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Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 6)

É engraçado, apesar de achar que ia acordar e voltar pro colégio com os outros (ou seja lá onde eles levaram meu corpo enquanto estou desmaiado), agora estou em um lugar que não sei onde é, e olhando ao redor só dá pra ver terra plana pra todo lado. Até onde minha vista alcança não tem nada relevante que chame a atenção, exceto o fato do céu estar completamente branco. Tento me mexer pra ter certeza que tenho controle do meu corpo, e aparentemente tudo está normal.

Começo a andar pra frente sem nada em mente, já que não acho que vou conseguir “sair” daqui, porque provavelmente é só uma projeção da minha cabeça ou algum efeito colateral de algo que estejam fazendo pra melhorar minha situação lá fora. A dor que senti antes de desmaiar ainda tá aqui, bem mais leve, mas só me lembrando o estado que eu fiquei. Apesar de tudo, a habilidade da Karin pode vir a ser bem útil, e bem assustadora. Lutar contra alguém que não vai recuar por dor ou sentir fatiga é uma coisa bem medonha de se pensar, mas também é bem perigoso pra seja lá quem estiver sob efeito disso.

Por algum motivo, aqui eu sinto como se minha mente estivesse leve, quase como se nada do que realmente estava me dando dor de cabeça antes existisse, e uma… serenidade? É, serenidade. Enfim, é como se isso me atingisse em cheio. Mal quero pensar em como vai ser difícil voltar pra lá e ter que lidar com toda aquela merda de novo. Agora que paro pra pensar, me meti em muita maluquice deu uma vez só praticamente sem garantia nenhuma de que vou saber o que aconteceu com a Haruka, ou o que aconteceu naquele dia. É bem possível que isso termine com todo meu esforço sendo em vão, mas é a única chance que tenho…

Foi mal, mas vou precisar de uma coisa sua. Não liga, você nem vai se lembrar do que ouviu aqui.

A voz ecoa alto por todos os lados, como se não fosse uma pessoa falando comigo, mas sim algum tipo de ser que está em todos os lugares ou algo do tipo. É uma sensação estranha, porque apesar de estar alerta direto depois de toda essa loucura começar, por algum motivo não sinto que corro perigo ou estou intimidado por essa voz. Ela até mesmo me parece familiar… mas não consigo reconhecer. Como quando sabe que deixou alguma coisa pra trás, sente a falta dela mas não sabe dizer o que esqueceu.

De repente, como se estivesse sendo puxado para cima, um buraco branco se abre no céu, e inúmeras esferas brancas começam a sair do meu corpo em direção aquela luz. Não dói, mas posso sentir que é como se minha essência estivesse sendo sugada, tento lutar contra mas meu corpo não me obedece. Cada vez mais minhas forças vão sendo drenadas, até que então tudo para, e o buraco começa a se fechar, mas não sem antes lançar o que parece um “raio” branco na minha direção, acertando minha testa com uma força que nunca senti antes, e tudo escurece.

– – – – –

Meus olhos abrem devagar, meu corpo dolorido como se tivesse sido atropelado por um rolo compressor… duas vezes. Engraçado que não é como a dor de quando tive pedaços arrancados, ossos quebrados, ou até mesmo quase esquartejado como naquele inferno de treinamento… é mais como se minhas forças tivessem sido completamente esgotadas. Será que é um efeito colateral além dos meus sentidos quase explodindo meu cérebro?

Olhando ao redor, percebo que estou em casa, deitado no sofá da sala, coberto e a TV está ligada. Com algum esforço consigo me sentar direito, e só então sinto o cheiro forte de chocolate que está no ar, vindo da cozinha que está com a luz acesa. A Haruka vem lentamente de lá, soprando uma caneca de leve e vestindo um pijama. É um simples macacão preto, mas não sei se ninguém avisou ela quando foi comprar ou fazer aquilo que é bem apertado no corpo. As curvas estão beeeeem visíveis, mas tento desviar o olhar porque prefiro meus olhos no lugar e minha cabeça grudada no pescoço, obrigado.

Pelo visto meus esforços dão certo, já que ela não diz nada e senta do outro lado do sofá, também se cobrindo e olhando para a televisão. Estranho, eu jurava que ia levar um sermão ou alguma explicação sobre o tal treinamento, mas aparentemente ela está me ignorando completamente, então pelo jeito sou eu que vou ter que tomar a iniciativa aqui…

– Não, não precisa. Eu vou explicar, mas estava só me aproveitando dos utensílios na sua casa. Você até que vive bem pra uma criança órfã, não? – ela diz, sem nem piscar ou virar o rosto.

