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Kami no Sensou – Jacinto Roxo (Volume 6: Capítulo 4)

Diante dos olhos negros de Kuroshi, um lugar muito familiar se mostrava. Céu vermelho, solo vermelho escuro, quase preto, nenhum sinal de vida seja humana, animal ou vegetal. Uma gigantesca lua escarlate iluminava tudo.

Não haver sinais de vida não significa que não havia nada ali… Muito pelo contrário, em todas as direções que se olhava, corpos humanos sem vida ocupavam espaço no solo morto. Não era uma cena inédita para Kuroshi, mas ver aquilo o encheu de repulsa e vontade de vomitar. Talvez pelos corpos estarem completamente negros, quase como sombras ou como se tivessem acabado de sair de dentro do solo, ele conseguiu resistir.

Ele não estava perdido, ou sem saber o que fazer, essa era uma situação pela qual ele já passou inúmeras vezes no passado, embora que ainda com algumas diferenças.

Kuroshi foi caminhando adiante, evitando pisar nos corpos ou sequer olhar para eles.

É como meus antigos sonhos… Só que…

Sim. Seus sonhos eram totalmente padronizados, sempre se repetindo da mesma forma com apenas uma mudança ou outra. Isso é, até o momento da “morte” de Seira chegar. Naquele dia, seu sonho foi diferente. Dessa vez este sonho também está sendo diferente de todos os outros, ele pode se mover, ele pode agir livremente. Não há Hades, nem a morte de—

“…!”

Após caminhar por um tempo, Kuroshi viu uma pessoa na sua frente. Ela estava de costas pra ele, mas reconhece-la era a coisa mais fácil do mundo.

Kurona—!

Kurona estava com as mãos nas costas, olhando para a lua escarlate.

A forte luz vermelha atingindo a garota que poderia ser denominada como uma bela flor negra combinava perfeitamente. Como se ela pertencesse a aquele mundo—Não, como se aquele mundo pertencesse a ela.

Ela olhou para trás, como se já soubesse que Kuroshi estava ali.

Isso é um sonho? Ou é real?

Enquanto tentava controlar sua mente em confusão, Kuroshi começou a andar em direção a ela. Só havia um problema… A partir do momento em que os olhos dos dois se cruzaram, os movimentos de Kuroshi aconteciam contra a vontade dele. Cada passo que ele dava não era feito porque ele queria, era como se seu corpo estivesse sendo controlado por uma força maior. Logo, sua espada de sempre surgiu nas suas mãos.

Espere… Espere! Esper—

Os dois ficaram há um metro de distância um do outro. Kuroshi se preparou para perfurar diretamente o coração da garota diante dele, e o que aconteceu depois—

 

 

Kuroshi abriu os olhos.

Ele estava deitado na sua cama, o dia já estava amanhecendo.

Não é como se a volta desses sonhos fosse algo bom ou tolerável, mas Kuroshi acordou bem. Sem gritar, sem suar, sem angústia e sem ver ninguém sendo morto. Ele se sentia relaxado e nostálgico.

Ao se sentar na cama, ele aproveitou por alguns segundos o ótimo perfume que havia no quarto.

Logo em seguida, ele se dirigiu até o banheiro e se olhou no espelho. Talvez ele tenha tido alguma esperança de que seus olhos não estariam naquele forte tom escarlate. Seria um pensamento em vão, no entanto, já que as coisas continuavam as mesmas.

Depois da conversa que ele teve com Axel ontem, sua mente ficou tão pesada que não demorou muito para ele cair no sono. Talvez ele tenha dormido até rápido demais, já que ele mal se lembra do que aconteceu após ter voltado para seu quarto. Mas uma boa noite de sono é sempre essencial, já que ele acordou bem mais leve.

“… Preciso resolver essa situação de uma vez por todas.”

Conseguindo a calma necessária para dar um passo adiante, Kuroshi decidiu começar a agir.

Sem perder muito tempo, ele tomou banho, se arrumou e saiu do quarto.

Ainda era bem cedo, por isso, os corredores do dormitório estavam vazios, silenciosos e um tanto quanto desnecessariamente escuros.

Era um cenário um pouco assustador, mas não tanto quanto lutar contra alguém mais perigoso que uma bomba atômica. Por isso, Kuroshi continuou seu caminho rotineiro normalmente.

Andando e andando em um corredor que parecia interminável, Kuroshi começou a sentir uma sensação estranha e parou de andar.

“…”

Era como se alguém o observasse.

Aquela pressão invisível era altamente desconfortável.

“…!”

Subitamente, Kuroshi se virou, tentando ver se havia alguém atrás dele. Mas nada havia ali.

Estou ficando paranoico ou…

“?!”

Ao se virar para frente novamente, ele deu de cara com um homem. O susto o fez saltar cinco metros para trás. Mas logo após essa ação, ele percebeu que não havia mais ninguém lá. Com o nascer do sol, os corredores ficaram mais claros.

Ele só se lembra de ter visto alguém desconhecido, de cabelos roxos. Foram as únicas coisas que aquela fração de segundo permitiu sua memória gravar.

Eu…

O que diabos está acontecendo comigo?

Quando isso se tornou uma história de terror psicológico?!

Droga!

Eu preciso—

“O que houve, Kuroshi?”

Com um forte toque no ombro, Kuroshi foi trazido a realidade novamente e ao olhar para trás, lá estava um amigo bem recente seu, Masaya.

“Masaya? O que…”

“Ryoka-chan me pediu para buscá-lo. Ela queria fazer uma nova reunião…”

Entendo… Acho que entendo o rumo que isso está tomando…

Vendo a cara de desgosto de Kuroshi, Masaya arregalou os olhos, surpreso.

“Woah woah, achei que você gostasse das garotas, ao menos um pouco.”

“Eh?”

Dessa vez foi a vez de Kuroshi ficar surpreso.

“Do que está falando?”

Ele não percebeu?—Pensou Masaya por um momento.

“Não, é… Você parecia descontente com a ideia.”

Ele propositalmente usou a palavra ‘descontente’ para parecer menos grave.

“Uh…”

No entanto, pela reação (Ou falta dela) totalmente confusa de Kuroshi, ele percebeu que não foi proposital.

“Bem, esqueça isso. Nós vamos para um local diferente de qualquer forma.”

“Huh? Como assim?”

“Ao invés de fazer o que a Ryoka-chan me pediu, pensei em termos uma conversa a sós. O que me diz?”

Kuroshi não tinha ideia do que estava passando na cabeça de Masaya, mas ele era alguém de confiança. Talvez por causa da sua personalidade, ou pela sua história, mas Kuroshi sentia que ele era até mais confiável que a própria Ryoka.

“… Certo.”

Tendo a confirmação que queria, os dois se dirigiram até o terraço da escola.

Kuroshi já estava uniformizado, mas como Masaya não era mais um estudante do ensino médio, ele vestia roupas casuais como uma calça e uma jaqueta preta junto com uma camisa azul. Ele estava com as mãos no bolso, embora parecesse relaxado, o ar em volta dele era completamente o oposto disso.

“Tem certeza que irá ignorar o pedido de Ryoka?”

“Ela parece durona por fora, mas quando você a conhece mais de perto, percebe que não é tão complicado assim lidar com ela.”

“…”

A pergunta de Kuroshi não era realmente algo que ele estava preocupado. Ele estava mais preocupado com o que Masaya queria falar com ele, e por isso decidiu falar a primeira coisa que veio a sua mente. Uma atitude incoerente considerando que ele já havia aceitado vir até aqui para conversar de qualquer forma. Mas talvez ainda seja melhor do que ter uma reunião com as garotas, ele pensou.

“O que eu tenho a dizer é algo simples.”

Masaya olhou diretamente nos olhos de Kuroshi, ele estava totalmente sério. Por isso, Kuroshi nem sequer o interrompeu.

“Nos conhecemos há pouco tempo, mas sendo um grande amigo da Ryoka-chan, não hesitei em te dar um voto de confiança. Mas…”

O que Kuroshi ouviu em seguida o deixou perplexo.

“… Se você fizer algo que cause um impacto negativo muito forte, não só na Ryoka-chan, mas no [Partenon] em si, não hesitarei em te chutar para o planeta mais próximo.”

Não havia tom de brincadeira, nem exageros. Sem tirar nem por, Kuroshi acabou de ser ameaçado por um aliado.

“Eu não sei sua história ou suas circunstâncias, mas você é a principal causa das preocupações do nosso grupo atualmente. Você já soube sobre meu passado, então talvez já tenha alguma noção, mas eu não pretendo ter respeito por alguém que não é verdadeiro aos seus próprios sentimentos.”

“… Espere um momento!”

Claramente irritado por algo no discurso de Masaya, Kuroshi deu dois passos adiante e agarrou a camisa dele pela gola. Ele não tirou as mãos do bolso em nenhum momento.

“O que? Quer lutar contra mim? Não sou tão piedoso com quem faz a Ryoka sofrer, você pode perguntar ao Noah se duvidar.”

Nenhuma das palavras de Masaya foi dita com um sorriso no rosto, muito pelo contrário, Kuroshi sentiu uma pressão ao ouvir aquilo.

Aquele momento de reflexão deu a oportunidade para Kuroshi notar que, apesar das ameaças, Masaya está apenas protegendo o grupo.

Eu sou o vilão da história agora?!

Kuroshi soltou Masaya e recuou.

“… Eu me exaltei um pouco. Embora me chamar de falso logo após dizer que não sabe nada sobre mim tenha sido realmente insultante…”

O que está acontecendo comigo? Eu não deveria ser tão agressivo… Apesar da culpa ser dele também. Meus sentimentos são absolutamente verdadeiros, ao menos os que criei aqui.

“Hmph, lamento por isso, mas é o que eu acredito.”

O rosto de Kuroshi se contorceu ao ouvir a resposta dele, mas dessa vez ele respirou fundo e decidiu continuar a conversa.

“Você disse que lutou contra Noah? Não imaginei que você fosse tão violento…”

Por algum motivo, Kuroshi puxou outro assunto com um tom de provocação.

“Isso é óbvio. Ele não só fez a Ryoka-chan chorar ao matar a Sayaka-chan, como feriu a Ryoka-chan vencendo-a em um duelo. Eu tinha que despejar a raiva nele de alguma forma.”

Ele responder como se fosse a coisa mais natural do mundo pegou Kuroshi de surpresa, já que o mesmo esperava que ele caísse na provocação.

“E agora você está seguindo o mesmo caminho, para prejudicar o [Partenon] direta ou indiretamente, mesmo que não seja proposital.”

Novamente essas acusações…!

“… Já deu. Cansei disso.”

Kuroshi declarou, se virou e caminhou em direção a porta para voltar para dentro da escola. Masaya não fez nada para impedi-lo. No entanto, ao abrir a porta, Kuroshi parou e olhou para Masaya mais uma vez.

“Só mais uma coisa. Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

Para a pergunta de Kuroshi, um silêncio de alguns segundos. Segundos esses que pareceram uma eternidade.

“… Hah…”

Masaya suspirou, como se estivesse cansado.

“Isso importa? Eu sou eu independente da existência de uma influência externa ou interna. Diria até que essa influência pode nada mais ser que parte do nosso subconsciente. Querer justificar ações, desejos ou características suas colocando a culpa em algo sobrenatural não é nada mais nada menos que insegurança ou covardia.”

“…”

Kuroshi não respondeu nada. Apenas se virou e se retirou do local.

Masaya, agora sozinho, encostou-se à grade de proteção e olhou para o céu.

Sim… Você é você independente de qualquer coisa. O que você faz, o que você pensa, o que você sente, sempre será ‘você’. Mesmo que exista uma influência por trás disso, é irrelevante. Afinal, porque você saber disso e mudar a si mesmo também não seria parte dessa influência?

Você falhou em um dos princípios básicos, Kuroshi. Aceitar-se do jeito que você é.

 

 

Droga… Droga… Droga…!

Kuroshi caminhava rapidamente.

A discussão com Masaya claramente o afetou bastante.

Mais importante ainda, com as faíscas geradas pelos dois, uma reunião de grupo inevitavelmente trará problemas.

Nos corredores do dormitório, Kuroshi parou e se encostou à parede.

Não é culpa minha… Eu não fiz nada de errado… Sim. A culpa é toda do… Hades. Ele que está mexendo comigo e tentando colocar meus amigos contra mim…!

O que pode ser feito contra algo que está dentro de você?—Kuroshi pensou. Se o problema de tudo for Hades, a única solução seria—

Maldição… Não vou ganhar nada gastando minhas frustrações aqui…

Decidindo se mover, Kuroshi foi em direção ao seu quarto.

Mas ao abrir a porta, ele deu de cara com alguém que ele realmente não esperava ver dentro do quarto dele.

“… Seira…?”

 

A situação era a seguinte: Kuroshi estava sentado na sua cama, braços apoiados nas coxas e olhando para o chão. Seira estava próxima a ele explicando o motivo dela estar lá.

“… Então basicamente por estarmos demorando demais para aparecer, Ryoka pediu para você vir até aqui e a Julie até o parque onde eu estava no outro dia, enquanto ela espera para ver se eu apareço no lugar combinado.”

Não havia como ter certeza de onde Kuroshi estaria, então o melhor a se fazer seria dividir. Kuroshi reagiu de maneira estranha a informação, sua cabeça estava abaixada então não tinha como ver o seu rosto, mas Seira não se sentia bem-vinda ali.

“… Sim… Nós precisávamos fazer uma reunião para resolver melhor sua situação, Kuroshi…”

“Minha situação?”

“… Você sabe, você tem agido estranho ultimamente, então… Queremos te ajudar.”

Até você…?

“Vamos, Kuroshi. Quanto mais cedo resolvermos o seu problema, melhor, né?”

Seira esticou a mão para Kuroshi, mas…

Meu problema… Isso não é…

Um estalo ecoou pelo quarto. Kuroshi deu um tapa na mão de Seira.

“Eu não preciso da ajuda de vocês!”

E levantou o tom de voz.

Aquilo foi tão “fora de personagem” que Seira ficou completamente paralisada.

“… Uh… Eu…”

Ela segurou sua mão atingida na altura do seu peito.

“… Acho que você precisa pensar um pouco… Quando se acalmar, pode… Sempre nos procurar!”

Com dificuldades, Seira terminou de falar e imediatamente se virou e saiu correndo, saindo por onde veio, a janela. Kuroshi não sabe se foi impressão dele ou não, mas pareceu ter visto uma lágrima cair do rosto dela.

O silêncio tomou conta do quarto.

Kuroshi colocou a mão no rosto.

O que… O que diabos eu estou fazendo?

Seus amigos estão obviamente preocupados com ele. Eles querem ajudá-lo.

Para Kuroshi ser ajudado, eles primeiro precisam descobrir qual a fonte do problema. E para isso, Kuroshi precisa conversar com eles. Para uma pessoa ser ajudada, ela primeiro precisa ajudar a si mesma.

Quanto tempo havia passado? Kuroshi estava há horas sentado na mesma posição.

Dessa forma eu acabarei sozinho… Eu preciso ir até meus amigos e falar tudo que eu preciso dizer… Se continuar assim…

“Kuroshi? O que aconteceu?”

Sem nem sequer notar a familiar presença entrando no quarto, a voz de Kurona fez Kuroshi levantar a cabeça, surpreso.

Já são essas horas?!

Kurona sempre aparece no quarto em horários específicos.

“…”

“Kuroshi?”

Eu…

“Tem algo de errado comigo?”

Kuroshi perguntou, preocupado. Mas Kurona apenas entortou de leve a cabeça para o lado, confusa.

Ela então se aproximou dele e colocou suas mãos nas bochechas de Kuroshi, logo em seguida se aproximando do rosto dele até ficar a centímetros de distância.

Kuroshi estava surpreso, mas Kurona olhava seriamente para os olhos dele.

Após alguns segundos, ela se afastou e colocou as mãos na cintura.

“Não há absolutamente nada de errado com você!”

Isso é uma piada?! NADA de errado? Será que ela… Nem sequer nota mais as diferenças em mim…?

Ele ficou incrédulo, e logo em seguida confuso. Ela não comentar nem sobre a cor dos seus olhos era um sinal de que ela nem sequer olha para ele direito… Ou ao menos era o que se passava na mente de Kuroshi.

“Não sei o que aconteceu, mas você parece estar criando um grande labirinto na sua cabeça para algo extremamente simples.”

“…?”

Kuroshi realmente ficou perdido com o que Kurona estava falando, apenas observando ela pegar algumas roupas.

Mas é a Kurona… Então talvez faça algum sentido…

“Nessas horas o melhor a se fazer é agir sem pensar muito.”

“…”

“Bem, era só isso que eu queria dizer. Faça o que você quer fazer. Força, Kuroshi!”

Kurona fez sinal de positivo com o polegar enquanto piscava o olho para ele e então se virou.

“… Você… Já está saindo?”

“Uhum. Você precisa de um tempo sozinho para refletir e decidir sua próxima ação, certo?”

Ao terminar de falar, ela levantou a mão acenando para ele e saiu do quarto.

Diante do silêncio novamente, Kuroshi refletia sobre o que Kurona havia acabado de dizer para ele.

 

 

Algumas horas depois. Kurona Yoshida se encontrava no seu quarto de hotel, deitada de barriga virada para baixo na cama, lendo um livro. No seu título dizia, em inglês, A Victorian Flower Dictionary.

Enquanto lia—

“Hm?”

A campainha do quarto tocou.

Kurona estranhou, já que a recepção nem sequer ligou para ela para pedir permissão para deixar alguém passar. Mas mesmo assim, ela se levantou e se dirigiu até a porta.

Ao abri-la.

“Ohh, que surpresa.”

Para o trio na sua frente, Kurona ofereceu uma reação natural. Ela então se virou e voltou para a cama, deixando a porta aberta.

Interpretando isso como um convite, as olharem umas para as outras, as três garotas entraram no quarto.

Kurona se sentou na cama. Com seu corpo um pouco jogado para trás, apoiado nos seus dois braços, e suas pernas cruzadas, ela sorriu para as três.

“O que a íris amarela, a jacinto azul e a cravo vermelho desejam?”

Ryoka, Seira e Julie não estavam gostando muito do tom de voz de Kurona, mas ignoraram por enquanto. Seira em especial parecia um pouco para baixo.

Kurona pensou em questioná-las como subiram até o quarto dela sem interferências e até cogitou a possibilidade do uso dos seus poderes como [Avatares de Deuses], mas ao olhar para Ryoka ela percebeu que, tal como ela, era bem óbvio os meios usados para chegar até aqui.

Ryoka fechou os olhos por um momento para considerar a melhor maneira de perguntar o que iria perguntar, e então ao se decidir, abriu os olhos novamente, dando um olhar perfurante na direção de Kurona.

“Nós viemos apenas para encontrar uma maneira de ajudar o Kuro-kun. Já que você é a amiga de infância dele e a única com conhecimento do passado dele, nós—“

“Eu recuso.”

Antes que pudesse terminar sua explicação, Kurona já descartou a proposta dela, o que deixou Ryoka bem surpresa.

“Você não nos ouviu? Nós estamos agindo pelo bem do Kuro-kun! Ou você não se importa com ele?!”

Kurona se ajeitou um pouco e levantou um dos braços, e com o punho fechado, levantou dois dos seus dedos.

“—Duas coisas.”

A ação de Kurona fez as três pararem e esperarem ela continuar.

“Primeira. Eu jamais irei contar para vocês algo que o Kuroshi escondeu até então.”

A escolha de palavras dela irritava todas as três, sem exceções. Ryoka deu um passo a frente.

“Não é como—“

“Segunda.”

Mas foi interrompida antes mesmo que pudesse dizer algo.

“Você disse ajudar o Kuroshi… Mas não é justamente o contrário que vocês vem fazendo? Quer dizer…”

Por um momento, as três ficaram sem reação, o que deu tempo para Kurona concluir seu pensamento.

“… Se vocês realmente quisessem ajudar, deixariam ele em paz.

Seira foi a primeira a reagir, e a com mais ferocidade. Ela já tentou andar em direção a Kurona com a intenção de lutar.

—Tentou.

Ryoka, que estava um passo a frente, colocou seu braço no caminho para impedi-la.

“Ryoka?!”

“Acalme-se, Sei-chan. Eu disse, não disse? Não viemos para lutar.”

Ao olhar para Seira e ver que ela recuou, Ryoka olhou novamente para Kurona.

“Você está dizendo que deveríamos deixar Kuro-kun do jeito que ele está agora?!”

Dessa vez, foi Kurona que expressou surpresa para o comentário de Ryoka.

“’Do jeito que ele está’? Eu não sei do que você está falando, mas agora eu sei quem andou fazendo a cabeça do Kuroshi para fazê-lo acreditar que tem algo de errado com ele.”

A expressão de Ryoka se contorceu. Ela não conseguia acreditar que a garota diante dela estava falando sério. Mas ela era obrigada a isso… Afinal—

Meu [Analyzer] não detectou nenhuma mentira, essa garota—

“Vamos embora, Sei-chan, Julie-chan.”

As duas concordaram, e sem se despedirem, as três se retiraram do quarto.

Kurona suspirou.

Me pergunto o porque das três terem vindo se não pretendiam lutar… Bem, elas não pretendiam lutar, talvez tenham considerado que eu poderia começar uma luta e vieram em maior número por precaução?

Além disso, elas nem fecharam a porta. Que rude.

Suspirando novamente, Kurona se levantou para fechar a porta.

 

Nos corredores do hotel, as três caminhavam em direção a saída.

“Está tudo bem sair assim, Ryoka-senpai?”

“Mhmm.”

Ao ouvir a pergunta de Julie, Ryoka apenas “afirmou” positivamente com um som. Aquilo ainda mexia com a cabeça dela.

“Sei-chan, Julie-chan.”

As duas pararam ao serem chamadas, Ryoka então parou e se virou para elas.

“Era só uma hipótese antes, mas agora é possível dizer que é quase certo que a causa do Kuro-kun estar daquele jeito é aquela garota.”

Seira parecia estar esperando por isso, uma vez que ela balançou a cabeça para cima e para baixo imediatamente.

“Ela não mentiu em nenhum momento da nossa conversa.”

Tal revelação surpreendeu as duas.

“Mas isso não significa que ela esteja falando a verdade também.”

“Ryoka… Você quer dizer—“

“Eh? O que vocês pensaram?”

A explicação é simples.

“Meu [Analyzer] pode perceber uma pessoa que esteja mentindo… Mas eu não sou onipotente, nem tenho controle sobre a verdade. Mesmo que ela não esteja dizendo a verdade, se ela acreditar que não está mentindo…”

“Ahh!”

Julie então percebeu.

O [Analyzer] não pode analisar palavras, mas sim comportamentos. Uma pessoa que está mentindo e sabe que está mentindo quase sempre irá apresentar sinais, por mais banais que sejam, de que ela sabe que não está falando a verdade.

Mas e se a pessoa em questão não achar que está mentindo? Uma pessoa que ouviu uma mentira de alguém de extrema confiança pode acabar considerando tal mentira como verdade, e ao contar para outra pessoa, na sua cabeça ela estará apenas expondo um fato, sem chances de ser falso.

O mesmo vale para pessoas com certos tipos de distúrbios ou problemas mentais e emocionais. Em muitos casos específicos, não importa o quão absurdo seja o que a pessoa está falando, dependendo do problema psicológico, ela pode ter certeza que está falando algo normal.

Se por um acaso a teoria de Ryoka estiver certa—

“Então ela está afetando o Kuroshi e fazendo-o ficar daquele jeito, mas na sua cabeça nada mudou?”

Sim, é como Seira diz.

Ryoka acenou positivamente com a cabeça.

“O maior problema é… Sem saber quase nada sobre o passado dela com o Kuro-kun, não tem como sabermos exatamente a fonte do problema. Logo, não tem como agirmos para solucionarmos esse caso. Nessa situação, se continuar a piorar, a única saída seria—“

Ela não precisou terminar de falar para Seira e Julie entenderem.

Seguindo essa linha de pensamento, provavelmente Kuroshi está naquela situação por algo que Kurona fez. Ou seja, uma habilidade da [Avatar de Perséfone]. Além disso, se ela realmente tem algum problema psicológico, grandes são as chances de isso ter sido causado pela [Guerra Divina]. Então, a solução mais simples seria—Matá-la.

As três ficaram em silêncio.

Fosse uma pessoa qualquer, seria uma opção mais considerável. Mas sendo a amiga de infância de Kuroshi, a situação se torna muito mais delicada.

Ryoka imaginou como ela se sentiria se fosse o Masaya no lugar da Kurona, e ela no lugar do Kuroshi.

Sua face distorceu só de imaginar.

Quanto tempo nós ainda temos?—O pensamento de Ryoka se referia até Kuroshi passar do ponto crítico.

Toda essa situação de hoje aconteceu por causa da atitude agressiva de Kuroshi em relação a Seira.

Quando Ryoka ouviu isso dela, ela ficou incrédula.

Nesses quase um ano que ela conhece Kuroshi, se tem uma coisa que ela tem certeza absoluta que nunca aconteceria, é ele tomar uma atitude agressiva em relação a Seira em uma situação comum.

Se o Kuro-kun não quer revelar seu passado, e a Kurona Yoshida também não, eu…

Para alguém como Ryoka, com um forte senso de justiça, algumas coisas são intoleráveis.

Invadir o quarto do Kuroshi para tentar achar algo que desse pistas da fonte do problema já era uma ação que ela muito repudiou.

Mas…

Existe uma maneira de descobrir sobre o passado dos dois facilmente.

Sim—[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].

Uma técnica que Ryoka possui, que pode “reviver” qualquer história, tendo algo que faça a conexão para uma história específica. Se ela forçasse Kuroshi a se submeter a tal técnica, ela poderia investigar o passado dele sem dificuldades.

Absurdo. Eu nunca, nunca irei recorrer a isso.

Ela já se sentiu enojada só de considerar a possibilidade.

“Ryoka?”

Só ao sentir um toque no seu ombro e ouvir a voz de Seira que ela voltou a realidade.

“… Desculpe. Vamos indo.”

As três se retiraram do hotel.

Está certo. Eu não falei para a Sei-chan, mas o maior problema desse caso e o motivo para ele estar tão difícil de resolver é…

Era algo óbvio, que Ryoka percebeu assim que parou para pensar. Talvez Seira já tenha percebido também, ou talvez ela simplesmente não queira perceber. O tal estopim, o motivo que formou essa situação, não é algo atual.

A verdade é que…

Nós não sabemos absolutamente nada sobre Kuroshi Kouji.

Admitir era doloroso. Isso para Ryoka, ela nem imagina como Seira iria se sentir.

Mas era um fato.

Claro, teve toda a história de quando Kuroshi era uma criança, e seus pais morreram em um incêndio.

Mas e depois disso? O que aconteceu nesse intervalo de cerca de 10 anos desde as mortes dos pais dele até o dia em que ele se transferiu para o Colégio Aohoshi?

Não é necessário um relatório super detalhado sobre a vida pessoal da pessoa, mas dentro dessa roda de amigos, Kuroshi é o único que ninguém sabe absolutamente nada de parte da sua infância até metade da sua adolescência.

Aquilo estava colocando Ryoka contra a parede.

Seu grande amigo, que já lutou muitas lutas ao seu lado, agora é um grande ponto de interrogação para ela.

Por já estar acostumada a trabalhar sobre pressão, Ryoka conseguia esconder esse fato. Mas por quanto tempo essa bomba ficará desarmada?

Talvez ele esteja com medo de revelar seu passado justamente por pensamentos como esse… Tch!

Sentimentos obscuros que estavam tentando ocupar o coração de Ryoka foram expelidos pela luz da justiça. Antes de qualquer coisa—

Eu preciso confiar nos meus amigos, para que eles possam confiar em mim.

A determinação de Ryoka foi renovada naquele momento.

 

 

No dia seguinte—

“Ryoka!”

“Uuh… O que foi?”

Ao ouvir sua colega de quarto chama-la, Ryoka relutantemente acordou. Ainda era cedo demais para levantar, mas como sua colega de quarto pratica exercícios constantemente, ela acorda mais cedo que o normal.

Ryoka se sentou na cama e olhou para sua colega.

Ela estava com um papel na mão, entregando para Ryoka.

“… O que é isso?”

“Uma carta. Para você.”

As duas ficaram paradas em silêncio por alguns segundos.

Ryoka então mexeu nos seus cabelos da cabeça como se estivesse pensando em algo.

“Não podia se confessar em um horário mais normal?”

“Hahaha, se você tem tempo para fazer piadas a essa hora, então pode vir correr comigo!”

“… Desculpa.”

Ryoka pegou a carta ao se desculpar.

“Agora se me dá licença, até mais!”

Sua colega de quarto se virou e rapidamente saiu do quarto.

“… Hah…”

Ela então olhou para carta, a parte frontal estava selada.

Quem envia cartas hoje em dia?

Ryoka então olhou a parte de trás da carta—

“?!”

Entendo! Então foi isso que você decidiu…!

 

 

Ryoka imediatamente reuniu todo mundo na sala do conselho estudantil.

Todo mundo, exceto Kuroshi.

“O que aconteceu, Ryoka?”

Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, então Seira perguntou.

“Eu recebi essa carta. Eu ainda não a abri.”

Ela mostrou a carta de longe.

“O que tem ela, Ryoka-chan?”

Agora foi a vez de Masaya perguntar.

Como resposta, Ryoka virou a parte de trás da carta para todos verem.

“Vejam.”

[De: Kuroshi

Para: Todos

Sobre minha vida—Meu passado.]

Dessa vez todos reagiram com surpresa.

“Aqui nesse envelope está, provavelmente, tudo que precisamos saber sobre o Kuro-kun. Com sorte um jeito de ajuda-lo.”

Além disso, outra coisa que passou pela cabeça de Ryoka, foi que de fato ele se sentiu inseguro em relação ao seu passado.

Não era realmente tão diferente de uma pessoa que prefere confessar seus sentimentos através de uma carta ao invés de falar com a pessoa diretamente.

Ryoka nem sequer consegue imaginar o motivo dele ter escondido seu passado esse tempo todo, ou o motivo dele não ter tido a coragem de falar com eles diretamente. Mas ela irá aceitar uma carta de bom grado se for para descobrir a fonte do problema.

Ele propositalmente enviou a carta para Ryoka, sabendo que ela sem duvidas apenas leria a carta com todos juntos.

E cumprindo com essas expectativas, ela abriu a carta e tirou um grande papel dobrado, com uma grande quantidade de texto. Não só um, mas sim dois deles. Ambos numerados com ‘1’ e ‘2’.

“Pois bem—“

O que todos estavam ansiosos para saber, começou a ser revelado.

 

 

Enquanto isso, Kuroshi andava pelo campus.

Sua mão estava no seu rosto, seu olhar direcionado para o chão—Não, para algum lugar distante.

Ele andava um pouco torto.

Para onde você está indo?

A voz o atacou novamente, ao olhar para trás, ele viu sua sombra se estendendo em um tamanho surreal. Além da forma humanoide, sua sombra tinha um sorriso e olhos maléficos.

Kuroshi começou a correr.

Você não pode correr de mim.

Correr de mim é o mesmo que correr de você mesmo.

Impossível.

Sem dar ouvidos para aquela coisa, ele continuou correndo.

Eu sou eu, você é você! E você está tentando acabar comigo! Tentando me consumir! Eu não deixarei!

Antes que percebesse, a voz já havia sumido.

Ele estava na praça novamente, diante do chafariz.

Kuroshi então olhou para a água. O que ele viu—

Um homem de cabelos roxos e olhos vermelhos, uma pessoa que ele nunca havia visto antes.

Quem diabos é você?!

Furioso, ele atingiu a água com um tapa e caiu de joelhos no chão.

Quem diabos é você? Quem diabos é você?

Você está falando comigo? Ou consigo mesmo?

A voz novamente o atormentou.

Cale-se! Eu não vou mais cair na sua farsa!

Eu… Eu sou… Eu definitivamente… Uh… Quem…

“… Ah… Hah…”

Kuroshi colocou as duas mãos no rosto, deixando visível apenas seu par de olhos escarlate.

Subitamente, uma [Dimensão Reversa] foi aberta.

“HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! AAAAH HAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!”

Ali, naquela [Dimensão Reversa], apenas um [Avatar de Deus] residia.

Apenas uma pessoa presente ali dentro.

Quem era essa pessoa?

Kami no Sensou – Cravo Amarelo (Volume 6: Capítulo 3)

O que está acontecendo comigo?

Voltando rapidamente para seu quarto, Kuroshi se deitou na cama de braços abertos e começou a encarar o teto.

As aulas do dia nem sequer passaram pela sua cabeça.

Eu estou… Confuso?

Ouvir a história de Ryoka e Masaya fez Kuroshi se sentir mal. Mas o motivo não estava claro na sua mente.

Amigos de infância?

Relações complexas?

Problemas familiares?

[Guerra Divina]?

Esses sentimentos não identificáveis… Uma possível causa para eles é…

“Kuroshi?”

Ao ouvir uma voz muito familiar, Kuroshi se sentou na cama no susto e olhou em direção a saída.

Na sua frente estava uma linda garota de olhos e cabelos pretos.

“Kurona…”

“Você não deveria faltar aulas após tanto tempo sem ir.”

Enquanto falava, Kurona casualmente foi até uma gaveta e começou a pegar algumas roupas.

“Aah, me pergunto por que alguns dias me sinto mais a vontade com certas roupas…”

“… Kurona.”

“Hm?”

Ver aquela garota na sua frente fez seus sentimentos entrarem em conflito. Muito embora a garota olhasse para ele com um olhar de curiosidade, algo nela parecia dizer que seu nível de inocência era zero.

“… Você… Mesmo podendo dormir neste quarto, você ainda fica em um hotel… É porque você se recusa a dormir sobre o mesmo teto que eu?”

… O que diabos eu estou dizendo?

Ela nem sequer devia estar morando no dormitório masculino…

Porque eu perguntei isso…?

Percebendo que a pergunta já estava feita, Kuroshi colocou a mão na testa em frustração.

Nenhum dos dois falava mais nada, e Kuroshi não tinha coragem para olhar para a cara dela depois de uma pergunta estranha dessas, então ele não sabia o que fazer. Até que—

“Pfft! Hahahahaha”

Ao ver a reação dela, a frustração de Kuroshi aumentou.

“Hahaha… Desculpa, não precisa fazer essa cara.”

“…”

Kurona colocou algumas peças de roupas em uma bolsa e se preparou para sair.

“Não fique mal-humorado. Mas não tinha como eu reagir diferente a uma pergunta dessas, certo? Afinal…”

Ela então se virou para Kuroshi e terminou:

“… Nós já até dormimos na mesma cama. Dormir sobre o mesmo teto seria o de menos.”

A resposta espontânea e natural dela pegou Kuroshi de surpresa.

Ela não estava tentando provoca-lo, tal como ela também não estava envergonhada pelo próprio comentário. Essa naturalidade fez Kuroshi se sentir extremamente estúpido por estar agindo daquela forma. Mas é justamente por isso—

Ah.

Era tão óbvio…

“Então, nos vemos em breve. Até mais, Kuroshi.”

Repentinamente, Kurona se despediu e se dirigiu até a saída.

“Kurona!”

Mas Kuroshi a impediu antes.

Ela somente parou, sem olhar para trás.

