Category Archives: Uncategorized

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 6)

É engraçado, apesar de achar que ia acordar e voltar pro colégio com os outros (ou seja lá onde eles levaram meu corpo enquanto estou desmaiado), agora estou em um lugar que não sei onde é, e olhando ao redor só dá pra ver terra plana pra todo lado. Até onde minha vista alcança não tem nada relevante que chame a atenção, exceto o fato do céu estar completamente branco. Tento me mexer pra ter certeza que tenho controle do meu corpo, e aparentemente tudo está normal.

Começo a andar pra frente sem nada em mente, já que não acho que vou conseguir “sair” daqui, porque provavelmente é só uma projeção da minha cabeça ou algum efeito colateral de algo que estejam fazendo pra melhorar minha situação lá fora. A dor que senti antes de desmaiar ainda tá aqui, bem mais leve, mas só me lembrando o estado que eu fiquei. Apesar de tudo, a habilidade da Karin pode vir a ser bem útil, e bem assustadora. Lutar contra alguém que não vai recuar por dor ou sentir fatiga é uma coisa bem medonha de se pensar, mas também é bem perigoso pra seja lá quem estiver sob efeito disso.

Por algum motivo, aqui eu sinto como se minha mente estivesse leve, quase como se nada do que realmente estava me dando dor de cabeça antes existisse, e uma… serenidade? É, serenidade. Enfim, é como se isso me atingisse em cheio. Mal quero pensar em como vai ser difícil voltar pra lá e ter que lidar com toda aquela merda de novo. Agora que paro pra pensar, me meti em muita maluquice deu uma vez só praticamente sem garantia nenhuma de que vou saber o que aconteceu com a Haruka, ou o que aconteceu naquele dia. É bem possível que isso termine com todo meu esforço sendo em vão, mas é a única chance que tenho…

Foi mal, mas vou precisar de uma coisa sua. Não liga, você nem vai se lembrar do que ouviu aqui.

A voz ecoa alto por todos os lados, como se não fosse uma pessoa falando comigo, mas sim algum tipo de ser que está em todos os lugares ou algo do tipo. É uma sensação estranha, porque apesar de estar alerta direto depois de toda essa loucura começar, por algum motivo não sinto que corro perigo ou estou intimidado por essa voz. Ela até mesmo me parece familiar… mas não consigo reconhecer. Como quando sabe que deixou alguma coisa pra trás, sente a falta dela mas não sabe dizer o que esqueceu.

De repente, como se estivesse sendo puxado para cima, um buraco branco se abre no céu, e inúmeras esferas brancas começam a sair do meu corpo em direção aquela luz. Não dói, mas posso sentir que é como se minha essência estivesse sendo sugada, tento lutar contra mas meu corpo não me obedece. Cada vez mais minhas forças vão sendo drenadas, até que então tudo para, e o buraco começa a se fechar, mas não sem antes lançar o que parece um “raio” branco na minha direção, acertando minha testa com uma força que nunca senti antes, e tudo escurece.

– – – – –

Meus olhos abrem devagar, meu corpo dolorido como se tivesse sido atropelado por um rolo compressor… duas vezes. Engraçado que não é como a dor de quando tive pedaços arrancados, ossos quebrados, ou até mesmo quase esquartejado como naquele inferno de treinamento… é mais como se minhas forças tivessem sido completamente esgotadas. Será que é um efeito colateral além dos meus sentidos quase explodindo meu cérebro?

Olhando ao redor, percebo que estou em casa, deitado no sofá da sala, coberto e a TV está ligada. Com algum esforço consigo me sentar direito, e só então sinto o cheiro forte de chocolate que está no ar, vindo da cozinha que está com a luz acesa. A Haruka vem lentamente de lá, soprando uma caneca de leve e vestindo um pijama. É um simples macacão preto, mas não sei se ninguém avisou ela quando foi comprar ou fazer aquilo que é bem apertado no corpo. As curvas estão beeeeem visíveis, mas tento desviar o olhar porque prefiro meus olhos no lugar e minha cabeça grudada no pescoço, obrigado.

Pelo visto meus esforços dão certo, já que ela não diz nada e senta do outro lado do sofá, também se cobrindo e olhando para a televisão. Estranho, eu jurava que ia levar um sermão ou alguma explicação sobre o tal treinamento, mas aparentemente ela está me ignorando completamente, então pelo jeito sou eu que vou ter que tomar a iniciativa aqui…

– Não, não precisa. Eu vou explicar, mas estava só me aproveitando dos utensílios na sua casa. Você até que vive bem pra uma criança órfã, não? – ela diz, sem nem piscar ou virar o rosto.

– … eu gostaria MUITO mesmo que você parasse de ler minha mente.

– Por que eu faria isso?

– Primeiro, porque isso é uma invasão de privacidade enorme. Segundo, porque é errado de tantas maneiras que nem sei por onde começar. Terceiro, porque vamos viver juntos por algum tempo pelo menos, então acho que seria bom pra nós dois se você parasse de monitorar meu cérebro.

– … é, faz algum sentido. Vou deixar disso, não é como se eu estivesse cavando na sua mente também, não fiquei rastreando pra achar nenhum segredo seu, pode ficar tranquilo. E caso eu suspeite que esteja escondendo algo importante, posso só se forçar a contar graças ao nosso pequeno trato. – novamente, sem tirar os olhos da televisão.

– O que diabos você tá assistindo que é tão interessante assim?

Ela não responde, só aponta um dedo em direção a TV enquanto toma um gole de chocolate. É engraçado como ela é (em teoria) uma “mandante” daquela dimensão de seres super-poderosos que poderiam acabar com a vida na Terra em um estalar de dedos, mas agora tá agindo como uma adolescente desinteressada de 16 anos.

– Um tal de “Gravity Falls”, parece bem bobinho no começo mas depois vai ficando bem profundo e pesado. Por que?

– … hã… – sinceramente, não tava esperando uma resposta séria pra isso.

– Eu imagino que você não esperava me ver agindo desse jeito, certo?

– Você não acabou de dizer que não ler…

– Não li, mas pela sua reação isso fica mais que claro pra qualquer pessoa com mais de dois neurônios. Deixa eu esclarecer uma coisa: não sou um tipo de chefe de máfia como você devia ter pensado, nem ameaço pessoas de prendê-las num satélite e lançar no espaço só porque poderia. O único motivo de todos eles me tratarem como algum tipo de “mestre” é porque estão desesperados pra reverter essa situação, e por algum motivo pensam que sou a única esperança deles.

– Espera, e por que seria? Ou melhor, por que eles pensam isso?

Mesmo só podendo enxergar uma parte do rosto dela, fica bem claro que esse deve ser um assunto delicado.

– … vamos só dizer que tem um motivo pra isso. Mas eu sei que não sou capaz de fazer isso sozinha, então precisávamos de ajuda pra ter alguma chance de reverter essa maldita maldição de torneio. Foi então que você simplesmente surgiu, sem mais nem menos, alguém com um potencial de poder desconhecido e que aparentemente evolui muito rápido.

– Então nada do que aconteceu foi planejado?

– Óbvio que não, eu já estava praticamente conformada que vencer seria uma tarefa impossível até alguns dias atrás. Mesmo que nesse momento você não seja alguém com poder suficiente pra fazer o que quero, tenho a impressão que chegará lá em breve.

– E de onde diabos vem toda essa confiança em mim?

– … não sei. Intuição feminina, talvez? – ela responde, mas algo me diz que está escondendo alguma coisa.

– Se você diz… espero que esteja certa.

– Ou estou certa, ou estamos mortos.

– Otimista você hein?!

– Estou mais pra realista. – ela dá de ombros.

Pelo jeito, nada do que eu fizer ou disser vai convencê-la a abrir o bico, e mais uma vez vou ser deixado no escuro com assuntos que provavelmente me afetam diretamente. Mas o que diabos tem de errado comigo que sempre fico de fora desses detalhes importantes, ou não noto algo na minha cara até ser tarde demais?! Acho que é melhor desistir por hoje, mas ainda vou conseguir arrancar tudo que ela possa me dizer… um dia.

– Tá, me explica aí o que tá acontecendo nessa série aí. – ela se vira pela primeira vez, um pouco surpresa pela pergunta.

– Hã… então tá né. Então, esses dois são irmãos que vão passar as férias na casa do tio-avô e…

– – – – –

São cinco da manhã, e a gente ainda tá assistindo séries. Não sei se é porque não costumo ter companhia, mas nem lembro a última vez que fiquei acordado até tão tarde, e dessa vez sinto que vou ter que pular o dia no colégio. A essa altura minhas pálpebras parecem que tão pesando uma tonelada cada, e tenho certeza que devo estar com a maior cara de morto sem nem precisar olhar no espelho.

Por incrível que pareça, a Haruka também não está 100%, e dá pra ver nas olheiras que se formaram e estão bem visíveis. Já tentei chamar ela algumas vezes, mas ou ela entrou em um transe e na verdade tá dormindo de olhos abertos, ou tá tão concentrada na TV que desligou completamente qualquer sensação do mundo real. De qualquer jeito, não acho que ela vá a lugar algum tão cedo. Acho que vou simplesmente é dormir aqui, já que praticamente nem aguento me levantar pelo cansaço.

– Boa noite. – eu digo, sem esperar uma resposta pra desmaiar no sofá outra vez.

PARAGOBALA – Capítulo 24 – Preparativos

Capítulo 24 – Preparativos

– Mas como vamos fazer isso funcionar, Vincent? Vou atuar nas sombras, investigando sozinho? Quer que eu monte uma equipe?

– Eu estava pensando em algo mais ousado amigo. Você vai trabalhar como delegado. Oficialmente.

– Como!?

– Vamos inserir a nomeação no diário oficial.

Nathan riu.

– Isso não pode dar certo… – parou de falar, olhando fixamente para frente, tentando imaginar como o plano poderia se concretizar.

– Já tenho tudo planejado. O salário não vai cair na sua conta, claro, mas me comprometo a te pagar o salário de um delegado. O que importa é que você vai assumir o comando da delegacia, e vamos ter recursos e mão de obra para alcançar nosso objetivo. Tenho amigos importantes em cargos importantes. Te protegerei a qualquer custo e…

– Pare com essa bobagem irmão. Eu estou aqui para vingar Victus e dane-se as consequências. Vou com você até o fim. Agora, me passe tudo que você tem, e me relate tudo que descobriu até agora.

***


– Senhor, já estabelecemos um novo chefe para o tráfico. Será conhecido como Xingu. Homem nosso, inteligente e leal. Tivemos sorte que muitos concorrentes acabaram se matando…foi mais fácil que o esperado. Logo agendaremos a primeira reunião com a polícia e estaremos operando com total capacidade.

– Muito bem Kiary. Conduziu muito bem nossa reconquista. Continue me informando semanalmente do andamento.

– É uma honra, senhor – disse Kiary, emocionado com um mero elogio do Chefe da tribo.

Após a saída de Kiary, Kerexu se levantou e saiu da oca, marchando em direção a floresta. Dois Índios altos e fortes, acima da média da tribo, seguravam lanças e o seguiram à distância de alguns metros. Eles ficavam o tempo inteiro na frente de sua oca, e o acompanhavam a qualquer lugar. Em certo ponto, Kerexu parou, e fez um sinal para eles voltarem até a aldeia. Os dois homens não titubearam e obedeceram. As ordens do chefe eram absolutas.

Kerexu caminhou mais um pouco, observando as árvores, até chegar em um tronco caído e sentar. Instantes depois, 5 pessoas apareceram, como se fossem teletransportadas para aquele local. Alinharam-se à sua frente e fizeram uma grande venia, apoiando um dos joelhos no chão.

– Levantam-se. O trabalho de vocês, como sempre, foi exemplar na cidade. Já colocamos um novo homem forte no controle da venda de drogas em Paragominas, e nem mesmo o comandante da operação desconfia que estavam atuando. Com esse obstáculo removido, podemos avançar.

Subodai, Tolui, Batu e Sorhatani se levantaram, eretos em posição impecável, aguardando as ordens.

– Um incidente infeliz ocorreu a algum tempo atrás. O exilado invadiu o território Kaapor, fugindo da polícia, que também transpassou o limite, e foram impedidos pelos nossos guardas de fronteira. Não sei como, mas no meio deles tinha um exaltado promotor, que teve de ser contido a socos. Certamente isso terá uma volta. Esse tipo de gente se acha acima de muitas coisas, principalmente de nós, os nativos. Um grupo está perseguindo o exilado. Certifiquem-se que ele foi capturado ou morto. E investiguem quem é esse promotor e se ele pretende fazer alguma coisa contra nós.

Kerexu fez uma pausa, inclinou a cabeça para frente, e continuou a falar:

– E tem mais um assunto que me preocupa. Alguém estava bancando Bezerro do Acre. Descubram.

Depois de uma batida de coração, os 4 já não estavam mais à vista.

***

Bal acordou assustado e se levantou rapidamente. Olhou ao redor, não reconheceu a sua casa, e começou a relembrar sua noite anterior. Sorriu ao ver Rosemari, nua, dormindo na cama. Se vestiu e saiu da casa, sem se despedir. Tinha muito o que pensar. Sabia que aquilo não era certo com a sua namorada, Clara, mas não conseguia se sentir mal por isso. A noite tinha sido fantástica. Muito melhor que o sexo com a inexperiente companheira. Rosemari era uma mulher de verdade, que sabia muito de como dar prazer a um homem. Uma autêntica fêmea. Ele queria transar com ela mais mil vezes. Bebeu uma garrafa de cerveja para dar uma apaziguada no turbilhão de pensamentos em sua cabeça e se preparou para ir trabalhar.

– Como foi sua conversa com a sua amiga?

A pergunta rompeu a concentração de Bal, que já estava trabalhando em um processo desde que chegou, a mais de uma hora. Virou a cabeça na direção de Agha, sem ter uma resposta.

– Conversam muito ontem, a noite e sozinhos? – insistiu o estágiario.

– A noite foi boa, e não te interessa.

– Pela sua cara a conversa foi boa mesmo.

Bal se levantou, irritado e apontou o dedo:

– Eu sou um homem! Sou homem. Faço coisas que homens fazem. Pare de me julgar.

Agha respondeu de bate pronto com uma coragem inesperada:

– Só se for homem sem caráter.

– Seu moleque, você não sabe nada sobre a vida adulta. Não me conhece, não sabe o que eu faço pelas pessoas! Eu ajudo um orfanato! As crianças de lá me adoram.

– Até um relógio quebrado acerta duas vezes por dia.

Bal fez um esforço para se controlar e sentou-se novamente. “Como esse garoto consegue me tirar do sério dessa maneira? Quem é ele perto de mim”.

– Fique com os seus pensamentos, e eu fico com os meus – concluiu Bal.

– Eu te avisei ontem o que iria acontecer.

– O que aconteceu ou não só diz respeito a mim.

– E a sua namorada também, não?

Bal rangeu os dentes, e não sabia o que responder.

– Eu tenho mais o que fazer! – e levantou-se e saiu da sala.

Ele não tinha realmente nada para fazer. Caminhou pelo fórum tentando esfriar a cabeça e refletindo sobre Clara. “No final das contas, só fiz mal a essa garota. É óbvio que eu não sirvo para nenhum tipo de relacionamento”.Depois de bater perna sem destino pelos corredores do edifício, chegou até a sala onde costumava trabalhar antes de virar assistente de Vincent e viu que as pessoas estavam entretidas em uma conversa. Mais precisamente, fofoca:

– “Dizem que o promotor estava perseguindo o bandido junto dos policiais…!”.

Quando perceberam que Bal estava na sala, se silenciaram e olharam.

– Bal! Como vai? Faz tempo que não vem aqui – disse João, um escrevente do fórum.

– Vou bem. O trabalho lá não é moleza, mas não me arrependo da mudança.

– Como é trabalhar com esse promotor? – Perguntou Janaína, que era a colega mais próxima de Bal nos tempos em que ele trabalhava por lá.

– Ah…quando você conhece o homem percebe que não tem nada de outro mundo. É só um profissional que entende do que faz.

As pessoas o olharam com desconfiança. A fama do Pelicano era enorme, e era tratado dentro do fórum como uma celebridade.

– O que sabe desse perseguição que ele se envolveu? Ele te contou alguma coisa?

– Não me falou muita coisa…o que vocês sabem? – perguntou fingindo desinteresse.

– A Joice do outro departamento tem uma amiga que é esposa de um policial. Dizem que o promotor quis comandar pessoalmente uma perseguição a um bandido extremamente perigoso.

– Isso não é atribuição do Ministério Público, deve ser apenas um boato. E o que esse bandido fez?

– Isso ninguém sabe…

Bal terminou a conversa de maneira cordial, e saiu de lá com muito o que pensar. “Achei que Vincent confiava em nós, já que ele nos pediu ajuda no caso do serial killer. Mas não disse uma palavra sobre isso…”. Faria o possível para investigar o caso. O primeiro passo era descobrir quem era essa tal de Joice e extrair tudo que ela sabia. O episódio da perseguição de Índio o corroía por dentro. Não tinha pesar e nem ficava ansioso ao pensar o destino de seu colega. Mas temia que alguma investigação poderia chegar até ele e as atividades do seu bando.

***

Vincent chegou no seu apartamento depois do trabalho, e viu Nathan no sofá, extremamente concentrado, observando diversos papéis espalhados pelo chão. Muitas anotações e uma bagunça generalizada, com direito a folhas coladas na parede.

– Vejo que fez algum progresso – disse Vincent.

– Teremos muito trabalho aqui – respondeu Nathan. Essa tribo Kaapor é muito peculiar. Conheci muitos povos indigenas pela região do Amazonas, mas esses são diferentes. Preciso investigar melhor, no campo. As principais perguntas que temos de descobrir são: 1) Esse suspeito é um índio Kaapor? 2) A tribo compactua com o que ele faz? 3) Se sim, qual seria o interesse dessa tribo em eliminar os bandidos da cidade?. Não sei se tudo isso se encaixa Vincent. Esse bando de justiceiros deve ter deixado mais rastros. Cometido algum outro erro. A partir de amanhã começarei a minha própria investigação.

Vincent assentiu, satisfeito. Ver a determinação de Nathan o revigorava.

– Até semana que vem vou preparar sua nomeação. A polícia daqui é muito corrupta, mas sinto que muito disso era por causa do antigo delegado que partiu.

– Tenho experiência em lidar com corruptos, com um promotor no bolso então, será um passeio no parque, disse sorrindo.

 

Após uma pausa, perguntou:

Vincent, quero saber um coisa de você. Quando acharmos os responsáveis, o que você vai fazer?

O Pelicano ficou em silêncio, e já tinha ponderado muito sobre essa questão. Sabia exatamente o que iria fazer.

– Vou levá-los à justiça. A minha justiça. Os matarei, e não de forma rápida. Está comigo?

Nathan olhou para o seu amigo, com um olhar sério e respondeu:

– Até o fim.

***

Bal chegou em casa animado. Não se passou 5 minutos, e ele estava batendo na porta de sua vizinha. Não teve nenhuma resposta. Incomodado, pegou o celular e mandou uma mensagem. Não conseguiu evitar diversos pensamentos negativos, e em sua cabeça via flashes de imagens de Rosemari com outros homens. Dizia a sí mesmo “pare de pensar besteira. Não tenho motivos para pensar uma bobagem dessas”. Pegou o celular e enviou uma mensagem a ela:

Como vai? Cheguei do trabalho e acho que daqui umas horas estarei livre. Quer fazer alguma coisa?

Antes do esperado, uma resposta chegou:

Olá querido. Hoje não estou em casa. É dia do meu culto. Só voltarei muito tarde. Amanhã nos vemos…ou então toco sua campainha quando eu chegar…se você deixar.

A mensagem deixou Bal excitado. Aquela mulher mexia com ele.

Pode tocar. Caso eu não atenda, é porque dormi, rs.

Imediatamente já começou a relembrar do sexo fantástico da noite passada, e fantasiava como seria o de hoje. O seu celular vibrou novamente, e ele foi ver a resposta de Rosemari. No entanto, a mensagem era de outra mulher: Clara.

Bal, onde está? Não falou comigo ontem. Está tudo bem meu amor? Queria muito ve-lo hoje.

Estou fazendo plantão no trabalho está noite. Marcamos algo para outro dia. Estou muito bem e com saudades.

Escreveu a mensagem quase automaticamente, de maneira fria. Preferia não pensar nas consequências e muito menos nos sentimentos da garota. A única certeza que tinha é que não sairia da sua casa hoje, e aguardava ansiosamente a sua nova amante.

– Muita saúde e muita fé para vocês. Acreditem, as coisas vão melhorar, se vocês acreditarem. Boa noite. E assim, o Pastor encerrou mais um culto, depois de um discurso inflamado. O número de fiéis só aumentava. A igreja já era pequena, e ele planeja a construção de uma nova. No próximo encontro, recolheria mais dinheiro do público, tudo em nome do Senhor. Já mentalizava as palavras, e explicaria como era importante para Deus a criação de uma igreja maior. Sua linha de pensamento foi interrompida quando percebeu Rosemari na platéia, e acenou a ela. Pouco tempo depois, ela estava a sua frente.

– Pastor, tenho muito a te contar, e a te agradecer. O senhor é muito sábio.

– Imagina. Eu apenas propago a palavra de nosso senhor.

– Eu confesso que quando me fez aquele pedido achei muito estranho…e até duvidei de você, que Deus me perdoe. Não se deve duvidar de um servo do senhor você. Agora…agora eu entendo.

– Conheceu o seu vizinho?

– Sim…e…nós nos conectamos de uma forma que o senhor não imagina! Não sei como sabia disso…mas parece que fomos feitos um para o outro. Nunca fui tão feliz! Como posso te agradecer, Pastor?

– Não precisa me agradecer…agradeça a Deus. Ele é o responsável por tudo. Eu sou apenas um meio em que ele age. Fico feliz com as suas novas.

Rosemari se despediu e foi embora, alegre. O Pastor a observou caminhar, com olhar fixo em suas nádegas. “ Eu sabia que o meu irmão não iria resistir a essa gostosa. Se já comeu, vai logo largar aquela namoradinha dele. Ele foi sempre muito reticente com essa história de pagar puta…não sabe o que perdeu, são as melhores na cama, e agora ele vai descobrir isso da melhor maneira. Ele sabe ler todo mundo, mas é inocente em relação a si mesmo. Bal, um namorado fiel, haha, faça me rir.”