– … eu gostaria MUITO mesmo que você parasse de ler minha mente.

– Por que eu faria isso?

– Primeiro, porque isso é uma invasão de privacidade enorme. Segundo, porque é errado de tantas maneiras que nem sei por onde começar. Terceiro, porque vamos viver juntos por algum tempo pelo menos, então acho que seria bom pra nós dois se você parasse de monitorar meu cérebro.

– … é, faz algum sentido. Vou deixar disso, não é como se eu estivesse cavando na sua mente também, não fiquei rastreando pra achar nenhum segredo seu, pode ficar tranquilo. E caso eu suspeite que esteja escondendo algo importante, posso só se forçar a contar graças ao nosso pequeno trato. – novamente, sem tirar os olhos da televisão.

– O que diabos você tá assistindo que é tão interessante assim?

Ela não responde, só aponta um dedo em direção a TV enquanto toma um gole de chocolate. É engraçado como ela é (em teoria) uma “mandante” daquela dimensão de seres super-poderosos que poderiam acabar com a vida na Terra em um estalar de dedos, mas agora tá agindo como uma adolescente desinteressada de 16 anos.

– Um tal de “Gravity Falls”, parece bem bobinho no começo mas depois vai ficando bem profundo e pesado. Por que?

– … hã… – sinceramente, não tava esperando uma resposta séria pra isso.

– Eu imagino que você não esperava me ver agindo desse jeito, certo?

– Você não acabou de dizer que não ler…

– Não li, mas pela sua reação isso fica mais que claro pra qualquer pessoa com mais de dois neurônios. Deixa eu esclarecer uma coisa: não sou um tipo de chefe de máfia como você devia ter pensado, nem ameaço pessoas de prendê-las num satélite e lançar no espaço só porque poderia. O único motivo de todos eles me tratarem como algum tipo de “mestre” é porque estão desesperados pra reverter essa situação, e por algum motivo pensam que sou a única esperança deles.

– Espera, e por que seria? Ou melhor, por que eles pensam isso?

Mesmo só podendo enxergar uma parte do rosto dela, fica bem claro que esse deve ser um assunto delicado.

– … vamos só dizer que tem um motivo pra isso. Mas eu sei que não sou capaz de fazer isso sozinha, então precisávamos de ajuda pra ter alguma chance de reverter essa maldita maldição de torneio. Foi então que você simplesmente surgiu, sem mais nem menos, alguém com um potencial de poder desconhecido e que aparentemente evolui muito rápido.

– Então nada do que aconteceu foi planejado?

– Óbvio que não, eu já estava praticamente conformada que vencer seria uma tarefa impossível até alguns dias atrás. Mesmo que nesse momento você não seja alguém com poder suficiente pra fazer o que quero, tenho a impressão que chegará lá em breve.

– E de onde diabos vem toda essa confiança em mim?

– … não sei. Intuição feminina, talvez? – ela responde, mas algo me diz que está escondendo alguma coisa.

– Se você diz… espero que esteja certa.

– Ou estou certa, ou estamos mortos.

– Otimista você hein?!

– Estou mais pra realista. – ela dá de ombros.

Pelo jeito, nada do que eu fizer ou disser vai convencê-la a abrir o bico, e mais uma vez vou ser deixado no escuro com assuntos que provavelmente me afetam diretamente. Mas o que diabos tem de errado comigo que sempre fico de fora desses detalhes importantes, ou não noto algo na minha cara até ser tarde demais?! Acho que é melhor desistir por hoje, mas ainda vou conseguir arrancar tudo que ela possa me dizer… um dia.

– Tá, me explica aí o que tá acontecendo nessa série aí. – ela se vira pela primeira vez, um pouco surpresa pela pergunta.

– Hã… então tá né. Então, esses dois são irmãos que vão passar as férias na casa do tio-avô e…

– – – – –

São cinco da manhã, e a gente ainda tá assistindo séries. Não sei se é porque não costumo ter companhia, mas nem lembro a última vez que fiquei acordado até tão tarde, e dessa vez sinto que vou ter que pular o dia no colégio. A essa altura minhas pálpebras parecem que tão pesando uma tonelada cada, e tenho certeza que devo estar com a maior cara de morto sem nem precisar olhar no espelho.