“Porque… Porque você voltou para o Japão?”

Se virando apenas o suficiente para olhar na direção dele, Kurona respondeu:

“Para corrigir um erro.”

“Um erro? Que erro?”

“Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.”

E então se retirou do quarto.

Kuroshi, agora sozinho, só pode amaldiçoar a si mesmo.

Veja esse meu estado patético…

É óbvio que ela não ficaria aqui quando ela sabe que é a causa desse meu estado…!

Para me dar espaço para organizar meus sentimentos, ela mantem a devida distância…

Era como uma bola de neve.

Cada vez maior e mais difícil de parar.

Kuroshi estava errado, e ele saber disso só o faz se sentir pior.

Talvez a história de Ryoka e Masaya tenha servido para guia-lo para alguma direção.

Ele só precisa segui-la.

 

 

Uma bela cena acontecia escondida dos olhos de todos.

Kurona dançava. Girando seu corpo de braços abertos com um leve sorriso no rosto.

Ao redor dela, o mais perfeito jardim se encontrava. Flores das mais comuns até as mais exóticas ou mesmo flores completamente desconhecidas, todas elas com uma coisa em comum: O perfeito estado de beleza e bom cuidado, independente da raridade, todas elas brilhavam de maneira sobrenatural.

Dizem que “nada é perfeito”. Ao menos não quando relacionado aos humanos e suas criações.

Talvez isso se aplique a essa situação também, dependendo do ponto de vista.

O jardim de fato é perfeito. A beleza natural de Kurona não mancha em nada a aparência do jardim, muito pelo contrário, até auxilia.

No entanto, fazendo um contraste surreal com o grande jardim, o céu escarlate criava uma atmosfera extraordinária no local.

Do jardim, era possível ver na distância, um portão de tamanho colossal, completamente negro e que passava um ar sinistro.

“Realmente não irá desfazer a lótus, Kurona?”

A pergunta direcionada a ela a fez parar de dançar.

Ao olhar para uma área especifica do jardim, Kurona avistou uma moça.

A beleza de Kurona já não é novidade para ninguém, isso é um fato. No entanto, a mulher diante dela chega a um nível além. Kurona realmente é muito bonita, mas ainda dentro dos padrões comuns da sociedade. Já a mulher diante dela possuía uma beleza exorbitante, algo que a maioria das pessoas normalmente nunca veriam diretamente no seu curto tempo de vida. Embora alguém como ela certamente seria usada como modelo para alguma pintura famosa, expondo sua aparência quase divina ao mundo.

Ela estava sentada na grama, mexendo nas flores. Seus cabelos, assim como os de Kurona, eram negros. A diferença é que eles eram surpreendentemente longos. Ao contrário de Kurona cujo cabelo não passa da cintura, os cabelos da dama muito provavelmente chegariam até os seus pés. Como tal, por estar sentada, seus cabelos se estendiam pelo chão, criando uma imagem verdadeiramente pitoresca combinado com o jardim.

Seus olhos eram verde esmeralda, e seu longo vestido era uma túnica grega de cor verde água-marinha.

“Eu não posso voltar atrás até nisso… Se ele não se reencontrar sozinho, de nada adiantará. Entendo o que quer dizer, mas independente da escolha que ele fizer, eu o apoiarei.”

“Imagino se ele também se envolverá nisso…”

A mulher olhou para a distância com um olhar solitário.

“… O que exatamente são vocês?”

O sorriso de Kurona já havia sumido quando ela terminou a pergunta. Mas como se tivesse sido trazida de volta para a realidade, a mulher apenas sorriu gentilmente ao olhar para Kurona e disse:

Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.

“… Haa… Você me pegou nessa.”

Kurona rapidamente desistiu e deu de ombros ao ouvir exatamente a mesma frase que ela havia dito pouco tempo atrás.

“Em todo caso, mesmo no escuro minha promessa de trazê-lo de volta para você se mantém.”

“…”

“Não faça essa cara. Eu sei o que isso significa e estou pronta para lidar com isso, principalmente quando um dos motivos para eu reconhecer meu erro ter sido você.”

Com o sorriso de volta no rosto, Kurona declarou antes de se virar.

Não foi muito depois que Kurona simplesmente desapareceu daquele lugar.

“Essa garota… O quanto ela consegue aguentar sozinha?”

 

 

“Ainda restam duvidas de que há algo de errado com ele?”

No dormitório feminino, mais especificadamente no quarto de Ryoka, três garotas, ela incluso, conversavam.

“Mhmm, depois da história da Ryoka-senpai, ele não deu mais as caras ontem…”

A pergunta foi de Seira e a resposta de Julie. Havia se passado um dia desde que Ryoka contou sua história com Masaya.

Após aquilo, Kuroshi não deu mais sinais de vida, ao menos não pessoalmente. As garotas mandaram mensagens para ele, as quais ele respondia, mas sempre tentando evitar se explicar.

“O melhor jeito de se resolver isso é falando diretamente com ele. Masaya me enviou uma mensagem há pouco tempo atrás avisando que avistou Kuroshi se dirigindo até a praça.”

Como de costume, Ryoka sempre era a voz da razão nas discussões.

“Então…!”

“Espere, Sei-chan. Eu irei até ele.”

Ao ver a cara de decepção da sua grande amiga, Ryoka até ficou com um pouco de pena, mas era apenas a escolha mais lógica.

“Você ir até ele provavelmente só irá criar uma pressão desnecessária e o fará ficar na defensiva. Por outro lado, se a Julie for, ele provavelmente vai dispensá-la sem leva-la a sério, como sempre.”

“Fueh? Porque eu tenho a impressão de que estão tirando sarro de mim?”

Julie olhou para cima, refletindo seriamente. Ryoka apenas decidiu ignorá-la por enquanto.

“Enquanto eu dialogo com ele, vocês duas farão outra missão.”

Ao ver que conseguiu a atenção e curiosidade das duas, Ryoka continuou.

“Não é algo que eu goste ou ache certo, mas nossas circunstâncias não são normais, então pedirei para que vocês deem uma olhada no quarto dele, da maneira menos invasiva possível. Vocês podem recusar, se quiserem, claro.”

Invadir a privacidade alheia deixava Ryoka aflita, pior ainda é passar essa tarefa para suas amigas. Mas ela preferiu seguir o lema ‘não me arrependo do que faço, mas sim do que deixo de fazer’. Quando for tarde demais, não terá mais volta.

“Nós faremos.”

Seira afirmou sem hesitar, Julie acenou positivamente concordando com a resposta.

“Nesse caso…”

 

 

Kuroshi estava sentado no banco da praça olhando para o céu.

Ele não escolheu vir para cá aleatoriamente, havia um motivo para isso.

E este era—

“Kuro-kun.”

Seu par de olhos vermelhos imediatamente demonstraram surpresa ao arregalarem e olharem para direção da voz.

Alguém que ele jamais esperava ver ali, justamente a essa hora, apareceu.

“… Ryoka…”

Sem esperar nenhum convite, Ryoka se sentou do lado dele. Ao fazer isso, ela olhou diretamente nos olhos dele, que tentou desviar o olhar como resposta.

“O que está acontecendo com você?”

“… Não é nada…”

Dada a situação, tal resposta devia até mesmo ser considerada inútil, mas mesmo assim ele a usou.

“Não tente mentir. Você sabe que eu posso identificar mentiras com o meu [Analyzer], certo?”

Ao ser lembrado disso, Kuroshi notou que já estava em um beco sem saída.

“… Você tem razão… Eu… Contarei a verdade…”

“Hah… Francamente. Devia estar com essa mentalidade desde o começo. Somos amigos, não somos?”

Ryoka suspirou, como uma mãe tendo que lidar com o filho que fez alguma besteira, mas está com medo de contar.

“Por sinal. O que eu disse sobre o meu [Analyzer] era só um blefe, jamais usaria algo assim para tentar desmentir algum amigo, isso só significaria que eu não tenho confiança na pessoa.”

Ryoka não sabia se estava explicando isso para dizer como se sente ou por se sentir culpada por conta da missão que deu para Seira e Julie.

Eu realmente caí nessa… Devia ter imaginado…

Amaldiçoando sua própria ingenuidade, Kuroshi apenas aceitou que caiu facilmente nos jogos mentais de Ryoka. Se é que pode ser chamado disto.

“E então?”

Novamente pressionado, Kuroshi decidiu revelar a verdade.

“… Eu já te contei sobre a minha amiga de infância, Kurona Yoshida, certo?”

Era uma pergunta retórica, por isso, Kuroshi não esperou resposta e continuou falando.

“Bem, nossa história é um tanto quanto mais complicada do que eu fiz parecer para vocês…”

Ryoka ficou um pouco surpresa. Não por essa revelação, no entanto.

“Entendo, então por isso minha história com o Masaya te afetou mais do que deveria.”

“Sim… Não esperava algo tão relacionável naquele momento…”

“Desculpe, Kuro-kun.”

“Huh?”

“Originalmente eu iria apenas contar as partes mais importantes do meu passado, como o efeito colateral do [Analyzer] ou a minha relação com o Masaya… Mas ao te ver agindo estranho ali, decidi contar tudo e tentar te dizer indiretamente que você podia contar conosco, seus amigos.”

“…”

As palavras ditas por Ryoka ontem vieram a mente de Kuroshi.

Existem alguns motivos para eu ter decidido mostrar essa história a vocês… O primeiro e mais óbvio, é a confiança e afinidade do nosso grupo. Todo mundo tem uma coisa ou outra que gostaria de esconder, mas creio que conhecer a origem do que somos hoje é algo necessário.

O quão perceptiva e o quão longe essa garota consegue pensar…?

Ele tentou evitar, mas desde sempre esteve no alcance dela. Se o dissessem que Ryoka não precisa do [Analyzer] para ser inteligente e perceptiva, ele usaria essa situação como exemplo. E o mais importante de tudo, a atenção que ela deu a ele mesmo enquanto se concentrava em mostrar seu passado para todos era insana, ainda mais por se tratar dela, que certamente deu a mesma quantidade de atenção para todos os outros.

Definitivamente uma pessoa que luta no melhor estilo “um por todos”. Essa é Ryoka Illsbert.

“Então, o que essa amiga de infância tem a ver com a situação atual? Você não se sentiria mal se esse segredo não nos afetasse de alguma forma.”

Ryoka conduzia a conversa cautelosamente, mas cada pergunta dela era feita com uma boa expectativa de qual seria a resposta.

“Ela também é uma [Avatar de Deus]. E ela, que estava morando no exterior, está aqui na cidade agora.”

A expressão de Ryoka não sofreu mudanças, tudo dentro do esperado.

“Desde que ela voltou, coisas estranhas começaram a acontecer comigo… Como esses olhos…”

Ou como essa maneira insegura de agir—Pensou Ryoka no momento. De fato ele estava muito fora do comum, e de fato a maior causa provavelmente é a tal garota.

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é…”

 

 

“Você realmente está bem com isso, Seira-senpai?”

Julie questionou Seira, já demonstrando um pouco de hesitação enquanto as duas estavam de pé diante do dormitório masculino, logo debaixo da janela do quarto de Kuroshi.

“Não estou. Mas é como dizem, há males que vem para o bem. Então vamos logo.”

Decidindo não gastar mais tempo já que não sabiam quando Kuroshi voltaria, as duas saltaram do chão até a sacada. Rapidamente descendo na pequena varanda e entrando no quarto, as duas—

Encontraram uma pessoa, uma garota, deitada na cama de Kuroshi, abraçada com o travesseiro dele.

A virada inesperada de eventos fez Julie simplesmente congelar. Enquanto Seira ficou duas vezes mais séria ao ver aquela situação.

A garota apenas olhava casualmente para as duas com um olhar de surpresa.

“… Quem é você? Entrar no dormitório do sexo oposto em permissão é passível de expulsão…”

A jovem moça de cabelos pretos diante de Seira e Julie cobria toda a parte inferior do seu rosto com o travesseiro enquanto se sentava. Não era possível ver sua boca, mas seus olhos pareciam rir das palavras de Seira.

“Ora? Eu tenho permissão, este é meu quarto, afinal. Vocês duas por outro lado… Talvez eu devesse avisar alguma autoridade sobre essa invasão?”

A expressão de Seira instantaneamente mudou de seriedade para choque.

Se o que a garota disse é verdade, Seira acabou de pisar em um campo minado.

O choque fez ela ficar totalmente sem reação.

Uwaaah, o que eu faço? O que eu faço?!

Julie começou a entrar em estado de pânico ao ver a tensão no ar subir.

Só há um jeito…!

Julie.exe parou de funcionar.

Quando Seira conseguiu se recuperar do baque, ela deu um passo a frente.

“Nós somos amig—“

Julie usou suas habilidades físicas sobre-humanas para se mover rapidamente para trás da garota.

A estratégia de ‘apagar as testemunhas’. Colocá-la para dormir e resolver o problema a partir daí.

Quando o braço de Julie, claramente agindo sem pensar, se aproximou da garota—

“Espere, Julie!”

Ela instintivamente parou ao ouvir a voz de Seira.

Todas as 3 pararam de se mover. Não tinha como Seira deixar aquilo passar.

“… Quem é você?

Seira repetiu a mesma pergunta de antes, porém, com uma entonação completamente diferente. Mais ameaçadora.

“S-Seira-senpai…?”

Visto que nenhuma resposta vinha da misteriosa pessoa, Seira estendeu seu braço para frente e no momento seguinte—

Todas as cores se inverteram completamente.

—[Dimensão Reversa].

Julie se surpreendeu ao ver a ação de Seira, mas levou um real susto ao ver que a garota de cabelos pretos ainda estava presente.

“Você… Acompanhou os movimentos da Julie com os olhos, nenhum humano normal teria essa capacidade.”

“… Haa… Você é muito séria. E você agora está bem mais energética do que antes, huh.”

A garota—Kurona—soltou o travesseiro após se dirigir primeiro a Seira e depois a Julie.

O maior choque para Julie foi finalmente poder ver o rosto da pessoa.

“Você é… A garota da flor…”

A garota que deu uma flor para ela, a mesma que guiou Kuroshi e os outros até o local onde ela estava escondida.

Ao ouvir as palavras de Julie, até Seira se surpreendeu.

Indiretamente, a pessoa diante dela ajudou no resgate de Julie.

Vendo que conseguiu desarmar as duas, Kurona se levantou da cama.

“Podemos parar com as hostilidades? Vocês atacam os outros do nada normalmente assim mesmo ou é algo pessoal contra mim?”

Kurona levantou os dois braços na altura dos ombros, enquanto mantinha um sorriso no rosto.

Seira a encarou por alguns segundos, antes de respondê-la.

“Nós nem sequer te conhecemos, não temos nada pessoal contra você. Mas é apenas natural manter a cautela diante de um [Avatar de Deus] desconhecido, certo?”

A discussão novamente se tornou entre Kurona e Seira, Julie não conseguia ver brecha para dizer algo.

Ao ouvir a resposta de Seira, Kurona olhou para ela, surpresa, talvez tão surpresa que parecia um tanto quanto falso.

“Ora. Kuroshi não deve ter contado sobre mim para vocês, então.”

Uma única frase foi o suficiente para destruir o equilíbrio que Seira estava reconstruindo depois do choque inicial.

“Pela terceira vez… Quem diabos é você? Você tem alguma relação com as mudanças que aconteceram no Kuroshi?”

Ela não esperava uma resposta assumindo culpa nem nada do tipo, mas a fez mesmo assim. No entanto—

“Hah? Mudanças? No Kuroshi? Ele não sofreu absolutamente nenhuma mudança até onde sei, ao menos não recentemente. Tem certeza que não é só impressão sua?”

Ela não parecia estar mentindo, mas por alguma razão, cada resposta de Kurona deixava Seira mais no limite da paciência.

“Definitivamente não é só impressão minha, eu já o conheço há muito tempo, algo desse nível não passaria despercebido por mim.”

“Heh~ Será mesmo? Me pareceu que você nem sequer conhece ele direito, no entanto.”

“… O que você disse?”

As palavras de Kurona atingiram Seira violentamente. Aquilo foi praticamente uma afronta a tudo que os dois já haviam passado para ela.

Com o braço estendido, um tridente dourado se formou na mão de Seira e a ponta dele ficou há poucos centímetros do pescoço de Kurona.

“E-Ei, Seira-senpai… Não está exagerando um pouco…?”

Julie finalmente viu uma brecha para tentar impedir as duas.

Mas ela foi ignorada por ambas.

“Desafio você a repetir o que disse.”

O sorriso que estava até agora presente no rosto de Kurona desapareceu.

“Você acha que é próxima dele, mas pelo visto isso é apenas uma ilusão de uma garota imatu—“

Antes de conseguir terminar a frase, o tridente se moveu violentamente em direção horizontal mirando o pescoço de Kurona.

“Seira-senp—Eh?!”

O estrondo, seguido da ventania que se espalhou pelo quarto, foi originado pela colisão do tridente com o lado externo do pulso de Kurona. Tudo que o ataque de Seira conseguiu fazer foi mover os cabelos de Kurona com a onda de impacto.

Em um momento de susto, mesmo em um local fechado, Seira saltou para trás. No entanto—

Rápida?!

Em um movimento quase imperceptível, Kurona já estava extremamente próxima de Seira, ela então aproveitou o movimento precipitado da oponente e usou o seu antebraço, atingindo o pescoço de Seira e empurrando ela contra a parede.

“Criar uma [Dimensão Reversa] desse tamanho foi um equivoco. Não que o tamanho dela fosse fazer diferença, de qualquer forma.”

“Seira-senpai!”

Já com sua lança criada, Julie partiu para o ataque. Vendo o movimento feroz da lança na sua direção, sem tirar o antebraço do pescoço de Seira, Kurona levantou sua perna e defendeu o ataque com a sola do pé. A força da colisão jogou Julie para trás. Porém—

“?!”

Kurona saltou para trás ao sentir uma queimadura no seu antebraço. Ao olhar, ela percebeu que tal queimadura era simplesmente gelo, seu antebraço estava congelado.

“[Water Whip]!”

Um longo chicote de água atacou Kurona incessantemente, que tentava desviar de todas as investidas.

“Uh!”

No entanto, em um dos seus rápidos movimentos, ela acabou chegando em uma das quinas do quarto, sem espaço para desviar.  O que ela disse antes acabou se voltando contra ela mesma.

Saltando no último momento, ela evitou um ataque certeiro, mas o chicote amarrou seu tornozelo. Com a habilidade especial do constante fluxo da água, o chicote puxou Kurona em direção a Seira.

“Não ache que conseguirá algo lutando de mãos vazias!”

Na direção que Kurona estava sendo puxada, a ponta do tridente de Seira avançava na direção dela. Quando os dois estavam prestes a se encontrar, Kurona usou a palma da sua mão para colidir com a ponta do tridente.

O barulho de vidro quebrando ecoou pelo quarto, e através dos fragmentos do tridente destruído era possível ver a expressão de choque de Seira.

Se aproveitando do efeito do [Water Whip], Kurona conseguiu chegar até Seira rapidamente e com um giro do seu corpo, ela atingiu o rosto de Seira com o lado externo da mão, jogando ela contra a parede.

Seira conseguiu se levantar sem problemas, para alguém que destroçou seu tridente, o ataque dela até que foi fraco.

Nesse caso, eu—Huh?…

Enquanto pensava no seu próximo movimento, o corpo de Seira ficou pesado e caiu de joelhos no chão. Assim que isso aconteceu ela notou que Julie também estava caída no chão, ainda consciente, mas sem conseguir se mover.

Kurona se aproximou de Seira e empurrou ela contra a parede, sua mão acima do seu ombro e seu rosto há meros centímetros do rosto dela.

“Desculpa, não lutei de mãos vazias por subestimar vocês. Eu simplesmente não sou uma [Avatar de Deus] especializada em lutas.”

Seira não soube como reagir. Seu corpo não se movia.

“Muito bem, agora…”

Kurona colocou sua mão no rosto de Seira, quando—

“!”

Um feixe de luz passou pelos seus olhos e perfurou o chão entre as duas.

“Se afaste dela, Kurona Yoshida.”

Em frente a janela—

“Ryoka!”

Exato, Seira estava perfeitamente certa.

Kurona se levantou lentamente e levantou os braços, como um gesto de “cessar fogo”.

“Mais qualquer tentativa de agressão as minhas amigas e serei obrigada a travar uma batalha de verdade contra você.”

O sorriso de Kurona já havia voltado ao seu rosto a essa altura, mas ela não dizia nada.

Um leve olhar no cenário já dava para dizer o que estava acontecendo, então Ryoka afirmou:

“Seus poderes não funcionarão contra mim. Não sei o que te fez atacar Sei-chan e Julie-chan, mas em questão de conhecimento, podemos concluir que eu estou na frente, não acha… [Avatar de Perséfone]?”

Ryoka propositalmente revelou a identidade de Kurona para demonstrar superioridade na situação, mas ainda não foi o bastante para quebrar o seu sorriso. Muito pelo contrário, por algum motivo, Kurona parecia até mais confiante. Mantendo-se calada, ela conseguiu o feito de deixar Ryoka um pouco impaciente. Como se tivesse sido atingida por uma premonição, a face de Seira se contorceu.

Ryoka então disse:

“Parece que você não entendeu ainda… Cancele essa [Dimensão Reversa] de uma vez, caso contrário considerarei isso uma declaração de guerra.”

Era exatamente o que Kurona estava esperando ouvir.

“Uwah, que medo. Medo de como nossa sociedade se tornou tendenciosa e ignorante, não é mesmo, Seira?”

Kurona por algum motivo dirigiu-se a Seira, o que deixou Ryoka confusa.

“… Eu fecharei a [Dimensão Reversa]…”

As palavras de Seira deixaram Ryoka chocada.

“Definitivamente hoje não foi um bom dia, huh? Invadem o meu quarto, me atacam e ainda tentam me colocar como a vilã da história, esperava mais do famoso [Partenon]…”

O tom de voz dela era provocativo, mas as palavras e sua expressão eram sinceras.

“…”

Ryoka ficou totalmente sem ação.

Seira cancelou a [Dimensão Reversa]. Kurona fechou os olhos e pegou suas coisas, se dirigindo até a saída sem dizer mais nada ou olhar para qualquer uma das três.

Após a saída de Kurona, o quarto ficou em silêncio por um bom tempo.

“Desculpa, Ryoka…  Por eu ter agido de cabeça quente, eu acabei fazendo você fazer uma falsa acusação. Sei o quão forte é o seu senso de justiça, então imagino o quanto isso deve ter te afetado… Desculpa…”

Seira já não conseguia mais dizer nada. Nem Ryoka. Nem Julie.

A princípio, entrei em choque por medo de ser expulsa do Colégio Aohoshi e ter que voltar para casa do meu tio… Mas então, deixei meus sentimentos falarem mais alto quando ela disse aquelas coisas e comecei uma luta desnecessária…

Refletindo suas ações, Seira colocou a mão no rosto em frustração.

Enquanto isso, a única coisa que Julie conseguia pensar era: Como uma única pessoa pode desestabilizar tanto um grupo?

O mais frustrante para ela era que não havia provas contra Kurona, e ela em nenhum momento agrediu ou atacou ninguém. Seria isso realmente um efeito colateral de deixar uma amizade falar mais alto do que o justo?

Ryoka se dirigiu até a varanda do quarto, onde o vento balançava seus cabelos, e olhou para o céu.

Ela se lembrou da sua conversa com Kuroshi…

 

 

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é… a [Avatar de Perséfone]…”

Essa era a primeira informação que surpreendeu Ryoka de verdade.

A esposa de Hades, huh…

Perséfone—A deusa da agricultura que sempre se preocupava apenas em colher flores, mas foi crescendo e com isso sua beleza foi encantando a todos, e encantou o deus Hades, o senhor dos mortos. Posteriormente se tornando a rainha do inferno. Sempre disposta a receber e atender os mortais que visitavam o reino dos mortos à procura de ajuda, era uma deusa do bem, mas ao mesmo tempo temida.

“… Influência, talvez?”

“Huh?”

Kuroshi, sem entender o que Ryoka quis dizer, olhou para ela com seus olhos vermelhos.

“Inevitavelmente todos nós, [Avatares de Deuses], sofremos influência dos deuses que representamos. Podendo ser algo mais forte ou mais fraco dependendo da pessoa, mas que pode nos atingir a qualquer momento.

Lembra da história da irmã mais velha da Julie? Talvez o mesmo esteja acontecendo com você. Talvez esse conflito de emoções seja, na verdade, suas emoções entrando em conflito com as emoções de Hades.”

Ouvindo tal resposta, Kuroshi olhou para o chão.

É claro… Só pode ser isso…

Hades está tentando impor suas emoções em cima das minhas…

Aceitando até que fácil demais, Kuroshi deu um fraco sorriso.

“… Para ser sincero… Eu só vim para essa praça pois nesse momento a Kurona deve estar no meu quarto…”

As palavras de Kuroshi surpreenderam Ryoka.

… Droga! Cometi um erro!

Ryoka se levantou bruscamente.

“Ryoka?”

“… Sugiro que você reflita sobre o que eu falei, eu preciso resolver outras coisas agora, mas lembre-se: Pode sempre contar com seus amigos…”

Inconscientemente, Ryoka desviou seu olhar enquanto dizia a última frase.

Ela então se retirou do local, deixando Kuroshi sozinho novamente.

 

 

“Maldição!”

Ryoka socou a sacada controladamente para não quebrá-la.

Eu não só acusei injustamente uma pessoa, eu invadi a privacidade do meu amigo e ainda menti para ele…!

Ela não conseguia se conformar.

Por quê? Por quê?! Onde as coisas começaram a dar errado?

Em algum momento, todos foram condicionados a cometerem erros ao mesmo tempo. Qual foi o estopim?

Qual exatamente é o problema desse caso?

Ryoka tentou pensar o mais longe que conseguia.

Tem que haver uma resposta. Era o que ela pensava.

Até que—

“…”

O olhar de Ryoka ficou distante, sua raiva e frustração desapareceram.

Ah…

Entendo…

Ha…Haha… Se eu contar isso para a Sei-chan, ela certamente irá chorar…

Todos nós estávamos fadados a cometer erros nesse caso desde sempre…

Talvez… Talvez eu tenha cometido um erro maior do que eu imaginei…

 

 

O sol já estava se pondo. As aulas já haviam acabado.

Em um dos banheiros masculinos da escola—

Kuroshi se olhava no espelho.

Ele olhava diretamente para os seus próprios olhos escarlates.

“Eu achei que você estava do meu lado… Mas parece que não…”

Não havia absolutamente mais ninguém no banheiro, talvez nem na escola.

Kuroshi estava falando com seu próprio reflexo.

“Tentando me manipular, me induzir a ser você… Foi realmente um plano venenoso e que conseguiu me confundir…”

“Mas eu não pretendo cair mais nessa… Eu sou eu… Eu definitivamente serei eu…”

Somos um só, garoto. Você sou eu, eu sou você. Lembra?

“!!”

Absolutamente do nada, um fantasma apareceu atrás de Kuroshi. Cabelos roxos um pouco mais compridos que o de Kuroshi, olhos vermelhos, túnica negra com detalhes dourados, manoplas e grevas totalmente negras. Seu rosto não era visível, apenas seus olhos, mas era possível dizer que ele estava sorrindo.

“… Hades!”

Kuroshi expressou raiva, ainda olhando para o espelho.

“Sua falcatrua foi exposta! Suas mentiras não me afetarão mais!”

Hou? Minha falcatrua foi exposta, você diz? E a sua falcatrua? Quando ela será exposta? Quando suas mentiras não te afetarão mais?

Você é o farsante, garoto.

No limite da sua paciência, Kuroshi se virou já invocando sua espada e atacando o fantasma.

Porém, o ataque atingiu apenas o ar. Não havia mais ninguém.

Kuroshi colocou a mão na testa e andou para trás até encostar em uma parede, escorregando por ela até sentar no chão.

Minha nova vida… A que eu trabalhei para construir aqui… Os sentimentos que cultivei e as relações que criei, esse sou o verdadeiro eu… Sem dúvidas, aqui representa minha vida verdadeiramente… Sem dúvidas…

 

 

Um bom tempo depois…

Kuroshi estava voltando para o seu quarto, já estava de noite.

“Oh, Kuroshi.”

“Kuro-chan!”

Ao olhar para trás, Kuroshi viu Axel e Alisha vindo na sua direção, de mãos dadas.

Axel estava maior a cada mês que passava, daqui há um tempo ele já deverá estar até maior que Kuroshi.

“Huh? Seus olhos…”

“… Estou fazendo um treinamento pessoal, é por isso.”

Ao ouvir o comentário de Alisha, Kuroshi usou uma desculpa que ele já havia preparado de antemão.

“Está voltando para o quarto agora? Eu já irei me despedir da Alisha, se quiser podemos voltar juntos.”

Ao ouvir a proposta de Axel, Kuroshi aceitou naturalmente e se sentou em um banco enquanto observava os dois de longe, se despedindo como um casal normal.

Após dois minutos, Axel veio até Kuroshi.

“Vamos indo.”

Caminhando lado a lado, Kuroshi perguntou:

“Axel… Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

“Huh? De onde veio isso?”

“… É só uma coisa que estive pensando em momentos de tédio…”

“Hmm…”

Enquanto Axel refletia, os dois caminhavam em silêncio debaixo do céu estrelado.

“Eu diria que tudo depende do avatar.”

“… Do avatar? Como assim?”

“Sim… Eu não acho que os deuses tentem moldar o avatar ao seu gosto, mas acredito que eles naturalmente possuem uma presença divina que talvez induza a pessoa a fazer certas coisas ou pensar de certa forma, mas no fim das contas, quem decide se vai permitir essa indução é a própria pessoa.”

Kuroshi ficou sem palavras para a resposta complexa de Axel.

“Eu acho que você não se conectaria com algum [Avatar de Deus] apenas porque uma mitologia dita essa conexão. Se isso acontecer, é porque você já estava propício a isso desde o começo. É o que eu acredito.”

“… Isso foi um pouco específico demais…”

A primeira parte da breve teoria de Axel foi natural, mas a segunda ressoou diretamente em Kuroshi. Era como se Axel pudesse ler mentes.

“Hahaha, desculpe. Talvez as memórias do meu passado tenham tido influência na minha resposta.”

Kuroshi arregalou os olhos em surpresa, pois ao ouvir a explicação dele, ele se lembrou daquele determinado dia, um tempo antes da sua luta contra Noah.

Está certo…

Axel perdeu a pessoa que ele amava para Loki no passado…

Essa pessoa era… a [Avatar de Sif]. Sif era a esposa de Thor na mitologia nórdica…

A semelhança era tão forte que Kuroshi esqueceu de continuar andando.

No entanto…

Kuroshi conseguia se lembrar. Naquela época, eles tiveram uma conversa bem similar.

Só que, naquela época, a resposta de Axel foi totalmente oposta. Segundo o palpite dele, dois [Avatares de Deuses] conectados pela mitologia só se conectariam realmente por causa do que a mitologia dita. Hoje ele diz que não é a mitologia que conecta as pessoas, mas seus próprios sentimentos. O que mudou de lá pra cá? Porque ele mudou o ponto de vista? Kuroshi queria perguntar, mas acabou desistindo por se tratar de um assunto delicado.

“E se…”

Por ter parado de andar, Axel estava um pouco mais na frente que Kuroshi. Ele também parou ao ouvir a voz de Kuroshi.

“… E se nossos sentimentos fossem ditados pelos deuses em si e não pelo que realmente sentimos?”

Diga, e se as coisas forem exatamente como a Ryoka previu?

Axel se virou lentamente com um sorriso no rosto.

“Bom, nesse caso, por exemplo, sua relação com a Seira seria uma farsa, não?”

Naquele momento, Kuroshi entendeu porque Axel mudou seu modo de ver as coisas.

Kami no Sensou – Gardênia (Volume 6: Capítulo 2)

Em pouco tempo o treino diário de artes marciais de Masaya começaria, mas ele se encaminhava adiantadamente até Yan Quon. Era com ele que Masaya buscaria respostas.

Antes de chegar até o campo de treinamento, Masaya cruzou com Daisuke.

“Masaya, precisarei de você hoje.”

“Tio Daisuke?”

Ao ouvir seu chamado, Masaya olhou para Daisuke, expressando um pouco de pressa.

“Teremos uma festa para ir hoje a noite, precisarei que tome conta da Ryoka para mim. Tudo bem por você?”

Era um pedido simples, mas que dada a situação atual de Masaya e Ryoka, se tornava muito mais complexo do que Daisuke poderia imaginar.

“… Sim, claro.”

“Obrigado. Contarei com você.”

Daisuke agradeceu e colocou a mão na cabeça de Masaya antes de se retirar.

Ryoka… Huh, tenho que ir de uma vez.

Voltando a se focar no seu objetivo, Masaya foi até Quon.

 

“Mestre, tem um momento?”

“Umu.”

Conseguindo a confirmação de Quon, Masaya pensou em como perguntar o que queria.

“Mestre… O que fazer quando alguém perde o propósito para lutar? O que fazer quando você não consegue destruir a parede diante de você?”

“Hmm…”

Quon, que até então estava olhando para a distância, finalmente se virou e olhou para Masaya diretamente.

“Lute por sua família, Masaya. Assim como por aqueles que são preciosos para você.”

A resposta de Quon irritou um pouco Masaya. Seu mestre claramente não entendia sua situação…

“Nem sempre as coisas funcionam dessa forma! E se você for forçado a lutar?! E se você não tiver uma família?!”

Deixando seus sentimentos fluírem para fora, Masaya levantou o tom de voz.

Quon fechou os olhos e esperou o jovem se acalmar.

“Você está se perdendo, Masaya. Deixar os sentimentos negativos serem a fonte dos seus movimentos servirá apenas para te cegar e eventualmente leva-lo a autodestruição. Lute pelos sentimentos positivos, pela sua família. Nós humanos instintivamente tentamos criar laços uns com os outros, por isso, a não ser que você se isole do mundo, sempre existirá pelo menos uma pessoa que se importa de verdade com você. Essas pessoas que tentam de verdade conseguir um espaço nos nossos corações—É o que significa “Família”. Não são só os laços sanguíneos que formam uma família, mas também os laços emocionais.”

Dando uma leve pausa no discurso, Quon continuou.

“Masaya, quando eu digo para lutar por sua família, isso também significa lutar por você mesmo. Pense, alguém que se importa muito com você ficará triste caso você sofra, talvez essa pessoa até tente lutar por você para te ajudar. É por isso que lutar pelos outros também pode significar lutar para se proteger. Nesse momento parece que você está falhando nesse ponto, mas você ainda pode mudar isso.”

“…”

Masaya não tinha palavras para responder a visão de Quon. Mas definitivamente mudou algo dentro dele.

“… Obrigado, Mestre!”

Se curvando para Quon, Masaya se virou e se retirou.

 

Talvez realmente seja melhor esquecer tudo isso e seguir em frente…

Sentado no fim da cidade, Masaya olhava em direção ao mar e o horizonte. Não havia nenhuma praia ou algo do tipo, por isso, se ele pulasse dali cairia direto na água.

O vento ia e vinha constantemente, o que criava uma atmosfera tranquila e relaxante.

Repentinamente ele sentiu algo gelado no rosto e olhou para trás.

“Agir assim não combina com você.”

