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PARAGOBALA 25 – Subodai vs Índio

PARAGOBALA 25 – Subodai vs Índio


Pouco mais de 1 mês depois

Era mais uma noite quente e úmida na floresta quando Índio finalmente chegou ao seu destino: a Cabana. Deitou-se no chão e olhou as estrelas, satisfeito. Havia atravessado uma grande distância a pé, e teve o cuidado de sempre apagar sua trilha e criar rotas falsas para qualquer perseguidor, o que lhe custou muito tempo. Seu braço ostentava mais duas marcas novas, vigias Kaapors que tinha encontrado no caminho. Foi até o pequeno depósito que ficava escondido perto da construção que abrigava J.B, e pegou a comida que era coloca ali semanalmente para o gigante. Geralmente caçava o que comia, mas estava cansado. Comeu até se fartar, o que não significava grande quantidade, pois estava acostumado a sobreviver com pouquíssimo alimento, e foi buscar um colchão velho que usava para dormir.

Acordou rejuvenescido e se sentindo inteiro novamente. Pegou o seu facão e treinou alguns golpes básicos no ar, um ritual que repetia quase todos os dias. Sabia que tinha que preparar a fogueira para chamar os seus companheiros e reportar tudo o que passou para o Doutor, mas faria isso apenas mais tarde. Não estava preocupado e nem se perguntava porque a polícia estava atrás dele, além de não sentir ansiedade ou pavor por estar na lista negra da tribo Kaapor. Fez todas as suas atividades com naturalidade e pouca preocupação.

No fim da tarde, pegou alguns galhos, montou uma fogueira, e depois do fogo aparecer, jogou a erva que gerava a fumaça branca. Logo os seus companheiros veriam o filete de mancha branca no céu e se dirigiriam para lá. Estava sentado das chamas quando ouviu um som vindo da mata. Imediatamente se levantou, com a faca em punho. Viu um homem sair de trás das folhas. Ele tinha pele clara, cabelo ruivo e olhos negros. Usava um colar e alguns ornamentos nas mãos e nos pés. A roupa parecia típica Kaapor, mas era mais elaborada. O saiote era um pouco mais comprido que o tradicional, e tinha mais detalhes e ornamentos. “Como ele me seguiu até aqui” – pensou.

Seus olhos percorreram todo o corpo da figura, e ele não encontrou nenhuma marca ou grande cicatriz, a pele era lisa. Parecia ser jovem, e sem muita experiencia. Índio caminhou até ficar na frente do intruso, a distância de não mais que 7 metros. O sujeito era um pouco mais alto que ele, e logo abriu a boca:

– Vim em nome da tribo Kaapor. Nosso líder exige sua presença para lhe aplicar a punição devida pelo crime de assassinato e invasão de território proibido.

Índio sorriu.

– Eu me recuso.

– Eu conheço sua fama, exilado. Você não tem chance contra mim em uma luta. Existe um abismo de diferença entre nossos treinamentos.

O sorriso aumentou no rosto de Índio. Já tinha escutado aquela conversa outra vezes, e o final era sempre igual: um corpo estendido na sua frente. Jovens arrogantes eram suas vítimas preferidas.

– Eu já matei homens melhores do que eu – disse.

– Mas nenhum melhor do que eu – respondeu Subodai, com convicção.

Após um silencio tenso, o jovem falou:

– Então é isso.

Subodai fechou os olhos por um instante, e quando os abriu, avançou em direção ao seu inimigo. Executou 3 ataques rápidos com o seu facão. Índio se defendeu do primeiro com a sua arma, e desviou dos outros dois. Subodai deu um pulo para trás e se afastou. Traçou uma linha no chão. Depois, ergueu sua faca, e a apontou horizontalmente para Índio.

– Já matei homens que lutavam como você. Lutadores que são espertos e experientes. Esperam os adversários atacar e no momento certo contra atacam e vencem.

Índio cerrou os olhos e analisou o seu adversário mais uma vez. O ataque que acabará de receber não o impressionou. Estava ansioso para fazer uma marca nova no braço.

– Isso é uma estratégia para lutadores inferiores, retomou Subodai. Quando eu ultrapassar essa linha no chão, eu vou te atacar. E vou te massacrar. Te atacarei de uma maneira que você nunca viu. Sua defesa não vai aguentar. Vou te cansar, vou te cortar, vou te machucar e vou te humilhar. Ou você pode largar a sua arma e se render. Te levarei até a aldeia e lá você poderá se defender – disse calmamente.

Índio não pensou duas vezes e respondeu:

– Então venha.

E Subodai foi. Correu até entrar na área de alcance dos golpes e começou a atacar. Seus movimentos eram limpos e rápidos. Um observador poderia até chamá-los de plásticos. Mais uma sequência de 3 golpes, o primeiro central, e os subsequentes laterais. Índio conseguiu defletir os 3, mas o seu atacante continuou. Atacou com um movimento pesado, vindo do alto, na diagonal. Após o contato com o facão de Índio, Subodai puxou a sua arma com extrema rápidez, e deu uma estocada. Índio pulou para trás instantaneamente. Quando aterrissou, percebeu um pequeno corte na barriga. Se preparou para sorrir e troçar de seu adversário, mas não teve tempo. Subodai já havia se aproximado mais uma vez, e continuou a série de ataques. Dessa vez, foram 7 golpes sem descanso. Índio defendia ataque após ataque, e não conseguia enxergar uma brecha para contra atacar. Os ataques eram rápidos demais, e vinham em ângulos difíceis. Depois do sétimo golpe, Subodai deu um passo para trás, e um segundo depois, se aproximou novamente para outra série de ataques.

Índio teve que se concentrar muito para ver cada golpe. Seus olhos estavam fixos na espada e no pulso de seu inimigo, e reagia instintivamente a cada ataque. Conseguia ver a trajetória de cada golpe instantes antes deles chegarem, e os bloqueava sempre a tempo. Os golpes vinham de cima, de lado, de frente. Veio outro golpe da esquerda, e então ele sentiu uma pancada no lado direito de seu rosto e caiu no chão.

Caiu assustado, piscou, e engatinhou para trás. Olhou a frente e só via Subodai, parado, com o seu facão erguido. Se levantou e caminhou para trás. Entendeu o que tinha acontecido. Ele havia se concentrado tanto em defender o seu flanco esquerdo de uma série de ataques, que ficou vulnerável a um soco do inimigo.

– Já percebeu que você não vai conseguir me vencer? – disse Subodai, que avançou outra vez.

Índio voltou a se defender e esquivar, esperando por uma brecha. Mas não estava dando certo. Subodai atacou na direita, e em seguida conseguiu fazer uma estocada na esquerda. Índio deu um passo lateral, mas não saiu impune. Tinha sido cortado mais uma vez. Subodai seguiu atacando, e Índio recebeu mais um corte, dessa vez no ombro. E depois no ante braço, na perna, no peito e outro na cintura. Agora, já ofegava.

– Contra atacar pode funcionar contra adversários ligeiramente melhores que você. Mas não é o caso. Eu sou muito melhor do que você. A diferença entre nossa técnica é enorme. Você não tem habilidade o suficiente para propor uma luta a mim. Vai se defender pateticamente até eu resolver te matar.

Subodai de um passo para atacar outra vez, e então, dessa vez, Índio também deu um passo, tentando surpreender com uma estocada inesperada. Subodai encolheu seu braço, deu um passo lateral e defletiu o facão de índio para o outro lado. Com isso parte do corpo dele ficou exposta, e Subodai não perdoou. Executou um golpe vertical, em toda lateral de tronco de Índio, que gritou ao receber o corte.

– Eu consigo ver todos os seus golpes.

Subodai avançou. Levantou o seu facão e deu um golpe poderoso, vindo de cima para baixo. Índio virou o seu Facão na horizontal para amortecer o golpe. Mas estremeceu e escorregou e dobrou um joelho. Subodai deu um sorriso triunfante, e Índio pensou “isso!”. Fingir um escorregão era uma um movimento que ele usava com frequência e já o havia salvado muitas vezes.

Subodai atacou com volúpia, e, pela primeira vez, Índio viu uma brecha. Gritou e repentinamente deu uma estocada com a sua faca, no peito desprotegido de seu atacante. E então seu Facão voou de sua mão. Atônito, percebeu que havia caído em uma armadilha. Subodai nunca esteve vulnerável, e havia se preparado para defender um golpe, e não finalizar a luta.

De joelhos, ele olhou aquele homem, de expressão fria e cabelos vermelhos. E pela primeira sentiu algo diferente. Era medo. Ele já havia estado naquela situação dezenas de vezes. Porém do outro lado. Dessa vez, ele era a presa indefesa.

Desesperadamente, Índio caminhou para trás e quando vez menção de correr até sua faca, levou um chute no rosto e caiu. Se levantou no mesmo instante e caminho de quatro, como um animal. Não se conteve, e virou o rosto para olhar para trás e procurar alguma saída.

– Homens que se guiam puramente pelo instinto nunca vão me vencer. Seu instinto lhe disse que era a chance de me matar?

Índio calculava o que fazer naquele momento. Não carregava consigo nenhum valor de honra, e sairia correndo na primeira oportunidade. No entanto, não achava que conseguiria fugir daquele homem. Mas algo o contagiou, mais um sentimento que ele desconhecia: ele não queria morrer. Queria sobreviver e lutaria até o fim pela sua vida.

Um estrondo fez Subodai olhar para trás, e viu um homem gigante correndo sua direção. Deu um pulo para o lado, e por centímetros conseguiu desviar da investida. A criatura se virou e tentou lhe acertar com um soco, e Subodai mais uma vez desviou do ataque com uma esquiva. Continuou se afastado, com dificuldade, enquanto recebia os golpes. A explosão muscular do agressor era impressionante. “Mesmo com todo esse tamanho, ele é rápido demais”. A cada golpe que se livrara, sentia que estava mais perto de ser acertado. Veio mais um golpe, e então Subodai de um passo a direita e contra atacou com sua faca, fazendo um corte no braço do monstro. Para sua surpresa, foi como se o inimigo não tivesse sentido o ataque, e usando o próprio braço ferido, deu um empurrão no guerreiro Kaapor, que foi lançado para trás e por pouco não caiu no chão.

Subodai não lembrava da ultima vez que foi tocado em uma batalha. Com um grito, J.B avançou novamente, com seu ombro à frente. O índio deu um giro e fez outro corte no gigante, agora nas costas. Mais uma vez, a criatura não parou e seguiu atacando, sem descanso. O Kapoor sabia que caso fosse acertado e perdesse o equilíbrio, poderia morrer. Percebeu que Índio se movia discretamente, e estava em busca de uma brecha para mata-lo. J.B tentou um chute, e Subodai desviou com uma cambalhota, aproveitando para fazer um corte em sua perna plantada no chão. Nem isso diminuiu o movimento da criatura. “Esse monstro parece imune aos meus ataques. Mas não passa de um homem forte.” Na nova investida, conseguiu outra vez girar, e dessa vez mirou atrás do joelho. Dominava a arte de machucar o corpo humano, e sabia os botões exatos para fazer cada parte dele parar de funcionar. J.B gritou e quando tentou correr, mancou e o seu joelho dobrou. Teve que apoiar a mão no chão para não cair, e Subodai viu a chance de atacar o seu pescoço. Nesse exato momento, Índio deu uma avançou por trás. O seu braço estava todo estendido, e só tinha acertado o ar. Subodai estava ao seu lado, com um sorriso triunfante. Segurou o pulso do braço de Índio e o puxou para baixo ao mesmo tempo em que deu uma joelhada. Índio gritou depois do estalo no osso, e soltou o seu facão. Com a empunhadura da faca, acertou a nuca, e o homem a sua frente caiu.

J.B estava arrastando uma perna, vindo em sua direção. Subitamente, ambos foram iluminados por um faról de carro. Um homem saiu do veículo com uma pistola apontada para Subodai, que rápidamente se agachou e puxou o corpo de Índio para sí. O segurava, com a faca colada na sua garganta.

O homem que veio do carro chegou mais perto, e disse:

– Você é o da tribo Kaapor, não? Solte o meu companheiro.

Subodai deu um riso de escárnio.

– Arrisque o tiro.

Bal ficou observando a cena por alguns instantes, e depois abaixou a arma.

– Me leve ao seu líder. Tenho uma proposta para vocês.

Após nenhuma resposta, continuou:

– Eu trabalho com o promotor da cidade. Posso ajudar os Kaapor.

A feição do rosto de Subodai mudou.

– O que oferece? – perguntou.

– Sou assistente dele. Acompanho de perto tudo que ele faz, e tenho sua confiança. Posso passar a vocês informações sigilosas e avisar de qualquer movimento que ele faça.

Subodai ficou em silêncio por alguns instantes.

– Abaixe sua arma. Se você for digno, talvez possa ter um encontro com Kerexu.

***

Os dois seguiam Subodai mata a dentro, estavam com as mãos amarradas nas costas, e Índio caminhava com alguma dificuldade. Subodai havia feito um curativo na perna de J.B, que ficou deitado repousando na cabana. Havia prometido enviar um curandeiro até lá caso o acordo de Bal tivesse sucesso.

– É bom te ver vivo – disse Bal a Índio.

– Não sei por quanto tempo – respondeu.

– Confie em mim. Dará tudo certo.

Índio assentiu e confiou em seu líder. A única pessoa que Índio seguia e acreditava. Percebeu no rosto do Doutor uma determinação que não via a algum tempo.

– Como foi a perseguição da polícia? – quis saber Bal. Aquele era um mistério que ele havia se esforçado muito para desvendar no último mês. Julgava já entender tudo e queria confirmar a história.

– Eu estava na rua, e a polícia apareceu querendo me levar. Fugi de moto até a floresta. Fui perseguido por Kaapors, os matei, e depois fugi, até chegar aqui na cabana. Apaguei todo o meu rastro…mas não adiantou nada – resumiu rapidamente.

Bal sabia que dificilmente Índio daria mais detalhes. O seu companheiro enxergava qualquer evento com simplicidade. A versão do amigo bateu com tudo que tinha descoberto. Sua confiança de que o acordo daria certo aumentou.

O progresso dos três não era rápido. Índio tinha dificuldades para caminhar, e em determinado ponto, Subodai parou e disse:

– Vamos descansar aqui por um tempo, depois retomamos a caminhada. Sentem ali e não se mexam.

Saiu da vista da dupla e desapareceu.

– Posso soltar as nossas minha amarras, Doutor.

– Não. Mesmo se matássemos esse homem, os Kapoors continuaram vindo atrás de nós. É uma briga que não podemos vencer. Eles são muitos. Usaremos outra abordagem.

Pouco tempo depois, o Kaapor retornou com alguns galhos na mão. Colocou os no chão, e depois pegou um isqueiro na sua bolsa para acender a fogueira.

– E eu achando que veria como um legítimo índio acende uma fogueira – troçou Bal.

Subodai apenas o olhou e não respondeu nada. Levantou e entrou na mata outra vez. Retornou um tempo depois com duas cobras mortas na mão. As colocou no solo, pegou o seu facão e removeu a cabeça dos animais mortos. Em seguida, cuidadosamente retirou a pele delas e as cortou ao meio. Descartou algumas partes dos bichos e separou a carne, que espetou em um graveto. O deixou acima do fogo por algum tempo e o puxou. O levou até perto de Bal e falou:

– Essa é sua comida. Coma.

– Você vai dar de comer na minha boca? – riu.

– A viagem é longa. Morda a carne ou vai ficar sem nada.

Bal assentiu e mordeu a carne branca. Escondeu todo o seu receio, pois não queria demonstrar fraqueza. O gosto foi surpreendentemente bom. Depois de acabar de comer o pedaço, o Kapoor também alimentou Índio, que comeu sem dizer nada. Após a refeição, Subodai os instruiu a dormir um pouco, e ambos deitaram na própria mata.

Era escuro quando eles voltaram a andar, e foram guiados pela luz forte da lanterna que Subodai segurava.

– Conhece esse homem? – perguntou Bal a Índio.

– Nunca o vi antes – respondeu o lacônico companheiro.

O Doutor estava analisando o sujeito desde que o tinha visto pela primeira vez. Fisicamente era diferente dos índios. Um pouco mais alto. Cor da pele, cabelo e olhos diferentes do habitual. Alguns traços ainda lembravam os outros Kapoors que ele já tinha visto. Concluiu que era um mestiço. Era alguém altamente treinado e preparado. Um guerreiro de elite. Não tinha visto a luta dele contra Índio e J.B e não sabia se tinha sido uma emboscada ou um confronto direto. Não achava que alguém poderia vencer os dois em uma luta. Seu colega não era conhecido pelo orgulho, mas Bal sabia que ele gostava da sensação de ser superior às suas vítimas, por isso evitou perguntar sobre o combate.

Em determinado ponto, Subodai amarrou tiras de pano ao redor da cabeça dos dois, para bloquear a visão. Bal teve alguma dificuldade em andar, e Índio se adaptou rapidamente. Subodai os guiava, indicando o caminho e avisando o momento de parar ou quando existia um obstáculo a frente. O Doutor não fazia ideia de quanto tempo já estava andando, mas se sentia cansado. Não estava acostumado com o calor da selva e nem a caminhar distâncias tão grandes. Sem poder enxergar, perdeu a noção do tempo.

Quando a faixa do removida da sua vista, o céu estava mais claro. Bal presumiu que era o início do dia, por volta de 5 ou 6 da manhã.

– Esperem aqui, disse o Índio ruívo.

Os dois sentaram e relaxaram. Mais de uma hora depois, Índio levantou a cabeça e olhou para os lados.

– O que foi? – perguntou Bal.

– Estão vindo. Muitos.

Ele começou a olhar ao redor, buscando uma saída.

– Vamos esperar. – disse o Doutor ao perceber a movimentação de Índio.

10 índios armados com arcos e flechas apareceram na frente dos dois. Bal ouviu ruídos as suas costas, e imaginou que existiam vários outros escondidos ao redor deles. Um dos índios tomou a frente e falou:

– Vamos ver se você merece falar com o nosso líder, homem da cidade.

Eles seguiram o grupo, e depois de uma caminhada, finalmente era possível ver ocas ao longe. Enfim, estavam na aldeia. Um índio apareceu por trás da dupla e soltou as amarras.

– Você vai enfrentar um dos nossos. Se vencer, pode falar com Kerexu.

Bal titubeou. Não estava esperando esse tipo de coisa. “Tinha pensado que esses índios eram minimamente racionais, mas não passam de um bando de selvagens!” pensou com raiva.

Foi caminhando até o local apontado, e viu que um grande círculo foi formado, por dezenas de índios. “Será que finalmente encontrei o meu fim? Não há muito a se lamentar”.

Um índio musculoso e alto apareceu na frente de Bal. Estava a 20 metros de distância. Apesar do receio, a expressão do Doutor era de confiança. Assim que percebeu quem era o seu adversário, começou a escrutina-lo com sua visão. Pouco prestou atenção nos rituais ao redor ou a um juíz dando início a batalha. Sua mente estava focada no homem, que agora corria em sua direção. Bal permaneceu imóvel. O índio estava agora a poucos metros de distância, quando deu o impulso final para pular. O Doutor percebeu a intenção instantes antes e pulou para trás. O grandalhão agarrou apenas o ar, e Bal emendou uma cotovelada no supercílio, antes de se afastar mais uma vez. O seu adversário atacou com uma sequência de socos, que foram aparados pelos braços de Bal em posição de guarda. Ainda assim cada pancada doia. No quinto soco, ele conseguiu se agachar, e contra atacou com um soco nas costelas do selvagem, que aparentemente não se abalou pelo golpe, tentando mais uma vez agarrar Bal. Outra vez o golpe falhou. Bal conseguia ler aquele homem sem problemas. Durante toda sua vida, Bal sempre se envolveu em brigas, na escola, na rua, nos bares. Nunca foi o mais forte, o mais corajoso ou mais rápido. Nunca tinha treinado artes marciais. Mas geralmente levava vantagem, mesmo contra adversários maiores. Ele sempre teve facilidade para prever os movimentos dos seus inimigos, e com o tempo, foi aprendendo os pontos mais frágeis do corpo humano. Seu soco podia não ser o melhor, mas ele sabia onde aplicá-lo. Após mais um agarrão frustrado do índio, Bal deu um chute no mesmo ponto do corpo que havia socado antes, na costela. O homem recuou e ficou mais cauteloso.

– Está doendo? Vai quebrar já já – disse Bal.

O comentário irritou o homem que se aproximou. Bal ameaçou socar a costela uma terceira vez, e o Índio se protegeu. Foi o seu erro. O ataque era uma falso, e a defesa precipitada abriu uma brecha, que foi muito bem explorada. O Doutor lhe acertou uma joelhada no meio das pernas, e o índio gritou de dor. Em seguida, puxou sua nuca em direção seu outro joelho, usando toda força que tinha. Por fim, vendo o adversário de joelhos e sangrando, desferiu socos no seu rosto. O homem caiu desacordado.

Ouviu gritos ao redor. Alguns apontavam para ele e tinham expressões agressivas. Outros batiam lanças no chão. Logo alguém puxou o seu braço e o levou para fora do círculo. Bal foi escoltado por mais um tempo, até ficar na frente de uma grande oca. Ela era guardada por dois Índios grandes, ainda maiores do que o seu adversário na luta. Cada um segurava uma lança, e contavam com um facão preso na cintura. O índio ao seu lado falou:

– Entre. Kerexu o espera.

PARAGOBALA – Capítulo 24 – Preparativos

Capítulo 24 – Preparativos

– Mas como vamos fazer isso funcionar, Vincent? Vou atuar nas sombras, investigando sozinho? Quer que eu monte uma equipe?

– Eu estava pensando em algo mais ousado amigo. Você vai trabalhar como delegado. Oficialmente.

– Como!?

– Vamos inserir a nomeação no diário oficial.

Nathan riu.

– Isso não pode dar certo… – parou de falar, olhando fixamente para frente, tentando imaginar como o plano poderia se concretizar.

– Já tenho tudo planejado. O salário não vai cair na sua conta, claro, mas me comprometo a te pagar o salário de um delegado. O que importa é que você vai assumir o comando da delegacia, e vamos ter recursos e mão de obra para alcançar nosso objetivo. Tenho amigos importantes em cargos importantes. Te protegerei a qualquer custo e…

– Pare com essa bobagem irmão. Eu estou aqui para vingar Victus e dane-se as consequências. Vou com você até o fim. Agora, me passe tudo que você tem, e me relate tudo que descobriu até agora.

***


– Senhor, já estabelecemos um novo chefe para o tráfico. Será conhecido como Xingu. Homem nosso, inteligente e leal. Tivemos sorte que muitos concorrentes acabaram se matando…foi mais fácil que o esperado. Logo agendaremos a primeira reunião com a polícia e estaremos operando com total capacidade.

– Muito bem Kiary. Conduziu muito bem nossa reconquista. Continue me informando semanalmente do andamento.

– É uma honra, senhor – disse Kiary, emocionado com um mero elogio do Chefe da tribo.

Após a saída de Kiary, Kerexu se levantou e saiu da oca, marchando em direção a floresta. Dois Índios altos e fortes, acima da média da tribo, seguravam lanças e o seguiram à distância de alguns metros. Eles ficavam o tempo inteiro na frente de sua oca, e o acompanhavam a qualquer lugar. Em certo ponto, Kerexu parou, e fez um sinal para eles voltarem até a aldeia. Os dois homens não titubearam e obedeceram. As ordens do chefe eram absolutas.

Kerexu caminhou mais um pouco, observando as árvores, até chegar em um tronco caído e sentar. Instantes depois, 5 pessoas apareceram, como se fossem teletransportadas para aquele local. Alinharam-se à sua frente e fizeram uma grande venia, apoiando um dos joelhos no chão.

– Levantam-se. O trabalho de vocês, como sempre, foi exemplar na cidade. Já colocamos um novo homem forte no controle da venda de drogas em Paragominas, e nem mesmo o comandante da operação desconfia que estavam atuando. Com esse obstáculo removido, podemos avançar.

Subodai, Tolui, Batu e Sorhatani se levantaram, eretos em posição impecável, aguardando as ordens.