Por incrível que pareça, a Haruka também não está 100%, e dá pra ver nas olheiras que se formaram e estão bem visíveis. Já tentei chamar ela algumas vezes, mas ou ela entrou em um transe e na verdade tá dormindo de olhos abertos, ou tá tão concentrada na TV que desligou completamente qualquer sensação do mundo real. De qualquer jeito, não acho que ela vá a lugar algum tão cedo. Acho que vou simplesmente é dormir aqui, já que praticamente nem aguento me levantar pelo cansaço.

– Boa noite. – eu digo, sem esperar uma resposta pra desmaiar no sofá outra vez.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 5)

Finalmente acabou… pelo menos por agora. Meio que sem pensar muito, ando de volta até a sala com toda a adrenalina de agora a pouco ainda a tona, o que acaba me deixando muito fixado ao redor pra conseguir relaxar. Sinto como se conseguisse sentir qualquer coisa se mexendo ao meu redor, e isso é muito irritante. Imagine como se estivessem te cutucando de todas as direções com agulhas sem parar, ao mesmo tempo que usam algumas caixas de som no volume máximo com estática. Depois de algum tempo dessa tortura, o efeito finalmente começa a passar e meus sentidos começam a voltar ao normal… até que alguém cai do meu lado.

– Uuuuuhhhh… – é a Karin, que caiu de cara no chão.

– Hã… o que cê tá fazendo?

– E-eu fui chamar você, já que parecia estar preocupado com alguma coisa, mas você saiu da frente na hora que coloquei a mão no seu ombro… – ela se levantou e começou a massagear o nariz.

– Do que cê tá falando? Eu nem me mexi.

– Se mexeu sim, provavelmente é o efeito colateral do que você fez dentro do Hogo dōmu . – a Tatsumi logo a frente, com os fones ainda na cabeça.

– Como assim?

– Ela tá certa, cê tá sentindo os efeitos do treino de agora a pouco. Sua dor e medo provavelmente sumiram em um nível consciente durante o processo, mas seus sentidos, a adrenalina e a tensão do corpo continuam aí. – a Haruka diz, na cadeira ao lado.

– … cês combinaram pra terem essa sincronia enquanto eu tava viajando ou o que? E o que diabos isso tudo tem a ver com a sua queimada sádica?

Ela revira os olhos, obviamente sem paciência de responder ou explicar.

– Pra um idiota como você, é mais fácil mostrar… – então ela pega uma borracha e joga na minha direção.

Engraçado que ela parecia vir especialmente devagar, então eu achei que nem valeria me dar ao trabalho de sair da frente… até meu corpo se mexer sozinho. Quando percebo, já estou de pé e alguns passos pro lado e a borracha passa ao lado rápido, acertando a parede inofensivamente e caindo no chão. Minha respiração tá acelerada, e consigo sentir a tensão nos músculos mostrando como meu corpo ficou estressado rápido.

– Mas que diabos…?

– Eu te falei, não falei? Aquilo ali não foi puramente por sadismo meu ou só pra tentar testar alguma coisa: era pra “marcar” os reflexos instintivamente no seu corpo. Você pensa demais pra agir e reagir, o que acaba inibindo seus reflexos e sua velocidade de serem usados a 100%. Ainda não tá perfeito, já que os efeitos colaterais tão aparecendo e mesmo o tempo dos seus instintos não estão nem perto do ápice, mas isso é uma amostra pequena.

Minhas mãos estão tremendo, e minha respiração ainda tá rápida… tenho que esperar uns 10 segundos até conseguir me estabilizar e conseguir falar direito de novo, e uma questão surge na minha cabeça na hora, como diabos a gente tá falando isso no meio de uma aula? Começo a olhar ao redor sem pensar muito, e vejo que na verdade o sol já está se ponto e não tem mais ninguém dento da sala.

– Deixa eu adivinhar, você tá pensando que a gente falou tudo isso em voz alta no meio de uma multidão? Não seja idiota, óbvio que esperamos todos irem.

– Mas como o tempo passou tão rápido…?

– Você ficou as últimas duas horas com uma das mãos na cabeça e com uma cara de sofrimento, e uma garota até tentou falar com você depois do horário letivo, mas cê simplesmente não respondeu.

– Eu passei todo esse tempo tentando me recompor pra tirar todo aquele barulho e sensações estranhas que tavam me bombardeando.

– Hmm… que sensações…? – a Karin pergunta.

– Era como se… é difícil de explicar, mas é como se todos meus sentidos tivessem aumentado em mil vezes, e isso tava quase me enlouquecendo. O menor barulho e menor movimento pareciam que tava tendo um festival inteiro na minha cabeça… peraí, cê não passou por isso?