Ryoka estava ali, encostando um picolé no rosto de Masaya. Ele pegou o picolé e olhou para o horizonte novamente.

“Você poderia não mais machucar a si mesmo?”

“Huh?”

O comentário de Ryoka, que estava de pé do lado dele, o deixou confuso e o fez olhar para ela.

“Toda vez que eu o vejo machucado, física ou psicologicamente, sinto como se meu corpo estivesse sendo perfurado constantemente…”

“…”

“Se realmente estiver precisando de ajuda, pode sempre contar comigo!”

Tentando suavizar a atmosfera, Ryoka deu o sorriso mais espontâneo que conseguiu.

Ah…

Está certo… Essa garota também pode ser considerada minha “família”.

Famílias não são formadas apenas por laços sanguíneos, mas também por laços emocionais.

“Desculpe. Irei me cuidar mais a partir de hoje. Embora não possa prometer que não vou me ferir caso seja uma situação sem saída.”

“Masaya… Obrigado!”

Ryoka, bem feliz, se jogou em Masaya e o abraçou. Um forte sentimento tomou conta do seu peito ao ver Masaya voltando ao normal.

“Ei! Você vai me derrubar no mar!”

Apesar das reclamações, Masaya não desgostou da situação. Pela primeira vez em muito tempo ele sentiu uma leveza no peito.

Ah… O melhor é deixar tudo isso para trás mesmo.

Tomando sua decisão, Masaya finalmente conseguiu sorrir de verdade.

 

 

Apesar de tudo, o destino parecia não estar do lado de Masaya naquele dia.

Ele terminou de vestir suas roupas de guarda-costas, o que parecia mais um cosplay do que realmente uma roupa de trabalho em uma criança como ele.

Seu próximo passo foi ir conferir se Ryoka estava pronta.

“Ryoka, já terminou de se arrumar? Não podemos nos atrasar.”

Batendo na porta e chamando por ela, Masaya aguardou por uma resposta, mas não recebeu nenhuma.

“Ryoka?”

Ele bateu mais duas vezes, agora com mais força.

Estranhando a situação, ele colocou o ouvido na porta para tentar ouvir algum som, mas não conseguiu escutar nada.

“Estou entrando.”

Decidindo dar uma olhada no quarto, Masaya colocou a mão na maçaneta.

Talvez por estar muito em paz consigo mesmo, ele por algum motivo se lembrou de como em animes e mangás de comédia romântica, situações assim sempre levam a cenas inusitadas.

Mas ao abrir a porta—

Ele se lembrou que vive uma história de um gênero diferente.

A janela aberta foi a primeira coisa que chamou a atenção de Masaya. O quarto estava todo em ordem.

Inspecionando direito, ele encontrou um bilhete.

“Não se preocupe, Masaya. Como uma aliada da justiça, eu salvarei o seu pai!

– Ryoka”

Naquele momento, Masaya congelou.

De tantas e tantas possibilidades, havia uma que ele não parou para considerar—Ryoka tentar resolver tudo sozinha… Novamente.

O motivo para ele não ter parado para pensar nisso era bem simples. A realidade da [Guerra Divina] ainda não havia atingido ele… E muito menos ela. Lutar um contra outros [Avatares de Deuses] até a morte, algo que inevitavelmente eles teriam que fazer, nunca passou pela cabeça de Masaya que Ryoka participaria de algo brutal como isso.

Sem perceber, Masaya estava amassando o papel violentamente.

Sem pensar duas vezes, ele saltou pela janela, torcendo para não ser tarde demais.

Talvez ele estivesse sendo presunçoso demais, mas graças a derrota humilhante que ele sofreu antes, Masaya simplesmente assumiu o pior para Ryoka também.

Maldição… Maldição… Maldição!! Porque!!

Enquanto estava no processo de aceitação com o que aconteceu com o seu pai, ele acaba tendo que passar por isso. Se ele perder Ryoka também—

Viajando pela cidade a uma velocidade absurda, ele procurou incessantemente. Quanto tempo já se passou? 1 minuto? 2? Talvez pareça pouco tempo, mas para alguém na velocidade que ele estava viajando, era tempo até demais.

Eis que repentinamente todas as cores do mundo se inverteram.

“…!”

Finalmente! … Ryoka!

Agora dentro da [Dimensão Reversa], Masaya procurou por Ryoka.

Felizmente a dimensão não era muito grande, então encontra-la foi uma tarefa bem simples.

Mas—

“Ora ora, o que temos aqui?”

“… Vocês…”

Ao ouvir a voz da garota de cabelo violeta, o cérebro de Masaya começou a processar a situação lentamente. Ela estava levantando o corpo caído de Ryoka pelo cabelo quando parou o que estava fazendo para olhar na direção de Masaya.

Perto dela estava seu parceiro com sua grande espada—Zinon.

Ryoka estava coberta de ferimentos e lágrimas escorriam pelo seu rosto, limpando algumas manchas de sangue no caminho.

“Ma… Masaya… Corra…”

Ryoka tinha dificuldades para falar, mas conseguiu dizer o que queria.

Corra? Corra?!

Ele não conseguiu acreditar no que ele havia acabado de ouvir.

Corra… Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra.

Ah……

Masaya olhou para o chão, e viu seus pés equipados com um par de botas douradas com pequenas asas nos calcanhares.

É isso que eu posso fazer? É só disso que [Hermes] é capaz? Correr?!

Ele notou que sua própria existência como um [Avatar de Deus] estava errada. Ele queria proteger, lutar por quem ele preza, por sua família. Mas… Ele é apenas um mensageiro, no fim das contas. A pessoa que deveria lutar pelos outros está ali, no chão.

Acalme-se.

Masaya deu um passo adiante.

“Hmm?”

Em resposta a ele, Zinon também deu um passo adiante e preparou sua espada de duas mãos.

“Não o mate, Zinon. Quero testar onde fica exatamente o limite da mente dele, hehe.”

“Entendido.”

Masaya não conseguiu se dar ao luxo de ligar para o que Antonia estava dizendo.

Toda a euforia de antes desapareceu.

Ou melhor dizendo, ela foi escondida. Seguindo os conselhos do seu mestre, emoções negativas são apenas mais um obstáculo em uma luta.

“Vamos lá, cara, não me decepcione dessa vez!!”

Fazendo um forte movimento horizontal, Zinon nem precisou sair do lugar para atacar Masaya. A rajada de energia que voou na direção dele era perigosa por si só, mas a onda de impacto que a acompanhava também era.

No entanto—

“Huh?!”

Antes de Zinon completar o movimento do seu ataque, Masaya já havia se movido para trás dele.

Por isso, não havia como ele se defender do ataque de Masaya, que acertou um chute certeiro na cabeça dele, o jogando para longe.

Zinon se levantou rapidamente, com um pouco de sangue no canto da sua boca.

“Agora está falando minha língua!”

Segurando a sua espada com uma única mão e a puxando para trás como se fosse a linha de um arco, Zinon preparou um ataque que Masaya já havia visto.

“HAH!”

Dando uma poderosa estocada no ar, todo o espaço na frente dele se distorceu. Mas—

“Muito lento!”

Masaya novamente já estava atrás dele.

Dando um chute com toda a forte nos calcanhares do oponente, ele conseguiu derrubá-lo. Mas antes de cair de costas no chão, Masaya ajudou a gravidade socando o estomago de Zinon com todas as forças e explodindo o chão no processo.

Ele saltou para trás e esperou o inimigo se levantar. Através da cortina de fumaça, Masaya via apenas a silhueta dele se levantando.

“Huhuhu…”

Assim que a fumaça se dispersou, o rosto sorridente de Zinon foi revelado. Sangue e saliva escorriam pelos dois cantos da boca enquanto ele segurava a espada com uma das mãos e o estomago com a outra.

“… Muito bom. Eu estava mesmo querendo testar a fúria da [Durga] em alguém. Você é a cobaia perfeita!”

Durga. Deusa guerreira da mitologia Hindu. Um aspecto guerreiro da Devi Parvati com 8 braços, cavalgando em um leão, carregando armas e assumindo mudras, ou gestos simbólicos com a mão.

Os olhos de Zinon se tornaram vermelhos e começaram a brilhar fortemente.

“Vamos continuar.”

“…”

Repentinamente, a tensão da atmosfera aumentou em 10 vezes.

Zinon saltou e segurou sua espada como se fosse um arpão. A espada começou a brilhar e mudou de forma.

“[Rudra]!”

Se tornando um tridente azul, ele jogou a arma em direção a Masaya com toda a força.

A velocidade do arremesso era assustadora, mas ainda não era o bastante para ultrapassar a velocidade de Masaya, que saltou e desviou do ataque em cima da hora.

Porém—

“Isso é—!”

Incontáveis raios começaram a sair do tridente e do solo ao redor dele, indo do chão para o céu. Era como se estivessem no meio de uma tempestade , com o céu e o chão tendo os lugares trocados.

O ataque repentino pegou Masaya de surpresa, que só conseguiu se defender enquanto via raios rasgarem algumas partes do seu corpo.

Graças ao dano, Masaya não conseguiu aterrissar direito e caiu capotando no chão.

Antes que conseguisse se levantar, ele viu o tridente começar a brilhar novamente e tomar um formato circular.

Um chakram—!

O chakram voou até a mão de Zinon, que o pegou e o jogou em direção a Masaya.

“[Vishnu]!”

Apesar de ter conseguido se esquivar a tempo, o chakram continuou perseguindo ele sem parar. O alvo era especificadamente o pescoço de Masaya.

Se isso me acertar…!!

“Corra! Corra! Hahaha!”

A provocação de Zinon chegou até o ponto mais profundo de Masaya.

Me dizendo para correr novamente…

Ele parou e encarou a direção em que o chakram vinha.

Isso é algum tipo de piada?!

Essa não é minha única arma!

Masaya atingiu o chakram com a sola da bota.

O sorriso da certeza da vitória chegou ao rosto de Zinon.

Ele tinha certeza que tentar parar o chakram seria suicídio.

Mas—

O barulho de vidro se quebrando ecoou pela área. O chakram foi partido em milhares de pedaços.

“Como?!”

Zinon não conseguiu esconder o choque ao ver sua arma destruída.

“Desculpe, mas acho que eu sou um trapaceiro divino.”

Existe um motivo por trás do evento que acabou de ocorrer, mas é muito arriscado deixar os inimigos ficarem sabendo dele.

“Huh!”

Se movendo a uma velocidade ainda maior, Masaya apareceu diante de Zinon dando uma joelhada no estomago dele com toda a força, exatamente no mesmo ponto que havia atingido antes.

Zinon foi jogado para longe, capotando no chão e parando apenas na parede invisível do limite da [Dimensão Reversa].

Ele é muito mais lento que eu, graças a sua espada de duas mãos, ele era capaz de se defender dos meus ataques… As variações de armas foi uma surpresa, mas embora o poder destrutivo dele tenha aumentado muito, sua defesa foi sacrificada no processo.

Se ele não usar a espada, eu posso continuar atingindo ele constantemente. Mas se ele usar a espada, ele não poderá me atingir. Xeque-mate.

Zinon se levantou e recriou sua espada de duas mãos. Ele segurava seu estomago enquanto agonizava de dor.

Desculpe, mas… Eu já tomei minha decisão. Sairei daqui com a Ryoka custe o que custar!

Masaya avançou com toda a velocidade em direção a Zinon.

Um dos combatentes moveu sua espada para tentar afastar o oponente enquanto ele estava longe, mas o outro respondeu indo para o céu e evitando a onda de impacto.

Usando o “teto” da [Dimensão Reversa] como impulso, Masaya se aproximou rapidamente de Zinon, que usou a espada para se defender.

Ele evitou o dano, mas por estar segurando com apenas uma das mãos, foi jogado para trás e bateu novamente no limite da [Dimensão Reversa].

Com um braço só, você não—

Se movendo para atacar novamente, Masaya notou seu erro tarde demais. O sorriso no rosto de Zinon mostrava evidência do momento em que a luta mudava de rumo.

Puxando seu braço para trás como a linha de um arco—

Masaya parou seu movimento forçadamente, mas era tarde demais.

Um ataque de área que destrói tudo que está no caminho.

Da última vez, Masaya se esquivou do ataque se movendo para trás de Zinon, a única área segura.

No entanto—Ele se encontra atualmente no limite da [Dimensão Reversa]. Não existe meios para se mover para trás de Zinon nesse momento.

O que significa…

A estocada de Zinon lançou uma catastrófica onda de impacto, Masaya só pode usar os braços para se defender e tentar resistir ao dano.

“U-UUUAAAAAAAAAAHHHHHH!!!!”

Todo o solo sendo despedaçado e a atmosfera tremendo, Masaya foi engolido pela onda de impacto e jogado para longe.

“Masaya!!”

Ryoka gritou por ele. Ela queria poder fazer algo, mas no momento era impossível.

“Aah… Ahhaahh…”

Masaya se levantou lentamente. Sangue escorria pela sua cabeça. Todo seu corpo estava dolorido. Sua roupa estava totalmente desgastada.

“KAH…”

Quando conseguiu se levantar, ele tossiu sangue. Seu corpo estava totalmente ferido não só por fora, mas por dentro também.

“… Huh?!”

Antes de conseguir recuperar o fôlego, Masaya viu Zinon se preparando para lançar seu ataque novamente.

Eu…

A distância entre eles era enorme.

Naquele momento uma certa ironia da vida o atingiu.

Só há um jeito de evitar o próximo ataque e eventualmente a total derrota.

O que ele tanto rejeitou pouco tempo atrás agora voltou para pegar no seu pé.

Existem certas coisas na vida que você só precisa aceitar que são do jeito que são.

Masaya se preparou para avançar.

Parar de tentar nadar contra a maré, achando que é a única solução viável. Diante de uma situação de risco, Masaya foi forçado a mudar algo dentro de si.

Masaya…

Falando consigo mesmo, ele avançou.

Corra!

Correr nem sempre é algo com conotação negativa.

Zinon estava no meio de concluir seu ataque.

Corra! Mais rápido! CORRA!!

Mais rápido que o som. Mais rápido que a luz.

Mesmo aquela distância tão grande entre os dois não seria um empecilho. Não importa a distância, as barreiras ou qualquer que seja o obstáculo. Como o deus mensageiro, transgredir todas as fronteiras não é uma possibilidade, é uma obrigação!

Como se o tempo tivesse parado, Masaya conseguiu alcançar seu inimigo. Seu punho atingiu pela terceira e última vez o estomago de Zinon. Por estar logo na frente do limite da [Dimensão Reversa], o corpo de Zinon foi imprensado pela parede invisível e o ataque de Masaya, multiplicando ainda mais o dano. Sentindo suas entranhas quase saírem pela boa, Zinon apenas cai no chão sem forças para fazer mais nenhum movimento.

“Haa… Haa…”

A luta acabou.

Ao menos a luta contra Zinon.

“Huh?!”

Sentindo uma presença se aproximar, Masaya saltou para trás.

Só então ele ouviu o som das palmas se batendo.

“Oooh, incrível. Ver como sua mente funcionava naquela situação foi a coisa mais incrível que eu já presenciei!”

Antonia abriu os braços e expressou toda sua felicidade.

Ela se aproximou de Zinon que estava caído e se abaixou.

Levantando um pouco o corpo dele, ela percebeu que ele ainda estava consciente. Ele provavelmente não conseguia sequer falar, mas não importava para ela.

“Você cumpriu bem o seu papel, Zinon.”

Antonia então aproximou seu rosto beijou os lábios dele como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Por um segundo tanto Zinon quanto Masaya expressaram surpresa, mas a expressão de Zinon rapidamente se tornou de choque. Como se tivesse provado de um veneno mortal, o brilho nos olhos de Zinon desapareceu e ele entrou imediatamente em estado vegetativo.

Antonia o soltou descuidadamente e se levantou. Ela então se espreguiçou e alongou o seu corpo como alguém prestes a começar a se exercitar.

Masaya estava completamente confuso enquanto observava a garota olhando suas próprias mãos com um sorriso no rosto.

“… O que você fez?”

Ele estava com receio de fazer tal pergunta, mas precisava saber.

“Eh? Ah, isso? Bem, agora você irá lutar contra mim, certo? Mas eu não era uma lutadora, então eu precisava fazer alguma coisa para render uma luta digna, não acha?”

Ela explicou casualmente, mas Masaya ainda não havia juntado os pontos.

“Eu repliquei todos os atributos físicos e características do Zinon em mim, agora eu posso lutar contra você!”

Com um sorriso no rosto, Antonia disse algo surpreendente.

Masaya já sabia que os poderes dela eram relacionados a mente, mas nunca imaginou que algo assim seria possível.

Isso significa que em troca de conseguir os atributos físicos de outra pessoa…

Ela destruiu a mente dele… Essa garota é insana…

Certo. É como se ela sugasse a mente de outra pessoa para ela, uma espécie de refeição.

Isso é ruim…

Com seu dedo indicador, Masaya afrouxou a gravata da sua roupa de guarda-costas.

Mas se eu vencê-la, tudo estará seguro.

“Venha! Vamos brincar!”

Espere só mais um pouco, Ryoka!

Mesmo no estado em que se encontrava, Masaya avançou com todo o vigor para cima de Antonia, atacando o rosto dela diretamente—

Ou era o plano dele, seu ataque foi redirecionado e atingiu apenas o ar.

Essa brusca mudança o deixou totalmente aberto, o que obviamente não seria desperdiçado por Antonia, que socou o peito de Masaya com toda a força, jogando ele em direção ao limite da [Dimensão Reversa].

Masaya ficou sem ar por um momento, tossindo e com a mão no peito. Quando percebeu, Antonia já estava na frente dele o atacando novamente.

Felizmente a velocidade dela era a mesma que a de Zinon, o que permitiu que ele se esquivasse a tempo.

Ataques diretos não funcionam…!

Masaya saltou para trás e pisou no chão com força, levantando um grande pedregulho, do qual ele chutou em direção a Antonia. Ela vinha caminhando casualmente em direção a ele, sem sequer se dar ao trabalho de desviar, ela viu o pedregulho passar direto por ela.

Eu errei?! Não… Droga!

Ele tentou avançar novamente, dessa vez tentando atacá-la por trás, mas o resultado foi o mesmo. Não só isso, Antonia virou seu corpo e atingiu o rosto de Masaya em cheio com um chute.

Ela não precisava ver o ataque, todos os ataques a erravam. Além disso, seu timing era perfeito na hora de contra-atacar, era como se ela previsse o futuro.

Masaya se levantou e colocou a mão no nariz, percebendo que ele estava sangrando.

Não havia tempo para descanso, Antonia já estava correndo em direção a Masaya, pronta para atacá-lo novamente. Quando ele foi desviar mais uma vez, perdeu um pouco do equilíbrio e sua visão ficou embaçada.

Meu corpo está cedendo…

Todo o dano recebido estava o afetando drasticamente. Ele não conseguiu desviar e Antonia não perdeu a chance.

Um soco na barriga, um soco no rosto, um chute no abdômen e outro nas costas. Por alguns segundos Masaya apanhou sem conseguir reagir.

Ela o pegou pelo rosto e bateu sua nuca no chão com toda a força.

Quando o controle do seu corpo voltou ao normal, já era tarde demais. Antonia havia pegado o seu tornozelo e saltado o mais alto que conseguia o carregando. Já no céu, ela atirou Masaya em direção ao solo com toda a força, causando uma grande explosão na área.

Caído de cara no chão, Masaya já estava sem forças para reagir.

“Masaya!!”

Ao levantar a parte superior do seu corpo, ele viu Ryoka correndo em sua direção.

Mas Antonia apareceu diante de Ryoka logo em seguida.

Ryoka!

“Ei.”

Ela falou com Ryoka em um tom bem humorado.

“…”

Ryoka, em choque, não conseguiu responder.

“Você quer salvá-lo, não quer? Vamos fazer um trato.”

Ryoka ficou confusa com o comentário de Antonia. Já Masaya…

Não… Estou com um péssimo pressentimento…! Ryoka…!

Ele estava tentando levantar seu corpo, um dos seus joelhos já estava no chão.

Meu corpo já não me obedece mais direito…

“Eu farei. Se for para salvar o Masaya, eu farei! O que você quer?!”

Não faça isso, Ryoka!

Ele queria gritar, mas não conseguia.

Pela primeira vez, um sorriso maléfico surgiu no rosto de Antonia.

“Venha comigo. Se torne meu pertence e eu pouparei a vida dele. Nós iremos para bem longe daqui.”

“…”

Claramente espantada, Ryoka não conseguiu reagir a proposta de Antonia.

Até Masaya parou de se mover.

“Não se preocupe, não te maltratarei, muito menos te matarei.”

“… Então porque?”

Respirando fundo, Ryoka perguntou as razões de Antonia.

“Hmm? Isso é óbvio, para observar como a mente daquele jovem se quebrará e se reconstruirá hehe.”

Anormal.

A garota era claramente perturbada. Tudo que ela fez, faz e fará é simplesmente para estudar a mente humana.

“Eu…”

Ryoka já estava decidida sobre o que fazer. As palavras que ela ouviu naquele sonho vieram a sua cabeça.

Recuse, Ryoka! Se lutarmos juntos conseguiremos vencer, sem duvidas!

“Tudo bem… Eu aceito.”

Masaya estava incrédulo, sua boca permanentemente aberta.

Por quê?

Por quê…?

É por eu ter sido incapaz de te proteger?

Não… Não é isso…

Ryoka…

“Hehehehe. Trato feito então. Vamos indo?”

As duas deram as costas para Masaya e começaram a andar, se afastando mais e mais.

As lembranças do dia em que viu seu pai sendo levado voltaram a sua cabeça.

Ela está se sacrificando por mim. Para me salvar. Pela justiça que ela acredita.

“PAREM!!”

Dando um forte grito e um violento soco no chão, Masaya forçou as duas a pararem.

Mesmo no limite do limite, ele se levantou mais uma vez.

As duas garotas olharam para ele. Uma com grande interesse, outra com grande tristeza.

“Masaya… Pare, por favor…”

O pedido de Ryoka entrou por um ouvido e saiu por outro. Masaya respirou fundo e gritou…

“Cale-se, Ryoka!”

“Eh?”

De todas as coisas que ela esperava ouvir, essa não estava nem sequer listada.

Com suas roupas sujas e rasgadas, Masaya removeu a sua gravata. Sua blusa já estava aberta, todos os botões já haviam arrebentado durante a luta. Ele só precisava estar o mais confortável possível.

“Eu não dou a mínima para seus ideais ou qualquer que seja a justiça estúpida que você encontrou! Meu trabalho é um e único… Te proteger!”

Conveniência ou não, o papel de guarda-costas que Masaya recebeu de Daisuke veio a calhar no último momento.

“Mas…”

“Não é só meu trabalho! Meus sentimentos também! Você é a coisa mais importante que eu tenho hoje, definitivamente não permitirei que tomem você de mim!”

O rosto de Ryoka corou após tal afirmação, seu coração batia violentamente. O velho conflito entre a lógica e os sentimentos fez Ryoka hesitar.

“Woah! Não esperava um discurso desses!”

Antonia bateu palmas novamente para Masaya e se colocou na frente de Ryoka.

Fuu… Essa gritaria me custou mais energia do que eu esperava. Agora…

A última parede diante de Masaya.

Eu queria dizer algo legal como “mesmo que eu perca meu corpo, jamais permitirei ferir aqueles que amo”, mas eu não posso me sacrificar aqui.

Lutar por minha família, as pessoas mais queridas para mim. Mas ao mesmo tempo lutar por mim mesmo, não é mesmo, mestre?

“Venha, vamos acabar com isso de uma vez!”

Com um sorriso assustador no rosto, Antonia avançou em direção a Masaya.

“Hehehehehehehe”

Antonia começou a atacar Masaya descontroladamente. Ela não tinha com o que se preocupar, afinal.

Masaya estava desviando facilmente de todos os ataques. Mas quanto mais ele esticava a luta, mas difícil de se manter de pé ficava.

“Huh?”

Enquanto tentava atingir Masaya, Antonia viu ele desaparecer completamente da sua vista.

Ele reapareceu alguns metros atrás dela e começou a correr.

Correndo em alta velocidade, ele formou um circulo cujo Antonia era o centro dele.

“Hehh, acha mesmo que isso vai funcionar?”

Antonia parecia bem confiante.

Todo e qualquer ataque eu direcionar a ela será desviado. Após atacá-la por trás eu percebi… Ela consegue manipular o subconsciente, por isso é impossível atingi-la. Não é que o ataque muda de direção, ela nos força a errar nossos próprios ataques…

Nesse caso…

A velocidade de Masaya aumentava mais e mais.

O nível que eu atingi quando derrotei Zinon, preciso alcança-lo novamente… Não, preciso superá-lo!

Quanto mais rápido ele se movia, mais seu corpo doía.

Ele teria no máximo a chance de mais um ataque.

Se o ataque falhar ou não for o bastante para derrotar Antonia, tudo estará acabado.

Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido!

Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido!

AGORA!

O círculo foi quebrado e Masaya avançou com toda velocidade em direção a Antonia.

Ela sequer estava o enxergando. Não era necessário. O ataque de Masaya será desviado pelo próprio subconsciente dele—

Quando Antonia percebeu, ela apenas sentiu a dor se espalhando por todo seu corpo.

Um chute certeiro atingiu o corpo dela.

Ela pode programar nosso subconsciente a nunca atingi-la… Mas ela não pode prever o futuro.

Nossas ações são alteradas sem nós percebermos.

Mas—

Rachaduras se espalharam por toda a dimensão.

Ryoka viu algo de outro mundo. Uma visão impossível.

A dimensão foi destruída na força bruta.

Antonia foi lançada a vários metros de distância. Por grande parte da força ter sido gasta na dimensão em si, ela não foi jogada tão longe.

Mudar nossas ações, ou realizar uma determinada ação, não significa que ela certamente será concretizada.

Se minha velocidade de movimento for alta demais, será impossível mudar o curso do meu ataque.

Entretanto, com grande dificuldade, Antonia se levantou.

Masaya estava perplexo.

“Hehe…”

Não existe mais espaço  para continuar a luta. Masaya está de pé agora, mas se ele se mover mesmo que um centímetro, seu corpo cairá.

“Você se superou. Observar sua mente valeu muito a pena hehe…”

Masaya não sabia o que dizer, então apenas esperou.

“Mas… Não há muita felicidade te esperando adiante.”

Naquele momento, Ryoka havia se aproximado de Masaya e apoiado o corpo dele.

“Vocês dois… Ideais opostos… Talvez vocês não entrem em conflito entre si… Mas sem duvidas entrarão em conflito com a história que estão criando.

Alguém que luta por vários e alguém que luta por poucos lutando juntos só pode terminar em tragédia.”

“…”

Masaya não entendia totalmente o que ela estava falando, mas algo dentro dele o fazia concordar um pouco com ela.

Não é como se ela conhecesse os dois o suficiente para fazer afirmações desse tipo. Mas ele sabia que devido ao poder dela, era bem provável que esses comentários que ela está fazendo sejam baseados em algo que só o poder dela consegue enxergar.

“Eu gostaria de observar a reação de vocês para o que ainda está por vir nos seus futuros, hehehe…”

Antonia então caiu de joelhos e logo em seguida de cara no chão.

“Acabou…”

Todos os ferimentos no corpo de Antonia desapareceram completamente, o mesmo já havia acontecido com Zinon.

Mas Masaya…

“Masaya!”

Usando Ryoka como apoio, Masaya deixou seu corpo cair.

Porque os ferimentos dele não sumiram?!

Por conta da destruição irregular da [Dimensão Reversa], os danos causados em Masaya não foram revertidos.

Aquela batalha. Aquela noite. Definitivamente ficaria marcada no corpo de Masaya para sempre.

 

Após aqueles eventos, Ryoka conseguiu ajuda para carregarem Masaya, Antonia e Zinon.

Quando questionada pelo seu pai, Daisuke, ela inventou uma história dizendo que precisou ir na casa de uma amiga e levou Masaya junto, mas que se distraiu na rua e quando ia ser atropelada, foi salva pelo Masaya que sofreu o atropelamento no lugar dela.

Graças a esses eventos, Daisuke deixou Ryoka ficar com Masaya no hospital ao invés de irem para a festa.

Quando diagnosticado, relataram que Masaya sofreu ferimentos gravíssimos. E que era um milagre ele ter sobrevivido.

No dia seguinte—

“Ei, Ryoka. Acorde.”

“Umm…”

Ryoka foi chamada, depois sacudida. Então foi obrigada a abrir os olhos.

“… M-Masaya?!”

Ela ficou surpresa ao ver Masaya sentado na cama. Ela estava sentada em uma cadeira do lado dele, mas acabou pegando no sono.

“Isso está ficando rotineiro, não acha?”

Masaya se referia a um dos dois desmaiar, e o outro tomar conta.

“Haha… Mas mais importante, você está bem?”

“Hmm, meu corpo ainda dói em todos os lugares, mas sobreviverei.”

Ryoka encarou Masaya firmemente por alguns segundos.

“O que?”

“Você disse que ia se cuidar para não se ferir tanto!”

“Err… Não é como se eu tivesse alguma escolha…”

“…”

“…”

Um silêncio tomou conta do quarto do hospital por algum tempo.

“Ei, Ryoka.”

“Diga…”

“Sei que é egoísta da minha parte, mas quero que você evite o máximo possível usar aquela técnica ocular.”

“…”

[Analyzer]. Uma técnica que talvez seja crucial para mudar o rumo de uma batalha, mas o custo dela não é baixo. Uma técnica contraditória, que concede uma visão poderosa o bastante para ver o futuro, mas também consome a visão lentamente até a pessoa ficar cega.

“… Tudo bem.”

Ryoka aceitou o pedido de Masaya.

Ela não pretende parar de usar a técnica, seria ingenuidade demais. Mas ela ao menos tentará deixá-lo menos preocupado.

Após mais algum tempo com os dois em silêncio…

“Ei, Masaya.”

“Hmm?”

“Sobre aquilo que você disse ontem…”

“”Aquilo”?”

“Sim.. Uhm… Sobre eu ser a pessoa mais importante para você…”

“…”

Ryoka estava totalmente corada, olhando de um canto para o outro.

Uma certa tensão se levantou no local.

“… Eu realmente disse aquilo, não disse? Afinal, você é uma grande amiga!”

A tensão que existia no ar evaporou naquele momento.

“Então era isso que você queria dizer…”

“…”

“… I…”

“I?”

Já tremendo, Ryoka se levantou e pegou o travesseiro da cama.

“IDIOTA!!”

E começou a atacar Masaya.

“Woah! Era uma piada! Espere! Me escute!”

Depois de conseguir acalmar Ryoka.

“Hah, eu estava apenas tentando quebrar a tensão, não precisava reagir daquela forma…”

“Hmph. Não é como se eu me importasse!”

Eu chamo isso de se importar multiplicado por 100…

Respirando fundo, Masaya começou a falar sério.

“O que Antonia falou no final continua na minha cabeça até agora…”

“Masaya…”

“Escute, Ryoka. Eu quero te dizer o que eu sinto direito. Mas quero que seja em um momento onde possamos realmente nos focar nesses sentimentos. Eu quero primeiro terminar essa [Guerra Divina]… Você esperaria até lá?”

Ryoka ficou surpresa, ela não esperava algo tão sincero.

“Hmm, não posso fazer nada, não é mesmo? Irei aceitar esse egoísmo seu, fique agradecido.”

A conversa terminou ali, principalmente porque—

“Masaya!”

Ao ouvir alguém vindo correndo pelo corredor e abrindo a porta violentamente, os dois viram uma figura que não esperavam ver tão cedo.

A única coisa que Masaya conseguiu dizer foi:

“Pai?!”

Suguro correu para abraçar o seu filho, que ainda chocado, o abraçou de volta.

Tudo que foi causado pela Antonia se desfez.

Suguro foi solto e seu nome foi limpo como se fosse a coisa mais normal a se fazer. E Suguro disse que havia “voltado de viagem”, o que Masaya sabia que não era verdade.

De alguma forma a realidade foi remodelada, as memórias de todos os humanos normais envolvidos foram alteradas e tudo voltou ao normal.

E então, os dias de grande felicidade daquelas duas famílias voltaram.

 

 

Voltando ao presente…

O [Zenchi Kūkan: Oujibyoubou] desapareceu lentamente, e logo a [Dimensão Reversa] também.

Ryoka suspirou ao cancelar seus poderes.

“Bom, acho que é isso. Essa é nossa história.”

Seira e Julie estavam impressionadas com o que viram.

“Existem alguns motivos para eu ter decidido mostrar essa história a vocês… O primeiro e mais óbvio, é a confiança e afinidade do nosso grupo. Todo mundo tem uma coisa ou outra que gostaria de esconder, mas creio que conhecer a origem do que somos hoje é algo necessário.”

Após uma leve pausa, Ryoka continuou.

“O segundo é para vocês conhecerem melhor o Masaya. E o terceiro… O terceiro foi mais um experimento.”

“Experimento?”

Julie perguntou enquanto virava a cabeça um pouco para o lado, curiosa.

“Eu precisava testar se minhas capacidades haviam evoluído agora que eu posso controlar o [Reisei], e eu estava certa. Eu posso de fato observar o passado, mas antes eu não era capaz de mostrar o que eu via para os outros.”

“Então isso significa…”

“Exato, Sei-chan. É possível aprimorar nossas técnicas para um nível além usando o controle de [Reisei].”

Em suma. Ryoka quis mostrar para Seira, Julie e Kuroshi que ela confia neles tanto quanto ela confia no Masaya, apresentá-lo para eles e testar as possibilidades do controle de [Reisei].

“Eu tenho algumas ideias de coisas que podemos treinar e gostaria de discutir com vocês em breve.”

Enquanto Ryoka discutia tais assuntos com Seira e Julie, Kuroshi estava em silêncio.

“…”

Passado.

Confiança.

Algumas palavras afetaram Kuroshi da maneira errada.

Diante daquilo, sua mente começou a viajar para longe. Bem longe—

“Se continuar assim, elas irão perceber.”

Com um toque no ombro, Masaya trouxe Kuroshi de volta para a realidade.

“Huh? O que você está fazendo, Kuroshi?”

“Eh?”

A pergunta e o rosto confuso de Masaya deixaram Kuroshi sem saber como reagir.

“Você aumentou seu poder para 20%, não? Seus olhos estão vermelhos.”

“Ah…”

Kuroshi deu um passo para trás.

“Kuroshi?”

“Ahaha… É que eu tinha esquecido que eu precisava ir em um certo lugar, então aumentei meu poder para chegar lá mais rápido. Até mais!”

Praticamente fugindo, Kuroshi se virou e se retirou rapidamente.

“O que aconteceu, Masaya? Porque Kuroshi foi embora sem falar conosco?”

Notando a estranha situação. Seira perguntou.

Masaya pensou em simplesmente falar o que aconteceu de fato, mas algo dizia que era melhor não falar sobre isso por enquanto.

Pensando em uma maneira de livrar Kuroshi sem comprometê-lo, Masaya respondeu:

“Hmm… Dor de barriga, eu acho?”

Kami no Sensou – Anêmona (Volume 6: Capítulo 1)

“Pois então, tudo começou quando… Bem, acho mais fácil mostrar do que contar, não é? Kuro-kun.”

“Huh? … Ah!”

