Desliga o equipamento, senta-se no chão e, encolhida, chora sem parar; como uma criança que acabou de perder a mãe.

 

O SOL E A LUA

 

— Bom dia Artemísia! — Yuki diz.

— Bom dia.

— Sirva-se à vontade!

Yuki está sentada à mesa, com sua família. Todos tomam o café da manhã no clima de confraternização de sempre. Artemísia se junta a eles.

— Itá não se levantou ainda? — Artemísia pergunta.

Todos se olham como se a pergunta não fizesse sentido.

— Itá?

— Sim. Conversamos ontem no jardim, mas não a vi depois disso.

— Itá não mora mais aqui. Desde que encontrou seu mestre, Itá deixou esta casa; mas sempre que precisamos ela aparece. Ela foi construída por ancestrais nossos, há várias gerações. — Yuki explica.

— Itá é uma ginoide?

— Sim; a melhor que já vi. Em nossa família sempre existiram engenheiros muito bons, mas nenhum se compara às gêmeas que criaram Itá. Ela é perfeita em todos os aspectos, desde sua mecânica até sua programação. Cada detalhe de Itá foi minuciosamente trabalhado pelas gêmeas. Ao observá-la, é difícil até para um especialista identificar que Itá não é um ser humano, mas sim um humanoide. Mesmo porque, Itá é muito mais humana do que a maioria de nós.

Artemísia fica pensativa.

— Onde posso encontrá-la?

— Nunca sabemos.

Um homem entra na sala carregando um jarro.

— Vocês estão falando sobre Itá?

— Sim.

— Ela deixou um recado para a nossa hóspede.

O homem tira um pequeno cartão transparente do bolso e entrega para Artemísia.

— Me desculpe, mas parece que ela escreveu em uma língua muito antiga; não sei traduzi-lo.

Artemísia lê o cartão, pressionando-o.

— Obrigada!

Artemísia se levanta e vai até o quarto onde dormiu. Ela arruma seus pertences e segue até a sala do café, novamente.

— Sou grata pela hospitalidade. Preciso ir.

— Foi um prazer recebê-la, Artemísia. Você será sempre bem-vinda aqui. — Yuki diz, se levanta e dá um abraço em Artemísia. Elas se despedem e a venusiana segue seu caminho.

No cartão estava descrita a localização de Itá, e um aviso. “SÓ ME PROCURE NA CONDIÇÃO DE DISCÍPULA”.

Artemísia segue para o porto da cidade.

— Atlântida. — Artemísia diz ao humanoide no guichê. Ele entrega o cartão de passagem para ela.

— Portão 7.

Artemísia pega o cartão. Ela sente um peso enorme no peito. Sua mente não consegue raciocinar direito; ela só sabe que deve procurar Itá. Velhas mágoas precisavam ser curadas, e Itá parecia ter o remédio.

Em Atlântida estavam as Matrizes mais antigas, nas quais ainda eram construídos humanoides. Era lá também que o androide mais antigo estava. Huxley, o guru humanoide, sempre recebia muitas visitas, tanto de humanos quanto de humanoides; o que fazia de Atlântida um continente com ares de misticismo, um misticismo quântico digital. Foi Huxley que indicou a Itá o seu mestre, e previu que ela despertaria uma consciência além da compreensão humana e humanoide.

“PROCURE HUXLEY”, era uma das indicações no cartão que Itá deixou para Artemísia.

Devido à fama de Huxley, não foi difícil para Artemísia encontrá-lo na Matriz mais antiga da Terra. O humanoide ancião, com sua energia diferenciada, estava pronto para indicar um caminho para a venusiana, filha do Clã.

— Pode seguir até o fim do corredor à esquerda. — O recepcionista indica o caminho na Matriz.

Artemísia segue um longo e escuro corredor. Sem que ela entenda por que, seu coração bate acelerado; suas mãos começam a suar frio. Ela sente pânico, e o pânico vai aumentando à medida que ela vai caminhando em direção ao fim do corredor. Uma força estranha parece querer impedi-la de seguir em frente, mas ela luta contra o medo, contra as vozes que sopram em seu ouvido: “desista”. Ela precisava arrancar aquele peso do peito, e decidiu que nada a faria recuar.

Quase sem forças, e muito ofegante, Artemísia chega até a porta. Ela hesita antes de abri-la; então uma voz a convida.

— Entre. Tenho o que você procura.

A porta se abre e ela vê Huxley. Ele está sentado sobre um tapete em que se vê o desenho da lua. Seus olhos estão fechados, como se estivesse em transe. Sem que sua boca se mecha, ele diz.

— Olhando para o seu lado esquerdo você encontrará água. Olhando para o seu lado direito, você também encontrará água. Você pode beber o quanto quiser.

Artemísia olha para o lado direito e depois para o lado esquerdo. Ela precisava muito de um pouco d’água, pois a adrenalina liberada pelo pânico havia lhe deixado sedenta, e ela precisava recuperar suas forças. Artemísia segue para o lado direito, mas quando tenta beber da fonte, percebe que não há água. Ela procura algum dispositivo para que a água flua, mas não encontra nada. Então ela vai até o lado esquerdo, e encontra a mesma situação.

— Mais um teste. — Artemísia diz em voz baixa, desanimada. Huxley continua sua meditação.

Artemísia olha pela sala e vê no chão, no meio do caminho entre as duas fontes, um símbolo da Lua e do Sol, cada um ocupando uma metade do círculo que forma a figura. Ela vai até a figura e pisa no meio, mas nada acontece. Ela pisa com a ponta do pé na figura da Lua, e a água flui na fonte do lado esquerdo. Artemísia então pode saciar sua sede.

Artemísia bebe a água e sente-se melhor. Ela se aproxima de Huxley, que abre os olhos e faz sinal para que se sente diante dele.

— Agora que você descobriu como beber a água da fonte, e que pode escolher o lado do qual quer beber; está pronta para encontrar seu novo mestre. No centro de Atlântida há uma montanha, no meio do deserto; é um lugar de difícil acesso, mesmo para humanoides, mas seu coração a guiará. Itá a espera.

Huxley se levanta e deixa a sala. Artemísia resolve meditar um pouco, antes de partir.

Fora das cidades flutuantes, os humanos necessitam de roupas e equipamentos especiais para transitar na Terra. Os trajes são pesados e tornam uma caminhada pequena muito desgastante. A temperatura no deserto é insuportável, mesmo dentro dos trajes especiais, mas Artemísia estava decidida, precisava encontrar Itá. Em uma cidade humanoide ela aluga um veículo para atravessar o deserto.

— Atravessar esse deserto é muito perigoso. — Um humanoide diz, de trás do balcão.

— Eu sei. — Artemísia responde.

O comerciante entrega os códigos de comando do veículo para Artemísia. O veículo a espera na entrada do deserto, que é marcada com um portal.

Artemísia entra com as coordenadas da montanha e o veículo segue. Sua vida passa em sua mente como um filme. Ela se lembra da infância, sem amor, sem liberdade. Lembra-se da solidão e do medo que sentiu quando sua mãe morreu após serem raptadas em Vênus. De repente, um animal enorme, que parecia feito de aço, atropela o veículo, que gira por uns instantes e bate em uma pedra grande. Artemísia desmaia.

 

 

— Senhora, o Senhor está a caminho; está com olhar furioso e dois guardas do Conselho o acompanham.

A criada avisa à mãe de Artemísia, que está deitada em sua cama, melancólica devido ao ocorrido na sala das armas. Artemísia está sentada no chão, perto da cama da mãe. A mãe de Artemísia se levanta assustada e olha para a filha.

— Vieram te buscar. — A mãe da menina diz, assustada. Artemísia não se meche.

A porta se abre bruscamente, era o pai da menina com os guardas. Ele entra furioso e, enquanto se aproxima de Artemísia, três homens vestidos de preto entram pelas janelas do quarto. Eram guerreiros mercenários, mas não pertenciam ao Clã. O pai de Artemísia se assusta, então começam a lutar com suas espadas. Os guardas do Conselho correm para ajudá-lo. As mulheres gritam e choram desesperadamente. Artemísia continua imóvel.

Em meio à luta, um dos mercenários pega a menina, a joga sobre o ombro e sai pela janela. A mãe vê tudo e não consegue falar nada, estava apavorada. Os dois homens matam um dos guardas e ferem o pai de Artemísia na perna e nos braços, ele cai no chão aos gritos, então um dos homens de preto também sequestra a mãe de Artemísia enquanto o outro luta com o guarda que estava vivo. Quando o homem sai pela janela com a mãe da menina, o outro mercenário empurra o guarda no chão e também sai pela janela. Do lado de fora, um veículo o esperava, com os outros dois mercenários, uma mulher que guiava o veículo, Artemísia e sua mãe. O guarda corre até a janela, mas só consegue ver o veículo já distante, que desaparece em alta velocidade. Artemísia continua indiferente. Sua mãe está desesperada.

— O que querem de nós?

— Somos mercenários, minha senhora. Não se preocupe, nos pagarão muito bem por vocês, não iremos machucá-las. — Diz um dos mercenários enquanto tira a máscara que cobria seu rosto. Era um belo rapaz com sorriso cativante.

— Isso é um sequestro?

— Sim. — Diz uma mulher que também está tirando a máscara. — Digam adeus ao seu lar antigo. Agora vocês serão cidadãs do lado alegre de Vênus. Deveriam nos agradecer.

— Não conseguiremos passar pelos portões. — Artemísia diz, friamente.

— Vejam só, a bonequinha fala. Não se preocupe, não somos amadores, doce criança. — O belo mercenário diz. Artemísia lança um olhar cheio de ódio para o mercenário sorridente.

O veículo faz uma manobra no ar, então desce até o portão principal. O espaço aéreo do Clã era bem vigiado, qualquer nave ou veículo flutuante que tentasse atravessar, sem permissão, os limites de suas fronteiras era abatido imediatamente.

Um guarda confere os códigos do veículo. Todos possuíam identidade liberada, com códigos venusianos, do outro lado; Artemísia e sua mãe também receberam códigos falsos. A mãe de Artemísia pensa em entregar a farsa, mas teme por sua vida, então fica quieta. O veículo é liberado e o portão se abre. Do outro lado, Artemísia sente um frio na espinha.

— Bem-vinda à liberdade, futura mercenária! — Diz a mulher que sequestrou a menina.

 

 

O calor sufocante faz com que Artemísia acorde. As lembranças ainda estavam frescas em sua memória e por um momento ela tem dificuldade em se situar no presente.

— Itá! — Artemísia diz. Ela se lembra de onde quer chegar.

Artemísia sai do veículo e tem que seguir o resto do caminho a pé. Com o traje utilizado para andar na Terra, ela sai, pega seus pertences e olha ao seu redor. A pedra grande onde o veículo bateu está à sua frente. Ela olha para o solo seco e rachado, em que a poeira é soprada por um vento forte. À sua esquerda ela vê ao fundo, bem distante, a montanha.

— Será uma bela caminhada. — Artemísia comenta, desanimada.

Sem pensar na distância, ela segue em frente; já conhece o caminho que deve seguir.

 

NESTE PEITO AINDA BATE UM CORAÇÃO

 

Os ventos fortes do deserto só tornavam a caminhada mais difícil. A distância, que já não era tão pequena, parecia triplicar graças ao traje pesado, aos ventos fortes e ao calor insuportável.

Artemísia cai no chão, exausta.

— Preciso continuar. — Ela pensa alto, deitada no chão olhando para o céu escuro, com nuvens turbulentas.

A guerreira tenta reunir suas forças, então se levanta e segue em frente.

Na metade do caminho, seu corpo dá sinais de que não aguentaria mais. Sua visão se torna turva, sua mente fica confusa e ela quase perde a razão. A loucura ou a morte pareciam certas. Mas antes que seu corpo se tornasse inútil, os ventos trouxeram um alívio. Em uma phantom, um humanoide aventureiro aparece.

— Moça! Aceita uma carona? — O humanoide diz em tom descontraído, sorrindo. Depois desce do veículo, carrega Artemísia e a prende em suas costas, através de uma espécie de cinto.