– N-não…

– Nenhum dos outros passou por isso, vai ser só você. – e dessa vez foi a Haruka respondendo, de novo.

– Só eu? Mas por que?

– Normalmente, instintos de combate é uma coisa que se consegue com muita prática, basicamente apenas ensinando seu corpo a reagir sozinho aos poucos e com paciência, fazendo com que isso seja mais algo natural pra pessoa do que uma técnica implantada…

– Então você É mesmo sádica, no fim das contas.

– … mas mesmo pras pessoas mais aptas e talentosas, esse método leva anos pra ser implementado sutilmente. Nós não temos a luxúria de gastar tanto tempo e ter tanta paciência de esperar seu corpo se acostumar devagar, então basicamente cicatriza-lo em você é o jeito mais rápido. Claro, eu só escolhi isso porque sei que você tem uma mente bem resistente e provavelmente passou por várias coisas, do contrário alguém com a resolução e mente fraca acabaria enlouquecendo bem antes de chegar a qualquer lugar…

– Não sei se cê tá esperando isso, mas eu tenho algumas coisas pra diz…

– … e a dor provavelmente vai vir agora.

De repente uma dor absurda me atinge, muito pior do que qualquer coisa que eu já tenha sentido. Eu já tive o braço quebrado, a perna arrancada, e fui mutilado várias vezes nas últimas horas… mas nada chega nem mesmo perto disso, tenho que me segurar pra não gritar.

– Você não achou mesmo que toda a dor e cansaço tivessem simplesmente sumido, né? Toda aquela adrenalina e foco obviamente ajudaram a diminuir, mas não seria nem de perto suficiente pra cê conseguir continuar naquele ritmo por horas.

– … q-que… você… dizer… isso… – toma quase toda minha concentração só pra conseguir soltar algumas palavras.

– É outra habilidade da Karin…

Delayed Payment… eu posso anular qualquer dor e cansaço de alguém por 12 horas, mas o efeito de tudo vai vir acumulado assim que o efeito passar… desculpa, Tsuna. – ela diz, com o rosto obviamente cheio de arrependimento.

Eu não consigo aguentar mais, e meu corpo simplesmente desiste, caindo no chão e me fazendo apagar.

– – – –

Estou sentado numa cadeira, com uma mesa e um pote de biscoitos a frente, e tudo ao redor é escuridão até onde a visão alcança, pra qualquer direção. Já vi esse cenário mais vezes do que gostaria, e sei mais ou menos o que vai acontecer em seguida, então nem perco meu tempo pensando em como sair ou o que fazer. Simplesmente me levanto e pego um dos biscoitos, me sento de novo e como devagar antes de falar qualquer coisa.

– Cê gosta de umas entradas dramáticas, né não Shin?

Você sabe que esse lugar é decorado com o que sua mente quer, não comigo, certo?

– Acho que agora ela tá mais ocupada tentando não fritar com aquela técnica que a Karin usou, já que eu tive que vir pra cá só de desmaiar de dor.

Então você veio aqui pra matar o tempo? Aqui não me parece um lugar que se tenha muito o que fazer, acredite, afinal sou eu que vivo por aqui.

– Bom, na verdade essa é uma boa oportunidade, já queria ter um papo com você faz um tempo, então senta aí.

Não é como se eu tivesse algo melhor pra fazer mesmo, então tudo bem. – uma poltrona preta surge atrás dele, então ele senta e fixa o olhar em mim.

– Primeiro, vamos tirar isso do caminho, que é algo que cê simplesmente não respondeu. Como diabos tu usou aquela coisa da sombra da Touka? Só porque os dois são dois malucos macabros tem habilidades parecidas ou porra assim?

Na verdade, você também pode usar, só não sabia disso.

– Mas eu pensei que era alguma técnica que precisava de treinamento ou algo do tipo, não simplesmente “ah quero fazer” e tá feito, explica direito isso ai.

É complicado explicar isso em detalhes. Basicamente, todas as habilidades ou técnicas vem da mesma fonte, o Fukuõchi, certo?

– Uhum.

Então pense como se o Fukuõchi fosse uma caixa de Lego, e as habilidades e técnicas fossem uma construção. Não importa o quão complexa ela seja, se for uma casinha de 10 peças ou uma réplica de um Imperador antigo, tudo é feito de peças de Lego do mesmo jeito. Ou seja: se você entender e souber como fazê-las, é fácil replicar, diferente de produzir algo completamente do zero.