Por estar um pouco distraído, Kuroshi demorou um pouco para entender o que Ryoka queria dizer.

Imediatamente ele fez a conexão entre os 5 com o [Soul Linker]. Já que nenhum dos 4 estava usando seus poderes, Ryoka ganhou liberdade para exceder um pouco seu limite e chegar aos 30% de poder sem riscos.

A intenção dela é—

“[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].”

O espaço ao redor deles se alterou completamente. Na dimensão que carrega toda a história da existência, é possível acessar o passado de Ryoka e Masaya casualmente e mostrar diretamente para os 3 o que precisa ser mostrado.

“Muito bem, agora… Fechem os olhos.”

Todos seguiram seu comando. Se concentrando e utilizando sua habilidade, como se fosse um sonho, todos começaram a reviver memórias que não eram deles.

Apesar de Ryoka e Masaya também estarem vendo aquilo, ainda era quase uma novidade. Isso porque a história estava sendo recontada, era realmente como se estivessem assistindo a uma história fictícia.

 

 

A família Illsbert sempre teve muito sucesso financeiro na vida, e sempre foi uma família feliz. Daisuke e Emily Illsbert eram casados há pouco tempo, e estavam no ápice da felicidade das suas vidas. Eles viviam quase uma lua de mel constante, que só teve o ritmo diminuído quando Emily descobriu que estava grávida. Nove meses depois veio a nascer a única filha do casal, Ryoka Illsbert.

Durante a vida deles, Daisuke fez um grande amigo, Suguro Fujiwara. Devido a situação complicada da família de Suguro, Daisuke decidiu dar a casa ao lado da sua para ele e o contratou para trabalhar como caseiro para ele, a diferença financeira dos dois nunca foi uma barreira. Após 3 anos depois do nascimento de Ryoka, o foco no trabalho voltou para o casal, embora eles sempre fizessem o máximo para educar e cuidar de Ryoka, muitas vezes eles dependiam do seu vizinho para cuidar dela… Ou mais precisamente do filho de Suguro, que era o primeiro amigo próximo de Ryoka, Masaya Fujiwara.

“Ei, Ryoka-chan ,vamos!”

“Espere, Masaya, você está correndo muito rápido…”

Masaya era bem agitado e animado quando criança, mesmo não tendo uma presença materna na sua vida.

“Você não conhece sua mãe?”

“Sim, ela foi embora quando eu tinha 3 anos, então não tenho quase nenhuma memória dela.”

Os dois estavam sentados em um balanço.

Ryoka desceu do balanço e colocou a mão na cabeça de Masaya.

“Não se preocupe, agora eu estou aqui.”

“Não me venha com essa, você é menor do que eu!”

Vivenciando essas interações quase todos os dias, nenhum dos dois se sentia solitário.

Até chegarem aos 12 anos de idade.

Por ser alguns meses mais velho, Masaya foi o primeiro. Sua vida normal começou a desandar quando ele fez aniversário. Informações chocantes chegaram a sua cabeça, e sem poder rejeitar aquilo, ele acabou dentro da [Guerra Divina].

Aquela coisa de outro mundo fez ele esconder essa realidade dos outros, e seu comportamento começou a mudar, o garoto agitado e animado começou a ficar mais distante e quieto. Mal ele podia esperar que ao seu lado, outro caso similar viria a existir.

Após o aniversário dos dois, certo dia, Ryoka chamou Masaya para contar um segredo.

Que para sua surpresa era o fato dela ser uma [Avatar de Deus]. Ela achou que ele não acreditaria a principio, mas também para sua surpresa, ele disse que também era um [Avatar de Deus].

“Masaya também…”

“Uh…”

Os dois acabaram ficando sem palavras.

“Nesse caso, devemos aproveitar essa coincidência para nos unir!”

Para tentar quebrar a estranheza, ele sugeriu isso.

Sem realmente entender a profundidade daquilo que estavam entrando, Ryoka sorriu e concordou em claro e alto tom.

E então, os dois se tornaram uma animada dupla… Por muito pouco tempo.

Certo dia, Masaya acordou devido a comoção que estava havendo na sua casa.

Ao ir descobrir do que se tratava, uma chocante imagem veio aos seus olhos—Seu pai estava sendo levado.

Levado pela polícia.

“Pai…!”

Muito chocado, Masaya só conseguiu chamar por ele. Suguro olhou para o seu filho com um olhar triste e desolado.

“Vá para a casa do tio Daisuke, Masaya.”

Foi tudo o que ele disse antes do policial que o segurava urgisse para que ele fosse até a viatura.

Masaya continuou  olhando perplexo para as costas do seu pai, sem notar as lágrimas começando a escorrer pelo seu rosto.

No caminho até a viatura, Suguro passou por Daisuke.

“Suguro… Eu cuidarei do Masaya… E farei o possível para te inocentar.”

Suguro deu um sorriso fraco para seu amigo de longa data. Ele estava feliz de verdade por saber que ele acreditava na sua inocência. Podendo deixar Masaya nas mãos dele sem se preocupar, ele não hesitou mais e entrou no carro.

Daisuke foi até a porta onde Masaya estava em pé, parado.

“Vamos Masaya. Nós precisaremos conversar sobre esse ocorrido, mas antes de mais nada você precisa tomar um banho e comer algo para se acalmar.”

Obviamente, naquele dia Masaya não digeriu nada.

Daisuke tentou ao máximo explicar o que havia acontecido. Basicamente, o pai de Masaya havia sido preso por roubo, havia filmagens dele assaltando a loja e o dinheiro e materiais roubados estavam na casa dele.

Conseguir provar que Suguro é inocente seria uma missão quase impossível, mas Daisuke estava disposto a lutar, pois ele sabia que tinha algo estranho nesse caso.

Masaya não sabia o que dizer, o que pensar, ou como reagir. Ele permaneceu quieto, seus olhos não expressando nenhuma emoção.

A criança de antes havia sido completamente destruída.

“… Masaya?”

Abrindo a porta do quarto onde Masaya tem vivido agora, Ryoka tentou falar com ele. Não era a primeira vez, mas a comunicação entre os dois simplesmente não acontecia mais. Ela tentou de tudo, mas nada surtia efeito.

Ela, no entanto, conseguiu pensar em mais uma alternativa.

“Eu tive uma ideia, Masaya…”

Ela olhou para os dois lados do corredor, confirmando que não tinha ninguém por perto, antes de entrar no quarto e se ajoelhar diante de Masaya que estava sentado na cama, em posição fetal.

“Eu tenho uma habilidade especial chamada [Analyzer]. Ela é uma habilidade ocular que me permite enxergar coisas impossíveis de se ver normalmente. Eu acho que usando ela eu conseguirei descobrir um jeito de soltar seu pai!”

“…”

Mesmo assim, não parecia ter surtido efeito. Notando que era inútil, Ryoka se levantou sem desanimar.

“Não se preocupe! Começarei minhas próprias investigações e trarei resultados, prometo!”

E deixando uma perigosa promessa no ar, Ryoka se virou e se retirou do quarto.

Sem perceber que, por um momento, ele havia esboçado algum tipo de reação, acompanhando ela com os olhos e mexendo a boca como se quisesse dizer alguma coisa.

 

Era difícil dizer se ele escolheu certo ou errado, mas depois de algumas semanas, Masaya mudou novamente.

Pode-se dizer que ele encontrou sua própria maneira de lidar com o caso. Ele se tornou mais frio, e também mais rebelde.

Até que chegou o dia que Daisuke deu uma direção pra vida dele.

“Masaya. Este é Yan Quon, ele é um grande artista marcial que eu contratei para te treinar.”

Daisuke apresentou um homem que embora parecesse já ter mais de 60 anos, tinha um corpo com músculos bem definidos e vestia uma tradicional vestimenta chinesa. Mesmo sendo para uma criança, Yan Quon o cumprimentou respeitosamente.

“Me treinar? Pra que?”

Mas Masaya só o ignorou e continuou o diálogo com Daisuke, o que o deixou um pouco sem graça.

“A partir de hoje, você será guarda-costas da Ryoka. Ela está para começar o ensino fundamental, e depois do último incidente resolvi ser um pouco mais cauteloso. Ah sim, você irá estudar junto com ela.”

Por incrível que pareça, não é como se Ryoka tivesse mais chances de sofrer algo em comparação a qualquer outra criança. Daisuke nunca expôs sua família para a mídia, então ele não precisaria se preocupar tanto. Mas sendo pai, acima de tudo, ele sempre manteve alguém de olho na Ryoka por precaução durante toda sua infância.

Com sua filha crescendo e chegando a adolescência, é natural que ela queira ter mais espaço pra ela. Tentando encontrar um balanço entre a privacidade da filha e a segurança da mesma, a resposta que Daisuke encontrou foi: Masaya.

Como os dois cresceram juntos, se estudassem juntos não haveria problema em irem juntos para a escola. E se Masaya fosse treinado para defendê-la, não precisaria de muita preocupação.

Por causa da nova fase rebelde de Masaya, Daisuke esperava uma forte negação, mas depois de ouvir os seus motivos, surpreendentemente Masaya apenas desviou o olhar para a direção de Yan Quon fazendo um som de “hmph”.

Não sendo apenas muito vivido e experiente, mas também um homem. Daisuke precisou segurar a risada ao ver aquilo. Não era uma risada de deboche ou algo do tipo, mas talvez de felicidade, pois pela primeira vez ele sentiu que conseguiu compreender um pouco o que se passava na cabeça de Masaya.

“Então, Quon-sensei, contarei com você.”

Daisuke falou com Yan Quon antes de se retirar.

 

Apesar de estar diante de um mestre de artes marciais, na visão de Masaya ele era lento e provavelmente poderia o derrotar com um golpe. Mesmo assim, sem saber se era por ainda ser uma criança ou por conseguir enxergar algo que uma pessoa normal não enxergaria, ele via um grande brilhantismo nos movimentos de Yan Quon. Claro, Masaya não podia simplesmente se mostrar ser um super-humano diante de alguém que não está na mesma situação que ele, por isso, ele escondeu o fato o máximo que pode.

Já nos primeiros dias, Masaya se viu interessado em aprender, e apesar da comunicação quase inexistente entre mestre e discípulo, eles produziam grandes resultados facilmente.

Em uma certa noite…

Ryoka abriu a cortina da janela do seu quarto devido a barulhos no seu quintal. Ela sabia o que era, pois acontecia toda noite.

Eram os sons de Masaya treinando sozinho. Mesmo depois das aulas de Yan Quon, ele permanecia praticando por horas.

De longe era possível notar a musculatura de Masaya tomando forma, apesar do pouco tempo de treino e a idade dele. Usando uma simples camisa branca e uma calça comprida preta, aquele era o uniforme de Masaya. Ele estar suando só provava o tanto de esforço que ele colocava no treino, devido a fisionomia sobre-humana dos [Avatares de Deuses].

Ryoka sabia o propósito desse treinamento, seu pai já havia comunicado ela. Uma parte dela estava descontente com a notícia, enquanto a outra queria estar feliz, mas não conseguia, o que gerava grande frustração nela. Isso acontecia devido ao fato da relação dos dois ter ficado muito estranha desde a última vez que se falaram—Há mais de um mês atrás.

Como ela prometeu, Ryoka tem se esforçado do jeito dela para tentar ajudar Masaya, mas ela ainda não havia encontrado respostas, por isso tem evitado contato com ele. Devido ao estado atual de Masaya, ele também tem evitado contato com ela, logo, de alguma forma eles pararam de se falar.

“Masaya… Seu idiota…”

Com um olhar triste no rosto, ela murmurou e fechou a cortina.

Suas palavras contradiziam seus sentimentos. Acima de tudo, ela culpava a si mesma pela sua covardia, assim como culpava o fato dela ter feito uma promessa que não sabe se conseguirá cumprir.

Vestida só com um pijama quadriculado verde e com seus longos cabelos soltos, ela se jogou na cama e começou a encarar o teto.

O que eu devo fazer?

Esperar?

E se continuarmos nisso pra sempre?

Agir?

E se ele se decepcionar por eu não ter cumprido minha promessa?

Ele faria algo assim?

O Masaya de antigamente não, mas o de agora… Eu não sei…

“Aaaaah, que droga!”

Ela se virou na cama e atirou um raio de luz com o dedo no interruptor, apagando as luzes do quarto.

 

Os dias continuaram passando rapidamente, até finalmente chegar o primeiro dia de aula dos dois.

Vestido com seu uniforme escolar, Masaya aguardou por Ryoka do lado de fora da mansão.

Quando ela apareceu saindo do portão, o coração de Masaya pulou uma batida.

O uniforme da escola era um uniforme de marinheiro preto com listras brancas. E pela primeira vez Ryoka apareceu com o cabelo preso em um rabo de cavalo. Ela estava definitivamente muito bonita, eis a causa.

Mesmo assim, foi algo que ele guardou para si, sem esboçar nenhuma reação.

“V-Vamos indo.” – Ryoka se esforçou para não gaguejar, mas foi tudo em vão.

Os dois começaram a caminhar lado a lado, nenhum dos dois puxava assunto.

Desviando o olhar para evitar contato olho a olho, os dois chegaram na escola antes de perceberem. Diferente de uma situação de um casal tímido demais para se comunicar, aquela atmosfera era feita completamente de estranheza entre eles, por isso, estava bem desconfortável.

Em um primeiro dia de aula, todos os alunos da sala tentaram se conhecer. Isso é, exceto Masaya. Sentado do lado da janela com o cotovelo na mesa e a mão apoiando a cabeça, ele passou o dia de aula com uma aura de poucos amigos, logo, poucos se aproximaram.

Cada resposta dele para seus colegas de classe era fria e curta, se conseguir a antipatia da turma era seu objetivo, ele estava no caminho certo. Era capaz de confundirem ele com um delinquente.

Aquilo preocupava bastante Ryoka, mas ela não conseguia se permitir a fazer alguma coisa. Ela nem conseguia puxar uma conversa com ele direito, afinal.

Aquele primeiro dia de aula se tornaria uma rotina rapidamente. Ou quase.

 

“Haa! Haa! Haa!”

Os treinamentos de artes marciais de Masaya continuavam diariamente.

“Você precisa se focar, Masaya.”

Essa não era a primeira vez que Yan Quon dizia aquilo, o que irritava um pouco Masaya.

“Você tem a força, o que é importante, mas força é algo que pode facilmente ser dominado quando se sabe os segredos das artes marciais.”

Você realmente pode dizer isso? Eu posso te derrotar sem que você sequer perceba.

Claro que a reflexão de Yan Quon se restringia aos limites humanos.

“O que você faria para lidar com alguém muito mais forte que você, Masaya?”

“…”

Ele sabia que a resposta que ele tinha não era o que Yan Quon queria ouvir, por isso ficou em silêncio.

“Eu vou fazer uma demonstração. Me ataque com toda a força.”

Ficando frente a frente, Yan Quon entrou em posição de defesa pessoal.

Talvez eu deva dar um susto nele…

Masaya não pretendia exagerar, mas para aliviar sua frustração decidiu usar uma força muito além do comum para uma criança de 12 anos.

“Haa!!”

Avançando em uma velocidade anormal, Masaya tentou socar Yan Quon com bastante força, mas—

“Hu!”

Arregalando os olhos por um instante, Yan Quon desviou a direção do braço de Masaya com uma mão e levou a outra palma da mão direto até o queixo de Masaya, que o forçou a dar alguns passos para trás.

Apesar de ter conseguido enxergar claramente toda a cena, Masaya não entendeu como aquilo aconteceu.

“Lembre-se disso, Masaya. Tendo o conhecimento e as técnicas necessárias, você pode derrubar alguém muito mais forte que você.”

Ele ainda estava surpreso. Naquele momento, Masaya passou a ver as artes marciais um pouco diferente.

 

Os dias iam e vinham. Em um certo momento, algo surpreendeu bastante Masaya.

Era um dia comum em que ele aguardava por Ryoka para ir para a escola.

“Vamos indo, Masaya.”

Quando ouviu a voz dela, ele parou de observar o céu e olhou na sua direção.

“R-Ryoka?”

Havia um detalhe diferente nela.

“U-Umm… O que?”

“Isso…”

Ele colocou a mão no rosto. Agora ela estava usando óculos.

“A-Ah, isso… Minha visão tem piorado recentemente haha…”

Masaya estava chocado. O que mais sobre Ryoka ele simplesmente não tem mais notado? Quando a distância entre eles ficou tão grande?

N-Não, esqueça isso…

“E-Entendo… Vamos indo para não nos atrasarmos.”

Ele balançou a cabeça e se livrou dos pensamentos.

 

Na escola Ryoka acabou se enturmando bem com seus colegas. Masaya sempre observava de longe (Sobre o pretexto de ser o trabalho dele), mas ele mesmo não fez nenhum amigo.

Refletindo um pouco sobre sua situação atual—

“Hey, Fujiwara.”

A atenção de Masaya foi chamada ao ouvir seu sobrenome enquanto caminhava em direção a cantina.

Três colegas de classe o cercaram. Um deles, que parecia o líder, colocou o braço por cima de um dos ombros dele e a cabeça por cima do outro.

Sendo meio que um observador por praticamente todo o tempo enquanto na escola, ele já sabia da índole desses três jovens.

“Nós ‘esquecemos’ de trazer o dinheiro do nosso almoço, e então pensamos “Ah, claro! Fujiwara com certeza irá nos ajudar”. Tenho certeza que você quer contribuir com uns 3000 ienes, certo?”

“Huh. Quem é você?”

Masaya perguntou despreocupadamente, o que irritou o rapaz.

“Como assim?? Você sabe sobre mim, certo?! Seu colega de classe!”

“Normalmente você não se importa com os diferentes nomes dos insetos, certo? Insetos são insetos. E tal como um, você tá me incomodando.”

Aquilo foi passar do limite, o garoto, furioso, se afastou e disse “Peguem ele”. Sem se importar com as testemunhas visuais por ali, eles avançaram para tentar segurá-lo.

Masaya desviou do líder e bateu com seu cotovelo no rosto dele, fazendo-o cair já inconsciente. Outro que se aproximava levou um forte golpe com a parte de trás da mão de Masaya no seu queixo e desmaiou imediatamente. O terceiro, obviamente, parou e optou por algo mais inteligente: Correr gritando.

Era um resultado esperado. Mesmo se fossem três adultos, o resultado seria o mesmo.

Como consequência, Masaya foi suspenso.

 

“Ouvi dizer que você foi suspenso da escola.”

Yan Quon comentou, sem olhar diretamente para o garoto, enquanto continuava o treinamento.

“Uh… Tive que ficar horas ouvindo o sermão do tio Daisuke.”

A conversa parou por ali. Durante alguns minutos os dois continuaram treinando em silêncio.

“Mestre, você acha que eu estou errado por ter agredido eles?”

Yan Quon olhou com surpresa para Masaya, era a primeira vez que ele havia o chamado de “Mestre”. Mas foi só por um instante, logo Yan Quon retomou o treinamento.

“Sim e não.”

“Sim e não?”

Masaya não havia compreendido a lógica por trás de uma resposta como essa.

“Alguns dizem que resolver as coisas através da violência sempre será errado. Não é um ponto de vista ruim.”

“Então eu estou errado?”

“Sim, mas não por isso. Tudo depende do seu estado emocional.”

“Estado emocional?”

“Sim. Usar da violência por raiva ou ódio devido às ações de um terceiro não passa de uma vingança, usar da violência por frustrações pessoais não passa de algo supérfluo, de fato, quase todas as situações podem ser resolvidas sem o uso da violência. Tudo depende do estado da sua mente, você precisa pacificar seu coração e tornar sua mente imperturbável diante de uma situação onde exista essa opção. Alcançando esse estado controlado de espírito você conseguirá encontrar a resposta certa para suas ações.”

Masaya não entendeu completamente o que Yan Quon queria dizer, mas seu discurso o afetou mesmo assim, fazendo aquelas palavras ficarem na sua mente.

“E quando usar a violência seria a opção certa?”

“Salvar alguém de um perigo inevitável? Impedir alguém incontrolável de espalhar o caos? Isso você mesmo precisa encontrar a resposta.”

A conversa novamente morreu ali. Dessa vez sem volta.

 

 

Terminando de se vestir, Ryoka se olhou no espelho e viu seu reflexo vestindo roupas casuais. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo e ela estava usando seus óculos. Ela estava pronta para sair.

Mais uma vez.

Já havia se tornado uma rotina, todos os dias ela saia mais ou menos na mesma hora. Ela não ia muito longe, por isso Daisuke não se preocupava. De fato, ela nem sequer saia dessa rua, muitas vezes nem sequer ia 2 casas de distância daqui.

Antes que pudesse sair do quarto, ela ouviu batidas na porta.

“Ryoka-sama, Daisuke-sama chama pela senhorita.”

Ao ouvir a voz de uma das empregadas da casa, Ryoka respondeu com um formal “Estou indo” e voltou a terminar de se preparar para sair.

Após isso, ela desceu as escadarias da mansão e se dirigiu até o escritório de Daisuke, que aguardava por ela.

“Pai? O que houve?”

“Ryoka… Você soube sobre a suspensão do Masaya, certo? Afinal, vocês voltam da escola juntos.”

Ryoka não conseguiu responder de imediato. Ela não esperava esse assunto. Com bastante esforço ela respondeu positivamente.

“É bem simples, hm… Eu sou muito ocupado, mas não consigo deixar de me preocupar com aquele garoto. Eu percebi que vocês andam se falando muito pouco, tentei evitar tocar nisso já que a situação dele é tão delicada, mas… Ryoka, você precisa fazer algo.”

“… Eu?”

“Eu sei que pedi a ele para ser seu guarda-costas, mas isso não significa que você precisa deixar que ele resolva tudo sozinho, Ryoka.”

“Eu não—“

“Ryoka.”

Ela parou de falar e notou que estava tentando não apenas mentir para si mesma, mas tentar enganar seu próprio pai para não admitir isso.

“Você pode fazer isso. Ou melhor, só você pode. Recupere o Masaya enquanto é tempo, antes que ele se perca de vez. Se eu o contratei para ser seu guarda-costas, agora estou te pedindo para ser a ‘guarda-costas’ dele. O que me diz?”

Apesar de tudo, aquilo era uma pergunta retórica. Aquela garota, no fim das contas, era filha de Daisuke, ele sabia muito bem o que ela iria dizer.

Comovida com as palavras do seu pai, Ryoka respirou fundo e respondeu, com um sorriso no rosto, um forte “Sim!”.

 

Ryoka estava na frente da casa de Suguro, pronta para mais uma tentativa.

Algo que ela vinha fazendo faz tempo… Tentando encontrar pistas que provem a inocência do pai de Masaya.

Normalmente isso seria uma tentativa inútil, não tem como uma criança fazer algo que a policia não conseguiu. Mas isso, obviamente, não se aplica aos [Avatares de Deuses].

Graças a sua técnica especial—[Analyzer]—Ryoka pode tentar encontrar pistas “invisíveis” a olho nu.

Ela já havia procurado por toda a casa, dessa vez estava investigando o jardim.

Se alguém estava tentando incriminar Suguro, para colocar o dinheiro e os materiais dentro da casa esse alguém precisaria entrar nela em algum momento. Como é possível não haver marcas deixadas?

Mas não só era possível, como era o caso. Ryoka não encontrou nada. Absolutamente nada.

Sua vista já estava cansada e ela havia olhado por todo o lugar.

Minha vista está piorando…

Ela já havia percebido o efeito colateral do uso contínuo do [Analyzer], mas continuava a usar mesmo assim.

Quando pensou em desistir, as palavras do seu pai vieram a sua mente.

Não posso desistir! Se o [Analyzer] não consegue me dar respostas, então eu só tenho que encontrar outro meio!

Já tendo feito alguns testes, Ryoka sabia que poderia descobrir novas habilidades caso elevasse seu nível de poder.

Confirmando sua decisão, Ryoka começou a aumentar drasticamente seu nível de poder. Ela sentiu um calor crescer dentro dela enquanto mudanças físicas aconteciam nela.

Informações antes desconhecidas vieram até sua mente.

—Encontrei!

[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].

A técnica capaz de acessar toda a história da criação.

Com algo assim, descobrir a verdade por trás da prisão do pai de Masaya será fácil.

Não há o que esperar…

“[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou]!”

O espaço se distorceu e se alterou completamente, uma nova dimensão apareceu diante de Ryoka.

Agora, Zenchi Kūkan, me mostre a verdade!

E então, imagens apareceram na mente de Ryoka—Ou melhor dizendo, memórias.

Os olhos de Ryoka se arregalaram completamente.

I-Impossível… Por quê?

Foi difícil compreender.

Duas pessoas.

Poderes especiais.

[Avatares de Deuses]?

Ao ver claramente as ações de uma garota usando estranhas habilidades para incriminar Suguro, Ryoka só pode se perguntar qual era o sentido daquilo.

Eu… Eu preciso contar isso ao Masaya urgente!

Cancelando sua técnica e voltando tudo ao normal, Ryoka decidiu correr até Masaya imediatamente. No entanto—

Eh?

Um choque passou pelo seu corpo, sua visão escureceu e logo ela perdeu a consciência.

Ignorante dos efeitos colaterais de usar muito poder, Ryoka ficou inconsciente durante dias.

 

 

Ryoka se levantou, um pouco tonta.

Tudo estava escuro, mas não era como se ela não enxergasse e sim como se o chão e o espaço ao redor fossem, de fato, pretos.

“… Onde…”

Ao sentir uma luz vindo de trás dela, ela se virou. Descendo do céu vinha uma grande esfera de luz.

“… Ryoka.”

Ao invés de curiosidade, medo ou surpresa, ela só conseguiu sentir fascínio ao olhar para a luz.

“Q-Quem… Quem me chama?”

A esfera ficou a uma altura próxima do solo e começou a tomar forma.

Uma garota com cabelos loiros esbranquiçados e olhos dourados sorria para Ryoka.

“Ryoka.”

“… Quem é você?”

Mesmo estando fascinada, Ryoka não conseguia deixar de notar… Ela parecia estar se olhando no espelho. A garota tinha cabelos e olhos diferentes, mas de resto era exatamente igual a ela.

“Eu sou Palas Atena.”

“A-Atena…”

“Haverá tempos em que você precisará tomar decisões importantes, Ryoka.”

“Decisões… Importantes?”

“Meu dever é te guiar. Mas… Vejo que você já está trilhando o caminho da justiça.”

“Caminho da justiça?”

“Entretanto, acima dos seus sentimentos pessoais, você deve priorizar a ordem e usar a sabedoria para guiar os perdidos.”

“…”

“Haverá tempos em que você precisará assumir a liderança, para assim triunfar sobre todas as impossibilidades.”

“…”

“Você não precisa de mim, Ryoka. Sei que buscará a justiça acima de tudo. Estarei te observando de longe, como sua outra metade, até o momento em que nós duas eventualmente nos separemos para toda a eternidade.”

O corpo de Palas Atena começou a se deformar e se tornar luz novamente.

“… E-Espere, Atena!”

Ryoka tentou esticar a mão e tocar na luz, mas a esfera se afastou e começou a voar para a distância.

Ryoka tentava correr atrás, mas parecia que a luz estava cada vez mais distante.

Se realmente quiser paz, lute pela justiça.

A luz então desapareceu completamente.

“O caminho da justiça…”

Enquanto olhava para direção da luz, a consciência de Ryoka foi se tornando mais e mais pesada, até que ela caiu de joelhos no chão e caiu deitada logo depois.

 

Como eu deixei isso acontecer?

Masaya estava sentado em uma cadeira do lado da cama de Ryoka.

Já faziam 4 dias desde que encontraram Ryoka inconsciente.

Mesmo o melhor médico da cidade não conseguiu encontrar a causa. Por isso, Masaya tinha uma ideia de que poderia ser algo relacionado aos [Avatares de Deuses].

Devido a isso, ele também começou a teorizar que a visão dela ter ficado ruim tem a ver com a habilidade ocular especial dela.

“… Masaya?”

A voz de Ryoka trouxe Masaya de volta para realidade.

“Ryoka! Você está bem?!”

Um pouco agitado, ele se aproximou dela, mas foi impedido com um leve gesto de mão.

Ryoka se sentou na cama e olhou para ele diretamente.

“Eu finalmente descobri.”

“Uh? Do que você está falando? O que aconteceu?”

“Quem incriminou o seu pai… Eu descobri.”

Por um momento o tempo parou para Masaya. Em choque, ele sequer soube o que pensar.

“Espere só mais um pouco, conseguirei informações sobre eles. São dois… [Avatares de Deuses].”

O impacto em Masaya foi inimaginável, e o diálogo entre os dois acabou forçadamente interrompido ali. Posteriormente houve uma comoção quando Daisuke e Emily descobriram que Ryoka havia despertado. A causa do seu desmaio permaneceu um mistério e alguns dias depois Ryoka conseguiu as informações que precisava através do seu pai.

Hildegard Antonia e Yiannis Zinon. 12 e 13 anos respectivamente.

Antonia tinha longos e chamativos cabelos violeta, e olhos da mesma cor, uma jovem garota exótica. Já Zinon tinha cabelos curtos, era loiro e com olhos verdes.

Através da sua técnica especial, Ryoka conseguiu descobrir a aparência e o primeiro nome dos dois, o resto foi fácil de encontrar. Zinon parecia vir de uma família normal, por outro lado, não havia nenhuma informação sobre a família de Antonia.

“Masaya?”

Ryoka bateu na porta do quarto de Masaya e o chamou, em poucos segundos ela foi atendida. Masaya não havia dado as caras desde que ela revelou a descoberta.

“Conseguiu as informações?”

Seu tom parecia mais frio que o normal, sua expressão estava escondida.

“S-Sim… Aqui.”

Ela entregou o que pareciam duas fichas sobre os dois. Masaya deu uma rápida olhada.

“Agora nós temos que pensar em um jeito de—“

“Você fica aqui.”

“Eh?”

Demorou alguns segundos para Ryoka entender o que Masaya quis dizer. Só quando ele deu as costas para ela e se dirigiu para a janela que ela conseguiu reagir.

“Espere, Masaya—“

“Esse é um problema que EU preciso resolver. Espere eu voltar aqui!”

Tendo dito isso, Masaya abriu a janela e saltou para fora.

“Masaya… Será que eu cometi um erro?”

Ryoka se perguntou se, no fim das contas, todo o esforço dela só serviria para piorar a situação.

 

 

Masaya já tinha a aparência, os nomes e até mesmo o endereço. Seu destino era só um.

Ainda era de manhã cedo, mas seus nervos estavam à flor da pele.

Ao chegar no bairro que constava nos papeis, ele começou a procurar. Como ele viajava saltando de teto em teto, sua visão era bem ampla.

Surpreendentemente, muito mais fácil do que ele imaginava, seus dois alvos foram avistados caminhando lado a lado com um uniforme escolar que ele desconhecia.

Sem esperar nem mais um segundo, ele saltou diretamente na frente dos dois.

Um jovem rapaz— Yiannis Zinon.

Uma jovem moça— Hildegard Antonia.

“Huh? Quem é você?”

Com uma das mãos por cima do ombro carregando sua pasta, Zinon questionou o misterioso garoto que apareceu na sua frente com um olhar de leve irritação e duvida.

“Uhmm, parece que fomos descobertos, Zinon.”

Antonia, com um sorriso arrepiante no rosto, comentou casualmente.

“Huh? Foi por isso que eu disse para não fazermos algo tão aleatório como você queria.”

O olhar de irritação dessa vez foi direcionado a Antonia.

“Eeeh? É minha culpa?”

Sem mais aguentar ver os dois discutindo como se ele não existisse, Masaya levantou o rosto.

“Vocês armaram para meu pai ser preso, não foi?!”

Um olhar de ódio ocupava o rosto de Masaya.

“Ah…”

“Sim, foi isso mesmo!”

Enquanto Zinon procurava o que responder, Antonia confessou o crime como se não se importasse.

“Hey! Não confesse o crime como se não tivesse nada a ver com você!”

“Eeeh? Estou errada?”

Masaya simplesmente sentiu como se estivessem debochando dele, já tendo a confirmação que queria, ele decidiu se mover.

Apesar de sido instintivamente, ele escolheu atacar Zinon primeiro. Ele deu um soco na cara dele e o jogou para longe.

Antonia acompanhou o corpo de Zinon sendo jogado para longe com a cabeça.

“Ooh… Espere, isso é um problema! Precisamos lutar na [Dimensão Reversa], não?”

Ela entortou a cabeça enquanto falava com Masaya.

Ele não sabia qual era o problema dela para agir dessa forma com ele, mas ela tinha um bom ponto.Antonia abriu a [Dimensão Reversa], grande o bastante para ter espaço para os três lutarem, o que cobriu parte da rua.

“Nós fizemos seu pai ser preso por algo que ele não fez. Se quiser podemos soltá-lo, mas pra isso você terá que vencer nós dois! O que acha? Você só terá uma chance. Se ganhar, desfaremos essa armação, mas se perder, terá de aceitar a prisão dele hehe.”

Masaya olhou com os olhos arregalados para a proposta de Antonia, ele não conseguia acreditar no que ela estava falando.

“Eu já pretendia chutar vocês dois para o quinto dos infernos de qualquer forma. Mas antes eu preciso saber… Por quê?”

Masaya nunca havia visto esses dois na vida, que ligação eles tem com Suguro? Porque eles fariam algo assim? Isso era o mínimo que ele precisava fazer.

“Antonia queria te testar. Huh, talvez seja melhor dizer ‘testar sua mente’?”

Masaya olhou surpreso para Zinon, que se aproximou só com um pequeno corte na boca.

“Testar minha mente?”

“Huh… Sabe, a Antonia é a [Avatar de Mens]. Mens era a personificação do pensamento, consciência e da mente na mitologia romana. Por isso, ela queria testar sua mente, é algo tipo um instinto natural para ela. Quando ela te encontrou e viu seu dia-a-dia, ela insistiu que precisávamos destruir aquilo para ver como você lidaria com a situação.”

“Então eu usei meus poderes para causar a prisão do seu pai, e você se tornou completamente outra pessoa hehe.”

Pasmo. Era a melhor definição para Masaya naquele momento.

Ele havia se decidido, esses dois eram loucos.

Já era um pouco notável a aura meio psicótica de Antonia, mas ele não imaginava que ela tentaria destruir a vida de um estranho porque seus “instintos” queriam assim.

“Lamento pelo seu pai, cara. Mas a Antonia pode ler mentes, ela descobriu que você era um [Avatar de Deus] junto com aquela sua amiga imediatamente. Você só deu azar de estar no lugar errado, na hora errada, agora é seguir em frente.”

Zinon também claramente não era normal. Dando conselhos para aquele que você tentou destruir a vida era simplesmente bizarro.

Não havia mais porque dialogar.

“Entendo…”

Masaya fechou os punhos com força e cerrou os dentes.

“… Estejam prontos para pagarem pelo que fizeram!”

As botas de Hermes apareceram nos pés de Masaya, que avançou em alta velocidade na direção de Zinon e tentou atingir seu rosto mais uma vez.

No entanto—

“Duas vezes seguidas não!”

Agora com um sorriso no rosto, Zinon já havia largado sua pasta e agora segurava uma espada de duas mãos, que ele usou para se defender.

“Você luta, Zinon. Eu não sou uma lutadora, então ficarei olhando, okay?”