— Aponte a direção em que deseja seguir, e te levo até lá. — O humanoide diz. Artemísia, com muita dificuldade, aponta para a montanha, que para a phantom não estava muito distante.

Ao chegarem à montanha, o humanoide, ainda no veículo, para e olha ao redor.

— Aqui não há nada, garota. Talvez você esteja delirando.

Artemísia teme que o humanoide a leve embora, na tentativa de salvá-la. Seu coração dispara, mas ela não consegue se manifestar. Mas antes que a phantom entrasse em movimento novamente, Itá aparece.

— Obrigada meu bom rapaz. Deixe-a e pode seguir novamente o seu caminho.

O humanoide não questiona. Faz como Itá disse, e a phantom desaparece em meio ao vento e à poeira do deserto.

No templo, Itá cuida de Artemísia e a leva até um quarto.

— Agora que você já tomou um banho e está se sentindo melhor, descanse um pouco. Amanhã teremos um dia longo. — Itá diz, sorrindo, para Artemísia que está deitada sobre uma cama.

Artemísia agradece com um sorriso e adormece.

Itá havia herdado o templo de seu antigo mestre. Era um templo cravado dentro da montanha e já estava ali há várias gerações. Itá, assim como Hikari, não recebia senão um discípulo por vez, e a maioria era sempre indicada por outro sábio. Mesmo percebendo que Artemísia não seguiria o caminho dos sábios tão cedo, Itá sentiu que o coração dela precisava bater forte novamente, pois disso dependia a libertação de sua alma, de sua verdadeira essência. Mas as mágoas e o ódio funcionavam como uma grande muralha que impedia qualquer ensinamento de chegar até o ser mais profundo de Artemísia, e Itá era a única que poderia, naquele momento, enfraquecer essa muralha.

Quando Artemísia acorda, vê Itá em sua cerimônia de reverencia em direção ao nascer do Sol. Ela observa os leves movimentos da mestra enquanto espera.

— Bom dia, minha querida. Como se sente hoje?

— Melhor, obrigada!

— Venha, você precisa se alimentar.

Enquanto Artemísia se alimenta, Itá lhe pergunta sobre sua experiência na caverna da queda d’água; do jardim de Yuki.

— Não consegui ver toda a história. Nem faço ideia a qual época o holograma se referia. Não consegui prosseguir; parei bem no momento em que surge o patriarcado.

— Então você não viu nada ainda. Essa é uma história muito longa. Mas você terá oportunidade de conhecê-la; não se preocupe, tudo tem seu momento certo.

Artemísia come um pedaço de pão.

— Alguma vez você já se apaixonou, Artemísia?

A venusiana se engasga. Itá sorri.

— É claro que não. Conheci pessoas que conquistaram meu respeito, mas não consigo me imaginar apaixonada por um ser humano. Somos seres patéticos.

— Então seu coração nunca bateu mais forte por ninguém?

— Sim, já bateu. Quando meu pai me arrancou aos berros da sala sagrada da minha família, meu coração bateu forte de ódio.

— Você já conheceu o ódio, disso já sei; mas, e o amor?

— O amor… Me soa mais como uma lenda; um mito que alguém inventou para que as pessoas suportassem umas às outras em busca desse ideal inatingível.

Itá analisa Artemísia; sua pulsação, temperatura, expressões… Após escanear a guerreira, Itá conclui.

— Enfim encontrei algo que a guerreira teme.

— Do que está falando?

— Você conhece, há muito tempo, o ódio e as mágoas, mas jamais experimentou o amor. Embora anseie profundamente vivenciar tal sentimento, seu coração teme descobrir que ele existe, mas lhe foi negado durante toda a vida. Isso a faria sentir-se inferior aos demais, por isso prefere acreditar que ele não existe, nem pra você, nem pra ninguém. Imaginar que o amor é uma falácia lhe conforta o coração.

Artemísia se levanta, furiosa. Olha para Itá e pensa um pouco antes de falar.

— Com todo o respeito que lhe devo, mestre… irei para o meu quarto.

— Fique à vontade, minha querida. Estarei meditando na sala azul; se precisar de mim, pode me interromper.

As duas se despedem com um sinal positivo com a cabeça.

No quarto, deitada, Artemísia lembra-se da cena que a fez procurar os ensinamentos do sábio Hikari.

Em uma das tantas batalhas mercenárias já travadas por ela, na Lua, em sua região mais sombria e esquecida, onde a miséria humana se manifestava ferozmente, Artemísia viu, em meio aos cadáveres, um homem, carregando um bebê, chorando como se lhe tivessem arrancado a única razão para existir. Ele estava debruçado sobre o corpo de uma mulher, a mãe do bebê que ele carregava nas costas. O bebê não chorava, estava quieto; parecia saber o que estava acontecendo. As lágrimas do homem molhavam o rosto da mulher, enquanto ele dizia o quanto a amava e o quanto sentiria sua falta. Aquela cena roubou a atenção de Artemísia em plena batalha.

Enquanto olhava para o homem, um soldado feriu Artemísia no braço; ela o matou instintivamente com uma espada e voltou sua atenção para a cena. Artemísia sentiu algo que nunca havia sentido antes; inveja. Se aquele sentimento existia, o amor, por que então ela não o experimentara ainda? O que havia de errado em sua alma que a deixava excluída de tal conexão? E se ele fosse mesmo algo tão raro, o que ela faria caso um dia pudesse experimentá-lo? Viver sem encontrar o amor já era confortável para ela, mas como seria sua vida caso um dia o encontrasse? Naquele dia, Artemísia desistiu de seu pagamento e foi para uma taberna beber. Um mal-estar havia tomado conta de todo o seu ser, e ela já não se reconhecia mais. No dia seguinte, procurou por Hikari, O mais antigo dos Sábios; a vida de mercenária já não servia para a venusiana.

— Itá. — Artemísia chama pela mestra. Itá acorda de sua meditação. — Sim. Eu tenho medo. É um medo que me consome; que me leva para os cantos mais escuros da minha alma. É um medo que me afasta de tudo e de todos, pois não posso correr o risco de me conectar a alguém. Amei meus pais… e o que recebi deles? Nessa época eu ainda era uma criança, embora a dor tenha sido intensa, eu ainda não compreendia muito bem as coisas da vida; mas não posso correr o risco de amar novamente e ver tudo se repetindo. Meu caminho é com a solidão, somente nela posso confiar; somente a ela me sinto confortável em me conectar.

Itá sorri.

— Minha querida… já não tenho mais lições para você. Volte para a casa de Yuki, lá encontrará tudo que precisa agora.

— Você se refere às lições dos documentos guardados dentro da pedra da queda d’água no jardim?

— Também.

Artemísia fica pensativa um tempo.

— Quanto estrago Vênus causou em mim… — Artemísia diz, com pesar.

— Não precisa mais se preocupar com Vênus; o que viveu lá faz parte de você, mas não pode definir quem você é hoje.

— Sim; mas Vênus ainda me dói. Tanto que evito aquele lugar há anos. Maldito Clã.

— Não carregue tanto ódio em seu coração; mesmo porque, neste exato momento, a vida em sua terra natal está desaparecendo.

— Desaparecendo?

— Sim. A última nação patriarcal do nosso Sistema deixa de existir hoje. O planeta entrou em colapso. Parece que a antiga deusa não quer mais a humanidade em sua esfera.

Uma tragédia põe fim à ocupação humana em Vênus.

 

VÊNUS

 

Após a ocupação de Marte, Vênus se torna a esperança humana de encontrar um novo lar. Muitos acreditavam que o planeta poderia ser uma nova Terra, e seria a garantia da sobrevivência humana depois que o planeta natal se tornasse extremamente hostil a seus filhos; mas resolver a questão do efeito estufa em Vênus, que mantinha a temperatura em sua superfície por volta dos 480 °C, ainda era um desafio que ninguém conseguia vencer. Mesmo os humanoides não conseguiam visitar o planeta sem que sofressem sérias avarias em seu sistema, isso dificultava bastante as pesquisas científicas.

Mas após a última grande catástrofe na Terra; o instinto de sobrevivência pareceu falar mais alto, e um grupo de engenheiros, arquitetos e cientistas se uniu para encontrar uma forma de tornar o planeta Vênus habitável. Enquanto desenvolviam suas pesquisas, eles viveram em naves, que orbitavam Vênus. Um dia as pesquisas começaram a dar bons frutos, e os gases da atmosfera do planeta foram mudando sua composição até que a pressão e a temperatura se tornaram mais brandas, possibilitando as visitas e o trabalho dos drones e dos humanoides.

Em pouco tempo, os humanoides conseguiram desenvolver uma flora no planeta, muito parecida com a da Terra, e uma fauna microscópica começou a surgir. A temperatura estava próxima dos climas de regiões quentes, mas habitadas, do planeta Terra dos tempos antigos, de antes das catástrofes, e animais terrestres puderam sobreviver por lá. Em poucos anos, a vida humana já podia prosperar em Vênus; mas os recursos do planeta eram bem limitados, não havia possibilidade de abrigar um contingente muito grande, e quando o grupo que curou Vênus se fixou por lá, as guerras contra os invasores se tornaram frequentes.

Após a aliança com o Clã, os habitantes de Vênus puderam encontrar um pouco de paz. Mas o planeta sempre se mostrou instável; as transformações artificiais causadas pela humanidade pareciam, de alguma forma, fazer mal ao planeta. Era como se a essência de Vênus não aceitasse tais transformações e lutasse o tempo todo para prevalecer.

Humanos x Natureza; mesmo na Terra essa luta era frequente. E, assim como na Terra, também em Vênus a Natureza ganhou essa disputa.

Enquanto Artemísia estava aprendendo suas lições com Itá, seu planeta natal estava destruindo tudo aquilo que o impedia de ser ele mesmo. Uma série de vulcões entrou em erupção, destruindo praticamente todas as cidades, que não eram muitas, construídas ali. Os gases expelidos pelos vulcões logo tomaram conta da atmosfera que, sem o controle humano, começou a voltar ao que era antes. Não demorou muito para que Vênus voltasse a ser uma deusa intocada pela humanidade.

— Você é a única descendente viva de sua família; tome.

Uma mulher, já idosa, entrega a Artemísia a espada de sua família, a Espada Ancestral; estopim da tragédia que a levou, ainda menina, a ser condenada à morte pelo Conselho, motivo da maior mágoa que ela guardava no coração a respeito de seu pai.

— Jogue fora. — Artemísia diz, impaciente.

A mulher se aproxima de vagar.

— Minha filha. Os costumes que esta espada representa já não existem mais… mas ela carrega uma história, a sua história. Sei que ela não lhe traz boas lembranças, mas é mais que um simples objeto. Um dia você compreenderá. — A velha diz. Artemísia fica pensativa, mas aceita a espada. — Poucos de nós sobreviveram. Carregue essa espada sempre com você, para que nunca se esqueça de onde veio.

A velha sai amparada por Yuki.

Artemísia vai para o jardim. Ela senta sob a sombra de uma cerejeira e, com a espada do lado, começa a meditar.

— Quem era a velha, Yuki? — O irmão de Yuki pergunta.

— Uma antiga serva do pai de Artemísia, pelo que entendi. Parece que ela sobreviveu ao desastre de Vênus porque alguém na família de Artemísia incumbiu a velha de cuidar da espada e a colocou em uma das naves que deixaram Vênus antes do colapso final.

— E porque o pai de Artemísia mesmo não fez isso?

— Ele tinha princípios de honra, ou sei lá; acredito que ele tinha esperança de que as coisas pudessem melhorar no planeta e ficou para proteger o Clã. Eu acho.

— Entendo.

— Vamos, Yama; o mercado já vai fechar.

— Espere, Yuki!

Yama, irmão mais novo de Yuki, segue a irmã, que está saindo pela porta.

Desde que se despediu de Itá, na montanha, Artemísia ficou na casa de Yuki. Ela precisava aprender as lições que Itá havia deixado atrás da pedra da queda d’água. Em algumas ocasiões Itá ia visitá-la; e elas conversavam sobre o que Artemísia estava aprendendo. Eram conversas tranquilas, agradáveis, bem naturais; sempre no jardim.