– Um incidente infeliz ocorreu a algum tempo atrás. O exilado invadiu o território Kaapor, fugindo da polícia, que também transpassou o limite, e foram impedidos pelos nossos guardas de fronteira. Não sei como, mas no meio deles tinha um exaltado promotor, que teve de ser contido a socos. Certamente isso terá uma volta. Esse tipo de gente se acha acima de muitas coisas, principalmente de nós, os nativos. Um grupo está perseguindo o exilado. Certifiquem-se que ele foi capturado ou morto. E investiguem quem é esse promotor e se ele pretende fazer alguma coisa contra nós.

Kerexu fez uma pausa, inclinou a cabeça para frente, e continuou a falar:

– E tem mais um assunto que me preocupa. Alguém estava bancando Bezerro do Acre. Descubram.

Depois de uma batida de coração, os 4 já não estavam mais à vista.

***

Bal acordou assustado e se levantou rapidamente. Olhou ao redor, não reconheceu a sua casa, e começou a relembrar sua noite anterior. Sorriu ao ver Rosemari, nua, dormindo na cama. Se vestiu e saiu da casa, sem se despedir. Tinha muito o que pensar. Sabia que aquilo não era certo com a sua namorada, Clara, mas não conseguia se sentir mal por isso. A noite tinha sido fantástica. Muito melhor que o sexo com a inexperiente companheira. Rosemari era uma mulher de verdade, que sabia muito de como dar prazer a um homem. Uma autêntica fêmea. Ele queria transar com ela mais mil vezes. Bebeu uma garrafa de cerveja para dar uma apaziguada no turbilhão de pensamentos em sua cabeça e se preparou para ir trabalhar.

– Como foi sua conversa com a sua amiga?

A pergunta rompeu a concentração de Bal, que já estava trabalhando em um processo desde que chegou, a mais de uma hora. Virou a cabeça na direção de Agha, sem ter uma resposta.

– Conversam muito ontem, a noite e sozinhos? – insistiu o estágiario.

– A noite foi boa, e não te interessa.

– Pela sua cara a conversa foi boa mesmo.

Bal se levantou, irritado e apontou o dedo:

– Eu sou um homem! Sou homem. Faço coisas que homens fazem. Pare de me julgar.

Agha respondeu de bate pronto com uma coragem inesperada:

– Só se for homem sem caráter.

– Seu moleque, você não sabe nada sobre a vida adulta. Não me conhece, não sabe o que eu faço pelas pessoas! Eu ajudo um orfanato! As crianças de lá me adoram.

– Até um relógio quebrado acerta duas vezes por dia.

Bal fez um esforço para se controlar e sentou-se novamente. “Como esse garoto consegue me tirar do sério dessa maneira? Quem é ele perto de mim”.

– Fique com os seus pensamentos, e eu fico com os meus – concluiu Bal.

– Eu te avisei ontem o que iria acontecer.

– O que aconteceu ou não só diz respeito a mim.

– E a sua namorada também, não?

Bal rangeu os dentes, e não sabia o que responder.

– Eu tenho mais o que fazer! – e levantou-se e saiu da sala.

Ele não tinha realmente nada para fazer. Caminhou pelo fórum tentando esfriar a cabeça e refletindo sobre Clara. “No final das contas, só fiz mal a essa garota. É óbvio que eu não sirvo para nenhum tipo de relacionamento”.Depois de bater perna sem destino pelos corredores do edifício, chegou até a sala onde costumava trabalhar antes de virar assistente de Vincent e viu que as pessoas estavam entretidas em uma conversa. Mais precisamente, fofoca:

– “Dizem que o promotor estava perseguindo o bandido junto dos policiais…!”.

Quando perceberam que Bal estava na sala, se silenciaram e olharam.

– Bal! Como vai? Faz tempo que não vem aqui – disse João, um escrevente do fórum.

– Vou bem. O trabalho lá não é moleza, mas não me arrependo da mudança.

– Como é trabalhar com esse promotor? – Perguntou Janaína, que era a colega mais próxima de Bal nos tempos em que ele trabalhava por lá.

– Ah…quando você conhece o homem percebe que não tem nada de outro mundo. É só um profissional que entende do que faz.

As pessoas o olharam com desconfiança. A fama do Pelicano era enorme, e era tratado dentro do fórum como uma celebridade.

– O que sabe desse perseguição que ele se envolveu? Ele te contou alguma coisa?

– Não me falou muita coisa…o que vocês sabem? – perguntou fingindo desinteresse.

– A Joice do outro departamento tem uma amiga que é esposa de um policial. Dizem que o promotor quis comandar pessoalmente uma perseguição a um bandido extremamente perigoso.

– Isso não é atribuição do Ministério Público, deve ser apenas um boato. E o que esse bandido fez?

– Isso ninguém sabe…

Bal terminou a conversa de maneira cordial, e saiu de lá com muito o que pensar. “Achei que Vincent confiava em nós, já que ele nos pediu ajuda no caso do serial killer. Mas não disse uma palavra sobre isso…”. Faria o possível para investigar o caso. O primeiro passo era descobrir quem era essa tal de Joice e extrair tudo que ela sabia. O episódio da perseguição de Índio o corroía por dentro. Não tinha pesar e nem ficava ansioso ao pensar o destino de seu colega. Mas temia que alguma investigação poderia chegar até ele e as atividades do seu bando.

***

Vincent chegou no seu apartamento depois do trabalho, e viu Nathan no sofá, extremamente concentrado, observando diversos papéis espalhados pelo chão. Muitas anotações e uma bagunça generalizada, com direito a folhas coladas na parede.

– Vejo que fez algum progresso – disse Vincent.

– Teremos muito trabalho aqui – respondeu Nathan. Essa tribo Kaapor é muito peculiar. Conheci muitos povos indigenas pela região do Amazonas, mas esses são diferentes. Preciso investigar melhor, no campo. As principais perguntas que temos de descobrir são: 1) Esse suspeito é um índio Kaapor? 2) A tribo compactua com o que ele faz? 3) Se sim, qual seria o interesse dessa tribo em eliminar os bandidos da cidade?. Não sei se tudo isso se encaixa Vincent. Esse bando de justiceiros deve ter deixado mais rastros. Cometido algum outro erro. A partir de amanhã começarei a minha própria investigação.

Vincent assentiu, satisfeito. Ver a determinação de Nathan o revigorava.

– Até semana que vem vou preparar sua nomeação. A polícia daqui é muito corrupta, mas sinto que muito disso era por causa do antigo delegado que partiu.

– Tenho experiência em lidar com corruptos, com um promotor no bolso então, será um passeio no parque, disse sorrindo.

 

Após uma pausa, perguntou:

Vincent, quero saber um coisa de você. Quando acharmos os responsáveis, o que você vai fazer?

O Pelicano ficou em silêncio, e já tinha ponderado muito sobre essa questão. Sabia exatamente o que iria fazer.

– Vou levá-los à justiça. A minha justiça. Os matarei, e não de forma rápida. Está comigo?

Nathan olhou para o seu amigo, com um olhar sério e respondeu:

– Até o fim.

***

Bal chegou em casa animado. Não se passou 5 minutos, e ele estava batendo na porta de sua vizinha. Não teve nenhuma resposta. Incomodado, pegou o celular e mandou uma mensagem. Não conseguiu evitar diversos pensamentos negativos, e em sua cabeça via flashes de imagens de Rosemari com outros homens. Dizia a sí mesmo “pare de pensar besteira. Não tenho motivos para pensar uma bobagem dessas”. Pegou o celular e enviou uma mensagem a ela:

Como vai? Cheguei do trabalho e acho que daqui umas horas estarei livre. Quer fazer alguma coisa?

Antes do esperado, uma resposta chegou:

Olá querido. Hoje não estou em casa. É dia do meu culto. Só voltarei muito tarde. Amanhã nos vemos…ou então toco sua campainha quando eu chegar…se você deixar.

A mensagem deixou Bal excitado. Aquela mulher mexia com ele.

Pode tocar. Caso eu não atenda, é porque dormi, rs.

Imediatamente já começou a relembrar do sexo fantástico da noite passada, e fantasiava como seria o de hoje. O seu celular vibrou novamente, e ele foi ver a resposta de Rosemari. No entanto, a mensagem era de outra mulher: Clara.

Bal, onde está? Não falou comigo ontem. Está tudo bem meu amor? Queria muito ve-lo hoje.

Estou fazendo plantão no trabalho está noite. Marcamos algo para outro dia. Estou muito bem e com saudades.

Escreveu a mensagem quase automaticamente, de maneira fria. Preferia não pensar nas consequências e muito menos nos sentimentos da garota. A única certeza que tinha é que não sairia da sua casa hoje, e aguardava ansiosamente a sua nova amante.

– Muita saúde e muita fé para vocês. Acreditem, as coisas vão melhorar, se vocês acreditarem. Boa noite. E assim, o Pastor encerrou mais um culto, depois de um discurso inflamado. O número de fiéis só aumentava. A igreja já era pequena, e ele planeja a construção de uma nova. No próximo encontro, recolheria mais dinheiro do público, tudo em nome do Senhor. Já mentalizava as palavras, e explicaria como era importante para Deus a criação de uma igreja maior. Sua linha de pensamento foi interrompida quando percebeu Rosemari na platéia, e acenou a ela. Pouco tempo depois, ela estava a sua frente.

– Pastor, tenho muito a te contar, e a te agradecer. O senhor é muito sábio.

– Imagina. Eu apenas propago a palavra de nosso senhor.

– Eu confesso que quando me fez aquele pedido achei muito estranho…e até duvidei de você, que Deus me perdoe. Não se deve duvidar de um servo do senhor você. Agora…agora eu entendo.

– Conheceu o seu vizinho?

– Sim…e…nós nos conectamos de uma forma que o senhor não imagina! Não sei como sabia disso…mas parece que fomos feitos um para o outro. Nunca fui tão feliz! Como posso te agradecer, Pastor?

– Não precisa me agradecer…agradeça a Deus. Ele é o responsável por tudo. Eu sou apenas um meio em que ele age. Fico feliz com as suas novas.

Rosemari se despediu e foi embora, alegre. O Pastor a observou caminhar, com olhar fixo em suas nádegas. “ Eu sabia que o meu irmão não iria resistir a essa gostosa. Se já comeu, vai logo largar aquela namoradinha dele. Ele foi sempre muito reticente com essa história de pagar puta…não sabe o que perdeu, são as melhores na cama, e agora ele vai descobrir isso da melhor maneira. Ele sabe ler todo mundo, mas é inocente em relação a si mesmo. Bal, um namorado fiel, haha, faça me rir.”

Tolui examinava agachado um corpo sem vida de um índio Kaapor e disse:

– Esse aqui tem um corte na garganta. Parece que 4 morreram com golpes de Facão. O outro com uma flechada. O exilado é bom.

Subodai andou em silêncio e observou os Kaapors mortos.

– Ele atacou por trás, e primeiro matou esse aqui, falou apontando. Depois avançou contra esse arqueiro, o mais jovem do grupo, que provavelmente errou o tiro e matou aquele ali, que devia ser o segundo melhor lutador do grupo. Matou esse arqueiro e se virou para enfrentar aqueles dois que…tentaram um movimento de ataque duplo. O exilado partiu para ofensiva e matou esse, e depois se envolveu em uma demorada luta contra o líder do grupo, Ru’i, que foi morto com um golpe na nuca. O exilado tem astúcia e teve sorte. Eu vou encontrá-lo e o tratei até Kerexu, vivo.

Batu se virou e disse:

– Você vai sozinho? É melhor pelo menos irmos em dupla para garantir.

– Não. Eu vou sozinho. Começem a investigar esse promotor. Vou seguir essa trilha e em breve o encontrarei. Será interessante.

PARAGOBALA – Capítulo 23 – Fuga na floresta

Capítulo 23 – Fuga na floresta

Índio corria o mais rápido que podia no meio da floresta. Sabia que estava sendo perseguido por vários membros da tribo Kaapor, e se fosse capturado seria morto, pois era a pena destinada aos exilados que voltavam a pisar no território da tribo. Ele sabia que fugir para dentro do território Kaapor foi um movimento desesperado e arriscado, porém foi a única coisa que lhe veio à cabeça durante a perseguição repentina da polícia. Índio nunca foi um homem que pesasse muito as causas e consequências de suas ações. Homens mais ponderados, talvez tivessem se entregado à polícia ao invés de despertar a irá dos Kaapors. Índio apenas se concentrava em sobreviver, correndo com velocidade, mas sem desespero. Prestava atenção aos sons da mata, os pisões, os gritos, e o barulho das cordas dos arcos e das flechas sendo disparadas.  Ele conseguia perceber o momento exato de cada disparo, e sempre fazia movimentos irregulares na hora certa para desviar de cada flecha. Já tinha percebido pelo menos 3 índios atrás dele, mas não tinha certeza do total. Continuaria correndo.

– Maldito exilado! – reclamou Ru’i, ao errar mais um disparo de flecha. Ele havia sido encumbido de liderar a perseguição ao invasor, que foi rapidamente notado por um vigia assim que entrou no território. Com ele, totalizavam 5 índios.

Com sinais, ele comunicou aos seus companheiros para continuarem a perseguição. Eles conheciam aquele terreno melhor que o invasor, e estavam mais descansados e equipados. Era questão de tempo. As ordens eram claras: capturar ou matar.

***

Bal trabalhava em mais um processo de um menor infrator, quando o seu celular tremeu na mesa. Pegou o aparelho e viu uma mensagem de Rosemari, sua nova vizinha:


Olá meu vizinho! Te encontrei aqui! Tudo bem?

Bal ficou instigado.

“Como descobriu o meu telefone?”  – respondeu rapidamente.

“Isso é segredo” – respondeu a mulher, junto de uma figura com um beijo.

Bal costumava ficar ressabiado e nervoso com qualquer tipo de invasão a sua privacidade. Desta vez, no entanto, sorria. Percebeu que vinha mais mensagens e aguardou.

“O que acha de vir jantar aqui hoje?

Quase que automaticamente, aceitou o convite, mas se deteve.

Tenho compromissos mais tarde. Se eu conseguir sair cedo, eu te aviso.

Sempre esteja no controle, pensou.

– Ganhou algum prêmio, é? – perguntou Agha.

Bal abruptamente colocou o celular na mesa e olhou para o lado, percebendo que estava sendo observado por Agha.

– Do que você está falando?

– Do jeito que você está sorrindo ai, logo depois de ler alguma coisa no celular.

– Ah…não é nada. Uma amiga me convidou pra jantar.

– Amiga, é? Sei…

– Uma amiga sim, minha vizinha. Batemos um papo a noite de vez em quando. Coisa que a maioria dos seres humanos normais fazem – acusou.

– Até onde sei, não é tão normal um homem comprometido ficar de papinho com a vizinha. Aposto que ela não é feia…

– Quer dizer que um homem que tem namorada não pode conversar com outras mulheres? Quanta infantilidade da sua parte! Saia mais, conheça mais pessoas. Saia dessa bolha em que vive, Agha!

– Sua namorada sabe então dessas suas conversas?

– Eu tenho um relacionamento adulto com ela, onde um não tem que prestar contas ao outro…e muito menos tenho que prestar contas a um mero estagiário intrometido.

– Pensa bem no que você vai fazer, só te digo isso…meu pai também tinha muitas “amigas”…

Antes que Bal pudesse responder, Vincent adentrou na sala, com uma pasta na mão e visivelmente animado.

– Bom dia camaradas. Preciso conversar com vocês.

Bal gelou por um instante. “Sera que tem conexão com a perseguição ao índio!?”.

Vincent se dirigiu até sua mesa, e pediu para ambos se aproximarem. Abriu sua pasta e colocou algumas fotos na mesa. Explicou rapidamente do caso das mulheres que forem encontradas com o ânus suturado, e de como a investigação tinha progredido pouco, e concluiu:

– A verdade é uma só: se nós não formos atrás disso, ninguém irá. Ou só quando mais mulheres morrerem. Quero a ajuda de vocês dois para investigarmos esse caso.

Agha estava achando a situação surreal, e em vários momentos achou que fosse uma pegadinha do chefe. Aparentemente não era. Pensava no que ia falar, quando, surpreendentemente, Bal se antecipou e disse:

– Doutor, isso é muito bonito…mas investigação não consta nas nossas funções e acho que é ilegal. Em todo o tempo que trabalhei nesse fórum, nunca fiz nada que não fosse expressamente dito na lei…

– Vocês estão seguros. Ninguém saberá disso, e ninguém os punirá. É um mero trabalho investigativo, que encaminharei as autoridades competentes quando necessário. As questões que você levantou são importantes, mas existem outras de maior urgência. Quem vai proteger as pessoas de um assassino como esse? Quantas mulheres mais irão morrer enquanto nos atermos a mera formalidades legais?  Tratem isso como diligências do ministério público.

“Sei muito bem quem poderia lidar com esse tipo de marginal. Existe gente que protege essa cidade fora dos limites da lei” – pensou Bal.

– Mas eu respeito a decisão de vocês. Caso não se sintam confortáveis, posso iniciar um novo processo de seleção. Não estudei para virar um burocrata ou legalista inerte. Meu objetivo é melhorar a vida das pessoas, ajudar os que precisam ou não podem se defender. E é o que farei aqui, e preciso de gente que tenha afinidade com esses ideias.

– Eu ajudarei – respondeu Bal.

Agha fez que sim com a cabeça, quase anestesiado.

– Ótimo. Tirei cópias dos arquivos do caso para vocês dois. Usem essa semana para entenderem tudo sobre o caso, e qualquer coisa podem me perguntar.

Pouco antes de sair de seu trabalho, Bal enviou uma mensagem a Rosemari avisando que poderia ir jantar, mas chegaria tarde. Ele não tinha nenhum compromisso, porém gostava de passar a impressão de que era uma pessoa muito requisitada e atarefada. Passará a tarde lendo os arquivos do caso do assassino. Definitivamente era um serial killer, concluiu. Pensou que talvez chegará a hora de o bando dele voltar a agir, visto que o estado pouco podia fazer. Os esforços do promotor eram bonitos, mas Bal duvidava que dariam em alguma coisa. No próximo encontro, colocaria Antônio para investigar o caso.

Foi até a academia e fez um treino focado na parte superior. Queria chegar com os músculos pulsando para o encontro. Não parava para se perguntar porque queria impressionar Rosemari com o seu físico em um mero encontro entre amigos. Apenas puxava o peso, animado e ansioso.

Finalmente chegou a sua casa, tomou um banho e se arrumou para a visita. Tocou a campainha da vizinha 15 minutos depois do horário combinado.

– O senhor está atrasado – disse a anfitriã, que vestia um vestido simples, mas bonito. Ele era curto e bem rente ao corpo.

– Infelizmente sou um homem ocupado – disse com um sorriso, enquanto analisava o corpo da garota. E então, o que teremos para jantar?

Uma mesa estava preparada, com uma garrafa de vinho no centro.

– Fiz uma receita que aprendi na minha família. Pato no Tucupi.

Era um prato típico da região que Bal provará poucas vezes. O cheiro da comida lhe agradava. Sentou a cadeira e foi servido pela mulher. Gostou da sensação, e não tirava os olhos dos quadris de Rosemari.

– E o trabalho, como foi, Bal?

– Foi um dia atípico. O promotor nos pediu para executar uma nova função – revelou, se surpreendendo com a facilidade que foi revelando a informação.

– Gosta de mudanças?

– Não vou dizer que sou um fã. Minha rotina é bem estabelecida, e gosto de me mantar a ela.

– Aposto que esse jantar é uma quebra na sua rotina.

– Certamente é…mas algumas quebras de rotina são bem vindas.

Apesar de estar gostando da conversa, se forçou a tirar o foco de si, e perguntou:

– E você? Para falar a verdade não me lembro de você ter me contato o que faz.

– Eu trabalho na creche da igreja, cuidando das crianças.

– Ah a igreja…interessante. Gosta do que faz?

– Claro! Adoro crianças. Em comparação com os meus empregos anteriores, esse é uma graça de Deus.

– Foram muito ruins?

– Você se surpreenderia com tudo que eu já fiz.

Eles conversaram mais tempo, Bal explicou melhor qual era o seu emprego e sua função, e o vinho foi sendo consumido com o passar do tempo. Depois da comida ter acabado, eles ainda conversaram por mais tempo na mesa, até que Bal se levantou e avisou que tinha de ir pois já era tarde. Rosemari se aproximou, e eles se olharam de forma intensa.

– É uma pena que você já vai. Sinto que temos muito o que conversar. Sua mão foi até a de Bal, e um simples roçar de dedos despertou um instinto quase animalesco no homem. Bal agarrou o braço dela e a puxou. Rosemari o beijou de maneira intensa. Ele a levantou do chão e ela se prendeu nele com suas pernas, enquanto caminhavam até a cama. Não pensavam em mais nada, apenas eram consumidos pelo desejo. Se despiram rapidamente e a vista do corpo de Rosemari foi exuberante. Definitivamente uma das mulheres mais bonitas que já vira. Estava excitado como não estivera a muito tempo. Usava sua força para sobrepuja-la na cama, segurava os seus braços e movia o seu corpo. “Na cama, a mulher tem que ser submissa”, pensava.

Os beijos dela eram certeiros. Sabia os lugares exatos que aumentavam o seu fogo. Ele já não aguentava a vontade, e sequer pensou no uso do preservativo. Então, Rosemari o virou na cama, e em cima dele disse:

– Calma…essa viagem está apenas no começo. Foi descendo pelo seu corpo, e Bal já imaginava  o que estava por vir. Mas ela passou do ponto esperado, as mãos perigosamente perto de um local geralmente indesejado para os homens. Um misto de insegurança e expectativa o invadiram.

– Não se preocupe. Não vou enfiar o meu dedo ali. Você já viajou até a terra de ninguém?

Bal não teve tempo de responder, e em seguida teve uma das melhores sensações de sua vida.

***

Já era noite, Índio observava de cima de uma árvore a mata. Uma pessoa acostumada com iluminação artificial, provavelmente não enxergaria um palmo a frente naquele lugar. Mas para Índio, o brilho da lua era como uma lâmpada no céu. Estava muito habituado a andar na floresta a noite, e os seus olhos já estavam acostumados àquele grau de iluminação. Porém sabia que os seus perseguidores também estavam acostumados a isso. Kaapors sempre patrulhavam as florestas, seja de dia, seja de noite. Não tinha ideia de quantos quilômetros havia percorrido naquele dia, mas sabia que eles já tinham adentrado bastante na mata. A essa altura, já tinha certeza do número de perseguidores. Pretendia surpreendê-los, os atacando, pois tinha consciência que em um jogo de fôlego, os 5 venceriam cedo ou tarde. Já emboscada, ele confiava nas suas chances.

Fez uma trilha falsa da melhor maneira que conseguiu, e se escondeu no alto. Pretendia fazer um ataque rápido e letal, matar um ou dois e fugir. Se os perseguidores ainda estivessem com arco na mão, seria ainda mais fácil. Antes de ouvir ou ver qualquer coisa, os pelos de seu corpo arrepiaram. Ele sabia que estavam vindo. Dois na frente, com facões, e três atrás com os arcos, apontados para baixo, segurando as flechas, prontos para atirar a qualquer momento. Esperou pacientemente os homens passarem. Desceu silenciosamente da árvore. Em uma mão segurava uma pedra, em outra sua faca. Apressou o passo, furtivamente, e a arremessou para a esquerda. O grupo rapidamente virou naquela direção, assustado. Os arqueiros levantaram o arco e puxaram as flechas. Então, ele correu e cravou sua faca pelas costas de um deles, atravessando o coração. Empurrou o corpo para cima de outro, e atacou o terceiro arqueiro. Os índios gritaram, e os dois que portavam facões pularem em sua direção. O terceiro arqueiro, era de longe o mais novo entre eles. Índio percebeu seu espanto e o seu medo. O arqueiro disparou a flecha, que passou por cima da cabeça de Índio, e ela acertou a garganta de um dos seus companheiros. Ao mesmo tempo que ele caia, Índio matava o jovem arqueiro. 3 mortos em alguns segundos. A sorte lhe trouxe um novo cenário. Agora via a sua frente dois Kaapor. Um deles claramente parecia ser o líder, e outro já havia largado o arco e carregava sua faca. “Dois contra um? Não vou recusar” e sorriu.