“Huh, desnecessário dizer.”

“Tch!!”

Masaya tentou novamente, saltando e atacando com socos e chutes em alta velocidade, mas Zinon ainda conseguia se defender, os poucos ataques que o atingiam pareciam não surtir muito efeito.

“Hahahaha, agora está falando minha língua!”

Zinon balançou sua espada de duas mãos, mas Masaya recuou e se esquivou, uma rajada de energia com formato arcaico voou na sua direção, mas ainda era lento demais para atingi-lo, que desviou rapidamente para a esquerda—

“!!”

Masaya sentiu um forte impacto atingir seu corpo e jogá-lo para longe.

Capotando no chão, ele sentiu seu interior ficar bagunçado.

O que foi isso?! Um ataque invisível?!

“O que aconteceu, cara? Seu ódio só vai até ai?”

Caindo totalmente na provocação de Zinon, Masaya avançou para cima dele novamente.

“Aaaaaah!!”

Zinon não tinha velocidade o suficiente para se esquivar, mas enquanto conseguisse se defender, o dano seria mínimo.

Ele saltou para trás, segurou a espada com uma das mãos e levou o braço para trás como se estivesse puxando a corda de um arco. Em seguida, ele deu uma estocada na direção de Masaya.

A distância entre os dois era grande, logo, a espada nunca tocaria em Masaya dali.

Mas depois do primeiro ataque, Masaya já sabia o que esperar. Ele tentou se afastar o máximo possível, mas…

Sua visão se distorceu junto do seu corpo.

Ou melhor… O cenário estava se distorcendo.

A rua, as paredes, as casas, tudo estava se curvando de maneiras impossíveis. Em um instante, uma onda de impacto foi liberada e destruiu tudo ao redor do local, Masaya foi lançado para longe.

“Ufa, esse foi um bom aquecimento!”

“Eeeh? Já acabou? Esperava algo mais emocionante…”

“Huh… Pare de esperar coisas psicologicamente ou emocionalmente mais efetivas de tudo.”

Mais uma vez, Masaya se levantou. Seu corpo mal conseguia se manter de pé.

“Ah, ele levantou novamente!”

“Aprenda a desistir, cara.”

Os dois olharam para ele, Antonia com um olhar de curiosidade, Zinon com um olhar de pena.

Se ao menos a usuária do poder… Ao menos ela… Talvez…

Última tentativa. Masaya preparou-se para usar toda sua energia restante em um único movimento.

Ele sabia que Zinon não era rápido o bastante para entrar na frente do seu ataque. Se ele conseguir derrota-la com um golpe…

“HAH!!”

“Huh?!”

Em um movimento ultra veloz, Masaya surgiu na frente de Antonia, quando Zinon percebeu era tarde demais!

Dando um soco diretamente na direção do coração de Antonia, ele terminaria a luta imediatamente.

Talvez ele tivesse conseguido… Se tivesse acertado.

O brilho nos olhos de Masaya desapareceu quando ele notou que seu ataque não atingiu Antonia.

Não foi ela quem desviou, foi ele quem errou o ataque.

Como… Como isso é possível…

“Você cometeu um erro, cara!”

Aproveitando o momento, Zinon acertou o corpo de Masaya com a espada e o jogou diretamente no muro de uma casa, o impacto fez o ar sair dos pulmões dele.

Todas as suas forças acabaram, todo seu corpo doía. Ele estava sentado no chão, em um péssimo estado, e olhando para o nada.

“Bububu, você perdeu. Seu pai ficará preso por anos agora!”

O tom de voz de Antonia não era de deboche, nem nada do tipo, ela apenas o informou casualmente.

“Huh, ele parecia que seria um oponente melhor.”

Zinon pegou sua pasta no chão, e se virou.

“Vamos indo, Antonia.”

“Nós vamos nos atrasar, não vamos?”

“Se nos apressarmos talvez consigamos a tempo.”

A voz dos dois lentamente desapareceu.

Masaya logo perdeu a consciência graças ao dano recebido.

Com a [Dimensão Reversa] cancelada, toda destruição e ferimentos de Masaya desapareceram.

Mas um dano em específico permaneceu.

 

 

“Masaya, o que houve? Você não tocou na sua comida ainda.”

A voz do seu pai, preocupado, veio aos seus ouvidos.

O pequeno Masaya, com 6 anos de idade, não estava com fome.

“Papai, quando a mamãe vai voltar?”

Suguro congelou quando ouviu a pergunta do filho.

“M-Masaya… Sua mãe não vai voltar…”

“Mas eu sempre vejo todo mundo com suas mães…”

Masaya olhou para o seu prato, o pouco de comida que tinha ali era triste de se ver.

“Porque só eu não tenho mãe? Porque comemos tão pouco? Eu não gosto disso!”

Suguro não soube como agir. Vendo isso, Masaya saiu correndo para seu quarto.

“Desculpe, filho…”

 

Dentro do seu quarto, Masaya se lamentava. Ele não queria entristecer seu pai.

Para Masaya, Suguro era a única família dele.

“Desculpe, papai…”

Apesar de não falar diretamente para Suguro, por sentir vergonha após ter agido daquela forma, ele ainda se arrependia.

“Eu prometo que serei mais animado daqui pra frente e ajudarei em casa…”

Seu maior medo era perder a única coisa que lhe restou.

Desde aquele dia, ele se forçou a ser mais animado, a demonstrar menos tristeza.

Eventualmente essa coisa forçada se tornou algo natural quando conheceu alguém importante para ele…

 

 

“…ya!”

Uma voz trouxe sua consciência lentamente de volta para a realidade depois de um sonho azedo.

“Masaya!”

Ao abrir os olhos, o rosto de Ryoka estava diante dele.

Entendo… Eu perdi. Desculpe, pai…

“Alguém me viu inconsciente?”

“Não… Eu te trouxe pra cá sem que ninguém percebesse.”

“Desculpe por isso.”

Por algum motivo ele se sentia mais à vontade para falar com Ryoka agora.

“… Você está bem?”

“Sim, não se preocupe. Eu só preciso descansar mais um pouco, então…”

“Ah… Tudo bem, eu vou deixa-lo descansar… Se precisar de mim é só chamar.”

Ele acenou positivamente com a cabeça, tentando parecer o mais gentil possível. Assim que Ryoka saiu do quarto, a atmosfera ao redor dele ficou mais depressiva.

Deveria eu realmente… Apenas desistir?

O que ele pode fazer? Quais são suas opções?

Para Masaya, os sentimentos pesados no seu peito o faziam ter duvidas sobre tudo. A ponto de considerar aceitar as coisas do jeito que estão.

Se isolando sentado no canto da cama, ele começou a pensar no que fazer.

Foram algumas horas até que alguma ação relevante chegou na mente de Masaya.

Talvez… Talvez me comunicar traga alguma resposta…

Decidindo se livrar de vez dessa atmosfera que o circundava, ele se levantou e saiu do quarto.

Kami no Sensou – Cravo Branco (Volume 6: Prólogo)

Sem saber como reagir, Kuroshi acabou não fazendo nada até Kurona separar os lábios de ambos e se levantar.

“Ah, acabei exagerando, desculpe.”

Kurona se dirigiu até o quarto para se vestir, não era possível ver nada de onde Kuroshi estava, e ele permaneceu sentado no chão com o olhar distante.

Então realmente… Kurona…

Seu cérebro começou a voltar a funcionar. Imediatamente algumas memórias do passado vieram a sua cabeça.

Está certo… Naquela época, meus pesadelos costumavam serem centrados nela… Quando meus pesadelos com ela pararam?

Kuroshi estava se lembrando de quando chegou no Colégio Aohoshi, naquela época ele ainda tinha pesadelos que mostravam Kurona, quando ainda criança, sempre sendo morta por ele.

Era esperado, afinal, apenas pessoas importantes apareciam nesses pesadelos, não seria diferente… Com minha amiga de infância.

“Kuroshi? Ei, Kuroshi!”

A mente de Kuroshi, que vagava no passado, voltou ao presente com aquela voz nostálgica. Ele olhou para cima e viu que Kurona já estava vestida com o uniforme do Colégio Aohoshi.

“Tudo bem? Me ver foi tão chocante assim?”

Kuroshi se levantou com uma mão no rosto.

“Não, está tudo bem… Acho que não é tão surpreendente assim, mas eu não esperava te reencontrar aqui.”

“Realmente. Digamos que eu dei meu jeito, haha.”

Kurona, já arrumada, pegou sua bolsa e se dirigiu até a porta.

“Eh? Você está saindo?”

“Sim, até eu tenho o bom senso de notar seu estado, não acho que te fará bem dormir no mesmo quarto que eu hoje… Ou talvez faça, hmm… Enfim, vou dormir em um hotel hoje, depois conversamos melhor, tchau tchau, Kuroshi.”

Kurona abriu a porta.

“Kurona!”

E parou após o chamado de Kuroshi.

“… Obrigado…”

“Hm? Pelo o que?”

“Pelo aviso para ir até Julie e mostrar onde ela estava, só o seu poder seria capaz de fazer o aroma de uma flor chegar tão longe a ponto de eu sentir, certo?”

“Haha, fui descoberta? Em todo caso, que bom que acabou tudo bem. Então, estou indo.”

Sem mais nenhuma palavra, Kurona saiu e fechou a porta.

Kuroshi ficou um tempo olhando para a porta antes de ir até sua cama e deitar.

Então é por isso que as cartas que eu enviava para ela voltavam para cá… Como eu nunca percebi antes?

Kurona… Porque você voltou agora?

Sentimentos difíceis de organizam se acumularam no peito de Kuroshi. Ele ainda não sabe as motivações dela, nem se ela ficará de vez por aqui…

Kuroshi levou a mão até o peito, seu coração pulsava violentamente. Ele então levou a mão até a boca.

Mas logo depois sacudiu a cabeça para ambos os lados.

Não, não, não… Estou ficando confuso… É melhor não pensar nisso agora…

Kuroshi tentou pensar em outras coisas para esquecer o que acabou de acontecer.

Mas o que realmente vinha a sua cabeça eram memórias do passado.

Da sua infância, do início da sua adolescência.

Eu nunca a entendi completamente… Uma garota realmente misteriosa, sempre foi e pelo visto continua sendo tão enigmática quanto antes…

Mas são coisas do passado, eu decidi viver uma nova vida depois de tudo que aconteceu, e é nisso que preciso me focar agora…

Kuroshi se levantou e foi até o banheiro, chegou próximo a pia e jogou água no rosto, para assim então se olhar no espelho e—

“Huh? O que…”

Ao se olhar no espelho, ele se surpreendeu. Seu rosto estava como sempre, mas… Seus olhos estavam vermelhos. Não como “olhos vermelhos de sono” ou algo do tipo, suas pupilas estavam da cor vermelha, da mesma forma que ficam quando ele atinge 20% de poder.

Mas seu poder estava definitivamente abaixo dos 5%, então como—

Ei, Hades! O que isso significa?!

Hades? Responda!

… Nenhuma resposta, huh. O que diabos está acontecendo?

Decidindo que era melhor descansar por enquanto, Kuroshi foi se deitar.

As coisas definitivamente ficarão ruins…

Fechando os olhos, Kuroshi foi dormir com aquele pressentimento de que a tempestade estava apenas começando.

 

 

O mais belo e perfeito jardim, algo impossível para a humanidade, flores jamais antes vistas e com belezas sobrenaturais ocupavam toda a visão. O vasto céu azul oferecia luz solar por toda a área, que consistia apenas de um mar de flores.

Essas flores ficavam logo na frente de um grande portão negro e vermelho escuro, não havia muro nem nada do tipo, apenas um grande portão parado diante do jardim.

No meio do jardim, uma bela garota de longos cabelos negros dançava com os braços abertos.

Era difícil imaginar uma cena mais bela que essa, qualquer um ficaria com um sorriso no rosto ao ver algo assim.

Após um tempo dançando, a garota, Kurona, se jogou no chão, deitando no jardim.

“Kuroshi… Acho que essa é a hora perfeita para você saber toda a verdade, huh. Você vai me amar? Ou você vai me odiar?”

Kurona pegou uma flor do jardim e ameaçou começar a jogar “Bem me quer, mal me quer”.

“… Só brincando.”

Mas desistiu e colocou a flor de volta no solo, de alguma forma suas raízes se juntaram ao solo novamente.

Ela ficou séria enquanto olhava para o céu. Levantando uma das mãos na frente do seu rosto, ela cobriu parcialmente a luz solar. Uma onda de vento passava e mexia nas flores e trazia algum som para aquele mundo. Mas logo depois o vento parava e o silêncio tomava conta.

 

 

No dia seguinte. Kuroshi tinha um compromisso marcado de se encontrar com seus amigos na árvore que fica logo em frente ao edifício de ensino médio do Colégio Aohoshi. Hoje, Ryoka irá contar uma história do seu passado para todos, ou seria mais preciso dizer que é a história de Masaya?

“Kuroshi? Kuroshi!”

Enquanto caminhava em direção ao lugar indicado, Kuroshi, muito distraído, teve sua atenção chamada.

“Uh?! Ah… É você, Seira…”

Seira se aproximou por trás e lançou um olhar de curiosidade para a reação dele.

“Uhm? Estava esperando que fosse outra pessoa?”

“Er, não, só estava um pouco distraído mesmo, haha…”

“Entendo…”

Aquela resposta foi bem estranha se combinada com as reações meio sem jeito e desviando o olhar dele, mas Seira não persistiu no assunto.

Ao chegar no local, Ryoka, Masaya e Julie já estavam presentes.

Após os cumprimentos—

Ryoka começou a introdução.

“Bem, reuni todos aqui para contar uma parte do meu passado que vocês ainda não conhecem. Eu gostaria que vocês conhecessem mais sobre nossas histórias, e também me sentirei mais próxima de vocês sabendo que vocês realmente me conhecem e sabem tudo sobre mim.”

Kuroshi olhou para o chão com um olhar dolorido para as palavras de Ryoka, mas foi por apenas um instante.

“Pois então, tudo começou quando—“

E assim, uma história do passado começou a ser exposta para Kuroshi, Seira e Julie.

Kami no Sensou – Mudanças (Volume 5: Epílogo)

Os dias mais ou menos voltaram a ser como eram antes depois de tudo aquilo.

A princípio, depois da adrenalina do momento passar, Julie ficou bem constrangida de ficar perto de Kuroshi, Seira, Ryoka, Masaya ou qualquer outro dos seus amigos, apesar de ter sido uma experiência que a levou a evoluir, ainda era algo constrangedor de certa forma, mas rapidamente ela deixou isso de lado.

Em relação ao treinamento, eles continuaram treinando a terceira fase do controle de [Reisei], só que dessa vez com a Julie inclusa. Quando souberam que Julie também já tinha um bom controle sobre o [Reisei], todos ficaram surpresos, mas é possível que graças a isso ela tenha conseguido vencer a última luta.

Depois de alguns dias, as buscas de Karl, Thomas e Max geraram resultados, e eles encontraram a família de Kogane, devido ao seu nome japonês, eles puderam reduzir completamente a área de busca. Foi uma grande comoção pelas duas partes quando se reencontraram, Kogane não parecia se lembrar de nada sobre sua vida como [Avatar de Deus], apenas que se perdeu da sua família em outro país e que precisou morar na rua por muitos anos.

Tudo havia se ajeitado, e lentamente esses eventos recentes começaram a fazer parte do passado.

 

Em uma certa segunda-feira.

Na sala do conselho estudantil, um grupo de pessoas estava reunido. Mas não era o conselho estudantil atual (Kuroshi, Seira, Julie e Alicia), mas sim o grupo de sempre, com Ryoka e Masaya presentes, e Alicia ausente. Isso porque o horário de aula já havia acabado, e o forte laranja do sol se ponto atravessava as janelas da sala.

“Eeh, vocês combinaram isso?”

Julie comentou, surpresa. Ela estava sentada na cadeira do presidente do conselho estudantil, vestindo um sobretudo preto ao invés do blazer de sempre, que era uma vestimenta específica do presidente do conselho estudantil, além disso, ela estava usando óculos. Não é como se ela tivesse problemas de vista, talvez ela apenas tenha achado que pareceria mais “intelectual” dessa forma, ou talvez—

“Sim, como você estava ausente no dia, decidimos esperar você voltar.”

Ryoka respondeu, ela e Masaya vieram explicar para Julie o que tinha sido combinado enquanto ela estava fora. Que era contar toda a história que envolve o passado dos dois juntos.

Além de querer compartilhar tudo sobre si com seus amigos, havia algumas coisas que eles tinham o direito de saber.

“Ooh, entendi. E então, como vai ser?”

“Hoje já foi um dia bem cansativo, vamos combinar um outro dia, preferencialmente em um fim de semana, já que estudamos em locais diferentes.”

“Certo.”

Após tudo estar combinado, Ryoka e Masaya se despediram e todos e se retiraram.

“Vocês podem ir também, Kuroshi, Seira-senpai.”

“Uh? Você vai ficar bem terminando tudo sozinha?”

Kuroshi perguntou, preocupado. Até por fazer só alguns dias desde que tudo aquilo aconteceu, e eles estarem treinando todos os dias.

“Mas é claro! Vocês podem depender de mim, jovens!”

Levantando um punho fechado, Julie incentivou seus amigos, que por alguma razão, ambos reagiram com um olhar desacreditado.

“Sim, sim. Estamos indo então. Até amanhã, Julie.”

“Até amanhã, Julie.”

“Até amanhã, vocês dois!”

Kuroshi e Seira também se retiraram.

Ao saber que estava sozinha, Julie apoiou suas costas totalmente na cadeira e virou ela em direção as grandes janelas atrás dela, olhando a paisagem lá fora.

Um silêncio total tomou conta do lugar, sua expressão estava escondida. Alguns segundos depois, ela suspirou e virou novamente em direção a mesa.

“Hora de trabalhar!”

 

Após se despedirem de Julie, Kuroshi e Seira caminharam juntos até próximo ao dormitório feminino, onde eles se despediram. Kuroshi caminhava ao por do sol em direção ao dormitório masculino.

Contar todo o passado sobre você para seus amigos, huh…

Ele lembrava as palavras de Ryoka. O [Analyzer] é realmente uma técnica bem perigosa, Kuroshi de certa forma estava contente que Ryoka não esteja mais utilizando ela nos últimos tempos, com ela, Ryoka conseguia facilmente ver através dos outros, verdadeiramente um poder sinistro.

Me pergunto o que devo fazer.

Kuroshi parou e olhou para o céu. Um sentimento de culpa tomou conta dele naquele dia.

 

 

Mais alguns dias depois.

Após um dia cansativo de treinamento, Kuroshi voltou para o dormitório masculino. Diferente dos outros dias, Kuroshi faltou algumas aulas para ficar treinando, por isso ele estava voltando mais cedo que o normal para o seu quarto.

Ultimamente, toda vez que ficava sozinho, alguns pensamentos específicos vinham à cabeça de Kuroshi.

A conversa de depois de amanhã em que Ryoka e Masaya contarão sobre o passado deles.

Certas palavras e certos sentimentos que Seira irá eventualmente passar adiante para ele.

A razão para que tudo aquilo que aconteceu no dia do resgate de Julie fosse possível, principalmente.

Ao entrar no seu quarto, estava tudo escuro como de costume, exceto por um barulho.

Era o barulho de água caindo, que logo parou.

A luz do seu banheiro estava acesa.

Meu colega de quarto…!

Quanto tempo já faz? Desde que ele entrou no Colégio Aohoshi, ele nunca teve a chance de conhecer seu colega de quarto, quando perguntava para os outros, ninguém sabia dizer ao certo, uma situação bem estranha. É difícil imaginar que uma escola desse porte não tenha essa informação, então Kuroshi sempre suspeitou que seu colega de quarto fosse um [Avatar de Deus].

E agora, pela primeira vez, uma chance clara de descobrir quem esse cara é.

Ansiedade tomava conta de Kuroshi, ele se posicionou na frente da porta sem fazer absolutamente nenhum barulho. Certos pensamentos circulavam sua cabeça.

Será que é uma pessoa completamente normal e aleatória?

Ou talvez um [Avatar de Deus] aleatório?

Um plot twist e na verdade sempre foi o Masaya?!

Ou talvez um inimigo?

Enquanto considerava as varias possibilidades, Kuroshi aguardava. Esse evento poderia estar sendo usado por Kuroshi para esquecer das coisas que ele vinha pensando recentemente, mas de qualquer forma—

A porta se abriu.

Será que o tempo parou? Não havia mais reações, tudo estava parado, até a mente de Kuroshi parou de trabalhar, o brilho dos seus olhos desapareceu.

A pessoa na sua frente—Uma toalha enrolada no corpo, e outra secando o cabelo, uma garota. Longos e lindos cabelos negros que passavam da cintura, além de olhos profundamente negros.

Certo, numa situação normal, teriam muitas coisas para processar na cabeça de uma vez só. Primeiro o fato de uma das garotas mais bonitas já vista nesse território escolar estar só de toalha na sua frente, já que a informação que a visão fornece é geralmente o que funciona primeiro no cérebro. Segundo, ter uma garota em um quarto do dormitório masculino, que é totalmente contra as regras. Terceiro, saber como uma garota conseguiu um quarto no dormitório masculino.

No entanto, nada disso passou pela cabeça de Kuroshi naquele momento. O que realmente o deixou paralisado foi—

“Kurona?!”

A garota, que foi chamada pelo nome de Kurona, também parecia surpresa com o desenvolvimento, mas logo agiu, embora talvez não da maneira esperada.

“Kuroshi!”

Ela saltou em cima de Kuroshi, o abraçando, que em um momento de surpresa, não conseguiu manter o equilíbrio e os dois caíram. Sua mente realmente se recusava a funcionar.

Kuroshi estava basicamente sentado no chão com ela em cima dele. Colocando as mãos no ombro dele e se afastando um pouco, ela olhou diretamente nos olhos dele, nas partes mais profundas do seu ser.

“Eu queria poder olhar novamente para você assim…”

Após dizer o que queria dizer, Kurona aproximou o rosto e conectou os lábios dos dois, dando o mais sentimental beijo que poderia dar.

Uma grande mudança na situação do grupo principal estava para começar.

Kami no Sensou – Meu Próprio Destino (Volume 5: Capítulo 11)

Ao abrir os olhos, tudo que era possível ser visto era uma vastidão branca. Ela estava estirada no chão com os braços abertos. Levantando a parte superior do seu corpo, ela notou que o chão, assim como o “céu”, era totalmente branco e infinito. Era difícil saber se aquilo era o céu ou um teto, ou até onde ia, o único fato era de que tudo era branco. Coçando seus cabelos ruivos em confusão, a garota se levantou.

“Onde eu estou?”

“Julie.”

Ao ouvir seu nome ser chamado, a garota, Julie, se virou para a direção da voz, arregalando os olhos e ficando boquiaberta com o que ela via.

“… Liliana onee-chan?”

“Sim, já faz um tempo… Embora você provavelmente não tenha essa noção.”

“Você é…!”

“Certo, a [Avatar de Shai].”

Ao confirmar suas duvidas, Julie correu e abraçou Liliana.

Que sentimento estranho. Julie sabe que sua irmã está nesse momento na casa dos seus pais, mas ela também está aqui. Um fenômeno que só pode existir graças a [Guerra Divina], a capacidade de criar duas entidades que consistem em uma única pessoa. Ou talvez seja mais preciso dizer que a vida comum e a vida de um [Avatar de Deus] são separadas, embora um [Avatar de Deus] vá lembrar da sua vida comum, alguém que morre na [Guerra Divina] realmente “morre” no sentido de ter uma parte da sua vida apagada. Por isso, a Liliana que está na frente de Julie é única da sua própria forma, alguém que sacrificou sua vida para salvar seus irmãos, algo que não existe para a outra Liliana.

Ao se separar de Liliana, Julie se afastou um pouco, existiam outras coisas que ela precisa se preocupar agora.

“Que lugar é esse? O pós-vida?”

“Bem, de certa forma.”

Liliana olhou para cima por um momento e depois olhou para Julie novamente.

“Pode se dizer que aqui é o caminho entre a vida e a morte, ou algo do tipo.”

“Então porque você…”

“Para ajudar meus irmãozinhos, óbvio.”

Dando um passo a frente, Liliana colocou a mão na cabeça de Julie.

“O que isso quer dizer?”

“Nos meus últimos momentos… Quando eu me sacrifiquei para salvar vocês do ataque de Kogane, eu criei uma contramedida para garantir a segurança de vocês. Eu não sabia se vocês conseguiriam fugir em segurança, então usei meu poder pela última vez em vocês quatro, para caso morressem, eu pudesse mudar esse destino mais uma vez. Felizmente nenhum de vocês apareceu… Até agora.”

Julie ficou surpresa por um momento, mas depois colocou as duas mãos na cabeça e começou a se descabelar.

“Waaah, não pode ser!!”

“Hmm??”

“Se eu soubesse disse eu não precisaria me preocupar já que o Thomas onii-chan seria revivido e poderíamos lutar todos juntos contra o Kogane!”

“Não, isso é algo meio cruel de se dizer haha. Espere, vocês estão enfrentando o Kogane?!”

Vendo o choque de Liliana, Julie se lembrou de coisas desagradáveis.

“Ah… Sim… Ei, Liliana onee-chan…”

E então, Julie contou toda a história de Kogane para sua irmã mais velha. Para a surpresa de Julie, Liliana não parecia tão surpresa com as revelações.

“Eu fiz algo bem ruim para ele, não é?”

Liliana comentou com um sorriso autodepreciativo.

“Sim, mas… Liliana onee-chan só tinha 8 anos na época, era impossível saber de algo assim!”

“Realmente, naquela época eu não agia totalmente dentro de mim, e sim guiada pelos efeitos dos meus poderes… Porém, quando eu despertei totalmente como uma [Avatar de Deus] 4 anos mais tarde, eu cogitei a hipótese de ter afetado o destino de outras pessoas. Afinal, existiam outros nomes lendários envolvidos na mitologia das quatro bestas sagradas, que eu desconhecia quando tinha 8 anos, mas depois que descobri sobre eles e resolvi investigar, já era tarde demais para encontrar algo.”

O Dragão Amarelo do Centro, apesar de fazer parte do mito das bestas sagradas, não é uma figura que costuma ser muito lembrada e usada como referência, tal que as informações sobre ele não são tão extensas, diferente das quatro demais bestas. Todas as mitologias funcionam como diversas histórias diferentes, histórias essas que, assim como todas as outras, carregam personagens mais importantes, e personagens menos importantes, a conexão entre as quatro bestas é muito alta, mas o Dragão do Centro nem tanto.

Liliana deu uma pausa antes de continuar.

“Honestamente, quando Kogane apareceu e se apresentou, eu suspeitei que era realmente minha culpa por tudo que estava acontecendo. Mesmo que ele não tenha dito com clareza, ficou bem explicito que ele veio fazer eu colher o que plantei.”

“Onee-chan…”

Julie não tinha palavras de consolação para oferecer a Liliana, era algo que ela apenas tinha que aceitar.

“Mas, onee-chan! Tem algo estranho em toda essa história, porque ele iria nos deixar viver, se ele realmente carregava tanto rancor, ele teria matado todos nós logo em seguida!”

Na mente de Liliana, outras coisas pesaram mais ainda nas palavras de Julie. Por causa daquela situação em que eles estavam, ela nunca pôde contar isso para eles, mas…

Realmente… Algo não está certo nessa história… As palavras dele naquele dia…

“Porque você só apareceu agora? Depois de todo esse tempo?”

“Eh? Demorou muito para eu conseguir convencer meus pais a me trazerem para cá. Eu moro bem longe, na China pra ser mais exato, sabia? Não é barato não!”

“Já está na hora de terminarmos isso, preciso voltar para casa antes que meus pais fiquem muito preocupados.”

Liliana se lembrava dos diálogos com Kogane.

Nada daquilo faz muito sentido sabendo a história que Julie me contou. Parando para pensar “Kogane” sequer é um nome chinês, um [Avatar de Deus] conseguiria atravessar uma distância dessa sem problemas, e o mais importante… Se ele se perdeu da sua família, como ele mesmo disse, porque naquele dia ele dizia que tinha uma família?

“Onee-chan?”

Liliana estava com uma das mãos no queixo, bem pensativa.

“Ah… Talvez…”

“Hmmm?”

“Escute bem, Julie. É possível que a resposta desse mistério seja mais simples e surpreendente do que você imaginava, preste atenção—“

Ao ouvir a resposta que Liliana encontrou, Julie realmente ficou bem surpresa, era até difícil de acreditar. O que realmente havia por trás de Kogane, algo que Julie nunca imaginou que seria.

“Agora, você já ficou tempo demais aqui, Julie. Está na hora de voltar, venha, irei alterar seu destino mais uma vez.”

Liliana estendeu a mão para Julie, pronta para usar seu poder novamente.

Julie não queria se separar da sua irmã novamente, mas não havia outra escolha. Levantando sua mão lentamente, ela dirigiu sua mão em direção a mão de Liliana. Mas—

Memórias e mais memórias passavam pela cabeça de Julie. Tudo que sua irmã passou na infância, todas as coisas que aconteceram, seus irmãos, Kogane, toda a situação atual e os motivos de tudo isso ter acontecido.

A mão de Julie parou.

“Julie?”

“… Desculpe, Liliana onee-chan.”

Julie afastou sua mão e se virou de costas para Liliana.

“Eu não quero mais que você use esse poder, aliás, você não devia mais usá-lo. Já causamos dor e sofrimento demais a muitas pessoas com toda essa alteração de destino.”

Liliana abaixou a mão, tal como abaixou a cabeça.

“Onee-chan, eu vou seguir meu próprio destino a partir de agora, assim como você queria que seguíssemos! Voltarei para lá com minhas próprias pernas e vencerei o vilão em uma luta épica, como uma heroína!”

Julie se virou, sorridente, e levantando um punho fechado, mostrando sua determinação, antes de se virar novamente e caminhar adiante. A frente de Julie havia surgido uma massa de escuridão, o caminho de volta. Aos poucos Julie foi caminhando em direção a escuridão e desaparecendo.

“Realmente se passou muito tempo, ela realmente cresceu… Vá Julie, tenha seu momento como protagonista dessa história.”

Vendo sua irmã mais nova seguir seu próprio caminho com um sorriso no rosto, Liliana… A [Avatar de Shai] finalmente pôde descansar em paz.

 

 

“Está na hora de colocar minha estratégia de fuga em ação.”

Kogane murmurou enquanto observava todos os seus próximos oponentes, completamente curados, do céu.

Suas chances de vitória contra todos aqueles [Avatares de Deuses] é zero. Porém, ele já sabia disso desde o início, e estava pronto para ser morto no pior dos casos, mas aparentemente o estado de choque deles funcionou a seu favor. É provável que se ele fugir agora, ninguém irá perceber.

No chão, o ar pesado tomava conta da área. Os irmãos Alberta em lágrimas, Kuroshi e Seira olhando para o chão, desacreditados…

“… Ryoka-chan?”

Masaya olhou para Ryoka, que olhava fixamente para o céu, de boca aberta. Seus olhos refletiam uma luz.

Ao acompanhar o olhar de Ryoka, Masaya ficou chocado.

A luz ficou mais forte, e aos poucos, todos que olhavam para o solo, desolados, começaram a ser atingidos pela luz, que ofuscava a luz solar. Todos olharam para o céu.

Kogane, também chocado, olhava para frente, na altura que ele estava, havia uma grande esfera de luz laranja avermelhada tomando a forma de uma grande ave de fogo.

Vendo aquilo, Ryoka murmurou.

“… Fênix…”

No centro daquela grande ave de fogo—

“JULIE!!”

Max gritou o que estava na cabeça de todos.

A ave de fogo se desfez em várias partículas, revelando a figura no centro da ave, Julie.

Sua aparência estava bem diferente do normal, os seus olhos antes vermelhos se tornaram alaranjados e um pouco brilhantes, lembrando as chamas. Seus cabelos antes ruivos e amarrados em um rabo de cavalo, agora eram loiros com a parte frontal e de trás do cabelo da mesma cor dos olhos (Alaranjado brilhante), além disso, seus cabelos agora eram muito mais longos, quase do tamanho do seu corpo e estavam obviamente soltos. Seus 30% de poder alcançados eram iminentes.

Aquela aparência fantástica relembrou a todos que Julie jamais havia lutado com tudo até hoje. Um reflexo da sua mentalidade antiga, sempre dependendo mais dos outros do que de si mesma, impedindo ela de lutar uma luta nessa escala.

“COMO?! COMO VOCÊ ESCAPOU DO MEU PODER?!”

Kogane não conseguia acreditar no que via.

Era natural, seu poder era quase indefensável, e ela foi atingida em cheio. Era impossível prever a existência de uma técnica como a [Mansion Number 23: Guǐ (Ghost)].

A [Mansion Number 23: Guǐ] garante a capacidade do usuário conseguir reviver caso seja morto após a ativação da técnica. Uma técnica crucial que só pode ser usada uma vez por dia, e que garante uma nova chance para mudar o rumo da batalha. Seu fim como [Avatar de Deus] é impedido pelo efeito da técnica, e por isso o corpo de Julie não reapareceu após a [Dimensão Reversa] ter sido fechada, pois ela estava fadada a voltar, quebrando as leis da [Guerra Divina].

Agora é a minha vez…!

Julie recriou sua lança e reutilizou seu [Yí], recriando as asas de fogo, e voou em direção a Kogane em uma velocidade impressionante.

Atacando ferozmente, Kogane tentava se defender com seu cajado, mas sentia dificuldade em cada golpe.

Conseguindo uma abertura, Julie deu um chute no peito de Kogane e jogou ele para longe.

“Vamos acabar com isso de uma vez, Kogane! A partir de agora, nossos destinos serão apenas nossos!”

“NÃO ME VENHA COM ESSA!!!”

Kogane, enfurecido, se cobriu em uma esfera levemente transparente—O poder de vácuo. A esfera começou a se expandir mais e mais, consumindo a existência de tudo que a tocava.

“Eu já sei a verdade por trás de você, Kogane, eu já sei porque você nos deixou viver naquele dia!”

Se mostrando assustado ao ouvir aquilo, Kogane estourou de vez.

“NÃO BRINQUE COMIGOOOOOO!!!!!”

Colocando toda sua energia nesse ataque, Kogane tentou mandar tudo pelos ares.

Ryoka se preparou para evacuar todos, mas—

Julie apontou uma das suas mãos em direção a todos no chão, indicando para eles “ficarem tranquilos”.

“[Mansion Number 25: Xíng (Star)]!!”

Saindo diretamente do seu peito, uma esfera de energia—Uma esfera de fogo começou a se expandir e engoliu Julie, aumentando muito rapidamente.

De acordo com velhos textos chineses, o caráter chinês para “estrela” (xing 星) não só se referia às luzes no céu noturno, mas também tinha o significado de 布 (bu) que significava propagação ou disseminação. Outros textos antigos deram o significado da estrela como 散 (san) que teve o significado similar para distribuir ou doar.

Apesar de não ser exatamente esse o ponto, a técnica de Julie funcionava de maneira similar—

O nascimento de uma estrela acontecia no céu, e a estrela ia crescendo infinitamente. Talvez pelo controle de Julie sobre a técnica, mas o calor que a estrela emitia ao invés de queimar todos que estavam no chão, aquecia seus corações.