Aos poucos, as mágoas de Artemísia estavam diminuindo e já não pesavam tanto em seu peito. O fim trágico do Clã foi levando para longe tudo de ruim que ela viu em sua infância; que já parecia uma outra vida.

— Nem Hikari conseguiu fazer por mim o que você tem feito, Itá.

— Você ainda não estava preparada para os ensinamentos de Hikari, minha querida; por isso ele não podia fazer muito por você. Somente nós podemos curar nossas feridas, mas há casos em que não conseguimos encontrar a cura sozinhos, por isso a vida nos coloca diante de pessoas ou situações que nos ajudam a enxergar essa cura.

— A vida é estranha.

— Por que você diz isso?

— O Clã. Parecia eterno. E hoje não resta nem o pó de suas construções.

— Sim. Mas algumas sementes resistiram.

— Sementes?

— Há sobreviventes do Clã espalhados por Apolo. São poucos, mas são suficientes para que suas ideologias ganhem forma novamente.

Artemísia olha para o chão.

— Há coisas que não morrem nunca, certo?

Itá sorri.

— Na verdade… a morte não existe.

As duas se olham. Artemísia está séria e pensativa. Itá está sorrindo, docemente, com uma das mãos sobre o ombro de Artemísia.

Yuki se aproxima.

— Venham. É hora do chá.

O clima de amor e fraternidade que havia naquela família parecia tocar fundo no coração da venusiana. Foi a única vez, até então, que Artemísia pôde experimentar a doçura da convivência em família. O fim do Clã também contribuiu para amolecer seu coração; agora, somente lembranças opacas ligavam Artemísia ao seu passado; cheio de dor, abandono e sofrimento.

Yama, o irmão mais novo de Yuki, também era um bom engenheiro. Estava sempre em sua oficina trabalhando em seus projetos. Como vários em sua família, também havia tentado resolver o problema do bug no garoto humanoide; mas esse era um desafio que ninguém ali conseguia resolver. Então, Yama estava investindo na tarefa de desenvolver um humanoide que pudesse consertar o garoto.

— Aproxime-se, Artemísia.

— Não. Só estou observando. Não quero atrapalhá-lo.

— Você nunca atrapalha. Venha.

Artemísia se aproxima do projeto de Yama, que está sobre uma mesa.

— Que belo humanoide você está desenvolvendo! Será uma ginoide ou um androide?

— Ainda não sei. Talvez seja um andrógeno. A tecnologia humanoide é uma só; o gênero não tem importância alguma. É um detalhe herdado da humanidade antiga; do tempo que ainda havia discussões ideológicas ferrenhas sobre as questões que envolvem essas diferenças tão simplórias.

Artemísia fica pensativa.

— Me desculpe Artemísia. Às vezes me esqueço que você recebeu uma educação com princípios muito antigos.

— Não se desculpe. Meu Clã era um pedaço do passado que insistia em existir, apesar de tudo ao redor lhe indicar um caminho diferente.

— Talvez porque fossem necessários ainda.

— Talvez…

— Bem, quanto aos humanoides, no tempo em que sua tecnologia foi desenvolvida, as características de gênero eram muito importantes para a humanidade, por isso criaram ginoides e androides; isso os confortava devido às suas crenças da época. Mas hoje, é uma simples questão de estética, pois, para nós, as diferenças, os detalhes, têm outro significado; não os vemos como razão de exclusão, mas como algo que define e expressa a essência do ser; e são raros os humanoides que atingem essas características que muitos consideram exclusivas da humanidade.

— Assim como Itá, certo?

— Sim; Itá é um exemplo disso. Sua essência esbanja o princípio feminino da Natureza; não haveria problema se fosse um androide, ainda assim, esse princípio seria o mesmo nela, pois ele não está associado ao gênero e sim a características da Natureza que se expressam através da passividade, do acolhimento, da receptividade… Enfim; é o princípio que sustenta tudo, que sustenta a ação.

— No Clã, muitos sábios associavam as características do princípio feminino da Natureza às mulheres; e usavam isso para justificar sua superioridade, dizendo que as mulheres deviam sempre ser passivas e aceitarem sua natureza.

— No passado, muitos foram os sábios que entenderam dessa forma; e muita confusão e sofrimento reinou nesse tempo. Sendo o princípio masculino o ativo e o princípio feminino o passivo, relacionar essas Forças aos conceitos de macho e fêmea leva a erros absurdos, já que tais princípios existem em tudo no universo.

Artemísia vê em um computador os códigos nos quais Yama trabalhava.

— Condicionamento.

— Como?

— Estou vendo os códigos que você está escrevendo para o humanoide. Com esses códigos você pode definir que tipo de personalidade ele irá desenvolver. Pode definir se ele terá características de uma ginoide, um androide ou um neutro.

— Sim.

— Isso me fez lembrar do quanto foi difícil me adaptar aos costumes fora do Clã. Homens e mulheres convivendo como iguais, como neutros; agora me veio a resposta. Tudo questão de condicionamento social. São as culturas que definem as diferenças no comportamento humano.

— A maior parte do tempo, sim. — Os dois olham para o humanoide sobre a mesa. — Eles foram feitos à nossa imagem e semelhança; e sempre têm algo a nos ensinar. — Yama diz.

Artemísia se lembra de Andyrá e pensa alto.

— Os espelhos…

Contos de Ustrael – Dias de Treino (Capítulo 5)

A lua é visível, hoje nada podia impedi-la de brilhar violentamente neste céu ao qual parecia mais forte que o próprio sol, seu imponente azul banhava o país inteiro de uma parte a outra.

Kaori se encontra a parada no meio de um mar de girassóis com os olhos fechados.

Inúmeros vaga-lumes voavam ao seu redor trazendo uma paisagem linda ao ser combinada com esta sutil brisa gelada que fazia as flores voarem.

Vestia um kimono totalmente branco para o seu treino noturno que começaria em alguns segundos.

Passos.

Ground se aproximava.

“Vejo uma boa aura em você hoje.”

“Hê?”

Abriu os olhos.

“Podemos dizer que eu preciso me animar um pouco.”

“Exatamente.”

Estalou os punhos.

“Até por que você sabe, pirralha, eu vou destruir cada membro de seu corpo se não levar isto a sério.”

Sim.

Após os eventos do ataque de Zanteos…Kaori começou a treinar exaustivamente todos os dias com uma vontade muito maior para poder participar de batalhas de tal magnitude em vez de apenas observar com olhos indefesos.

Ground é seu professor particular de artes marciais já fazem dez anos.

E nunca pegou leve.

Jamais deu uma colher de chá independente de seu humor ou situação.

“Vamos começar.”

Não esperou nada, imediatamente avançou na direção dela que sorriu e fixou as pernas no chão.

Impacto.

Colidiram os punhos violentamente fazendo os girassóis voarem ao redor.

—–

“Fogo, água, trovão, terra, gelo, madeira, vácuo, trevas, luz, magma, ácido, gravidade,são apenas alguns dos elementos que compõem este mundo e que podem ser utilizados para a criação de magias, existem aquelas conhecidas como conceituais não fazendo uso destes elementos básicos porém são mais difíceis de serem dominadas e criadas, o número de afinidade que uma pessoa pode dominar depende unicamente do individuo logicamente, até mesmo uma regra bem boba da afinidade elemental por mês é descartável em incontáveis casos, por tal, não irei me aprofundar nela por ser totalmente irrelevante, consegue entender isso até aqui?Hu, mas lógico que pode, se não terei que pensar que tem menos de 70 pontos de Q.I.”

Kaori fez beiço.

Se encontravam no mesmo mar de girassóis para o inicio de seu treinamento com magia, contando com hoje, fazia-se apenas cinco meses do ataque de Zanteos.

“Eu não sou burra a esse ponto…”

“Hu?É sempre bom confirmamos, sabe?E a runa?”

Balançou a cabeça positivamente.

Apontou para os seios.

“Está aqui, disse que era bom um lugar não visível, né?”

“Sim, afinal existem muitas maneiras de fazer a runa perder a efetividade durante uma batalha,  e é ela que regula e controla a quantidade de magia no corpo, muitos magos não conseguem lutar sem ela, só a elite se dispõe desse prazer após anos de treinamento, e o seu equipamento mágico?”

Silêncio.

Apenas o som do vento foi visível.

Ground leu através da expressão sem graça que fez não o encarando.

Sorriu irritado.

“Garota…!!!”

“DESCULPE!MAS NÃO ME FALARAM ANTES!”

Colocou a mochila a frente e a abriu tirando um bracelete que ia até o cotovelo.

Ele o pegou e jogou longe!

“EI!”

“Eu disse para ser o menos chamativo possível‼Algo como um brinco, anel, até mesmo um dente falso!E você me aparece com aquilo?!”

“Não disse não!”

“Não!?”

Suspirou.

Isso não ia levar a lugar algum.

Depois iriam encomendar outro.

“Muito bem, magia só está presente em algumas milhões de pessoas neste mundo, é um gene especial que atua na forma de um órgão extra chamado de vasto, a magia fica presa aqui dentro e mesmo para aqueles que nascem com este gene a luta para se tornar um mago é longa, afinal precisa da runa e do seu equipamento mágico, este por sinal é feito especialmente para combinar com o gene e selecionar o quanto de magia você pode usar.”

Teletransportou o bracelete para seu punho.

“Afinal ela não é infinita, alguns nascem com um estoque imenso, outros nem tanto, um exemplo…Você quando vai tirar sangue, tem vezes que tira até a seringa ficar cheia, e outros nem tanto, não é?É mais ou menos assim que vai funcionar, a magia vai ser o sangue, o órgão o braço, e o bracelete a seringa, com a seringa você vai poder escolher quanta quantidade de sangue vai ser tirada e usar essa quantidade, perceba que é impossível ser um mago mesmo nascendo com o gene sem esses dois itens.”

Balançou a cabeça positivamente.

Colocando em palavras mais simples tal analogia…

Magia = Sangue

Órgão da magia onde ficaria o “sangue” = Braço

Regulador = Seringa.

Com o regulador (Seringa), você pode regular o quanto de sangue vai tirar (A magia presente no órgão extra), e então…

Distribuir ao corpo e fazer um uso correto dela sem desperdiçar nada.

Apesar dele a ter chamado de burra, era apenas uma provocação normal do dia a dia, pois a verdade é muito diferente.

Já pensou…

Você quer usar um ataque sem muita potência, mas sai um com toda a sua força, e vice-versa também?

Foi o que pensou neste momento.

Com certeza é o que ocorreria no começo não sendo capaz de regular a magia.

O regulador vai “implantando” no corpo do usuário o controle necessário durante anos, anos e anos de uso.

Assim, no futuro, com certeza ele não seria mais necessário, pois o corpo teria aprendido naturalmente.

“Entendo…A runa regula a quantidade correta de magia, e o equipamento é feito para selecionar a quantidade que desejar e usar, sem a runa e apenas com o equipamento, não iria conseguir tirar magia nenhuma, não é?”

“Apenas magos experientes lutam sem ela por já serem completamente de elite e passaram por um rigoroso treinamento, normalmente príncipes guerreiros do continente são assim mesmo em idades bem jovens, como uma regra moral, seu dever, como uma princesa guerreira de um país de Rank-5, é não usar equipamento algum aos 9 – 10 anos de idade.”

“V-Vá com calma!”

Pessoas normais levam sempre mais de 20 anos para terem o controle.

“Mas a magia pode ficar para depois, o motivo é bem simples, primeiro vem a manipulação de Ki que está ligado diretamente ao Aurae por terem bases idênticas, seu pai me fala que você não consegue dominar este estilo mágico, então é necessário pegar a base do Ki antes visando facilitar o aprendizado a ele.”

Balançou a cabeça positivamente.

Isso é verdade.

O Ki…Ele possibilita ter uma percepção muito maior das coisas.De tudo que está ao redor, entendendo o fluxo de energia do adversário e dos seres vivos em volta se torna muito mais fácil a leitura de um golpe certeiro.