– Ah claro, super simples, como nunca pensei nisso… já sei, porque isso não é tão simples.

E por isso mesmo é uma analogia, estúpido. O processo é muito mais complicado, envolve descobrir a estrutura do que você quer copiar, a quantidade e pureza usada, entre outros fatores. Enfim: o fato é que eu consigo fazer essas análises bem rápido de maneira geral, e quando eu consigo usa-las pensando, você pode usa-las por instinto. Tudo que eu sei fazer, você vai saber também e vice-versa. A diferença é que eu tenho consciência disso e consigo acessar sua mente mais facilmente do que você consegue acessar a minha.

– Pera, pensava que você fosse só uma segunda personalidade minha ou alguma coisa do tipo, como diabos cê tem uma mente própria?

Eu não sou parte de ninguém, sou uma criatura com mente e existência própria. Não consigo lembrar direito do meu passado, mas só lembro que quando me dei por conta já estava aqui. É por isso que consigo controlar seu corpo enquanto você “vê de fora”, isso não seria uma troca de personalidade, mas sim uma troca de controle.

– … pensando bem, até que faz sentido. Então, deixando o papo da sua existência de lado, cê consegue copiar qualquer técnica? Se tu tem uma capacidade tão absurda devia ter me avisado ant…

Não é bem “qualquer técnica”, já que certos aspectos de algumas eu simplesmente não consigo entender ou decifrar como funcionam, então mesmo que tente usar ela provavelmente vai sair incompleta e com efeito bem inferiores a original. Essa “Delayed Payment“é um bom exemplo, já que até agora estou empacado com ela, e acho muito interessante como a pessoa mais atrapalhada desse novo grupo de conhecidos é a que tem a capacidade cerebral mais alta. O mundo é um lugar muito estranho as vezes…

– Ok, eu não entendi quase merda nenhuma do processo, mas saquei que não é qualquer coisa que você consegue me fazer usar direito. Próximo tópico: quem diabos é você?

… o que? – a surpresa no rosto dele era bem evidente.

– Tá surdo por acaso?

Acho que respondi isso agora a pou…

– Não me vem com essa merda de papo de “não lembro do meu passado”, quero saber quem é você. Pelo que tu falou, já tá aqui faz muito tempo… diabo, provavelmente você é aquela sensação estranha que eu tenho desde sempre, e eu só não sabia que tinha forma e era algum tipo de demônio. Desde quando você consegue ver as mesmas coisas que eu, ou ouvir o que eu ouço?

… onde você quer chegar com isso?

– Você sabe muito bem onde eu quero chegar com isso. O que caralhos aconteceu no dia do acidente do carro? Como a Haruka sumiu? Quem nos buscou?

– ele parecia tentar falar, mas som não saia da boca dele. Quando ele percebe isso, tenta colocar a mão na garganta, mas nada muda.

– Mas o que…?

Que estranho…

– Que aconteceu aí?

Não faço ideia do porque, mas não consigo falar sobre isso. As palavras simplesmente não saem da minha boca… curioso.

– Você tá tirando uma com a minha cara?!

Eu não teria porque esconder isso de você, e nem quero… mas eu não posso falar sobre isso por algum motivo. Imagino se é alguma trava psicológica sua que causa esse efeito, ou se…

– Pode parar com as teorias, Einstein, eu preciso de uma respo…?!

A escuridão começa a trincar, e algumas frestas de luz passam a aparecer pelos quebradiços.

Aparentemente nosso tempo acabou por agora… é melhor você se preparar, vai ter uma surpresa quando acordar.

– Espera aí, eu não termin…

Tudo desmorona, e uma luz cegante encobre tudo.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 4)

– Você conseguiu sobreviver até agora apenas se baseando na força bruta que conseguiu, que não é pouca, mas tá longe de ser o suficiente pra enfrentar o que vai vir pela frente.

– Hã? Do que diabos você tá fal…

E antes mesmo de terminar de falar, ela arremessa outra bola em minha direção, só que dessa vez não dá tempo de sair da frente, atingindo meu peito com tudo. Não sei o que é pior: a dor das costelas quase chegando a perfurar meus pulmões, ouvir o barulho dos meus ossos trincando, ou o gosto de sangue que imediatamente chega a minha boca. Na fração de segundo que tenho antes de ser atravessado ao meio, meus instintos gritam de dentro e fazem com que eu saia da frente apenas rápido o bastante pra minimizar as feridas.