Ru’i estava perplexo. Sempre comandou grupos de patrulha pela floresta, e nunca havia perdido um homem sequer. Em um piscar de olhos, tinha perdido 3. Olhou para o seu companheiro, Jandir, e fez um sinal para ele ter calma.

– Você é um homem morto exilado. Renda-se e terá uma passagem adequada para o outro mundo.

– Diga-me…vocês lutam melhor que o Acir? – respondeu Índio despreocupado.

Ru’i ignorou a pergunta, olhou para Jandir e fez um sinal com a cabeça. Iriam atacar. Cada um se aproximava devagar, um de cada lado. Quando estivessem um pouco mais perto, ambos acelerariam ao mesmo tempo e atacariam. Era um movimento clássico de combate em dupla. Enquanto o inimigo bloqueia o primeiro golpe, o segundo o mata. Índio provavelmente não conhecia os movimentos de ataque em grupo, pois só depois de certa idade os jovens Kaapor começavam a treinar em equipe.

Índio viu os dois se aproximaram, e ficou inquieto. Seu instinto dizia para se mexer, e ele não titubeou um instante sequer. Seu estilo de luta era o de contra ataque, e sempre teve frieza para analisar e esperar o erro do adversário. Mas sabia se adaptar a qualquer situação. Seu treinamento formal era incompleto, e o seu estilo se baseava puramentente na intuição. Avançou para perto de Jandir, que se assustou e atacou com um estocada. Índio fez um movimento leve de esquiva a direita, o Facao inimigo passou a milímetros do seu peito. Cravou o seu Facão na garganta de Jandir. Puxou a faca rapidamente, e se ajeitou para ficar frente a frente com Ru’i. Deu uma rápida analisada em seu oponente, e o primeiro coisa em que reparou foi se ele tinha ou não cicatrizes pelo corpo. Pela experiência, Índio entendia que cicatrizes era um sinal de um lutador experimentado e perigoso. E Ru’i tinha muitas…mas nem metade das que ele próprio ostentava.

– Parece que esse treinamento de vocês não me faz falta – disse.

Ru’i mais uma vez ignorou a provocação e atacou. Usava movimentos cautelosos, que eram rebatidos sem muita dificuldade pelo seu adversário. “ Ele talvez seja mais rápido do que eu”, pensava enquanto analisava o corpo magro de Índio, “ mas eu sou muito mais forte…” e começou a por peso em cada um dos seus golpes. O primeiro foi aparado com dificuldade, já os seguintes não eram mais rebatidos. Índio passou a desviar dos golpes, e caminhava lentamente para trás. “Ele não vai conseguir desviar para sempre” pensava enquanto atacava sem descanso. Os ataques passavam cada vez mais perto, e o próximo golpe sempre seria o fatal na cabeça de Ru’i. Depois de mais de 20 tentativas, Ru’i de um passo para trás. Seu braço ardia, e estava ofegante. Queria abaixar a arma por um instante para descansar. Antes de se decidir, Índio avançou com um golpe frontal, uma estocada em direção a sua garganta. A especialidade dele era identificar um momento de fraqueza. O golpe foi evitado com um passo para trás, e Índio continuou a atacar. Passará ele a ser o agressor. Seus golpes não tinham peso, mas vinham de ângulos impensados, e sempre com intenção fatal. Ru’i se defendia com dificuldade, e começou a colecionar alguns cortes. Cansado e ferido, não conseguia mais raciocinar direito, e tentou surpreender. Ao rebater um dos golpes de Índio, deu um passo à frente e atacou com um movimento vindo do alto. Índio recolheu o seu braço e virou de lado. A lâmina passou a sua frente, rente ao seu rosto. Completando o movimento, deu um giro, virou sua faca ao contrário na mão, e a cravou na nuca de Ru’i. O corpo logo desabou, e ele olhava satisfeito sua lâmina suja de sangue. Sorriu, esticou o braço, e começou a marcar os novos integrantes a sua extensa galeria de vítimas.

***

Vincent estava satisfeito com o desfecho da conversa com Bal e Agha. Estava ansioso com o desfecho da análise dos colegas. Fechou o seu carro e se virou para a direção do elevador,  quando repentinamente uma mão tapou sua boca e outra imobilizou o seu braço. Por um instante, sentiu pânico. Em seguida, tentou usar o seu outro braço para se desvencilhar, mas foi em vão. Foi empurrado até o chão, preso, sentiu um peso enorme pressioná-lo.

– Anda descuidado meu amigo – ouviu de uma voz familiar.

Seu braço foi solto, e o homem levantou, o deixando livre.

– Seu filho da puta! – disse Vincent, sorrindo e limpando o terno ao se levantar. Bem vindo Nathan.

Uma história de Paragobala – Caçador de Índios: O Chamamento

Autoria: autor convidado

Caçador de Índios:  O Chamamento

Num  toca  ni  mim  policial,  eu  sou  índio.  Ó  aqui  minha  carteirinha!!

Tira a mão do bolso, vagabundo! Mão na cabeça, agora!

–  Eu  cunheço  meus  direito,  tá  pensando  o  que!  Já  falei  pra  num  tocá  ni  mim!!

–  Segura esse filho da puta ô Jonas, ele está fugindo!!

E assim os dois PM’s começaram a correr atrás do indígena, ainda que cada passada dos policiais fosse suplantada por três ou quatro do fugitivo, evidenciando uma larga desvantagem em preparo físico. O índio, cada vez mais, ia se distanciando enquanto eles, em vão, tentavam acompanhar.

–  Atira na perna dele, Jonas, ele vai fugir!

–   Ora porra, atira tu! – disse com a convicção de que nenhum dos dois possuía a perícia necessária para acertar a perna de um sujeito em movimento. – Parece que não sabe a merda que dá quando mata índio nesse fim de mundo.

–   Mas… – balbuciou, engasgando nas próprias palavras, de tanto ofegar. – Eu já reportei que estávamos com ele. Se ele fugir, a gente… tá fudido… vão nos transferir pra alguma comunidade na puta que pariu.

–  Ah, então tu prefere responder por homicídio, Alceu?

–   Eu sei que não estamos em nenhuma metrópole… mas eu prefiro é MORRER do que ser obrigado a apodrecer em algum lugar na fronteira do Acre… capaz da minha mulher me deixar e voltar pra Manaus com as crianças.

Enquanto o índio praticamente já sumia de suas vistas, Alceu e Jonas finalmente pareciam ter desistido do inútil esforço que, àquele ponto, se limitava ao simples arrastar de seus pés pela areia. O cansaço não lhes permitia mais, sequer, andar normalmente. Jonas sofria, sentindo o joanete pulsar dentro do coturno e, para piorar, era obrigado a ouvir Alceu reclamando do empréstimo consignado que tomava 30% do seu salário. Mas subitamente, um som de motor começou a se avolumar atrás dos dois policiais. O extenso lavrado simbilou enquanto a poeira se levantava no horizonte, onde a estrada de terra desaparecia da vista humana.

Em poucos instantes, um vulto branco passou pelos dois. A velocidade era absurda. Havia areia subindo por toda parte, e a pressão do vento até ameaçava derrubá-los. “Caralho, entrou no meu olho!” reclamou Alceu, enquanto tropeçava e caía à beira da estrada. Somente após alguns instantes foi possível reconhecer a pickup branca que passara. O símbolo da Polícia Civil gravado nas portas lhe entregava a procedência. Já distante, cravando os pneus na terra por dezenas de metros, foi possível ouvir a frenagem do veículo, que perdurou até que outro barulho se destacasse ao final: tuft! O som seco de um corpo batendo contra a lataria da caminhonete. O índio sai embolando no chão ainda quente daquele fim de tarde. O crepúsculo finalmente dava seus primeiros sinais no horizonte.

A porta dianteira do passageiro se abre, e uma bota marrom desce ao chão com firmeza, indicando o porte físico daquele que a calça. Ainda de dentro do veículo, o delegado olha para o céu alaranjado, enquanto termina sua conversa no celular.

–  Ah, não… Não foi nada. Acho que o Regis atropelou algum bicho na estrada. Isso… Ainda estamos procurando por ele… Não tenho certeza ainda. Aham… Isso… Claro, doutor. Até mais – E após guardar o celular, comentou dentro do carro. – O juiz vai passar o final de semana fora.

O delegado, então, desceu do veículo calmamente, emanando uma simplicidade digna de um frade beneditino. Indo em direção ao indígena, estirado no chão, ele permanecia a admirar o céu crepuscular, enquanto guardava seu óculos escuro no bolso frontal da camisa.

Enfim aproximando-se, o silêncio que reinava sobre o local prontamente foi rompido pelos gritos do índio, logo que o delegado deu um belo chute em suas costelas.

–  Se fingindo de morto, né vagabundo?! – acusou enquanto gargalhava alto.

Somente então, após sinalizar com as mãos, os outros três ocupantes desceram do veículo e se aproximaram.

–  Parece que nem precisava ter reduzido tanto a velocidade, doutor. Olha esse filho da puta… ainda está inteiro – disse, com um intrigante sorriso no rosto, o indivíduo que até o momento esteve na direção do veículo.

–  Mas o objetivo não era mandá-lo para o hospital. É apenas uma pequena lição, pra ensinar a não fugir da polícia. Levanta ele aí, Durval.

Claramente o maior dentre os quatro, um terceiro sujeito se adiantou e ergueu o índio pela gola da camisa. Os pés dele balançaram no ar, desconcertados, como os de uma criança, até que todo o seu corpo encontrou apoio ao ser lançado sobre o capô da caminhonete.

–  Eu  sou  índio,  viu!!  Eu  vou  denunciar  todos  voc.

Como já diria o ditado “Ao sábio, basta uma advertência. Ao tolo, nem mesmo mil açoites”. Nesse caso, não bastou o beijo de um para-choque pra fazer aquele indivíduo entender a situação de fragilidade na qual se encontrava. Por óbvio, ele não foi capaz de terminar suas ameaças, pois, antes disso, um punho lhe deixou inconsciente após cortar o ar e acertar a ponta do seu queixo num piscar de olhos.

O fato do próprio delegado ter nocauteado aquele homem foi prontamente entendido como uma carta branca para que os demais pudessem finalmente descarregar suas aflições naquele pobre diabo. Mas rapidamente veio a advertência.

–    Se acalmem, não queremos que o índio fique cheio de marcas e lesões corporais – E enquanto o índio retomava a consciência, completou com um explícito tom de sarcasmo na voz. – Na verdade, não queremos ter que utilizar qualquer método que atente contra a dignidade da pessoa humana, só queremos conversar, não é verdade, sargento?

–  Claro doutor, só queremos algumas informações.

Naquele local estavam presentes quatro célebres figuras públicas do município de Anori, no estado do Amazonas.

O sargento George, que comandava a guarnição da Polícia Militar em Anori, era um deles. Um senhor de meia-idade que despendia energia no cultivo de um bigode. Acomodado dentro do sistema e, em geral, pouco comovível por quaisquer limites de natureza ética ou moral. Passado sujo. Presente duvidoso. Não gostou muito da chegada do novo delegado, na época; mas sendo um homem esperto, foi capaz de se adaptar com o passar do tempo.

–  Me deixa bater um papo com ele – insistiu George, enquanto puxava sua carteira de cigarros do bolso.

–     Ora,  vamos  dar  uma  oportunidade  para  o  rapaz  –  retrucou  sorrindo  o  delegado,  e prosseguiu. – Cidadão, onde seu amigo se escondeu?

–  Eu num  sei de nada  não,  dotô.  Juro.

Outro, dentre eles, era o investigador Regis. Recém empossado na Polícia Civil, havia sido transferido para Anori algumas semanas após a chegada do delegado, tonando-se o seu braço direito. Um jovem inteligente. Sua sede de justiça escondia um certo nível de sadismo. Talvez na medida perfeita para os trabalhos nos quais precisava se envolver.

–    Doutor, é melhor correr com isso – observou Regis, referindo-se às dificuldades que enfrentariam caso fosse necessário adentrar em determinadas regiões da mata, ou sair dos limites do município.

–  Quer dizer que você não sabe de nada?

–  Sei  não,  dotô.

–   Vish, ele vai querer brincar com a gente – disse novamente o sargento, enquanto tragava o cigarro.

Por fim, estava ali o Durval, chefe da Guarda Municipal de Anori. Um homem de hábitos simples, que cresceu no próprio município, com toda a intimidade com a floresta que se pode esperar de um nativo. Possuidor de feições mestiças. Filho de um ex-garimpeiro que se estabeleceu na região, Durval perdeu sua mãe, uma indígena, ainda durante a infância. Seu porte físico impressionava, com seus mais de 1,90m e 120kg de pura força. Desenvolveu um profundo sentimento de amizade e respeito pelo delegado, transformando a Guarda Municipal numa extensão das suas mãos e da Polícia Civil.

–  Durval, põe o vagabundo dentro do carro.

Sentado no branco traseiro entre George e Durval, o índio estava apreensivo quanto ao que estava por vir, afinal, ele conhecia muito bem a fama do delegado Nathan. Na verdade, todos conheciam a fama do delegado.

–   Tudo bem, presta atenção. Você tem até a próxima bifurcação pra dizer o que eu quero. Se disser, bom. Pegaremos o caminho da direita e iremos à delegacia. Acaba por aí. Se você não disser, pegaremos o caminho da esquerda. Mas eu quero lhe avisar uma coisa. Independente do caminho que este carro tomar, você vai falar o que eu quero saber. Mas há uma diferença: se tomarmos o rumo da esquerda, eu não vou me contentar com a informação. Você vai sofrer por cada segundo que me fizer desperdiçar.

O índio engoliu seco, com uma expressão de terror estampada no rosto. A calma e naturalidade com que todos os outros se portavam, naquela situação, apenas lhe deixavam mais atemorizado. Sem gritos, sem solavancos. Ele até estava confortavelmente sentado. Mas a frieza no tom em que a ameaça fora pronunciada, era pior que qualquer outra coisa. Penetrava em sua alma como sensação de certeza absoluta. A inquietação começou a tomar conta quando os dois caminhos no fim daquela estrada tornaram-se visíveis. Ele se retorcia em dúvidas por não saber a quem deveria temer mais: o traficante ou o delegado.

*********

Desde que o delegado Nathan chegou em Anori, há dois anos, a delegacia do município já acumula dois “Prêmios de Eficiência” consecutivos, conferidos pela Secretaria de Segurança do Estado anualmente. E não apenas isso. Logo após seu primeiro ano, o delegado ganhou o título honorífico de “Cidadão Anoriense”, concedido em raras oportunidades pela Câmara Municipal de Vereadores à pessoas cujos feitos marcaram a história da cidade.

Não sem qualquer motivo, diga-se. Desde que chegou, Nathan hasteou duas grandes bandeiras: a guerra contra a corrupção e a guerra contra o tráfico de drogas.

Contrário ao que o senso comum possa imaginar, o combate à corrupção foi o menor dos desafios. Os políticos e servidores públicos locais não eram acostumados com uma polícia disposta a agir. Soma-se a isso o fato de que o juiz da comarca detestava corrupção tanto quanto Nathan. Assim, bastaram algumas interceptações telefônicas, alguns mandados de busca e apreensão, alguns testemunhos e pronto. O prefeito e o vice-prefeito, o presidente da Câmara Municipal e mais um terço dos vereadores, além de uma larga parte dos servidores da prefeitura: todos presos preventivamente e afastados de seus respectivos mandatos eletivos. Tudo por uma delegacia pequena e mal equipada. A repercussão midiática o tornou em um pequeno super star local.

De outro modo, o mesmo não poderia ser dito sobre o combate às drogas. Um ponto mais sensível e problemático, notadamente  pela íntima relação entre o tráfico e grupos indígenas locais.

De nenhum modo se pode negar que os índices de apreensão de narcóticos – bem como a prisão de pequenos e médios traficantes – subiram a níveis estratosféricos após a sua chegada, mas Nathan nunca se conformou com meros índices estatísticos. Ele possuía plena consciência que tudo aquilo não passava de uma rasa camada do problema. Seria inútil remover a secreção se a infecção não fosse combatida. Mero desperdício do esforço alheio. A verdadeira força do tráfico na região, que dispunha de farta mão de obra, era em quem queria pôr as mãos. A causa da infecção.

Mas, para isso, algumas fronteiras precisaram ser cruzadas.

A polícia vivia em larga desvantagem. Era um jogo em que somente um dos lados precisava seguir as regras. De algum modo, Nathan precisou retomar o equilíbrio à balança dessa disputa. A pouca mão de obra, o pouco recurso, o suporte escaço. Isso precisou ser compensado.

Para isso, criou seu próprio código moral de conduta. Algo que lhe ajudasse a se manter eficiente, mas o impedisse de perder os escrúpulos e o respeito próprio.

No caminho em que seguiu, Nathan comprou peculiar inimizade com grande parte das comunidades indígenas locais, todas envolvidas nos esquemas do tráfico, direta ou indiretamente. E nessa quebra de braço, o delegado se rebaixou ao último dos níveis de seu código. Disseminou o terror pontualmente, estrategicamente, coordenadamente, até que seu nome fosse sinônimo de medo, causando calafrios em qualquer índio que tivesse o que esconder. Não à toa, ele foi contemplado com um apelido que passou a ser sussurrado nas vielas de Anori: Nathan, o caçador de índios.

E finalmente, após desmantelar peça por peça, após se infiltrar e intimidar cada nível, um por um, e após sujar as mãos incontáveis vezes, o delegado enfim encurralou o cabeça de todo o esquema de tráfico da região. Um dos maiores do Norte. Marreco era como o conheciam. Um verdadeiro Pablo Escobar da Amazônia, responsável pela entrada de drogas pelas fronteiras de Roraima, distribuindo por todo o país. Famoso pela sordidez e pela inteligência, era um homem peculiar.

O momento era de excitação para toda a corporação.

*********

–   Devo admitir que não achei que ele abriria o bico apenas com ameaças – disse o sargento enquanto ria.

–   Bom, foi uma péssima notícia descobrir que o Marreco está abrigado dentro de uma tribo indígena. O que faremos, doutor?

O relógio na parede marcava 18:25. Aquele havia sido um longo dia, mas ainda estava muito longe de terminar. Nathan permanecia sentado atrás de sua mesa, imóvel e silencioso, enquanto considerava com muito cuidado seu próximo passo. Regis insistia num diálogo, mas não obtinha qualquer resposta. Estavam todos aguardando um pronunciamento. Por alguns instantes um quase-silêncio ensurdecedor era orquestrado pelo tic-tac do relógio e seguido pelo ruído do motor do ar-condicionado, que se apropriaram do ambiente. Então, sua voz irrompe:

–  Eu não posso exigir que vocês me sigam no próximo passo que darei. Por isso… – Deu uma pequena pausa, conferiu as horas no seu relógio, e prosseguiu. – Quem não estiver disposto a ir até o fim, pode ir para casa agora.

Nathan não encarou ninguém em particular, apenas abaixou a cabeça e esperou por poucos segundos. Por assim dizer, aquilo não passava de uma formalidade, pois conhecia bem aqueles três homens. Regis, George e Durval se entreolharam em silêncio. Apesar do aviso

amistoso do delegado, todos naquela sala já sabiam o que viria a seguir; todos estavam ansiosamente esperando por aquilo.

–   Se vocês insistem, é melhor se preparar, porque nós vamos entrar naquela porra de aldeia e arrastar o Marreco de lá!

Um leve sorriso brotou no rosto deles. Afinal, ainda que cada qual possuísse suas próprias motivações para prosseguir naquilo, é certo que em todos eles fervia o sangue, em euforia, todas as vezes que uma oportunidade desse nível surgia. Era um vício em adrenalina, de certo modo.

–    Prestem atenção: todo mundo vai voltar imediatamente para casa, e deixar lá o celular ligado com o GPS e serviço de localização do Google ativados. Os aparelhos podem ser rastreados, inclusive pelo IMEI, e pode ser um álibi a mais, caso venhamos a precisar.

Após esse aviso, o delegado começou a passar as instruções:

–  Sargento, nós não podemos fazer isso com as armas da corporação, pois se for preciso atirar as cápsulas poderão ser identificadas e relacionadas a nós; por isso eu quero que você providencie quatro fuzis anônimos, numeração raspada e supressor. Durval, você será nosso guia, certifique-se de que realmente sabe chegar nesse lugar. Regis, prepara aquela caminhonete que foi apreendida ontem e traz capuz preto pra todo mundo. Aliás, todo mundo de preto. Nos encontramos às 23:00 na saída da cidade. E lembrem-se, quanto mais complexa uma mentira mais difícil será sustentá-la, então não deem satisfação e não inventem histórias desnecessárias. Apenas façam o que precisam fazer, sejam discretos, e estejam lá no horário. Vamos acabar com isso.

**********

Nathan chega em casa. São 18:53. Mais uma vez, ele lembra de haver se esquecido de comprar as lâmpadas. Já faz três semanas que o único cômodo iluminado da casa é a cozinha, e quando a noite surge – o único horário em que geralmente está em casa – a escuridão é total. Mas ele não parecia se importar muito; pelo contrário. Se sentia relaxado naquele ambiente, além de não demorar até seus olhos se adaptarem à baixa luminosidade.

Ele caminhou até o armário da sala, carcomido por cupins, puxou uma garrafa de whisky sem rótulo e um copo, encheu um dedo e virou a dose. Encheu outro dedo. Seguiu até o seu quarto e abriu a cortina da janela, sendo agraciado com uma vista privilegiada, por estar na cobertura de uma pequena pensão de quatro andares. Ele se abaixou na frente do guarda- roupas, retirou a última gaveta e puxou um notebook do fundo. Então foi até sua mesa e sentou, abrindo o notebook.

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………..Establishing  VPN  over  TOR  over  VPN  connection……………

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………………………CONECTED………………………………

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<Client   OTR   Messaging   LOGIN:   *****************************************>

<ONLINE>

“Agora só me resta esperar e torcer para que ele apareça” pensou Nathan.

Ele não conseguia parar de pensar no absurdo que seria caso tentassem entrar em um lugar daquele tamanho sem fazer a menor ideia de onde o alvo esteja. Talvez os outros não tenham se apercebido, mas a aldeia indígena para onde iriam é do tamanho de uma vila. Seria praticamente impossível atingir o objetivo com discrição, e o delegado definitivamente não gostava de contar com a sorte. Ele tentava se precaver.

Ele virou a segunda dose.

Não havia muito o que ser feito, por enquanto. Ainda faltavam mais de duas horas para as 23:00 e, provavelmente, o álcool começava a fazer efeito, lhe induzindo num estado de nostalgia. Nathan estava em pé, olhando através da janela a imponente lua cheia que abrandava a escuridão daquela noite. Ele sentia seu coração aquecer ao relembrar do seu passado. Que saudade sentia da sua família e dos seus amigos.

Lembrava do orgulho que seus pais sentiam pelo filho que saiu das favelas do Recife para os bancos da Faculdade de Direito da universidade federal. Sua mãe, com um sorriso de ponta a ponta no rosto, fazia questão de lembrar que do mesmo lugar haviam saído nomes como Pontes de Miranda, Nilo Peçanha e Joaquim Nabuco. Quando indagada sobre quem seriam essas pessoas, não sabia responder, mas retrucava que foram pessoas importantes. Havia lido na internet.

Um profundo arrependimento lhe causava embrulhos no estômago toda vez que lembrava da vergonha que sentia de sua origem humilde. Quantas vezes havia evitado apresentar os pais, semianalfabetos, aos amigos do colégio – colégio que, apesar da bolsa, era pago a duras penas pelos mesmos pais semianalfabetos. Sua mãe, diarista, trabalhava incansavelmente de segunda a segunda, e seu pai fazia bicos, do jeito que fosse possível, para ajudar a cobrir as despesas da casa. A integridade e dedicação deles não poderiam ser nada menos do que motivo de orgulho. “Coisa de moleque estúpido” dizia a si mesmo, com a convicção de que seus pais são aquilo de mais precioso no mundo para ele.