Tolui examinava agachado um corpo sem vida de um índio Kaapor e disse:

– Esse aqui tem um corte na garganta. Parece que 4 morreram com golpes de Facão. O outro com uma flechada. O exilado é bom.

Subodai andou em silêncio e observou os Kaapors mortos.

– Ele atacou por trás, e primeiro matou esse aqui, falou apontando. Depois avançou contra esse arqueiro, o mais jovem do grupo, que provavelmente errou o tiro e matou aquele ali, que devia ser o segundo melhor lutador do grupo. Matou esse arqueiro e se virou para enfrentar aqueles dois que…tentaram um movimento de ataque duplo. O exilado partiu para ofensiva e matou esse, e depois se envolveu em uma demorada luta contra o líder do grupo, Ru’i, que foi morto com um golpe na nuca. O exilado tem astúcia e teve sorte. Eu vou encontrá-lo e o tratei até Kerexu, vivo.

Batu se virou e disse:

– Você vai sozinho? É melhor pelo menos irmos em dupla para garantir.

– Não. Eu vou sozinho. Começem a investigar esse promotor. Vou seguir essa trilha e em breve o encontrarei. Será interessante.

PARAGOBALA – Capítulo 23 – Fuga na floresta

Capítulo 23 – Fuga na floresta

Índio corria o mais rápido que podia no meio da floresta. Sabia que estava sendo perseguido por vários membros da tribo Kaapor, e se fosse capturado seria morto, pois era a pena destinada aos exilados que voltavam a pisar no território da tribo. Ele sabia que fugir para dentro do território Kaapor foi um movimento desesperado e arriscado, porém foi a única coisa que lhe veio à cabeça durante a perseguição repentina da polícia. Índio nunca foi um homem que pesasse muito as causas e consequências de suas ações. Homens mais ponderados, talvez tivessem se entregado à polícia ao invés de despertar a irá dos Kaapors. Índio apenas se concentrava em sobreviver, correndo com velocidade, mas sem desespero. Prestava atenção aos sons da mata, os pisões, os gritos, e o barulho das cordas dos arcos e das flechas sendo disparadas.  Ele conseguia perceber o momento exato de cada disparo, e sempre fazia movimentos irregulares na hora certa para desviar de cada flecha. Já tinha percebido pelo menos 3 índios atrás dele, mas não tinha certeza do total. Continuaria correndo.

– Maldito exilado! – reclamou Ru’i, ao errar mais um disparo de flecha. Ele havia sido encumbido de liderar a perseguição ao invasor, que foi rapidamente notado por um vigia assim que entrou no território. Com ele, totalizavam 5 índios.

Com sinais, ele comunicou aos seus companheiros para continuarem a perseguição. Eles conheciam aquele terreno melhor que o invasor, e estavam mais descansados e equipados. Era questão de tempo. As ordens eram claras: capturar ou matar.

***

Bal trabalhava em mais um processo de um menor infrator, quando o seu celular tremeu na mesa. Pegou o aparelho e viu uma mensagem de Rosemari, sua nova vizinha:


Olá meu vizinho! Te encontrei aqui! Tudo bem?

Bal ficou instigado.

“Como descobriu o meu telefone?”  – respondeu rapidamente.

“Isso é segredo” – respondeu a mulher, junto de uma figura com um beijo.

Bal costumava ficar ressabiado e nervoso com qualquer tipo de invasão a sua privacidade. Desta vez, no entanto, sorria. Percebeu que vinha mais mensagens e aguardou.

“O que acha de vir jantar aqui hoje?

Quase que automaticamente, aceitou o convite, mas se deteve.

Tenho compromissos mais tarde. Se eu conseguir sair cedo, eu te aviso.

Sempre esteja no controle, pensou.

– Ganhou algum prêmio, é? – perguntou Agha.

Bal abruptamente colocou o celular na mesa e olhou para o lado, percebendo que estava sendo observado por Agha.

– Do que você está falando?

– Do jeito que você está sorrindo ai, logo depois de ler alguma coisa no celular.

– Ah…não é nada. Uma amiga me convidou pra jantar.

– Amiga, é? Sei…

– Uma amiga sim, minha vizinha. Batemos um papo a noite de vez em quando. Coisa que a maioria dos seres humanos normais fazem – acusou.

– Até onde sei, não é tão normal um homem comprometido ficar de papinho com a vizinha. Aposto que ela não é feia…

– Quer dizer que um homem que tem namorada não pode conversar com outras mulheres? Quanta infantilidade da sua parte! Saia mais, conheça mais pessoas. Saia dessa bolha em que vive, Agha!

– Sua namorada sabe então dessas suas conversas?

– Eu tenho um relacionamento adulto com ela, onde um não tem que prestar contas ao outro…e muito menos tenho que prestar contas a um mero estagiário intrometido.

– Pensa bem no que você vai fazer, só te digo isso…meu pai também tinha muitas “amigas”…

Antes que Bal pudesse responder, Vincent adentrou na sala, com uma pasta na mão e visivelmente animado.

– Bom dia camaradas. Preciso conversar com vocês.

Bal gelou por um instante. “Sera que tem conexão com a perseguição ao índio!?”.

Vincent se dirigiu até sua mesa, e pediu para ambos se aproximarem. Abriu sua pasta e colocou algumas fotos na mesa. Explicou rapidamente do caso das mulheres que forem encontradas com o ânus suturado, e de como a investigação tinha progredido pouco, e concluiu:

– A verdade é uma só: se nós não formos atrás disso, ninguém irá. Ou só quando mais mulheres morrerem. Quero a ajuda de vocês dois para investigarmos esse caso.

Agha estava achando a situação surreal, e em vários momentos achou que fosse uma pegadinha do chefe. Aparentemente não era. Pensava no que ia falar, quando, surpreendentemente, Bal se antecipou e disse:

– Doutor, isso é muito bonito…mas investigação não consta nas nossas funções e acho que é ilegal. Em todo o tempo que trabalhei nesse fórum, nunca fiz nada que não fosse expressamente dito na lei…

– Vocês estão seguros. Ninguém saberá disso, e ninguém os punirá. É um mero trabalho investigativo, que encaminharei as autoridades competentes quando necessário. As questões que você levantou são importantes, mas existem outras de maior urgência. Quem vai proteger as pessoas de um assassino como esse? Quantas mulheres mais irão morrer enquanto nos atermos a mera formalidades legais?  Tratem isso como diligências do ministério público.

“Sei muito bem quem poderia lidar com esse tipo de marginal. Existe gente que protege essa cidade fora dos limites da lei” – pensou Bal.

– Mas eu respeito a decisão de vocês. Caso não se sintam confortáveis, posso iniciar um novo processo de seleção. Não estudei para virar um burocrata ou legalista inerte. Meu objetivo é melhorar a vida das pessoas, ajudar os que precisam ou não podem se defender. E é o que farei aqui, e preciso de gente que tenha afinidade com esses ideias.

– Eu ajudarei – respondeu Bal.

Agha fez que sim com a cabeça, quase anestesiado.

– Ótimo. Tirei cópias dos arquivos do caso para vocês dois. Usem essa semana para entenderem tudo sobre o caso, e qualquer coisa podem me perguntar.

Pouco antes de sair de seu trabalho, Bal enviou uma mensagem a Rosemari avisando que poderia ir jantar, mas chegaria tarde. Ele não tinha nenhum compromisso, porém gostava de passar a impressão de que era uma pessoa muito requisitada e atarefada. Passará a tarde lendo os arquivos do caso do assassino. Definitivamente era um serial killer, concluiu. Pensou que talvez chegará a hora de o bando dele voltar a agir, visto que o estado pouco podia fazer. Os esforços do promotor eram bonitos, mas Bal duvidava que dariam em alguma coisa. No próximo encontro, colocaria Antônio para investigar o caso.

Foi até a academia e fez um treino focado na parte superior. Queria chegar com os músculos pulsando para o encontro. Não parava para se perguntar porque queria impressionar Rosemari com o seu físico em um mero encontro entre amigos. Apenas puxava o peso, animado e ansioso.

Finalmente chegou a sua casa, tomou um banho e se arrumou para a visita. Tocou a campainha da vizinha 15 minutos depois do horário combinado.

– O senhor está atrasado – disse a anfitriã, que vestia um vestido simples, mas bonito. Ele era curto e bem rente ao corpo.

– Infelizmente sou um homem ocupado – disse com um sorriso, enquanto analisava o corpo da garota. E então, o que teremos para jantar?

Uma mesa estava preparada, com uma garrafa de vinho no centro.

– Fiz uma receita que aprendi na minha família. Pato no Tucupi.

Era um prato típico da região que Bal provará poucas vezes. O cheiro da comida lhe agradava. Sentou a cadeira e foi servido pela mulher. Gostou da sensação, e não tirava os olhos dos quadris de Rosemari.

– E o trabalho, como foi, Bal?

– Foi um dia atípico. O promotor nos pediu para executar uma nova função – revelou, se surpreendendo com a facilidade que foi revelando a informação.

– Gosta de mudanças?

– Não vou dizer que sou um fã. Minha rotina é bem estabelecida, e gosto de me mantar a ela.

– Aposto que esse jantar é uma quebra na sua rotina.

– Certamente é…mas algumas quebras de rotina são bem vindas.

Apesar de estar gostando da conversa, se forçou a tirar o foco de si, e perguntou:

– E você? Para falar a verdade não me lembro de você ter me contato o que faz.

– Eu trabalho na creche da igreja, cuidando das crianças.

– Ah a igreja…interessante. Gosta do que faz?

– Claro! Adoro crianças. Em comparação com os meus empregos anteriores, esse é uma graça de Deus.

– Foram muito ruins?

– Você se surpreenderia com tudo que eu já fiz.

Eles conversaram mais tempo, Bal explicou melhor qual era o seu emprego e sua função, e o vinho foi sendo consumido com o passar do tempo. Depois da comida ter acabado, eles ainda conversaram por mais tempo na mesa, até que Bal se levantou e avisou que tinha de ir pois já era tarde. Rosemari se aproximou, e eles se olharam de forma intensa.

– É uma pena que você já vai. Sinto que temos muito o que conversar. Sua mão foi até a de Bal, e um simples roçar de dedos despertou um instinto quase animalesco no homem. Bal agarrou o braço dela e a puxou. Rosemari o beijou de maneira intensa. Ele a levantou do chão e ela se prendeu nele com suas pernas, enquanto caminhavam até a cama. Não pensavam em mais nada, apenas eram consumidos pelo desejo. Se despiram rapidamente e a vista do corpo de Rosemari foi exuberante. Definitivamente uma das mulheres mais bonitas que já vira. Estava excitado como não estivera a muito tempo. Usava sua força para sobrepuja-la na cama, segurava os seus braços e movia o seu corpo. “Na cama, a mulher tem que ser submissa”, pensava.

Os beijos dela eram certeiros. Sabia os lugares exatos que aumentavam o seu fogo. Ele já não aguentava a vontade, e sequer pensou no uso do preservativo. Então, Rosemari o virou na cama, e em cima dele disse:

– Calma…essa viagem está apenas no começo. Foi descendo pelo seu corpo, e Bal já imaginava  o que estava por vir. Mas ela passou do ponto esperado, as mãos perigosamente perto de um local geralmente indesejado para os homens. Um misto de insegurança e expectativa o invadiram.

– Não se preocupe. Não vou enfiar o meu dedo ali. Você já viajou até a terra de ninguém?

Bal não teve tempo de responder, e em seguida teve uma das melhores sensações de sua vida.

***

Já era noite, Índio observava de cima de uma árvore a mata. Uma pessoa acostumada com iluminação artificial, provavelmente não enxergaria um palmo a frente naquele lugar. Mas para Índio, o brilho da lua era como uma lâmpada no céu. Estava muito habituado a andar na floresta a noite, e os seus olhos já estavam acostumados àquele grau de iluminação. Porém sabia que os seus perseguidores também estavam acostumados a isso. Kaapors sempre patrulhavam as florestas, seja de dia, seja de noite. Não tinha ideia de quantos quilômetros havia percorrido naquele dia, mas sabia que eles já tinham adentrado bastante na mata. A essa altura, já tinha certeza do número de perseguidores. Pretendia surpreendê-los, os atacando, pois tinha consciência que em um jogo de fôlego, os 5 venceriam cedo ou tarde. Já emboscada, ele confiava nas suas chances.

Fez uma trilha falsa da melhor maneira que conseguiu, e se escondeu no alto. Pretendia fazer um ataque rápido e letal, matar um ou dois e fugir. Se os perseguidores ainda estivessem com arco na mão, seria ainda mais fácil. Antes de ouvir ou ver qualquer coisa, os pelos de seu corpo arrepiaram. Ele sabia que estavam vindo. Dois na frente, com facões, e três atrás com os arcos, apontados para baixo, segurando as flechas, prontos para atirar a qualquer momento. Esperou pacientemente os homens passarem. Desceu silenciosamente da árvore. Em uma mão segurava uma pedra, em outra sua faca. Apressou o passo, furtivamente, e a arremessou para a esquerda. O grupo rapidamente virou naquela direção, assustado. Os arqueiros levantaram o arco e puxaram as flechas. Então, ele correu e cravou sua faca pelas costas de um deles, atravessando o coração. Empurrou o corpo para cima de outro, e atacou o terceiro arqueiro. Os índios gritaram, e os dois que portavam facões pularem em sua direção. O terceiro arqueiro, era de longe o mais novo entre eles. Índio percebeu seu espanto e o seu medo. O arqueiro disparou a flecha, que passou por cima da cabeça de Índio, e ela acertou a garganta de um dos seus companheiros. Ao mesmo tempo que ele caia, Índio matava o jovem arqueiro. 3 mortos em alguns segundos. A sorte lhe trouxe um novo cenário. Agora via a sua frente dois Kaapor. Um deles claramente parecia ser o líder, e outro já havia largado o arco e carregava sua faca. “Dois contra um? Não vou recusar” e sorriu.

Ru’i estava perplexo. Sempre comandou grupos de patrulha pela floresta, e nunca havia perdido um homem sequer. Em um piscar de olhos, tinha perdido 3. Olhou para o seu companheiro, Jandir, e fez um sinal para ele ter calma.

– Você é um homem morto exilado. Renda-se e terá uma passagem adequada para o outro mundo.

– Diga-me…vocês lutam melhor que o Acir? – respondeu Índio despreocupado.

Ru’i ignorou a pergunta, olhou para Jandir e fez um sinal com a cabeça. Iriam atacar. Cada um se aproximava devagar, um de cada lado. Quando estivessem um pouco mais perto, ambos acelerariam ao mesmo tempo e atacariam. Era um movimento clássico de combate em dupla. Enquanto o inimigo bloqueia o primeiro golpe, o segundo o mata. Índio provavelmente não conhecia os movimentos de ataque em grupo, pois só depois de certa idade os jovens Kaapor começavam a treinar em equipe.

Índio viu os dois se aproximaram, e ficou inquieto. Seu instinto dizia para se mexer, e ele não titubeou um instante sequer. Seu estilo de luta era o de contra ataque, e sempre teve frieza para analisar e esperar o erro do adversário. Mas sabia se adaptar a qualquer situação. Seu treinamento formal era incompleto, e o seu estilo se baseava puramentente na intuição. Avançou para perto de Jandir, que se assustou e atacou com um estocada. Índio fez um movimento leve de esquiva a direita, o Facao inimigo passou a milímetros do seu peito. Cravou o seu Facão na garganta de Jandir. Puxou a faca rapidamente, e se ajeitou para ficar frente a frente com Ru’i. Deu uma rápida analisada em seu oponente, e o primeiro coisa em que reparou foi se ele tinha ou não cicatrizes pelo corpo. Pela experiência, Índio entendia que cicatrizes era um sinal de um lutador experimentado e perigoso. E Ru’i tinha muitas…mas nem metade das que ele próprio ostentava.

– Parece que esse treinamento de vocês não me faz falta – disse.

Ru’i mais uma vez ignorou a provocação e atacou. Usava movimentos cautelosos, que eram rebatidos sem muita dificuldade pelo seu adversário. “ Ele talvez seja mais rápido do que eu”, pensava enquanto analisava o corpo magro de Índio, “ mas eu sou muito mais forte…” e começou a por peso em cada um dos seus golpes. O primeiro foi aparado com dificuldade, já os seguintes não eram mais rebatidos. Índio passou a desviar dos golpes, e caminhava lentamente para trás. “Ele não vai conseguir desviar para sempre” pensava enquanto atacava sem descanso. Os ataques passavam cada vez mais perto, e o próximo golpe sempre seria o fatal na cabeça de Ru’i. Depois de mais de 20 tentativas, Ru’i de um passo para trás. Seu braço ardia, e estava ofegante. Queria abaixar a arma por um instante para descansar. Antes de se decidir, Índio avançou com um golpe frontal, uma estocada em direção a sua garganta. A especialidade dele era identificar um momento de fraqueza. O golpe foi evitado com um passo para trás, e Índio continuou a atacar. Passará ele a ser o agressor. Seus golpes não tinham peso, mas vinham de ângulos impensados, e sempre com intenção fatal. Ru’i se defendia com dificuldade, e começou a colecionar alguns cortes. Cansado e ferido, não conseguia mais raciocinar direito, e tentou surpreender. Ao rebater um dos golpes de Índio, deu um passo à frente e atacou com um movimento vindo do alto. Índio recolheu o seu braço e virou de lado. A lâmina passou a sua frente, rente ao seu rosto. Completando o movimento, deu um giro, virou sua faca ao contrário na mão, e a cravou na nuca de Ru’i. O corpo logo desabou, e ele olhava satisfeito sua lâmina suja de sangue. Sorriu, esticou o braço, e começou a marcar os novos integrantes a sua extensa galeria de vítimas.

***

Vincent estava satisfeito com o desfecho da conversa com Bal e Agha. Estava ansioso com o desfecho da análise dos colegas. Fechou o seu carro e se virou para a direção do elevador,  quando repentinamente uma mão tapou sua boca e outra imobilizou o seu braço. Por um instante, sentiu pânico. Em seguida, tentou usar o seu outro braço para se desvencilhar, mas foi em vão. Foi empurrado até o chão, preso, sentiu um peso enorme pressioná-lo.

– Anda descuidado meu amigo – ouviu de uma voz familiar.

Seu braço foi solto, e o homem levantou, o deixando livre.

– Seu filho da puta! – disse Vincent, sorrindo e limpando o terno ao se levantar. Bem vindo Nathan.

Uma história de Paragobala – Caçador de Índios: O Chamamento

Autoria: autor convidado

Caçador de Índios:  O Chamamento

Num  toca  ni  mim  policial,  eu  sou  índio.  Ó  aqui  minha  carteirinha!!

Tira a mão do bolso, vagabundo! Mão na cabeça, agora!

–  Eu  cunheço  meus  direito,  tá  pensando  o  que!  Já  falei  pra  num  tocá  ni  mim!!

–  Segura esse filho da puta ô Jonas, ele está fugindo!!

E assim os dois PM’s começaram a correr atrás do indígena, ainda que cada passada dos policiais fosse suplantada por três ou quatro do fugitivo, evidenciando uma larga desvantagem em preparo físico. O índio, cada vez mais, ia se distanciando enquanto eles, em vão, tentavam acompanhar.

–  Atira na perna dele, Jonas, ele vai fugir!

–   Ora porra, atira tu! – disse com a convicção de que nenhum dos dois possuía a perícia necessária para acertar a perna de um sujeito em movimento. – Parece que não sabe a merda que dá quando mata índio nesse fim de mundo.

–   Mas… – balbuciou, engasgando nas próprias palavras, de tanto ofegar. – Eu já reportei que estávamos com ele. Se ele fugir, a gente… tá fudido… vão nos transferir pra alguma comunidade na puta que pariu.

–  Ah, então tu prefere responder por homicídio, Alceu?

–   Eu sei que não estamos em nenhuma metrópole… mas eu prefiro é MORRER do que ser obrigado a apodrecer em algum lugar na fronteira do Acre… capaz da minha mulher me deixar e voltar pra Manaus com as crianças.

Enquanto o índio praticamente já sumia de suas vistas, Alceu e Jonas finalmente pareciam ter desistido do inútil esforço que, àquele ponto, se limitava ao simples arrastar de seus pés pela areia. O cansaço não lhes permitia mais, sequer, andar normalmente. Jonas sofria, sentindo o joanete pulsar dentro do coturno e, para piorar, era obrigado a ouvir Alceu reclamando do empréstimo consignado que tomava 30% do seu salário. Mas subitamente, um som de motor começou a se avolumar atrás dos dois policiais. O extenso lavrado simbilou enquanto a poeira se levantava no horizonte, onde a estrada de terra desaparecia da vista humana.

Em poucos instantes, um vulto branco passou pelos dois. A velocidade era absurda. Havia areia subindo por toda parte, e a pressão do vento até ameaçava derrubá-los. “Caralho, entrou no meu olho!” reclamou Alceu, enquanto tropeçava e caía à beira da estrada. Somente após alguns instantes foi possível reconhecer a pickup branca que passara. O símbolo da Polícia Civil gravado nas portas lhe entregava a procedência. Já distante, cravando os pneus na terra por dezenas de metros, foi possível ouvir a frenagem do veículo, que perdurou até que outro barulho se destacasse ao final: tuft! O som seco de um corpo batendo contra a lataria da caminhonete. O índio sai embolando no chão ainda quente daquele fim de tarde. O crepúsculo finalmente dava seus primeiros sinais no horizonte.

A porta dianteira do passageiro se abre, e uma bota marrom desce ao chão com firmeza, indicando o porte físico daquele que a calça. Ainda de dentro do veículo, o delegado olha para o céu alaranjado, enquanto termina sua conversa no celular.

–  Ah, não… Não foi nada. Acho que o Regis atropelou algum bicho na estrada. Isso… Ainda estamos procurando por ele… Não tenho certeza ainda. Aham… Isso… Claro, doutor. Até mais – E após guardar o celular, comentou dentro do carro. – O juiz vai passar o final de semana fora.

O delegado, então, desceu do veículo calmamente, emanando uma simplicidade digna de um frade beneditino. Indo em direção ao indígena, estirado no chão, ele permanecia a admirar o céu crepuscular, enquanto guardava seu óculos escuro no bolso frontal da camisa.

Enfim aproximando-se, o silêncio que reinava sobre o local prontamente foi rompido pelos gritos do índio, logo que o delegado deu um belo chute em suas costelas.

–  Se fingindo de morto, né vagabundo?! – acusou enquanto gargalhava alto.