Afinal, nesse exato momento, uma luta entre [Avatares de Deuses] está acontecendo fora da [Dimensão Reversa], há riscos deles afetarem os humanos comuns, mesmo estando lutando no meio do nada.

A estrela e a esfera de vácuo se colidiram.

A esfera de vácuo emitia uma certa frieza e um grande vazio, a estrela emitia calor e fortes sentimentos, era quase como—Uma colisão de corações.

Assistindo aquela cena incrível, depois do que acabaram de passar, todos se sentiram atraídos pela luz. Kuroshi se levantou, sem conseguir mais se segurar.

“VAI, JULIE!!”

Os outros olharam surpresos para Kuroshi, que usou toda sua voz para gritar. Sorrisos tomaram conta nos rostos de todo mundo, que o imitaram.

“VAI, JULIE-CHAN!!”

“VAI, JULIE!!”

Todos começaram a gritar as mesmas palavras.

Você consegue ver, Liliana onee-chan? É aqui que eu quero estar!

Colocando um grande sorriso no rosto, Julie colocou tudo de si no seu último ataque.

“AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!!!”

A esfera de vácuo consome, a estrela aumenta infinitamente, um impasse era criado. Era definitivamente uma batalha de determinação, uma batalha de sentimentos. Rachaduras surgiram na esfera de vácuo. As vozes de todos atingiam Kogane como navalhas, ele entedia sua posição nessa batalha.

A pessoa que perdeu tudo que tinha, cresceu em meio a solidão e a desgraça, foi consumido pelos sentimentos negativos, em uma batalha contra aquela garota, que conseguiu encontrar seu próprio caminho, se desprender da sua própria miséria, a diferença entre os dois se encontrava na superação.

Kogane não vai ser derrotado por Julie, vai ser derrotado por si mesmo. O que ainda há para ele? Qual é o seu futuro? Viver essa vida infortuna? Não existe motivo para ele sair vitorioso, comparado com o futuro da garota a sua frente—

A esfera de vácuo quebrou em milhares de pedaços, a estrela, crescendo mais e mais, o engoliu completamente.

 

 

Subitamente, um estranho fenômeno aconteceu na Terra, toda a Ásia podia ver uma pequena esfera de luz no céu, mesmo durante o dia. A maioria saiu das suas casas para observar e filmar.

Em uma certa casa onde uma família observava—

“Liliana? Porque você está chorando?”

A mãe de Liliana, preocupada, perguntou. Liliana não conseguia conter as lágrimas enquanto observava aquela esfera de luz.

“Não faço ideia, mas… Estou simplesmente feliz.”

Seus pais, sem entender, apenas olharam novamente para aquela esfera de luz que viria a desaparecer logo depois.

 

 

Kogane foi atingido completamente pelo ataque, seu corpo estava desaparecendo lentamente.

No meio de toda aquela luz, uma sombra veio voando em sua direção.

Sem hesitar nem parar pra nada, Julie foi direto até o corpo de Kogane e o abraçou.

“Eu sei que não é o bastante para compensar tudo o que aconteceu, mas desculpe… Apesar de ser tão normal para os humanos ferirem outras pessoas sem perceberem, para nós, [Avatares de Deuses], a escala acabou sendo um pouco demais.”

“…”

As pernas de Kogane já haviam desaparecido, seus braços também estavam sumindo aos poucos, nenhuma palavra saia da sua boca, ele estava sério.

“E obrigado… Você se separou da sua família, mas fingia ter uma família normalmente por medo de usarem isso contra você, não é? Já que naquela época você ainda estava traumatizado com aquilo…”

Julie começou a dizer o que Liliana disse para ela.

“… No fim, você usou essa mentira para nos deixar vivos, pois ao ver nossa família unida daquela forma, mesmo com a alteração do destino, e o sofrimento de perder a Liliana onee-chan, lembrando da sua própria família, você se comoveu e desistiu de matar todos nós, por isso, obrigado.”

E aquilo acabou sendo o motivo da sua derrota. Quase como se o destino estivesse ironizando o que sobrou de bondade no seu coração.

“Nós não vamos deixar isso acontecer novamente, então, você pode ser livre agora, deixe tudo com a onee-chan aqui!”

Soltando Kogane, que já estava prestes a desaparecer, sem demonstrar seus olhos, ele pela primeira vez demonstrou um sorriso genuíno, e suas palavras finais foram:

“Eu te odeio.”

Julie só conseguiu dar um sorriso sem jeito para aquilo, e Kogane desapareceu completamente no meio da estrela, que desapareceu junto dele. O corpo de Kogane reapareceu no chão, mas ao invés do Kogane que ela conhecia, apareceu um rapaz de cabelos castanhos e roupas comuns, a personificação dourada desapareceu completamente.

Agora que a influência da Liliana onee-chan se foi, vamos fazer o possível para encontrar sua família, Kogane.

Julie sorriu gentilmente, mas logo depois deu seu clássico sorriso mais expressivo e fez o sinal de vitória para os seus amigos.

Descendo até o solo, todos se aproximaram, exceto Max.

Entre abraços da Seira, e carinhos na cabeça da Ryoka, todos se acalmaram finalmente. Kuroshi se aproximou dela.

“Julie, antes de voltar ao normal, vamos nos conectar através do [Soul Linker], assim evitará que aconteça algo similar como o que aconteceu comigo na luta contra Noah.”

Usando o [Soul Linker], é possível aliviar a carga do uso excessivo de poder dividindo com todos os conectados. Fazendo todo o processo, Julie conseguiu voltar ao normal sem sofrer efeitos colaterais. Ela pediu um momento para todos e se dirigiu até Maxwell.

“Onii-chan.”

“Sim, eu entendo.”

Palavras não eram necessárias.

Max primeiramente se dirigiu até Kuroshi e os outros, e se curvou imediatamente.

“Me perdoem pelas ações anteriores, não sei o que o futuro nos guarda, mas não irei mais tentar mudar o destino de ninguém forçadamente.”

Kuroshi deu um passo à frente.

“Podemos deixar tudo isso para trás, mas acho que há alguém que precisa mais desse pedido de desculpas do que a gente.”

Max acenou positivamente com a cabeça e se virou para Julie novamente.

“Julie, me perdoe. Honestamente, pude ver que você é mais forte que eu, não existe razões para eu interferir em nada mais.”

“Hehe, está tudo bem, onii-chan. Sei que queria o meu melhor, apesar dos meios duvidosos. Mas não se preocupe, independente de qualquer coisa, agora que me tornei a protagonista, posso chutar até mesmo a bunda do Kuroshi se for necessário!”

“Ei!”

Kuroshi chamou a atenção de Julie, o que fez todos rirem.

Em seguida, Thomas fez questão de pedir desculpas para todos, assim como Max fez. Embora Karl também tivesse tentado fazer o mesmo, ele foi impedido por Ryoka dizendo que eles entendiam a posição de Karl na situação, e que não era necessário se desculpar.

“Nós vamos voltar para o Colégio Aohoshi agora, o que vocês farão?”

Ryoka perguntou para o trio Alberta. Karl tomou a frente como o mais velho.

“Iremos procurar pelos pais de Kogane para reunir a família novamente, e depois provavelmente ficaremos na nossa casa no Canadá.”

Carregando Kogane, que estava desamaiado, Karl se preparou para ir embora junto de Max e Thomas. Eles se despediram uma última vez de Julie e partiram.

Julie já havia coletado seus pertences e estava pronta para finalmente voltar a sua vida comum.

Kuroshi, Seira e Ryoka estavam com um sorriso no rosto, vendo que recuperaram sua preciosa amiga.

Correndo e passando todos os quatro, Julie acenou para todos antes de levantar voo.

“Vamos pessoal, de volta para casa!”

Voando na frente com um grande sorriso no rosto, Julie fechou os olhos por um momento.

A partir de hoje eu preciso corresponder as expectativas que a Ryoka-senpai colocou em mim, e agir como uma verdadeira líder substituta.

Sentindo uma grande mudança no seu interior, Julie abriu os olhos novamente e olhou toda a vastidão azul na sua frente. Feliz pelas amizades que conseguiu, amigos que a levantaram a um novo patamar, agora ela pode voltar para sua segunda casa como alguém livre das amarras do passado.

 

A esfera de luz no céu foi dita ser “só um balão” pelo governo, mas muitas pessoas desacreditaram e postaram filmagens na internet dizendo terem visto óvnis.

Kami no Sensou – Kogane (Volume 5: Capítulo 10)

“Thomas onii-chan!!”

Thomas, já nos braços de Julie, estava com dificuldade até de continuar vivo. Havia um buraco no seu estomago, e a perda de sangue era grande o bastante para ser um risco por si só.

“Aguente firme, Thomas onii-chan! Eu vou cancelar essa [Dimensão Reversa] para trazê-lo ao normal agora mesmo!”

“Opa, você não vai. Alguns fragmentos de terra ficaram implantados no corpo do seu querido irmão no meu último ataque, se você tentar desfazer essa [Dimensão Reversa], eu garanto que a vida do seu irmão será desfeita junto.”

As ameaças de Kogane paralisaram Julie.

“Meu plano original era te colocar como refém, mas pelo visto ele também serve. Hah~ Que bom que anunciou seus planos antes de fazer algo, pois eu teria o matado instantaneamente caso agisse sem dizer nada e perderia o refém. Oh, mas vendo por esse lado, você pode ter salvado a vida do seu irmão, huh?”

Kogane continuava a falar com um tom irônico, naquela situação ninguém se atrevia a se mexer.

“Não se preocupem, eu não pretendo tirar a vida deste rapaz. Mas eu garanto que algum de vocês morrerão. E por ‘vocês’ eu obviamente me refiro a essa família amaldiçoada. Aaah… É uma pena, não é mesmo? Ter uma família dessas deve ser complicado.”

Max estava dando o seu melhor para conter sua raiva, até por sua condição física.

“Felizmente graças a brilhante imundice de vocês, o palco foi preparado perfeitamente para minha entrada, e agora poderei dar o que vocês merecem.”

Kogane sabia que lutar contra todos presentes era suicídio, por isso esperou as lutas terminarem. Quase todos presentes estavam feridos, com essas condições, a situação muda.

“Cale a boca, maldito!”

Não se aguentando mais, Max avançou para cima de Kogane, que apenas apontou a mão na direção dele, com um sorriso sádico no rosto, e utilizou seu poder. Várias rachaduras se estenderam pelo solo, atingindo uma grande área, inclusive onde todos os outros estavam, e uma luz branca saiu da rachadura.

“Cuidado pessoal, isso é—“

Antes do recado de Julie terminar, sua voz foi consumida por um agoniante som acompanhado de um flash e logo em seguida o grito de várias pessoas.

Julie, que já conhecia esse poder, havia ativado suas chamas especiais que queimam poderes, o [Mansion Number 22: Jing], cobrindo Thomas e a si mesma. Mas infelizmente o mesmo não podia ser dito para os outros.

Repletos de ferimentos por todo o corpo, todos estavam caídos no chão.

O ataque surpresa não iria funcionar com quem já conhecia o poder, mas Karl e Max não conseguiram minimizar tanto o dano com suas técnicas. Já Kuroshi e os outros não podiam prever o que ia acontecer, e por isso foram atingidos em cheio, o único que poderia evitar o ataque era Masaya, mas com sua perna ferida, ele não pôde se mover a tempo.

“Está na hora de vocês aprenderem uma lição de uma vez por todas.”

Kogane já estava sério, olhando para Max de cima, com um olhar de desprezo.

“Parece que o que você passou no passado não foi o bastante para criar decência na sua mente.”

O comentário frio de Kogane veio carregado com um tom de voz completamente oposto do que ele usava antes. Max só conseguiu olhar, chocado, para Kogane.

Talvez ele tenha entendido a mensagem.

Kogane se abaixou próximo a Max e apontou sua mão para ele, pronto para fazer algo, sem dó.

“Uh—!”

Porém, uma lâmina se aproximou pelo lado esquerdo do seu rosto, o forçando a saltar para trás e se esquivar. A lâmina pertencia a uma lança, e a lança pertencia a uma garota ruiva.

“Não permitirei que faça mais nada de ruim para meus irmãos!”

Julie se posicionou na frente de Kogane de maneira desafiadora.

“Julie, espere, nós também vamos lutar!”

A voz de Kuroshi não fez Julie se virar para trás, ela não queria olhar para trás.

“Você vai ser minha oponente? Mesmo sendo a vítima do caso?”

Kogane perguntou em um tom de voz suave, surpreso por ela estar no seu caminho.

“Sim. Portanto, Kogane-san, eu te desafio para um duelo!”

“Entendo… Eu aceito seu desafio.”

Palavras ousadas saíram da boca de Julie, Kogane foi desafiado para um duelo, o que significava que a partir de agora era um contra um não importa o que.

Kuroshi e os outros ficaram chocados com tal ação.

“Kuroshi, Ryoka-senpai, Seira-senpai, Masaya-senpai, eu quero voltar a conviver com vocês, então apenas observem, tá?

Karl onii-chan, Max onii-chan, obrigado, e desculpem pelo trabalho que dei.”

Sem olhar para trás, Julie apenas virou um pouco o rosto, demonstrando um sorriso, e deu seu recado antes de voltar o olhar novamente para Kogane.

Os dois se encararam por alguns momentos. Julie estava séria e determinada, Kogane tinha um sorriso no rosto e estava relaxado.

Repentinamente, um grande sorriso surgiu no rosto de Kogane, que estendeu a mão em direção a Julie. Várias rachaduras brancas começaram a surgir no solo em direção a ela.

“[Mansion Number 26: Zhang]!!”

Atingindo o solo com sua lança, Julie ativou sua “Rede Estendida”, várias rachaduras vermelhas surgiram no solo e se encontraram com as rachaduras brancas.

No instante seguinte, o  solo se partiu.

Incontáveis pequenas pedras começaram a serem lançadas para cima, cruzando a vista dos dois.

Kogane abriu os dois braços e gerou diversos espinhos rochosos a partir do nada, controlando-os e os jogando em direção a Julie, que ativou sua [Mansion Number 22: Jing] e se cobriu nas suas chamas especiais. As pedras evaporavam assim que entravam em contato com o fogo, nenhum poder podia passar por aquelas chamas, como uma bola de fogo, Julie avançou em direção a Kogane, invulnerável, mas—

“Ugh!”

Um espinho atingiu seu ombro, perfurando na mesma hora.

Como?!

Focando sua vista em Kogane, ela notou. Os espinhos pararam de surgir no ar… Os espinhos estavam sendo tirados do próprio solo!

Meu Jing não pode queimar coisas que não sejam técnicas especiais… Pedras comuns aprimoradas com [Reisei] irão me atingir—!

Começando a se esquivar dos ataques, Julie teve um mau pressentimento, no mesmo segundo—

“De baixo!”

Julie inclinou o corpo para direita logo antes do seu corpo ser empalado por um grande espinho de terra originado diretamente do solo abaixo dela. O mesmo ataque que Kogane usou para atingir Thomas—Apesar da esquiva, o espinho ainda atingiu de raspão o canto direito do seu corpo. Outros espinhos seguiram o mesmo padrão, mas dessa vez Julie estava preparada, e girou seu corpo para direita uma, duas—Várias vezes, se esquivando dos primeiros espinhos antes de saltar em alta velocidade em direção a Kogane. Ela finalmente o alcançou!

Atacando horizontalmente com a lança, o ataque de Julie foi interrompido na ultima hora pela própria arma de Kogane recém-invocada, seu cajado dourado. Insistindo na investida, Julie atacou várias vezes, mas todos os ataques foram repelidos por Kogane, que saltou para trás ao mesmo tempo em que criava vários espinhos ao redor de Julie, criando um círculo e fechando todas as suas saídas.

Se eu continuar lutando no solo—

“[Mansion Number 27: Yì]!”

Duas asas de fogo surgiram nas costas de Julie, que levantou voo instantaneamente, desaparecendo da vista de Kogane.

“Onde—?!”

Quando ele notou e tentou se virar para se defender, já era tarde demais, Julie já estava atrás dele o atacando com a lança. Apesar da reação de Kogane ter sido rápida e ele ter desistido da defesa e tentado se afastar, por usar uma lança como arma, o alcance de Julie é bem maior que o normal, por isso não foi possível evitar um corte horizontal na sua barriga.

Os pés de Julie não tocavam o solo, ela estava em constante voo, tal era uma das características da sua técnica [Yi] (Asas), ela ficava em um “estado de voo” permanente. Isso porque as asas de fogo aumentavam sua velocidade drasticamente enquanto no ar, nesse estado ela é comparável, ou até mesmo superior a Kuroshi em velocidade.

Batendo as asas, Julie subiu rapidamente aos céus, ela notou a expressão de ódio que Kogane fez ao notar o ferimento, e resolveu levar a luta para o céu, afinal, lá ela teria menos desvantagens.

Kogane a seguiu sem hesitar. Sua expressão já havia voltado à serenidade.

“Você é melhor do que eu esperava, mas—“

Levantando os dois braços para o céu, diversas rochas começaram a subir em alta velocidade do chão da ilha. Julie desviou delas tranquilamente… Mas ela tinha a sensação que ela não estava sendo mirada, quase como—

Impossível!!

Julie olhou desesperadamente para o céu, o que fez Kogane sorrir de maneira perturbadora. As milhares de pedras desapareceram no céu, mas logo voltariam a aparecer.

“Como lidará com isso!!”

Kogane desceu uma das mãos violentamente, e junto com o gesto, milhares de meteoritos começaram a vir em direção a Julie.

As pedras foram levantadas até o espaço, e trazidas de volta, gerando uma chuva de meteoros. Normalmente pedras desse tamanho desintegrariam, mas graças a proteção do [Reisei], ao invés disso os meteoritos ficaram infinitamente mais potentes e velozes que um meteoro comum.

Sem ter para onde fugir, Julie tentou se esquivar voando. Um dos meteoritos passou perto dela, e a onda de impacto fez ela perder o balanço, o que deu tempo o suficiente de um dos meteoritos atingir seu estomago em cheio e empurrar ela de volta para o solo, causando uma grande explosão.

Ela conseguiu concentrar o [Reisei] na parte atingida antes do meteorito acertar ela, caso contrário a luta teria acabado.

Ou talvez—

Usando o antebraço para apoiar seu corpo e se levantar, Julie começou a tossir com força, ela estava sem ar por conta do ataque.

Sua visão ficou um pouco embaçada. Ela sentia como se seus órgãos internos estivessem todos bagunçados.

 

“JULIE!!”

Max tentou se dirigir até Julie o mais rápido possível, mas foi impedido por Karl.

“Você não pode interromper o duelo, Max!”

O desespero de Max, o desespero de alguém que estava vendo uma pessoa da sua família sofrendo na sua frente, Kuroshi observava aquilo e fechava seu punho com força o bastante para quase ferir sua própria mão. Apesar da luta que Julie estava passando, Kuroshi se sentia enfurecido por dentro com Max.

Sem aguentar mais, ele virou para Max e disse:

“O que houve? Pensei que você tinha mais convicção na visão da sua namorada… Agora você teme a segurança da Julie? Ela não ia ser morta por mim? Se preocupar agora contradiz o que você defendia antes.”

Os olhos de Kuroshi não eram visíveis da posição que Max estava, mas ele estava sério, estava frio, o que surpreendeu Max.

Exato. Max estava extremamente preocupado com a segurança de Julie, vendo aquela luta na sua frente, se lembrando do que aconteceu com Liliana no passado, a visão de Selina não importava mais, todas aquelas lutas foram inúteis.

“Você foi egoísta, presunçoso e inconveniente, o que nos fez chegar até essa situação atual, pois não queria confiar nas pessoas que a Julie confiava, dizendo que uma visão aleatória era um fato, e agora está desesperado com medo da morte dela?!”

Se preparando para socar Max, o braço de Kuroshi foi impedido por Masaya.

“Não é necessário ir a tanto, Kuroshi, só o que você disse já foi o bastante. Mais importante que isso—“

Masaya olhou na direção da luta, Kuroshi seguiu seu conselho e também olhou para lá. Max ficou de cabeça baixa, sem pronunciar uma palavra sequer. Ele apenas virou o rosto lentamente em direção a Julie.

 

“Hah…Hah…”

Julie conseguiu se levantar, mas já estava ofegante e bem ferida.

“Porque? Porque você está fazendo isso conosco pela segunda vez?”

Ela direcionou a pergunta para Kogane, que apenas devolveu um olhar frio para ela.

“Vocês que fizeram algo de ruim para vocês mesmos e agora estão colhendo o que plantaram.”

“Do que você está falando?!”

“De vocês adorarem brincar com o destino dos outros. A irmã de vocês fez isso no passado, e não satisfeito, seu querido irmão decidiu cometer o mesmo erro. Te privando do seu próprio futuro por causa das suas convicções egoístas. Vocês são uma perdição.”

Julie não conseguiu comentar nada para aquilo, apenas ficar surpresa. O silêncio tomou conta de toda a área.

A sua maior surpresa não foi pelas palavras de Kogane em si, mas o que elas trouxeram para ela, em um estalo da sua mente, ela se lembrou das últimas palavras de Kogane depois de matar Liliana.

“Escutem! Vocês ficarão vivos por enquanto, mas num futuro não tão distante eu voltarei! Quando vocês estiverem para mudar o destino de alguém, podem ter certeza que as ações daquela pessoa voltarão para assombra-los!”

Essas foram as exatas palavras de Kogane naquela época, e pelas palavras dele, aconteceu exatamente o que ele disse.

Max decidiu que iria “mudar o destino” de Julie e basicamente a forçou a ir com ela, usando a dependência dela a seu favor, e graças a essa ação, Kogane reapareceu como o prometido para cobrar deles.

As palavras de Kogane e lembranças carregadas juntas, além das palavras anteriores de Kuroshi, destruíram completamente o espirito de Max, ele não conseguia nem mais sequer apontar seu ódio para Kogane.

Julie estava de cabeça baixa, séria.

“Não é isso.”

“Hm?”

Kogane olhou confuso para ela.

“Estou perguntado por que diabos VOCÊ está nos atacando?! Quem diabos é você?!!”

Kogane pareceu surpreso com a pergunta, como se a pergunta não fizesse sentido.

“Eu sou Kogane, o Dragão Amarelo do Centro.”

“Isso você já disse! O que eu quero saber—Ah”

Os olhos de Julie se arregalaram em um forte choque que seu corpo sentiu.

Ela nunca recebeu um choque de realidade tão forte na vida dela.

Kogane… O Dragão Amarelo do Centro…

Impo…ssível...

Era algo tão simples que nunca passou pela cabeça deles. Essa apresentação diferente de Kogane, sempre carregou um significado bem profundo. Ninguém se apresenta daquela forma, Kuroshi nunca iria dizer “Eu sou Kuroshi, o Deus do mundo dos mortos” ou algo do tipo, existe uma razão para Kogane fazer isso—

“Você… Você também era uma das crianças atraídas pelo poder da Liliana onee-chan, não era?”

A pergunta de Julie surpreendeu a todos, mesmo Max no estado que estava, até Thomas que recobrou a consciência em algum momento da luta.

Kogane apenas olhou em silêncio para Julie por alguns segundos, até então fechar os olhos e responder.

“… Está certo. Não é uma história que gosto muito de reviver, mas a irmã de vocês definitivamente reuniu todas as bestas sagradas… Incluindo o Dragão Amarelo do Centro, no caso, eu.”

Com a confirmação, Julie não conseguia mais falar nada.

“… É uma boa oportunidade. O mínimo de cortesia que eu posso ter por vocês é explicar o que levará a segunda morte nessa família.”

Olhando para todos que estavam ali, um por um, Kogane começou a contar sua história.

“Tudo começou quando vocês se reuniram pela primeira vez…”

 

 

Vários anos atrás, um pequeno grupo de crianças, controladas pelo destino, se reuniu em um único ponto. Kogane era um deles. Ele era uma criança comum, cabelos e olhos castanhos, tal como muitas por aí. Quando seus pais decidiram uma viagem de ultima hora, já era a engrenagem do destino funcionando.

“Papai? Mamãe??”

Optando por ir a um parque de diversões, o lugar lotado somado com uma pequena distração dos pais, separou a família.

É claro que os pais de Kogane começaram a procurar pelo filho imediatamente, mas enquanto eles iam para uma direção, Kogane ia para outra.

Depois de alguns minutos, eles resolveram pedir ajuda para qualquer um que vissem na sua frente, já desesperados.

Enquanto isso, Kogane continuava a se afastar do publico.

“O que… o que está acontecendo… papai… mamãe…”

Kogane via algumas estranhas distorções no espaço.

“Ei garoto, você se chama Kogane?”

Até que um rapaz se aproximou.

“… Sim…”

“Seus pais estão procurando desesperadamente por você, venha, vou leva-lo até eles.”

“Obrigado, moço!”

Com a esperança voltando aos seus olhos, Kogane segurou a mão do rapaz e foi guiado por ele… Para longe dos seus pais. Já um pouco longe dali, outra pessoa comunicou aos pais que havia visto a criança em uma determinada direção… Totalmente oposta a onde Kogane estava. Essas pessoas obviamente não sabiam o que estavam fazendo, aquilo era apenas a extensão do poder de Liliana, controlando até as ações das pessoas para que o destino escolhido possa ser realizado.

“Já estamos chegando, moço?”

“Sim, acho que seus pais se perderam procurando por você. Fique aqui, vou comprar algo para você beber.”

“Sim…”

Vendo o rapaz se afastando até desaparecer, Kogane ficou sozinho em uma rua. O rapaz nunca mais apareceu, o tempo foi passando, até a criança notar que ela estava completamente sozinha. Então ele começou a atravessar aquela rua, sem motivo aparente… Até notar algo estranho acontecendo. Assustado, Kogane se escondeu e ficou no meio de uma rua com quatro outras ruas, uma para cada direção. Ele notou uma garota no centro daquela rua, e outras quatro crianças vindas uma de cada direção. Chocado, ele observou as crianças se reunindo e sendo levadas por aquela menina, ele queria segui-las, mas ao mesmo tempo estava com medo e receio de fazer aquilo.

Apesar da influência do poder de Liliana, Kogane não estava sendo 100% afetado, isso porque a própria causadora daquilo não tinha noção da existência de mais uma criança, ao reunir Karl, Thomas, Max e Julie, ela acreditou que já tinha feito o que tinha que ser feito.

Depois daquilo, Kogane resolveu fugir, procurar por seus pais.

“Senhor, me ajude a encontrar meus pais…!”

“Saia daqui, está óbvio que você é só um menino de rua, não cairei nessa!!”

Sendo chutado toda vez que pedia ajuda, ninguém estava disposto a ajuda-lo a recuperar sua vida normal, os dias foram passando, sem ter o que comer e beber Kogane teve que começar a morar na rua.

Certo dia, ele decidiu vasculhar a região para onde as crianças haviam ido, e após muito procurar, ele encontrou elas. Vendo-as entrando em uma casa, ele se aproximou do muro e olhou para janela, e tudo que conseguia ver era uma família feliz.

“… Se eu tivesse ido com eles…”

Porque ele tinha que passar por aquela miséria? Porque tudo aquilo aconteceu? Sua vontade de viver ia diminuindo a cada dia.

Mas aos poucos Kogane foi percebendo algo incomum. Pessoas que batiam nele não conseguiam o fazer sentir dor, ele nunca se feriu, ele percebeu que tinha uma força incomum. Aquilo deu meios para ele mudar sua situação, e ele recorreu ao meio mais viável para ele naquele momento—Roubar. Invadindo lojas para roubar comidas e bebidas, ele percebeu que conseguia fazer isso sem dificuldades.

A partir dali, sua personalidade foi sofrendo grandes mudanças, assim como sua maneira de ver o mundo, e ao completar 12 anos—

“… Entendo… Entendo… Huhuhuhu… Entendo… HAHAHA!!”

A existência [Guerra Divina] trouxe as respostas que ele sempre quis saber. Toda aquela situação impossível foi causada pelo poder de um [Avatar de Deus], e era muito simples conectar as coisas.

Ele já sabia quem eram os culpados. Tudo que ele precisava agora era vingança.

Sua vida naquele momento era uma onde ele já conseguia dinheiro da sua própria maneira, ele fez uma grande mudança no seu visual, pintando seu cabelo, usando lentes, comprando novas roupas e acessórios, tudo de uma única cor, que representava o Dragão Amarelo do Centro.

Antes de por sua vingança em prática, ele passou um bom tempo treinando para refinar seus poderes.

Até que o tão aguardado dia chegou.

 

 

“E o resto da história é o que vocês já presenciaram.”

Ninguém era capaz de pronunciar uma única palavra, aquilo fez Kogane sorrir maleficamente.

“Hahahahaha, parece que vocês mesmos notaram que merecem sofrer, não é mesmo?!”

Levantando uma das mãos para o céu, vários pedregulhos começaram a sair do solo e se unir no céu, formando uma pedra do tamanho de uma grande casa.

“Julie-chan, não deixe a história do inimigo tirar sua determinação para lutar!!”

O grito de Ryoka tirou Julie do transe, que levantou voo com seu [Yì] rapidamente.

Se tudo o que ele disse é realmente verdade… Então ainda há uma inconsistência—

A pedra foi lançada para o espaço e puxada para a Terra novamente, formando um meteoro.

“Adeus, garota.”

Julie iria conseguir desviar do meteoro, porém… Kogane apontou sua mão para o meteoro, que começou a ficar completamente coberto de rachaduras brancas, a mesma que ele usou para atacar a todos anteriormente.

Quando o meteoro estava a uma altura similar a de Julie no céu, Kogane fechou a mão que apontava para o meteoro, e no momento seguinte—

“Ah—“

Julie só teve tempo para suspirar. O meteoro inflou e no momento seguinte explodiu. Um grande flash cobriu todo o oceano e um som ensurdecedor atingiu todos que estavam no solo.

Quando o flash passou, todos olharam para o céu imediatamente, preocupados. Incluindo Max.

Porém, Julie estava coberta por suas chamas, [Jing], que queimaram a explosão e evitaram o dano.

“Ela conseguiu!”

Seira gritou, com um sorriso no rosto.

Mas—

O fogo se extinguiu e revelou a figura de Julie, de cabeça baixa, e com ferimentos graves pelo corpo, partes da sua roupa no ombro, braço, barriga e coxa estavam rasgadas, e tinha sangue por várias partes do seu corpo, incluindo na cabeça. As asas desapareceram, e Julie caiu lentamente até atingir o chão.

“JULIE!!”

Kuroshi gritou por ela, algo que todos ali queriam fazer.

“HAHAHA, o segredo da minha técnica não é a explosão, mas sim a chuva de meteoritos lançadas em todas as direções como consequência! HAHAHAHA!!”

Julie moveu apenas a cabeça em direção ao céu, olhando para o oponente… Não, olhando para algo além disso.

Minha determinação para agir, justo quando eu finalmente a consegui…

Tentando usar seus pequenos braços feridos para se levantar, Julie estava fazendo o máximo de esforço que conseguia.

Acho que foi desde aquele tempo, não é? Quando eu o vi lutando pela primeira vez…

O que vinha na mente de Julie era a imagem de Kuroshi.

Eu sempre soube que havia algo de errado comigo. Foi justamente por isso que…

Ela lembrava, apesar de não ter tido uma história muito grande ao lado de Kuroshi, ela pôde ver de perto algo que ela almejava ser. O garoto independente que lutava as batalhas mais impossíveis sozinho, buscando alcançar seus objetivos. Na luta contra Lisbeth, Julie não conseguiu aceitar de cara como Kuroshi era o oposto dela, conseguir carregar todo o peso por si só, encarar as possíveis consequências, lutar sozinho em uma luta de vida ou morte, sabendo que não importa a situação que esteja, não terá ninguém lá para salvá-lo no último momento, um dia ela se imaginou estando nessa mesma situação, quase como um sonho de uma criança, e graças aos seus amigos, os amigos tão queridos que ela conquistou, ela finalmente chegou aqui.

Finalmente de pé, Julie encarava seu oponente, ela já mal conseguia segurar a sua arma.

Não haverá ajuda, o duelo não pode ser interrompido, apenas quando um dos dois morrer que isso acabará. Portanto—

Kogane estendeu uma mão para frente em silêncio, uma esfera levemente transparente girava na sua mão, essa técnica era…

“Eu admiro sua determinação, por isso, te matarei usando o mesmo ataque que usei para matar sua irmã.”

Max entrou em total estado de choque ao ver aquilo.

“Julie!” “Julie-chan!!”

Kuroshi, Seira e Ryoka chamaram por Julie.

Na situação dela, era impossível desviar. Será que é possível defender o ataque usando [Jing]? Até nisso ela tinha dúvidas, afinal, esse ataque barrou até mesmo o poder de manipulação de destino de Liliana, embora não completamente.

Aquilo representava o quinto elemento—Vácuo. A anti-existência de todas as coisas.

Kogane atirou a esfera em direção a Julie.

Kuroshi, eu… Eu quero ser como você!

“[Mansion Number 22: Jing]!!”

Julie usou suas chamas e as lançou em direção a esfera—

Um esforço em vão.

Mas… Talvez eu não seja capaz por não ser tão legal quanto você, hehe.

As chamas foram dissipadas. Um último sorriso no rosto de Julie.

“JULIEEEE!!”

Max tentou sair correndo em direção a sua irmã caçula, mas Karl conseguiu ser rápido o bastante para segurá-lo no último momento.

A esfera se expandiu e engoliu Julie, assim como tudo que estava próximo dela, logo em seguida desaparecendo sem deixar nenhum rastro.

Kuroshi não tinha voz para nada, e apenas caiu de joelhos no chão.

Max começou a chorar desesperadamente, pensamentos que culpavam a si mesmo ocuparam seu coração. Karl e Thomas também caíram em lágrimas.

O sinal final dava fim ao duelo, a [Dimensão Reversa] começou a desaparecer.

As pernas de Seira também não resistiram e cederam. Masaya fechou os punhos com força enquanto estava de cabeça baixa, apenas Ryoka continuava olhando para o céu, incrédula.

“HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA, ISSO É O QUE ACONTECE QUANDO SE TENTA MEXER NO DESTINO DE QUALQUER QUE NÃO SEJA VOCÊ MESMO!!”

Com uma mão no rosto, Kogane ria descontroladamente.

As cores do mundo voltaram ao normal.

Tudo voltou ao normal, incluindo os ferimentos de todos.

Porém, a única diferença era a falta de alguém que sempre esteve lá.

As chamas da ave de fogo que aqueciam a todos, se apagaram.

Kami no Sensou – Deuses vs Bestas (Volume 5: Capítulo 9)

Três lutas estavam para começar no mesmo local. Um clima de tensão se espalhou por duas delas apenas, no entanto.

Apesar de Karl e Masaya estarem encarando um ao outro, a atmosfera não era pesada ali. A prova disso era que Karl sorriu ao notar a situação.

Ele notou que Masaya estava equipado com um par de botas exóticas, douradas com asas nos calcanhares. Essa era uma informação muito específica, qualquer pessoa com conhecimento básico de mitologia reconheceria algo assim.

“Hmm… [Avatar de Hermes], huh?”

Masaya permaneceu em silêncio, embora ainda sorridente. Notando que ele estava pronto, Karl ‘deu o sinal’ para o início da batalha.