Nathan prosseguia divagando em pensamentos, hipnotizado pelo luar, quando recordou dos tempos de treinamento. Desde sua infância, quando brigava na rua, à caminho da academia de jiu-jitsu, por ser chamado de “Naty” ou “Natália” pelas outras crianças, até as disputas no campeonato brasileiro. Lembrava com carinho até mesmo das inúmeras lesões.

Mas sem dúvida, o período mais marcante de sua vida foi o tempo de faculdade. Nathan estampou um grande sorriso no rosto ao recordar das amizades verdadeiras que pôde cultivar nesse momento da vida. Talvez as únicas. Ele sempre achou que seus amigos – cada um do seu modo – eram pessoas brilhantes, e realmente foi capaz de aprender um pouco com a paranoia que cada um deles possuía. Ainda assim, ele tinha algo a se gabar: foi o responsável por tê-los apresentados às artes marciais e ensinado um truque ou dois. Era um grupo e tanto.

Infelizmente, após o curso, eles se dispersaram pelo país. Nathan foi o único que não soube exatamente o que fazer após a graduação. Se sentia obrigado a ajudar em casa, razão pela qual começou a trabalhar numa firma de advocacia. Mas ele sentia nojo daquilo. Na verdade, ele nutria certa desilusão por todo o sistema.

De todo modo, as vezes a vida toma rumos inesperados. Ele quase não acreditava que estaria ali, hoje, porque um dia precisou de dinheiro para pagar o tratamento de saúde da mãe. Uma longa história, envolvendo o SUS e uma briga judicial, que nem gostava de relembrar.

~~PLING!!~~

Nathan, que estava escorado na lateral da janela, rapidamente se virou e olhou para a tela do seu notebook.

DT_Master Online.

Ele limpou do rosto as lágrimas que haviam escorrido, um pouco relutante, e perguntou a si mesmo a quanto tempo estava chorando. “Droga, pareço uma menininha” pensou. Tomou assento em sua mesa e retomou o foco.

RedHunter [20:49:12]: Preciso de um  favor.

DT_Master [20:51:07]: ok, adoro ter dívidas para cobrar dos outros 🙂

RedHunter [20:51:46]: Eu tenho um número de telefone: +55(92)9527-5088. Pertence a Antônio Andrade da Costa, vulgo Marreco. IMEI: 829187463290948. Tendo essas informações, com  qual precisão você consegue rastreá-lo?

DT_Master  [20:52:37]:  se  ele  for  um   rato  qualquer  usando  android  com   os frameworks  padrões  do  google,  com  uma  precisão  de  poucos  metros

RedHunter [20:52:55]: Sensacional. Preciso encontrar essa pessoa.

DT_Master [20:54:12]: hmm

RedHunter  [20:54:39]:  Provavelmente  ele  está  sem  sinal  da  operadora,  pela localidade,  mas  dá  para  encontrá-lo  pelo  GPS.

DT_Master [20:55:18]: jura? me ensine mais sobre isso 🙂

RedHunter [20:55:27]: Desculpe.

DT_Master [20:56:09]: vou precisar de algum tempo

RedHunter [20:56:32]: Tudo bem, mas eu não quero apenas a informação. Quero que  me  guie  em  tempo  real  até  ele.

DT_Master [20:58:24]: hmm

RedHunter [20:58:49]: Quebra  esse  galho.  Quando  chegar  a  hora,  vou  te dar acesso  à  minha  localização  e  você  me  guia.

DT_Master [20:59:11]: como vc pretende que eu faça isso? RedHunter [20:59:18]: Chamada  via satélite. Criptografada. DT_Master [20:59:36]: esses dados não passam pela rede TOR

RedHunter  [20:59:49]:  Pelo  amor  de  Deus.  Você  não  precisa  se  ocultar  de

mim.

DT_Master [21:00:25]: não  seja  tão  egocêntrico  minha  preocupação  ñ  é  com  vc

RedHunter [21:01:03]: Nós dois sabemos que se alguém pode se fuder nessa história, serei eu. Você consegue permanecer anônimo.

DT_Master [21:01:22]: xD

RedHunter [21:01:38]: Até  as  01:00  horário  de  Manaus  estará  tudo  pronto?

DT_Master [21:01:52]: sei lá que porra é o horário de manaus

RedHunter [21:01:58]: 02:00 horário de brasília.

DT_Master [21:02:06]: hmm. Ok, pode ser

RedHunter  [21:02:15]: Não  fura  comigo.  É  questão  de  vida  ou  morte.

DT_Master [21:02:26]: rlx 🙂

RedHunter [21:02:32]: Fico te devendo.

DT_Master [21:02:49]: 😉 AFK

DT_Master Offline.

Estava aliviado. Foi mais fácil do que imaginava, mas isso só o fazia imaginar que tipo de contrapartida sórdida lhe seria cobrada depois. Não importa agora. Desligou o notebook e o guardou. Sentado na borda de sua cama, concatenava os próximos passos a serem seguidos. Dentre eles, talvez um fosse o mais importante.

Começou a procurar algo com o braço embaixo da cama, como quem tateia no escuro, até que conseguiu puxar uma pequena caixa de metal. A caixa possuía uma trava nada sofisticada que abriu com o primeiro sopapo que Nathan deu sobre a tampa. Dentro podia ser visto uma diversidade de celulares e smartphones. Oito ou nove deles. Remexeu até encontrar o seu Nexus 5x rodando CopperheadOS. Daria conta do recado.

Aquela maldita cãibra na perna esquerda voltou a atacar. Acontecia toda vez que ele ficava nervoso. Começou a se alongar, mas não demorou até que o alongamento evoluísse para uma sessão de sparring. Ele dava socos e chutes no ar, em movimentos muito rápidos, enquanto se movia pela casa. ~ Jab, direto, cruzado. Jab, direto, jab, gancho. Chute rodado. Jab, direto, joelhada ~. Era uma verdadeira terapia para ele. Descarregava aquela pressão que estava sentindo.

Após alguns minutos e depois de quase quebrar alguns objetos pela casa, ele finalmente parou. Deu um profundo trago no ar a sua volta, retomando o fôlego. Checou no relógio e se assustou com as horas, pois iria caminhando até o local de encontro. Ele se apressou em tomar banho e começou a preparar tudo o que pretendia levar. Conferiu duas vezes. Saiu pelos fundos do terreno, todo de preto, vestindo uma jaqueta com capuz que cobria seu rosto. Talvez uma aparência suspeita, mas a noite era pouco movimentada, como de costume, e as únicas testemunhas eram os cachorros que vagavam pela rua. O clima estava estranhamente ameno para a região. Frio, segundo alguns.

22:58.

Quando chegava à saída da cidade, Nathan já pôde avistar a velha Hillux preta estacionada na beira da estrada. Se aproximou e entrou no carro. Todos já estavam ali dentro. Não conseguiu deixar de notar que toda euforia e excitação já havia se esvaído daqueles homens e somente a tensão lhes fazia companhia. Todos os três tinham o rosto gravado por um misto de ansiedade, adrenalina e medo. O delegado também possuía sentimentos semelhantes, mas tentava transparecer tranquilidade e confiança. Se tornava cada vez mais óbvia, com o passar do tempo, a situação de perigo em que estavam se metendo.

Eles finalmente partiram. Era uma longa viagem. Quase 01h45m de carro, somado a mais 20 minutos de caminhada na mata.

–   Já estamos quase no meio do caminho e eu quero passar algumas instruções para vocês. Primeiro, isso não é uma chacina ou execução. O objetivo é trazer o Marreco, e quem mais for possível, VIVOS!

O sargento George claramente se incomodou, sussurrando alguma reclamação para o Durval, que estava ao seu lado. O delegado prosseguiu.

–  Segundo, não atirem nos malditos nativos!

E novamente o sargento se balançou no banco de trás, soltando alguns murmúrios.

–    Mas a terceira regra é a mais importante – Disse enquanto se virava, olhando para o sargento com uma cara de impaciência. – Se suas vidas estiverem em risco, esqueçam as regras anteriores. Não sabemos em quantos eles estarão, mas certamente o Marreco não estará sozinho. Se for necessário, não exitem em matar, índio, branco ou preto.

E finalizou Natham:

–   Nós estaremos encapuzados e todas as armas estão com silenciadores. Provavelmente vão achar que somos alguma facção rival. Então sejam discretos! Quanto menos falarem, menor será a chance de ter a voz reconhecida num eventual futuro. Alguma pergunta?

O silêncio do grupo respondeu a indagação. Estavam todos concentrados e prontos para irem até o final.

**********

O brisa fria da floresta lhe abraçava num sentimento pouco aconchegante. Nathan era uma mancha negra que se esgueirava em meio à escuridão. Segurando sua metralhadora junto ao corpo, ele finalmente contemplou o interior daquela aldeia. Um ambiente pouco organizado que, salvo por uma grande maloca, quase ao centro, se resumia a  diversas pequenas edificações de madeira, que se espalham pelo vasto descampado.

Através de um ponto em sua orelha, pareado ao celular por bluetooth, ele se comunicava com DT_Master, que o guiava em sua caminhada solitária até o alvo. Se movia com destreza, fazendo transparecer o extenso currículo onde se incluem diversos cursos da Força Tática da Polícia Civil. O delegado conseguia ouvir alguns roncos vindo das ocas pelas quais passava, mas os ruídos de bichos e insetos se sobressaíam, chegando a incomodar.

Notou que estava deixando a área mais densa, ao ponto que todas as habitações estavam bem atrás dele, exceto por uma única oca, semelhante a uma pequena cabana. Em seu interior, ela ostentava um brilho opaco e amarelado, típico da luz de velas; estava bem afastada do restante da aldeia, guardando posição nas fronteiras daquele assentamento, na divisa com a mata fechada.

Pelas coordenadas que estava recebendo, certamente ele estaria lá. Nathan se aproxima cuidadosamente.

Mas os planos do delegado vão por água abaixo no exato momento em que a porta daquela cabana se abre. De dentro não saiu alguém desprevenido. De lá surgiu uma pessoa que, ignorando a absoluta escuridão que reinava, foi capaz de olhar dentro dos seus olhos desde o primeiro instante. O largo sorriso daquele homem exalava confiança, destacando seus dentes grandes e amarelados que brilhavam ao luar.

“É ele” rapidamente concluiu o delegado. Sua mente entrou em loop. Tinha segundos para agir. Talvez menos. Sua primeira reação foi procurar por armas nas mãos do inimigo. Nenhuma. “Vou matá-lo” foi o terceiro ou quarto pensamento que lhe veio nessa fração de segundos. Num movimento rápido, preciso e único, Nathan subiu a mira do rifle ao seu olho direito. A cabeça dele estava bem no alvo. Só faltava apertar.

“Merda”. Foi a única coisa que lhe veio à mente quando ouviu o estalo de meia dúzia de armas sendo engatilhadas em sua retaguarda. Aquele maldito sorriso amarelo ainda estava sob sua mira. Ele pôde ver os lábios do alvo começarem a mover.

–   Doutor Nathan!! Mas que honra recebê-lo. Não seja tão hostil e baixe sua arma. Ninguém sairá ganhando se nós dois morrermos. Não é mesmo?

O delegado, que até então estava apoiado sobre um joelho, em posição de assalto, se colocou em pé, tirou o capuz e largou o rifle. Alguém rapidamente se aproximou, por trás, e recolheu a arma do chão. Hora de entrar em pânico? Jamais. Nathan limpou sua mente, deu um suspiro, e abriu um amigável sorriso. O barulho dos insetos, que por alguns instantes passaram desapercebidos, logo voltaram a lhe incomodar.

–  Posso lhe perguntar algo? – indagou o delegado, sorrindo.

–   Como eu sabia? – disse Marreco, já antecipando a pergunta. – A mesma pessoa com a qual você conseguiu minha localização. Eu diria que não foi uma escolha inteligente soltá-lo tão cedo. Cheguei a desconfiar, de tão inesperada que foi uma burrada dessas vinda do senhor.

“É O QUE?” pensou enquanto ardia em raiva, “não me fode Durval! Não acredito que ele soltou o cara. Devia ter pedido para o sargento se livrar daquele filho da puta”. Mas não obstante os conflitos internos, Nathan continuava ostentando o seu simpático sorriso. Era uma máscara que evitava a leitura de suas emoções.

–    Eu não sabia exatamente se o senhor viria hoje ou em outro dia. Mas definitivamente precisava estar preparado para a visita – e o sorriso amarelado permanecia inalterado em sua face. – Só devo admitir uma coisa; estou impressionado com sua coragem, doutor Nathan. Se fosse outra pessoa chamaria de estupidez o fato de vir sozinho.

–  Obrigado – respondeu de forma curta, sem se deixar envolver pelos jogos do inimigo.

–  Mas então, que tal entrar para podermos conversar um pouco?

–   Claro! – falou ao mesmo tempo em que pensava “Como se eu tivesse opção, seu filho da puta”.

Nathan seguiu o traficante para dentro da pequena cabana enquanto os capangas ficavam para trás. Olhou rapidamente por cima do ombro esquerdo. “Sete. Dois fuzis e cinco pistolas” notou. Não pareciam homens treinados. Um sorriso malicioso e sincero conseguiu escapar de dentro da sua máscara.

O interior da cabana era muito simples. Não havia divisórias. Um colchonete numa extremidade, alguns bancos de madeira e uma pequena mesa na outra extremidade, onde um castiçal de madeira se apoiava para iluminar o ambiente.

–  Por favor, tome assento doutor Nathan – Pediu ao puxar um dos bancos junto à mesa.

O delegado foi levando. Precisava ganhar algum tempo. Após sentar-se, Marreco prosseguiu.

–   Sinceramente, eu acredito que nós estamos perdendo uma grande oportunidade de negócio com essa rixa infantil. – E então deu uma pausa, mudando a postação da voz como quem fizesse uma observação. – Mas eu preciso que o senhor me acompanhe nesse raciocínio; é preciso expandir a mente para além desses conceitos simplistas de “certo ou errado”.

–  Tudo bem. – se limitou a responder.

–  Eu digo isso porque existe um certo paradigma social. As pessoas temem serem vistas como corruptas ou imorais, mas esquecem que a probidade e a moralidade não passam de convenções. Elas não existem em absoluto. – A voz do Marreco não era grave, mas possuía uma rouquidão distintiva, ostentando certa simplicidade – Veja… – prosseguiu. – O senhor está fazendo um excelente trabalho, dá pra notar que gosta do que faz. Mas é possível continuar o bom trabalho, enquanto evita essa matança desnecessária e ainda aproveita para ganhar um bom dinheiro.

O delegado parecia considerar, balançando a cabeça enquanto ouvia as ponderações do traficante.

–  Quanto você ganha no ano? 250 mil? Se entrarmos em um acordo, essa quantia pode entrar na sua conta toda semana. Não que eu esteja querendo lhe comprar, mas sabemos que um homem precisa de dinheiro pra viver com dignidade e dar conforto para sua família. Não faz muito tempo desde que eu pude dar a primeira casa própria para minha mãe. – O traficante suspirou e o seu semblante mudou. – A coitada sempre viveu de aluguel. Sustentava a mim, meus seis irmão e ao vagabundo do meu pai…

E após vários minutos ouvindo tediosas histórias de família, Nathan não aguentou e finalmente se manifestou.

–  Ah qual é, você já pode cortar esse papo furado pra cima de mim. Essa filosofia barata não convence ninguém e esse papo de “mamãe” também não me comove. Que tal me falar de uma vez o que você quer?

O traficante não esperava aquilo. Deu um forte soco na mesa, apontou o dedo bem próximo ao rosto de Nathan e gritou: “Gostei!”.

–   Eu pensei que estava lidando com algum idiota idealista, mas já que você acabou com toda a brincadeira, vamos ser diretos. – disse sorrindo. – O que eu quero é óbvio: abra as pernas e pare de me atrapalhar, prender meus homens e impedir meus carregamentos. Veja… se você reparar bem, não é como se eu estivesse lhe pedindo qualquer coisa. Suas opções são aceitar ou morrer. – Ele parou por um instante e encarou Nathan. – É claro… eu prefiro evitar toda a dor de cabeça que a morte de um delegado famoso como você me causaria, e exatamente por isso estou propondo um acordo que deixe a todos contentes. Mas se for preciso, eu posso aguentar um pouco de enxaqueca.

–  Eu quero números. 250 mil semanais?

–     Bom, eu acho que deveria ter maneirado quando disse isso – comentou enquanto gargalhava. – Mas tudo bem. Eu posso pagar.

–  E quanto aos fornecedores? Eu quero saber onde estou me metendo.

–  Ah, não fode delegado. Temos um acordo ou não?

Após lançar a pergunta no ar, o traficante estendeu a mão direita, propondo um aperto de mãos que selaria o proveitoso acordo. Mas algo aconteceu. Gritos vindos do lado de fora. Dois ou três tiros ecoaram mata a dentro. Eram os capangas do Marreco.

Antes que o seu alvo tivesse tempo para qualquer reação, Nathan puxou uma faca de dentro do seu coturno direito e  atravessou, ainda no ar, a mão estendida do traficante, cravando-a na mesa de madeira. O grito que se seguiu foi mais estrondoso que os tiros disparados a alguns instantes.

–  Parece que minhas opções eram mais amplas do que você imaginava, não é mesmo?

O delegado se levantou e seguiu para o lado de fora da cabana, enquanto Marreco agonizava em dor. Ao sair ele sentiu o característico cheiro de sangue sendo carregado pela brisa da madrugada. Sete corpos no chão. Se assustou quando um pedaço de pano surgiu voando em sua direção. Ao bater em seu peito, entendeu. O seu capuz. Nathan o vestiu e finalmente viu seus três companheiros, irreconhecíveis para qualquer outra pessoa, surgindo das sombras.

–  Bom trabalho. Vamos pegá-lo e sair logo daqui. – disse aos outros três.

Marreco já estava algemado. Uma faixa revolvia sua mão, estancando o sangramento. Nathan, George e Durval preparavam as coisas coisas para partir, quando Regis, que guardava a porta, deu o aviso:

–  Doutor, parece que temos problemas.

Do lado de fora, um batalhão de índios se aglomerava ao redor da cabana. Muitos pareciam guerreiros, armados com arcos e lanças, outros apenas faziam volume. Ao centro, um velho liderava a movimentação. O delegado olhou de relance pela porta. Parecia que os problemas nunca iriam acabar.

De fora, bradou uma frágil voz, castigada pelos muitos anos:

–  Homem branco, essa pessoa é convidada em nossa tribo!! Não deixaremos que vocês  saiam  daqui  com  ela!!  Vocês  vão  todos  morrer!

Marreco brincou:

–   Eu sou o ganha-pão dessa gente. Vocês realmente acham que eles vão deixar assim? Tão barato?

O delegado gesticulou com as mãos. Ele apontava para uma janela nos fundos da cabana que desembocava diretamente na mata fechada.

–  Vocês três… saiam com ele pela floresta e deem a volta na aldeia. Me esperem no carro.

–  Como assim? O que o senhor pretende fazer? – indagou Regis com certo desespero na voz.

–   Ah, não se preocupe comigo. Só não saiam daqui sem mim! – completou em tom de brincadeira.

Marreco se debateu quando um pano molhado cobriu sua boca e nariz, mas rapidamente perdeu a consciência. Como um saco de batatas, Durval o pôs sobre os ombros. Enquanto isso, Nathan se preparava. Recarregou o fuzil, removeu o silenciador, posicionou a faca. Os gritos e (possivelmente) ameaças dos indígenas ficavam cada vez mais altos, invadindo o interior da cabana. Flechas podiam ser ouvidas cravando no exterior da velha parede de madeira.

George foi o primeiro que pulou a janela. Do outro lado, ele recebeu o corpo desacordado do traficante. Durval foi o próximo. Ainda dentro, Regis se despedia.

–  Vê se não morre, amigo!

A resposta foi um pequeno sorriso, simples e meigo. Enquanto saltava para fora, Regis olhou para trás. Seu coração apertou ao ver o delegado correndo em fúria porta afora. Muitos tiros e gritos foram ouvidos. Os sons eram indistinguíveis. Eles precisavam sair dali.

**********

Dois dias depois.

A manchete do jornal dizia: Conflito entre facções do tráfico deixa 38 mortos em comunidade indígena. Logo abaixo, um pequeno parágrafo completava: Um dos homens mais procurados do norte, chefe de uma das facções, foi capturado pela polícia na manhã seguinte enquanto tentava fugir do conflito.

São 09:00 da manhã. Nathan lia o jornal enquanto terminava de tomar seu café, na cama. Precisou tirar alguns dias de folga. Seu corpo ainda doía e os ferimentos de flechas estavam longe de cicatrizar.

Após terminar sua refeição, ele girou o corpo sentando sobre a beirada da cama.

–  Ei! Já falei para me chamar quando precisar de algo! Eu estou cuidando de você.

Nathan sorriu.

–  A única coisa que eu preciso é você do meu lado, meu bem.

–  Você é um descarado mesmo… – disse, também sorrindo, a bela moça.

Nesse momento um leve ruído, abafado, começou a ressoar pelo quarto. Ele demorou um pouco a entender.

–  Meu amor, eu preciso que você saia do quarto.

–  Como assim?

–  Sai do quarto, agora!

A moça, assustada, saiu e fechou a porta. Nathan se apressou. Mesmo com dificuldades, foi até seu guarda-roupas. Removeu a última gaveta. Ao lado do notebook, havia um celular tocando. “Apenas três pessoas possuem esse número” lembrava consigo mesmo. Ele atendeu.

–  Alô?

Cara, que bom ouvir sua voz. É o Pelicano. Preciso de você.

FIM.

PARAGOBALA: CAPÍTULO 22 – FUGA

PARAGOBALA: CAPÍTULO 22 – FUGA

Antônio levantou da cama onde dormiam duas mulheres, prostitutas de luxo. Comemorava em grande estilo a morte de Bezerro. “No final, o moleque não passava de um covarde que se matou antes de arrombarmos o lugar”. A quantidade de dinheiro deixada pelo criminoso em seu cofre foi decepcionante, mas isso era só a cereja do bolo. O premio principal foi restabelecer o controle do tráfico da cidade.

Foi até o seu computador navegar na internet, ainda estava empolgado demais para dormir. Tinha uma mensagem nova no e-mail e o abriu. Entrou em choque enquanto a lia:

“ Você tem 24 horas para sumir dessa cidade e nunca mais aparecer. Tenho provas de diversos crimes que você cometeu no cargo de delegado. Estou às enviando em anexo. Caso ainda esteja aqui amanhã, às enviarei para o ministério público e para a imprensa”.

“Não pode ser”, pensou incrédulo. Abriu o anexo e os seus temores se concretizaram. Haviam ali incontáveis provas de seus crimes e ligação com o tráfico. O trabalho impressionava pelo detalhismo e número de evidências. “Alguém me traiu! Malditos…merda!” e deu um murro na mesa, acordando as garotas que tinham idade para serem suas filhas. Sua mão tremia e ele não conseguia ver nenhuma saída. “Preciso pensar”. Foi até a cama e puxou uma das garotas até perto dele, e em seguida empurrou a cabeça dela para baixo. “Me ajudem a relaxar garotas”. Minutos depois ele percebeu que aquilo não iria funcionar. Ele não estava funcionando. “Filho da puta, me tirou até isso” pensou. Empurrou a garota e gritou “ Saiam daqui suas vadias, já chega”. Jogou maços de dinheiro para elas, que saíram às pressas. Depois foi até o fundo do armário, pegou uma mala e começou a separar suas roupas.

***

Logo no início da manhã, Vincent já estava na sua mesa no fórum. Tinha desaparecido por dois dias e queria colocar o trabalho em dia. Estava animado com as perspectivas. Havia terminado de montar o seu dossiê contra o corrupto delegado da cidad, e em breve ele deixaria de ser um problema. No seu lugar, planejava colocar o seu amigo Nathan, em quem depositava total confiança. Ainda não sabia ao certo como seria o processo ou se ele assumiria o cargo dentro da legalidade, mas essa era uma preocupação secundária. Já conseguia se enxergar trabalhando com Nathan e arrumando aquela cidade.