Somente então, após sinalizar com as mãos, os outros três ocupantes desceram do veículo e se aproximaram.

–  Parece que nem precisava ter reduzido tanto a velocidade, doutor. Olha esse filho da puta… ainda está inteiro – disse, com um intrigante sorriso no rosto, o indivíduo que até o momento esteve na direção do veículo.

–  Mas o objetivo não era mandá-lo para o hospital. É apenas uma pequena lição, pra ensinar a não fugir da polícia. Levanta ele aí, Durval.

Claramente o maior dentre os quatro, um terceiro sujeito se adiantou e ergueu o índio pela gola da camisa. Os pés dele balançaram no ar, desconcertados, como os de uma criança, até que todo o seu corpo encontrou apoio ao ser lançado sobre o capô da caminhonete.

–  Eu  sou  índio,  viu!!  Eu  vou  denunciar  todos  voc.

Como já diria o ditado “Ao sábio, basta uma advertência. Ao tolo, nem mesmo mil açoites”. Nesse caso, não bastou o beijo de um para-choque pra fazer aquele indivíduo entender a situação de fragilidade na qual se encontrava. Por óbvio, ele não foi capaz de terminar suas ameaças, pois, antes disso, um punho lhe deixou inconsciente após cortar o ar e acertar a ponta do seu queixo num piscar de olhos.

O fato do próprio delegado ter nocauteado aquele homem foi prontamente entendido como uma carta branca para que os demais pudessem finalmente descarregar suas aflições naquele pobre diabo. Mas rapidamente veio a advertência.

–    Se acalmem, não queremos que o índio fique cheio de marcas e lesões corporais – E enquanto o índio retomava a consciência, completou com um explícito tom de sarcasmo na voz. – Na verdade, não queremos ter que utilizar qualquer método que atente contra a dignidade da pessoa humana, só queremos conversar, não é verdade, sargento?

–  Claro doutor, só queremos algumas informações.

Naquele local estavam presentes quatro célebres figuras públicas do município de Anori, no estado do Amazonas.

O sargento George, que comandava a guarnição da Polícia Militar em Anori, era um deles. Um senhor de meia-idade que despendia energia no cultivo de um bigode. Acomodado dentro do sistema e, em geral, pouco comovível por quaisquer limites de natureza ética ou moral. Passado sujo. Presente duvidoso. Não gostou muito da chegada do novo delegado, na época; mas sendo um homem esperto, foi capaz de se adaptar com o passar do tempo.

–  Me deixa bater um papo com ele – insistiu George, enquanto puxava sua carteira de cigarros do bolso.

–     Ora,  vamos  dar  uma  oportunidade  para  o  rapaz  –  retrucou  sorrindo  o  delegado,  e prosseguiu. – Cidadão, onde seu amigo se escondeu?

–  Eu num  sei de nada  não,  dotô.  Juro.

Outro, dentre eles, era o investigador Regis. Recém empossado na Polícia Civil, havia sido transferido para Anori algumas semanas após a chegada do delegado, tonando-se o seu braço direito. Um jovem inteligente. Sua sede de justiça escondia um certo nível de sadismo. Talvez na medida perfeita para os trabalhos nos quais precisava se envolver.

–    Doutor, é melhor correr com isso – observou Regis, referindo-se às dificuldades que enfrentariam caso fosse necessário adentrar em determinadas regiões da mata, ou sair dos limites do município.

–  Quer dizer que você não sabe de nada?

–  Sei  não,  dotô.

–   Vish, ele vai querer brincar com a gente – disse novamente o sargento, enquanto tragava o cigarro.

Por fim, estava ali o Durval, chefe da Guarda Municipal de Anori. Um homem de hábitos simples, que cresceu no próprio município, com toda a intimidade com a floresta que se pode esperar de um nativo. Possuidor de feições mestiças. Filho de um ex-garimpeiro que se estabeleceu na região, Durval perdeu sua mãe, uma indígena, ainda durante a infância. Seu porte físico impressionava, com seus mais de 1,90m e 120kg de pura força. Desenvolveu um profundo sentimento de amizade e respeito pelo delegado, transformando a Guarda Municipal numa extensão das suas mãos e da Polícia Civil.

–  Durval, põe o vagabundo dentro do carro.

Sentado no branco traseiro entre George e Durval, o índio estava apreensivo quanto ao que estava por vir, afinal, ele conhecia muito bem a fama do delegado Nathan. Na verdade, todos conheciam a fama do delegado.

–   Tudo bem, presta atenção. Você tem até a próxima bifurcação pra dizer o que eu quero. Se disser, bom. Pegaremos o caminho da direita e iremos à delegacia. Acaba por aí. Se você não disser, pegaremos o caminho da esquerda. Mas eu quero lhe avisar uma coisa. Independente do caminho que este carro tomar, você vai falar o que eu quero saber. Mas há uma diferença: se tomarmos o rumo da esquerda, eu não vou me contentar com a informação. Você vai sofrer por cada segundo que me fizer desperdiçar.

O índio engoliu seco, com uma expressão de terror estampada no rosto. A calma e naturalidade com que todos os outros se portavam, naquela situação, apenas lhe deixavam mais atemorizado. Sem gritos, sem solavancos. Ele até estava confortavelmente sentado. Mas a frieza no tom em que a ameaça fora pronunciada, era pior que qualquer outra coisa. Penetrava em sua alma como sensação de certeza absoluta. A inquietação começou a tomar conta quando os dois caminhos no fim daquela estrada tornaram-se visíveis. Ele se retorcia em dúvidas por não saber a quem deveria temer mais: o traficante ou o delegado.

*********

Desde que o delegado Nathan chegou em Anori, há dois anos, a delegacia do município já acumula dois “Prêmios de Eficiência” consecutivos, conferidos pela Secretaria de Segurança do Estado anualmente. E não apenas isso. Logo após seu primeiro ano, o delegado ganhou o título honorífico de “Cidadão Anoriense”, concedido em raras oportunidades pela Câmara Municipal de Vereadores à pessoas cujos feitos marcaram a história da cidade.

Não sem qualquer motivo, diga-se. Desde que chegou, Nathan hasteou duas grandes bandeiras: a guerra contra a corrupção e a guerra contra o tráfico de drogas.

Contrário ao que o senso comum possa imaginar, o combate à corrupção foi o menor dos desafios. Os políticos e servidores públicos locais não eram acostumados com uma polícia disposta a agir. Soma-se a isso o fato de que o juiz da comarca detestava corrupção tanto quanto Nathan. Assim, bastaram algumas interceptações telefônicas, alguns mandados de busca e apreensão, alguns testemunhos e pronto. O prefeito e o vice-prefeito, o presidente da Câmara Municipal e mais um terço dos vereadores, além de uma larga parte dos servidores da prefeitura: todos presos preventivamente e afastados de seus respectivos mandatos eletivos. Tudo por uma delegacia pequena e mal equipada. A repercussão midiática o tornou em um pequeno super star local.

De outro modo, o mesmo não poderia ser dito sobre o combate às drogas. Um ponto mais sensível e problemático, notadamente  pela íntima relação entre o tráfico e grupos indígenas locais.

De nenhum modo se pode negar que os índices de apreensão de narcóticos – bem como a prisão de pequenos e médios traficantes – subiram a níveis estratosféricos após a sua chegada, mas Nathan nunca se conformou com meros índices estatísticos. Ele possuía plena consciência que tudo aquilo não passava de uma rasa camada do problema. Seria inútil remover a secreção se a infecção não fosse combatida. Mero desperdício do esforço alheio. A verdadeira força do tráfico na região, que dispunha de farta mão de obra, era em quem queria pôr as mãos. A causa da infecção.

Mas, para isso, algumas fronteiras precisaram ser cruzadas.

A polícia vivia em larga desvantagem. Era um jogo em que somente um dos lados precisava seguir as regras. De algum modo, Nathan precisou retomar o equilíbrio à balança dessa disputa. A pouca mão de obra, o pouco recurso, o suporte escaço. Isso precisou ser compensado.

Para isso, criou seu próprio código moral de conduta. Algo que lhe ajudasse a se manter eficiente, mas o impedisse de perder os escrúpulos e o respeito próprio.

No caminho em que seguiu, Nathan comprou peculiar inimizade com grande parte das comunidades indígenas locais, todas envolvidas nos esquemas do tráfico, direta ou indiretamente. E nessa quebra de braço, o delegado se rebaixou ao último dos níveis de seu código. Disseminou o terror pontualmente, estrategicamente, coordenadamente, até que seu nome fosse sinônimo de medo, causando calafrios em qualquer índio que tivesse o que esconder. Não à toa, ele foi contemplado com um apelido que passou a ser sussurrado nas vielas de Anori: Nathan, o caçador de índios.

E finalmente, após desmantelar peça por peça, após se infiltrar e intimidar cada nível, um por um, e após sujar as mãos incontáveis vezes, o delegado enfim encurralou o cabeça de todo o esquema de tráfico da região. Um dos maiores do Norte. Marreco era como o conheciam. Um verdadeiro Pablo Escobar da Amazônia, responsável pela entrada de drogas pelas fronteiras de Roraima, distribuindo por todo o país. Famoso pela sordidez e pela inteligência, era um homem peculiar.

O momento era de excitação para toda a corporação.

*********

–   Devo admitir que não achei que ele abriria o bico apenas com ameaças – disse o sargento enquanto ria.

–   Bom, foi uma péssima notícia descobrir que o Marreco está abrigado dentro de uma tribo indígena. O que faremos, doutor?

O relógio na parede marcava 18:25. Aquele havia sido um longo dia, mas ainda estava muito longe de terminar. Nathan permanecia sentado atrás de sua mesa, imóvel e silencioso, enquanto considerava com muito cuidado seu próximo passo. Regis insistia num diálogo, mas não obtinha qualquer resposta. Estavam todos aguardando um pronunciamento. Por alguns instantes um quase-silêncio ensurdecedor era orquestrado pelo tic-tac do relógio e seguido pelo ruído do motor do ar-condicionado, que se apropriaram do ambiente. Então, sua voz irrompe:

–  Eu não posso exigir que vocês me sigam no próximo passo que darei. Por isso… – Deu uma pequena pausa, conferiu as horas no seu relógio, e prosseguiu. – Quem não estiver disposto a ir até o fim, pode ir para casa agora.

Nathan não encarou ninguém em particular, apenas abaixou a cabeça e esperou por poucos segundos. Por assim dizer, aquilo não passava de uma formalidade, pois conhecia bem aqueles três homens. Regis, George e Durval se entreolharam em silêncio. Apesar do aviso

amistoso do delegado, todos naquela sala já sabiam o que viria a seguir; todos estavam ansiosamente esperando por aquilo.

–   Se vocês insistem, é melhor se preparar, porque nós vamos entrar naquela porra de aldeia e arrastar o Marreco de lá!

Um leve sorriso brotou no rosto deles. Afinal, ainda que cada qual possuísse suas próprias motivações para prosseguir naquilo, é certo que em todos eles fervia o sangue, em euforia, todas as vezes que uma oportunidade desse nível surgia. Era um vício em adrenalina, de certo modo.

–    Prestem atenção: todo mundo vai voltar imediatamente para casa, e deixar lá o celular ligado com o GPS e serviço de localização do Google ativados. Os aparelhos podem ser rastreados, inclusive pelo IMEI, e pode ser um álibi a mais, caso venhamos a precisar.

Após esse aviso, o delegado começou a passar as instruções:

–  Sargento, nós não podemos fazer isso com as armas da corporação, pois se for preciso atirar as cápsulas poderão ser identificadas e relacionadas a nós; por isso eu quero que você providencie quatro fuzis anônimos, numeração raspada e supressor. Durval, você será nosso guia, certifique-se de que realmente sabe chegar nesse lugar. Regis, prepara aquela caminhonete que foi apreendida ontem e traz capuz preto pra todo mundo. Aliás, todo mundo de preto. Nos encontramos às 23:00 na saída da cidade. E lembrem-se, quanto mais complexa uma mentira mais difícil será sustentá-la, então não deem satisfação e não inventem histórias desnecessárias. Apenas façam o que precisam fazer, sejam discretos, e estejam lá no horário. Vamos acabar com isso.

**********

Nathan chega em casa. São 18:53. Mais uma vez, ele lembra de haver se esquecido de comprar as lâmpadas. Já faz três semanas que o único cômodo iluminado da casa é a cozinha, e quando a noite surge – o único horário em que geralmente está em casa – a escuridão é total. Mas ele não parecia se importar muito; pelo contrário. Se sentia relaxado naquele ambiente, além de não demorar até seus olhos se adaptarem à baixa luminosidade.

Ele caminhou até o armário da sala, carcomido por cupins, puxou uma garrafa de whisky sem rótulo e um copo, encheu um dedo e virou a dose. Encheu outro dedo. Seguiu até o seu quarto e abriu a cortina da janela, sendo agraciado com uma vista privilegiada, por estar na cobertura de uma pequena pensão de quatro andares. Ele se abaixou na frente do guarda- roupas, retirou a última gaveta e puxou um notebook do fundo. Então foi até sua mesa e sentou, abrindo o notebook.

░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

░░░░

Unlocking the disk /dev/disk/by-uuld/5a99f4eb-2ce1-4345-b792-

2e7350044c37(sda5_crypt)░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

░░░░

Enter passphrase: ******************************************** ░░

░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

░░░░░░░░░░░░

Decrypting  Data

░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

successful

░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░░

………….Connecting  network…………..initializing  OpenVPN……

……………………initializing TOR………………………….

……………………………………………………………..

………..Establishing  VPN  over  TOR  over  VPN  connection……………

……………………………………………………………..

………………………CONECTED………………………………

……………………………………………………………..

<Client   OTR   Messaging   LOGIN:   *****************************************>

<ONLINE>

“Agora só me resta esperar e torcer para que ele apareça” pensou Nathan.

Ele não conseguia parar de pensar no absurdo que seria caso tentassem entrar em um lugar daquele tamanho sem fazer a menor ideia de onde o alvo esteja. Talvez os outros não tenham se apercebido, mas a aldeia indígena para onde iriam é do tamanho de uma vila. Seria praticamente impossível atingir o objetivo com discrição, e o delegado definitivamente não gostava de contar com a sorte. Ele tentava se precaver.

Ele virou a segunda dose.

Não havia muito o que ser feito, por enquanto. Ainda faltavam mais de duas horas para as 23:00 e, provavelmente, o álcool começava a fazer efeito, lhe induzindo num estado de nostalgia. Nathan estava em pé, olhando através da janela a imponente lua cheia que abrandava a escuridão daquela noite. Ele sentia seu coração aquecer ao relembrar do seu passado. Que saudade sentia da sua família e dos seus amigos.

Lembrava do orgulho que seus pais sentiam pelo filho que saiu das favelas do Recife para os bancos da Faculdade de Direito da universidade federal. Sua mãe, com um sorriso de ponta a ponta no rosto, fazia questão de lembrar que do mesmo lugar haviam saído nomes como Pontes de Miranda, Nilo Peçanha e Joaquim Nabuco. Quando indagada sobre quem seriam essas pessoas, não sabia responder, mas retrucava que foram pessoas importantes. Havia lido na internet.

Um profundo arrependimento lhe causava embrulhos no estômago toda vez que lembrava da vergonha que sentia de sua origem humilde. Quantas vezes havia evitado apresentar os pais, semianalfabetos, aos amigos do colégio – colégio que, apesar da bolsa, era pago a duras penas pelos mesmos pais semianalfabetos. Sua mãe, diarista, trabalhava incansavelmente de segunda a segunda, e seu pai fazia bicos, do jeito que fosse possível, para ajudar a cobrir as despesas da casa. A integridade e dedicação deles não poderiam ser nada menos do que motivo de orgulho. “Coisa de moleque estúpido” dizia a si mesmo, com a convicção de que seus pais são aquilo de mais precioso no mundo para ele.

Nathan prosseguia divagando em pensamentos, hipnotizado pelo luar, quando recordou dos tempos de treinamento. Desde sua infância, quando brigava na rua, à caminho da academia de jiu-jitsu, por ser chamado de “Naty” ou “Natália” pelas outras crianças, até as disputas no campeonato brasileiro. Lembrava com carinho até mesmo das inúmeras lesões.

Mas sem dúvida, o período mais marcante de sua vida foi o tempo de faculdade. Nathan estampou um grande sorriso no rosto ao recordar das amizades verdadeiras que pôde cultivar nesse momento da vida. Talvez as únicas. Ele sempre achou que seus amigos – cada um do seu modo – eram pessoas brilhantes, e realmente foi capaz de aprender um pouco com a paranoia que cada um deles possuía. Ainda assim, ele tinha algo a se gabar: foi o responsável por tê-los apresentados às artes marciais e ensinado um truque ou dois. Era um grupo e tanto.

Infelizmente, após o curso, eles se dispersaram pelo país. Nathan foi o único que não soube exatamente o que fazer após a graduação. Se sentia obrigado a ajudar em casa, razão pela qual começou a trabalhar numa firma de advocacia. Mas ele sentia nojo daquilo. Na verdade, ele nutria certa desilusão por todo o sistema.

De todo modo, as vezes a vida toma rumos inesperados. Ele quase não acreditava que estaria ali, hoje, porque um dia precisou de dinheiro para pagar o tratamento de saúde da mãe. Uma longa história, envolvendo o SUS e uma briga judicial, que nem gostava de relembrar.

~~PLING!!~~

Nathan, que estava escorado na lateral da janela, rapidamente se virou e olhou para a tela do seu notebook.

DT_Master Online.

Ele limpou do rosto as lágrimas que haviam escorrido, um pouco relutante, e perguntou a si mesmo a quanto tempo estava chorando. “Droga, pareço uma menininha” pensou. Tomou assento em sua mesa e retomou o foco.

RedHunter [20:49:12]: Preciso de um  favor.

DT_Master [20:51:07]: ok, adoro ter dívidas para cobrar dos outros 🙂

RedHunter [20:51:46]: Eu tenho um número de telefone: +55(92)9527-5088. Pertence a Antônio Andrade da Costa, vulgo Marreco. IMEI: 829187463290948. Tendo essas informações, com  qual precisão você consegue rastreá-lo?

DT_Master  [20:52:37]:  se  ele  for  um   rato  qualquer  usando  android  com   os frameworks  padrões  do  google,  com  uma  precisão  de  poucos  metros

RedHunter [20:52:55]: Sensacional. Preciso encontrar essa pessoa.

DT_Master [20:54:12]: hmm

RedHunter  [20:54:39]:  Provavelmente  ele  está  sem  sinal  da  operadora,  pela localidade,  mas  dá  para  encontrá-lo  pelo  GPS.

DT_Master [20:55:18]: jura? me ensine mais sobre isso 🙂

RedHunter [20:55:27]: Desculpe.

DT_Master [20:56:09]: vou precisar de algum tempo

RedHunter [20:56:32]: Tudo bem, mas eu não quero apenas a informação. Quero que  me  guie  em  tempo  real  até  ele.

DT_Master [20:58:24]: hmm

RedHunter [20:58:49]: Quebra  esse  galho.  Quando  chegar  a  hora,  vou  te dar acesso  à  minha  localização  e  você  me  guia.

DT_Master [20:59:11]: como vc pretende que eu faça isso? RedHunter [20:59:18]: Chamada  via satélite. Criptografada. DT_Master [20:59:36]: esses dados não passam pela rede TOR

RedHunter  [20:59:49]:  Pelo  amor  de  Deus.  Você  não  precisa  se  ocultar  de

mim.

DT_Master [21:00:25]: não  seja  tão  egocêntrico  minha  preocupação  ñ  é  com  vc

RedHunter [21:01:03]: Nós dois sabemos que se alguém pode se fuder nessa história, serei eu. Você consegue permanecer anônimo.

DT_Master [21:01:22]: xD

RedHunter [21:01:38]: Até  as  01:00  horário  de  Manaus  estará  tudo  pronto?

DT_Master [21:01:52]: sei lá que porra é o horário de manaus

RedHunter [21:01:58]: 02:00 horário de brasília.

DT_Master [21:02:06]: hmm. Ok, pode ser

RedHunter  [21:02:15]: Não  fura  comigo.  É  questão  de  vida  ou  morte.

DT_Master [21:02:26]: rlx 🙂

RedHunter [21:02:32]: Fico te devendo.

DT_Master [21:02:49]: 😉 AFK

DT_Master Offline.

Estava aliviado. Foi mais fácil do que imaginava, mas isso só o fazia imaginar que tipo de contrapartida sórdida lhe seria cobrada depois. Não importa agora. Desligou o notebook e o guardou. Sentado na borda de sua cama, concatenava os próximos passos a serem seguidos. Dentre eles, talvez um fosse o mais importante.

Começou a procurar algo com o braço embaixo da cama, como quem tateia no escuro, até que conseguiu puxar uma pequena caixa de metal. A caixa possuía uma trava nada sofisticada que abriu com o primeiro sopapo que Nathan deu sobre a tampa. Dentro podia ser visto uma diversidade de celulares e smartphones. Oito ou nove deles. Remexeu até encontrar o seu Nexus 5x rodando CopperheadOS. Daria conta do recado.

Aquela maldita cãibra na perna esquerda voltou a atacar. Acontecia toda vez que ele ficava nervoso. Começou a se alongar, mas não demorou até que o alongamento evoluísse para uma sessão de sparring. Ele dava socos e chutes no ar, em movimentos muito rápidos, enquanto se movia pela casa. ~ Jab, direto, cruzado. Jab, direto, jab, gancho. Chute rodado. Jab, direto, joelhada ~. Era uma verdadeira terapia para ele. Descarregava aquela pressão que estava sentindo.

Após alguns minutos e depois de quase quebrar alguns objetos pela casa, ele finalmente parou. Deu um profundo trago no ar a sua volta, retomando o fôlego. Checou no relógio e se assustou com as horas, pois iria caminhando até o local de encontro. Ele se apressou em tomar banho e começou a preparar tudo o que pretendia levar. Conferiu duas vezes. Saiu pelos fundos do terreno, todo de preto, vestindo uma jaqueta com capuz que cobria seu rosto. Talvez uma aparência suspeita, mas a noite era pouco movimentada, como de costume, e as únicas testemunhas eram os cachorros que vagavam pela rua. O clima estava estranhamente ameno para a região. Frio, segundo alguns.

22:58.