Além de aumentar e muito a agilidade, capacidade de raciocínio e outras coisas.

A melhor maneira de fazer isso é meditando e ouvindo tudo ao seu redor, ao sentir essas energias e vibrações da natureza…Aprendendo isso podem lutar de olhos fechados pois qualquer movimento muscular de uma criatura viva gera pequenos campos elétricos.

E é exatamente isso.

Sentir o Ki é sentir as mudanças nesses campos e lutar usando um sexto sentido.

“Primeiro…O Ki jamais deve ser confundido com a magia, apesar de serem parecidos são coisas completamente diferentes com funções distintas, o Ki tem duas formas de ser manipulado, passivo e ofensivo, inclusive o estilo de luta Aurae que é dito como o melhor dos magos foi originado do Ki, basicamente o Aurae é uma evolução absurda do Ki, então eles possuem semelhanças, mas apenas esses dois tem alguma coisa em comum, inclusive dizem que o Ki é o estilo Aurae dos pobres como deve ter bem ouvido.”

“Sim…”

O encarou.

“Ground.”

“Sim?”

O tom de voz o pegou de surpresa.

“Seja sincero, acha que…Eu tenho talento para poder realizar os mesmos milagres do meu pai e do meu tio?”

“Hum?”

Realmente foi uma surpresa este tipo de pergunta vindo do nada, apenas fechou os olhos dando uma risada.

O vento ficou mais forte fazendo os girassóis voarem.

“Para ser sincero…”

Pronto.

Estava preparada para o pior.

Mas…As próximas palavras a surpreenderam.

“Eu vejo mais potencial em você do que em seu pai.”

“!”

Arregalou os olhos.

Não.

Não era uma mentira.

Vide que Ground nunca se importou de machucá-la com palavras soltando a verdade sem piedade.E isso já a fez se sentir mal de verdade inclusive, aprendeu a ver quando ele mente, ou não.

“Eu também ajudei na formação de seu pai como mago, então posso comparar ambos muito bem, o seu potencial é gigantesco, Kaori, então temos que fazer valer a pena, cada segundo, minuto e hora, por que no futuro…Vai com certeza poder ser orgulhar do que vai se tornar.”

“Ground…”

Sorriu emocionada.

“Sim!”

A animação,porém…Não durou muito!

Estava completamente atônita.

O motivo?

A dupla se encontrava a frente a uma caverna.A melhor maneira de ir despertando a capacidade de manipulação de Ki é meditando.

Sim.

Pensou que iria começar ali mesmo ao ar livre.

Infeliz engano.

Seria dentro dessa caverna ao qual parecia ser a passagem do submundo.

Nada poderia ser visto e sons assustadores vinham de dentro.

“Vai ser ae dentro!Junto com cobras, baratas, morcegos!”

“N…NEM PENSAR!!!”

“Não é como se você tivesse direito de escolha.”

Exatamente.

A verdade a fez abaixar a cabeça.

“E eu não lhe disse que qualquer movimento muscular de uma criatura viva gera campos elétricos?”

“Hum?”

O encarou.

Ground socou para a direita.

“Exato, eu posso ver…Este meus movimentos geraram correntes elétricas, e você só pode começar a manipular o Ki quando for capaz de enxergá-la.”

Subitamente!

A agarrou pelo pulso erguendo do solo a fazendo gritar.

“É a mesma coisa com a aura do Aurae, quem aprende a dominar o Ki com perfeição pode inclusive despertar o Aurae acidentalmente se for um gênio já que as bases são ridiculamente as mesmas, agora, VAI PARA DENTRO E NÃO SAI ATÉ CONSEGUIR!”

Uma “pena”, a arremessou como se pesasse menos que uma pena caverna a dentro.

Quando se chocou ao solo…Saiu rolando alguns metros a frente até parar de barriga no chão.

“Ai…”

Ficou assim por alguns segundos até que fora começando a ficar em pé.

“!!!”

Não.

Não era capaz de ver absolutamente nada.

Estava de olhos abertos?

Ficou cega?

Se encontravam fechados?

Impossível.

Simplesmente impossível perceber.

Seu senso de direção também fora destruído.

Pois não importa para onde olhava.

Só existia trevas.

Nem mesmo era capaz de dizer para onde devia ir e onde ficavam as direções.

Ficou em pé em pânico e logo após caiu sentada.

Mais alto.

Os sons dos animais ficavam cada vez mais altos.

A “perca” da visão fez tudo parecer mais perto, alto e amedrontador que antes.

Não era só a visão.

Parecia ser uma questão de tempo para os outros sentidos também pararem de funcionar.

Forte.

Parecia uma bateria.

Cada batida de seu coração parecia que o faria sair pelo peito.

Basicamente estava amedrontada.

Mas…

“O seu potencial é gigantesco, Kaori, então temos que fazer valer a pena, cada segundo, minuto e hora, por que no futuro…Vai com certeza poder ser orgulhar do que vai se tornar.”

Não.

Não apenas isso.

De algum modo conseguiu raciocinar que muitas coisas estavam em jogo.

O resto de sua vida.

A de seu irmão.

De sua mãe.

O país inteiro.

Novamente….Não.De jeito nenhum.O escuro não podia fazê-la esquecer tudo isto.

Fechou os punhos mais fortes.

Sim.

Realmente não tinha senso de nada e seus sentidos a abandonaram.

Essa era a tão falada “Caverna do desespero” que existia na ilha principal, então…

Porém, Adeko sempre a disse algo.

“A luz brilha mais forte no escuro, né, Pai?”

Deu uma risada.

Exato.

A única coisa que podia ser visto nesse breu…Eram o brilho de seus olhos azuis que reluziam mais do que tudo ignorando a escuridão.

E então.

Aos poucos…Fechou os olhos começando a meditar.

E então.

O tempo passou.

Algumas horas?

Alguns minutos?

Dias?

Era impossível saber.

Perdeu completamente a noção de tudo que podia existir, como se estivesse em uma dimensão diferente.

Mas…Sentiu algo.

Uma eletricidade.

Abriu apenas o olho direito.

Estava mais claro?

Por que?

A luz não chega até aqui.

Isso só podia significar algo.

Mesmo que aos poucos…Está se acostumando a escuridão.

Mas não fora isso.

Uma corrente elétrica fraca estava se aproximando daquele lado, ainda não sabia se era direita ou esquerda, porém o acompanhou.

Foi um rato.

Seu grito foi ouvido até do lado de fora da caverna.

Após o incidente voltou a meditar.

Inúmeras coisas vinham a sua cabeça nesse momento.

Viu uma imagem.

Ou teve uma visão do futuro?

Havia um garoto que estava de costas a ela, nunca tinha visto mas sentia uma sensação nostálgica.

Acabou dando um sorriso inconsciente.

Até por aquele cenário que podia ser visto ao redor dele, era…

E então.

Foi em um único flash.

Ainda se encontra sentada em meio a escuridão, foi quando subitamente a caverna apareceu em um pulsar.

Mas era diferente.

Apenas podia ver os contornos da caverna sendo feitos de eletricidade, tal como os animais.

Tudo.

Podia ver tudo.

Até mesmo o lado de fora.

Colocou a mão no joelho, se levantou e fora caminhando até a saída.

Nunca foi tão fácil encontrá-la.Quando finalmente saiu da caverna…

Estava de noite.

“Antes…Tava de dia, né?”

Logo, tomou para si que ficou algumas horas.

Não.

Uma semana.

Ground estava sentado ao lado, e foi de encontro falando sobre o tempo.

“COMO EU NÃO MORRI????”

“Eu já disse, você é uma princesa guerreira, a combinação de genes fantásticos que estão em você a faz muito mais forte que uma pessoa normal, deixando isso de lado, como se sente?”

“É estranho…”

Levou a mão até a cabeça.

Isso até a faz te dor de cabeça, tudo está mais perto, a árvore que originalmente devia estar a 10 metros.

Parecia a um.

Valia para qualquer coisa, também enxergava muito mais limpo, como se fosse um HD perfeito.

Sentia que qualquer coisa iria atacá-la pois os sons todos ocorriam ao lado, os sentidos estavam mais aguçados do que nunca.

Ground notou a expressão.

Sorriu.

Foi um sucesso.

—–

Três semanas de treinamento após…Ainda continuavam na manipulação de Ki.

Kaori devia dominá-lo em seu potencial máximo.

Logo, só passariam para a magia quando o básico e avançado fosse completado com perfeição.

“Força, Kaori!”

“C..C…COMO ISSO É POSSÍVEL!?”

Gritou irada.

O motivo?

Estava deitada ao chão, Ground ao lado e com o dedo indicador na barriga da jovem.

Impossível.

O segurava pelo pulso tentando movê-lo.

Nem mesmo um centímetro.

“Isso também é manipulação de Ki.”

O retirou.

Logo ficou sentada.

Suspirou e o encarou.

Queria que explicasse o que fez.

“Manipulação de massa, podemos mudar a massa de qualquer coisa usando o Ki, aumentei o peso do meu dedo para algumas toneladas, era impossível que o movesse.”

É algo normal.

Em qualquer luta, os usuários de Ki mudam a massa de seus corpos para assim aplicarem golpes muito mais poderosos e efetivos que o normal.

“Também é possível fazer isso.”

10 metros.

Fora a altura que começou a flutuar a deixando surpresa.

“0”

Mudou a massa corporal para zero e assim era capaz de planar.

Mas era arriscado.

Se levar um golpe nessas condições…

Derrota total.

Tocou o solo.

Kaori a essa altura era perfeitamente capaz de ver as correntes elétricas, então agora podia ser feito.

“Vamos para a arte de Ki definitiva.”

Arte.

É o nome que está sendo dado para as “magias” que são feitas totalmente a base de Ki.

Não recebe mais o nome de magia.

E sim Arte.

“É a maior de todas, nem mesmo o Aurae tem algo tão poderoso e avassalador quanto isso.”

“A maior?”

Tinha uma noção do que Ground se referia.

O Aurae é manipulação de aura.

O ki a manipulação de correntes elétricas.

Então tinha algo…

Unlimiteds.

Algo que o Aurae não poderia reproduzir.

“Quando corremos um perigo de vida ou morte o corpo libera uma série de hormônios que são utilizados para nos salvar destas situações terríveis. Por esta razão, “milagres” acontecem, como levantar um carro e coisas do tipo, depois de um tempo não conseguirá fazer isso novamente. É interessante, porque o músculo não diminuiu, na verdade, você passou a utilizá-lo na sua totalidade, pois era um momento necessário de desespero. Esta situação implica que força não vem do tamanho do músculo, mas, sim, da mente. Quem treina para ficar forte treina antes de tudo a ligação neuromuscular, ou seja, a capacidade em utilizar todo o tamanho do músculo para gerar força, através do Ki podemos gerar isso da maneira como bem entendermos, preste bem atenção nisso que farei.”

Balançou a cabeça positivamente.

Entendeu o que ele queria dizer, só não viu uma ligação com a manipulação de Ki, então teria que ver na prática.

Caminhou até uma rocha de 50 metros ao qual faria qualquer humano olhar como uma mera formiga.

“Através do Ki nós vamos dar uma ordem ao nosso cérebro que pelos neurotransmissores irão levar isso ao resto do corpo, essa ordem é, “liberem adrenalina constante.”

“Eh?”

Ela percebeu algo.

O Ki ao redor do corpo de Ground ficou mais poderoso.

Não apenas isso.

Seus músculos…Cresceram!

“Isso significa…Manipular o Ki também é…”

“Sim, manipular o Ki é conseguir dar ordens ao próprio cérebro, manipular o corpo em sua totalidade o elevando ao máximo.”

A arte definitiva que faz magias de Rank-S parecerem brincadeira.

Seria fácil mudar a massa dessa rocha para 0 e a erguer também.

Não.

Ele não fez isso.

Dando a ordem de seu corpo agir na potência máxima…A levantou com uma mão e jogou para cima transpassando as nuvens.

….

Kaori ficou de boca aberta.

Não podia ter outra reação.