Começou a revisar as peças feitas por Bal e Agha. Diferentemente de muitos outros promotores, raramente as assinava sem fazer modificações. Sempre encontrava alguma coisa para adicionar, principalmente nas peças de Agha. Achava a argumentação dele muitas vezes preguiçosa, como se ele não fizesse realmente questão de colocar o suspeito atrás das grades. Muito se enganava quem pensasse que Vincent denunciava qualquer um que aparecesse em sua mesa. Por muitas vezes pedia absolvição, e quando achava o caso improcedente, arquivava. Porém, uma vez que se convencia que o sujeito era culpado, não descansava, e não se intimidava por escassez de provas. Jurou a muito tempo nunca arquivar um processo de um culpado com fundamentação em falta de provas. No entanto o seu estagiário parecia ter dificuldades em seguir essa linha de pensamento, e em breve eles teriam uma conversa séria sobre isso.

Bal, por outro lado, sempre buscava meios de fazer uma denuncia, e por muitas vezes apresentava uma pesquisa meticulosa. Ainda pecava em alguns momentos por ser legalista demais e até inocente. Quanto a isso, pensou que precisa demonstrar a Bal que confiava nele e que não era preciso ter receio na hora de denunciar.

Em meio a vários processos, se lembrou do caso bizarro e violento da mulher que foi assassinada e teve o ânus cauterizado. A polícia tinha empurrado uns pobres coitados quaisquer, mas era óbvio que não haviam cometido o crime. Havia pedido uma diligência, até agora sem resposta. Pegou o telefone e ligou na polícia.

Para a sua satisfação, Antônio não atendeu.

***

Bal recebeu uma mensagem no celular e notou que era de Clara: “ Precisamos nos encontrar, tenho que conversar com você.” Ele viu com bons olhos o conteúdo. “Ela quer terminar o relacionamento? Já é hora”. Respondeu e marcou um encontro a noite.

Caminhou pela academia de peito estufado, sem desviar o olhar que recebia de garotas do local. Já se sentia praticamente um solteiro novamente. Distribuía sorrisos e reparava nas moças como não fazia a muito tempo. Mas apesar da oferta de corpos do local, pensava na sua vizinha. Queria despi-la, e não se tratava só das roupas, queria entrar em sua mente e conhecê-la melhor. “Quem sabe hoje, após o meu encontro com Clara” fantasiava.

***

Vincent estava estupefato pelo que havia sabido do policial. Não só a polícia não tinha obtido progresso na investigação, como eles encontraram outro corpo. Outra mulher, com o ânus suturado. O seu instinto lhe dizia que aquilo não pararia por ali. Assassino em série, foi o que piscou em sua mente. “E esse fim de mundo consegue ser ainda pior do que eu imaginei”.

A polícia obteve o celular da vítima em sua casa, e o enviou para um perito técnico, o único da cidade. Não era funcionário público, mas tinha uma longa parceria com o departamento. Vincent lamentou que dessa vez os policiais seguiram o procedimento legal, pois ele não exitaria em levar o aparelho para casa para investigar ele mesmo. O fazer com as próprias mãos lhe instigava, e dava uma sensação maior de dever cumprido. Fora isso, ele tinha convicção que teria mais condições de hackear um telefone do que um técnico local. Pegou com o policial o endereço desse técnico e foi até lá.

Chegou no local indicado e viu que se tratava de uma lojinha pequena, com uma placa no alto “ Assistência técnica para celulares e eletrônicos”. Empurrou a porta e entrou no estabelecimento. Não havia ninguém no balcão. Deu uma olhada ao redor, e tudo era surpreendentemente organizado. Tinha a experiência de já ter visitado várias lojas de eletrônicos que eram uma bagunça. Nas paredes, produtos relacionados a celulares ficavam pendurados. A bancada em formato de U, toda limpa. Vincent foi até o balcão e gritou:

– Bom dia!?

– Oi! – uma voz veio lá do fundo. Já estou indo ai!

Instantes depois, chegou um jovem, através de uma porta do outro lado da bancada. Ele tinha a mesma altura de Vincent e cabelo castanho no clássico formato tigela. Na frente, a franja era dividida em duas, exatamente no meio da testa. O funcionário da loja estendeu a mão e disse:

– Prazer, sou João Rizi.

– Vincent. Fui informado que o celular de uma vítima foi entregue a você para investigar.

– Vitima?

– Uma mulher que foi assassinada…

– Ah sim. Tenho ele aqui sim.

– Algum progresso, descobriu alguma coisa?

– O senhor é da polícia? Não tenho autorização para falar sobre isso.

– Ah desculpe-me. Eu sou o promotor da cidade. Trabalho junto com a polícia. Estou comandando essa investigação. Estou no rastro desse assassino e queria saber se você conseguiu pistas novas. – Vincent mostrou seu crachá para João, que o pegou e analisou de perto. Se quiser posso pedir para um policial ligar aqui e conversar com você.

– Não precisa – devolveu o crachá. Eu consegui acessar o telefone, mas não descobri nada. Estou tentando recuperar arquivos deletados, mas duvido que vou achar alguma coisa relevante.

– Bom saber que teve progresso. Você tem ai registro do que você conseguiu? Eu gostaria de levar para dar uma lida.

– É…sim. Só um instante que eu vou pegar para você no computador.

Vincent viu o sujeito ir até a um computador ao seu lado. Percebeu que usava o sistema operacional Windowns, e quis provocá-lo.

– Usa windows, hein? Para um técnico não seria mais seguro usar Linux não?

– Olha, usar Linux ou Windowns tanto faz. Se alguém realmente quiser os seus dados, não dá para se proteger.

Vincent se preparou para rebater, explicar em detalhes o porque daquilo ser um absurdo, e de como o sistema Linux entregava segurança aos usuários. Sua impressão de que um técnico local não teria grande qualificação havia se confirmado naquele instante. Mas antes dele falar, Rizi disse:

– Aqui está o pendrive com os arquivos.

– Obrigado – agradeceu o promotor e logo depois saiu da loja.

***

Em casa, Vincent ainda estava com o técnico na cabeça “ que sujeitinho mais despreparado para exercer sua profissão.” Por outro lado, conseguia ver isso como algo positivo “ é capaz que ele tenha deixado passar coisas importantes nesses arquivos. Mal vejo a hora de colocar minhas mãos naquele aparelho.”

Entretanto, a investigação foi decepcionante. Não descobriu nada relevante naqueles dados. A dona do aparelho era uma estudante de administração, tinha um namorado e amigas. Uma garota aparentemente normal.

Assassinatos em série não eram sua especialidade. Como grande fã de investigação, já havia assistido diversos filmes e lido alguns livros sobre o assunto. Precisava procurar semelhanças entre as duas vítimas. Aquilo, no entanto, iria lhe tomar muito tempo, e ele precisava pensar no outro caso, o principal caso: o bando que assassinou o seu irmão.

Teve uma ideia e ficou curioso para saber como isso seria recebido: iria pedir para Bal e Agha ajudá-lo na investigação do caso das mulheres mortas.

***

Bal saiu 5 minutos antes do trabalho, ansioso para o encontro com Clara. A viu de longe, no banco de uma praça.

Quando se aproximou, Clara se levantou, e veio abraça-lo, para sua surpresa.

– É bom te ver, Bal.

Sem resposta pronta, apenas concordou com a cabeça.

– Sobre o que quer conversar comigo? Eu também quero falar algo com você – se precaveu, agora que já não estava tão certo sobre como seria essa conversa.

– Sei que eu andei te aborrecendo, que sou diferente das outras namoradas que você teve. Mas eu gosto muito de você, eu preciso de você. Vou assumir minhas decisões e lidar com os meus traumas.

– Clara…- tentou falar Bal.

– Deixe eu terminar, por favor. Como eu disse, eu preciso de você perto de mim…da sua força e forma tranquila de lidar com o mundo. Hoje minha mãe descobriu em um exame que está com câncer de mama – os seus olhos se encheram de lágrimas nesse ponto, e ela se aproximou de Bal para abraçá-lo outra vez.

Bal ficou sem reação. A segurou em um abraço, e passou a mão por cima do cabelo dela.

Ela levantou o rosto e disse:

– O que você queria falar comigo?

– Não era nada importante.

***

Antônio dirigia de madrugada pela estrada. Tinha levado uma quantidade considerável de dinheiro e os seus pertences mais valiosos. Chovia e a visibilidade era ruim, mas ele não tirava o pé do acelerador. Estava com medo e queria se distanciar o mais rápido possível de Paragominas. A mera sugestão de ir para a cadeia o assustava. Então o carro deu um solavanco, e depois começou a perder velocidade. Ele ouviu um barulho estranho e repetitivo vindo da frente. “Pneu furou! Que dia!”. Sua vontade era continuar assim mesmo, mas sabia que o veículo não aguentaria muito tempo nesse ritmo. Encostou no acostamento e foi conferir o pneu.

Deu a volta no carro e foi até a roda direita dianteira. Congelou ao ver que tinha uma flecha cravada na borracha. “Mas que porra é ess…” levou uma pancada na nuca e caiu no chão.

Tentou tirar uma arma do cinto, mas um vulto a chutou longe. Tentou ver quem estava a sua frente, mas chovia e estava escuro.

– Você tem sangue de índio nas mãos. Sabemos que participou do massacre dos Guaranis.

– Eu..eu não tive nada a ver com isso! Vocês estão enganados, sou amigo dos índios.

Levou um chute na boca e cuspiu sangue.

– Hoje você vai morrer pelas mãos dos Kaapor.

Ouviu um barulho de arco, e depois sentiu uma dor enorme no seu joelho. Uma flecha cravada no osso.

– Aaaahhhh! Por favor! Eu não tive escolha! Aquele maníaco me ameaçou!

– Todos envolvidos vão pagar, não se engane. Mas sua hora chegou agora. Você vai sofrer mais um pouco e depois partirá desse mundo.

Mais um barulho de vento cortando o ar, e mais uma flecha, agora cravada no joelho que estava bom.

Antonio chorava e balbuciava. Subodai o olhava sem emoção. Se estava tendo prazer naquele momento não demonstrava. Seus olhos eram serenos. Guardou o arco nas costas e sumiu na escuridão. Tolui então surgiu com um machado na mão e um sorriso no rosto. Antonio viu o brilho da arma no escuro e começou a gritar ainda mais alto, e pela última vez. O Índio levantou o machado acima da cabeça e então um golpe seco perfurou o crânio do delegado.

PARAGOBALA – CAPÍTULO 20 – CAÇA AO ÍNDIO

Capítulo 20 – Caça ao índio

O policial Sérgio transitava em baixa velocidade com a sua moto, realizando sua ronda diária pela cidade. Era um trabalho monótono e normalmente ele não precisava fazer nada além de dirigir. A cidade não era exatamente tranquila e a chance de presenciar um crime não era pequena. Mas a força policial tinha uma boa noção sobre quais eram os locais e horários mais perigosos, e definitivamente, a rota que Sérgio fazia normalmente não apresentava problemas.

Ele passava na frente de um bar, quando viu um homem saindo do recinto. Ele parou a moto e ficou encarando a distância. Pegou o celular, e abriu uma foto. Olhou a tela e depois para o homem. “Não acredito…” balbuciou. Por um instante pensou em deixar pra lá e fingir que não viu nada. Ninguém ali na polícia tinha qualquer expectativa de identificar esse homem. Foi algo que foi enfiado goela abaixo pelo promotor da cidade. Ainda assim, ele pegou o seu rádio e chamou por ajuda. A ordem era clara: o promotor deveria ser avisado imediatamente assim que o suspeito fosse localizado. Ninguém sabia bem o que aquele homem tinha feito e ninguém se importava. O homem começou a seguir pela rua, e discretamente, Sérgio ligou a moto e deu a volta na rua, a uma distância razoável do alvo.

Vincent terminava de fazer a sua barba na frente do espelho. Já fazia mais de uma semana que a polícia procurava pelo suspeito. Suas recentes investigações não lhe trouxeram muito progresso. Sabia que o suspeito ia ao bar com um grupo, mas as descrições eram vagas. Nem sequer conseguiu um número exato de pessoas. Sabia que eram pelos menos 4. Mas mesmo isso pouco lhe servia. Os amigos do bar eram realmente companheiros de matança?

Então, o seu telefone tocou. Imediatamente, ele deixou o barbeador em cima da pia, limpou o rosto e atendeu.

– Bom dia doutor, aqui é o Antonio. Um policial identificou uma pessoa muito parecida com o retrato falado que você nos passou.

O coração do promotor disparou, para sua própria surpresa.

– Onde!?

– Foi em uma rua próxima do centro. Estamos vigiando ele e vamos abordar com cautela, fique tranquilo que até o fim da manhã ele estará na delegacia.

– Me dê a localização eu vou para lá.

– Tem certeza? Não precisa se preocupar com isso, nós somos capazes…

– Me passe o endereço. Quero contato com os homens que estão perto dele. Fale para os seus homens agirem com cuidado, e em hipótese nenhuma, matem o alvo. É muito importante que ele seja capturado com vida.

– Matar o alvo? Imagina…bom o endereço é o seguinte…

Vincent desligou o telefone e saiu de casa o mais rápido possível. Trocou colocou a camiseta, pegou uma arma que ficava guardada em uma gaveta no armário e desceu. Colocou os óculos escuros e saiu acelerando com o seu carro. No caminho ligou para um dos policiais que estava observando o alvo:

– Alô é o Sérgio?

– Sim eu mesmo.

– Aqui é o promotor Vincent. Estou indo até onde você está. Esta visualizando o alvo?

– Sim, ele está caminhando pela calçada da avenida. Não tem muito para onde ele ir. Temos já um homem acompanhando ele a pé, a distância, e eu estou na moto. Temos mais dois homens chegando, quando formos 4 iremos abordá-lo.

– Muito bem, vou acompanhar a operação de vocês, estou chegando ai. Continuem com cautela, o alvo é muito importante.

Antes de perceber qualquer sinal, Índio sentiu que algo estava errado. O seu sempre aguçado instinto, o fez estremecer. Estava andando calmamente, com a cabeça leve depois de tomar alguns copos de cerveja pela manhã, e em um instante depois, já estava pronto para matar e sobreviver. Sentia-se observado e não queria olhar para trás. Não mudou a velocidade de seu passo, e a qualquer um que não tivesse acesso aos seus pensamentos, era impossível perceber algum tipo de mudança no seu comportamento. Vestia uma bermuda que passava do joelho e uma camisa simples aberta. Por dentro da sua bermuda, tinha o seu facão, amarrado a sua perna. A 200 metros na sua frente, estava um ponto de ônibus. Sequer cogitou a ideia de entrar no veículo para despistar possíveis seguidores. Não gostava de ficar fechado em um veículo enquanto era perseguido. O que ele queria era entrar na mata o mais rápido possível. Uma vez ali, não se importa quem ou quantos estavam atrás dele.

– Rodnei, tem um ponto de ônibus ali na frente, se o alvo entrar vai ser problemático.

– Quer abordar ele antes que chegue ali? Não dá pra pensar muito.

– O Mário vai chegar agora lá pelo outra mão da via. Posso acelerar aqui e encostar do lado do suspeito, você chega por trás e o Mário pela frente. Ele parece desarmado…e inofensivo.

– Ok. Vamos, vamos!

Sérgio acelerou a moto, enquanto Rodnei, começou a correr. O terceiro policial, também acelerou o seu veículo em direção ao alvo.

Índio primeiro ouviu o som do motor da moto de Sérgio, às suas costas. Instantes depois, visualizou Mário com a moto na outra mão da avenida. Continuou caminhando com a aparente calma e enfiou a mão esquerda no bolso falso e agarrou o seu facão.

Sérgio parou a moto ao lado da calçada e gritou:

– Parado! Mão na cabeça, não se mexe. Apoiou uma perna no chão e apontou sua arma em direção a Índio.

Índio reagiu imediatamente. Puxou o facão do bolso, e no mesmo movimento virou-se para o policial e arremessou a arma. Ela foi girando na direção de Sérgio e se cravou em seu peito. O policial caiu no chão, junto com a moto. Índio já tinha começado a correr assim que arremessou a faca. Rodnei sacou sua pistola, ainda estava a 30 metros do alvo, e atirou. Mário entrou na contra mão e acelerou em direção a Índio, que agora puxava a faca e tentava subir na moto. Saiu dirigindo o veículo enquanto ouvia tiros atrás de sí, mas nenhum acertou. Passou ao lado de Mário, que teve que virar a sua moto para persegui-lo.

– Emergência, emergência, policial ferido – gritava Rodnei no rádio.

– Solicitar reforços – berrava Mário, que agora se via em uma perseguição entre motos.

O Pelicano dirigia quando viu duas motos em alta velocidade passando a sua frente. “Merda” pensou, e imediatamente as seguiu. Em seguida ligou para o delegado.

– Acabei de ver duas motos voando aqui na minha frente, o que aconteceu?

– Parece que o suspeito atacou um policial e roubou sua moto. Vou colocar todas as unidades da região na perseguição.

– Pelo amor de deus, não atirem pra matar.

– Vou mandar o aviso para não atirarem…melhor ainda, vou deixar um rádio comunicador aqui ligado na frente do telefone, e você tera contato direto com eles doutor. Pode assumir a perseguição. “Se der alguma merda, fica tudo na sua conta” pensou Antonio. Essa atitude era claramente ilegal, mas nenhuma das partes ali estava interessada na legalidade da ação.

Vincent, logo falou:

– Aqui é o Promotor Vincent. Estou acompanhando vocês nessa operação. Reafirmo que esse alvo é de extrema importância, e em hipótese nenhuma atirem nele enquanto ele estiver na moto. Repito: não atiram. O alvo deve ser capturado vivo!

“Engravatado de merda” – pensou Rodnei ao ouvir as instruções. Queria atirar no suspeito, que tinha acabado de ferir gravemente seu amigo. No entanto guardou sua pistola e continuou a perseguição.

– Fazemos o que então, doutor – perguntou Mário, na outra moto, pelo rádio.

– Apenas persigam. Vamos coodernar os movimentos para bloquear algumas ruas e saídas, e forçar ele em alguma direção. Ou talvez derrubá-lo com algum carro. Não o percam de vista.

“Esse cara acha que estamos em algum filme, filho da puta. Quero ver fazer essa operação maluca aqui”. Tudo bem doutor – confirmou Rodnei, que continuava na cola de Índio.

Índio seguiu acelerando a moto, veículo que tinha aprendido a dirigir a pedido de Bal. O exilado Kapoor odiava carros e veículos fechados, mas apreciava a motocicleta. Índio conhecia muito bem a cidade, passava muitos dias apenas caminhando por Paragominas, e já havia atravessado toda a extensão dela várias vezes. Seu objetivo era chegar até a selva, e ele não precisou traçar uma rota. Sem planejar ou pensar muito, fazia as curvas necessárias para chegar onde queria.

Vincent seguia na perseguição, e se queixava ao ver o fugitivo fazendo curvas.

– Cadê o bloqueio? – gritou no telefone

– Doutor esse tipo de manobra é muito incomum por aqui. Os homens não estão preparados para fazer isso tão rápido. Pedi mais reforços para te ajudar – respondeu o delegado, pegando o telefone antes que algum outro policial respondesse pelo rádio.

– Precisamos de viaturas para ultrapassá-lo e bloqueá-lo.

– Tem duas chegando vindo da outra direção nesse exato momento.

Índio viu de longe dois carros de polícia vindo em sua direção. Imediatamente, virou a moto e subiu na calçada. Foi desviado das pessoas, com pouco cuidado, e muitas gritavam e caiam enquanto ele passava.

– Policial, enfie o carro na calçada na horizontal e bloqueie a passagem dele! – falou Vincent.

O policial que dirigia uma das viaturas, Marcos, olhou para o cenário e exitou. A calçada estava cheia de pedestres. Ele precisaria atravessar uma mão contrária da rua, e enfiar o carro ali, e torcer para não destruir alguma loja no processo. Ele podia matar alguém na rua ou causar um acidente. Não iria se arriscar dessa maneira.

– Senhor, é uma manobra muito arriscada não vai dar pra fazer – disse nervoso.

Enquanto titubeavam, índio os ultrapassou pela calçada.

– Mas que droga! Virem os carros e entrem na perseguição! – bradou Vincent.

As duas viaturas viraram bruscamente de mão, e se uniram a mais duas motos e um carro, o do promotor, a perseguição.

Os policiais daquela delegacia estavam acostumados a correr grandes riscos, muito menos a operações mais complexas. Era comum fazerem vista grossa a regiões mais perigosas da cidade. O delegado sempre preferiu fazer um acordo com os chefes locais. As operações mais violentas, eram feitas com planejamento e muita superioridade numérica. Com o promotor no cangote, eles não tinham opção, mas no campo mostravam claramente como estavam despreparados para a ocasião.

Tão pouco, Vincent tinha experiência em coordenar uma equipe de campo. Sempre foi fascinado por essas operações, e gostava de ouvir o seu irmão e outros amigos delegados contando sobre as suas empreitadas, no entanto, ele mesmo nunca vivenciou nada parecido. Em São Paulo, as poucas operações que acompanhou a distância, foram realizadas por equipes experientes, bem treinadas e equipadas.

Enquanto a polícia se desencontrava, Índio abria caminho a frente, cada vez mais próximo do seu objetivo. Subia em calçadas e passava em faróis vermelhos sem pensar duas vezes, sempre muito consciente do ambiente e evitando qualquer risco de bater o veículo.

***

Italiano escutava atentamente o rádio da polícia, e sua expressão era de pânico.

– Não pode ser….! – reclamava em voz alta.

Pegou uma cadeira, e a colocou na frente do armário. Subiu nela, e no fundo de uma prateleira, tirou um celular e uma bateria. Pegou ambos, desceu e ligou o aparelho. Nervoso, digitou um número que havia memorizado.

Bal estava terminando se aprontar para o seu trabalho, quando ouviu o toque do celular vindo de dentro de sua gaveta. Estremeceu. Era o seu celular de emergência. A única forma que um dos membros do grupo poderia contatá-lo. As suas ordens tinham sido claras: o contato só seria permitido em casos absolutamente urgentes. Foi rapidamente até o aparelho e o atendeu:

– Quem é?

– Sou eu Doutor! Preciso lhe falar…urgente!

– Me encontre lá

E desligou imediatamente. Bal tinha pavor de compartilhar qualquer conversa suspeita no telefone. Se aprontou e rapidamente pegou o carro para ir até a cabana.

***

O ônibus que Agha pegava todo dia para ir trabalhar estava atrasado a pelo menos 10 minutos. Ele começou a indagar se algo de errado tinha acontecido, “um acidente, talvez”, quando ele apareceu na avenida. Ele levantou o braço e o motorista parou. No entanto, o veículo estava lotado. Ele nunca havia visto o ônibus tão cheio. A entrada estava abarrotada de pessoas, que se comprimiam quando as portas se fechavam. Balançou a cabeça negativamente, e o motorista fechou a porta e foi embora. “Vou esperar o próximo…é o jeito”.

Por longos 40 minutos ele esperou, e a essa altura, já estava irritado. Sentado no banco, levantou rapidamente ao ver o transporte vindo. Já de longe, viu que este veículo também estava lotado. Mas ele já estava atrasado para o trabalho. Iria entrar nesse, de qualquer forma. O ônibus parou e abriu a porta. A primeira vista, um pouco menos cheio. Tinha o espaço livre para uma pessoa ali. Abraçou sua pequena bolsa junto ao peito, e subiu o degrau. A porta se fechou, dando um tranco nele, que quase tropeçou para a frente. Onde estava, não tinha apoio, e quando o veículo deu partida, ele tentava se equilibrar enquanto roçava as pessoas ao seu redor. “Não dá pra ficar aqui!”. Então ele olhou para frente, tentando vislumbrar um caminho, procurando uma clareira no meio daquele mar de gente. Por ser extremamente magro, Agha tinha facilidade em se locomover em lugares extremamente cheios. Esticou sua comprida e fina perna no meio das pessoas e conseguiu firmar o passo a frente. Agora restava o corpo. Se espremeu e passou, aliviado. Ali agora estava em um lugar um pouco mais vazio, comparado ao seu anterior. Aos poucos foi se arrastando e deslizando, até chegar a catraca. Ouviu o cobrador conversar com um passageiro:

– Tem várias ruas bloqueadas, a polícia está em uma perseguição maluca. Um outro rapaz me disse que ouviu tiros no meio da avenida.