Quando chegava à saída da cidade, Nathan já pôde avistar a velha Hillux preta estacionada na beira da estrada. Se aproximou e entrou no carro. Todos já estavam ali dentro. Não conseguiu deixar de notar que toda euforia e excitação já havia se esvaído daqueles homens e somente a tensão lhes fazia companhia. Todos os três tinham o rosto gravado por um misto de ansiedade, adrenalina e medo. O delegado também possuía sentimentos semelhantes, mas tentava transparecer tranquilidade e confiança. Se tornava cada vez mais óbvia, com o passar do tempo, a situação de perigo em que estavam se metendo.

Eles finalmente partiram. Era uma longa viagem. Quase 01h45m de carro, somado a mais 20 minutos de caminhada na mata.

–   Já estamos quase no meio do caminho e eu quero passar algumas instruções para vocês. Primeiro, isso não é uma chacina ou execução. O objetivo é trazer o Marreco, e quem mais for possível, VIVOS!

O sargento George claramente se incomodou, sussurrando alguma reclamação para o Durval, que estava ao seu lado. O delegado prosseguiu.

–  Segundo, não atirem nos malditos nativos!

E novamente o sargento se balançou no banco de trás, soltando alguns murmúrios.

–    Mas a terceira regra é a mais importante – Disse enquanto se virava, olhando para o sargento com uma cara de impaciência. – Se suas vidas estiverem em risco, esqueçam as regras anteriores. Não sabemos em quantos eles estarão, mas certamente o Marreco não estará sozinho. Se for necessário, não exitem em matar, índio, branco ou preto.

E finalizou Natham:

–   Nós estaremos encapuzados e todas as armas estão com silenciadores. Provavelmente vão achar que somos alguma facção rival. Então sejam discretos! Quanto menos falarem, menor será a chance de ter a voz reconhecida num eventual futuro. Alguma pergunta?

O silêncio do grupo respondeu a indagação. Estavam todos concentrados e prontos para irem até o final.

**********

O brisa fria da floresta lhe abraçava num sentimento pouco aconchegante. Nathan era uma mancha negra que se esgueirava em meio à escuridão. Segurando sua metralhadora junto ao corpo, ele finalmente contemplou o interior daquela aldeia. Um ambiente pouco organizado que, salvo por uma grande maloca, quase ao centro, se resumia a  diversas pequenas edificações de madeira, que se espalham pelo vasto descampado.

Através de um ponto em sua orelha, pareado ao celular por bluetooth, ele se comunicava com DT_Master, que o guiava em sua caminhada solitária até o alvo. Se movia com destreza, fazendo transparecer o extenso currículo onde se incluem diversos cursos da Força Tática da Polícia Civil. O delegado conseguia ouvir alguns roncos vindo das ocas pelas quais passava, mas os ruídos de bichos e insetos se sobressaíam, chegando a incomodar.

Notou que estava deixando a área mais densa, ao ponto que todas as habitações estavam bem atrás dele, exceto por uma única oca, semelhante a uma pequena cabana. Em seu interior, ela ostentava um brilho opaco e amarelado, típico da luz de velas; estava bem afastada do restante da aldeia, guardando posição nas fronteiras daquele assentamento, na divisa com a mata fechada.

Pelas coordenadas que estava recebendo, certamente ele estaria lá. Nathan se aproxima cuidadosamente.

Mas os planos do delegado vão por água abaixo no exato momento em que a porta daquela cabana se abre. De dentro não saiu alguém desprevenido. De lá surgiu uma pessoa que, ignorando a absoluta escuridão que reinava, foi capaz de olhar dentro dos seus olhos desde o primeiro instante. O largo sorriso daquele homem exalava confiança, destacando seus dentes grandes e amarelados que brilhavam ao luar.

“É ele” rapidamente concluiu o delegado. Sua mente entrou em loop. Tinha segundos para agir. Talvez menos. Sua primeira reação foi procurar por armas nas mãos do inimigo. Nenhuma. “Vou matá-lo” foi o terceiro ou quarto pensamento que lhe veio nessa fração de segundos. Num movimento rápido, preciso e único, Nathan subiu a mira do rifle ao seu olho direito. A cabeça dele estava bem no alvo. Só faltava apertar.

“Merda”. Foi a única coisa que lhe veio à mente quando ouviu o estalo de meia dúzia de armas sendo engatilhadas em sua retaguarda. Aquele maldito sorriso amarelo ainda estava sob sua mira. Ele pôde ver os lábios do alvo começarem a mover.

–   Doutor Nathan!! Mas que honra recebê-lo. Não seja tão hostil e baixe sua arma. Ninguém sairá ganhando se nós dois morrermos. Não é mesmo?

O delegado, que até então estava apoiado sobre um joelho, em posição de assalto, se colocou em pé, tirou o capuz e largou o rifle. Alguém rapidamente se aproximou, por trás, e recolheu a arma do chão. Hora de entrar em pânico? Jamais. Nathan limpou sua mente, deu um suspiro, e abriu um amigável sorriso. O barulho dos insetos, que por alguns instantes passaram desapercebidos, logo voltaram a lhe incomodar.

–  Posso lhe perguntar algo? – indagou o delegado, sorrindo.

–   Como eu sabia? – disse Marreco, já antecipando a pergunta. – A mesma pessoa com a qual você conseguiu minha localização. Eu diria que não foi uma escolha inteligente soltá-lo tão cedo. Cheguei a desconfiar, de tão inesperada que foi uma burrada dessas vinda do senhor.

“É O QUE?” pensou enquanto ardia em raiva, “não me fode Durval! Não acredito que ele soltou o cara. Devia ter pedido para o sargento se livrar daquele filho da puta”. Mas não obstante os conflitos internos, Nathan continuava ostentando o seu simpático sorriso. Era uma máscara que evitava a leitura de suas emoções.

–    Eu não sabia exatamente se o senhor viria hoje ou em outro dia. Mas definitivamente precisava estar preparado para a visita – e o sorriso amarelado permanecia inalterado em sua face. – Só devo admitir uma coisa; estou impressionado com sua coragem, doutor Nathan. Se fosse outra pessoa chamaria de estupidez o fato de vir sozinho.

–  Obrigado – respondeu de forma curta, sem se deixar envolver pelos jogos do inimigo.

–  Mas então, que tal entrar para podermos conversar um pouco?

–   Claro! – falou ao mesmo tempo em que pensava “Como se eu tivesse opção, seu filho da puta”.

Nathan seguiu o traficante para dentro da pequena cabana enquanto os capangas ficavam para trás. Olhou rapidamente por cima do ombro esquerdo. “Sete. Dois fuzis e cinco pistolas” notou. Não pareciam homens treinados. Um sorriso malicioso e sincero conseguiu escapar de dentro da sua máscara.

O interior da cabana era muito simples. Não havia divisórias. Um colchonete numa extremidade, alguns bancos de madeira e uma pequena mesa na outra extremidade, onde um castiçal de madeira se apoiava para iluminar o ambiente.

–  Por favor, tome assento doutor Nathan – Pediu ao puxar um dos bancos junto à mesa.

O delegado foi levando. Precisava ganhar algum tempo. Após sentar-se, Marreco prosseguiu.

–   Sinceramente, eu acredito que nós estamos perdendo uma grande oportunidade de negócio com essa rixa infantil. – E então deu uma pausa, mudando a postação da voz como quem fizesse uma observação. – Mas eu preciso que o senhor me acompanhe nesse raciocínio; é preciso expandir a mente para além desses conceitos simplistas de “certo ou errado”.

–  Tudo bem. – se limitou a responder.

–  Eu digo isso porque existe um certo paradigma social. As pessoas temem serem vistas como corruptas ou imorais, mas esquecem que a probidade e a moralidade não passam de convenções. Elas não existem em absoluto. – A voz do Marreco não era grave, mas possuía uma rouquidão distintiva, ostentando certa simplicidade – Veja… – prosseguiu. – O senhor está fazendo um excelente trabalho, dá pra notar que gosta do que faz. Mas é possível continuar o bom trabalho, enquanto evita essa matança desnecessária e ainda aproveita para ganhar um bom dinheiro.

O delegado parecia considerar, balançando a cabeça enquanto ouvia as ponderações do traficante.

–  Quanto você ganha no ano? 250 mil? Se entrarmos em um acordo, essa quantia pode entrar na sua conta toda semana. Não que eu esteja querendo lhe comprar, mas sabemos que um homem precisa de dinheiro pra viver com dignidade e dar conforto para sua família. Não faz muito tempo desde que eu pude dar a primeira casa própria para minha mãe. – O traficante suspirou e o seu semblante mudou. – A coitada sempre viveu de aluguel. Sustentava a mim, meus seis irmão e ao vagabundo do meu pai…

E após vários minutos ouvindo tediosas histórias de família, Nathan não aguentou e finalmente se manifestou.

–  Ah qual é, você já pode cortar esse papo furado pra cima de mim. Essa filosofia barata não convence ninguém e esse papo de “mamãe” também não me comove. Que tal me falar de uma vez o que você quer?

O traficante não esperava aquilo. Deu um forte soco na mesa, apontou o dedo bem próximo ao rosto de Nathan e gritou: “Gostei!”.

–   Eu pensei que estava lidando com algum idiota idealista, mas já que você acabou com toda a brincadeira, vamos ser diretos. – disse sorrindo. – O que eu quero é óbvio: abra as pernas e pare de me atrapalhar, prender meus homens e impedir meus carregamentos. Veja… se você reparar bem, não é como se eu estivesse lhe pedindo qualquer coisa. Suas opções são aceitar ou morrer. – Ele parou por um instante e encarou Nathan. – É claro… eu prefiro evitar toda a dor de cabeça que a morte de um delegado famoso como você me causaria, e exatamente por isso estou propondo um acordo que deixe a todos contentes. Mas se for preciso, eu posso aguentar um pouco de enxaqueca.

–  Eu quero números. 250 mil semanais?

–     Bom, eu acho que deveria ter maneirado quando disse isso – comentou enquanto gargalhava. – Mas tudo bem. Eu posso pagar.

–  E quanto aos fornecedores? Eu quero saber onde estou me metendo.

–  Ah, não fode delegado. Temos um acordo ou não?

Após lançar a pergunta no ar, o traficante estendeu a mão direita, propondo um aperto de mãos que selaria o proveitoso acordo. Mas algo aconteceu. Gritos vindos do lado de fora. Dois ou três tiros ecoaram mata a dentro. Eram os capangas do Marreco.

Antes que o seu alvo tivesse tempo para qualquer reação, Nathan puxou uma faca de dentro do seu coturno direito e  atravessou, ainda no ar, a mão estendida do traficante, cravando-a na mesa de madeira. O grito que se seguiu foi mais estrondoso que os tiros disparados a alguns instantes.

–  Parece que minhas opções eram mais amplas do que você imaginava, não é mesmo?

O delegado se levantou e seguiu para o lado de fora da cabana, enquanto Marreco agonizava em dor. Ao sair ele sentiu o característico cheiro de sangue sendo carregado pela brisa da madrugada. Sete corpos no chão. Se assustou quando um pedaço de pano surgiu voando em sua direção. Ao bater em seu peito, entendeu. O seu capuz. Nathan o vestiu e finalmente viu seus três companheiros, irreconhecíveis para qualquer outra pessoa, surgindo das sombras.

–  Bom trabalho. Vamos pegá-lo e sair logo daqui. – disse aos outros três.

Marreco já estava algemado. Uma faixa revolvia sua mão, estancando o sangramento. Nathan, George e Durval preparavam as coisas coisas para partir, quando Regis, que guardava a porta, deu o aviso:

–  Doutor, parece que temos problemas.

Do lado de fora, um batalhão de índios se aglomerava ao redor da cabana. Muitos pareciam guerreiros, armados com arcos e lanças, outros apenas faziam volume. Ao centro, um velho liderava a movimentação. O delegado olhou de relance pela porta. Parecia que os problemas nunca iriam acabar.

De fora, bradou uma frágil voz, castigada pelos muitos anos:

–  Homem branco, essa pessoa é convidada em nossa tribo!! Não deixaremos que vocês  saiam  daqui  com  ela!!  Vocês  vão  todos  morrer!

Marreco brincou:

–   Eu sou o ganha-pão dessa gente. Vocês realmente acham que eles vão deixar assim? Tão barato?

O delegado gesticulou com as mãos. Ele apontava para uma janela nos fundos da cabana que desembocava diretamente na mata fechada.

–  Vocês três… saiam com ele pela floresta e deem a volta na aldeia. Me esperem no carro.

–  Como assim? O que o senhor pretende fazer? – indagou Regis com certo desespero na voz.

–   Ah, não se preocupe comigo. Só não saiam daqui sem mim! – completou em tom de brincadeira.

Marreco se debateu quando um pano molhado cobriu sua boca e nariz, mas rapidamente perdeu a consciência. Como um saco de batatas, Durval o pôs sobre os ombros. Enquanto isso, Nathan se preparava. Recarregou o fuzil, removeu o silenciador, posicionou a faca. Os gritos e (possivelmente) ameaças dos indígenas ficavam cada vez mais altos, invadindo o interior da cabana. Flechas podiam ser ouvidas cravando no exterior da velha parede de madeira.

George foi o primeiro que pulou a janela. Do outro lado, ele recebeu o corpo desacordado do traficante. Durval foi o próximo. Ainda dentro, Regis se despedia.

–  Vê se não morre, amigo!

A resposta foi um pequeno sorriso, simples e meigo. Enquanto saltava para fora, Regis olhou para trás. Seu coração apertou ao ver o delegado correndo em fúria porta afora. Muitos tiros e gritos foram ouvidos. Os sons eram indistinguíveis. Eles precisavam sair dali.

**********

Dois dias depois.

A manchete do jornal dizia: Conflito entre facções do tráfico deixa 38 mortos em comunidade indígena. Logo abaixo, um pequeno parágrafo completava: Um dos homens mais procurados do norte, chefe de uma das facções, foi capturado pela polícia na manhã seguinte enquanto tentava fugir do conflito.

São 09:00 da manhã. Nathan lia o jornal enquanto terminava de tomar seu café, na cama. Precisou tirar alguns dias de folga. Seu corpo ainda doía e os ferimentos de flechas estavam longe de cicatrizar.

Após terminar sua refeição, ele girou o corpo sentando sobre a beirada da cama.

–  Ei! Já falei para me chamar quando precisar de algo! Eu estou cuidando de você.

Nathan sorriu.

–  A única coisa que eu preciso é você do meu lado, meu bem.

–  Você é um descarado mesmo… – disse, também sorrindo, a bela moça.

Nesse momento um leve ruído, abafado, começou a ressoar pelo quarto. Ele demorou um pouco a entender.

–  Meu amor, eu preciso que você saia do quarto.

–  Como assim?

–  Sai do quarto, agora!

A moça, assustada, saiu e fechou a porta. Nathan se apressou. Mesmo com dificuldades, foi até seu guarda-roupas. Removeu a última gaveta. Ao lado do notebook, havia um celular tocando. “Apenas três pessoas possuem esse número” lembrava consigo mesmo. Ele atendeu.

–  Alô?

Cara, que bom ouvir sua voz. É o Pelicano. Preciso de você.

FIM.

PARAGOBALA: CAPÍTULO 22 – FUGA

PARAGOBALA: CAPÍTULO 22 – FUGA

Antônio levantou da cama onde dormiam duas mulheres, prostitutas de luxo. Comemorava em grande estilo a morte de Bezerro. “No final, o moleque não passava de um covarde que se matou antes de arrombarmos o lugar”. A quantidade de dinheiro deixada pelo criminoso em seu cofre foi decepcionante, mas isso era só a cereja do bolo. O premio principal foi restabelecer o controle do tráfico da cidade.

Foi até o seu computador navegar na internet, ainda estava empolgado demais para dormir. Tinha uma mensagem nova no e-mail e o abriu. Entrou em choque enquanto a lia:

“ Você tem 24 horas para sumir dessa cidade e nunca mais aparecer. Tenho provas de diversos crimes que você cometeu no cargo de delegado. Estou às enviando em anexo. Caso ainda esteja aqui amanhã, às enviarei para o ministério público e para a imprensa”.

“Não pode ser”, pensou incrédulo. Abriu o anexo e os seus temores se concretizaram. Haviam ali incontáveis provas de seus crimes e ligação com o tráfico. O trabalho impressionava pelo detalhismo e número de evidências. “Alguém me traiu! Malditos…merda!” e deu um murro na mesa, acordando as garotas que tinham idade para serem suas filhas. Sua mão tremia e ele não conseguia ver nenhuma saída. “Preciso pensar”. Foi até a cama e puxou uma das garotas até perto dele, e em seguida empurrou a cabeça dela para baixo. “Me ajudem a relaxar garotas”. Minutos depois ele percebeu que aquilo não iria funcionar. Ele não estava funcionando. “Filho da puta, me tirou até isso” pensou. Empurrou a garota e gritou “ Saiam daqui suas vadias, já chega”. Jogou maços de dinheiro para elas, que saíram às pressas. Depois foi até o fundo do armário, pegou uma mala e começou a separar suas roupas.

***

Logo no início da manhã, Vincent já estava na sua mesa no fórum. Tinha desaparecido por dois dias e queria colocar o trabalho em dia. Estava animado com as perspectivas. Havia terminado de montar o seu dossiê contra o corrupto delegado da cidad, e em breve ele deixaria de ser um problema. No seu lugar, planejava colocar o seu amigo Nathan, em quem depositava total confiança. Ainda não sabia ao certo como seria o processo ou se ele assumiria o cargo dentro da legalidade, mas essa era uma preocupação secundária. Já conseguia se enxergar trabalhando com Nathan e arrumando aquela cidade.

Começou a revisar as peças feitas por Bal e Agha. Diferentemente de muitos outros promotores, raramente as assinava sem fazer modificações. Sempre encontrava alguma coisa para adicionar, principalmente nas peças de Agha. Achava a argumentação dele muitas vezes preguiçosa, como se ele não fizesse realmente questão de colocar o suspeito atrás das grades. Muito se enganava quem pensasse que Vincent denunciava qualquer um que aparecesse em sua mesa. Por muitas vezes pedia absolvição, e quando achava o caso improcedente, arquivava. Porém, uma vez que se convencia que o sujeito era culpado, não descansava, e não se intimidava por escassez de provas. Jurou a muito tempo nunca arquivar um processo de um culpado com fundamentação em falta de provas. No entanto o seu estagiário parecia ter dificuldades em seguir essa linha de pensamento, e em breve eles teriam uma conversa séria sobre isso.

Bal, por outro lado, sempre buscava meios de fazer uma denuncia, e por muitas vezes apresentava uma pesquisa meticulosa. Ainda pecava em alguns momentos por ser legalista demais e até inocente. Quanto a isso, pensou que precisa demonstrar a Bal que confiava nele e que não era preciso ter receio na hora de denunciar.

Em meio a vários processos, se lembrou do caso bizarro e violento da mulher que foi assassinada e teve o ânus cauterizado. A polícia tinha empurrado uns pobres coitados quaisquer, mas era óbvio que não haviam cometido o crime. Havia pedido uma diligência, até agora sem resposta. Pegou o telefone e ligou na polícia.

Para a sua satisfação, Antônio não atendeu.

***

Bal recebeu uma mensagem no celular e notou que era de Clara: “ Precisamos nos encontrar, tenho que conversar com você.” Ele viu com bons olhos o conteúdo. “Ela quer terminar o relacionamento? Já é hora”. Respondeu e marcou um encontro a noite.

Caminhou pela academia de peito estufado, sem desviar o olhar que recebia de garotas do local. Já se sentia praticamente um solteiro novamente. Distribuía sorrisos e reparava nas moças como não fazia a muito tempo. Mas apesar da oferta de corpos do local, pensava na sua vizinha. Queria despi-la, e não se tratava só das roupas, queria entrar em sua mente e conhecê-la melhor. “Quem sabe hoje, após o meu encontro com Clara” fantasiava.

***

Vincent estava estupefato pelo que havia sabido do policial. Não só a polícia não tinha obtido progresso na investigação, como eles encontraram outro corpo. Outra mulher, com o ânus suturado. O seu instinto lhe dizia que aquilo não pararia por ali. Assassino em série, foi o que piscou em sua mente. “E esse fim de mundo consegue ser ainda pior do que eu imaginei”.

A polícia obteve o celular da vítima em sua casa, e o enviou para um perito técnico, o único da cidade. Não era funcionário público, mas tinha uma longa parceria com o departamento. Vincent lamentou que dessa vez os policiais seguiram o procedimento legal, pois ele não exitaria em levar o aparelho para casa para investigar ele mesmo. O fazer com as próprias mãos lhe instigava, e dava uma sensação maior de dever cumprido. Fora isso, ele tinha convicção que teria mais condições de hackear um telefone do que um técnico local. Pegou com o policial o endereço desse técnico e foi até lá.

Chegou no local indicado e viu que se tratava de uma lojinha pequena, com uma placa no alto “ Assistência técnica para celulares e eletrônicos”. Empurrou a porta e entrou no estabelecimento. Não havia ninguém no balcão. Deu uma olhada ao redor, e tudo era surpreendentemente organizado. Tinha a experiência de já ter visitado várias lojas de eletrônicos que eram uma bagunça. Nas paredes, produtos relacionados a celulares ficavam pendurados. A bancada em formato de U, toda limpa. Vincent foi até o balcão e gritou:

– Bom dia!?

– Oi! – uma voz veio lá do fundo. Já estou indo ai!

Instantes depois, chegou um jovem, através de uma porta do outro lado da bancada. Ele tinha a mesma altura de Vincent e cabelo castanho no clássico formato tigela. Na frente, a franja era dividida em duas, exatamente no meio da testa. O funcionário da loja estendeu a mão e disse:

– Prazer, sou João Rizi.

– Vincent. Fui informado que o celular de uma vítima foi entregue a você para investigar.

– Vitima?

– Uma mulher que foi assassinada…

– Ah sim. Tenho ele aqui sim.

– Algum progresso, descobriu alguma coisa?

– O senhor é da polícia? Não tenho autorização para falar sobre isso.

– Ah desculpe-me. Eu sou o promotor da cidade. Trabalho junto com a polícia. Estou comandando essa investigação. Estou no rastro desse assassino e queria saber se você conseguiu pistas novas. – Vincent mostrou seu crachá para João, que o pegou e analisou de perto. Se quiser posso pedir para um policial ligar aqui e conversar com você.

– Não precisa – devolveu o crachá. Eu consegui acessar o telefone, mas não descobri nada. Estou tentando recuperar arquivos deletados, mas duvido que vou achar alguma coisa relevante.

– Bom saber que teve progresso. Você tem ai registro do que você conseguiu? Eu gostaria de levar para dar uma lida.