“Vamos começar de uma vez. Mostre-me o quão forte você é!”

Com um tom desafiador, Karl iniciou a batalha. Seu primeiro movimento foi—

“Huh…!”

Sua visão forçadamente se moveu para o lado… Mais precisamente falando, seu rosto foi atingido. Só quando a leve dor o afetou que ele percebeu o que aconteceu.

A marca de que algo o atingiu com força estava marcada no seu rosto.

“Parece que velocidade não é o seu forte, heh.”

Falando de maneira provocativa, Masaya comentou. Karl não tinha resposta para aquilo, pois, de fato, ele não havia enxergado absolutamente nada.

Talvez, apenas talvez—

“…!!”

Karl foi atingido novamente. No ombro esquerdo, no lado direito do peito, na coxa direita e por fim, na nuca. Na sua perspectiva, Masaya ainda estava parado no mesmo lugar, mas talvez ele tenha visto resquícios de movimentos, ou talvez tenha sido apenas impressão dele.

“Tch!”

Karl avançou em direção a Masaya, vendo-o se aproximar, Masaya mostrou os dentes em um grande sorriso. Tentando atingi-lo com um soco, Karl atingiu o ar, apenas a imagem de Masaya existia ali.

Aparecendo vários metros atrás de Karl, os dois estavam costa a costa. No instante seguinte—

“GAH—!!”

Dessa vez Karl sentiu diversos pontos do seu corpo ser atingido. Apenas confirmando o óbvio, Karl percebeu que era literalmente impossível atingir Masaya. Ambos se viraram e olharam um para o outro.

Não é como se Karl fosse lento, ele tem plena confiança em sua velocidade, é apenas que—

“Como pensei, você é realmente surreal.”

“Heh~ Você não está em muita posição de dizer algo assim… Eu já te atingi 162 vezes e você está tão machucado quanto alguém que tropeçou e caiu no chão.”

“É verdade, apesar de eu só ter sentido 7 ou 8 desses 162 ataques.”

“… Meu primeiro ataque eu acertei seu queixo com toda a força, buscando te nocautear em um único ataque, você não teve tempo de concentrar seu [Reisei] para se defender, e mesmo assim saiu só com um machucado leve, me pergunto qual de nós é mais inumano.”

Da mesma forma que Karl não é lento, Masaya está longe de não ter força física, se Kuroshi fosse atingido por esse mesmo ataque desprotegido, ele teria desmaiado imediatamente.

Isso era devido a uma habilidade passiva de Karl. [Mansion Number 12: Wei], uma técnica que torna seu corpo dezenas de vezes mais resistente, por fora e por dentro, o próprio Karl se torna uma fortaleza, protegido pela poderosa casca da tartaruga negra da mitologia chinesa.

Super velocidade vs Super defesa, definitivamente uma luta difícil de prever o resultado. Os dois tinham noção disso, e justamente por isso…

“Essa provavelmente seria uma luta bem estendida, Masaya-san, mas temo que terei que encurta-la… [Mansion Number 11: Xu].”

“Huh?”

Karl apenas pronunciou o nome da técnica casualmente, no instante seguinte, Masaya sentiu uma diferença no seu corpo. Karl não iria esperar o reconhecimento da técnica para atacar, por isso, ele novamente avançou em direção a Masaya, que por sua vez se moveu para se esquivar e atacar mais uma vez—Porém.

“O que?!”

Seu corpo não se movia da maneira que ele queria, e ele começou a flutuar no ar. A sensação era como—

O punho de Karl encontrou o estomago de Masaya e o atingiu de maneira feroz, jogando-o para longe… Mas não houve impacto com o solo, Masaya apenas flutuou no ar.

“É como se eu estivesse debaixo d’água!”

“Essa luta infelizmente não durará muito, Masaya-san.”

[Mansion Number 11: Xu] é uma habilidade que transforma a atmosfera do local, fazendo-a se tornar como se fosse debaixo d’água, ainda é possível respirar e falar normalmente, mas a locomoção se torna extremamente limitada, exceto para o próprio Karl. Essa é apenas uma das habilidades da tartaruga negra, [Genbu].

“[Mansion Number 9: Níu]!”

Um touro de água foi gerado a partir do nada e avançou em uma super velocidade em direção a Masaya.

Impossível desviar—!

Sem opções restantes, Masaya colocou os dois braços na frente do corpo em forma de “X” para defender o ataque, com todo seu [Reisei] focado ali.

No entanto—

“Forte!!!!”

Atingindo o corpo de Masaya com a potência de um grande meteoro, o touro de água começou a empurra-lo para trás, ambas as mangas da roupa de Masaya foram desintegradas antes do touro de água o lançar para o céu e continuar seguindo em frente, quase como um touro real.

Selando a velocidade de Masaya, a luta mudou de rumo completamente.

Masaya sentia seus dois braços dormentes, apesar de não estarem quebrados, ele provavelmente não poderá usa-los por alguns segundos, se ele for atingido novamente por essa técnica—

Nesse caso…!

Dobrando suas duas pernas, Masaya se preparou para se mover.

“É inútil, mesmo sua velocidade sendo de nível divino, sua locomoção dentro do meu [Xu] é quase zero!”

Inclinando seu punho para trás, como se estivesse pronto para dar um soco, Masaya ativou sua técnica especial—

“… [Instant Ride]!”

O mundo mudou diante dos olhos de Masaya, e apenas dele.

“Eh?”

Quando Karl notou o rastro de luz vindo em sua direção, já era tarde demais. Não tarde demais para reagir ao rastro de luz, mas sim porque já havia acontecido.

Talvez ele não fosse conseguir reagir a um raio de luz dessa distância, pois a velocidade da luz é algo impressionante até mesmo para [Avatares de Deuses], mas se Karl conseguiria reagir ou não é irrelevante, muito antes da luz chegar nele, ele já havia sido atingido.

Havia um buraco no seu ombro, e Masaya estava atrás dele.

Seu [Xu] havia sido rasgado a força pela velocidade do ataque—Não, olhando de perto, havia rachaduras por toda a dimensão ao redor de onde Masaya passou.

Ele realmente se moveu rápido o bastante para quase destruir a [Dimensão Reversa]?!

Se essa técnica for usada novamente, Karl não conseguirá evita-la não importa o que… Na mente de Karl, ele se perguntava se alguém realmente conseguiria esquivar de algo assim, se realmente existe um [Avatar de Deus] capaz disso, ele provavelmente é invencível.

Antes que ele use o [Instant Ride] novamente—

Mesmo sem poder usar um dos braços, Karl ainda tinha o outro! Se virando rapidamente—

“[Mansion Number 9: Níu]!!”

O touro de água foi lançado novamente, porém, dessa vez Karl se fundiu com o touro de água, mais especificadamente na cabeça do touro, essa é sua combinação ofensiva mais poderosa. Combinando o poder do touro com a força do seu punho com [Reisei] concentrado, mais a força extra que ele ganha por ser carregado pelo touro de água em alta velocidade. Apesar de não ter controle sobre o ataque e só se mover em linha reta, sua força aumenta em várias vezes comparado ao [Níu] normal.

Um grande touro de água se aproximava das costas de Masaya em alta velocidade, que se virou rapidamente para contra-atacar.

Esse ataque é mais poderoso que o [Jupiter Thunder] de Noah… Mas—

Masaya levantou uma das pernas, se preparando para um chute. O [Níu] já estava praticamente em cima dele.

“[Instant Ride]!”

Apenas sua perna se moveu diagonalmente de baixo para cima, acertando o antebraço de Karl.

Uma grande onda de choque foi gerada, desintegrando completamente o touro de água.

“… Eu perdi.”

Vendo um rasgo na [Dimensão Reversa], Karl se rendeu. Seu braço estava quebrado, sem poder usar os dois braços, não havia porque lutar mais. Sua técnica mais poderosa foi destruída, isso foi mais do que o suficiente para considerar como uma derrota para Karl.

“Aquela maldita técnica era realmente mais poderosa do que eu esperava, hehe.”

Masaya então caiu com um dos joelhos no chão. A perna que ele usou para parar o touro de água estava ensanguentada, sua bota e até mesmo sua roupa da canela para baixo haviam desaparecido.

“O que teria acontecido se você não tivesse conseguido inutilizar meu outro braço?”

“Mesmo sem uma das pernas, eu ainda iria vencer.”

A resposta de Masaya foi bem séria, ao notar isso, Karl admitiu total derrota e sentou no chão. Apesar do buraco no ombro, ainda era possível mover um dos seus braços, apesar da forte dor, mas era aconselhável não movê-lo até a [Dimensão Reversa] ser fechada.

“Parece que as outras lutas estão perto do fim também, vamos até onde a Julie está.”

“… Certo.”

Seguindo a sugestão de Karl, Masaya se levantou e ajudou ele a levantar, e os dois foram em direção ao local onde Julie estava.

 

 

Outras duas lutas ocorriam ao mesmo tempo da luta de Karl e Masaya. Uma delas era—

“Vamos, Sei-chan!”

Ao mesmo tempo que chamava sua melhor amiga, Ryoka ativou seus poderes e atirou raios de luz em direção a Thomas.

“[Mansion Number 6: Wei]!”

Thomas, no entanto, já ativava sua técnica antes do ataque de Ryoka, o que lhe deu tempo de fazer uma grande árvore sair do solo e entrar na frente dos raios de luz.

Ele sempre foi conhecido por ser muito sensível e conseguir pressentir as coisas antes delas acontecerem.

“[Water Colossus]!”

Seira, se movendo ao mesmo tempo, invocou uma grande mão de água que colidiu com a árvore.

“Hah! [Mansion Number 5: Xín]!”

Causando uma estranha pulsação na árvore, ela começou a brilhar levemente em uma cor verde claro, ao ser atingida pelo ataque de Seira, o [Water Colossus] foi absorvido pela árvore, que cresceu ainda mais por causa disso.

“O que?!”

Surpresas, a reação das garotas ficou um pouco atrasada, Thomas aproveitou para controlar a árvore, que possuía uma ponta pontuda, e dirigiu ela em direção a Seira, atingindo seu peito diretamente e carregando ela para o céu, para lança-la para longe em seguida.

Ao cair no solo com força, Seira se levantou rapidamente, sem ferimentos.

“Impossível! Nenhum ferimento?”

Olhando de perto, Thomas percebeu uma barreira de luz na frente do peito de Seira, e nas costas também.

A barreira era, obviamente, de Ryoka. O que mais surpreendeu Thomas era a barreira ser forte o bastante para parar o ataque dele sem nem ser arranhada.

Ele claramente não sabe dos antigos feitos de Ryoka, principalmente na luta contra Magna.

“[Mansion Number 3: Dí]!”

Várias raízes de árvores começaram a sair do chão, e das raízes saiam outras raízes, se multiplicando rapidamente.

“[Cold Space]!”

Seira saltou no ar e ativou sua técnica, congelando parcialmente a floresta que estava sendo criada, mas o gelo foi partido por novas raízes que estavam nascendo.

“Sei-chan, atrás!”

Com o aviso de Ryoka, Seira se virou e viu uma raiz vindo sem sua direção como um chicote, então ela atacou com seu tridente e cortou a raiz com facilidade, porém, outras raízes saíram daquela raiz e amarram um dos pés de Seira.

“?!”

Sendo jogada em alta velocidade em direção à outra raiz, Seira foi atingida nas costas e lançada em direção a outra raiz, que repetiu o processo e várias raízes ficaram atingindo Seira continuadamente, sem dar espaço para ela reagir.

Ela não estava se ferindo, no entanto, pois estava sendo protegida pela barreira de Ryoka.

Esse tanto já estava nos planos de Thomas, justamente por isso—

“Você não pode defender as duas ao mesmo tempo, não é?!”

Thomas se moveu rapidamente e apareceu na frente de Ryoka, atacando ela fisicamente. Com a palma aberta, e os dedos dobrados, ele atingiu o centro do rosto de Ryoka com a parte debaixo da palma da mão, que é a parte mais dura, e jogou ela para longe.

Enquanto isso, Seira controlou a água debaixo do solo e fez um grande pilar de água subir até onde ela estava no momento certo para atingi-la e tira-la do controle das raízes.

“Ryoka!!”

Ao olhar na direção onde sua amiga foi jogada, Seira a viu levantando.

Ryoka se levantou, com sangue escorrendo pelo canto da boca, virou o rosto e cuspiu o sangue da boca no chão.

“Eu não perderei a Sei-chan novamente, você pode me atacar o quanto quiser, mas não importa que tipo de técnica você use, não irá causar um arranhão sequer nela.”

“Ryoka… Tsc, [Cold  Space]!”

Uma forte onda de frio veio em direção a Thomas, congelando as raízes no caminho, mas Thomas não se preocupou em fugir, aquele tanto de frio não seria o bastante para congela-lo.

Seira saltou em direção a ele sem se preocupar com as raízes que saiam do gelo.

“[Mansion Number 6: Wei]!!”

Uma grande sombra cobriu Seira, era uma raiz gigantesca, como se fosse um arranha-céu, e desceu com toda velocidade em direção a ela, que continuava a seguir em frente.

Não havia preocupação, pois—

Quando a raiz estava prestes a atingi-la, foi impedida por uma barreira de luz. Seira finalmente alcançou seu alvo e o atacou com o tridente, mas Thomas estava mais do que pronto, atacando da mesma forma que antes, com a palma da sua mão, a arma e a mão colidiram… A vitória foi—

“Fraca!!”

O tridente se partiu em pedaços, fazendo Thomas acreditar na vitória.

“[Cold Space: Focus Point].”

Mas Seira apenas pontou a mão em direção a Thomas, que sentiu que seria seu fim caso não se movesse.

Focando toda a baixa temperatura em uma pequena área, Seira pode alcançar níveis incríveis.

Congelando até mesmo o oxigênio, um círculo de gelo apareceu no ar.

“[Cold Space: Focus Point]!”

Ela continuou usando consecutivamente, mas a sensibilidade de Thomas o permitia desviar bem a tempo de todas as técnicas, que apenas criavam círculos de gelo no ar.

“Não brinque comigo!!”

Thomas moveu seu braço e apontou em direção a Seira, controlando todas as raízes para se moverem de uma única vez!

Mas nada aconteceu.

“O que?!”

“Essa luta não é um contra um…!”

As palavras de Seira fizeram Thomas arregalar os olhos e olhar rapidamente na direção de Ryoka.

“[Divine Shooting Stars]!!”

Uma das técnicas mais fortes de Ryoka! [Divine Shooting Stars] transforma qualquer coisa em uma grande área em luz, que se formam como estrelas no céu e depois atacam todas ao mesmo tempo com grande poder destrutivo. As raízes de Thomas apenas serviram como combustível.

Sem ter para onde fugir, Thomas só conseguiu aceitar seu destino ao ser atingido por infinitos raios de luz.

Uma grande cortina de fumaça se levantou na área.

“[Mansion Number 4: Fáng]”

Elas só ouviram a voz de Thomas. Uma luz verde saia da fumaça.

Quando a poeira se dissipou, elas puderam ver o que estava acontecendo, o corpo de Thomas estava todo coberto por raízes que brilhavam com uma forte luz verde. As raízes foram deixando seu corpo aos poucos e entrando no chão.

“Impossível!!”

A indignação de Seira era esperada, pois… Thomas não possuía mais nenhum ferimento!

“Vocês realmente me tiram do sério!”

Irritado, Thomas falou em alto tom de voz. Na cabeça dele, Ryoka, Seira, Kuroshi e Masaya são apenas pessoas que não entendem a situação deles e querem se intrometer mesmo assim.

As duas se prepararam para o recomeço da luta, mas Thomas apenas fechou os olhos e respirou fundo.

“Você tem razão, garota de óculos.”

“…?”

“Nenhuma técnica minha seria capaz de causar dano na sua tão protegida amiga.”

Ryoka arregalou os olhos e moveu seu braço, criando um raio de luz e atirando em direção a Thomas, que teve uma das coxas perfuradas, mas ele sorriu, como se estivesse extremamente satisfeito com essa reação.

“[Mansion Number 4: Fáng]!”

“Huh!”

A voz de Seira fez Ryoka olhar assustada para ela, apenas para notar raízes que emitiam uma forte luz verde amarrando o pé dela.

As mesmas raízes que cobriram o corpo dele antes—

A luz verde cobriu o corpo de Seira instantaneamente e—

“Ah—AAAAAAAHHH!!”

Um grito de dor. Diversos ferimentos apareceram por todo o corpo de Seira. Ela ficou em um estado completamente bagunçado, como se tivesse tomado uma surra de várias pessoas, a dor impediu ela de ficar de pé, que caiu parcialmente no chão ,só se apoiando com o tridente.

“Sei-chan!!”

“Mas pelo visto você possui uma técnica forte o bastante, hahaha.”

Quando Ryoka desferiu um olhar de raiva para Thomas, notou que a ferida na sua perna já havia sumido.

“[Mansion Number 4: Fáng]!”

Uma raiz saiu rapidamente do chão e amarrou o braço de Ryoka, que foi coberta pela luz verde e no instante seguinte, havia um furo na sua perna.

“!!!”

Sangue escorreu pela perna de Ryoka. O poder daquela habilidade ficou evidente… Transferência de danos.

“Ryoka.”

Ryoka olhou para Seira, que ainda olhava para Thomas enquanto estava ajoelhada no chão. Comunicação não era necessário.

Fechando os olhos e sorrindo, Ryoka se acalmou.

O que há para me preocupar, essa garota já é mais forte que eu.

Renovando sua confiança, Ryoka abriu os olhos e olhou para Thomas.

“Está na hora de acabar com isso.”

“Concordo.”

Os dois se encararam antes de Ryoka atirar um raio de luz para cima. Isso surpreendeu Thomas, pois o ataque passou longe dele, mas—

“Agora, Sei-chan!”

“Aquilo é?!”

Círculos de gelo espalhados pelo campo—Espelhos.

Refletindo a luz o ataque de Ryoka viajou instantaneamente por várias direções.

Onde?! – Se perguntou Thomas.

Ryoka atirou o segundo raio de luz para outra direção. Vários espelhos de gelo estavam espalhados pelo campo, a precisão dela precisava ser perfeita para atingir os certos, isso é—

[Analyzer]. Se Thomas por um lado possui uma alta sensibilidade e pode pressentir certas coisas, Ryoka pode literalmente prever o futuro.

Ao mesmo tempo, os dois raios de luz atravessaram as duas pernas de Thomas, levando ele ao chão.

“Sei-chan!”

Seira saltou para o céu, mesmo com todos os ferimentos.

“[Cold Space: Focus Point]!”

Inevitável, os braços e pernas de Thomas foram congelados, Seira se preparou para jogar o tridente em direção a ele.

Mesmo que ele recupere os ferimentos das pernas, não vai evitar o congelamento.

O tridente voou em direção a sua cabeça em alta velocidade… Mas passou apenas do lado do seu rosto, criando um corte na sua bochecha e atingindo o solo atrás dele.

Se ela quisesse, poderia ter o matado.

“A luta acabou.”

Ryoka anunciou. Seira desfez o gelo do corpo dele, fazendo-o cair de quatro no chão. Havia algo que Thomas não conseguiu enxergar durante a luta por sua própria ignorância. As duas garotas na sua frente não estavam lutando com tudo. Ele nunca teve chances de vitória desde o início.

“Ryoka, como estão as outras lutas?”

“Masaya já venceu, enquanto Kuro-kun…”

Ao analisar as lutas, Ryoka desativou seu [Analyzer], afinal, ela prometeu a Masaya usar o mínimo de [Analyzer] possível.

“Ryoka?”

“Vamos até onde Julie está, Masaya e Karl estão se dirigindo para lá também.”

Sem entender muito, Seira aceitou e levantou Thomas, dando suporte a ele, para os três irem para o topo do morro.

 

 

Não sei que tipo de poder você tem, mas definitivamente não irei perder aqui.

Kuroshi confirmou isso consigo mesmo.

“Eu não ia dizer absolutamente nada, mas mudei de ideia, estou disposto a ao menos saber seus motivos… Porque você está enganando a Julie e a todos?”

A pergunta de Max foi totalmente ofensiva, ele não tentava esconder a hostilidade.

“… Não sei do que está falando, não estou enganando ninguém.”

“Está dizendo que você é algum tipo de exceção ao poder de Selina? Que o futuro que ela viu não é real? Acha mesmo que eu vou cair nessa?”

“Huh, não seja tendencioso, da mesma forma que você não quer confiar em mim, eu não tenho que confiar na sua namoradinha, quem me garante que ela não está mentindo para você?”

A expressão facial de Max se distorceu completamente ao ouvir tamanho desaforo.

“… Parece que foi um erro tentar me comunicar com alguém como você…”

“Hah, você pode dizer que eu sou um traidor que vai matar meus preciosos amigos, mas eu não posso dizer que sua namorada está mentindo que eu me torno o errado, huh? Qual parte do ‘não seja tendencioso’ você não entendeu?”

“Cala a boca e vamos começar isso de uma vez.”

Max entrou em posição de combate, provavelmente uma pose de artes marciais. Kuroshi preparou sua espada igualmente.

“Não se preocupe, irei usar minha melhor técnica imediatamente, prepare-se para sentir dor!”

Max fez questão de adicionar mais essa linha. Ao mesmo tempo, ele se posicionou, um braço na altura da cabeça, dobrado, pronto para receber o ataque, e o outro atrás do seu corpo com o punho fechado, com uma perna na frente e outra atrás, sendo a perna de trás com o pé apoiado apenas na ponta, uma postura que permitia Max girar o quadril para receber o ataque de qualquer direção frontal, mas caso o ataque viesse de trás, ele poderia tirar a perna da frente do chão e girar seu corpo para receber qualquer ataque vindo de trás.

Kuroshi não sabia, mas ele apelidou (Propositalmente) essa postura de [Postura do Tigre].

“Você fala demais.”

Kuroshi avançou em direção a Max sem mais esperas e o atacou, mas Max colocou o braço na frente da espada.

“[Mansion Number 16: Lóu].”

O braço de Max se tornou metal puro, ossos, músculos, pele, até mesmo a roupa. O barulho de metal batendo com metal ecoou pela área, e a espada de Kuroshi rachou. Usando seu braço receptor para empurrar o ataque de Kuroshi para fora, ele consegue empurrar o oponente para trás e desequilibrá-lo por um momento, criando a abertura perfeita para atacar.

Com o [Lóu] no seu outro braço, Max moveu seu corpo para frente e aplicou um soco no estomago de Kuroshi com toda a força, Kuroshi sumiu da sua vista como se tivesse se teletransportado, e uma grande onda de destruição se espalhou para a direção que ele foi jogado.

Kuroshi só parou após atingir a base de uma montanha, onde uma grande cratera foi criada por conta do impacto.

Ele não imaginava que a “técnica mais forte” de Max se referia a uma técnica de artes marciais, e não uma técnica de [Avatar de Deus].

“Kuh….Kuh…”

Caindo da cratera, Kuroshi tossiu sangue.

“Arh… Arh… Se eu não tivesse protegido a área atingida com [Reisei], eu provavelmente teria sido derrotado…”

Kuroshi se levantou e colocou uma das mãos na barriga.

Nunca pensei que um soco pudesse causar tanto estrago…

Apesar da surpresa, Kuroshi podia ter uma noção. [Avatares de Deuses] são naturalmente fortes e resistentes, dependendo do [Avatar de Deus], um soco dele pode ser muito destrutivo, e seu corpo pode ser resistente o bastante para sobreviver a uma bomba atômica. Porém, imagine que isso seja possível através do [Reisei], e que corpos de carne e osso já sejam resistentes dessa forma, Max eleva isso a um outro nível, transformando seu corpo em metal puro e aprimorando com o [Reisei]. Se carne e osso já é capaz de tanta coisa, quantas vezes mais forte isso seria se fosse metal puro?

Porém, esse ataque surpresa foi apenas uma exceção…

“Fuu….”

Kuroshi respirou fundo e exalou o ar do seu peito, pegando seu ombro e girando o braço, como se estivesse se aquecendo.

Alguns minutos já devem ter se passado desde que a luta começou, embora só esteja no começo ainda, as outras lutas já estavam no fim.

“Vamos lá!”

Kuroshi segurou sua espada com força e avançou em direção a Max.

Eu fui jogado realmente longe!

Após voar um pouco, ele finalmente avistou Max, ainda parado no mesmo lugar, na mesma [Posição do Tigre].

Kuroshi girou no ar e atacou com a espada, mas Max defendeu o ataque novamente, exceto que dessa vez a espada quebrou completamente. Por causa da quebra da espada, o movimento onde Kuroshi é empurrado e fica com a guarda aberta foi impedido. Apesar da surpresa, Max estava pronto para isso—

Os olhos vermelhos de Kuroshi foram perdidos de vista.

[Helm of Eternal Darkness]!

Kuroshi desapareceu, deixando Max sem ação. A próxima coisa que ele sentiu foi um soco no estomago, seguido de um no rosto e um chute na costela que o jogou para o céu, para então finalizar com um soco no meio da face, que jogou Max como um míssil em direção ao solo. Um vasto rastro de poeira foi gerado, junto de uma fissura no solo.

Os golpes aprimorados com [Reisei] de Kuroshi provavelmente causaram um bom estrago, já que não havia como saber onde ele ia atacar, e por consequência, não era possível defender.

Vou ter que abrir mão da espada… Mas meus punhos são mais que o bastante.

Naquele momento, todos os outros já haviam se reunido no topo do morro, junto de Julie, que apenas assistia em silêncio.

“KOUJIIII!!”

Um grito ecoou pela ilha, dissipando a poeira. Max estava de pé, com sangue saindo de ambos os cantos da boca.

Kuroshi desceu até o solo.

“Ele—!!”

Os cabelos negros de Max se tornaram brancos, e seus olhos azuis. Max aumentou seu poder até 30%.

Esse idiota! Não há necessidade de ninguém morrer aqui!

Kuroshi explodiu o chão ao se movimentar em direção a Max, o mesmo fez a mesma coisa.

Ao se aproximarem um do outro em uma velocidade incrível, Kuroshi concentrou todo o [Reisei] no punho, os seus cabelos se tornaram roxos, indicando seus 30% de poder também. Max transformou o seu punho em metal e também concentrou o [Reisei], os dois punhos se encontraram.

Uma onda de vento passou pela ilha, um terremoto veio logo em seguida, a ilha estava se dividindo em duas!

Os dois foram lançados em direções opostas pelo impacto e capotaram no chão.

No topo do morro, inquietação ocupava a todos.

“Incrível! Eles partiram a ilha em dois!”

Seira exclamou.

“Max onii-chan… Kuroshi…”

Julie parecia muito confusa. Ryoka notou o estado dela.

No campo de batalha, Kuroshi se levantou e olhou para Max, mas não o encontrou.

Acima!

Olhando para o céu, ele viu Max descendo com o calcanhar de metal em direção a ele, Kuroshi saltou para trás no último momento, e ao atingir o solo, várias rachaduras gigantescas se estenderam por todos os cantos dessa parte da ilha.

Kuroshi aproveitou o momento e levantou ao mesmo tempo seu dedo indicador e do meio.

“[Dark Sword of Death]!”

Das rachaduras, Max viu uma luz violeta, se não fosse por isso, talvez ele não tivesse reagido a tempo, mas ao saltar para trás, ele apenas viu uma gigantesca lâmina violeta destruindo completamente esse lado da ilha. Florestas, rios, montanhas, tudo se tornou apenas escombros sendo jogados para o céu.

Max estava em cima de um desses escombros indo em direção ao céu. Entre os diversos escombros, ele avistou Kuroshi o encarando.

Os dois começaram a saltar de pedra em pedra até se encontrarem e trocarem socos, pousando em outros escombros e repetindo o processo.

Kuroshi concentrou o [Reisei] nas pernas e começou a saltar de escombro em escombro em uma velocidade ainda mais alta. Max só conseguia enxergar um laser púrpuro em todos os cantos.

“… Rápido demais!”

Kuroshi repentinamente surgiu na frente de Max, que só teve tempo de colocar os dois braços na frente do corpo e transforma-los em metal. Kuroshi atacou com toda a força que conseguia exercer, a onda de choque pulverizou todos os escombros no céu e quebrou o bloqueio de Max.

Mesmo que defenda com seus braços, o resto do seu corpo fica desprotegido, se não souber balancear sua defesa—

Kuroshi girou o corpo e atingiu o peito de Max com o calcanhar, empurrando ele de volta para metade intacta da ilha.

Descendo até o chão, Kuroshi esperou Max se levantar.

Apesar de ter levantado, Max parecia exausto e bem ferido.

 

No morro, outra coisa estava acontecendo.

“Você entende o que está acontecendo, Julie?”

O tom de Ryoka era muito sério, até mesmo não usando sufixos para falar com Julie.

Julie olhou para ela assustada.

“Esqueça o Maxwell, você tem que andar com suas próprias pernas, mesmo se for para você morrer por isso, valerá mais apena do que viver como uma dependente.”

“Mas… Max onii-chan vai me proteger…”

Ryoka fechou os olhos, respirou e abriu os olhos novamente.

“Ele não vai, ele não é capaz, ele não é forte o bastante, nem maduro o suficiente.”

Karl e Thomas ficaram surpresos com as palavras de Ryoka, enquanto Julie ficou mais chocada do que surpresa, balançando a cabeça para ambos os lados lentamente, se recusando a acreditar, aquela cena de dar pena irritou profundamente Ryoka.

No momento seguinte, um alto estalo ecoou pela área, Ryoka deu um forte soco no rosto de Julie, forte o bastante para derruba-la no chão.

“Eu não escolhi uma covarde como essa para me substituir! Isso não é a Julie que nós acolhemos! Agora olhe bem para aquela luta!”

Apesar dos gritos de Ryoka, Julie permaneceu com o rosto no chão.

“Tch!”

Ryoka pegou Julie pelo cabelo e levantou a cabeça dela forçadamente.

“Olhe bem, Julie! Você precisa ver com seus próprios olhos o Kuro-kun chutando a bunda do seu irmão, você precisa ver com seus próprios olhos que esse que vai apanhar não é aquele que vai te proteger!”

A imagem de Kuroshi era refletida nos olhos de Julie.

Uns passos atrás dali, Seira e Masaya se afastaram com um sorriso congelado no rosto.

““… Assustadora.””

Os dois falaram ao mesmo tempo, em perfeita sincronia.

 

De volta a luta…

“Vamos acabar com isso, Maxwell. Use sua melhor técnica. Eu vou te destruir enquanto você usa sua melhor arma.”

Max devolveu um olhar de ódio para Kuroshi, e entrou na [Posição do Tigre].

É uma jogada arriscada, Kuroshi sabe que se for atingido em cheio novamente, a situação ficará péssima.

Mas—

Não há nenhuma chance que eu vá perder essa luta.

Isaac… Magna… Loki… Noah. Comparado as lutas que eu passei para chegar aqui, você é… Fraco.

Kuroshi não queria desmerecer Max, ele definitivamente era bem poderoso. Mas essa luta nem se compara a tensão que ele passou nas lutas passadas, em momentos onde ele não tinha certeza se sequer sairia vivo, comparado a isso, essa luta—

A vitória é certa.

Kuroshi avançou em alta velocidade, sua espada foi criada.

[Helm of Eternal Darkness]!!

Kuroshi desapareceu.

“Eu já vi através dessa técnica, KOUJI!! [Mansion Number 21: Shen]!!”

Três esferas brilhantes apareceram ao redor do pulso de Max, girando em alta velocidade.

[Shen] é uma técnica especial de Max, que o permite atingir o intangível. Nada escapa desse ataque, e por isso—

Atacando o ar, a dimensão foi destruída. Não para voltar ao normal, mas para encontrar Kuroshi, abrindo o caminho para onde Kuroshi ‘se esconde’ enquanto no [Helm of Eternal Darkness].

Não era esperado, mas Kuroshi já tinha um plano B planejado. No momento em que a dimensão foi aberta e Kuroshi foi revelado, ele lançou a espada em direção a Max.

Um dos pontos fortes de um artista marcial, também pode ser um ponto fraco—Reflexos.

Max saiu da sua postura para defender a espada, abrindo espaço para Kuroshi atacar.

Após defender a espada, Max notou que caiu no plano de Kuroshi e tentou se recuperar, mas—

Tarde demais, eu sou mais rápido!

Kuroshi já estava dentro do alcance necessário. Vindo de baixo, o punho de Kuroshi subiu com velocidade total em direção ao queixo de Max. Um gancho!

Seu queixo se tornou de metal, era impossível defender, mas ele ainda reagiu a tempo! Se seguir assim, esse não será um ataque definitivo. É por isso—

[Open: Meikai]!

A dimensão mudou completamente, o poder de Max foi reduzido para 10%!

10% vs 30%, uma diferença tão absurda que mesmo com o corpo de metal—

O ataque foi perfeitamente aplicado, lançando Max para o ar. A visão de Max escureceu…

Julie… Desculpe.

Caindo no solo desmaiado, Max estava fora de combate. A luta acabou.

A aparência de Kuroshi e Max voltaram ao normal.

Apenas um ficou de pé.

Ao olhar para direção do morro, Kuroshi esperava ver Julie, mas ela não estava lá.

Ao invés disso—

“Está pronta para voltar conosco… Julie?”

Ela já estava próxima dali, em frente a Kuroshi, que perguntou sorrindo gentilmente.

Lágrimas escorriam pelo rosto dela, um sentimento muito forte de leveza cobria seu corpo. Como se tivesse sido libertada de correntes de verdade que a prendiam.

Kuroshi conseguia ver isso nos olhos dela, por isso se sentia realmente feliz.

Ele abriu os braços para ela, e ela correu em sua direção como esperado.

Obrigado—

Apenas um agradecimento para apenas ele ouvir.

“Julie—!”

Quando ela estava prestes a abraçar Kuroshi, quem apareceu foi Thomas, entrando no caminho e empurrando ela para trás.

Thomas, o mais sensível de todos ali, sentiu um momento antes.

Um grande espinho de terra saiu do solo e atravessou a barriga de Thomas.

“Thomas…onii-chan…!”

A cara de espanto de Kuroshi e a cara de surpresa de Julie refletiam a reação de todos.

“Você…!”

Kuroshi olhou para trás ao ouvir a voz de Max, que aparentemente havia acordado, ele estava olhando para outra direção, ao acompanhar o olhar de Max—

“Aah, vocês todos são realmente muito estúpidos.”

Alguém havia entrado na área, a sua aparência não deixava duvida para Kuroshi, mesmo só tendo ouvido a descrição de Karl—

Roupa dourada, cabelos dourados, olhos dourados—

“KOGANE!!”

Max gritou o nome dele. O dragão amarelo do centro, Kogane. O assassino da irmã deles, Liliana Alberta.

Kami no Sensou – O Maior Inimigo (Volume 5: Capítulo 8)

O treinamento de Kuroshi, Seira e Ryoka continuava.

Ayane caminhava lentamente em direção a Kuroshi e Ryoka, ainda perplexos pelo ataque de antes que jogou Seira longe.

Caminhar lentamente em direção aos oponentes não condizia com o estilo de luta de Ayane, até pelos poderes dela, mas era uma ação necessária para o treinamento. Tentar de alguma forma demonstrar superioridade nem de perto seria o suficiente para fazer aquelas três pessoas recuarem, mesmo sendo uma situação de risco eles provavelmente continuariam a lutar com tudo. Mas isso não quer dizer que eles podem escapar dos seus instintos humanos, é natural sentir receio diante de uma situação assim, mesmo que não seja um sentimento forte o bastante para impedi-los de continuar lutando.