– Sua… – e, outras vez, sou interrompido… não por um arremesso, mas pela tosse com sangue.

– T-Tsuna!

Karin é bem rápida pra vir me ajudar, apesar de eu não saber muito bem o que ela pode fazer agora… até ela colocar as mãos em cima dos ferimentos.

– Não se mova…

Uma projeção de energia verde começa a se formar ao redor das mãos dela, e em poucos instantes cobrem meu torso inteiro, fazendo a dor parar aos poucos. O brilho começa a intensificar cada vez mais, até que finalmente para e simplesmente some em várias “esferas” pequenas verdes ao redor. Quando olho de novo, não foi só a dor que sumiu, mas todos os ferimentos também. Na verdade, sinto como se estivesse melhor do que antes.

– Como você…? – me aproximo um pouco dela, o que a faz corar.

– Uhhh… e-eu… – e é nesse momento que a Haruka me puxa por trás, fazendo com que eu caia de costas no chão.

– A Karin tem os poderes de cura e regeneração mais avançados que conhecemos, mesmo que você tivesse sido furado no meio não ia ser muito problema pra ela conseguir te recuperar.

– Mas então, porque naquela visão que eu tive no outro dia ela não pode fazer nada pra ajuda a Tatsumi?

– Hã? Do que você tá falando? – ela parece legitimamente confusa, o que é engraçado pra alguém que sempre quer passar a impressão de “sabe-tudo”.

– E-eu… não consigo trazer ninguém de volta a vida… – ela explica, ainda se “recuperando” e com o rosto um pouco vermelho.

– Olha, posso não ser nenhum expert no assunto, mas tenho quase certeza que ter meus órgãos internos obliterados por uma bola de queimada teria me matado.

A Haruka dá uma risada de leve.

– Você realmente não é nem um pouco “expert” nisso, idiota.

– É mesmo? Então explique-me, ó toda-poderosa sabichona.

– Claro, vou tentar ser o mais simples possível pra seu cérebrozinho de minhoca conseguir processar. A “morte” não é exatamente o que os humanos normais entendem, ela não vem quando alguma parte do sistema corporal para de funcionar, mas sim quando o Chūritsu Essensu é completamente drenado de você. Porque você acha que, mesmo depois de ser fatalmente ferido, várias pessoas conseguem fazer um “último ato” ou “dizer palavras finais”? Simples: porque essa energia ainda não foi completamente esgotada. Os órgãos existem justamente para aliviar o gaste de energia desnecessária, para que o corpo possa se sustentar sem recorrer a sua força vital.

– Então… basicamente, a gente só morre quando acaba totalmente essa tal força vital? Então porque não desenvolver regeneração? Praticamente todo mundo que eu já vi lutar desde que essa maluquice toda começou tem algum tipo de materialização ou algo do gênero.

– Idiota. Você acha que é simples assim? Isso aqui não é pura magia, onde seu corpo se regenera por vontade própria e acabou por ali. Pra recriar algo tão complexo como o corpo humano já é uma tarefa extremamente difícil, e não só isso, você ainda precisaria ser capaz de conectar a parte recriada com sua essência.

– Ok, agora eu me perdi.

Com um tapa na própria testa, ela suspira e pensa por alguns segundos.

– Vamos simplificar, vamos dizer queira montar um carro, e você o faz por fora. Todo o design, as cores, as rodas e toda a lataria exterior. Do que adianta tudo isso se não souber montar as partes do interior, como o motor ou a bateria? Sem um, o outro é completamente inútil.

– Ah… acho que saquei. É tipo aquelas malditas tomadas de 3 pontas: não importa se o produto for bom se a tomada não encaixar.

– …

– O que foi?

– … nada, vamos continuar.

– Continuar o que? Você nem sequer me explicou o que caralhos estamos fazendo aqui, além de me fazendo ser o alvo pro seu treino de mira.

– Alguém tão lerdo não serviria nem pra isso, imbecil.

– Ora sua…

– Não foi uma piada, é exatamente isso que estou tentando fazer.

– Hã?

– Como eu disse antes: você depende demais nos seus olhos e puramente na sua capacidade física, e enquanto isso obviamente te trás vantagens, tá muito longe de ser o ideal. Você devia ser capaz de reagir puramente por instinto, como se fosse automático pra você, uma segunda natureza. Aquele segundo que você gasta pensando em desviar ao invés de contra-atacar é a diferença entre vitória e derrota, e é pra isso que vamos introduzir essa reação natural em você… na marra.