A encarou.

O vento começou a ficar mais forte.

“Como é uma arte de Ki, e não magia, é desnecessário ter a runa e o regulador, foi até ótimo ser uma arte, pois se fosse magia, hu, só deus sabe o quão impossível seria a dominar, e veja bem, criança.”

Ela se ajoelhou.

“EH???”

Por que?

Por que estava ajoelhada?

Não.

Isso não fez sentido algum.

Olhou para Ground.

“O que você…”

“Eu dei uma ordem ao seu cérebro através da atmosfera, quem não sabe usar a Unlimiteds  pode acabar se tornando um brinquedo para aquele que a domina, como isso, repita 10x, eu sou uma idiota.”

“Por que e-

Iria retrucar.

Mas…Era impossível.

E então…Começou.

“Eu sou uma idiota.”

Uma, duas, três…

Dez vezes!

“Ah…Ah…?”

Ground rolava no chão de rir.

“O QUE TÁ FAZENDO COMIGO????”

“Uma ultima experiência, tente ficar em pé.”

“…”

Já sabia que não ia conseguir.

Mas tentou.

E realmente.

O corpo simplesmente não se move.

Nem mesmo um centímetro.

Sentiu os membros completamente inúteis.

O motivo?

Ground deu a ordem ao cérebro de Kaori jurar obediência absoluta.

Por mais que tentasse se mover…Seu cérebro mantinha a ordem de obedecê-lo funcionando e não havia como contrariá-lo, afinal…Não podia ir contra seu cérebro.

E então, ficou sentada ofegante.

Ele a retirou.

Foi uma experiência horrível.

Por alguns segundos…Esse corpo não a pertenceu mais.

Aqueles que dominam a unlimiteds podem realmente fazer o que quiserem com a vitima, reescrever memórias, dar ordens para o cérebro parar de funcionar, retirar os sentidos dizendo que não são mais necessários, mudar personalidades, entre várias outras só dependendo da imaginação.

Basta a ordem.

E o cérebro fará.

“Se eu quisesse deixar fluir todo meu ódio contra você iria mudar totalmente sua personalidade, poderia fazê-la esquecer todas essas memórias até hoje, colocar novas fazendo pensar que é qualquer animal e agir como tal, criar traumas, sentimentos falsos, fazer pensar que está vendo ilusões desses traumas, enfim, muitas outras coisas, agora, escute bem o por que disso ser possível, as mesmas correntes elétricas que vemos quando aprendemos a ver o Ki estão presentes no encéfalo que é o centro do sistema nervoso em todos os animais vertebrados, nós apenas precisamos manipular essas correntes elétricas, é necessário primeiro concentrar o Ki nas orelhas sendo um iniciante, essa é a primeira parte.”

Existiam dois meios de dar ordens.

Pela atmosfera juntando seu Ki ao próprio ar.

Ou por contato físico sendo iniciantes.

Ele se ajoelhou a frente dela colocando as mãos em suas orelhas a surpreendendo, as mesmas foram preenchidas por Ki.

“Só estou lhe dando uma noção, você deve conseguir fazer sozinha após alguns treino.”

“Sim…”

“É agora que a Arte precisa ser adicionada, coloque seus pensamentos nesse Ki que rodeia toda a sua orelha.”

“Pensamentos?”

“Não faça perguntas agora, vai entender tudo quando eu terminar, coloque uma ordem no centro desse Ki como se tivesse o formato de qualquer coisa e uma corrente a segurando fortemente, mas não que seja nada acima do que você pode fazer, essa arte pode aumentar a velocidade, força, para um nível que treino nenhum permitiria em determinadas pessoas, porém se o corpo não tiver poder o suficiente, vai morrer quando seu efeito passar.”

“…Certo.”

Ela fechou os olhos se concentrando.

“Já fez, não é?”

“Sim.”

“Certo.”

E então.

O Ki entrou pelas orelhas.

“!!!”

“Hu, fique calma, o último osso da cadeia ossicular, o estribo, está acoplado a uma fina membrana chamada de janela oval.A janela oval é na realidade uma entrada para a orelha interna, que contém o órgão da audição, a cóclea.Quando o osso estribo move, a janela oval move com ele.No outro lado da janela oval está a cóclea ,um canal em forma de caracol preenchido por líquidos e, quando as vibrações chegam à cóclea provenientes da orelha interna, serão transformadas em ondas de compressão que por sua vez ativam o órgão de Corti que é responsável pela transformação das ondas de compressão em impulsos nervosos que são enviados ao cérebro para serem interpretados, assim,podendo dar ordens ao cérebro pelo Ki, a arte consiste em uma magia para prender o pensamento no Ki e enviá-lo ao cérebro.”

Então é assim.

Sim.

Tudo fez sentido agora.

Isso que quis dizer com as correntes elétricas do Ki serem as mesmas do encéfalo.

Essa Arte…Era realmente..

Definitiva.

Estava assustada com seu potencial infinito.

O nome faz jus.

“Então,que ordem você deu ao cérebro?

“Ah?”

Sorriu e piscou o olho.

“Uma promessa.”

“Oh, hu, se não for pessoal demais, qual foi?”

“Nunca desistir.”

“!”

Levou um susto.

Mas deu uma risada logo depois.

Estavam se encarando após alguns minutos.

“Essa Arte consiste em tornar físico o não físico, até mesmo o pensamento é estimulado pelas correntes elétricas do cérebro, ao colocar seu pensamento em algo…Vamos explicar.”

Pegou uma pedra no chão e ergueu a frente de ambos.

“Se você imaginar um pensamento nessa pedra, nasce um pequeno Ki aqui desse pensamento, aonde você imaginar um pensamento um Ki vai surgir, na pedra, no ar, no meu braço, em qualquer lugar, é nesse momento que deve usar a arte de transformar o não físico em físico, e combiná-la com uma arte que ira transformar o pensamento em correntes elétricas.”

“Foi por isso que colocou o Ki na minha orelha, para economizar tempo, não é?”

“Sim, como eu disse, você ainda é uma amadora, precisa ter um recipiente para prender o seu pensamento e começar a transformá-lo em algo físico, magos experientes fazem na própria atmosfera tornando a defesa impossível como quando te dei aquelas ordens, eu vou começar a lhe ensinar essas duas, primeiro, vamos pelo mais fácil.”

Após alguns minutos…

Kaori estava sentada com um olhar reflexivo.

As palavras de Ground continuavam em sua mente.

“Se você imaginar um pensamento nessa pedra, nasce um pequeno Ki aqui desse pensamento, é nesse momento que deve usar a arte de transformar o não físico em físico, e combiná-la com uma arte que ira transformar o pensamento em correntes elétricas, onde você imaginar um pensamento o Ki vai surgir, seja nessa pedra, no ar, no chão, em qualquer lugar, quando você imaginar o Ki ele vai surgir, nesse momento tem que usar uma magia para torná-lo físico, e outra para transformá-lo em corrente elétrica, infinitas possibilidades estão escondidas nessa arte, por isso o nome, com uma simples ordem…A luta vai ser decidida.”

Fechou os olhos e sorriu.

“Okay, vamos começar!”

Um mês.

Ground disse que antes de avançar nos treinos ela devia dominar por completo a unlimiteds.

Visto, que, por ser quem é, só ira enfrentar pessoas de um poder equivalente.

Dificilmente iria trocar punhos com plebeus e guerreiros mais limitados.

Para o mundo ao qual pertence…

Para sobreviver a essas lutas.

A manipulação de Ki em sua totalidade máxima era obrigação.

E passado estes 30 dias.

Estavam se encarando deitados de barriga no solo.

Uma queda de braço.

Ele sorriu.

“Hê, você disse que aprendeu, não acha que um mês é pouco tempo?”

Sim.

Normalmente levasse anos no mínimo para tal arte ser dominada.

Mas por ser uma princesa guerreira e ter algo como o Dna*R que foi sendo moldado pelos Reis de Kanszes…Esse tempo caia drasticamente.

Mesmo entre gênios como Ground…Se Kaori levar o treinamento a sério como estava disposta, iriaia ficar acima da própria elite daqui a alguns anos.

“Hu, se você estiver mentindo eu vou obliterar esse seu braço.”

“Eu não ia te chamar se algo assim pudesse ocorrer!”

“Vai saber?O seu cérebro não funciona mui…Sim, você tem razão, é uma garota sensacional e talvez eu não seja digno de ser seu professor e…O QUE FOI ISSO!!!?”

Ela sorriu.

“Uma pequena vingança.”

“Ora…”

Sorriu empolgado.

Ela o deu uma ordem!

No três…

Foi imediato.

Uma cratera de 20 metros surgiu no local pela pressão exercida.

—–

Sons de golpes…

Kaori e Ground trocavam golpes em uma velocidade absurda sacudindo o solo.

Nenhum golpe ficava sem resposta.

Cada soco, chute, esquiva, defesa era feito de maneira idêntica pelos dois adversários.

Quando um aumentava a velocidade, o outro repetia.

Ground acertou um soco na barriga de Kaori.

Que repetiu com um chute no rosto igualmente poderoso!

Porém…Mesmo com essa igualdade que perdurou algum tempo alguém começou a ter a mão superior.

E não foi Ground.

Para cada golpe conectado sempre levava dois em troca.

Recebeu um chute que gerou uma corrente de ar o jogando 10 metros para trás.

Era impossível ter outro sentimento se não…

Sim.

Orgulho.

Realmente está orgulhoso.

A ensinou muito bem.

Valeu a pena.

Cada minuto e hora.

Embora fosse uma visão difícil para a maioria associar a garota de 10 anos atrás com essa a sua frente…Ele sempre soube.

Já sabia que este seria o resultado.

É como Adeko.

Viu uma imagem do pai a sobrepor por alguns momentos.

São realmente parecidos.

Até na capacidade de destruir seu antigo frágil eu e crescer mais forte que qualquer um.

O resultado de todos os sentimentos que tem de tentar consertar as coisas com Kai…Era impossível que ele não percebesse.

Os girassóis começaram a flutuar.

Avançaram!

Socaram ao mesmo tempo causando um terremoto.

“Eu realmente…”

A encarou.

Notou um sorriso.

“Preciso te agradecer por nunca ter desistido da inútil que fui no começo..!!Sem você, jamais chegaria tão longe, obrigada!”

“Hu..!!Ainda…É muito cedo para elogios!”

“Eh??”

Rápido!

Deu um passo a frente e segurou o braço direito da herdeira com os seus dois.

Se virou, e então a levantou por completo e desceu!

Ia acontecer um verdadeiro “ipon”, um tanto brutal por sinal.

Mas…

Ele não conseguiria ver este sorriso que se formou no rosto de Kaori, ainda tinha seu outro braço livre.

Centímetros.

Era a distancia que a separava do solo.

Foi como um raio.

Segurou o ombro de Ground.

E então.

Mostrando um controle perfeito do corpo e uma elasticidade que só poderiam ter vindo pelas aulas de dança…

Agarrou forte!

Como se tivesse, realmente, com a mão apoiada no chão, puxou o corpo para a direita se soltando.

“!”

Ainda no ar, girou e o chutou no rosto fazendo se chocar com as flores.

Colocou os punhos no chão e pulou para trás caindo ajoelhada.

“Hu.”

Ficou sentado.

Cuspiu sangue para a direita.

Realmente.

Nada mal.

“A ida para a Ballas está lhe deixando mais animada?”

“Não sei, mas…Só sinto que algumas coisas vão acontecer ali.”

“Hu?”

Foi como um flash, o aurae cor de ouro de Kaori tomou forma por seu corpo tal como o marrom de Ground.

Vão ir um pouco mais sérios a partir daqui.

—–

“Estarei logo atrás.”

Uma pessoa olhou para trás, essa fala…Foi de Prometheus.

“Se falhar, eu mesmo vou entrar em cena.”

Apenas balançou positivamente e andou para frente na direção de Ballas.

Contos de Ustrael – A Cidade Onde os Destinos se Cruzam (Capítulo 4)

Os raios solares ao passarem pelas folhas das árvores e refletirem na estrada de pedra sem duvida alguma enfeitava de uma maneira bem mais caprichada toda a paisagem ao redor realçando ainda mais todo este verde bem vivo.