Um pouco mais distante dali, Seira já havia se levantado. Apesar de ter recebido dano, não causou nenhum ferimento no seu corpo.

Ayane olhou para cada um dos três enquanto caminhava, e depois olhou para Noah, que acenou com a cabeça positivamente. Voltando seu olhar para os oponentes, Ayane, que já estava a uma distância ameaçadora de Kuroshi e Ryoka, se moveu.

Em um instante era desapareceu e apareceu novamente na frente de Kuroshi.

Rápida…! Porém, eu posso desviar—

“?!”

Ayane, com a palma da mão aberta, atingiu a barriga de Kuroshi e jogou ele para uma distância mais longa de onde Seira estava.

Antes que Ryoka pudesse fazer algo, Ayane saltou para trás e se afastou novamente. Na verdade, Ryoka teve tempo de fazer algo, mas ficou chocada com a situação o bastante para ficar sem reação. Não pelo ataque de Ayane, mas por Kuroshi ter sido atingido por Ayane.

Ela se moveu mais lentamente que o normal, sendo o Kuro-kun com controle sobre o [Reisei], ele devia ter conseguido desviar normalmente…

Enquanto perdida tentando entender a situação, Noah deu um passo a frente.

“Não fiquem tão surpresos, o [Reisei] é parte de vocês, afinal. Seu estado psicológico pode afetar seu controle sobre o [Reisei].”

Ryoka olhou para Noah, surpresa.

“Então nós podemos não conseguir controlar o [Reisei] caso estejamos psicologicamente abalados?”

“Certo… Imagine uma pessoa comum que se deparou com uma situação onde um carro que ela não havia notado por estar distraída está vindo em sua direção, apesar de variar de pessoa para pessoa, essa pessoa em questão poderia ficar chocada com aquilo, e mesmo que sua mente funcione claramente, seu corpo pode simplesmente congelar diante daquilo e ela não conseguir desviar do carro. Funciona da mesma forma que os instintos naturais, exceto que de forma contrária.”

Qual a propriedade do [Reisei]? Ryoka não conseguia pensar em uma explicação para essa energia, apesar de entender claramente o que Noah quis dizer.

Talvez fosse como um “segundo corpo” que existe em outro plano e que é movido pela pessoa da mesma forma que o corpo real. Talvez fosse uma espécie de “alma” invisível e intocável, que existe dentro do corpo de cada um. Talvez fosse até mesmo uma “sensação”. Mas não adiantava buscar uma resposta, uma vez que nem mesmo a pessoa que está ensinando eles sabe.

“Obrigado pela explicação, era só o que eu precisava saber.”

Kuroshi voltou, junto de Seira, para o lado de Ryoka.

“Esse treinamento já está ficando um pouco preocupante, com a Ayane enfrentando nós três sem sequer usar o poder dela e tudo mais… Está na hora de mudar isso, não?”

O comentário de Kuroshi possuía um tom sarcástico, mas por alguma razão ele olhou para Ryoka ao comentar, que olhou para ele com um olhar curioso, parecia um pouco surpresa, mas também parecia entender o significado por trás daquelas palavras.

Ainda sorrindo, Kuroshi olhou diretamente para Ayane.

“Nós forçaremos você a usar seu poder.”

Ayane pensou em dizer: “Acho que você esqueceu o propósito do treinamento”, mas mudou de ideia e resolveu carregar um pouco mais a luta.

Afinal de contas, os comentários de Noah eram feitos com o propósito de tentar facilitar para os três a extensão do [Reisei] para suas respectivas armas e, eventualmente, técnicas.

Retomando a luta, Kuroshi e Seira começaram o ataque.

“[Cold Space]!”

Ativando seu [Cold Space] ao redor de Ayane, Seira forçou ela a se mover.

Apesar de ter evitado o [Cold Space] se movendo para esquerda, o que esperava Ayane era Kuroshi, que tentou atingi-la com a espada, mas como da primeira vez, ela estava desviando sem dificuldades.

“[Cold Space]! [Cold Space]!!”

Usando consecutivamente o [Cold Space], Seira começou a controlar os movimentos de Ayane.

Não é como se o [Cold Space] fosse o bastante para derrotar Ayane, porém, mesmo que por um milésimo, se Ayane se permitir congelar em algum ponto, esse atraso pode ser o bastante para mudar o fluxo da luta.

“Te peguei!”

Kuroshi finalmente conseguiu achar uma abertura nos movimentos de Ayane e ataca-la de forma com que fosse impossível esquivar.

Colocando o antebraço no caminho da espada, Ayane defendeu o ataque de Kuroshi, que gerou uma grande onda de impacto pelo local.

O [Reisei] concentrado na área atingida impediu que sequer um arranhão fosse criado na pele de Ayane, mas existia um motivo claro para ela evitar todos os ataques de Kuroshi.

O efeito da espada—A corrosão da alma.

Apesar de não ter um efeito muito forte, ser atingida muitas vezes pela espada lentamente vai destruindo a alma dela, que por consequência vai enfraquecer o seu corpo e torna-la mais vulnerável.

Forçando seu braço para direção oposta da espada, Ayane se livrou do ataque, o que deixou Kuroshi com a guarda totalmente aberta. Movendo seu outro braço em direção ao torso de Kuroshi, ela tinha tudo para dar um golpe certeiro, no entanto—

“—!!”

Se surpreendendo e saltando para trás, Ayane se afastou de Kuroshi. No instante seguinte, um raio de luz caiu onde seu braço estava antes.

Ela não precisava olhar para saber quem lançou o ataque. O sorriso de Kuroshi dizia que tudo ia como o planejado. O que se passava na sua cabeça era:

Honestamente… É algo estranho de se pensar, mas estou feliz de não ser quem mais avançou nesse treinamento. Mesmo que eu estivesse em um patamar superior, o máximo que eu poderia fazer é ajudar a mim mesmo… Mas no caso dela é diferente, na vantagem ou na desvantagem, Ryoka sempre luta por todos—Esse é o poder de uma líder!

Kuroshi avançou novamente em direção a Ayane, que tentou saltar para trás, mas parou no último momento ao notar um raio de luz caindo para onde ela estava se movendo.

Esquerda, direita, atrás, todas as rotas de fuga estavam seladas. Kuroshi só precisava atacar!

Cumprindo seu papel, Kuroshi tentou atingir Ayane novamente, que se abaixou e se esquivou do ataque. Pronta para se levantar aplicando um ataque direto em Kuroshi, Ayane tentou se mover, no entanto—

O chão que servia de suporte para ela se partiu em pedaços, uma pequena quantidade de água vinda de baixo do solo pulverizou o chão e pegou Ayane em uma armadilha.

Caindo de costas no buraco cheio de água, o que vinha do céu na sua direção era mais um raio de luz, naquela posição era impossível desviar do ataque. Quando o raio de luz chegou a centímetros do seu rosto, ele bateu em uma barreira de luz e se desfez, essa mesma barreira impediu Ayane de cair no buraco.

“Que tal nos levar um pouco mais a sério agora?”

Apesar do comentário de Kuroshi, não é como se Ayane não estivesse levando eles a sério, apenas que não fazia parte do treino usar seus poderes.

Mas Ayane entendia e reconhecia, fosse essa uma luta de verdade, ela já estaria morta. Conhecendo o poder de Ryoka, seus raios de luz atravessariam seu corpo facilmente, ela estava prestes a cair em uma poça de água, da qual Seira tinha total controle, e Kuroshi estava em uma ótima posição para fazer o que quisesse naquela situação. Foi uma derrota completa para o trabalho em equipe dos três.

Ayane se levantou, saiu da barreira e caminhou até um pouco longe dali em silêncio.

Os três acompanharam ela com os olhos, meio curiosos.

Ayane olhou mais uma vez para Noah.

“Não há muito o que se fazer, Ayane, pode seguir em frente.”

Conseguindo a confirmação que precisava, Ayane olhou em direção aos três.

“Vocês… Vocês sabem sobre Hera?”

“A Deusa dos casamentos, das esposas, da maternidade e esposa de Zeus, certo?”

Ryoka respondeu rapidamente, mostrando seu amplo conhecimento do que andou estudando nos últimos anos. Apesar de ter falado resumidamente, Hera ainda possuía vários mitos e representações diferentes, mas não era uma situação onde pudesse ter uma aula de história.

Aparentemente satisfeita com a simples resposta, Ayane balançou a cabeça positivamente e levantou sua mão esquerda até a altura do seu rosto. Mostrando a parte de trás da mão para os três, uma aura brilhante surgiu em volta de Ayane enquanto ela fechava os olhos.

“…[Shinseina Kekkonshiki].”

Uma forte luz surgiu da mão de Ayane. Mais surpreendente ainda era o fato da mão esquerda de Noah também ter começado a brilhar.

“Não é algo completamente real ainda, mas…”

Lentamente era possível ver que algo havia sido criado no dedo anelar de Ayane… Uma aliança.

Da mesma forma, a mesma aliança também surgiu na mão esquerda de Noah.

Como o próprio nome da técnica indica, o surgimento temporário do matrimônio sagrado tomava conta da atmosfera do local.

Um poder que apenas a [Avatar de Hera] poderia usar. Apesar de depender da pessoa pela qual ela está pronta para oferecer a vida, os resultados são mais do que satisfatórios.

“Vamos continuar.”

Ayane disse antes de avançar em alta velocidade na direção dos três.

As palavras de Ayane trouxeram os três de volta para realidade—A luta ainda precisava continuar.

O que uma aliança poderia fazer?

Eles logo descobririam… Da pior maneira.

Ryoka foi a primeira a agir, atirando raios de luz para selar os movimentos de Ayane novamente, mas…

Uma coisa não tão comumente vista—Um leve sorriso no rosto de Ayane.

“…[Pantheon Fortress].”

As duas palavras pronunciadas por Ayane chocou violentamente todos os três enquanto os raios de luz de Ryoka atingiam Ayane sem causar nenhum efeito.

Estendendo sua mão em direção a Kuroshi que ainda estava, Ayane deu o golpe definitivo.

“[Lightning Sword of Victory].”

A espada de trovão que se movia mais de 10x mais rápida que a luz passou pelo canto do rosto de Kuroshi, que não conseguiu realizar nenhuma ação.

Da mesma forma que aconteceu com Ayane, se fosse uma luta de verdade, Kuroshi estaria morto agora.

“Hah, não se arrependam de acordar o leão adormecido.”

Noah comentou com um grande sorriso no rosto. Provavelmente se sentindo como se ele estivesse surpreendendo a todos e não Ayane. O que é algo natural, o tipo de alegria e empolgação que você sentiria ao ver a pessoa que você ama se destacando em uma disputa.

Enquanto isso, Kuroshi, Seira e Ryoka ainda não sabiam como reagir.

Ayane, ainda não satisfeita, criou uma lança, uma lança que eles já estavam familiarizados. A lança de Zeus.

As técnicas de Zeus. As armas de Zeus. As coisas que Noah já demonstrou até então, e as coisas que Noah ainda não mostrou até hoje.

O que é seu, é meu. O que é meu, é seu. A união perfeita do casal, onde os dois podem confiar seus mais profundos pertences ao parceiro, seja isso material ou espiritual.

Normalmente um patamar inalcançável para humanos comuns, graças a natureza corrompida que todos possuem, duvidas, desconfiança, uma miríade de sentimentos negativos que podem ser gerados até mesmo pelos motivos mais estúpidos, o verdadeiro sentimento do amor que foi sendo distorcido e esmagado com o passar das gerações, mesmo em um planeta com bilhões de pessoas, poucos casais se destacam pelo quão forte sua união é.

É esse lugar que a Deusa do Casamento almeja alcançar, Noah e Ayane compartilham um sentimento mútuo que sobreviveu durante tantos séculos.

Apesar de não ser tão familiarizada com o trio, Ayane sabia que jamais perderia para esses três nesse quesito.

Principalmente em relação a—

“Vamos lá, não deixem essa demonstração de amor ser em vão, vamos continuar.”

As palavras de Ayane, carregadas com confiança e um pouco de humor, fez os três se moverem.

Pois apesar de tudo, ela realmente mostrou algo como isso para eles. O poder do [Casamento], ter acesso a todos os poderes de Noah.

Isso não seria basicamente enfrentar o próprio Noah?

Não, provavelmente seria pior.

Mas mesmo assim, em respeito a ela, os três se moveram mesmo sabendo os resultados.

 

“Hah… Hah… Estou morto…”

Kuroshi, sentado no chão e pingando a suor, estava ofegante.

Próxima a ele estava Seira, em estado similar. Ryoka também estava nesse mesmo estado, mas estava mais longe dali, esperando algo, provavelmente.

A [Dimensão Reversa] já estava fechada, então eles estavam fisicamente bem, mas há alguns minutos atrás eles estavam completamente destruídos.

A luta prosseguiu de maneira unilateral, como o esperado. Afinal de contas, olhando apenas para Ayane, eles esqueceram que por trás dela estava nada mais, nada menos que a Rainha dos Deuses.

Para piorar, o treinamento não progrediu muita coisa, pois eles esqueceram dessa parte durante a luta, e acabou se tornando mais um teste das suas capacidades de controle de [Reisei] do que o treino em si.

Atualmente eles estavam dando uma pausa para se alimentarem.

Embora Kuroshi estivesse mais interessado em beber água do que comer algo, devido a seu estado.

Após descansar o bastante, Seira notou que estava “a sós”, de certa forma, com Kuroshi. Consciente da situação, ela ficou meio sem jeito. O maior motivo era que havia algo que ela precisava dizer para ele, mas provavelmente não era hora para algo assim, não só pelo treinamento, mas por toda a situação com a Julie.

Kuroshi parecia avoado, ou ao menos era o que ele queria demonstrar externamente. Ele notou o estado de Seira, mas achou melhor não forçar esse assunto agora, por isso agia como se não notasse.

As ações dos dois entraram em perfeita sincronia para criar uma atmosfera desconfortável no local, por causa das coisas que os dois estavam fazendo, com a Seira olhando pro solo e Kuroshi olhando pro céu, mais parecia que um não sabia o que falar pro outro do que duas pessoas descansando de um treinamento pesado.

 

Longe dali, Ryoka observava os dois com um olhar de “O que diabos eles estão fazendo?”, ao olhar em uma direção totalmente oposta, ela viu Noah e Ayane almoçando… Ou melhor dizendo, Noah almoçando… Ayane estava alimentando Noah, para dizer a verdade. Por estarem agindo bem naturalmente quanto a isso, não existia uma atmosfera melosa entre eles, parecia mais algo como “Prove isso, acho que vai gostar” e “Oh, isso é muito bom! O que é isso?!”, mas para alguém que via de fora, provavelmente se sentiria enjoado, vendo o “casal perfeito” sendo feliz, até a mais feliz das pessoas reagiria com “Argh” assistindo isso.

“Hey, Ryoka-chan, o que está fazendo?”

Ouvindo uma nova voz vindo de trás dela, Ryoka olhou para Masaya, que apareceu do nada com duas pequenas marmitas em cada uma das mãos.

“Observando o casal desconforto, e o casal ‘Argh’.”

Ryoka apontou para as duas duplas respectivamente.

“Oh, entendo… E que tipo de casal nós somos então?”

Apesar de estar atrás dela e não poder ver seu rosto, Masaya notou que Ryoka se surpreendeu com a pergunta.

“C-Casal inexistente. Que tipo de pergunta é essa?!”

Ela gaguejou! Ela tentou responder a sério, mas gaguejou!!

Masaya precisou se esforçar para conter a risada.

“Bem, você estava rotulando eles por parecerem casais sentados juntos, não? Já que iremos almoçar juntos, nos olhos de quem vê de fora, pareceremos um casal também, certo?”

Ryoka virou o rosto em direção a Masaya com um olhar de surpresa. Como se sua expressão estivesse congelada, com esse mesmo olhar, ela pegou uma das marmitas, e lentamente se afastou de Masaya, até ficar longe o suficiente para ser vista como um mero ponto na distância pela perspectiva de Masaya.

“Acho que exagerei um pouco, hah~…”

Masaya se sentou sozinho e começou a almoçar.

 

Voltando para Kuroshi e Seira, nenhum dos dois falava nada. O silêncio era desconfortante, mas em breve o treinamento recomeçará e essa situação será enterrada.

Era melhor dessa forma.

Ou será que era?

Seira esteve pensando em se livrar disso que tem guardado com ela de uma vez.

Talvez não passe pela cabeça dela, mas o que ela sente já ficou bem óbvio na luta de Kuroshi contra Noah, no entanto, era algo maior que ela, e ficar guardando isso sempre para algum momento ‘especial’ poderia apenas causar mal a ela, ou mesmo aos dois.

“… Kuroshi, eu realmente preciso te dizer uma coisa…”

Os olhos de Kuroshi se direcionaram para Seira, por ela já estar olhando para ele antes, os olhos dos dois se encontraram.

Kuroshi sabia que esse momento viria cedo ou tarde, e ele esteve se preparando para isso desde que notou os sentimentos de Seira há muito tempo atrás.

Mas como ele irá responder aos sentimentos dela? Só ele sabe como irá responder.

“Kuroshi, eu—“

Naquele momento, os olhos de Kuroshi se arregalaram tamanha a impressão que ele sentiu.

“Kuroshi? O que houve?”

Por estar tão próxima do rosto dele, Seira notou a irregularidade.

“Cheiro…”

“Cheiro?”

Kuroshi se levantou rapidamente, Seira por sua vez tentou sentir algum cheiro no ar, mas tudo parecia normal.

“Nós precisamos ir atrás da Julie agora.”

“Eh?!”

Ele parecia fora de si, mas suas palavras foram certeiras. Seira se levantou e acenou para seus amigos, pedindo ajuda.

Todos se reuniram rapidamente, preocupados. Ao ouvirem a explicação de Seira e verem de perto o estranho comportamento de Kuroshi, Noah deu um passo a frente para falar com ele.

“Nós temos que ir buscar a Julie imediatamente.”

Kuroshi estava apontando para uma direção, supostamente para onde deveriam ir.

“Para lá? Kuroshi, você sabe que essa é a direção para o oceano, certo? Porque a Julie estaria lá?”

Assim que Noah perguntou, foi a vez de Ryoka entrar na conversa.

“Talvez eles tenham levado ela para algum lugar isolado para nos despistar.”

Um palpite inteligente, mas nesse caso, como Kuroshi sabe disso? Era isso que Masaya quis investigar.

“Você disse sentir um cheiro?”

Kuroshi olhou surpreso para Masaya, meio incrédulo.

“Sim… O cheiro de uma flor…”

“Flor?”

Agora todos voltaram a ficar confusos. Ele dizia nada com nada.

“Se o Kuroshi está dizendo, então talvez seja bom conferirmos…”

Seira depositava sempre sua confiança nele, não seria diferente agora.

“Você tem razão, Sei-chan. Seguiremos as direções que Kuro-kun está dando, o que vocês farão?”

A pergunta obviamente era para Noah e Ayane.

“Somos aliados, mas creio que essa luta vocês precisam vencer sem ajuda, talvez na próxima.”

“Nesse caso…”

Com a resposta de Noah, Ryoka olhou para Kuroshi, Seira e Masaya.

As coisas que Kuroshi diziam eram estranhas e confusas, mas suas ações na maioria do tempo eram as mesmas de sempre, ela decidiu seguir o que ele estava dizendo.

Talvez, e só talvez, independente de como isso veio até Kuroshi, algo poderia estar para acontecer com Julie, e eles precisam estar lá para ajuda-la. Era melhor agir e fazer algo inseguro, do que não fazer nada e se arrepender depois caso algo aconteça.

“Kuro-kun, nos mostre o caminho!”

“Sim!”

Kuroshi saltou no ar e começou a voar em alta velocidade em direção ao oceano—Em direção a ilha onde Julie estava.

Os outros três seguiram logo atrás.

Devido a altura, era impossível eles serem vistos por pessoas normais, e assim que chegaram no oceano essa possibilidade desapareceu completamente, era uma preocupação a menos.

Após pouco tempo, uma ilha apareceu a distância.

“Uma ilha no meio do nada?”

Masaya questionou, surpreso.

“Se eles estiverem lá, definitivamente escolheram bem o local. Jamais acharíamos eles normalmente.”

Apesar do que Seira disse, havia algumas alternativas para procurarem caso a situação ficasse realmente grave.

Tudo isso deixavam todos inquietos e sem saber muito o que pensar, com exceção de Ryoka.

A mente de Ryoka era muito rápida, ela já havia pensado em infinitas possibilidades. Supondo que o que Kuroshi disse seja verdade, existe apenas um resultado que ela considera provável.

Ela sabe que se alguém almejar algum mal para Julie, definitivamente não serão seus irmãos, ao menos não intencionalmente, eles amam Julie como qualquer um amaria sua família, e isso é um fato. Kuroshi parecia realmente com pressa, e isso por si só já elimina a possibilidade de ser uma ameaça externa, como algum [Avatar de Deus] inimigo que por um acaso encontrou a ilha. Por quê? A linha de raciocínio de Ryoka era simples, por mais que soubessem da ameaça e quisessem ir até a ilha o mais rápido possível, desespero não era realmente viável nesse caso, pois Julie está perfeitamente protegida, ela tinha duvidas se eles realmente precisariam ajudar a derrotar alguém com Maxwell, Thomas e principalmente Karl lá para proteger Julie, além dela ser forte o bastante para proteger a si mesma, afinal de contas, até hoje Ryoka ainda não presenciou uma Julie lutando com tudo que ela tem, vai saber que tipo de técnicas ela ainda possui guardadas?

Nesse caso, qual seria o problema? Bom, a única hipótese que vinha a mente de Ryoka era também a pior delas, o maior perigo que Julie poderia passar era se o problema fosse ela mesma.

Inimigos podem ser derrotados apenas com poder, mas se o problema for psicológico, dependendo da gravidade do problema eles podem perder Julie para sempre. Tudo bem que comparado com seus irmãos, o tempo que ela passou com Ryoka e os outros foi muito breve, mas na vida de um [Avatar de Deus], um dia é um mês, um mês é um ano e um ano é uma década, ou ao menos funciona nessa linha até onde a intensidade da vida de cada um vai. A conexão deles é forte o bastante para Ryoka acreditar que Julie não ia simplesmente abandoná-los porque confia mais no seu irmão do que nos seus amigos, pensar dessa forma seria aceitar o fato de Kuroshi ser um traidor que um dia irá mata-la sem o menor remorso, essa possibilidade é descartável.

Por isso, Ryoka acredita que o real problema é o estado psicológico de Julie, e que isso está se agravando a cada minuto, então eles precisam agir o mais rápido possível. Infelizmente o treinamento não foi concluído, mas ela confia nas suas habilidades, e nas habilidades de todo mundo que está com ela, o suficiente para não temer nem um pouco um confronto direto com os irmãos Alberta.

Ela já está assumindo que esse confronto irá acontecer—Não, esse confronto PRECISA acontecer. Noah também tinha essa noção, e por isso disse que essa era uma “luta que eles precisavam vencer sem ajuda”. Se as correntes que limitam Julie atualmente são seus irmãos, ou talvez mais precisamente Maxwell, então a melhor solução para essa situação seria destruir essas correntes.

Pode parecer um pouco cruel, mas quebrar a confiança estabelecida entre eles mostrando que eles são incapazes provavelmente é a solução mais eficaz. Todos os quatro entendem isso.

Enquanto viajava em diversos pensamentos, Ryoka notou que a ilha já estava bem próxima.

“Tem certeza que é aqui? Parece ser uma ilha deserta.”

“Não, olhe bem. Há uma grande casa de madeira entre as montanhas.”

Masaya respondeu a duvida de Seira enquanto apontava para direção que ele olhava. Graças a visão aprimorada de um [Avatar de Deus], era possível enxergar esse tanto mesmo nessa distância.

“E então, vamos descer?”

Para a questão de Ryoka, os três acenaram positivamente com a cabeça, e desceram em direção a ilha.

 

 

Algumas horas antes de Kuroshi e os outros chegarem na ilha.

“Você realmente me pegou de surpresa quando sugeriu que viéssemos para essa ilha.”

“Por mais que você seja meu irmão, eu suspeitei que você fosse contatar eles e dar nossa localização, desculpe por isso, nii-san.”

Na sala daquela casa estavam Max e Karl. Enquanto Karl olhava pela janela, Max estava sentado no sofá, em frente a uma lareira.

Quando Max mencionou “eles”, ele obviamente se referia a Kuroshi, Ryoka, Seira e Masaya. Apesar de tudo, Max ainda mantinha um tom bem respeitoso com seu irmão mais velho, que realmente passava a admiração que ele tem por Karl.

“Você tem certeza que irá seguir por esse caminho, Max? Tenho certeza que notou que o estado mental de Julie tem piorado a cada dia.”

Eles estavam de costas um para o outro, então Karl provavelmente não viu o sorriso autodepreciativo no rosto de Max.

“O que eu deveria ter feito? Deixado para lá até ela ser morta por alguém que ela considerava um amigo?”

As visões de Selina sempre foram certeiras, além disso, ela é a namorada de Max, enquanto Kuroshi é um estranho que ele nunca sequer conversou na vida, é uma situação onde é impossível para Max simplesmente confiar que Selina está errada e aquela pessoa está certa.

“Além disso, eu acredito que Julie irá se recuperar, ela é forte. Mesmo que demore um ou dois anos, ela voltará ao normal.”

Agora, isso é só um desejo fantasioso da sua parte, pensou Karl.

“Na pior das hipóteses, estou pronto para sacrificar minha vida para ficar tomando conta dela.”

“… Entendo.”

Julie não é a única que precisa de ajuda, no fim das contas…

Conversar com Max sobre isso deixa bem claro para Karl que da mesma forma que Julie precisa depender de Max, Max precisa que Julie dependa dele. E infelizmente nenhum dos dois percebeu ainda o mais óbvio disso tudo…

“Nii-san, o que você fará? Tentará me impedir? Eu não acho que eu seja capaz de vencê-lo em uma luta, mesmo que o Thomas se junte a mim, mas eu não pretendo mudar de ideia.”

Karl poderia tentar quebrar essa situação na força bruta, na verdade ele seria capaz. Ele poderia derrotar Max e Thomas, pegar Julie e leva-la de volta para seus amigos, ela provavelmente continuaria vivendo com eles como fazia antes. Mas…

“Não, eu ficarei com vocês até o fim disso.”

Não faria sentido ele fazer isso. Fazer isso não mudaria a mentalidade de ninguém aqui, é como se houvesse uma bolha e toda a família Alberta estivesse dentro dessa bolha, não é possível estourar a bolha por dentro, por isso é necessário que algo venha de fora e estoure a bolha.

Foi por isso que Karl disse “até o fim disso”, ele se referia a essa prisão mental que seus irmãos passavam. Ele foi até os amigos de Julie e contou toda a história deles para eles, na esperança que aquilo os fizesse vir até eles para salvar Julie. A melhor maneira de fazer isso, por bem ou por mal, será na base da violência, e ironicamente, Karl também precisa ser derrotado.

Espero que consigam encontrar o caminho até aqui de alguma forma… Embora seja bem improvável, considerando nossa locação.

Karl só podia torcer.

 

As horas se passaram, e o momento finalmente chegou.

“Eles vieram.” As palavras de Karl, que estava fora da casa, foram ouvidas por Max, Thomas e Julie, que estavam atrás dele.

Todos estavam unidos nesse momento por uma razão, Karl possui uma técnica de rastreamento de área, que só pode ser usada na água, e como eles estavam em uma ilha (E justamente por causa dessa técnica Max escolheu esse local), Karl rapidamente sentiu as quatro presenças se aproximando pelos céus.

“Não deixaremos eles levarem a Julie, não importa o que!”

Max anunciou vigorosamente.

Thomas parecia concordar com os sentimentos de Max, enquanto Julie parecia estar confusa com o que estava acontecendo.

Afinal, agora seus irmãos lutarão contra seus amigos.

 

 

Kuroshi e os outros desceram até a ilha, e pousaram logo em frente à casa de madeira. Surpreendentemente as pessoas que eles procuravam já estavam a sua espera.

“Vocês realmente vieram.”

Karl foi quem recebeu o quarteto, enquanto seus dois irmãos expeliam hostilidade em direção a eles.

“Nós viemos buscar a Julie, mas acredito que não será tão simples assim, não é?”

Ryoka como de costume respondeu pelo grupo, como a líder que é.

“C-Como vocês acharam esse lugar?!”

Julie estava nervosa e confusa, gaguejando e falando em um tom desbalanceado, claramente não estando no seu melhor estado.

“O cheiro da King Protea. Ela me disse que você estava passando por um processo de transformação.”

A surpresa causada pela resposta de Kuroshi foi contagiosa, já que aquilo era informação inédita até para seus amigos.

“… King Protea? Do que você está falando?”

“É o nome da flor.”

Julie obviamente não sabia que aquele era o nome de uma flor. Para princípio de conversa, ninguém se quer sabia que o tal cheiro era o aroma de uma flor, por isso todos ficaram confusos.

Todos, exceto, curiosamente, Julie.

Nessa vasta ilha de florestas, rios e montanhas, só existia uma única flor da qual ela tinha conhecimento… A flor que ela ganhou de presente na escola e trouxe para cá, que ela cuida todos os dias desde que chegou aqui.

“Você veio guiado por essa flor? Nunca pensei que fosse um romancista.”

“Cale-se”

Masaya, que estava bem surpreso, ainda encontrou espaço para o humor. É claro que aquilo não explicava nada, mas não era preciso explicações, ao menos não agora. O que era realmente importante era o que estava na frente deles.

Max deu um passo a frente e colocou um braço na frente de Julie.

“Vocês terão que passar por cima da gente para levar a Julie.”

“Era nosso plano desde o começo.”

Ryoka respondeu o tom desafiador de Max a altura.

“Como faremos isso?”

A pergunta de Karl se referia ao prosseguir desse conflito, começar uma batalha entre todo mundo juntos aqui?

“Eu quero ele.”

Max apontou o dedo em direção a Kuroshi.

“Julie, você não participará, então deixaremos a [Dimensão Reversa] por sua conta, crie a maior possível.”

“Mas Karl onii-chan…”

“É lamentável, mas não há meios de evitar essa luta, então, contaremos com você.”

Julie, ainda relutante, balançou a cabeça para cima e para baixo, aceitando a situação.

“Bem… Acho que eu terei que ser seu oponente, certo?”

Com um sorriso no rosto, Masaya direcionou suas palavras a Karl, que sorriu levemente como resposta.

“Parece que sim… Isso significa que Thomas irá lutar contra as duas damas, há algum problema?”

“Não se preocupe, não perderei para duas garotas.”

Thomas respondeu com confiança, mas suas palavras não pareceram afetar nem um pouco Seira e Ryoka.

Olhando toda a construção da situação com desprazer, Julie finalmente criou uma [Dimensão Reversa] ao redor da ilha.

“Vamos nos separar para não criar interrupções nas outras lutas.”

Karl guiou as ações dos dois grupos, fazendo todos se separarem.

Karl e Masaya foram para uma direção.

Thomas, Seira e Ryoka foram para outra.

Maxwell e Kuroshi para mais uma direção diferente.

Cada um na sua própria ‘área’ de batalha.

Falando em direções, na mesma ordem acima, eles foram para leste, oeste e sul. Todos estavam distantes uns dos outros, mas Julie, que estava no centro, subindo em um grande morro próximo da casa, conseguia observar as três áreas onde as lutas ocorreriam.

Ela se sentia péssima com o que estava acontecendo.

Seria tudo por culpa dela?

Talvez não. Mas definitivamente era por causa dela.

Os dois lados queriam o seu bem, e ela sabia disso. Justamente por isso ela não queria que eles lutassem entre si.

Mas apesar de serem [Avatares de Deuses] com superpoderes, eles ainda eram humanos. Algo bem frequente na humanidade é a capacidade de dois lados entrarem em conflito mesmo buscando o exato mesmo objetivo, tal é como funciona a estupidez humana, talvez seja uma luta sem sentido.

A diferença é um outro significado por trás dessa luta que Julie falhou em perceber.

 

 

Karl vs Masaya.

“Você é Masaya, não é mesmo? Essa luta irá decidir o futuro da Julie, e vocês precisam nos vencer… Infelizmente, vocês precisam nos vencer enquanto estamos dando o máximo de nós, por isso, irei lutar com tudo. Esteja pronto.”

Karl estava com os braços cruzados, um pouco distante de Masaya. Enquanto Masaya estava com as mãos na cintura.

“Hah… Não poderia ser de forma diferente. Já faz um bom tempo desde minha última luta, então estou um pouco enferrujado.”

“Inventando desculpas já a essa altura, heh, não tenha tanta pressa.”

“Dá um tempo, é bom ir se acostumando, pois não conseguirá acompanhar a minha ‘pressa’.”

Karl sentia uma certa animosidade em relação a Masaya, de alguma forma os dois pareciam ser os únicos não tão intensamente envolvidos nesse drama. Diferente das outras duas lutas, essa provavelmente será mais divertida do que dramática, ele pensava.

 

 

Thomas vs Seira e Ryoka.

“Espero que não nos leve a mal, por estarmos lutando em uma luta 2 vs 1.”

Ryoka comentou casualmente, com seu cajado invocado na sua mão.

“Hmph, vocês perderão de qualquer forma, tanto faz se são 1 ou 10.”

Thomas parecia confiante nas suas habilidades, conhecendo sua história, ele provavelmente treinou arduamente após a morte da sua irmã mais velha.

“Nessa luta o vencedor é o certo e o perdedor é o errado, nós não perderemos aqui. Levaremos Julie de volta.”

Seira, segurando seu tridente, apontou sua arma para Thomas.

Thomas fechou os olhos e respondeu:

“O ‘prólogo’ antes do início da luta já se estendeu demais, vamos para o que importa de uma vez.”

Palavras não eram mais necessárias, os três já estavam mais do que prontos.

 

 

E finalmente, Maxwell vs Kuroshi.

Eles estavam frente a frente, mas nenhuma palavra era mencionada.

Kuroshi conseguia sentir todo o ódio de Max por ele. Era um ódio justificável? Max sequer o conhecia, mas supostamente Kuroshi será o assassino de sua irmã. Vendo desse ponto de vista, Kuroshi não o culpava.

Mas ele aos poucos estava corrompendo Julie, a garota feliz e agitada de antes já não existia mais, Kuroshi também tinha sua parcela de raiva em relação a ele.

“Eu te desafio para um duelo, Kouji.”

Foram as primeiras palavras ditas. Kuroshi já esperava por elas.

“Acha que pode vencer?”

“Pergunte isso quando eu tiver afundado sua cara no chão.”

As ameaças de Max pouco faziam em Kuroshi, mas ele precisava dar crédito a Max pela determinação.

“Eu aceito seu desafio, essa luta só parará quando um de nós cair.”

Kuroshi invocou sua espada, seu treinamento ainda estava prematuro, mas contra um artista marcial, o alcance e efeito especial da espada irão servir como uma grande vantagem.

 

Naquele momento, sobre supervisão de Julie, as três lutas começaram.