– É…sim. Só um instante que eu vou pegar para você no computador.

Vincent viu o sujeito ir até a um computador ao seu lado. Percebeu que usava o sistema operacional Windowns, e quis provocá-lo.

– Usa windows, hein? Para um técnico não seria mais seguro usar Linux não?

– Olha, usar Linux ou Windowns tanto faz. Se alguém realmente quiser os seus dados, não dá para se proteger.

Vincent se preparou para rebater, explicar em detalhes o porque daquilo ser um absurdo, e de como o sistema Linux entregava segurança aos usuários. Sua impressão de que um técnico local não teria grande qualificação havia se confirmado naquele instante. Mas antes dele falar, Rizi disse:

– Aqui está o pendrive com os arquivos.

– Obrigado – agradeceu o promotor e logo depois saiu da loja.

***

Em casa, Vincent ainda estava com o técnico na cabeça “ que sujeitinho mais despreparado para exercer sua profissão.” Por outro lado, conseguia ver isso como algo positivo “ é capaz que ele tenha deixado passar coisas importantes nesses arquivos. Mal vejo a hora de colocar minhas mãos naquele aparelho.”

Entretanto, a investigação foi decepcionante. Não descobriu nada relevante naqueles dados. A dona do aparelho era uma estudante de administração, tinha um namorado e amigas. Uma garota aparentemente normal.

Assassinatos em série não eram sua especialidade. Como grande fã de investigação, já havia assistido diversos filmes e lido alguns livros sobre o assunto. Precisava procurar semelhanças entre as duas vítimas. Aquilo, no entanto, iria lhe tomar muito tempo, e ele precisava pensar no outro caso, o principal caso: o bando que assassinou o seu irmão.

Teve uma ideia e ficou curioso para saber como isso seria recebido: iria pedir para Bal e Agha ajudá-lo na investigação do caso das mulheres mortas.

***

Bal saiu 5 minutos antes do trabalho, ansioso para o encontro com Clara. A viu de longe, no banco de uma praça.

Quando se aproximou, Clara se levantou, e veio abraça-lo, para sua surpresa.

– É bom te ver, Bal.

Sem resposta pronta, apenas concordou com a cabeça.

– Sobre o que quer conversar comigo? Eu também quero falar algo com você – se precaveu, agora que já não estava tão certo sobre como seria essa conversa.

– Sei que eu andei te aborrecendo, que sou diferente das outras namoradas que você teve. Mas eu gosto muito de você, eu preciso de você. Vou assumir minhas decisões e lidar com os meus traumas.

– Clara…- tentou falar Bal.

– Deixe eu terminar, por favor. Como eu disse, eu preciso de você perto de mim…da sua força e forma tranquila de lidar com o mundo. Hoje minha mãe descobriu em um exame que está com câncer de mama – os seus olhos se encheram de lágrimas nesse ponto, e ela se aproximou de Bal para abraçá-lo outra vez.

Bal ficou sem reação. A segurou em um abraço, e passou a mão por cima do cabelo dela.

Ela levantou o rosto e disse:

– O que você queria falar comigo?

– Não era nada importante.

***

Antônio dirigia de madrugada pela estrada. Tinha levado uma quantidade considerável de dinheiro e os seus pertences mais valiosos. Chovia e a visibilidade era ruim, mas ele não tirava o pé do acelerador. Estava com medo e queria se distanciar o mais rápido possível de Paragominas. A mera sugestão de ir para a cadeia o assustava. Então o carro deu um solavanco, e depois começou a perder velocidade. Ele ouviu um barulho estranho e repetitivo vindo da frente. “Pneu furou! Que dia!”. Sua vontade era continuar assim mesmo, mas sabia que o veículo não aguentaria muito tempo nesse ritmo. Encostou no acostamento e foi conferir o pneu.

Deu a volta no carro e foi até a roda direita dianteira. Congelou ao ver que tinha uma flecha cravada na borracha. “Mas que porra é ess…” levou uma pancada na nuca e caiu no chão.

Tentou tirar uma arma do cinto, mas um vulto a chutou longe. Tentou ver quem estava a sua frente, mas chovia e estava escuro.

– Você tem sangue de índio nas mãos. Sabemos que participou do massacre dos Guaranis.

– Eu..eu não tive nada a ver com isso! Vocês estão enganados, sou amigo dos índios.

Levou um chute na boca e cuspiu sangue.

– Hoje você vai morrer pelas mãos dos Kaapor.

Ouviu um barulho de arco, e depois sentiu uma dor enorme no seu joelho. Uma flecha cravada no osso.

– Aaaahhhh! Por favor! Eu não tive escolha! Aquele maníaco me ameaçou!

– Todos envolvidos vão pagar, não se engane. Mas sua hora chegou agora. Você vai sofrer mais um pouco e depois partirá desse mundo.

Mais um barulho de vento cortando o ar, e mais uma flecha, agora cravada no joelho que estava bom.

Antonio chorava e balbuciava. Subodai o olhava sem emoção. Se estava tendo prazer naquele momento não demonstrava. Seus olhos eram serenos. Guardou o arco nas costas e sumiu na escuridão. Tolui então surgiu com um machado na mão e um sorriso no rosto. Antonio viu o brilho da arma no escuro e começou a gritar ainda mais alto, e pela última vez. O Índio levantou o machado acima da cabeça e então um golpe seco perfurou o crânio do delegado.

PARAGOBALA – CAPÍTULO 20 – CAÇA AO ÍNDIO

Capítulo 20 – Caça ao índio

O policial Sérgio transitava em baixa velocidade com a sua moto, realizando sua ronda diária pela cidade. Era um trabalho monótono e normalmente ele não precisava fazer nada além de dirigir. A cidade não era exatamente tranquila e a chance de presenciar um crime não era pequena. Mas a força policial tinha uma boa noção sobre quais eram os locais e horários mais perigosos, e definitivamente, a rota que Sérgio fazia normalmente não apresentava problemas.

Ele passava na frente de um bar, quando viu um homem saindo do recinto. Ele parou a moto e ficou encarando a distância. Pegou o celular, e abriu uma foto. Olhou a tela e depois para o homem. “Não acredito…” balbuciou. Por um instante pensou em deixar pra lá e fingir que não viu nada. Ninguém ali na polícia tinha qualquer expectativa de identificar esse homem. Foi algo que foi enfiado goela abaixo pelo promotor da cidade. Ainda assim, ele pegou o seu rádio e chamou por ajuda. A ordem era clara: o promotor deveria ser avisado imediatamente assim que o suspeito fosse localizado. Ninguém sabia bem o que aquele homem tinha feito e ninguém se importava. O homem começou a seguir pela rua, e discretamente, Sérgio ligou a moto e deu a volta na rua, a uma distância razoável do alvo.

Vincent terminava de fazer a sua barba na frente do espelho. Já fazia mais de uma semana que a polícia procurava pelo suspeito. Suas recentes investigações não lhe trouxeram muito progresso. Sabia que o suspeito ia ao bar com um grupo, mas as descrições eram vagas. Nem sequer conseguiu um número exato de pessoas. Sabia que eram pelos menos 4. Mas mesmo isso pouco lhe servia. Os amigos do bar eram realmente companheiros de matança?

Então, o seu telefone tocou. Imediatamente, ele deixou o barbeador em cima da pia, limpou o rosto e atendeu.

– Bom dia doutor, aqui é o Antonio. Um policial identificou uma pessoa muito parecida com o retrato falado que você nos passou.

O coração do promotor disparou, para sua própria surpresa.

– Onde!?

– Foi em uma rua próxima do centro. Estamos vigiando ele e vamos abordar com cautela, fique tranquilo que até o fim da manhã ele estará na delegacia.

– Me dê a localização eu vou para lá.

– Tem certeza? Não precisa se preocupar com isso, nós somos capazes…

– Me passe o endereço. Quero contato com os homens que estão perto dele. Fale para os seus homens agirem com cuidado, e em hipótese nenhuma, matem o alvo. É muito importante que ele seja capturado com vida.

– Matar o alvo? Imagina…bom o endereço é o seguinte…

Vincent desligou o telefone e saiu de casa o mais rápido possível. Trocou colocou a camiseta, pegou uma arma que ficava guardada em uma gaveta no armário e desceu. Colocou os óculos escuros e saiu acelerando com o seu carro. No caminho ligou para um dos policiais que estava observando o alvo:

– Alô é o Sérgio?

– Sim eu mesmo.

– Aqui é o promotor Vincent. Estou indo até onde você está. Esta visualizando o alvo?

– Sim, ele está caminhando pela calçada da avenida. Não tem muito para onde ele ir. Temos já um homem acompanhando ele a pé, a distância, e eu estou na moto. Temos mais dois homens chegando, quando formos 4 iremos abordá-lo.

– Muito bem, vou acompanhar a operação de vocês, estou chegando ai. Continuem com cautela, o alvo é muito importante.

Antes de perceber qualquer sinal, Índio sentiu que algo estava errado. O seu sempre aguçado instinto, o fez estremecer. Estava andando calmamente, com a cabeça leve depois de tomar alguns copos de cerveja pela manhã, e em um instante depois, já estava pronto para matar e sobreviver. Sentia-se observado e não queria olhar para trás. Não mudou a velocidade de seu passo, e a qualquer um que não tivesse acesso aos seus pensamentos, era impossível perceber algum tipo de mudança no seu comportamento. Vestia uma bermuda que passava do joelho e uma camisa simples aberta. Por dentro da sua bermuda, tinha o seu facão, amarrado a sua perna. A 200 metros na sua frente, estava um ponto de ônibus. Sequer cogitou a ideia de entrar no veículo para despistar possíveis seguidores. Não gostava de ficar fechado em um veículo enquanto era perseguido. O que ele queria era entrar na mata o mais rápido possível. Uma vez ali, não se importa quem ou quantos estavam atrás dele.

– Rodnei, tem um ponto de ônibus ali na frente, se o alvo entrar vai ser problemático.

– Quer abordar ele antes que chegue ali? Não dá pra pensar muito.

– O Mário vai chegar agora lá pelo outra mão da via. Posso acelerar aqui e encostar do lado do suspeito, você chega por trás e o Mário pela frente. Ele parece desarmado…e inofensivo.

– Ok. Vamos, vamos!

Sérgio acelerou a moto, enquanto Rodnei, começou a correr. O terceiro policial, também acelerou o seu veículo em direção ao alvo.

Índio primeiro ouviu o som do motor da moto de Sérgio, às suas costas. Instantes depois, visualizou Mário com a moto na outra mão da avenida. Continuou caminhando com a aparente calma e enfiou a mão esquerda no bolso falso e agarrou o seu facão.

Sérgio parou a moto ao lado da calçada e gritou:

– Parado! Mão na cabeça, não se mexe. Apoiou uma perna no chão e apontou sua arma em direção a Índio.

Índio reagiu imediatamente. Puxou o facão do bolso, e no mesmo movimento virou-se para o policial e arremessou a arma. Ela foi girando na direção de Sérgio e se cravou em seu peito. O policial caiu no chão, junto com a moto. Índio já tinha começado a correr assim que arremessou a faca. Rodnei sacou sua pistola, ainda estava a 30 metros do alvo, e atirou. Mário entrou na contra mão e acelerou em direção a Índio, que agora puxava a faca e tentava subir na moto. Saiu dirigindo o veículo enquanto ouvia tiros atrás de sí, mas nenhum acertou. Passou ao lado de Mário, que teve que virar a sua moto para persegui-lo.

– Emergência, emergência, policial ferido – gritava Rodnei no rádio.

– Solicitar reforços – berrava Mário, que agora se via em uma perseguição entre motos.

O Pelicano dirigia quando viu duas motos em alta velocidade passando a sua frente. “Merda” pensou, e imediatamente as seguiu. Em seguida ligou para o delegado.

– Acabei de ver duas motos voando aqui na minha frente, o que aconteceu?

– Parece que o suspeito atacou um policial e roubou sua moto. Vou colocar todas as unidades da região na perseguição.

– Pelo amor de deus, não atirem pra matar.

– Vou mandar o aviso para não atirarem…melhor ainda, vou deixar um rádio comunicador aqui ligado na frente do telefone, e você tera contato direto com eles doutor. Pode assumir a perseguição. “Se der alguma merda, fica tudo na sua conta” pensou Antonio. Essa atitude era claramente ilegal, mas nenhuma das partes ali estava interessada na legalidade da ação.

Vincent, logo falou:

– Aqui é o Promotor Vincent. Estou acompanhando vocês nessa operação. Reafirmo que esse alvo é de extrema importância, e em hipótese nenhuma atirem nele enquanto ele estiver na moto. Repito: não atiram. O alvo deve ser capturado vivo!

“Engravatado de merda” – pensou Rodnei ao ouvir as instruções. Queria atirar no suspeito, que tinha acabado de ferir gravemente seu amigo. No entanto guardou sua pistola e continuou a perseguição.

– Fazemos o que então, doutor – perguntou Mário, na outra moto, pelo rádio.

– Apenas persigam. Vamos coodernar os movimentos para bloquear algumas ruas e saídas, e forçar ele em alguma direção. Ou talvez derrubá-lo com algum carro. Não o percam de vista.

“Esse cara acha que estamos em algum filme, filho da puta. Quero ver fazer essa operação maluca aqui”. Tudo bem doutor – confirmou Rodnei, que continuava na cola de Índio.

Índio seguiu acelerando a moto, veículo que tinha aprendido a dirigir a pedido de Bal. O exilado Kapoor odiava carros e veículos fechados, mas apreciava a motocicleta. Índio conhecia muito bem a cidade, passava muitos dias apenas caminhando por Paragominas, e já havia atravessado toda a extensão dela várias vezes. Seu objetivo era chegar até a selva, e ele não precisou traçar uma rota. Sem planejar ou pensar muito, fazia as curvas necessárias para chegar onde queria.

Vincent seguia na perseguição, e se queixava ao ver o fugitivo fazendo curvas.

– Cadê o bloqueio? – gritou no telefone

– Doutor esse tipo de manobra é muito incomum por aqui. Os homens não estão preparados para fazer isso tão rápido. Pedi mais reforços para te ajudar – respondeu o delegado, pegando o telefone antes que algum outro policial respondesse pelo rádio.

– Precisamos de viaturas para ultrapassá-lo e bloqueá-lo.

– Tem duas chegando vindo da outra direção nesse exato momento.

Índio viu de longe dois carros de polícia vindo em sua direção. Imediatamente, virou a moto e subiu na calçada. Foi desviado das pessoas, com pouco cuidado, e muitas gritavam e caiam enquanto ele passava.

– Policial, enfie o carro na calçada na horizontal e bloqueie a passagem dele! – falou Vincent.

O policial que dirigia uma das viaturas, Marcos, olhou para o cenário e exitou. A calçada estava cheia de pedestres. Ele precisaria atravessar uma mão contrária da rua, e enfiar o carro ali, e torcer para não destruir alguma loja no processo. Ele podia matar alguém na rua ou causar um acidente. Não iria se arriscar dessa maneira.

– Senhor, é uma manobra muito arriscada não vai dar pra fazer – disse nervoso.

Enquanto titubeavam, índio os ultrapassou pela calçada.

– Mas que droga! Virem os carros e entrem na perseguição! – bradou Vincent.

As duas viaturas viraram bruscamente de mão, e se uniram a mais duas motos e um carro, o do promotor, a perseguição.

Os policiais daquela delegacia estavam acostumados a correr grandes riscos, muito menos a operações mais complexas. Era comum fazerem vista grossa a regiões mais perigosas da cidade. O delegado sempre preferiu fazer um acordo com os chefes locais. As operações mais violentas, eram feitas com planejamento e muita superioridade numérica. Com o promotor no cangote, eles não tinham opção, mas no campo mostravam claramente como estavam despreparados para a ocasião.

Tão pouco, Vincent tinha experiência em coordenar uma equipe de campo. Sempre foi fascinado por essas operações, e gostava de ouvir o seu irmão e outros amigos delegados contando sobre as suas empreitadas, no entanto, ele mesmo nunca vivenciou nada parecido. Em São Paulo, as poucas operações que acompanhou a distância, foram realizadas por equipes experientes, bem treinadas e equipadas.

Enquanto a polícia se desencontrava, Índio abria caminho a frente, cada vez mais próximo do seu objetivo. Subia em calçadas e passava em faróis vermelhos sem pensar duas vezes, sempre muito consciente do ambiente e evitando qualquer risco de bater o veículo.

***

Italiano escutava atentamente o rádio da polícia, e sua expressão era de pânico.

– Não pode ser….! – reclamava em voz alta.

Pegou uma cadeira, e a colocou na frente do armário. Subiu nela, e no fundo de uma prateleira, tirou um celular e uma bateria. Pegou ambos, desceu e ligou o aparelho. Nervoso, digitou um número que havia memorizado.

Bal estava terminando se aprontar para o seu trabalho, quando ouviu o toque do celular vindo de dentro de sua gaveta. Estremeceu. Era o seu celular de emergência. A única forma que um dos membros do grupo poderia contatá-lo. As suas ordens tinham sido claras: o contato só seria permitido em casos absolutamente urgentes. Foi rapidamente até o aparelho e o atendeu:

– Quem é?

– Sou eu Doutor! Preciso lhe falar…urgente!

– Me encontre lá

E desligou imediatamente. Bal tinha pavor de compartilhar qualquer conversa suspeita no telefone. Se aprontou e rapidamente pegou o carro para ir até a cabana.

***

O ônibus que Agha pegava todo dia para ir trabalhar estava atrasado a pelo menos 10 minutos. Ele começou a indagar se algo de errado tinha acontecido, “um acidente, talvez”, quando ele apareceu na avenida. Ele levantou o braço e o motorista parou. No entanto, o veículo estava lotado. Ele nunca havia visto o ônibus tão cheio. A entrada estava abarrotada de pessoas, que se comprimiam quando as portas se fechavam. Balançou a cabeça negativamente, e o motorista fechou a porta e foi embora. “Vou esperar o próximo…é o jeito”.

Por longos 40 minutos ele esperou, e a essa altura, já estava irritado. Sentado no banco, levantou rapidamente ao ver o transporte vindo. Já de longe, viu que este veículo também estava lotado. Mas ele já estava atrasado para o trabalho. Iria entrar nesse, de qualquer forma. O ônibus parou e abriu a porta. A primeira vista, um pouco menos cheio. Tinha o espaço livre para uma pessoa ali. Abraçou sua pequena bolsa junto ao peito, e subiu o degrau. A porta se fechou, dando um tranco nele, que quase tropeçou para a frente. Onde estava, não tinha apoio, e quando o veículo deu partida, ele tentava se equilibrar enquanto roçava as pessoas ao seu redor. “Não dá pra ficar aqui!”. Então ele olhou para frente, tentando vislumbrar um caminho, procurando uma clareira no meio daquele mar de gente. Por ser extremamente magro, Agha tinha facilidade em se locomover em lugares extremamente cheios. Esticou sua comprida e fina perna no meio das pessoas e conseguiu firmar o passo a frente. Agora restava o corpo. Se espremeu e passou, aliviado. Ali agora estava em um lugar um pouco mais vazio, comparado ao seu anterior. Aos poucos foi se arrastando e deslizando, até chegar a catraca. Ouviu o cobrador conversar com um passageiro:

– Tem várias ruas bloqueadas, a polícia está em uma perseguição maluca. Um outro rapaz me disse que ouviu tiros no meio da avenida.

“Tinha que ser essa porcaria da Polícia a causar tudo isso. Incompetentes!”. Comprimiu os seus braços da maneira que conseguiu, e abriu com a mão resetada a bolsa para pegar o cartão de transporte. Porém, era impossível ele ultrapassar a catraca, pois a passagem estava bloqueada por outras pessoas. Passou o seu cartão na máquina, e pacientemente, ficou esperando o caminho se liberar. Instantes depois, sentiu uma pressão nas suas costas, e viu um homem, suado, com expressão de apreensão, que lhe perguntou:

– Vai descer no próximo?

“Óbvio que não seu imbecil”. Não  – respondeu monossilabicamente.

Imediatamente, o homem virou de lado e se esgueirou para ultrapassar Agha. “Ele entendeu o meu não como um “pode passar””, como é burro!”. Agha manteve a posição, nervoso, e sem escolha, empurrou a catraca. Pressionou as costas de uma mulher que estava a sua frente, visivelmente acima do peso, ela parecia nem sentir a pressão do objeto. Agha esperava que ao forçar a catraca, a mulher se moveria, mas isso não aconteceu. Ele aumentou a sua força, e graças a sua magreza, conseguiu passar pelo vão que havia se aberto. A mulher apenas deu um solavanco a frente, e sequer olhou para trás. Sentiu um rápido alívio ao transpor aquela barreira, mas a sensação durou pouco. Agora quem sentia um empurrão nas costas era ele. O apressado forçava a catraca para passar. Agha se viu preso, e teve que se virar para falar:

– Calma ai, não dá pra passar.

– Eu tenho que descer no próximo ponto! Força ai que dá pra passar.

Agha fechou os punhos e pensou mais uma vez em como aquele cidadão era burro. Ele odiava locais populares e cheios de gente. Denominava gente simples como “populacho”, e esse episódio o lembrara o porque dele odiar o tal populacho. “Esse povo é muito burro, parecem animais”. Porém, em sua situação, tais pensamentos não o ajudariam. Pediu licença a mulher a sua frente, que fez um micro movimento lateral. Não se moveu mais do que 10 centímetros. Impulsionado pelo metal nas suas costas, se esgueirou naquele espaço. Apesar de ter seu corpo comprimido pelos dois lados, foi uma passagem rápida, e logo ele se viu em uma posição mais favorável. Agora estava de lado no corredor de ônibus, de frente para os bancos “ como eu quero sentar!”, pensou. Começou a olhar para quem estava sentado, tentando captar algum sinal de que a pessoa iria se levantar, até que parou sua visão em uma mulher que abria sua bolsa e tirava maquiagem. Ela abriu um objeto preto, que continha duas partes, na base, um pó, e na parte superior um espelho. “Se ela está fazendo isso, deve estar chegando perto do seu trabalho”. Agora já calejado, não exitou em se movimentar até o outro lado do ônibus para ficar na frente daquela mulher. O pequeno sofrimento seria recompensado por uma viagem mais confortável, pois aquele trajeto ainda iria demorar, já que o ônibus progredia muito lentamente na congestionada avenida. A primeira parte de seu corpo a alcançar a outra extremidade do corredor, foi o seu braço esticado, que agarrou a barra que servia de apoio aos passageiros. Depois do braço, moveu o resto do corpo, e se instalou em uma espaço no meio de duas pessoas, e, para sua felicidade, bem a frente da mulher que passava maquiagem no rosto.