Kai parou no topo de uma pequena colina, tinha sua visão fixa em uma construção apenas alguns metros a frente ao qual muralhas de dez metros foram construídas ao redor em um formato esférico, seu interior  não era pequeno.

Não mesmo.

O espaço é de 2km de diâmetro além de reter cinco casas que lembravam pequenos castelos, tem uma estrada de asfalto construída ao lado da muralha que continuava até onde a visão alcançava.

“Com certeza é usada para importação e exportação de produtos…”

Ilegais ou não?

Dane-se.

Não é importante.

Apenas algo passa a sua mente…Se Lumia pensa em invadir o local…O que parece óbvio a essa altura não seria tão fácil.

“É como um pequeno exército.”

Deixou escapar pela alta concentração de soldados armados.

“São só números.”

“Ho, então vai lá, vai, eu vou gostar de te ver levando uns tapas.”

“Desculpe lhe decepcionar.”

Deu um salto para baixo, tocou o solo, levantou-se e caminhou a frente, o ex-principe se deitou e apoiou o cotovelo no solo junto ao punho na bochecha a observando.

Apesar de ter dito que gostaria de a ver levando uma surra…Sabe que a ultima coisa que precisa é se preocupar com aquela pessoa que recebe o nome de bruxa, ter criado “pessoas” falsas, manipulá-las com telecinese e lutar daquela maneira enquanto fingia um falso sono significa só uma coisa.

Talento puro.

Em tal nível que provavelmente é ameaça a algum assunto complexo visto que a querem morta.

Uma explosão bem violente aconteceu na entrada das muralhas.

O impacto foi forte.

Fez o portão literalmente “voar” para trás girando e se chocar contra uma das casas causando um principio de caos, o susto foi bem alto e o coração quase saiu pela boca, olharam a direita e a viram se aproximando.

“Quem é você?!”

Não respondeu.

Ficou movendo o olhar para os lados como se estivesse a procura de algo.

Perante a falta de resposta…Atacaram!

Tinham “metralhadoras” consigo, bem, ao menos o formato era o mesmo mas a diferença é notável quando disparada.

Não eram balas.

E sim lasers de energia.

Pequenos terremotos tiveram inicio que facilmente chegavam até onde Kai estava.

Lumia usou uma magia muito similar a que colocou em prática para enganá-lo aquela vez quando “escondeu” as outras ilusões.

Funcionava da mesma maneira.

Destruía seu conceito de existência no presente, só que dessa vez, não para ficar invisível, apenas intangível, sendo assim os lasers ao se chocarem no chão iniciavam os tremores.

“O corpo dela..!!”

Estalou os dedos e usou está magia em todos os inimigos.

Não entenderam absolutamente nada ao verem seus corpos transparentes e nem mesmo teriam tempo para tal, a “bruxa” levantou e bateu a perna no chão aumentando a gravidade nesta área como um todo.

E então aconteceu.

Foi em um único flash.

Um dos homens abriu os olhos.

Impossível…

Definitivamente impossível.

Era só o que podia pensar.

Afinal, o planeta…O estavam vendo!

Foram jogados ao espaço com a combinação das duas magias em ação.

Lumia olhou para a direita vide que Kai parou ao seu lado e a encarou.

“Ainda não pegou todos.”

Colocou a mão em seu ombro.

Existe algo que pode ser feito para quem domina o Ki amplamente, outra versatilidade é a capacidade de expansão que ele retém, o seu usuário pode retirá-lo do próprio corpo e o expandir por uma área que vária de individuo a individuo.

Qualquer movimento muscular de uma criatura viva gera pequenos campos elétricos, sentir o Ki é sentir as mudanças nesses campos e lutar usando um sexto sentido.

Expandindo seu Ki por uma certa área…O permite uma visão muito especial.

Tudo ao redor de Kai ficou negro instantaneamente, tudo o que via era feito por contornos de eletricidade.

Exato.

O sexto-sentido do Ki, popularmente conhecido como a “visão da onipresença.”, recebe tal nomeclatura pois eles são capazes de ver tudo, absolutamente tudo nos kms que podem expandir seu Ki.

Estava compartilhando essa visão com Lumia que levou um pequeno susto.

Mas…Era perfeito desta maneira, o clã continuava para o subterrâneo, onde, agora sim, podia ver os outros em guarda.

Usou uma magia para ignorar distancia os atacando com a mesma combinação de antes, agora sim “limparam” tudo.

“Visão da onipresença, é?Mesmo para mestres em Ki fazer isso é um tanto quanto complicado.”

“Eu sou demais.”

Sem nada para atrapalhar…Tomaram caminho.

Encontraram uma entrada secreta dentro de uma das casas e foram descendo as escadas por cinco minutos inteiros antes de chegarem em um corredor, ele não sabia para onde estavam indo e nem o que poderia encontrar.

Aliás….Nem mesmo ela parecia saber, parece que se move muito mais por instinto do que qualquer outra coisa.

Entraram em uma sala que a principio estava decorada como um quarto luxuoso, ao qual tinha inúmeras estantes com livros.

Lumia deu alguns passos a frente caminhando a elas procurando um livro.

“Muito bem, eu vim com você até aqui, não é?”

Se virou o encarando.

“Acho que no mínimo, NO MINIMO, eu mereço uma explicação.”

—–

Ábaris e Destroyer…Dois dragões com um poder de destruição ao qual não poderia ser colocado em palavras ou registros.

O motivo?

Em cada lenda que contava sobre suas forças…Ilhas, países, continentes…Tudo era levado a perdição por tais criaturas que destruíam a vida de maneira indiscriminada.

Claro, tal nível de poder era acreditado ser apenas lenda e provavelmente era mesmo.

Mas…Toda lenda tem uma realidade.

O poder de tais monstros…Que superava o de qualquer outro ser vivo era verdade, faziam um Abyssal olhar como criança.

Junto a estes colossos….Existiam mais dois homens.

A história não diz como essa improvável parceria ocorreu, mas aconteceu, e juntos, levaram o verdadeiro genocídio a humanidade.

O plano era ousado, conquistar todo o planeta, porém, naquele momento, não seria possível.

Mas não impossível se tudo fosse preparado corretamente e decidindo jogar com a sorte.

Um poder conhecido como “Rebirth.”

Ele existe em qualquer ser vivo deste planeta, mas apenas exemplares fantásticos são capazes de despertá-lo, seu funcionamento é ousado, e, talvez, até injusto?

Quem o usa pode entrar em um estado forçado de hibernação em um gigantesco esquife de gelo que toma forma.

E vai ficando mais forte.

Conforme permanece nesse estado, a força vai aumentando de acordo com o tempo em que permanece adormecido.

Mas é arriscado.

O ser não pode acordar por conta própria e é passível a ser “absorvido”.

Não são apenas animais que podem dividir sua consciência e corpo com humanos, os próprios também podem fazer esse papel com os outros.

Precisa que um desavisado tente fazer o link-orgânico para se tornar um alvager. (O que Fang temporariamente se tornou no ataque a Kanszes)

Os “Alvagers naturais” precisam dominar através de um duelo mental a alma do ser que está tentando fazer o link.

Se ele perder…A existência será reescrita, a existência que estava tentando dominar irá renascer por completo em seu corpo.

Se vencer, vira um Alvager e pode se usufruir de todas as características de um.

O planos dos quatro era ousado.

Os dois humanos não possuíam a rebirth, e mesmo se possuíssem, não era parte do plano, após Ábaris e Destroyer entrarem nesse estado…Os homens se conservaram no tempo.

E iriam esperar.

Esperar os tolos irem atrás do poder dos dois dragões adormecidos e tentar fazer uso próprio.

Para isso criaram a lenda que os cerca levando o caos a humanidade.

Hoje, é conhecida como “a lenda dos quatro”.

3000 anos, então, se passaram.

É impossível.

Completamente impossível qualquer humano ganhar um confronto mental com os dois, visto que ficaram mais fortes enquanto adormeciam do que se treinassem nesse tempo.

Ábaris despertou por completo nos dias atuais e foi até o corpo de Prometheus, um dos humanos, o selo que os homens usaram para se preservarem tinha as mesmas características do Rebirth.

Criaram um gene artificial que faria isto naquela época.

E então, quando encontrou com Prometheus, fez um link-orgânico e o tornou um alvager, assim, quebrando o selo.

O motivo do link-orgânico é óbvio, se combinassem suas forças…O poder que teriam iria aumentar ainda mais do que apenas o natural que ganharam nesses 3000 anos.

Porém…

Destroyer e Marte…

Permaneciam “desaparecidos.”

—–

“Ainda nada, Ábaris?”

A cena era em uma praia.

Havia um homem sentado ali olhando o mar, a maré subia indo até seus pés e descia em um ciclo repetitivo, foi quando ele chegou…Uma sombra colossal se aproximou e parou ao lado fazendo tudo tremer.

“Hu, não, parece que nenhum dos outros dois ainda despertou mesmo após todos estes anos, e é estranho, mesmo usando meu sensor não consigo encontrá-los.”

“Não acha que outra coisa é estranha?”

“Hum?”

Prometheus olhou seu punho o fechando e abrindo algumas vezes.

“Contando com hoje, dois anos foram deixados para trás desde que acordamos nos dias atuais, mas…Hu, por que a vontade de dominar tudo, se perdeu, ou está tão fraca?”

Sim.

Sem dúvida era um sentimento complicado de entender.

Mas…Pode ser visto de outra maneira e até mais simples?

Qual a graça?

Era simplesmente impossível que houvesse resistência, já possuem um poder tão sobrenatural, que simplesmente…Não teria graça.

A vontade de fazer algo que sabe que não terá desafios, ao qual bastaria só desejar para ter sucesso…

Era tedioso.

Tão tedioso que não dava vontade nem de começar.

A prova…É que não se esforçam muito para encontrar os outros dois, apenas fazem por um senso de obrigação moral.

Tanto faz afinal, apenas um já poderia dominar este mundo sozinho, então se é solo, em dupla, ou em trio…

Tanto faz.

Vive se perguntando se algo não se perdeu no tempo que ficaram adormecidos, pois algo assim…Esse desejo que tiveram no passado não poderia se perder “do nada”.

“Completamente tedioso,  provavelmente, alcançar algum estágio que se destaca de maneira tão absurda dos demais…Torna qualquer outra coisa sem graça.”

“Ei!”

Ambos olharam para trás, uma garota sorriu e acenou.

“Prometheus, Ábaris!Está pronto!”

Criaram um clã nesse tempo que não tinham nada para fazer apenas pelo simples desejo de testar coisas novas.

O dragão, então, usou uma magia de transformação para ter uma forma humana, e juntos, caminharam até a jovem.

Prometheus cerrou os olhos.

“Mas, talvez, seja melhor remediar um pouco aquele mal pressentimento, acho que irei me dirigir até Ballas em alguns dias onde senti aquela presença.”

—–

Acabou de contar esta lenda a Kai que cerrou os olhos.

“Alvagers naturais antes de fazer o link-orgânico…Precisam dominar a base de um confronto mental o ser que quer fazer contrato, já os artificiais, este poder só precisa ser inseridos de maneira artificial, entendo…”

A encarou.

“E onde estão Destroyer e Marte?”

Houve-se um silêncio  ensurdecedor por alguns segundos, apenas refletiam um nos olhos do outro sem dizer nada.

Por que essa hesitação?

Era só falar um “não sei.”

Mas…

Deu uma risada sem graça.

Tinha algo a mais.

Com certeza tinha.

Lumia suspirou.

Lentamente…Levou a mão aos seios.

“Ele está aqui.”

Não teve a reação normal que seria gritar em completa surpresa e fugir do local, já havia trabalhado com esse hipótese na lentidão para responder.

Usando telecinese, “pegou” um livro da estante o jogando a ele que o segurou.