“Tinha que ser essa porcaria da Polícia a causar tudo isso. Incompetentes!”. Comprimiu os seus braços da maneira que conseguiu, e abriu com a mão resetada a bolsa para pegar o cartão de transporte. Porém, era impossível ele ultrapassar a catraca, pois a passagem estava bloqueada por outras pessoas. Passou o seu cartão na máquina, e pacientemente, ficou esperando o caminho se liberar. Instantes depois, sentiu uma pressão nas suas costas, e viu um homem, suado, com expressão de apreensão, que lhe perguntou:

– Vai descer no próximo?

“Óbvio que não seu imbecil”. Não  – respondeu monossilabicamente.

Imediatamente, o homem virou de lado e se esgueirou para ultrapassar Agha. “Ele entendeu o meu não como um “pode passar””, como é burro!”. Agha manteve a posição, nervoso, e sem escolha, empurrou a catraca. Pressionou as costas de uma mulher que estava a sua frente, visivelmente acima do peso, ela parecia nem sentir a pressão do objeto. Agha esperava que ao forçar a catraca, a mulher se moveria, mas isso não aconteceu. Ele aumentou a sua força, e graças a sua magreza, conseguiu passar pelo vão que havia se aberto. A mulher apenas deu um solavanco a frente, e sequer olhou para trás. Sentiu um rápido alívio ao transpor aquela barreira, mas a sensação durou pouco. Agora quem sentia um empurrão nas costas era ele. O apressado forçava a catraca para passar. Agha se viu preso, e teve que se virar para falar:

– Calma ai, não dá pra passar.

– Eu tenho que descer no próximo ponto! Força ai que dá pra passar.

Agha fechou os punhos e pensou mais uma vez em como aquele cidadão era burro. Ele odiava locais populares e cheios de gente. Denominava gente simples como “populacho”, e esse episódio o lembrara o porque dele odiar o tal populacho. “Esse povo é muito burro, parecem animais”. Porém, em sua situação, tais pensamentos não o ajudariam. Pediu licença a mulher a sua frente, que fez um micro movimento lateral. Não se moveu mais do que 10 centímetros. Impulsionado pelo metal nas suas costas, se esgueirou naquele espaço. Apesar de ter seu corpo comprimido pelos dois lados, foi uma passagem rápida, e logo ele se viu em uma posição mais favorável. Agora estava de lado no corredor de ônibus, de frente para os bancos “ como eu quero sentar!”, pensou. Começou a olhar para quem estava sentado, tentando captar algum sinal de que a pessoa iria se levantar, até que parou sua visão em uma mulher que abria sua bolsa e tirava maquiagem. Ela abriu um objeto preto, que continha duas partes, na base, um pó, e na parte superior um espelho. “Se ela está fazendo isso, deve estar chegando perto do seu trabalho”. Agora já calejado, não exitou em se movimentar até o outro lado do ônibus para ficar na frente daquela mulher. O pequeno sofrimento seria recompensado por uma viagem mais confortável, pois aquele trajeto ainda iria demorar, já que o ônibus progredia muito lentamente na congestionada avenida. A primeira parte de seu corpo a alcançar a outra extremidade do corredor, foi o seu braço esticado, que agarrou a barra que servia de apoio aos passageiros. Depois do braço, moveu o resto do corpo, e se instalou em uma espaço no meio de duas pessoas, e, para sua felicidade, bem a frente da mulher que passava maquiagem no rosto.

Instantes depois dele se estabelecer bem a frente daquela mulher, olhou para trás e viu que o casal que estava sentando do outro lado do ônibus – bem onde ele estava, se levantou dos assentos. “ Que dia de merda esse!” xingou mentalmente, cada vez mais irritado. Minutos depois, a mulher a sua frente guardou a maquiagem na bolsa, e Agha esboçou um sorriso, pensando que, finalmente, teria um pouco de conforto. Em seguida, a mulher encostou a cabeça no banco e fechou o olhos. “Como eu odeio essa cidade!!!” pensou mais uma vez.

***

– Alguém tem alguma ideia para onde o suspeito está indo – perguntou o Pelicano

– Doutor, conseguimos bloquear alguns acessos as favelas maiores, mas ele nem fez menção de entrar nesses ruas. Ele parece estar indo para os limites da cidade.

– E o que tem lá?

– Se continuar por aqui vai chegar na floresta. Não tem mais nada pra lá.

– É possível andar de moto na Floresta?

– Por lá não. É um terreno muito fechado. Ele vai ter que fugir a pé.

– Ótimo! Vamos deixar ele ir pra lá, e depois terminamos a perseguição a pé. Será mais fácil.

Os policiais assentiram, e a perseguição continuou.

***

Bal saiu do carro e foi correndo até a Cabana. Italiano já estava lá, e andava em círculos, com a cabeça para baixo.

– Italiano! – gritou Bal.

– Graças a Deus você chegou Doutor, deixe-me explicar tudo – disse. Simplesmente ver a figura do líder do bando lhe trouxe calma. Ele explicou a situação atual: Índio fugia com uma moto roubada da polícia.

– O que faremos, Doutor? Vamos ajudá-lo?

Bal coçou o queixo e respondeu:

– De maneira nenhuma. O Índio sabe se virar.

– São muitas viaturas atrás dele…

– Se ele for pego, tenho certeza que não vai falar nem uma palavra sobre nós. Caso fosse outro membro do grupo, talvez eu pensaria em alguma outra medida – disse com um olhar sinistro a Italiano.

– Vamos apenas esperar então?

– Continue monitorando tudo. Qualquer mudança importante, me ligue. Mais importante que tudo isso, é descobrir porque eles estão perseguindo o Índio. Trabalhe nisso.

Italiano assentiu, mesmo não tendo ideia de como faria aquilo.

– Avise Caolho para ficar alerta. Deve estar preparado para sair da cidade se receber um aviso. Faça o mesmo. Eu avisarei o Pastor. Não acho que tenhamos sido descobertos…mas devemos ter um plano no caso – disse o Doutor com confiança.

Apesar da demonstração de segurança ante ao Italiano, desde de manhã ele tentava refazer os passos do seu bando mentalmente. Era uma tarefa árdua. Dentre as qualidades do Doutor, boa memória não era uma delas, e constantemente ele se esquecia de dados ou misturava e criava novos eventos na sua recordação. Quando tentava refazer uma cena sua mente, o Doutor tinha consciência que sua paranoia entrava em ação, e portanto, não confiava nas suas próprias lembranças. Por outro lado, abominava a ideia de registrar as coisas. Era muito perigoso.

Depois de passar as instruções ao Italiano, voltou ao carro e se dirigiu ao trabalho. Apesar de uma voz interior lhe dizer para fugir da cidade e se esconder, a sua reação mais típica quando se via em uma situação desconfortável, o lado racional lhe dizia para aparentar a normalidade. Nada estava perdido, ainda.

***

O grupo composto por vários policiais e Vincent corria pela mata. Apesar dos prognósticos, o suspeito havia adentrado na mata com a moto, e percorrido um bom pedaço. Agora eles viam o veículo abandonado no chão. Vincent tomou a dianteira e gritou:

– Vamos, ele não pode estar tão longe.

Subiam uma elevação, e cada trecho percorrido, o terreno ficava mais selvagem. Vincent começou a questionar se a opção de deixá-lo ir até a mata foi uma boa ideia.

Percorreram mais um trecho, e então, ao longe, Vincent detectou um homem correndo.

– Ali!! – gritou e apressou o passo.

Os policiais o seguiram e o grupo continuou seguindo na direção da mata cada vez mais fechada. Então, subitamente, Vincent chegou em uma clareira. O cenário era estranho e não parecia natural. Em um determinado ponto a vegetação era bem aparada e as árvores sumiram. Uns 300 metros a frente, a floresta continuava. Apesar do estranhamento, não deu atenção a isso e continuou correndo na direção da mata. Quando se aproximou do outro lado, viu que vários troncos estavam pintados de branco. Olhou para trás, e viu que os policiais mal tinham se mexido.

– O que aconteceu? Vamos!!! – gritou no seu rádio.

– Doutor…ai é o começo do território Kaapor. As árvores brancas marcam o local.

– E daí!? Estamos atrás de um suspeito – respondeu com rispidez o promotor.

Os policiais se entre olharam, encabulados. Não queriam se recusar a obedecê-lo, mas sabiam que era perigoso entrar naquele território.

– É muito perigoso senhor…- começou a falar Rodnei.

Vincent começou a perder o controle. “Mas que caralho é isso! Foda-se se índio acha bom ou ruim, a polícia entrar aqui para prender um criminoso. Não posso perder essa oportunidade”.

– Escutem muito bem! Irei representar legalmente contra quem se recusar a cumprir sua função aqui! Venham comigo, agora!

Os policias não tiveram tempo de responder. Um outro som rompeu os poucos segundos de silêncio tenso entre o Pelicano e os policiais. Uma flecha se afundou na frente de Vincent. Ele olhou para a flecha, e depois para os lados, assustado. O susto não veio por medo, mas pelo inesperado.

Depois, mais duas flechas se pregaram ao lado da outra, e então, um grupo de índios surgiu de trás de árvores e caminharam até a frente do Promotor.

Um deles tomou a frente e falou:

– Bem vindo ao territorio Kapoor. Para seguir aqui você precisa de uma autorização judicial.

– Eu não preciso de autorização nenhuma. Estamos perseguindo um criminoso, e ele fugiu para cá. Se vocês nos impedirem vão ser acusados de encobrir um fugitivo da justiça.

O Índio o encarou por alguns instantes, e então, sorriu:

– Sem autorização não passam.

Vincent ignorou o homem, e chamou mais uma vez policiais, que agora já tinha se aproximado dele:

– Vamos em frente, já perdemos muito tempo!

Caminhou a frente, e então, os índios ergueram duas lanças para bloquearem a sua passagem.

– Vocês estão ameaçando um membro do ministério público !? – gritou Vincent.

Os índios ignoraram as palavras.

Vincent então segurou uma das lanças e a levantou para passar. Um outro índio se colocou no seu caminho e o empurrou. Vincent reagiu pegando o braço dele, o puxando e o derrubando no chão, com um golpe de perna. Imediatamente, outros dois vieram por trás e o agarraram.

– Prendam esses índios, agora! Gritou Vincent.

Os policiais, timidamente, se aproximaram e ergueram suas armas. VIncent tentava se desvencilhar, mas era contido por dois homens bem fortes. Eles afrouxaram a pegada ao verem os policiais sacando as armas.

– Saiam da nossa frente agora! Eu juro que vocês todos serão presos e que eu farei da vida de vocês um inferno! Vocês não tem ideia de com quem estão mexendo!

– Quem não tem ideia é o senhor.

E então, mais índios saíram de trás das árvores. O que era um grupo de não mais que 6, agora se transformara em dezenas. Pelo menos 20, todos armados de lanças e arcos. Eles não paravam de chegar.

Os policiais abaixaram seus braços ao perceberem que flechas apontadas em direção as suas costas. Não tinham ideia como aqueles índios haviam chegado ali.

– Tem um criminoso nesse território! – bradou mais uma vez Vincent.

– Nós não estamos protegendo criminoso nenhum. Faremos patrulhas em busca desse homem, e se o encontrarmos, o encaminharemos a sua justiça. Mas sem autorização vocês não podem entrar. Voltem a sua cidade.

Vincent agora cerrava o punho, num estado de raiva que talvez ele nunca tenha estado antes.

– Vocês vão se arrepender disso! Marquem minhas palavras! Não vou esquecer disso.

O Índio se aproximou e disse, bem perto dele:

– Não temos medo de ninguém….e – aproximou agora seu rosto perto da orelha de Vincent – o seu irmão tinha modos muito mais civilizados que os seus  – ao ouvir isso, Vincent não esperou o Índio terminar sua frase.

– Seu filho da puta! – e empurrou o Índio e desferiu um soco na sua cara, que o derrubou. Outros índios vieram para cima do promotor. Ele se desvencilhou do primeiro e acertou uma joelhada, mas um outro vindo da lateral se atirou e o derrubou. Rapidamente outros vieram para cima, e o agarraram. Depois o levantaram, e um terceiro socou sua barriga. Os policiais, estupefatos, apenas assistiam, imovéis.

O Índio que tinha levado um soco, agora já em pé, fez um sinal com a mão para o outro parar de bater. Ele deu um passo a frente, e deu um direto no rosto de Vincent. Cuspiu sangue e continuou a falar, bem próximo do Pelicano:

– Que seja uma lição. Quem manda em território Kapoor, são os Kapoor. O seu irmão sabia disso.

Vincent gritou, e balbuciava alguma coisa. Antes de conseguir dizer mais, levou outro soco no rosto. Tentava se desvencilhar, e seu lábio sangrava. De seus olhos, escorriam lágrimas de pura raiva.

– Você vai se arrepender disso… – e antes de completar, levou mais um soco no estômago que lhe tirou o ar.

O soco foi seguido por mais uma sequência, que por fim, apagou o promotor.

***

Agha entrou na sala, e percebeu que mais uma vez, era o único ali. “Esses vagabundos não fazem mais questão de disfarçar”. Sentou na cadeira e relaxou. Após toda aquela jornada para chegar no trabalho, se permitiu ligar o computador e navegar na internet.

Cerca de meia hora depois, Bal entrou apressado na sala. A entrada abrupta assustou Agha, que prontamente fechou o navegador.

– Tá fugindo de alguém? – perguntou Agha.

Os pelos do corpo de Bal se arrepiaram com a pergunta, e ele congelou em pé. Virou o rosto para Agha e respondeu depois de alguns segundos.

– De que merda você tá falando?

Agha não esperava uma reação tão violenta a sua brincadeira, e não respondeu nada. Se voltou ao seu computador e começou, enfim, a trabalhar.

– Cadê o Vincent – perguntou Bal.

– Não sei, não está aqui, pra variar – respondeu Agha.

– Estranho… – comentou Bal. Seu lado paranóico começou a indagar se o promotor tinha alguma relação com a perseguição ao Índio. No entanto, o seu lado racional o tranquilizou. Não faria sentido o promotor se juntar a uma caçada com a polícia.

– Nem tanto. Não é a primeira vez que ele não aparece…

***

Vincent abriu os olhos e viu o teto de seu carro. Se sentou e viu que do lado de fora os policiais estavam reunidos, conversando baixo. Ao abrir a porta, todos se silenciaram e viraram para ele.

– Nem uma palavra sobre o que aconteceu agora pouco. A perseguição está encerrada, por hora.

Os policiais assentiram com a cabeça, ainda assustados demais com o que ocorrerá para proferir algum comentário.

Vincent já sabia que tinha sido humilhado. Aquele certamente era o episódio mais vergonhoso de sua carreira, e o seu orgulho lhe mandava reprimir o acontecimento daquele evento.

– Vocês não vão reportar isso que aconteceu. Digam apenas que ele fugiu para a mata. Eu preciso que um de vocês dirija meu carro e me leve até a minha casa.

Os policiais mais uma vez assentiram, e Rodnei se voluntariou a levar o promotor. Os policiais saíram rapidamente do local, e Vincent se deitou no banco de trás de seu carro, em silêncio. Após a partida do carro, falou:

– Eu fui precipitado. Não conhecia essa tribo. Me fale sobre os Kaapor.

Durante toda a viagem, Vincent esmiuçou o conhecimento do policial sobre os Índios. Aprendeu que aquilo era mais do que uma simples tribo indígena. Estava mais para uma organização criminosa altamente capacidade e equipada. Era notável o receio e o medo do policial. Os policiais locais deviam bandidos e traficantes poderosos, mas temiam a tribo.

No final da viagem, agradeceu o policial e lhe pagou um táxi. Ao chegar em casa, foi até a geladeira e preparou uma bolsa de gelo. Seu rosto ainda doía muito. Sentia vergonha de sí mesmo. Se orgulhava de ser uma pessoa muito fria, em uma sociedade que ele considerava emotiva demais. Era sua força. Havia se comportado como um adolescente birrento, e deixou aflorar todas as suas emoções, além chorar na frente de vários outros homens. Ainda não sabia porque tinha reagido daquela maneira. Indagou-se se foi a impotência ou o afronte que recebeu, mas sabia que não. Era o sentimento de vingança que lhe consumia desde que soube que seu irmão tinha sido assassinado. Tinha medo de não conseguir vingá-lo e fazer justiça.

Ligou o seu computador, e ali ficou compenetrado por horas. Por fim fechou o aparelho, e se levantou. Na sua expressão, um sorriso triunfante. Pegou um telefone que deixava escondido no fundo de um armário. Discou um número e esperou, até que depois de 3 toques, a ligação foi atendida. Vincent então disse:

– Nathan. Sou eu. Preciso de você.

PARAGOBALA CAPÍTULO 19 – NOVA CASA

Paragobala – Capítulo 19 – Nova casa


O Pastor terminava mais um culto, e se despedia de cima de seu palanque dos fiéis. Fez um sinal para uma mulher ao fundo, pedindo para ela se aproximar. Ela veio ao seu lado, e ele continuou acenando até que a última pessoa tivesse saído da igreja. Só então ele se virou a mulher, que aguardava ansiosamente a palavra dele.

– Rosemari, muito obrigado por ter vindo. Como você está? – perguntou já segurando as suas duas mãos.– Estou muito bem Pastor! Desde que eu comecei a conversar com você…abandonei a minha vida antiga. Sou uma nova mulher, uma que Deus e Jesus aprovam.
– Com certeza. Tudo é perdoado quando se aceita Jesus no coração. Inclusive…o Senhor tem uma chamado para você Rosemari…um chamado para fazer o bem, para ajudar os outros assim como você teve ajuda. “E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada.” – recitou o versículo de Hebreus 13:16
– Claro! – disse a moça surpresa.

O Pastor colocou sua mão nas costas de Rosemari e a encaminhou a uma mesinha para sentarem e conversarem.

***

Agha parou de digitar e olhou para os lados. Nem Bal, nem o promotor Vincent estavam nas suas mesas. Havia chegado a 2 horas, e desde então não teve sinal algum dos seus companheiros. Ficou receoso que a ausência de Bal tivesse alguma ligação com a discussão que eles tiveram durante o almoço do dia anterior. “O sujeito é maluco mas espero que não tanto” pensava para se tranquilizar. Já a ausência de Vincent, era algo mais costumeiro. O promotor já havia deixado de ir trabalhar várias vezes, além das longas ausências. “Esse vem quando quer…faz o que quer, e deve ser um dos primeiros a reclamar de políticos e xingá-los de corruptos e vagabundos”.

Trabalhava em mais um caso em que via que não daria em nada. Outro arquivamento. Mas sabia que o promotor não se contentaria com isso, e quebrava a cabeça para encontrar outra solução.

Energicamente, Vincent entrou na sala, visivelmente animado.

– Boa tarde Agha. Estava na delegacia acertando algumas coisas com o delegado.

“ A sua fatia?” – pensou maldosamente. Porém, apesar dos pontos negativos que havia identificado em seu chefe, não lhe parecia corrupto, mas ele nunca colocaria a mão no fogo por ele. “Esse pessoal que acha que pode tudo e que é herói, sempre tem um teto de vidro”.

– Sabe alguma coisa do Bal? – perguntou Vincent, que agora já estava sentado a sua mesa.
– Não deu as caras…e nem avisou nada – respondeu Agha.
– Estranho…de uma ligada pra ele, tenho o telefone aqui.

Vincent anotou em o número em um papel e deixou na mesa de Agha. O pedido o irritou. Não constava nas suas atribuições servir de secretário ao promotor. Muito menos, queria falar com Bal, devido a discussão do dia anterior. Contrariado, pegou o número e ligou. Deixou o telefone tocar 6 vezes e desligou. Em seguida tentou mais uma vez, sem sucesso.

***

Bal enxergava apenas uma imensidão escura. Ao longe ouvia um barulho. Ele parava e continuava. Sempre igual, como um apito. Cada vez mais forte. Até que repentinamente ele acordou assustado, e percebeu que o telefone estava tocando. Ele ainda estava na poltrona. Ao acordar uma garrafa de vidro vazia caiu da sua mão. Ela bateu no chão e depois rolou para o lado, sem quebrar. Bal fez menção de se levantar e sentiu uma pontada de dor forte na cabeça. Levou uma mão a testa, e pensou “ é a ressaca”. O telefone continuou a tocar por mais um tempo, e, finalmente parou. Bal sentiu alívio pelo som cessar, e esticou o braço para pegar o celular que estava na mesa. Olhou para o horário : 3 da tarde. “Merda!” pensou. Novamente tentou se levantar, e desta vez conseguiu, mesmo sentido uma grande dor. Foi caminhando vagarosamente até o chuveiro. Tirou a roupa com dificuldade, e entrou debaixo da ducha fria. Enquanto era impactado pela água fria, começou a se lembrar da noite anterior. Tudo foi voltando aos poucos. O jantar romântico, a transa, a discussão com Clara e finalmente o porre que tomou ao chegar em casa. “Merda!” repetiu, dessa vez em volta alta.

Depois de tomar banho se sentou na sua cama, já se sentindo um pouco melhor. Odiava faltar ao trabalho. Se sentia necessário no fórum e considerava a sua posição importante. Indo trabalhar sempre, sem exceções, se sentia uma pessoa responsável e honesta. Jamais iria confessar que perdeu a hora devido a bebida, e começou a pensar em uma desculpa. E então uma ideia surgiu a sua cabeça. “Vou me mudar de casa hoje!”. A mudança estava agendada para o final de semana, mas faria um esforço para realizá-la naquele dia. Desde que Caolho apareceu na porta de sua casa, ele já não sentia que aquele lugar era seguro. Para muitos poderia parecer paranóia, mas na cabeça do Doutor, era simples lógica e uma maneira de se proteger.

Começou a empacotar tudo. Sabia que não tinha muita coisa para levar, não era dado a extravagâncias e comprava apenas o necessário. Sua casa era pouco decorada e os espaços vazios predominavam. Ele tinha dificuldades para se prender a pessoas. A objetos, era mais difícil ainda. No inicio da sua fase adulta, quando achou que certas histórias em quadrinhos estavam apenas ocupando um espaço desnecessário em sua casa, Bal simplesmente foi a um terreno baldio, jogou as revistas no chão e derramou álcool nelas, para por fim, acender o fogo. Sem pestanejar, ele queimou as mesmas revistas que foram a sua fuga da realidade e fonte de esperança na difícil juventude. Se livrara de objetos com até mais facilidade com que cortava sua relação com pessoas. Se não serve mais, pode ser descartado, e com esse mantra, pesava as suas decisões.

Lembrou subitamente que tinha combinado com o seu irmão para fazer a mudança no sábado, e precisava avisá-lo que já a faria hoje e não precisaria de ajuda. Por ele ser o seu irmão, era o único membro do grupo que ele se contava por telefone e permitia a visita em sua casa. Dois irmãos se encontrando não gera suspeita alguma. Parou o que estava fazendo e enviou uma mensagem ao Pastor avisando da mudança de planos.

***

Schneider deu um soco na mesa. Sua expressão demonstrava o inferno em que vivia. Tinha olheiras e um olhar cansado. O seu cabelo, que sempre estava perfeitamente alinhado, estava bagunçado. Trabalhava sem descanso, fazendo ligações e andando muito pelas ruas para tentar restabelecer toda a rede de Bezerro. A tarefa, no entanto, se demonstrou muito mais difícil do que sua expectativa inicial. Quando achava que havia feito algum progresso, a pessoa com quem tinha estabelecido contato simplesmente sumia. Precisava de sargentos que trabalhassem para Bezerro, e que controlassem regiões localizadas da cidade. Sem eles, as brigas locais entre traficantes explodia. Sem musculatura operacional, o mero nome de Bezerro pouco contava. Nas ruas, o que sempre prevalecia, era a força. E, ele reconhecia que o próprio nome de Bezerro ainda não era tão forte. Precisa de muito mais tempo para se estabelecer. Ele chegou como um furacão, uma força nova e potente na região, mas estava longe de criar uma dinastia.