Instantes depois dele se estabelecer bem a frente daquela mulher, olhou para trás e viu que o casal que estava sentando do outro lado do ônibus – bem onde ele estava, se levantou dos assentos. “ Que dia de merda esse!” xingou mentalmente, cada vez mais irritado. Minutos depois, a mulher a sua frente guardou a maquiagem na bolsa, e Agha esboçou um sorriso, pensando que, finalmente, teria um pouco de conforto. Em seguida, a mulher encostou a cabeça no banco e fechou o olhos. “Como eu odeio essa cidade!!!” pensou mais uma vez.

***

– Alguém tem alguma ideia para onde o suspeito está indo – perguntou o Pelicano

– Doutor, conseguimos bloquear alguns acessos as favelas maiores, mas ele nem fez menção de entrar nesses ruas. Ele parece estar indo para os limites da cidade.

– E o que tem lá?

– Se continuar por aqui vai chegar na floresta. Não tem mais nada pra lá.

– É possível andar de moto na Floresta?

– Por lá não. É um terreno muito fechado. Ele vai ter que fugir a pé.

– Ótimo! Vamos deixar ele ir pra lá, e depois terminamos a perseguição a pé. Será mais fácil.

Os policiais assentiram, e a perseguição continuou.

***

Bal saiu do carro e foi correndo até a Cabana. Italiano já estava lá, e andava em círculos, com a cabeça para baixo.

– Italiano! – gritou Bal.

– Graças a Deus você chegou Doutor, deixe-me explicar tudo – disse. Simplesmente ver a figura do líder do bando lhe trouxe calma. Ele explicou a situação atual: Índio fugia com uma moto roubada da polícia.

– O que faremos, Doutor? Vamos ajudá-lo?

Bal coçou o queixo e respondeu:

– De maneira nenhuma. O Índio sabe se virar.

– São muitas viaturas atrás dele…

– Se ele for pego, tenho certeza que não vai falar nem uma palavra sobre nós. Caso fosse outro membro do grupo, talvez eu pensaria em alguma outra medida – disse com um olhar sinistro a Italiano.

– Vamos apenas esperar então?

– Continue monitorando tudo. Qualquer mudança importante, me ligue. Mais importante que tudo isso, é descobrir porque eles estão perseguindo o Índio. Trabalhe nisso.

Italiano assentiu, mesmo não tendo ideia de como faria aquilo.

– Avise Caolho para ficar alerta. Deve estar preparado para sair da cidade se receber um aviso. Faça o mesmo. Eu avisarei o Pastor. Não acho que tenhamos sido descobertos…mas devemos ter um plano no caso – disse o Doutor com confiança.

Apesar da demonstração de segurança ante ao Italiano, desde de manhã ele tentava refazer os passos do seu bando mentalmente. Era uma tarefa árdua. Dentre as qualidades do Doutor, boa memória não era uma delas, e constantemente ele se esquecia de dados ou misturava e criava novos eventos na sua recordação. Quando tentava refazer uma cena sua mente, o Doutor tinha consciência que sua paranoia entrava em ação, e portanto, não confiava nas suas próprias lembranças. Por outro lado, abominava a ideia de registrar as coisas. Era muito perigoso.

Depois de passar as instruções ao Italiano, voltou ao carro e se dirigiu ao trabalho. Apesar de uma voz interior lhe dizer para fugir da cidade e se esconder, a sua reação mais típica quando se via em uma situação desconfortável, o lado racional lhe dizia para aparentar a normalidade. Nada estava perdido, ainda.

***

O grupo composto por vários policiais e Vincent corria pela mata. Apesar dos prognósticos, o suspeito havia adentrado na mata com a moto, e percorrido um bom pedaço. Agora eles viam o veículo abandonado no chão. Vincent tomou a dianteira e gritou:

– Vamos, ele não pode estar tão longe.

Subiam uma elevação, e cada trecho percorrido, o terreno ficava mais selvagem. Vincent começou a questionar se a opção de deixá-lo ir até a mata foi uma boa ideia.

Percorreram mais um trecho, e então, ao longe, Vincent detectou um homem correndo.

– Ali!! – gritou e apressou o passo.

Os policiais o seguiram e o grupo continuou seguindo na direção da mata cada vez mais fechada. Então, subitamente, Vincent chegou em uma clareira. O cenário era estranho e não parecia natural. Em um determinado ponto a vegetação era bem aparada e as árvores sumiram. Uns 300 metros a frente, a floresta continuava. Apesar do estranhamento, não deu atenção a isso e continuou correndo na direção da mata. Quando se aproximou do outro lado, viu que vários troncos estavam pintados de branco. Olhou para trás, e viu que os policiais mal tinham se mexido.

– O que aconteceu? Vamos!!! – gritou no seu rádio.

– Doutor…ai é o começo do território Kaapor. As árvores brancas marcam o local.

– E daí!? Estamos atrás de um suspeito – respondeu com rispidez o promotor.

Os policiais se entre olharam, encabulados. Não queriam se recusar a obedecê-lo, mas sabiam que era perigoso entrar naquele território.

– É muito perigoso senhor…- começou a falar Rodnei.

Vincent começou a perder o controle. “Mas que caralho é isso! Foda-se se índio acha bom ou ruim, a polícia entrar aqui para prender um criminoso. Não posso perder essa oportunidade”.

– Escutem muito bem! Irei representar legalmente contra quem se recusar a cumprir sua função aqui! Venham comigo, agora!

Os policias não tiveram tempo de responder. Um outro som rompeu os poucos segundos de silêncio tenso entre o Pelicano e os policiais. Uma flecha se afundou na frente de Vincent. Ele olhou para a flecha, e depois para os lados, assustado. O susto não veio por medo, mas pelo inesperado.

Depois, mais duas flechas se pregaram ao lado da outra, e então, um grupo de índios surgiu de trás de árvores e caminharam até a frente do Promotor.

Um deles tomou a frente e falou:

– Bem vindo ao territorio Kapoor. Para seguir aqui você precisa de uma autorização judicial.

– Eu não preciso de autorização nenhuma. Estamos perseguindo um criminoso, e ele fugiu para cá. Se vocês nos impedirem vão ser acusados de encobrir um fugitivo da justiça.

O Índio o encarou por alguns instantes, e então, sorriu:

– Sem autorização não passam.

Vincent ignorou o homem, e chamou mais uma vez policiais, que agora já tinha se aproximado dele:

– Vamos em frente, já perdemos muito tempo!

Caminhou a frente, e então, os índios ergueram duas lanças para bloquearem a sua passagem.

– Vocês estão ameaçando um membro do ministério público !? – gritou Vincent.

Os índios ignoraram as palavras.

Vincent então segurou uma das lanças e a levantou para passar. Um outro índio se colocou no seu caminho e o empurrou. Vincent reagiu pegando o braço dele, o puxando e o derrubando no chão, com um golpe de perna. Imediatamente, outros dois vieram por trás e o agarraram.

– Prendam esses índios, agora! Gritou Vincent.

Os policiais, timidamente, se aproximaram e ergueram suas armas. VIncent tentava se desvencilhar, mas era contido por dois homens bem fortes. Eles afrouxaram a pegada ao verem os policiais sacando as armas.

– Saiam da nossa frente agora! Eu juro que vocês todos serão presos e que eu farei da vida de vocês um inferno! Vocês não tem ideia de com quem estão mexendo!

– Quem não tem ideia é o senhor.

E então, mais índios saíram de trás das árvores. O que era um grupo de não mais que 6, agora se transformara em dezenas. Pelo menos 20, todos armados de lanças e arcos. Eles não paravam de chegar.

Os policiais abaixaram seus braços ao perceberem que flechas apontadas em direção as suas costas. Não tinham ideia como aqueles índios haviam chegado ali.

– Tem um criminoso nesse território! – bradou mais uma vez Vincent.

– Nós não estamos protegendo criminoso nenhum. Faremos patrulhas em busca desse homem, e se o encontrarmos, o encaminharemos a sua justiça. Mas sem autorização vocês não podem entrar. Voltem a sua cidade.

Vincent agora cerrava o punho, num estado de raiva que talvez ele nunca tenha estado antes.

– Vocês vão se arrepender disso! Marquem minhas palavras! Não vou esquecer disso.

O Índio se aproximou e disse, bem perto dele:

– Não temos medo de ninguém….e – aproximou agora seu rosto perto da orelha de Vincent – o seu irmão tinha modos muito mais civilizados que os seus  – ao ouvir isso, Vincent não esperou o Índio terminar sua frase.

– Seu filho da puta! – e empurrou o Índio e desferiu um soco na sua cara, que o derrubou. Outros índios vieram para cima do promotor. Ele se desvencilhou do primeiro e acertou uma joelhada, mas um outro vindo da lateral se atirou e o derrubou. Rapidamente outros vieram para cima, e o agarraram. Depois o levantaram, e um terceiro socou sua barriga. Os policiais, estupefatos, apenas assistiam, imovéis.

O Índio que tinha levado um soco, agora já em pé, fez um sinal com a mão para o outro parar de bater. Ele deu um passo a frente, e deu um direto no rosto de Vincent. Cuspiu sangue e continuou a falar, bem próximo do Pelicano:

– Que seja uma lição. Quem manda em território Kapoor, são os Kapoor. O seu irmão sabia disso.

Vincent gritou, e balbuciava alguma coisa. Antes de conseguir dizer mais, levou outro soco no rosto. Tentava se desvencilhar, e seu lábio sangrava. De seus olhos, escorriam lágrimas de pura raiva.

– Você vai se arrepender disso… – e antes de completar, levou mais um soco no estômago que lhe tirou o ar.

O soco foi seguido por mais uma sequência, que por fim, apagou o promotor.

***

Agha entrou na sala, e percebeu que mais uma vez, era o único ali. “Esses vagabundos não fazem mais questão de disfarçar”. Sentou na cadeira e relaxou. Após toda aquela jornada para chegar no trabalho, se permitiu ligar o computador e navegar na internet.

Cerca de meia hora depois, Bal entrou apressado na sala. A entrada abrupta assustou Agha, que prontamente fechou o navegador.

– Tá fugindo de alguém? – perguntou Agha.

Os pelos do corpo de Bal se arrepiaram com a pergunta, e ele congelou em pé. Virou o rosto para Agha e respondeu depois de alguns segundos.

– De que merda você tá falando?

Agha não esperava uma reação tão violenta a sua brincadeira, e não respondeu nada. Se voltou ao seu computador e começou, enfim, a trabalhar.

– Cadê o Vincent – perguntou Bal.

– Não sei, não está aqui, pra variar – respondeu Agha.

– Estranho… – comentou Bal. Seu lado paranóico começou a indagar se o promotor tinha alguma relação com a perseguição ao Índio. No entanto, o seu lado racional o tranquilizou. Não faria sentido o promotor se juntar a uma caçada com a polícia.

– Nem tanto. Não é a primeira vez que ele não aparece…

***

Vincent abriu os olhos e viu o teto de seu carro. Se sentou e viu que do lado de fora os policiais estavam reunidos, conversando baixo. Ao abrir a porta, todos se silenciaram e viraram para ele.

– Nem uma palavra sobre o que aconteceu agora pouco. A perseguição está encerrada, por hora.

Os policiais assentiram com a cabeça, ainda assustados demais com o que ocorrerá para proferir algum comentário.

Vincent já sabia que tinha sido humilhado. Aquele certamente era o episódio mais vergonhoso de sua carreira, e o seu orgulho lhe mandava reprimir o acontecimento daquele evento.

– Vocês não vão reportar isso que aconteceu. Digam apenas que ele fugiu para a mata. Eu preciso que um de vocês dirija meu carro e me leve até a minha casa.

Os policiais mais uma vez assentiram, e Rodnei se voluntariou a levar o promotor. Os policiais saíram rapidamente do local, e Vincent se deitou no banco de trás de seu carro, em silêncio. Após a partida do carro, falou:

– Eu fui precipitado. Não conhecia essa tribo. Me fale sobre os Kaapor.

Durante toda a viagem, Vincent esmiuçou o conhecimento do policial sobre os Índios. Aprendeu que aquilo era mais do que uma simples tribo indígena. Estava mais para uma organização criminosa altamente capacidade e equipada. Era notável o receio e o medo do policial. Os policiais locais deviam bandidos e traficantes poderosos, mas temiam a tribo.

No final da viagem, agradeceu o policial e lhe pagou um táxi. Ao chegar em casa, foi até a geladeira e preparou uma bolsa de gelo. Seu rosto ainda doía muito. Sentia vergonha de sí mesmo. Se orgulhava de ser uma pessoa muito fria, em uma sociedade que ele considerava emotiva demais. Era sua força. Havia se comportado como um adolescente birrento, e deixou aflorar todas as suas emoções, além chorar na frente de vários outros homens. Ainda não sabia porque tinha reagido daquela maneira. Indagou-se se foi a impotência ou o afronte que recebeu, mas sabia que não. Era o sentimento de vingança que lhe consumia desde que soube que seu irmão tinha sido assassinado. Tinha medo de não conseguir vingá-lo e fazer justiça.

Ligou o seu computador, e ali ficou compenetrado por horas. Por fim fechou o aparelho, e se levantou. Na sua expressão, um sorriso triunfante. Pegou um telefone que deixava escondido no fundo de um armário. Discou um número e esperou, até que depois de 3 toques, a ligação foi atendida. Vincent então disse:

– Nathan. Sou eu. Preciso de você.

PARAGOBALA CAPÍTULO 19 – NOVA CASA

Paragobala – Capítulo 19 – Nova casa


O Pastor terminava mais um culto, e se despedia de cima de seu palanque dos fiéis. Fez um sinal para uma mulher ao fundo, pedindo para ela se aproximar. Ela veio ao seu lado, e ele continuou acenando até que a última pessoa tivesse saído da igreja. Só então ele se virou a mulher, que aguardava ansiosamente a palavra dele.

– Rosemari, muito obrigado por ter vindo. Como você está? – perguntou já segurando as suas duas mãos.– Estou muito bem Pastor! Desde que eu comecei a conversar com você…abandonei a minha vida antiga. Sou uma nova mulher, uma que Deus e Jesus aprovam.
– Com certeza. Tudo é perdoado quando se aceita Jesus no coração. Inclusive…o Senhor tem uma chamado para você Rosemari…um chamado para fazer o bem, para ajudar os outros assim como você teve ajuda. “E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada.” – recitou o versículo de Hebreus 13:16
– Claro! – disse a moça surpresa.

O Pastor colocou sua mão nas costas de Rosemari e a encaminhou a uma mesinha para sentarem e conversarem.

***

Agha parou de digitar e olhou para os lados. Nem Bal, nem o promotor Vincent estavam nas suas mesas. Havia chegado a 2 horas, e desde então não teve sinal algum dos seus companheiros. Ficou receoso que a ausência de Bal tivesse alguma ligação com a discussão que eles tiveram durante o almoço do dia anterior. “O sujeito é maluco mas espero que não tanto” pensava para se tranquilizar. Já a ausência de Vincent, era algo mais costumeiro. O promotor já havia deixado de ir trabalhar várias vezes, além das longas ausências. “Esse vem quando quer…faz o que quer, e deve ser um dos primeiros a reclamar de políticos e xingá-los de corruptos e vagabundos”.

Trabalhava em mais um caso em que via que não daria em nada. Outro arquivamento. Mas sabia que o promotor não se contentaria com isso, e quebrava a cabeça para encontrar outra solução.

Energicamente, Vincent entrou na sala, visivelmente animado.

– Boa tarde Agha. Estava na delegacia acertando algumas coisas com o delegado.

“ A sua fatia?” – pensou maldosamente. Porém, apesar dos pontos negativos que havia identificado em seu chefe, não lhe parecia corrupto, mas ele nunca colocaria a mão no fogo por ele. “Esse pessoal que acha que pode tudo e que é herói, sempre tem um teto de vidro”.

– Sabe alguma coisa do Bal? – perguntou Vincent, que agora já estava sentado a sua mesa.
– Não deu as caras…e nem avisou nada – respondeu Agha.
– Estranho…de uma ligada pra ele, tenho o telefone aqui.

Vincent anotou em o número em um papel e deixou na mesa de Agha. O pedido o irritou. Não constava nas suas atribuições servir de secretário ao promotor. Muito menos, queria falar com Bal, devido a discussão do dia anterior. Contrariado, pegou o número e ligou. Deixou o telefone tocar 6 vezes e desligou. Em seguida tentou mais uma vez, sem sucesso.

***

Bal enxergava apenas uma imensidão escura. Ao longe ouvia um barulho. Ele parava e continuava. Sempre igual, como um apito. Cada vez mais forte. Até que repentinamente ele acordou assustado, e percebeu que o telefone estava tocando. Ele ainda estava na poltrona. Ao acordar uma garrafa de vidro vazia caiu da sua mão. Ela bateu no chão e depois rolou para o lado, sem quebrar. Bal fez menção de se levantar e sentiu uma pontada de dor forte na cabeça. Levou uma mão a testa, e pensou “ é a ressaca”. O telefone continuou a tocar por mais um tempo, e, finalmente parou. Bal sentiu alívio pelo som cessar, e esticou o braço para pegar o celular que estava na mesa. Olhou para o horário : 3 da tarde. “Merda!” pensou. Novamente tentou se levantar, e desta vez conseguiu, mesmo sentido uma grande dor. Foi caminhando vagarosamente até o chuveiro. Tirou a roupa com dificuldade, e entrou debaixo da ducha fria. Enquanto era impactado pela água fria, começou a se lembrar da noite anterior. Tudo foi voltando aos poucos. O jantar romântico, a transa, a discussão com Clara e finalmente o porre que tomou ao chegar em casa. “Merda!” repetiu, dessa vez em volta alta.

Depois de tomar banho se sentou na sua cama, já se sentindo um pouco melhor. Odiava faltar ao trabalho. Se sentia necessário no fórum e considerava a sua posição importante. Indo trabalhar sempre, sem exceções, se sentia uma pessoa responsável e honesta. Jamais iria confessar que perdeu a hora devido a bebida, e começou a pensar em uma desculpa. E então uma ideia surgiu a sua cabeça. “Vou me mudar de casa hoje!”. A mudança estava agendada para o final de semana, mas faria um esforço para realizá-la naquele dia. Desde que Caolho apareceu na porta de sua casa, ele já não sentia que aquele lugar era seguro. Para muitos poderia parecer paranóia, mas na cabeça do Doutor, era simples lógica e uma maneira de se proteger.

Começou a empacotar tudo. Sabia que não tinha muita coisa para levar, não era dado a extravagâncias e comprava apenas o necessário. Sua casa era pouco decorada e os espaços vazios predominavam. Ele tinha dificuldades para se prender a pessoas. A objetos, era mais difícil ainda. No inicio da sua fase adulta, quando achou que certas histórias em quadrinhos estavam apenas ocupando um espaço desnecessário em sua casa, Bal simplesmente foi a um terreno baldio, jogou as revistas no chão e derramou álcool nelas, para por fim, acender o fogo. Sem pestanejar, ele queimou as mesmas revistas que foram a sua fuga da realidade e fonte de esperança na difícil juventude. Se livrara de objetos com até mais facilidade com que cortava sua relação com pessoas. Se não serve mais, pode ser descartado, e com esse mantra, pesava as suas decisões.

Lembrou subitamente que tinha combinado com o seu irmão para fazer a mudança no sábado, e precisava avisá-lo que já a faria hoje e não precisaria de ajuda. Por ele ser o seu irmão, era o único membro do grupo que ele se contava por telefone e permitia a visita em sua casa. Dois irmãos se encontrando não gera suspeita alguma. Parou o que estava fazendo e enviou uma mensagem ao Pastor avisando da mudança de planos.

***

Schneider deu um soco na mesa. Sua expressão demonstrava o inferno em que vivia. Tinha olheiras e um olhar cansado. O seu cabelo, que sempre estava perfeitamente alinhado, estava bagunçado. Trabalhava sem descanso, fazendo ligações e andando muito pelas ruas para tentar restabelecer toda a rede de Bezerro. A tarefa, no entanto, se demonstrou muito mais difícil do que sua expectativa inicial. Quando achava que havia feito algum progresso, a pessoa com quem tinha estabelecido contato simplesmente sumia. Precisava de sargentos que trabalhassem para Bezerro, e que controlassem regiões localizadas da cidade. Sem eles, as brigas locais entre traficantes explodia. Sem musculatura operacional, o mero nome de Bezerro pouco contava. Nas ruas, o que sempre prevalecia, era a força. E, ele reconhecia que o próprio nome de Bezerro ainda não era tão forte. Precisa de muito mais tempo para se estabelecer. Ele chegou como um furacão, uma força nova e potente na região, mas estava longe de criar uma dinastia.

Schneider ainda tinha esperança de recuperar o status perdido de seu chefe, pois o aporte financeiro que o grupo possuía ela muito grande. Com dinheiro, tudo era possível. Sua dificuldade era encontrar pessoas ideais e mantê-las por perto. Começou a desconfiar que alguém estava agindo contra eles. Desaparecimento de pessoas, e até de produto, era algo comum nesse submundo. Mas não na quantidade em que estava ocorrendo. Aquilo era o trabalho de alguém muito ardiloso, com objetivo claro de prejudicar e desestruturar o grupo. No entanto, até agora, não tinha nenhuma pista, e estava realizando todo esse trabalho sozinho. Estava cansado, desgastado e com poucas ideias.

Bezerro ainda se recuperava, e apenas reclamava e cobrava resultados. Estava de cama, e Schneider desconfiava que quando ele voltasse a ativa, só iria dificultar mais o seu trabalho. Vândalo estava já andava, mas pouco tinha a oferecer no campo estratégico. O usava apenas como um assistente, uma mão de obra em que ele confiava, e claro, como um martelo quando precisava esmagar alguém.

Fez mais uma ligação.

– Chefe?
– Cadê o Vanderlei – perguntou Schneider
– O Vanderlei não aparece faz 2 dias aqui, chefe. Eu assumi por enquanto…

Merda! Esbravejou e desligou o telefone, em um surto de raiva.