“Prometheus e Ábaris estão criando inúmeros clãs ao redor do globo visando algo, eu ainda não sei o que é, e não, não estou tentando impedi-los, por que é impossível, tenho sérias duvidas que mesmo que todos os julgadores se unam algo poderá ser feito, mas tente ler este livro.”

Dane-se, sua vida já é uma bagunça, um pouco mais não vai mudar em nada.

Apenas abriu.

Mas…

impossível.

“Isso…”

“Conta uma parte da história que lhe falei, porém como vê tem algumas letras que são impossíveis de serem lidas, provavelmente é a história dos quatro contada de maneira correta”

“Ho, se tem juízo e não está tentando pará-los, então o-

Parou de falar.

Começou a pensar de maneira mais racional.

A chamam de Bruxa.

A querem morta.

Se o que está falando de ter “feito” um link-orgânico com Destroyer for verdade…Tudo iria se encaixar.

Em momento algum com ela concordo com isso, certo?

“(Foi parte de algum experimento, e fugiu, é?)”

Podia notar uma expressão confusa no rosto de Kai.

Bem, era o esperado no fim das contas.

“Eu vou lhe mostrar.”

“Hã?”

Escuridão.

Parece que foi teletransportado para um local diferente.

Nada.

Para onde quer que olhasse só havia um breu infinito, não sabia se estava de olhos abertos ou fechados, e é um tanto assustador, havia perdido todos os sentidos a esse pânico repentino.

E foi então…

Dois olhos vermelhos surgiram atrás.

Nunca.

Nunca antes sentiu esse tipo medo antes.

A sensação…Era horrível.

Aliás…Podia dizer que estava apavorado como uma menina?Queria sair correndo rezando pela vida.

Hesitante…Olhou para trás.

A criatura sorriu.

“Então…”

A voz tinha eco.

Um eco infinito que ressoava nas trevas e fazia tudo tremer parecendo que este “mundo” iria entrar em colapso.

“A pirralha trouxe um amigo?E ae, cara?”

Forçou um sorriso amarelo sem graça.

Era difícil não tremer a boca.

“Só sua presença…É superior a de um Abyssal, hu, não importa como eu o veja, mesmo que aquela garota tenha um poder mágico incrível seria impossível para vencer uma disputa mental com você.”

“Ho?”

“Se ela acabou de lhe contar a história…Sabe que alguma coisa deu muito errado, não é?”

Deu um grito caindo sentado ao chão ofegante.

“Viu?”

“Hu-hu-hu…Vá se ferrar…!!!”

“Quanto mais eu uso magia, mesmo uma simples telecinese…”

A encarou.

“Tudo emana o poder de Destroyer, ele flui de maneira descontrolada de dentro de mim, é como um incêndio que se joga gasolina e não água, o que acaba trazendo aqueles dois para perto, ao mesmo tempo…Que o selo que o mantém preso vai enfraquecendo, a próxima vez que eu usar magia…Pode ser quando vai tomar total pose do meu corpo destruindo minha existência.”

Sim.

Tudo estava fazendo sentido agora, seu poder mágico era uma bomba relógio.

“Preciso de alguém que reveze comigo para não fazer o selo perder o controle antes que eu possa dar um jeito de resolver esse assunto.”

Ergueu um livro.

“Vim atrás disso, tem uma magia aqui que posso usá-la retirá-lo de mim e devolver ao estado que estava, mas para decifrar…Preciso ir na maior biblioteca do continente, que fica em Ballas, o caminho não é pequeno.”

Algo bastante complexo a cercava.

Por um momento.Mesmo que pequeno…Viu Kaori nela.

Deu uma risada fechando os olhos.

“Entendo, acho que não tem mais volta pra mim de qualquer maneira.”

“Vai mesmo??”

Colocou a mão no joelho e ficou em pé.

“É surda?”

Foi surpreendida, claro, ele realmente veio com ela até aqui, mas tinha a quase certeza absoluta que iria largá-la ao escutar o perigo da situação.

E embora não tenha como entender…Talvez se a ajudar agora, consiga um pouco de redenção?

“!”

Corou quando ele tocou seu ombro e andou para trás inconscientemente.

“….O que foi, mulher?Iria nos tirar daqui.”

“Ah..N..Nada…”

Novamente a tocou e usou a visão da onipresença do Ki.

Kai possui teletransporte.

Logo…Os levou para o topo do clã novamente.

Olhou para a direita.

Então o destino era a cidade de Ballas.

Suspirou levando a mão ao pescoço, vai ser bem complicado, o país passa por uma grave crise no momento sem falar que o caminho será longo.

“Muito be-

Não terminou.

Se colocou a frente de Lumia e chutou uma rajada para a direita ao qual destruiu uma casa liberando ventos furiosos.

Claramente foi pega de surpresa enquanto seus cabelos começaram a balançar.

Essa rajada…Estava combinada a uma magia de apagar a presença, Kai só reagiu por que ainda mantinha o sentido elétrico ativo.

Entrando pela passagem agora destruída…Vinha um homem.

O ex-príncipe sorriu.

Com certeza veio atraído pela magia de Destroyer, podia ver que algo borbulhava do corpo do inimigo.

Era roxo e queimava como uma chama….Ou seja, a resposta só podia ser uma, e a pior possível?O estilo mágico número um do mundo.

Aurae.

Prometheus e Ábaris sendo a este ponto os habitantes mais poderosos do planeta…Era fácil para ensinar aos membros de seu clã a arte mais poderosa que existe.

Porém, ignorando completamente o fato do Ki ser inútil perante a tal força, foi caminhando a frente.

“Eu cuido dele, não vamos deixar o selo ir quebrando, não é?”

“Pelo o que eu já vi em você desde ontem…Se soubesse usar o Aurae já teria feito, e sendo um falso mago…Sua chance de vencer beira o 0.”

Essas palavras eram quase uma verdade.

Quase.

Não é impossível um usuário de Ki derrotar um de Aurae, apenas passa essa impressão pelos resultados ao longo da história.

Um completo massacre.

Mas Kai nunca deu a mínima para isso.

Sempre soube que em uma luta assim só precisa acertar um golpe, aliás, qualquer luta neste mundo tem 90% de chances de acabar no primeiro movimento.

Era nisso que apostava.

O adversário bateu o pé no solo…E avançou!

Kai repetiu o gesto!

Tomou forma.

O Ki preencheu todo o corpo como um azul escuro que pulsava forte.

“Hu, um usuário de Ki tentando me derrotar!?”

“Não fique tão cheio de si, sua imitação.”

Quando o Aurae entra em contato com o Ki o anula completamente, o estilo nasceu para formar uma hierarquia e nada mais do que isso.

Apenas os nobres teriam esse poder visando manter a ordem em cidades.

E claro, algo ainda mais importante, manter sem nenhum imprevisto seu titulo de elite.

Um metro era a distancia.

Praticamente não existia mais.

Ambos fecharam o punho e socaram na direção do outro!

Um pulsar abalou a floresta.

Kai cuspiu sangue sendo arremessado para trás contra uma pedra.

O “embate” terminou.

Sorriu e encarou Lumia.

“Você é a próxima.”

Ela não disse nada, apenas deu de ombros e caminhou na direção do ex-príncipe.

“Ho?”

“Você já perdeu, e de qualquer maneira não preciso me preocupar em dar atenção aos mortos.”

“Ah?O que dia-

Não terminou.

Subitamente…Se ajoelhou caindo derrotado.

Milésimos antes de ser atingido…

Kai propositalmente retirou todo o Ki do seu corpo o concentrando na ponta do dedão do pé fazendo um buraco no sapato.

No momento que o mesmo levou o golpe sendo jogado para trás…Colocou uma magia nessa partícula de Ki e a jogou na “aura” do adversário.

O mesmo não percebeu.

Por que, colocado junto a aquele Ki tinha uma magia para apagar a presença.

Este teria sido um movimento suicida.

Porém antes de avançar…Kai e Lumia conversaram por telepatia.

A mesma usou uma pequena anti-magia junto a magia de ignorar distância na canela do inimigo, então foi apenas óbvio, onde a partícula de Ki tocou e se ativou por que seu aurae não cobria mais aquela parte…Foi o momento da derrota.

Tudo isso…Aconteceu ao mesmo tempo no momento do golpe.

Fora extremamente rápido.

A magia que continha naquela “invisível” partícula de Ki não foi a remoção sensorial, sabendo da força do seu inimigo por usar Aurae, era óbvio que também poderia usar o sexto-sentido do Ki, então retirar seus cinco sentidos era inútil.

O que foi usado uma versão mais fraca do Julgamento dos dragões de Órion.

No total leva 15 segundos para os átomos serem apagados e o usuário da técnica não pode mais usar magia pelo resto do dia.

Os segundos se passaram e o adversário “sumiu” como se jamais tivesse existido.

E como tal os 89%..A luta acabou no primeiro movimento.

Teria sido uma dupla-morte se ela não tivesse agido antes e impedisse o golpe que recebeu de ser fatal, pois deveria ser morto naquele impacto, porém, uma barreira protetora o salvou do pior.

Ainda estava encostado a pedra, o golpe foi pesado e mal conseguia ficar em pé sendo difícil de respirar.

Sorriu irritado, esta jornada realmente começou muito mal.

Olhou para frente, e mesmo que fosse complicado enxergar pela visão turva, fora capaz de ver Lumia se aproximando.

Parou a poucos metros e começou a recitar uma magia.

“O que ela…”

“Regrade.”

“!”

Arregalou os olhos.

A dor sumiu e ficou em pé olhando seu corpo.

“O que diabos…”

É a magia de cura mais poderosa que existe.

Ao qual simplesmente volta o corpo do individuo no tempo curando qualquer tipo de ferida física tal como anormalidades corporais que atrapalhem o funcionamento natural do corpo, sejam maldições, venenos, perca de memória, qualquer coisa não natural irá ser automaticamente expulsa.

Kai ficou surpreso.

“Por que usou uma magia de tão alto nível sabendo que o selo fica instável?”

“Ora, não é claro?Eu não vou te carregar por ae não!”

“Ah..”

Deu uma risada fechando os olhos.

Foi um bom ponto.

Mas…Algo chamou a sua atenção.

Por que nada aconteceu agora?

A Regrade é Rank-S.

Devia trazer alguma conseqüência por menor que seja.

Isso o fez lembrar quando se encontrou com Destroyer apenas alguns minutos atrás, realmente ficou com medo e intimidado por ser tão do nada, mas ao mesmo tempo…Não é como se sentiu intenções ruins ou perigosas daquele Dragão.

Era um assunto estranho e que não conseguiria respostas agora.

Apenas tinham que continuar indo até Ballas.

Até por que…É um fato.

Toda lenda possui erros e más interpretações, não é simples descobrir até onde começa a realidade e ficção em uma.

Logo…Foram para a estrada e caminharam dando inicio a jornada.

—–

“EU JÁ SEI, PAI!”

“Só estou aqui para lembrá-la, não ache que vou permitir que se esqueça.”

“COMO ACHA QUE POSSO ESQUECER ISSO???”

“Ho?Como eu vou saber?Não posso ler a sua mente.”

Adeko está todo dia, toda hora, todo minuto lembrando sua filha que terá que ir para Ballas se encontrar com Daichi ainda nesta semana.

Já está ficando irritada.

Suspirou e olhou para a direita na direção da janela.

Por que seu coração bate tão rápido quando pensa sobre isso?

PARAGOBALA – CAPÍTULO 21 – ATAQUE AO BEZERRO

CAPÍTULO 21 – Ataque ao Bezerro

 

Antônio ainda estava de boca aberta, processando tudo o que os seus subordinados contaram sobre a perseguição liderada pelo promotor Vincent. Em sua longa carreira, nunca uma história parecida tinha chegado a ele. Depois de longos momentos de silêncios, ele levantou da cadeira, e comunicou com energia para os policiais a sua frente:

 

– Amanhã atacamos o Bezerro. Façam os preparativos.

 

***

 

Um policial a paisana olhava para o seu relógio à espera do horário combinado: 7:15 da manhã. Estava dentro de um boteco na periferia da cidade, na região do refúgio de Bezerro. Já havia combinado tudo com alguns bandidos locais. Assaltariam o local, atacariam o dono e fugiriam. Ele pegaria sua arma e logo tudo descabaria para uma troca generalizada de tiros e por fim toda a polícia chegaria e invadiria tudo.