Schneider ainda tinha esperança de recuperar o status perdido de seu chefe, pois o aporte financeiro que o grupo possuía ela muito grande. Com dinheiro, tudo era possível. Sua dificuldade era encontrar pessoas ideais e mantê-las por perto. Começou a desconfiar que alguém estava agindo contra eles. Desaparecimento de pessoas, e até de produto, era algo comum nesse submundo. Mas não na quantidade em que estava ocorrendo. Aquilo era o trabalho de alguém muito ardiloso, com objetivo claro de prejudicar e desestruturar o grupo. No entanto, até agora, não tinha nenhuma pista, e estava realizando todo esse trabalho sozinho. Estava cansado, desgastado e com poucas ideias.

Bezerro ainda se recuperava, e apenas reclamava e cobrava resultados. Estava de cama, e Schneider desconfiava que quando ele voltasse a ativa, só iria dificultar mais o seu trabalho. Vândalo estava já andava, mas pouco tinha a oferecer no campo estratégico. O usava apenas como um assistente, uma mão de obra em que ele confiava, e claro, como um martelo quando precisava esmagar alguém.

Fez mais uma ligação.

– Chefe?
– Cadê o Vanderlei – perguntou Schneider
– O Vanderlei não aparece faz 2 dias aqui, chefe. Eu assumi por enquanto…

Merda! Esbravejou e desligou o telefone, em um surto de raiva.

***

Agha já havia ido embora, e Vincent estava sozinho em sua sala. Tinha dificuldades de se concentrar, pois não parava de pensar no suspeito que a polícia agora já estava procurando. Sabia que as chances dele ser identificado tão rapidamente eram ínfimas, e por mais que achasse um sentimento infantil, não deixava de ficar na expectativa de alguma ligação com novidades. Percebendo que não faria nada útil ali, pegou suas coisas e saiu. Iria até o bar onde Nédio e Junior haviam presenciado o ataque a Carlos, fazer algumas perguntas.

Chegou lá rapidamente e adentrou ao lugar. Não era um estabelecimento onde ele passaria o seu tempo. Era sujo, mal conservado e os frequentadores lhe causavam certa repulsa. Vários homens bêbados, mulheres que eram visivelmente prostitutas e gente mal encarada. “Aposto que aqui tem muita gente com passagem”. Chegou no balcão, e, a contra gosto pediu algo para beber. Recusou as bebidas alcoólicas e na falta de suco, aceitou um copo de água. O atendente do balcão era um clichê ambulante. Um senhor corpulento e de bigode, com pouco cabelo e mangas arregaçadas.

– Aqui está o seu copo de água – e deixou na frente de Vincent
– Muito obrigado…deixa eu te perguntar uma coisa senhor. Você trabalha aqui a muito tempo?
– Muito tempo? Mais de 20 anos!
– E conhece bem a freguesia?
– Bom, temos alguns clientes mais fiéis e outros que só vem de vez em quando. Fazemos amizades com alguns caras ai…e com algumas também – e riu

Vincent forçou uma risada também. Aquele papo de boteco sujo com aquele tiozão não eram o tipo de atividade que ele tinha muita vivência, ou que gostava.

– Sou novo por aqui na cidade…mas já vi cada figura. Outro dia me deparei com um sujeito que tinha o braço inteiro marcado…cheio de riscos.

Imediatamente, o senhor que parecia ser bonachão, fechou a cara para uma expressão séria. Pegou um copo do de algum lugar, e começou a secá-lo com um pano, sem olhar diretamente para o promotor. Vincent percebeu o incômodo. “Ele sabe” pensou de forma animada.

– Gente assim eu nunca vi não. Pelo menos por aqui.

Já esperava a negação, e veio preparado. Faria qualquer coisa para obter os seus resultados. Primeiro tentaria a forma mais agradável para o sujeito.
– Olha…eu realmente queria saber mais sobre esse sujeito. Nunca viu ele por aqui não?
-Já disse que aqui nunca vi – respondeu ríspido
– Tem certeza – e então empurrou 3 notas de 100 pelo balcão.

O senhor olhou assustado para aquilo. Depois olhou para os lados, como se estivesse procurando alguém.

– Não sei o que você quer…mas é melhor se retirar daqui! Esquece essa história e guarde o seu dinheiro.

A negativa o irritou. “Que seja” pensou.

– Seu João – falou, agora mudando o tom para algo mais sério – sei que trabalha aqui a muito tempo, na verdade você é o proprietário disso aqui.

João parou de secar o copo, e agora encarou Vincent. Tentou fazer uma expressão firme, mas qualquer um com percepção um pouco apurada perceberia que ele estava tenso.

– Esse lugar não tem autorização da brigada de bombeiros e nem da vigilância sanitária. E dando uma rápida olhada aqui, sei que o lugar não seria aprovado por nenhum dos dois. Tenho como fazer que eles baixem aqui amanhã. E tenho também poder para fazer com que eles nunca venham aqui. Mas isso depende muito do que vamos conversar nos próximos minutos.

Vincent havia pesquisado anteriormente tudo sobre o estabelecimento. Mas ele não pretendia realmente denunciar o proprietário, e muito menos protegê-lo de fiscalização nenhuma.

João engoliu seco, olhou para os lados novamente, e então se aproximou e falou baixo.

Não sei muito sobre ele. As vezes vem aqui sozinho, e outras com uns amigos. Tem quem diga que ele é um índio, que foi expulso da tribo dos Kaapor. Outros falam que é um ex-presidiário e que já matou muita gente. Mas pode ser tudo mentira só boatos. Só sei que já vi ele brigar nesse bar, a muito tempo atrás, e ele espancou um homem com o dobro do tamanho dele. O coitado quase morreu. Ninguém sabe muito sobre ele e ninguém quer saber.

– Me fale mais sobre esses amigos dele.
– 
É uma turma, vem aqui esporadicamente. 5 ou 6 homens eu acho.
– Me conte absolutamente tudo que você lembra desses homens. Tamanho, aparência, qualquer detalhe.

***

Bal estava deitado, já em sua nova casa. Estava repousando depois de todo o esforço da mudança. Começou a lembrar de sua noite com Clara. Constatou que a parte boa do prazer de desvirginar uma garota vinha do antes e do depois. O antes pela excitação e curiosidade, o convencimento e a luta, para fazer a garota se entregar a você. No caso de Clara, tinha um componente a mais: ela tinha que abrir mão da coisa mais importante para ela, Deus, por ele. Ou, como ele gostava de pensar, pelo seu pau. O depois, pelo orgulho de ter conseguido, a sensação de que você é um mago das mulheres, e ter ali mais uma figurinha rara na sua coleção. Mas o durante, o ato em si, era bem sem graça. Não foi memorável e estava longe das melhores relações que ele já tivera. Porém, devido a sua seca, foi o suficiente. Um barulho o libertou de seus pensamentos. O som vinha do corredor. Se levantou e foi até lá. Viu uma mulher segurando uma grande caixa, cheia de objetos. Logo deduziu que era uma mudança, e o som que ouviu foi de um objeto caindo da caixa. Rapidamente foi até ela e segurou a caixa.

– Muito obrigada! – disse a mulher.

– Para onde levo essa caixa – perguntou Bal.

A mulher apontou para uma porta.

– Ora, ora…então você será a minha vizinha.

Bal colocou a caixa na frente da porta do apartamento, e depois foi até a mulher. Enquanto caminhava, deu uma bela olhada nela. Sua análise do corpo feminino era metódica. Inicialmente olhava a bunda e o tamanho da cintura: era atraído por mulheres de cintura fina. Depois analisava as pernas, e por fim, os peitos. Como estava de frente, olhou primeiro a cintura, depois as pernas e por fim os peitos. Era uma mulher do jeito que ele gostava. Possuía o famoso corpo violão: tinha um tamanho de peito razoável, um pouco acima da média, o corpo se afinava na cintura para depois se alargar novamente na região dos quadris e pernas. Algumas mulheres com esse tipo de corpo tinham tendência ao sobrepeso, mas esta em questão, estava rigorosamente em forma. Bal considerava um rosto bonito apenas uma alegoria a mais, porém essa mulher também o tinha. Olhos verdes e cabelos pretos. Não era exatamente um rosto delicado, mas emanava um ar misterioso e até selvagem. Só por uma olhada rápida Bal imediatamente supôs que essa mulher tinha uma boa experiência sexual e que adorava sexo. Isso o excitou imediatamente.

Quando se aproximou dela, disse:

– Meu nome é Bal, vizinha. Muito prazer.

– Obrigada novamente pela ajuda! Meu nome é Rosemari.

PARAGOBALA – CAPITULO 18 – RETRATO FALADO

PARAGOBALA – CAPITULO 18 – RETRATO FALADO

– Fale mais sobre esse Júnior.

– Ele é…diferente – disse Nédio, pensativo, e com dificuldade de encontrar as palavras corretas para descrever o seu cliente.

– Como assim? – retrucou Vincent, ávido por respostas

– É uma pessoa singular, nunca conheci ninguém parecido. Ele é sonhador, inocente e solitário…tem uma grande imaginação, e as vezes, penso que tem dificuldades para aceitar e compreender a nossa realidade…como se ele vivesse no seu próprio mundo.

– Esse cara é maluco? – perguntou com preocupação. Desejava uma testemunha com faculdades mentais plenas.

– Não! Quer dizer…acho que não? Ele tem emprego, uma casa…não toma remédios…pelo que eu sei. Ele só gosta de contar histórias e fantasiar. O que ele quer é só um pouco de carinho.

“Ótimo. Parece ser um doente” – pensou o Pelicano.

– Ok Nédio. Muito obrigado por tudo. Te ligarei se precisar de alguma coisa, e vou entrar em contato com o Júnior.

– Espero que ele colabore, mas não sei, acho que ele pode negar tudo! Ninguém sabe que ele tem esse tipo de encontro comigo…

“Em outras palavras, ele é enrustido” – concluiu o promotor.

– Não se preocupe, vou dar um jeito.

***

Bal se encarava no espelho do banheiro do fórum, com o rosto molhado, depois de o lavá-lo.

“ Não acredito que perdi o controle por causa de um moleque inútil como aquele! Mas que merda!”. E deu um soco na pia de pedra. “Estou com os nervos à flor da pele, prestes a explodir”. “Sinto falta da bebida…como sinto! E do sexo…qual foi a última vez que fiquei sem transar!? E também…a quanto tempo fiquei sem matar ninguém? Não! Não! Nunca matei por satisfação pessoal, fiz para salvar a cidade. Não sinto falta nem dependo disso. Tenho que dar um jeito na minha situação.”. Ficou estático por longos 30 segundos, com sua mente trabalhando em um turbilhão de pensamentos. Até que levantou a cabeça e sorriu levemente na frente do espelho, já sabendo o que faria. Tirou o celular do bolso, ligou para Clara, e marcou um encontro a noite.

***

Antonio xingava enquanto segurava um processo.

– Porque essa merda voltou!? Esse promotor acha que aqui é o CSI? – esbravejou, sozinho na sala. Era o caso da mulher que havia sido encontrada com o ânus cauterizado.

As evidências contra os garotos presos são insuficientes. Recomendo uma nova investigação para acharmos novos suspeitos

– Filho da puta – continuou reclamando. Se achou insuficiente deveria ter arquivado.

Pegou o telefone e chamou um policial.

– Sidney, sabe o caso da mulher encontrada próxima da estrada? Vai pra lá, entrevista umas pessoas lá por perto, documenta tudo e trás pra mim. Ai o promotor não enche o saco.

Antônio estava mais preocupado com outro caso. O ataque a base de Bezerro do Acre. O traficante estava fragilizado, e era a melhor oportunidade de tirá-lo do poder e voltar a lucrar com o tráfico de drogas. No entanto, o que lhe preocupava era justamente o novo promotor. Ainda não o conhecia bem. Por isso tinha montado um plano que julgava estar acima de qualquer suspeita. Uma pessoa ligaria para a delegacia reportando um assalto, a polícia chegaria, tiros seriam disparados pelos assaltantes, e a polícia apenas reagiria. Tudo isso geraria um grande tiroteio que iria escalar até a morte de Bezerro. Ele se achava muito inteligente por ter bolado aquele plano. Os últimos ajustes estavam sendo feitos e a ação aconteceria em breve

***

Vincent aguardava dentro do carro, na frente de uma academia. Era o lugar onde havia combinado de encontrar Júnior. Já conhecia a aparência dele, após uma pesquisa no Facebook. O resultado da pesquisa foi um pouco perturbador. No perfil, haviam dezenas de comentários de jovens mulheres. No entanto, não foi difícil de perceber que eram perfis falsos, provavelmente criado pelo próprio Junior. Nos posts, frases que faziam pouco sentido, e uma veneração a um personagem de quadrinhos. Ficava cada vez mais preocupado, com dúvidas se aquele homem teria capacidades de lhe prover um relato coerente e confiável. Logo identificou a figura vindo: tinha por volta de 1,80, pele bem clara, musculoso e com um corte de cabelo peculiar, repartido na frente, fazendo com que uma franja despencasse sobre o rosto. Lhe lembrava o psicopata interpretado por Javier Bardem em Onde os fracos não tem vez. “Espero que esse não seja tão maluquinho quanto”.

Vincent saiu do carro, colocou os seus óculos escuros, e o aguardou. Acenou para Junior, que veio em sua direção. Se comprimentaram rápidamente, e já entraram no carro. O Pelicano logo deu partida, e então, informalmente, começou o seu interrogatório.

– Muito obrigado por se colocar à disposição.

– Tudo que eu puder fazer para ajudar na luta da justiça contra os bandidos eu farei! Todos estão cansados da situação injusta desse país, que prejudica os honestos e bons trabalhadores.

– Eu estou investigando o desaparecimento de um homem. Carlos Henrique Becker. Eu acredito que você tenha presenciado algo importante. A foto dele está no porta luvas.

Junior pegou a foto e olhou com atenção. Ficou calado por alguns instantes. Vincent percebeu que era óbvio que ele reconheceu a imagem, mas provavelmente não estava a vontade de falar sobre as circunstâncias que lhe permitiram ver Carlos.

– É…não sei não – respondeu, inseguro.

– Carlos era um pai de família. Filha e esposa o procuram até hoje. Todas as investigações estão em becos sem saídas…pela primeira vez em meses conseguimos uma pista – argumentou Vincent, misturando realidade e ficção.

– Talvez eu tenha visto alguém parecido, mas não me lembro muito bem…

– Deixe eu te ajudar. A um tempo atrás…em um estacionamento de um bar…

– Ah sim! Eu estava lá, com minha ex-namorada, Jéssica!

– E lembra mais o que? – incentivou Vincent, mesmo sabendo que Junior estava mentindo.

– Bom…estávamos no carro…namorando. Eu queria ir a um motel mas ela estava impossível, me agarrou lá mesmo! Eu dou duro na academia, e você sabe que é disso que elas gostam. Homens sarados, bonitos e definidos.

Vincent apenas concordou com a cabeça.

– Agora estou me recordando. Eu estava no volante, quando ela segurou o meu braço e o colocou no seio dela. Eu disse “calma Jéssica, vamos para um lugar mais confortável”. Ela me ignorou, e agarrou as minhas partes intimas. Então eu apontei para o banco traseiro, e atravessamos o carro até lá. Logo me acomodei, e ela começou a abrir minha calça e…acho que foi aí que percebi alguma coisa lá fora. Ouvi gritos. Talvez eu tenha ouvido o nome Carlos. Vi homens brigando. Falei para Jéssica que iria lá fora ver que confusão era essa e ela me implorou para ficar. Depois colocaram o Carlos em um porta malas e foram embora.

– Você consegue identificar alguém de lá???

– Eram pessoas comuns, ordinárias. Um deles era fortinho até, mas não acho que chega a ter mais de 40 cm de braço. O que eu me lembro melhor era um cara magro, que parecia um índio…e o braço dele, era todo riscado. Pareciam marcas, não sei bem o que era.

Vincent se animou com a resposta. Era uma característica física diferenciada, e com isso, seria possível fazer uma busca. A sua dúvida era saber se o relato era confiável.

– Senhor, se precisar de ajuda para pegar esse bandido pode contar comigo. Eu gosto de ajudar as pessoas, as vezes saio por aí protegendo donzelas e idosos contra pessoas mal educadas ou animais raivosos.

–  Ah! Não tenha dúvidas que irei te chamar caso eu precise de ajuda.

O Pelicano prosseguiu e perguntou a ele detalhes da aparência física do homem com marcas no braço e depois deixou Júnior na frente de sua casa. No caminho para o seu lar, começou a bolar a estratégia para descobrir mais sobre esse homem com marcas no braço. Vislumbrava dois caminhos: colocar cartazes pela cidade, ou, divulgar a aparência apenas para a polícia, que iria realizar as buscas. Ele tinha receio que expondo publicamente a imagem de quem estava procurando, o bando descobrisse que estava sendo investigado e fugisse. Por outro lado, ele não sabia se poderia confiar na polícia, ou até mesmo se algum membro do bando era policial. Qualquer opção era um risco. Ele estava sozinho nesse jogo de gato e rato e teria que se arriscar.

***

Bal abriu a porta de sua casa, e deixou Clara entrar. Ela viu uma mesa arrumada, com uma vela no centro.

– Isso é…tão romântico! – disse, e em seguida beijou o seu namorado.

– Agora sente-se lá e espere. O melhor está por vir.

Clara aguardou na mesa, enquanto Bal foi a cozinha pegar a comida. Havia preparado uma macarronada com molho. Ele considerava uma comida romântica e ideal para se comer a dois. Depois, trouxe uma jarra com suco de laranja, que ele mesmo havia espremido. Achava que o toque caseiro iria encantar ainda mais a sua namorada. Bal gostava de pensar que era uma mistura de um macho alfa e um homem moderno e sofisticado.

O jantar saiu exatamente como o esperado. Bal controlava a conversa e a direcionava, levando Clara para onde ele queria. Para um homem com tanta experiência com mulheres, manipular aquela inocente virgem era como uma brincadeira de criança.

Terminaram de comer, e Bal rapidamente tirou os pratos e trouxe um vinho. Clara não era muito de beber, e ele sabia disso. Ofereceu um pouco, de forma encantadora, e os dois beberam. Depois levantou, foi até a cadeira dela. Clara levantou e os dois se beijaram. Bal então foi usando todas as técnicas que conhecia para excitá-la cada vez mais. Progressivamente, suas mãos se distribuiam pelo corpo dela, sem receio ou pudor. Clara não ofereceu resistência, e Bal sabia que ela estava gostando. Ele a levou para a cama, e começou a abrir o vestido dela. Chegou ao seu ouvido e disse “tem certeza que quer isso?”. Ela ficou encabulada, e respondeu “sim”. Pronto, agora ele estava de consciência livre.

***

Bal acordou horas depois, se sentindo muito aliviado. Um peso tinha saído de suas costas. Uma relação monogâmica, e ainda sem sexo, era algo extremamente difícil para ele. Durante a semana, havia sido cantado por moças na academia, e teve de recusar. Foi até acusado de ter trocado de time pelas garotas. “Até pensam que eu virei gay!” pensava, com um misto de orgulho, por se mostrar um homem diferenciado, que respeita sua namorada, e ao mesmo tempo uma outra sensação de inconformismo, que o fazia pensar “ porque estou me sujeitando a isso? Por que não posso sair com outras mulheres igual a todos!?”. Agora, após transar com Clara, estava com um sentimento de culpa menor. Afinal, ele tinha desvirginado uma garota bonita e recatada. Não era a primeira, mas tirar a virgindade de alguém era como um selo especial de sua coleção de mulheres. Levantou-se da cama e foi ao banheiro.

Enquanto lavava o rosto, ouviu um som de choramingo ao fundo. Não se apressou e terminou de urinar e escovar os dentes. Ao voltar a cama, encontrou Clara chorando. Ela olhou para ele, que rapidamente falou:

– O que é? Eu te perguntei se você queria ou não. Não venha me culpar – disse de maneira dura.

– Eu..eu não te culpo – disse meio que chorando. Eu pequei…Deus estava me vendo..ai meu deus, o que eu fiz?

– Você fez o que estava com vontade de fazer, e ninguém pode te julgar por isso. Bom é melhor você se arrumar, já está tarde, e seus pais vão achar ruim se você não voltar pra casa.

Clara concordou com a cabeça, e foi ao banheiro se limpar e se vestir. Bal a levou para casa, e eles trocaram poucas palavras no caminho. Ele não dava abertura a ela para reclamar ou se lamentar, com respostas frias e duras. A deixou em casa e voltou correndo para a sua. Foi até a geladeira, onde ainda tinha cervejas guardadas. Pegou um punhado de garrafas e se sentou no sofá. Começou a beber freneticamente, uma a uma. Tentava não pensar, inutilmente. Era bombardeado por pensamentos negativos. “Eu não presto”. “ Eu sou um monstro”. “Eu não tenho jeito”. E continuou assim até apagar.

***

Ao final da madrugada, Vincent já havia decidido o seu plano. Iria divulgar internamente, dentro da polícia, o retrato do homem que havia sido identificado por Junior. Ele não era alto, parecia um índio e tinha diversas marcas no antebraço direito. Ao mesmo tempo conduziria uma investigação, perguntando por aí sobre a figura. Colocaria em risco a investigação e teria que confiar na polícia, o que não era fácil, pois não tinha confiança alguma no delegado Antonio. No entanto, achava que podia mantê-lo sob controle.

Chegou na delegacia, e percebeu um clima diferente. Homens andando de um lado para outro, murais com um terreno e várias marcações. Armas sendo transportadas. Era fácil de deduzir que aquilo era a preparação para um ataque em grande escala.

Foi até a sala do delegado, bateu duas vezes e logo entrou. Antônio estava na sala com mais 3 homens, e disse com surpresa:

– Doutor! O senhor por aqui…e deem licença por favor, já chamo  vocês – disse ao seus homens.

Assim que eles saíram, Vincent tomou a iniciativa.

– Vi toda a movimentação na delegacia…alguma coisa vai acontecer?

– Estamos recebendo muitas denúncias sobre atividade de traficantes…estamos no preparando caso as coisas piorem.

– Hum…e o caso da mulher?

– Caso da mulher….ah! Sei…estamos investigando ainda doutor, qualquer coisa te aviso.

– Bem, você não vai acreditar, mas sabe aqueles cartazes que pedi para distribuir? Recebi ligações e consegui informação para montar um retrato falado de um suspeito.

– É claro…temos alguém aqui na delegacia que pode te ajudar com isso. Já irei chamá-lo…mas doutor preciso lhe pedir uma coisa.

O Pelicano já esperava uma contrapartida do delegado. Conhecia o tipo.

– O que? – perguntou de forma seca.

– Como eu te disse, a atividade dos traficantes está aumentando muito. Eles estão se armando e criando verdadeiros exércitos. Logo teremos que tomar uma medida mais dura…e as coisas vão ficar feias.

– E o que o senhor quer de mim?

– Essas coisas são..sujas e as vezes barulhentas. Sabe como a imprensa age, certo? Sempre defendendo os bandidinhos? Vão falar de excessos e tudo mais…sem saber que isso aqui é uma verdadeira guerra! Vão querer a cabeça dos policiais e responsáveis. Precisamos de apoio e proteção para podermos agir.

Vincent não respondeu nada e ficou pensativo. Sabia que aquilo que lhe foi dito era apenas uma meia verdade.

– Sempre protegerei policiais honestos que buscam enfrentar criminosos. Pode ficar tranquilo.

Apertaram as mãos, e o delegado sorria. Em seguida, foi montar o retrato falado do homem misterioso, e planejou, junto do delegado como seria essa investigação.

***

Em um bar sujo, homens bebiam com expressões fechadas.

– Isso já foi longe demais! Precisamos discutir isso – falou o Caolho, visivelmente nervoso.

Os outros homens da mesa o olharam, mas nada falaram.

– O Doutor nos abandonou! Esqueceu o nosso projeto? Veio com esse papo de não beber mais e de querer ter uma namorada religiosa? Todos aqui sabem que é questão de tempo até tudo isso acabar. Mas está demorando muito! Falem alguma coisa! – exigiu.