– Argh, que seja, não adianta discutir com você… – levanto-me rápido, e ofereço a mão pra ajudar a Karin a levantar também – … vou fazer o que preciso.

Pode ter sido impressão minha, mas por um segundo ela pareceu dar um sorriso quando falei isso, mas logo voltou ao normal.

– É bom ver que não vou precisar mandar você fazer isso, alivia um pouco minha consciência.

– Não preciso de você me forçando a fa…

– Então pare de achar que temos todo o tempo do mundo, e se prepare.

Dou de ombros, reconhecendo que não adianta argumentar a essa altura do campeonato, e dou alguns passos pra trás. Logo que me posiciono, ela novamente arremessa em minha direção, e mais uma vez é rápida demais pra acompanhar com os olhos. Só que dessa vez eu estava preparado: concentrando uma camada grossa de energia ao redor e alguns centímetros acima do meu corpo inteiro, só para poder ter uma noção de onde ela vai tentar acertar e ter um instante de vantagem.

E funciona… quer dizer, mais ou menos. A bola veio em direção a minha perna esquerda, e eu realmente consegui detectar antes de qualquer dano de verdade ser feito, mas a velocidade dela é simplesmente alta demais pra desviar. Quando tento mover a perna pra tira-la do caminho, acabo colocando-a numa posição ruim, fazendo com que o impacto todo seja no meu pé, que é completamente virado. A dor enorme, acompanhada do som dos ossos deslocando e sendo quebrados, é o bastante pra me fazer cair na hora, olhando fixamente pro resultado.

– M-mas que… merda… isso vai ser mais difícil que pensei… – apesar de tudo, tô segurando uma vontade enorme de gritar de dor. Será que vou me acostumar com isso até o fim?

– – –

Dez… cem… mil… sei lá quantas vezes já foram a essa altura. Depois de tantas tentativas, acho que seria mais fácil dizer quais ossos e órgãos vitais eu não arrebentei, além de mal sentir a dor de verdade agora. Claro, ter os pulmões perfurados pelas suas costelas com tanta força que elas quase saem pelas suas costas sempre vai doer, mas depois da quinquagésima vez meio que você se acostuma com a sensação. Ou talvez meu cérebro simplesmente tenha parado de alertar algo que virou mais comum do que estar sem ferimentos.

– Tsuna? – a Karin diz, enquanto está com as mãos sob meu braço.

– Hm?

– Já está melhor… pode levantar de novo… – nas primeiras vezes ela também ficava com um olhar aflito, mas agora também já se acostumou.

– Ah, valeu Karin. Fico de devendo uma… ou duas… ou três… acho que deu pra entender.

– Mas você realmente é um inútil, não é? – a Haruka, delicada como uma flor, se mete no meio novamente.

– A culpa não é minha que você é esse monstro, eu ainda mal consigo acompanhar esses seus arremessos sem noção.

– Eu imaginei que seria difícil ensinar instintos de combate pra alguém que vive em paz, mas não tanto assim. Você praticamente não fez progresso algum, e passamos aqui o máximo de tempo. Agora vamos ter que voltar só amanhã.

– Hã?

De repente, as cores do mundo voltam ao normal, e uma porrada de gente simplesmente brota ao redor. Fazia tanto tempo que eu só tava repetindo o mesmo exercício que minha mente meio que apagou que estávamos no meio das aulas, com colegas ao redor e jogando como se nada estivesse acontecendo. Até levo algum tempo pra processar direito a informação e levantar, só me ligando realmente que tinha que voltar a sala quando alguém me puxa pelas costas, me fazendo cair outra vez.

– Mas que merda de ideia foi essa? – era a Haruka, obviamente.

– Só descontando um pouco a frustração em cima de você. Ah, e obrigada por cuidar das coisas enquanto a gente estava fora, Tatsumi.

A Tatsumi estava de costas pra gente, andando na direção do corredor, então nem dava pra saber se ela ouviu ou não. A única coisa que dava pra notar eram os dedos dela brilhando um pouco por um instante, provavelmente tem alguma coisa a ver com ela ter “cuidado” da nossa ausência na aula. Me pergunto o que diabos ela fez enquanto a gente ficou fora, mas acho que essa é uma dúvida que não preciso ter lá muita pressa em tirar.

– Vamos voltar, Karin, Tsuna. Amanhã vamos ter que continuar com isso.

Então um frio na espinha chega em mim, pensando que vou passar praticamente pela mesma coisa todos os dias. No que diabos eu fui me meter?