***

Agha já havia ido embora, e Vincent estava sozinho em sua sala. Tinha dificuldades de se concentrar, pois não parava de pensar no suspeito que a polícia agora já estava procurando. Sabia que as chances dele ser identificado tão rapidamente eram ínfimas, e por mais que achasse um sentimento infantil, não deixava de ficar na expectativa de alguma ligação com novidades. Percebendo que não faria nada útil ali, pegou suas coisas e saiu. Iria até o bar onde Nédio e Junior haviam presenciado o ataque a Carlos, fazer algumas perguntas.

Chegou lá rapidamente e adentrou ao lugar. Não era um estabelecimento onde ele passaria o seu tempo. Era sujo, mal conservado e os frequentadores lhe causavam certa repulsa. Vários homens bêbados, mulheres que eram visivelmente prostitutas e gente mal encarada. “Aposto que aqui tem muita gente com passagem”. Chegou no balcão, e, a contra gosto pediu algo para beber. Recusou as bebidas alcoólicas e na falta de suco, aceitou um copo de água. O atendente do balcão era um clichê ambulante. Um senhor corpulento e de bigode, com pouco cabelo e mangas arregaçadas.

– Aqui está o seu copo de água – e deixou na frente de Vincent
– Muito obrigado…deixa eu te perguntar uma coisa senhor. Você trabalha aqui a muito tempo?
– Muito tempo? Mais de 20 anos!
– E conhece bem a freguesia?
– Bom, temos alguns clientes mais fiéis e outros que só vem de vez em quando. Fazemos amizades com alguns caras ai…e com algumas também – e riu

Vincent forçou uma risada também. Aquele papo de boteco sujo com aquele tiozão não eram o tipo de atividade que ele tinha muita vivência, ou que gostava.

– Sou novo por aqui na cidade…mas já vi cada figura. Outro dia me deparei com um sujeito que tinha o braço inteiro marcado…cheio de riscos.

Imediatamente, o senhor que parecia ser bonachão, fechou a cara para uma expressão séria. Pegou um copo do de algum lugar, e começou a secá-lo com um pano, sem olhar diretamente para o promotor. Vincent percebeu o incômodo. “Ele sabe” pensou de forma animada.

– Gente assim eu nunca vi não. Pelo menos por aqui.

Já esperava a negação, e veio preparado. Faria qualquer coisa para obter os seus resultados. Primeiro tentaria a forma mais agradável para o sujeito.
– Olha…eu realmente queria saber mais sobre esse sujeito. Nunca viu ele por aqui não?
-Já disse que aqui nunca vi – respondeu ríspido
– Tem certeza – e então empurrou 3 notas de 100 pelo balcão.

O senhor olhou assustado para aquilo. Depois olhou para os lados, como se estivesse procurando alguém.

– Não sei o que você quer…mas é melhor se retirar daqui! Esquece essa história e guarde o seu dinheiro.

A negativa o irritou. “Que seja” pensou.

– Seu João – falou, agora mudando o tom para algo mais sério – sei que trabalha aqui a muito tempo, na verdade você é o proprietário disso aqui.

João parou de secar o copo, e agora encarou Vincent. Tentou fazer uma expressão firme, mas qualquer um com percepção um pouco apurada perceberia que ele estava tenso.

– Esse lugar não tem autorização da brigada de bombeiros e nem da vigilância sanitária. E dando uma rápida olhada aqui, sei que o lugar não seria aprovado por nenhum dos dois. Tenho como fazer que eles baixem aqui amanhã. E tenho também poder para fazer com que eles nunca venham aqui. Mas isso depende muito do que vamos conversar nos próximos minutos.

Vincent havia pesquisado anteriormente tudo sobre o estabelecimento. Mas ele não pretendia realmente denunciar o proprietário, e muito menos protegê-lo de fiscalização nenhuma.

João engoliu seco, olhou para os lados novamente, e então se aproximou e falou baixo.

Não sei muito sobre ele. As vezes vem aqui sozinho, e outras com uns amigos. Tem quem diga que ele é um índio, que foi expulso da tribo dos Kaapor. Outros falam que é um ex-presidiário e que já matou muita gente. Mas pode ser tudo mentira só boatos. Só sei que já vi ele brigar nesse bar, a muito tempo atrás, e ele espancou um homem com o dobro do tamanho dele. O coitado quase morreu. Ninguém sabe muito sobre ele e ninguém quer saber.

– Me fale mais sobre esses amigos dele.
– 
É uma turma, vem aqui esporadicamente. 5 ou 6 homens eu acho.
– Me conte absolutamente tudo que você lembra desses homens. Tamanho, aparência, qualquer detalhe.

***

Bal estava deitado, já em sua nova casa. Estava repousando depois de todo o esforço da mudança. Começou a lembrar de sua noite com Clara. Constatou que a parte boa do prazer de desvirginar uma garota vinha do antes e do depois. O antes pela excitação e curiosidade, o convencimento e a luta, para fazer a garota se entregar a você. No caso de Clara, tinha um componente a mais: ela tinha que abrir mão da coisa mais importante para ela, Deus, por ele. Ou, como ele gostava de pensar, pelo seu pau. O depois, pelo orgulho de ter conseguido, a sensação de que você é um mago das mulheres, e ter ali mais uma figurinha rara na sua coleção. Mas o durante, o ato em si, era bem sem graça. Não foi memorável e estava longe das melhores relações que ele já tivera. Porém, devido a sua seca, foi o suficiente. Um barulho o libertou de seus pensamentos. O som vinha do corredor. Se levantou e foi até lá. Viu uma mulher segurando uma grande caixa, cheia de objetos. Logo deduziu que era uma mudança, e o som que ouviu foi de um objeto caindo da caixa. Rapidamente foi até ela e segurou a caixa.

– Muito obrigada! – disse a mulher.

– Para onde levo essa caixa – perguntou Bal.

A mulher apontou para uma porta.

– Ora, ora…então você será a minha vizinha.

Bal colocou a caixa na frente da porta do apartamento, e depois foi até a mulher. Enquanto caminhava, deu uma bela olhada nela. Sua análise do corpo feminino era metódica. Inicialmente olhava a bunda e o tamanho da cintura: era atraído por mulheres de cintura fina. Depois analisava as pernas, e por fim, os peitos. Como estava de frente, olhou primeiro a cintura, depois as pernas e por fim os peitos. Era uma mulher do jeito que ele gostava. Possuía o famoso corpo violão: tinha um tamanho de peito razoável, um pouco acima da média, o corpo se afinava na cintura para depois se alargar novamente na região dos quadris e pernas. Algumas mulheres com esse tipo de corpo tinham tendência ao sobrepeso, mas esta em questão, estava rigorosamente em forma. Bal considerava um rosto bonito apenas uma alegoria a mais, porém essa mulher também o tinha. Olhos verdes e cabelos pretos. Não era exatamente um rosto delicado, mas emanava um ar misterioso e até selvagem. Só por uma olhada rápida Bal imediatamente supôs que essa mulher tinha uma boa experiência sexual e que adorava sexo. Isso o excitou imediatamente.

Quando se aproximou dela, disse:

– Meu nome é Bal, vizinha. Muito prazer.

– Obrigada novamente pela ajuda! Meu nome é Rosemari.

PARAGOBALA – CAPITULO 18 – RETRATO FALADO

PARAGOBALA – CAPITULO 18 – RETRATO FALADO

– Fale mais sobre esse Júnior.

– Ele é…diferente – disse Nédio, pensativo, e com dificuldade de encontrar as palavras corretas para descrever o seu cliente.

– Como assim? – retrucou Vincent, ávido por respostas

– É uma pessoa singular, nunca conheci ninguém parecido. Ele é sonhador, inocente e solitário…tem uma grande imaginação, e as vezes, penso que tem dificuldades para aceitar e compreender a nossa realidade…como se ele vivesse no seu próprio mundo.

– Esse cara é maluco? – perguntou com preocupação. Desejava uma testemunha com faculdades mentais plenas.

– Não! Quer dizer…acho que não? Ele tem emprego, uma casa…não toma remédios…pelo que eu sei. Ele só gosta de contar histórias e fantasiar. O que ele quer é só um pouco de carinho.

“Ótimo. Parece ser um doente” – pensou o Pelicano.

– Ok Nédio. Muito obrigado por tudo. Te ligarei se precisar de alguma coisa, e vou entrar em contato com o Júnior.

– Espero que ele colabore, mas não sei, acho que ele pode negar tudo! Ninguém sabe que ele tem esse tipo de encontro comigo…

“Em outras palavras, ele é enrustido” – concluiu o promotor.

– Não se preocupe, vou dar um jeito.

***

Bal se encarava no espelho do banheiro do fórum, com o rosto molhado, depois de o lavá-lo.

“ Não acredito que perdi o controle por causa de um moleque inútil como aquele! Mas que merda!”. E deu um soco na pia de pedra. “Estou com os nervos à flor da pele, prestes a explodir”. “Sinto falta da bebida…como sinto! E do sexo…qual foi a última vez que fiquei sem transar!? E também…a quanto tempo fiquei sem matar ninguém? Não! Não! Nunca matei por satisfação pessoal, fiz para salvar a cidade. Não sinto falta nem dependo disso. Tenho que dar um jeito na minha situação.”. Ficou estático por longos 30 segundos, com sua mente trabalhando em um turbilhão de pensamentos. Até que levantou a cabeça e sorriu levemente na frente do espelho, já sabendo o que faria. Tirou o celular do bolso, ligou para Clara, e marcou um encontro a noite.

***

Antonio xingava enquanto segurava um processo.

– Porque essa merda voltou!? Esse promotor acha que aqui é o CSI? – esbravejou, sozinho na sala. Era o caso da mulher que havia sido encontrada com o ânus cauterizado.

As evidências contra os garotos presos são insuficientes. Recomendo uma nova investigação para acharmos novos suspeitos

– Filho da puta – continuou reclamando. Se achou insuficiente deveria ter arquivado.

Pegou o telefone e chamou um policial.

– Sidney, sabe o caso da mulher encontrada próxima da estrada? Vai pra lá, entrevista umas pessoas lá por perto, documenta tudo e trás pra mim. Ai o promotor não enche o saco.

Antônio estava mais preocupado com outro caso. O ataque a base de Bezerro do Acre. O traficante estava fragilizado, e era a melhor oportunidade de tirá-lo do poder e voltar a lucrar com o tráfico de drogas. No entanto, o que lhe preocupava era justamente o novo promotor. Ainda não o conhecia bem. Por isso tinha montado um plano que julgava estar acima de qualquer suspeita. Uma pessoa ligaria para a delegacia reportando um assalto, a polícia chegaria, tiros seriam disparados pelos assaltantes, e a polícia apenas reagiria. Tudo isso geraria um grande tiroteio que iria escalar até a morte de Bezerro. Ele se achava muito inteligente por ter bolado aquele plano. Os últimos ajustes estavam sendo feitos e a ação aconteceria em breve

***

Vincent aguardava dentro do carro, na frente de uma academia. Era o lugar onde havia combinado de encontrar Júnior. Já conhecia a aparência dele, após uma pesquisa no Facebook. O resultado da pesquisa foi um pouco perturbador. No perfil, haviam dezenas de comentários de jovens mulheres. No entanto, não foi difícil de perceber que eram perfis falsos, provavelmente criado pelo próprio Junior. Nos posts, frases que faziam pouco sentido, e uma veneração a um personagem de quadrinhos. Ficava cada vez mais preocupado, com dúvidas se aquele homem teria capacidades de lhe prover um relato coerente e confiável. Logo identificou a figura vindo: tinha por volta de 1,80, pele bem clara, musculoso e com um corte de cabelo peculiar, repartido na frente, fazendo com que uma franja despencasse sobre o rosto. Lhe lembrava o psicopata interpretado por Javier Bardem em Onde os fracos não tem vez. “Espero que esse não seja tão maluquinho quanto”.

Vincent saiu do carro, colocou os seus óculos escuros, e o aguardou. Acenou para Junior, que veio em sua direção. Se comprimentaram rápidamente, e já entraram no carro. O Pelicano logo deu partida, e então, informalmente, começou o seu interrogatório.

– Muito obrigado por se colocar à disposição.

– Tudo que eu puder fazer para ajudar na luta da justiça contra os bandidos eu farei! Todos estão cansados da situação injusta desse país, que prejudica os honestos e bons trabalhadores.

– Eu estou investigando o desaparecimento de um homem. Carlos Henrique Becker. Eu acredito que você tenha presenciado algo importante. A foto dele está no porta luvas.

Junior pegou a foto e olhou com atenção. Ficou calado por alguns instantes. Vincent percebeu que era óbvio que ele reconheceu a imagem, mas provavelmente não estava a vontade de falar sobre as circunstâncias que lhe permitiram ver Carlos.

– É…não sei não – respondeu, inseguro.

– Carlos era um pai de família. Filha e esposa o procuram até hoje. Todas as investigações estão em becos sem saídas…pela primeira vez em meses conseguimos uma pista – argumentou Vincent, misturando realidade e ficção.

– Talvez eu tenha visto alguém parecido, mas não me lembro muito bem…

– Deixe eu te ajudar. A um tempo atrás…em um estacionamento de um bar…

– Ah sim! Eu estava lá, com minha ex-namorada, Jéssica!

– E lembra mais o que? – incentivou Vincent, mesmo sabendo que Junior estava mentindo.

– Bom…estávamos no carro…namorando. Eu queria ir a um motel mas ela estava impossível, me agarrou lá mesmo! Eu dou duro na academia, e você sabe que é disso que elas gostam. Homens sarados, bonitos e definidos.

Vincent apenas concordou com a cabeça.

– Agora estou me recordando. Eu estava no volante, quando ela segurou o meu braço e o colocou no seio dela. Eu disse “calma Jéssica, vamos para um lugar mais confortável”. Ela me ignorou, e agarrou as minhas partes intimas. Então eu apontei para o banco traseiro, e atravessamos o carro até lá. Logo me acomodei, e ela começou a abrir minha calça e…acho que foi aí que percebi alguma coisa lá fora. Ouvi gritos. Talvez eu tenha ouvido o nome Carlos. Vi homens brigando. Falei para Jéssica que iria lá fora ver que confusão era essa e ela me implorou para ficar. Depois colocaram o Carlos em um porta malas e foram embora.

– Você consegue identificar alguém de lá???

– Eram pessoas comuns, ordinárias. Um deles era fortinho até, mas não acho que chega a ter mais de 40 cm de braço. O que eu me lembro melhor era um cara magro, que parecia um índio…e o braço dele, era todo riscado. Pareciam marcas, não sei bem o que era.

Vincent se animou com a resposta. Era uma característica física diferenciada, e com isso, seria possível fazer uma busca. A sua dúvida era saber se o relato era confiável.

– Senhor, se precisar de ajuda para pegar esse bandido pode contar comigo. Eu gosto de ajudar as pessoas, as vezes saio por aí protegendo donzelas e idosos contra pessoas mal educadas ou animais raivosos.

–  Ah! Não tenha dúvidas que irei te chamar caso eu precise de ajuda.

O Pelicano prosseguiu e perguntou a ele detalhes da aparência física do homem com marcas no braço e depois deixou Júnior na frente de sua casa. No caminho para o seu lar, começou a bolar a estratégia para descobrir mais sobre esse homem com marcas no braço. Vislumbrava dois caminhos: colocar cartazes pela cidade, ou, divulgar a aparência apenas para a polícia, que iria realizar as buscas. Ele tinha receio que expondo publicamente a imagem de quem estava procurando, o bando descobrisse que estava sendo investigado e fugisse. Por outro lado, ele não sabia se poderia confiar na polícia, ou até mesmo se algum membro do bando era policial. Qualquer opção era um risco. Ele estava sozinho nesse jogo de gato e rato e teria que se arriscar.

***

Bal abriu a porta de sua casa, e deixou Clara entrar. Ela viu uma mesa arrumada, com uma vela no centro.

– Isso é…tão romântico! – disse, e em seguida beijou o seu namorado.

– Agora sente-se lá e espere. O melhor está por vir.

Clara aguardou na mesa, enquanto Bal foi a cozinha pegar a comida. Havia preparado uma macarronada com molho. Ele considerava uma comida romântica e ideal para se comer a dois. Depois, trouxe uma jarra com suco de laranja, que ele mesmo havia espremido. Achava que o toque caseiro iria encantar ainda mais a sua namorada. Bal gostava de pensar que era uma mistura de um macho alfa e um homem moderno e sofisticado.

O jantar saiu exatamente como o esperado. Bal controlava a conversa e a direcionava, levando Clara para onde ele queria. Para um homem com tanta experiência com mulheres, manipular aquela inocente virgem era como uma brincadeira de criança.

Terminaram de comer, e Bal rapidamente tirou os pratos e trouxe um vinho. Clara não era muito de beber, e ele sabia disso. Ofereceu um pouco, de forma encantadora, e os dois beberam. Depois levantou, foi até a cadeira dela. Clara levantou e os dois se beijaram. Bal então foi usando todas as técnicas que conhecia para excitá-la cada vez mais. Progressivamente, suas mãos se distribuiam pelo corpo dela, sem receio ou pudor. Clara não ofereceu resistência, e Bal sabia que ela estava gostando. Ele a levou para a cama, e começou a abrir o vestido dela. Chegou ao seu ouvido e disse “tem certeza que quer isso?”. Ela ficou encabulada, e respondeu “sim”. Pronto, agora ele estava de consciência livre.

***

Bal acordou horas depois, se sentindo muito aliviado. Um peso tinha saído de suas costas. Uma relação monogâmica, e ainda sem sexo, era algo extremamente difícil para ele. Durante a semana, havia sido cantado por moças na academia, e teve de recusar. Foi até acusado de ter trocado de time pelas garotas. “Até pensam que eu virei gay!” pensava, com um misto de orgulho, por se mostrar um homem diferenciado, que respeita sua namorada, e ao mesmo tempo uma outra sensação de inconformismo, que o fazia pensar “ porque estou me sujeitando a isso? Por que não posso sair com outras mulheres igual a todos!?”. Agora, após transar com Clara, estava com um sentimento de culpa menor. Afinal, ele tinha desvirginado uma garota bonita e recatada. Não era a primeira, mas tirar a virgindade de alguém era como um selo especial de sua coleção de mulheres. Levantou-se da cama e foi ao banheiro.

Enquanto lavava o rosto, ouviu um som de choramingo ao fundo. Não se apressou e terminou de urinar e escovar os dentes. Ao voltar a cama, encontrou Clara chorando. Ela olhou para ele, que rapidamente falou:

– O que é? Eu te perguntei se você queria ou não. Não venha me culpar – disse de maneira dura.

– Eu..eu não te culpo – disse meio que chorando. Eu pequei…Deus estava me vendo..ai meu deus, o que eu fiz?

– Você fez o que estava com vontade de fazer, e ninguém pode te julgar por isso. Bom é melhor você se arrumar, já está tarde, e seus pais vão achar ruim se você não voltar pra casa.

Clara concordou com a cabeça, e foi ao banheiro se limpar e se vestir. Bal a levou para casa, e eles trocaram poucas palavras no caminho. Ele não dava abertura a ela para reclamar ou se lamentar, com respostas frias e duras. A deixou em casa e voltou correndo para a sua. Foi até a geladeira, onde ainda tinha cervejas guardadas. Pegou um punhado de garrafas e se sentou no sofá. Começou a beber freneticamente, uma a uma. Tentava não pensar, inutilmente. Era bombardeado por pensamentos negativos. “Eu não presto”. “ Eu sou um monstro”. “Eu não tenho jeito”. E continuou assim até apagar.

***

Ao final da madrugada, Vincent já havia decidido o seu plano. Iria divulgar internamente, dentro da polícia, o retrato do homem que havia sido identificado por Junior. Ele não era alto, parecia um índio e tinha diversas marcas no antebraço direito. Ao mesmo tempo conduziria uma investigação, perguntando por aí sobre a figura. Colocaria em risco a investigação e teria que confiar na polícia, o que não era fácil, pois não tinha confiança alguma no delegado Antonio. No entanto, achava que podia mantê-lo sob controle.

Chegou na delegacia, e percebeu um clima diferente. Homens andando de um lado para outro, murais com um terreno e várias marcações. Armas sendo transportadas. Era fácil de deduzir que aquilo era a preparação para um ataque em grande escala.

Foi até a sala do delegado, bateu duas vezes e logo entrou. Antônio estava na sala com mais 3 homens, e disse com surpresa:

– Doutor! O senhor por aqui…e deem licença por favor, já chamo  vocês – disse ao seus homens.

Assim que eles saíram, Vincent tomou a iniciativa.

– Vi toda a movimentação na delegacia…alguma coisa vai acontecer?

– Estamos recebendo muitas denúncias sobre atividade de traficantes…estamos no preparando caso as coisas piorem.

– Hum…e o caso da mulher?

– Caso da mulher….ah! Sei…estamos investigando ainda doutor, qualquer coisa te aviso.

– Bem, você não vai acreditar, mas sabe aqueles cartazes que pedi para distribuir? Recebi ligações e consegui informação para montar um retrato falado de um suspeito.

– É claro…temos alguém aqui na delegacia que pode te ajudar com isso. Já irei chamá-lo…mas doutor preciso lhe pedir uma coisa.

O Pelicano já esperava uma contrapartida do delegado. Conhecia o tipo.

– O que? – perguntou de forma seca.

– Como eu te disse, a atividade dos traficantes está aumentando muito. Eles estão se armando e criando verdadeiros exércitos. Logo teremos que tomar uma medida mais dura…e as coisas vão ficar feias.

– E o que o senhor quer de mim?

– Essas coisas são..sujas e as vezes barulhentas. Sabe como a imprensa age, certo? Sempre defendendo os bandidinhos? Vão falar de excessos e tudo mais…sem saber que isso aqui é uma verdadeira guerra! Vão querer a cabeça dos policiais e responsáveis. Precisamos de apoio e proteção para podermos agir.

Vincent não respondeu nada e ficou pensativo. Sabia que aquilo que lhe foi dito era apenas uma meia verdade.

– Sempre protegerei policiais honestos que buscam enfrentar criminosos. Pode ficar tranquilo.

Apertaram as mãos, e o delegado sorria. Em seguida, foi montar o retrato falado do homem misterioso, e planejou, junto do delegado como seria essa investigação.

***

Em um bar sujo, homens bebiam com expressões fechadas.

– Isso já foi longe demais! Precisamos discutir isso – falou o Caolho, visivelmente nervoso.

Os outros homens da mesa o olharam, mas nada falaram.

– O Doutor nos abandonou! Esqueceu o nosso projeto? Veio com esse papo de não beber mais e de querer ter uma namorada religiosa? Todos aqui sabem que é questão de tempo até tudo isso acabar. Mas está demorando muito! Falem alguma coisa! – exigiu.