– Temos que respeitar a decisão dele – disse Italiano, sem querer sair do muro.

Caolho olhou então para Índio que não expressou nenhuma reação.

O Pastor então falou:

– Eu vou falar com o meu irmão….mas não precisamos esperar ele vir até aqui para fazer alguma coisa. Ele nos proibiu de algo por acaso?

Então, o impassível Índio, fincou uma faca na mesa, assustando a todos. Os olhares se direcionaram a ele, esperando alguma declaração, mas ele apenas pegou seu copo e bebeu mais cerveja.

– Talvez seja melhor nós esperarmos essa sua conversa com ele antes de pensar em qualquer coisa – disse o evasivo italiano.

– Tem razão – disse o Pastor.

Em seguida, Índio retirou a sua faca da mesa.

Eles continuaram bebendo e conversando sobre temas mais leves, e aos poucos os membros iam embora. Índio fez questão de ficar até o final e foi saiu logo após o Pastor, que saiu do bar com pensamentos em sua mente. “ Malditos cordeirinhos! Não veem que estamos perdendo tempo nessa espera. Perdendo dinheiro!”. “Essa palhaçada do meu irmão vai acabar logo”, prometeu a si mesmo.

PARAGOBALA – Capítulo 17: Interrogatório

Paragobala 17 – Interrogatório

Vincent esperava escondido debaixo de chuva, atrás de uma parede. Havia combinado um ponto de encontro, dentro de um motel vagabundo, com a pessoa que o ligou oferecendo informações. Tinha feito uma pesquisa rápida com o número de telefone da pessoa, e parecia que era seguro. Era um homem, se chamava Nédio e estudava medicina. Fora isso, nada desabonador.

Viu uma pessoa entrar no quarto do motel, e a descrição física batia com o que ele tinha encontrado na sua busca pela web. Checou novamente sua arma, escondida na calça, fechou seu casaco, caminhou rapidamente até o local, e abriu a porta.

Nédio estava sentado na cama, e se assustou com a abertura da porta. Era um garoto ainda, pele morena e cabelo preto e comprido, chegando até os ombros.

– Não se assuste, você está seguro aqui – disse rapidamente o promotor.

Nédio assentiu com a cabeça, mas ainda estava visivelmente assustado. O Pelicano percebeu que fazer essa denúncia não foi uma decisão fácil para o garoto.

Vincent pegou uma cadeira, e sentou de frente para ele.

– Então…o que pode me dizer sobre o Carlos?

– Eu…não sei quem ele é…mas acho que vi alguém muito parecido com ele a uns meses atrás.

“Melhor que nada”, pensou Vincent, tentando se animar.

– Antes de mais nada…eu preciso saber…isso será anonimo certo? Ninguém vai saber que eu falei isso?

“ Como eu pensava, esse grupo inspira medo. Talvez explique por que ninguém viu nada. Isso é bom…podem existir mais testemunhas por aí”.

– Pode ficar tranquilo. Será totalmente sigiloso, você tem a minha palavra. Só queremos saber o que aconteceu com esse homem…a família dele merece essa resposta.

Mais uma vez, Nédio concordou com a cabeça.

– Que seja! Não aguento mais isso. Não durmo bem desde aquele dia. Preciso contar o que eu vi. Eu estava…trabalhando próximo a um bar, naquela noite. É um bar simples, com um estacionamento em um terreno baldio. Eu estava dentro de um carro…quando ouvi um grito. Alguém chamou por “Carlos”. Não parecia ser um chamado de um amigo, pelo contrário.

– Você viu quem falou isso? – disse Vincent, empolgado com o relato.

– Bem…nesse momento eu estava abaixado, não conseguia ver nada…e um pouco depois do grito, ouvi o som de uma pancada, parecia um soco. Depois gemidos, e mais barulho de soco. Nesse momento eu quis levantar para espiar mas…não consegui…

– Não entendi direito. Você estava dentro de um carro e…

– Você me prometeu sigilo, então que seja! Mas saiba que estarei arruinado se isso for divulgado! Eu sou Nédio, um estudante de medicina. Porém a noite…me transformo em Nádia, a Princesa!

Vincent não conseguiu reagir a tempo. Soltou uma risada, e a conteve logo em seguida. “Que loucura”, pensou.

– Ninguém vai saber disso, Nédio, eu não tenho nenhum problema com isso também…me desculpa…foi só algo inesperado.

– Então…eu estava com um cliente, um homem no carro…e você imagina o que eu estava fazendo abaixado. Ele segurou a minha cabeça durante esse tumulto e eu não consegui ver nada, só ouvir. Um pouco depois eu terminei o serviço e…quando levantei imediatamente olhei naquela direção, e vi um homem caído e ensanguentado no chão. Tinha cabelo loiro, como na foto. Do lado, um homem que lembrava um índio…era bem magro. Pegou o corpo e colocou no porta malas de um carro, parecia ser um importado..

– Esse? – e Vincent tira do bolso uma imagem de um I30 da Hyundai, preto.

– Exatamente!

– Era o carro de Carlos, que também desapareceu. Você deve ter realmente visto ele! Eu preciso que você tente descrever da melhor forma possível como é esse homem que você viu, e quantos outros estavam dentro do carro? E também, depois, gostaria muito do contato desse seu cliente…garanto todo o sigilo.

***

Era quase a hora do almoço, e estranhamente Vincent ainda não havia chegado. Bal reparava no seu companheiro de trabalho: Agha. Até agora, sabia pouco dele, mas não tinha simpatia nenhuma pelo sujeito. Era jovem, mas parecia ser arrogante e se sentia superior ante os mais experientes, justamente de quem ele deveria aprender. Ainda não tinha tentado analisá-lo, pois na maior parte do tempo, ele era simplesmente irrelevante. Porém, nesse momento, simplesmente decidiu que queria saber mais.

Agha levantou para o almoço, e Bal o seguiu.

– Ei, Agha, está indo almoçar? Sei um lugar bacana que podemos ir – e deu um tapinha nas costas do mesmo.

Agha estremeceu, e no mesmo instante, Bal percebeu que ele não gostava muito desse tipo de abordagem mais calorosa. Deu um imperceptível sorriso.

– É..minha dieta é muito restritiva, não posso comer em qualque-

– O lugar que eu como é super saudável, não se preocupa. Não mantenho esse shape aqui a toa – deu uma piscadela e sorriu. Queria incomodá-lo, para conseguir enxergar mais a fundo quem era aquela pessoa.

– Tudo bem então – disse Agha, que ao mesmo tempo se lamentava de não ter conseguido fugir da situação.

O restaurante era por kilo, bem próximo ao fórum. H sempre ia comer no restaurante do próprio fórum, em respeito a lei do mínimo esforço. Apesar de morar já a mais de 1 mês em Paragominas, não conhecia praticamente nada da cidade. Passava seu tempo no trabalho e em casa.

Ambos sentaram após pegar a comida. A diferença no prato deles era visível. O prato de Bal tinha praticamente o dobro de tamanho.

– Agora entendo porque você é tão magro…precisa comer mais – disse e em seguida engoliu um pedaço de frango.

– Eu não ligo muito para meu corpo, me preocupo mais em  fortalecer a mente.

Interessante, pensou o Doutor, que agora, analisava intensamente o seu alvo.

– Tolice, corpo e mente andam juntos. Precisam de sintonia. Fortalecendo um, você fortalece o outro.

“Começou com bobagem espiritual? Esse cara consegue se tornar menos interessante cada vez que abre a boca”. Pensou Agha, mas não respondeu nada para Bal, e começou a comer sua comida, deixando o assunto morrer.

Bal, que tinha uma grande experiência no território do diálogo, não se intimidou, e continuou a puxar assunto.

– Você se formou na Bahia, né?

– Na universidade federal da Bahia, sim.

– Hmm…deve ser o orgulho da família, não?

– Bom…imagino que sim, meus pais ficaram orgulhosos quando entrei. E você…é formado? Não me lembro.

Um olhar atento teria percebido uma pequena estremecida em Bal. Mas ele apenas sorriu.

– Não fiz curso superior. Cheguei onde estou colocando a minha capacidade a prova simplesmente. Já virei chefe da minha área, e liderei muitos formados…

“ Esse cara acha isso uma grande coisa. Pena dele” – mais uma vez Agha só pensou e nada falou.

– Legal – foi a sua sucinta resposta, que não passou despercebida ao olhar de Bal, que notou um leve toque de escárnio.

– E o que está achando aqui da cidade? Aqui, sozinho e solteiro…tem muita mulher bonita por aqui.

– Eu sou mais caseiro, não gosto muito de sair por aí…

– Você é virgem? – perguntou repentinamente Bal, com a intenção de deixá-lo desconfortável

– Sou sim e não ligo pra isso – disse sem nenhum sinal de vergonha.

A resposta deixou Bal sem reação por alguns instantes. Isso o irritou. Para ele era fácil estar no controle de uma conversa, mas estava com dificuldades de fazer isso com esse estranho jovem.

– Tive amigos que perderam a virgindade tarde…mas com umas dicas minhas eles conseguiram superar isso – disse, finalmente, apos o periodo de silencio.

– Você é um guru do amor? – respondeu, em tom de deboche

– Eu leio leio muito bem as pessoas…e conheço as mulheres. Por exemplo, olhe aquela mulher ali no canto. Só de olhar já sei que ela é solteira, e está desesperadamente tentando demonstrar que tem valor. Está procurando um namorado. Dá para ver pelos gestos e jeito de se vestir…é tudo uma questão de identificar os padrões – usou agora um tom de voz mais professoral.

– Isso ai nada mais é do que uma análise de boteco – desdenhou Agha.

Esse último comentário irritou ainda mais.

– Escuta aqui seu moleque. Eu já entendi qual a sua – disse, apontando o dedo.

Agha estremeceu. A troca de palavras ou até insultos não o intimidava. Mas ali, naquele momento, temeu por sua integridade física. Instintivamente, colocou ambos os braços na frente do peito.

– Você se considera muito esperto…muito inteligente. O orgulho da família. Sempre pensou ser o mais inteligente da sala…e percebeu que aqui a situação é outra e isso te incomoda! Você se sente ameaçado.

– “De que diabos ele esta falando?” – pensou Agha.

– Se você soubesse mais de mim…soubesse o que eu sou, ou o que eu já fiz aqui, não ia ter coragem de falar metade do que você falou!

– “Tá querendo dizer que é um maníaco!?”

– Então, é o seguinte. Essa é a sua nova realidade. Se acostume e cresça.

Ao terminar de falar, Bal imediatamente levantou e saiu do local.

Agha ficou congelado e assustado.

***

A barra descia devagar em direção ao peito, até ser empurrada com força para o alto. Em cada extremidade, estavam 90kg em anilhas. O celular começou a tocar, e o homem, com irritação, colocou a barra de supino no suporte. A academia estremeceu com o barulho.

– Alô, quem é!?

– Meu nome é Vincent, e represento o ministério público, estou procurando pelo Junior.

– Sou eu.

PARAGOBALA – Capítulo 16: Coroação

PARAGOBALA  –  Capítulo 16: Coroação 

Caolho andava de um lado para o outro, ansioso para o encontro com Bal. J.B e Índio também estavam no local, sentados no chão, na frente de uma fogueira. Ouviu um barulho de carro e virou a cabeça. Pouco tempo depois, identificou Bal, que estava carregando uma espécie de caixa. Caolho foi correndo em sua direção, para descobrir o que era aquilo. Bal colocou a caixa no chão, e falou:

– Aqui está – e então levantou uma portinha na frente da caixa, que agora era facilmente identificada, como uma caixa para transporte de animais.

De dentro, saiu um cachorro, vira-lata e magro.

– Peguei esse na rua. Enquanto não trouxermos novas pessoas para cá, se contente com eles, Caolho.

Ele olhou fixamente para o animal, ponderando. Ajeitou os óculos, e disse, já esboçando um sorriso:

– É…vai servir.

Na juventude, já havia matado outros animais. Agora estava acostumado com pessoas, mas estava ainda mais acostumado a queimar coisas vivas e não conseguia viver sem essa sensação.

Ele saiu apressado, correndo para dentro da cabana pegar o seu equipamento.

– Índio, alguma coisa sobre esse ataque em uma tribo que o Italiano interceptou?

– Sim. A tribo Guarani, que chegou a pouco tempo aqui, foi atacada por traficantes. Muitas mortes. No meio do ataque, os Kaapor apareceram e expulsaram os invasores.

– Hmm…interessante. E agora, o que será da tribo Guarani?

– Não sei ainda…mas imagino que ficará sobre a proteção dos Kaapor .

– E eles não enviaram mais ninguém para te matar?

Índio apenas fez um sinal de negativo com a cabeça. Ele e Bal viraram a cabeça ao ouvirem Caolho chegando. Estava vestindo o seu lança chamas.

– Está na hora do Fire, hehehe! – disse, olhando para o cão.

Todos deram passos para trás, e o cão ficou parado, olhando para Caolho. Um instante depois, o animal estava guinchando, e o homem que soltava a labareda de fogo, rindo.

Índio e Bal, olhavam com frieza para a cena. J.B, imitava Caolho e ria também.

– Queime, queime! – repetia Caolho, enquanto o animal agonizava.

***

Os índios cochichavam, cabisbaixos. Já haviam feito os rituais de despedida para os Guaranis mortos, e para o ex-líder, Danilo. Muitos choraram e lamentaram a morte de seu chefe. Agora, estavam discutindo quem seria o novo cacique da tribo. O método era simples, e surpreendentemente democrático para um ritual tão antigo. Qualquer membro da tribo poderia indicar um representante, e os 3 candidatos com mais indicações, se sujeitavam a uma eleição. Tudo no mesmo dia.

No meio dos índios Guaranis, estavam muitos Kaapor. Eles haviam os salvado, e agora os protegiam, traziam comida e ajudavam na reconstrução da vila. O burburinho entre os Guaranis aumentou, e alguns apontaram discretamente para a frente. Kerexu, o cacique dos Kaapor, estava indo em direção a eles. Ele levantou os dois braços, um deles segurando um cajado, dando sinal que gostaria de falar. Quase que instantaneamente, os índios a sua frente ficaram em silêncio, e o olharam com atenção.

– Meus irmãos Guaranis! Ainda me dói ver o que aconteceu aqui – disse olhando lentamente para a aldeia – lamento muito a morte de qualquer índio, e especialmente daqueles que admiro. Conheci o cacique Danilo, e era um líder preocupado com o seu povo.

A multidão murmurou, em concordância.

– Desde tempos antigos, somos mortos brutalmente pelo homem branco, que hoje em dia é chamado de homem civilizado. Mas de civilizados, não tem nada! O que fizeram aqui, de civilizado, não tem nada! – repetiu, aumentando a voz, deixando transparecer sua raiva – Muitos dizem que estamos em guerra com eles a séculos. A realidade, porém é outra. Nossos antepassados perderam essa guerra a muito tempo, quando escolheram lutar entre si, ao invés de se unirem.

Os ouvintes mais uma vez concordaram com as afirmações.

– Por isso, eu lhes digo, somos todos irmãos. Quero proteger vocês, e quero que vocês façam parte da minha tribo. Me elejam como o novo cacique dos Guaranis, e então, seremos um só.

Após proclamar essas palavras, era possível escutar o espanto dos índios, que imediatamente começaram a falar entre sí. Até que o breve instante foi cortado pelo som de uma lança batendo no chão, seguido de outras. Em pouco tempo, a maioria batia sua lança contra o chão, aprovando Kerexu.

A votação terminou no final do dia, e Kerexu teve uma vitória esmagadora. Havia sido eleito o novo cacique dos Guaranis.

***

– E então, o que acha? – perguntou Bal, apontando para um pequeno prédio.

– É muito bonito! – respondeu Clara.

– Vou me mudar para o primeiro andar, tem um acesso por uma escada externa. É um pouco menor que minha casa antiga, mas é mais próximo ainda do meu trabalho. Localização conta muito para mim. Quando eu me mudar, gostaria de te mostrar o meu novo lar.

– Claro, adoraria vê-lo!

Eles caminharam juntos, de mãos dadas. A garota, cada vez mais apaixonada. Já o sentimento de Bal, continuava estagnado. No entanto, ele já estava a 1 mês sem beber. Usava o relacionamento como o motivo e estava dando certo.

– Sabe…acho que nunca havia conhecido um homem como você…você é gentil, respeitoso…eu já estava ficando em dúvidas se ainda existiam homens bons nesse mundo!

– Não exagere.

– Não estou exagerando! Você é tudo que uma garota podia pedir de um homem.

Ela não sabe o que diz. Não me conhece realmente. Ou será que eu que não me conheço tão bem…? Não, besteira. Eu sou podre por dentro, e ela apenas ainda não viu essa faceta. Quando ver quem eu sou vai se decepcionar e sofrer.

– E você também é uma namorada ideal Clara! Com você sinto que posso me tornar uma pessoa melhor.

Ele a puxou, e ambos se beijaram. Se o sentimento de Bal estava estagnado, o seu tesão percorria um caminho contrário. Fazia muitos anos que ele não ficava 1 mês sem transar. Qualquer mínimo contato físico com ela já o excitava. A noite antes de dormir, as vezes se pegava a imaginando nua e fantasiando sobre como seria o sexo. Nessas horas o dilema moral de lhe tirar a virgindade passava longe de seus pensamentos. O beijo arrepiou os seus pelos, e ele a puxou mais para perto. Sentiu a respiração pesada dela, e sabia que ela tinha uma vontade muito grande de se entregar. Tinha certeza que ela jamais havia ficado com um homem como ele. Bal já segurava as costas dela com força, quando repentinamente encerrou o beijo e se afastou.

– É melhor maneirarmos – disse com um risinho.

Clara concordou com a cabeça, encabulada. Estava confusa e não sabia como agir. Ela queria…mas sabia que Deus estava vendo. Tinha de casar primeiro.

***

O delegado Antônio ouvia com atenção o relatório dos policiais. Afinal de contas, parecia que o saldo havia sido muito positivo. O ataque de Bezerro na aldeia indígena fora um fracasso, e a maioria de seus homens, um bando de vagabundos, foram mortos. O psicopatinha estava enfraquecido e debilitado. Antonio esfregou suas mãos carnudas, com um sorriso no rosto.

– Vamos planejar um ataque e depois pegar esse filho da puta. Ele vai pagar por ter me ameaçado. Vai entender que manda nessa cidade!

Iria matar o chefe do crime, colocar algum outro homem mais dócil no seu posto, alguém que soubesse abaixar a cabeça para a polícia, e de quebra, ficaria com a imagem de herói na cidade: o delegado que enfrenta o crime de frente e derruba até os bandidos mais poderosos.

***

Bezerro estava deitado, com várias ataduras pelo corpo, e reclamava sem descanso:

– Merda! Merda! Merda! De onde saíram aqueles índios?

Schneider estava sentado em uma cadeira, ao lado da cama, e parecia ainda estar em estado de choque:

– Eu…eu não sei – uma combinação de palavras que raramente eram proferidas por aquela boca. Pareciam ser de outra tribo e…

Enquanto tentava formular sua teoria, Bezerro o interrompeu, com outro grito.

– Mas e agora, porra? Estamos fudidos. Perdemos muita gente.

– Temos de nos reagrupar. Nos consolidar e atuar de maneira discreta, pelo menos por um tempo.

– Merda! Merda! Merda! Não sou cordeirinho. Não vou abaixar cabeça pra nenhum filho da puta.

Apesar expressão cansada, talvez até aborrecida, Scheneider continuou explicando com calma.

– É temporário. Ou é isso ou é a nossa morte. Não temos poderio para iniciar conflitos por enquanto.

Sem dar tempo de Bezerro abrir a boca, e falar mais bobagens, Schneider se levantou e avisou que iria tentar fazer mais uma contagem para descobrir o número de armas e homens que detinham no momento.

Passando pelo quarto de Bezerro, viu em outro salinha um homem também cheio de curativos. Parou por alguns segundos, sabendo que o reconhecia. Era Vândalo. “Afinal de contas, aquele porco sobreviveu…quem diria”.

***

Carlos Henrique Becker. Última localização conhecida: Paragominas. Natural da cidade, se mudou para fazer faculdade no sudeste, se formou em engenharia e tinha uma carreira de sucesso. Porem…escondia um segredo sórdido: viciado em pornografia infantil, tinha centenas de fotos de crianças nuas em seu computador. Provavelmente suas viagens ao Norte eram para fazer turismo sexual com menores.

“Era isso”, pensava Vincent. O histórico lhe fazia um alvo certeiro para o grupo que agia na cidade. Porém, não tinha como eles terem planejado tão bem aquele assassinato. Carlos simplesmente apareceu na cidade – e foi morto. O grupo não conseguiu se conter, viram a chance e aproveitaram. Abandonaram o método tão eficaz de matar moleques, e pegaram o que se apresentou a eles. O deslize, a falha, tinha de estar nesse caso. Era nisso que Vincent queria acreditar.

Nem existia um processo sobre o caso, pois não se sabia se ele havia realmente sumido em Paragominas. A polícia não havia mexido um dedo em uma investigação.

O plano ele já tinha. Agora era executa-lo e esperar pelos resultados.

Vincent saiu cedo de casa, e foi até a delegacia de policia. Carregava um pacote, e foi direto até a sala do delegado, Antonio. “Será um idiota útil”, pensou.

– Bom dia doutor – falou o delegado.

– Bom dia…eu precisava de um favor do senhor.

– Um favor? Claro! – ele mal conseguia esconder o sorriso. A oportunidade de agradar um poderoso nunca era mau negócio.

Vincent colocou o pacote na mesa.

– Um homem chamado Carlos Henrique Becker desapareceu na cidade…a uns meses atrás. Alguns amigos…importantes me pediram para fazer alguma coisa por aqui…você sabe como é – e encolheu os ombros.

– Claro, Claro…

– Eu sei, não vai dar em nada. Mas quero pelo menos mostrar que fiz alguma coisa. Se o senhor puder, pode pedir para os policiais distribuírem esse cartaz pela cidade? De preferência em estabelecimentos comerciais como bares, e…

– Fica tranquilo doutor, sabemos onde colocar. Vamos encher a cidade disso ai. Quem sabe temos não sorte?

***

Kerexu tomava chá dentro de sua oca, satisfeito com o resultado da votação na tribo Guarani. Todo o seu estratagema cuidadosamente planejado, havia dado certo.

Enquanto estava perdido nos pensamentos, alguém entrou em sua cabana. Ele levou um susto, mas rapidamente reconheceu a pessoa. Era um dos membros de seu esquadrão de elite. Eles haviam, finalmente, chegado.

– Bem vindo. Estava aguardando ansiosamente a chegada de vocês.

– A Venezuela é longe…e demoramos um pouco para conseguirmos infiltra-la no meio dos chefes de lá. Mas o problema foi resolvido. Podemos dar o prosseguimento a missão de matar o exilado?

– Uma coisa mais urgente surgiu. Preciso que matem um novo chefe do tráfico, chamado Bezerro do Acre. É um amador descerebrado, será fácil.

– Apenas matá-lo? Como deve ser feito?

– Após a morte dele, pretendo colocar alguém que nos sirva no cargo de chefe do tráfico. Portanto seria de bom grado algo grande, e que abalasse qualquer tipo de estrutura que ele construiu. Quero uma terra arrasada para trabalhar.

– Iremos nos preparar e realizar como desejado, senhor – disse, fazendo uma reverência. Instantes depois, a Oca continha apenas Kerexu outra vez.

***

Debruçado sobre a mesa, o Pelicano continuava a analisar todos os dados que havia encomendado. Já passava da meia noite, e ele lia atentamente a ficha de um garoto desaparecido. Tentava montar qualquer tipo de conexão menos óbvia entre as vítimas, para assim, ter pistas do responsável pelos sumiços. Havia se empolgado com a última descoberta sobre Carlos, mas sabia que era um tiro no escuro. Não podia parar de investigar. Então, o telefone tocou.

O coração disparou de excitação. Era o aparelho que ele havia comprado para divulgar o número nos cartazes.

– Central de investigação da Polícia – disse a frase que havia formulado recepcionar essas chamadas.

– Alô…eu vi um cartaz hoje e…acho que sei o que aconteceu com esse homem.