 

Na delegacia, os policiais se preparavam para o ataque. Alguns levavam armamento para os veículos, enquanto outros checavam equipamento e terminavam de vestir os seus coletes a prova de bala, entre eles Antônio, que fazia questão de participar dessa operação. Às 7:17, o telefone tocou. Antonio atendeu:

 

– É da Policia!? Eu acabei de ser assaltado, bateram em mim, levaram um monte de coisa e..

– Fique calmo, nós já vamos até aí, passe o endereço.

 

E logo todos os veículos dispararam para o local.

 

***

 

Bal estava deitado, de olhos abertos. Não havia conseguido dormir. Italiano não tinha lhe ligado, e ele não fazia ideia do paradeiro de Índio. Tinha confiança no seu companheiro, porém sua mente não o deixava quieto, e durante aquela madrugada já tinha pensando literalmente em mais de 20 possibilidades diferentes, grande parte delas com um desfecho trágico para sí. Bal tinha consideração pelo seu grupo, e principalmente pela sua causa, mas naquele momento, a única coisa em que conseguia pensar era de como aquilo iria acabar para ele. Se tratava de um instinto básico: sobrevivência.

 

Durante a noite, por várias vezes levantou e bebeu um pouco de cerveja. Desde a fatídica noite em que desvirginou Clara, havia largado a tola ideia de abandonar a bebida. Seu relacionamento havia estremecido, e ele mesmo tinha pouca vontade de entrar em contato com a sua namorada. Não tinha grande atração ou admiração por ela. Seu projeto havia fracassado. A convivência com ela, definitivamente, não havia lhe tornado um homem melhor. “Eu sou podre…e tenho que simplesmente aceitar isso. O melhor é eu me afastar das pessoas que tem algo de bom. E voltar a me aproximar das pessoas que tem tudo de ruim”.

 

Se revirou por mais algum tempo e finalmente desistiu de tentar dormir e se levantou para se aprontar para o trabalho. Ao menos ali conseguiria distrair um pouco a sua acelerada mente.

 

Quando já terminava de fazer os seus afazeres no banheiro, só com uma toalha presa na cintura, sua campainha tocou. Estranhou aquilo e foi com desconfiança até a porta. Viu pelo olho mágico que quem estava lá era sua mais nova vizinha: Rosemere. Deu um pequeno sorriso de canto de boca e resolveu atender a porta assim mesmo.

 

– Bom dia – falou prontamente.

 

Rosemere ficou encabulada por alguns instantes, e Bal conteve o sorriso. “Ela está chocada com o meu físico” imaginou.

 

– Bom dia, vizinho…desculpe te incomodar, é que eu percebi que estou sem nada de sal em casa…poderia pegar um pouquinho emprestado?

 

– Claro! Pode entrar – e deu passagem a vizinha, aproveitando para conferir o seu traseiro. Não se incomode com a bagunça, eu não estava esperando visitas – e riu ao terminar de falar. A cozinha é por aqui.

 

Bal abriu o armário e pegou um pote com sal. Em seguida encheu um copo com o pó e entregou a ela.

 

– Tenho bastante por aqui, pode ficar com isso. Agora me diga, vai preparar o que para comer com esse sal?

– Ah, isso é segredo. Quem sabe um dia você prova lá em casa? – disse com um sorrisinho

– Hmm…mal posso esperar para conhecer suas habilidades…culinárias.

 

Eles se despediram e Bal ficou parado olhando a porta. Já não pensava nas suas preocupações e tinha preenchido sua mente com outra coisa: aquela mulher sensual e misteriosa. Se sentia um caçador outra vez, e sua presa era ela.

 

***

 

– Avise a todos os homens para subirem a ladeira! Vamos montar um certo daqui – gritou Schneider pelo rádio.

 

A polícia estava avançando e derrubando os não tão numerosos homens de Bezerro. Os que ainda lutavam não tinham um bom treinamento e muito menos lealdade para se sacrificar. Vários se rendiam facilmente. A polícia anunciava que qualquer homem que largasse a sua arma e abrisse passagem, não sofreria retaliações.

 

– Malditos! Estão se entregando para a polícia sem nem mesmo oferecer resistência. Logo eles estarão aqui – disse para Bezerro.

– Esses filhos da puta não vão chegar aqui! – e pegou um fuzil e foi para o lado de fora do prédio, em uma espécie de sacada, e começou a atirar de lá.

– Pare, é inútil! Eu já fiz testes, e o tiro só chega até aquele ponto – e apontou para um trecho da rua, que os policiais ainda estavam longe.

– Que se foda! Isso vai intimida-los, huehuehue!

 

Schneider balançou a cabeça e não falou nada. Então ouviu mais tiros do seu outro lado, e agora quem atirava era Vândalo, que forçava uma gargalhada. Schneider, com raiva, foi até lá e segurou com força o braço de Vândalo.

 

– Mas que merda você está fazendo! Não ouviu o que eu falei???

– Eu…eu estou intimidando eles também!

– Pare de atirar agora! E poupe essas balas, a coisa vai ficar feia para o nosso lado.

 

Depois entrou na sala e na frente de um mapa e com um rádio na mão, começou a planejar a defesa.

 

A policia continuava avançando, e Antônio estava na retaguarda. Apenas entrava em um território após ele ter sido dominado pelos seus homens. Até agora, a operação era um sucesso. Nenhuma baixa, e os bandidos largavam suas armas ao menor sinal de aproximação da polícia. Para ele, não era interessante um grande número de mortes. Não queria publicidade, e desejava que o próximo chefe do crime tivesse mão de obra para lucrar mais. Dessa vez sua fatia seria gorda.

 

Rodnei chegou ao seu lado e falou:

 

– Já sabemos em que prédio ele está. O caminho até lá não vai ser muito difícil. Podemos enviar um rádio e tentar negociar uma rendição.

– Esse filho da puta vai morrer hoje! – gritou Antonio. Mas podemos enganar esse trouxa. Façam chegar um rádio até lá. Logo Rodnei fez um sinal e um garoto saiu correndo de dentro de um barraco em sua direção.

 

Não muito tempo depois, um jovem chegou correndo até Schneider com um rádio na mão.

 

– Os poliça querem falar com vocês.

 

Schneider pegou o rádio, mas imediatamente Bezerro entrou na sala, jogando um balde de água fria em sua expectativa que seu chefe não tivesse ouvido o garoto:

 

– Que porra é essa aí?

– A polícia, quer conversar. Vou estabelecer contato.

 

Schneider ligou o rádio e disse brevemente:

 

– Estamos ouvindo.

– Os termos são o seguinte: rendição total e ninguém morre. Saiam daí com as mãos na cabeça. Dou 20 minutos para decidirem.

 

Bezerro pegou o rádio da mão de Schneider e falou:

Heuheuheuhe, se render é o caralho! Venham buscar minha cabeça, seus merdas. Vocês vão morrer tudo! To esperando pode vir.

 

Em seguida ele jogou o aparelho no chão e deu um tiro.

 

Vândalo, que escutava a conversa atrás da porta, entrou na sala e falou:

 

– Nós…vamos morrer?

 

Bezerro foi até ele, e lhe aplicou um tabefe no rosto.

 

– Seu frouxo! Viado! Foda-se se vamos morrer, vira homem! Nós vamos matar policial hoje, isso sim!

 

Schneider nada disse, e foi até a sacada, observando que os policias agora entravam na zona de tiro. Além de Bezerro e Vândalo, alguns outros homens se juntaram a eles e se preparam para atirar.

 

– Atirem ao meu sinal! – gritou Schneider.

 

Todos, e desta vez inclusive Bezerro, esperaram pacientemente, e quando Schneider deu sinal positivo, começaram a atirar.

 

Os policiais foram pegos de surpresa, e rapidamente começaram a revidar. Para os atiradores do alto, era muito mais fácil de mirar e atirar. Estavam em uma posição melhor e mais protegidos. Schneider já havia derrubado dois homens, mas sabia que não era uma posição sustentável. Tinham poucos homens e armas, e a polícia logo traria escudos e subiria por entre a favela até lá.

 

Aos poucos os policiais foram revidando com maior qualidade e quantidade, a ponto de Vândalo, Schneider e Bezerro entrarem na sala, deixando do lado de fora os soldados rasos para atirar de volta e consequentemente, morrerem.

 

– Eu sei o que esses filhos da puta querem! Eles querem a porra do meu dinheiro! – urrou Bezerro e saiu do cômodo, para voltar logo depois com uma garrafa com uma pinga.

– Eu não vou deixar! – foi até o cofre e começou a digitar a sequência para abri-lo.

– Vou queimar a porra toda huehuehuehue. Não vão ter nada!!!

 

BANG!

 

E Bezerro caiu morto com um tiro na nuca.

 

Schneider segurava a arma, com frieza. Vândalo o olhou assustado, e largou sua arma quando Schneider apontou a pistola em sua direção.

 

– De joelhos, mãos na cabeça e fique quietinho.

– Por favor não me mata, não me mata.

– Cala a bola, fica quieto.

– Eu eu não gostava do Bezerro também.

– Cala sua boca filho da puta! Se falar outra vez morre.

 

Vândalo se calou. Schneider foi até o corpo de Bezerro, e o tirou de perto do cofre.

 

– Coloca suas duas mãos nas orelhas, agora – disse a Vândalo, que prontamente atendeu.

 

Schneider colocou um joelho no chão, e pegou um celular de dentro da jaqueta. Vândalo estranhou aquela postura estranha. Parecia que ele estava se ajoelhando a alguém, como um lorde inglês ganhando um título de cavaleiro. Mas não havia ninguém lá além dos dois. Mantinha as mãos nas orelhas, mas não exerceu tanta pressão, de modo que conseguiu ouvir a o que Schneider falava ao telefone.

 

– Papa, meu senhor, tenho notícias e busco orientação.

– Tive que matar Bezerro. Ele ia queimar todo o nosso dinheiro.

– Estamos cercados pela polícia, mas consigo fugir daqui com o dinheiro.

– Tem mais um homem aqui, o que faço com ele?

 

Nesse momento, Schneider olhou Vândalo, que instintivamente forçou as mãos nos ouvidos e não conseguiu ouvir mais nada.

 

Schneider desligou o telefone, e caminhou lentamente em direção a Vandalo, parando a poucos metros.

 

“Meu deus, ele está vindo pra cá, eu aqui de joelhos…esse filho da puta vai pedir um boquete em troca da minha vida! Merda! Filho da puta!!! Não sou viado…! Mas…quem faz boquete para não morrer não é viado né? Isso é sobrevivência! Quero viver. E pelo menos ele é loiro e de pele clara, tem olho azul! Podia ser pior! Não sou viado! Pode vir filho da puta.”

 

Schneider deu mais alguns passos, e Vândalo moveu lentamente as mãos em direção ao cinto de Schneider, que prontamente empurrou a arma na testa de Vândalo:

 

– Que porra é essa! Mãos na cabeça!

 

Vândalo, confuso, seguiu a instrução.

 

– Preste muita atenção agora. Sua vida como era antes acabou. Agora você tem duas opções. Levante as duas mãos, palmas para cima, e jure fidelidade a Draku ou morra.

 

***

 

Vincent havia passado o dia inteiro enfurnado em casa, na frente de seu notebook. Salvou um arquivo, e levantou da cadeira, com expressão de alívio e com um sorriso no rosto; Foi até a janela e olhou a cidade. “Pensei que poderia fazer o que precisava aqui sem mudar muita coisa. Eu estava errado. Amanhã é um novo começo para a polícia de Paragominas.”

Voltou ao seu computador, abriu um e-mail e digitou uma mensagem. Anexou um arquivo e enviou. Em seguida fechou o aparelho, e com a ajuda a de uma faca de cozinha, começou a abri-lo. Levou algumas partes para o micro-ondas, e o resto ele terminou de arrebentar com a faca.