– Temos que respeitar a decisão dele – disse Italiano, sem querer sair do muro.

Caolho olhou então para Índio que não expressou nenhuma reação.

O Pastor então falou:

– Eu vou falar com o meu irmão….mas não precisamos esperar ele vir até aqui para fazer alguma coisa. Ele nos proibiu de algo por acaso?

Então, o impassível Índio, fincou uma faca na mesa, assustando a todos. Os olhares se direcionaram a ele, esperando alguma declaração, mas ele apenas pegou seu copo e bebeu mais cerveja.

– Talvez seja melhor nós esperarmos essa sua conversa com ele antes de pensar em qualquer coisa – disse o evasivo italiano.

– Tem razão – disse o Pastor.

Em seguida, Índio retirou a sua faca da mesa.

Eles continuaram bebendo e conversando sobre temas mais leves, e aos poucos os membros iam embora. Índio fez questão de ficar até o final e foi saiu logo após o Pastor, que saiu do bar com pensamentos em sua mente. “ Malditos cordeirinhos! Não veem que estamos perdendo tempo nessa espera. Perdendo dinheiro!”. “Essa palhaçada do meu irmão vai acabar logo”, prometeu a si mesmo.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 5)

Finalmente acabou… pelo menos por agora. Meio que sem pensar muito, ando de volta até a sala com toda a adrenalina de agora a pouco ainda a tona, o que acaba me deixando muito fixado ao redor pra conseguir relaxar. Sinto como se conseguisse sentir qualquer coisa se mexendo ao meu redor, e isso é muito irritante. Imagine como se estivessem te cutucando de todas as direções com agulhas sem parar, ao mesmo tempo que usam algumas caixas de som no volume máximo com estática. Depois de algum tempo dessa tortura, o efeito finalmente começa a passar e meus sentidos começam a voltar ao normal… até que alguém cai do meu lado.

– Uuuuuhhhh… – é a Karin, que caiu de cara no chão.

– Hã… o que cê tá fazendo?

– E-eu fui chamar você, já que parecia estar preocupado com alguma coisa, mas você saiu da frente na hora que coloquei a mão no seu ombro… – ela se levantou e começou a massagear o nariz.

– Do que cê tá falando? Eu nem me mexi.

– Se mexeu sim, provavelmente é o efeito colateral do que você fez dentro do Hogo dōmu . – a Tatsumi logo a frente, com os fones ainda na cabeça.

– Como assim?

– Ela tá certa, cê tá sentindo os efeitos do treino de agora a pouco. Sua dor e medo provavelmente sumiram em um nível consciente durante o processo, mas seus sentidos, a adrenalina e a tensão do corpo continuam aí. – a Haruka diz, na cadeira ao lado.

– … cês combinaram pra terem essa sincronia enquanto eu tava viajando ou o que? E o que diabos isso tudo tem a ver com a sua queimada sádica?

Ela revira os olhos, obviamente sem paciência de responder ou explicar.

– Pra um idiota como você, é mais fácil mostrar… – então ela pega uma borracha e joga na minha direção.

Engraçado que ela parecia vir especialmente devagar, então eu achei que nem valeria me dar ao trabalho de sair da frente… até meu corpo se mexer sozinho. Quando percebo, já estou de pé e alguns passos pro lado e a borracha passa ao lado rápido, acertando a parede inofensivamente e caindo no chão. Minha respiração tá acelerada, e consigo sentir a tensão nos músculos mostrando como meu corpo ficou estressado rápido.

– Mas que diabos…?

– Eu te falei, não falei? Aquilo ali não foi puramente por sadismo meu ou só pra tentar testar alguma coisa: era pra “marcar” os reflexos instintivamente no seu corpo. Você pensa demais pra agir e reagir, o que acaba inibindo seus reflexos e sua velocidade de serem usados a 100%. Ainda não tá perfeito, já que os efeitos colaterais tão aparecendo e mesmo o tempo dos seus instintos não estão nem perto do ápice, mas isso é uma amostra pequena.

Minhas mãos estão tremendo, e minha respiração ainda tá rápida… tenho que esperar uns 10 segundos até conseguir me estabilizar e conseguir falar direito de novo, e uma questão surge na minha cabeça na hora, como diabos a gente tá falando isso no meio de uma aula? Começo a olhar ao redor sem pensar muito, e vejo que na verdade o sol já está se ponto e não tem mais ninguém dento da sala.

– Deixa eu adivinhar, você tá pensando que a gente falou tudo isso em voz alta no meio de uma multidão? Não seja idiota, óbvio que esperamos todos irem.

– Mas como o tempo passou tão rápido…?

– Você ficou as últimas duas horas com uma das mãos na cabeça e com uma cara de sofrimento, e uma garota até tentou falar com você depois do horário letivo, mas cê simplesmente não respondeu.

– Eu passei todo esse tempo tentando me recompor pra tirar todo aquele barulho e sensações estranhas que tavam me bombardeando.

– Hmm… que sensações…? – a Karin pergunta.

– Era como se… é difícil de explicar, mas é como se todos meus sentidos tivessem aumentado em mil vezes, e isso tava quase me enlouquecendo. O menor barulho e menor movimento pareciam que tava tendo um festival inteiro na minha cabeça… peraí, cê não passou por isso?

– N-não…

– Nenhum dos outros passou por isso, vai ser só você. – e dessa vez foi a Haruka respondendo, de novo.

– Só eu? Mas por que?

– Normalmente, instintos de combate é uma coisa que se consegue com muita prática, basicamente apenas ensinando seu corpo a reagir sozinho aos poucos e com paciência, fazendo com que isso seja mais algo natural pra pessoa do que uma técnica implantada…

– Então você É mesmo sádica, no fim das contas.

– … mas mesmo pras pessoas mais aptas e talentosas, esse método leva anos pra ser implementado sutilmente. Nós não temos a luxúria de gastar tanto tempo e ter tanta paciência de esperar seu corpo se acostumar devagar, então basicamente cicatriza-lo em você é o jeito mais rápido. Claro, eu só escolhi isso porque sei que você tem uma mente bem resistente e provavelmente passou por várias coisas, do contrário alguém com a resolução e mente fraca acabaria enlouquecendo bem antes de chegar a qualquer lugar…

– Não sei se cê tá esperando isso, mas eu tenho algumas coisas pra diz…

– … e a dor provavelmente vai vir agora.

De repente uma dor absurda me atinge, muito pior do que qualquer coisa que eu já tenha sentido. Eu já tive o braço quebrado, a perna arrancada, e fui mutilado várias vezes nas últimas horas… mas nada chega nem mesmo perto disso, tenho que me segurar pra não gritar.

– Você não achou mesmo que toda a dor e cansaço tivessem simplesmente sumido, né? Toda aquela adrenalina e foco obviamente ajudaram a diminuir, mas não seria nem de perto suficiente pra cê conseguir continuar naquele ritmo por horas.

– … q-que… você… dizer… isso… – toma quase toda minha concentração só pra conseguir soltar algumas palavras.

– É outra habilidade da Karin…

Delayed Payment… eu posso anular qualquer dor e cansaço de alguém por 12 horas, mas o efeito de tudo vai vir acumulado assim que o efeito passar… desculpa, Tsuna. – ela diz, com o rosto obviamente cheio de arrependimento.

Eu não consigo aguentar mais, e meu corpo simplesmente desiste, caindo no chão e me fazendo apagar.

– – – –

Estou sentado numa cadeira, com uma mesa e um pote de biscoitos a frente, e tudo ao redor é escuridão até onde a visão alcança, pra qualquer direção. Já vi esse cenário mais vezes do que gostaria, e sei mais ou menos o que vai acontecer em seguida, então nem perco meu tempo pensando em como sair ou o que fazer. Simplesmente me levanto e pego um dos biscoitos, me sento de novo e como devagar antes de falar qualquer coisa.

– Cê gosta de umas entradas dramáticas, né não Shin?

Você sabe que esse lugar é decorado com o que sua mente quer, não comigo, certo?

– Acho que agora ela tá mais ocupada tentando não fritar com aquela técnica que a Karin usou, já que eu tive que vir pra cá só de desmaiar de dor.

Então você veio aqui pra matar o tempo? Aqui não me parece um lugar que se tenha muito o que fazer, acredite, afinal sou eu que vivo por aqui.

– Bom, na verdade essa é uma boa oportunidade, já queria ter um papo com você faz um tempo, então senta aí.

Não é como se eu tivesse algo melhor pra fazer mesmo, então tudo bem. – uma poltrona preta surge atrás dele, então ele senta e fixa o olhar em mim.

– Primeiro, vamos tirar isso do caminho, que é algo que cê simplesmente não respondeu. Como diabos tu usou aquela coisa da sombra da Touka? Só porque os dois são dois malucos macabros tem habilidades parecidas ou porra assim?

Na verdade, você também pode usar, só não sabia disso.

– Mas eu pensei que era alguma técnica que precisava de treinamento ou algo do tipo, não simplesmente “ah quero fazer” e tá feito, explica direito isso ai.

É complicado explicar isso em detalhes. Basicamente, todas as habilidades ou técnicas vem da mesma fonte, o Fukuõchi, certo?

– Uhum.

Então pense como se o Fukuõchi fosse uma caixa de Lego, e as habilidades e técnicas fossem uma construção. Não importa o quão complexa ela seja, se for uma casinha de 10 peças ou uma réplica de um Imperador antigo, tudo é feito de peças de Lego do mesmo jeito. Ou seja: se você entender e souber como fazê-las, é fácil replicar, diferente de produzir algo completamente do zero.

– Ah claro, super simples, como nunca pensei nisso… já sei, porque isso não é tão simples.

E por isso mesmo é uma analogia, estúpido. O processo é muito mais complicado, envolve descobrir a estrutura do que você quer copiar, a quantidade e pureza usada, entre outros fatores. Enfim: o fato é que eu consigo fazer essas análises bem rápido de maneira geral, e quando eu consigo usa-las pensando, você pode usa-las por instinto. Tudo que eu sei fazer, você vai saber também e vice-versa. A diferença é que eu tenho consciência disso e consigo acessar sua mente mais facilmente do que você consegue acessar a minha.

– Pera, pensava que você fosse só uma segunda personalidade minha ou alguma coisa do tipo, como diabos cê tem uma mente própria?

Eu não sou parte de ninguém, sou uma criatura com mente e existência própria. Não consigo lembrar direito do meu passado, mas só lembro que quando me dei por conta já estava aqui. É por isso que consigo controlar seu corpo enquanto você “vê de fora”, isso não seria uma troca de personalidade, mas sim uma troca de controle.

– … pensando bem, até que faz sentido. Então, deixando o papo da sua existência de lado, cê consegue copiar qualquer técnica? Se tu tem uma capacidade tão absurda devia ter me avisado ant…

Não é bem “qualquer técnica”, já que certos aspectos de algumas eu simplesmente não consigo entender ou decifrar como funcionam, então mesmo que tente usar ela provavelmente vai sair incompleta e com efeito bem inferiores a original. Essa “Delayed Payment“é um bom exemplo, já que até agora estou empacado com ela, e acho muito interessante como a pessoa mais atrapalhada desse novo grupo de conhecidos é a que tem a capacidade cerebral mais alta. O mundo é um lugar muito estranho as vezes…

– Ok, eu não entendi quase merda nenhuma do processo, mas saquei que não é qualquer coisa que você consegue me fazer usar direito. Próximo tópico: quem diabos é você?

… o que? – a surpresa no rosto dele era bem evidente.

– Tá surdo por acaso?

Acho que respondi isso agora a pou…

– Não me vem com essa merda de papo de “não lembro do meu passado”, quero saber quem é você. Pelo que tu falou, já tá aqui faz muito tempo… diabo, provavelmente você é aquela sensação estranha que eu tenho desde sempre, e eu só não sabia que tinha forma e era algum tipo de demônio. Desde quando você consegue ver as mesmas coisas que eu, ou ouvir o que eu ouço?

… onde você quer chegar com isso?

– Você sabe muito bem onde eu quero chegar com isso. O que caralhos aconteceu no dia do acidente do carro? Como a Haruka sumiu? Quem nos buscou?

– ele parecia tentar falar, mas som não saia da boca dele. Quando ele percebe isso, tenta colocar a mão na garganta, mas nada muda.

– Mas o que…?

Que estranho…

– Que aconteceu aí?

Não faço ideia do porque, mas não consigo falar sobre isso. As palavras simplesmente não saem da minha boca… curioso.

– Você tá tirando uma com a minha cara?!

Eu não teria porque esconder isso de você, e nem quero… mas eu não posso falar sobre isso por algum motivo. Imagino se é alguma trava psicológica sua que causa esse efeito, ou se…

– Pode parar com as teorias, Einstein, eu preciso de uma respo…?!

A escuridão começa a trincar, e algumas frestas de luz passam a aparecer pelos quebradiços.

Aparentemente nosso tempo acabou por agora… é melhor você se preparar, vai ter uma surpresa quando acordar.

– Espera aí, eu não termin…

Tudo desmorona, e uma luz cegante encobre tudo.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 4)

– Você conseguiu sobreviver até agora apenas se baseando na força bruta que conseguiu, que não é pouca, mas tá longe de ser o suficiente pra enfrentar o que vai vir pela frente.

– Hã? Do que diabos você tá fal…

E antes mesmo de terminar de falar, ela arremessa outra bola em minha direção, só que dessa vez não dá tempo de sair da frente, atingindo meu peito com tudo. Não sei o que é pior: a dor das costelas quase chegando a perfurar meus pulmões, ouvir o barulho dos meus ossos trincando, ou o gosto de sangue que imediatamente chega a minha boca. Na fração de segundo que tenho antes de ser atravessado ao meio, meus instintos gritam de dentro e fazem com que eu saia da frente apenas rápido o bastante pra minimizar as feridas.

– Sua… – e, outras vez, sou interrompido… não por um arremesso, mas pela tosse com sangue.

– T-Tsuna!

Karin é bem rápida pra vir me ajudar, apesar de eu não saber muito bem o que ela pode fazer agora… até ela colocar as mãos em cima dos ferimentos.

– Não se mova…

Uma projeção de energia verde começa a se formar ao redor das mãos dela, e em poucos instantes cobrem meu torso inteiro, fazendo a dor parar aos poucos. O brilho começa a intensificar cada vez mais, até que finalmente para e simplesmente some em várias “esferas” pequenas verdes ao redor. Quando olho de novo, não foi só a dor que sumiu, mas todos os ferimentos também. Na verdade, sinto como se estivesse melhor do que antes.

– Como você…? – me aproximo um pouco dela, o que a faz corar.

– Uhhh… e-eu… – e é nesse momento que a Haruka me puxa por trás, fazendo com que eu caia de costas no chão.

– A Karin tem os poderes de cura e regeneração mais avançados que conhecemos, mesmo que você tivesse sido furado no meio não ia ser muito problema pra ela conseguir te recuperar.

– Mas então, porque naquela visão que eu tive no outro dia ela não pode fazer nada pra ajuda a Tatsumi?

– Hã? Do que você tá falando? – ela parece legitimamente confusa, o que é engraçado pra alguém que sempre quer passar a impressão de “sabe-tudo”.

– E-eu… não consigo trazer ninguém de volta a vida… – ela explica, ainda se “recuperando” e com o rosto um pouco vermelho.

– Olha, posso não ser nenhum expert no assunto, mas tenho quase certeza que ter meus órgãos internos obliterados por uma bola de queimada teria me matado.

A Haruka dá uma risada de leve.

– Você realmente não é nem um pouco “expert” nisso, idiota.

– É mesmo? Então explique-me, ó toda-poderosa sabichona.

– Claro, vou tentar ser o mais simples possível pra seu cérebrozinho de minhoca conseguir processar. A “morte” não é exatamente o que os humanos normais entendem, ela não vem quando alguma parte do sistema corporal para de funcionar, mas sim quando o Chūritsu Essensu é completamente drenado de você. Porque você acha que, mesmo depois de ser fatalmente ferido, várias pessoas conseguem fazer um “último ato” ou “dizer palavras finais”? Simples: porque essa energia ainda não foi completamente esgotada. Os órgãos existem justamente para aliviar o gaste de energia desnecessária, para que o corpo possa se sustentar sem recorrer a sua força vital.

– Então… basicamente, a gente só morre quando acaba totalmente essa tal força vital? Então porque não desenvolver regeneração? Praticamente todo mundo que eu já vi lutar desde que essa maluquice toda começou tem algum tipo de materialização ou algo do gênero.

– Idiota. Você acha que é simples assim? Isso aqui não é pura magia, onde seu corpo se regenera por vontade própria e acabou por ali. Pra recriar algo tão complexo como o corpo humano já é uma tarefa extremamente difícil, e não só isso, você ainda precisaria ser capaz de conectar a parte recriada com sua essência.

– Ok, agora eu me perdi.

Com um tapa na própria testa, ela suspira e pensa por alguns segundos.

– Vamos simplificar, vamos dizer queira montar um carro, e você o faz por fora. Todo o design, as cores, as rodas e toda a lataria exterior. Do que adianta tudo isso se não souber montar as partes do interior, como o motor ou a bateria? Sem um, o outro é completamente inútil.

– Ah… acho que saquei. É tipo aquelas malditas tomadas de 3 pontas: não importa se o produto for bom se a tomada não encaixar.

– …

– O que foi?

– … nada, vamos continuar.

– Continuar o que? Você nem sequer me explicou o que caralhos estamos fazendo aqui, além de me fazendo ser o alvo pro seu treino de mira.

– Alguém tão lerdo não serviria nem pra isso, imbecil.

– Ora sua…

– Não foi uma piada, é exatamente isso que estou tentando fazer.

– Hã?

– Como eu disse antes: você depende demais nos seus olhos e puramente na sua capacidade física, e enquanto isso obviamente te trás vantagens, tá muito longe de ser o ideal. Você devia ser capaz de reagir puramente por instinto, como se fosse automático pra você, uma segunda natureza. Aquele segundo que você gasta pensando em desviar ao invés de contra-atacar é a diferença entre vitória e derrota, e é pra isso que vamos introduzir essa reação natural em você… na marra.

– Argh, que seja, não adianta discutir com você… – levanto-me rápido, e ofereço a mão pra ajudar a Karin a levantar também – … vou fazer o que preciso.

Pode ter sido impressão minha, mas por um segundo ela pareceu dar um sorriso quando falei isso, mas logo voltou ao normal.

– É bom ver que não vou precisar mandar você fazer isso, alivia um pouco minha consciência.

– Não preciso de você me forçando a fa…

– Então pare de achar que temos todo o tempo do mundo, e se prepare.

Dou de ombros, reconhecendo que não adianta argumentar a essa altura do campeonato, e dou alguns passos pra trás. Logo que me posiciono, ela novamente arremessa em minha direção, e mais uma vez é rápida demais pra acompanhar com os olhos. Só que dessa vez eu estava preparado: concentrando uma camada grossa de energia ao redor e alguns centímetros acima do meu corpo inteiro, só para poder ter uma noção de onde ela vai tentar acertar e ter um instante de vantagem.

E funciona… quer dizer, mais ou menos. A bola veio em direção a minha perna esquerda, e eu realmente consegui detectar antes de qualquer dano de verdade ser feito, mas a velocidade dela é simplesmente alta demais pra desviar. Quando tento mover a perna pra tira-la do caminho, acabo colocando-a numa posição ruim, fazendo com que o impacto todo seja no meu pé, que é completamente virado. A dor enorme, acompanhada do som dos ossos deslocando e sendo quebrados, é o bastante pra me fazer cair na hora, olhando fixamente pro resultado.

– M-mas que… merda… isso vai ser mais difícil que pensei… – apesar de tudo, tô segurando uma vontade enorme de gritar de dor. Será que vou me acostumar com isso até o fim?

– – –

Dez… cem… mil… sei lá quantas vezes já foram a essa altura. Depois de tantas tentativas, acho que seria mais fácil dizer quais ossos e órgãos vitais eu não arrebentei, além de mal sentir a dor de verdade agora. Claro, ter os pulmões perfurados pelas suas costelas com tanta força que elas quase saem pelas suas costas sempre vai doer, mas depois da quinquagésima vez meio que você se acostuma com a sensação. Ou talvez meu cérebro simplesmente tenha parado de alertar algo que virou mais comum do que estar sem ferimentos.

– Tsuna? – a Karin diz, enquanto está com as mãos sob meu braço.

– Hm?

– Já está melhor… pode levantar de novo… – nas primeiras vezes ela também ficava com um olhar aflito, mas agora também já se acostumou.

– Ah, valeu Karin. Fico de devendo uma… ou duas… ou três… acho que deu pra entender.

– Mas você realmente é um inútil, não é? – a Haruka, delicada como uma flor, se mete no meio novamente.

– A culpa não é minha que você é esse monstro, eu ainda mal consigo acompanhar esses seus arremessos sem noção.

– Eu imaginei que seria difícil ensinar instintos de combate pra alguém que vive em paz, mas não tanto assim. Você praticamente não fez progresso algum, e passamos aqui o máximo de tempo. Agora vamos ter que voltar só amanhã.

– Hã?

De repente, as cores do mundo voltam ao normal, e uma porrada de gente simplesmente brota ao redor. Fazia tanto tempo que eu só tava repetindo o mesmo exercício que minha mente meio que apagou que estávamos no meio das aulas, com colegas ao redor e jogando como se nada estivesse acontecendo. Até levo algum tempo pra processar direito a informação e levantar, só me ligando realmente que tinha que voltar a sala quando alguém me puxa pelas costas, me fazendo cair outra vez.

– Mas que merda de ideia foi essa? – era a Haruka, obviamente.

– Só descontando um pouco a frustração em cima de você. Ah, e obrigada por cuidar das coisas enquanto a gente estava fora, Tatsumi.

A Tatsumi estava de costas pra gente, andando na direção do corredor, então nem dava pra saber se ela ouviu ou não. A única coisa que dava pra notar eram os dedos dela brilhando um pouco por um instante, provavelmente tem alguma coisa a ver com ela ter “cuidado” da nossa ausência na aula. Me pergunto o que diabos ela fez enquanto a gente ficou fora, mas acho que essa é uma dúvida que não preciso ter lá muita pressa em tirar.

– Vamos voltar, Karin, Tsuna. Amanhã vamos ter que continuar com isso.

Então um frio na espinha chega em mim, pensando que vou passar praticamente pela mesma coisa todos os dias. No que diabos eu fui me meter?