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 3)

Ótimo, eu ouço um sermão sobre como não posso aparecer demais em público, e no dia seguinte a pessoa que me encheu o saco tá atraindo o olhar de pelo menos 20 adolescentes numa sala de escola. Acho que não tem como ficar melhor, agora só falta algum demônio infernal entrar pela janela cuspindo fogo pra completar o circo.

Pelo menos acho que ela percebeu o estardalhaço que fez, então sai da sala, mas não sem antes me dar um olhar de ódio. Como sou meio culpado, levanto e corro atrás dela até um corredor completamente vazio, acho que isso é o que eles chamam de “movimento suicida”.

– Então… “Eaí, terminou seu episódio histérico já?”

– Haha, muito engraçado, seu babaca.

– Posso saber a troco de que foi aquele soco?

– Posso saber a troco de que você simplesmente me largou lá? A partir de agora eu também tenho que vir aqui, esqueceu?

– … hã?

Ela coloca a mão sobre o rosto, com uma cara de desacreditada.

– Eu vou ter que morarestudar com você, foi a decisão naquela hora, ou seu cérebro de ervilha já esqueceu disso?

Então as palavras da Tatsumi surgem na minha cabeça.

“Então eu sugiro que você, Kanata, more junto com ele e acompanhe-o aqui no colégio também.”

– Ah, agora que você falou… isso explica agora a pouco.

Ela coloca a mão sobre o rosto, desacreditada. Dessa vez eu nem tenho o que dizer, a culpa foi totalmente minha.

– Foi mal, eu esqueci total disso. Daqui pra frente eu te levanto, ou seja lá o que tu quer que eu faça.

– É melhor que faça, afinal eu só estou aqui porque tenho que te cobrir, e não estou acostumada com a rotina ainda.

– Tá, isso tira uma das minhas perguntas do caminho.

– “Uma das”? O que mais você esqueceu?

– Não acho que fui eu que esqueci de alguma coisa, afinal… por que exatamente você tá vestida desse jeito?

– Desse jeito como? Eu peguei o tal uniforme pra que pudesse me “misturar” no ambiente escolar…

– Bom, acho que dá pra dizer que você conseguiu falhar 100% no seu ponto, parabéns.

– Hã? – disse ela, confusa.

– Não sei se você reparou, mas além de ter arremessado um aluno com um soco através de uma sala de aula e chamar a atenção de todo mundo que tava por lá…

– Foi você que me fez fazer isso!

– … ainda apareceu usando uma roupa escolar não-obrigatória, que mais mostra do que esconde. Na real, como exatamente você pensou que ia ser uma boa ideia usar isso assim?

– Assim co… – ela parou e olhou pra baixo, finalmente entendendo o que eu quis dizer e corando.

Provavelmente tem alguma coisa a ver com o fato do diretor do colégio ser um velho otaku tarado, mas o uniforme das garotas já é bem… “chamativo” normalmente, e por isso é opcional. Sendo totalmente branco (na verdade, chega até a ficar transparente em dias mais quentes, quando elas suam), com uma saia verde que praticamente não cobre nada.

E pra piorar, não sei onde ela arranjou isso (provavelmente da Karin), mas o uniforme que já é curto parece ainda menor. É quase como se tivesse diminuído na secadora, então ela praticamente está vestindo uma camiseta super colada e praticamente transparente, que dá ainda mais ênfase no corpo dela. Mesmo não tendo a intenção, me pego encarando-a, acho que meu rosto corou um pouco.

– O próximo horário é educação física, então acho que se você se trocar, dá pra gente arranjar alguma coisa com a Karin ou a Tatsu…

Ela olha pra mim, parecendo que a vergonha passou.

– Não precisa, isso foi um descuido meu. – então ela estala os dedos, e uma luz envolve rapidamente as roupas dela, fazendo-as mudarem para um tamanho maior.

– … eu já nem me surpreendo mais. Tem alguma coisa que cê não consegue fazer?

– Tem… – o olhar dela é sombrio enquanto diz isso – … muitas.

Ela se vira, e começa a andar em direção a sala outra vez. Acabo esquecendo que, apesar de não parecer, ela praticamente deve ter passado por muito mais coisa do que eu pra chegar onde está. Independente de ser ou não a mesma pessoa, respeito o fato dela conseguir se manter sã no meio de tanta maluquice.

O sinal toca, o que me faz voltar também, já me preparando pra encheção de saco que vai ser. Não é todo dia que alguém é arremessado até o outro lado de uma sala com um soco, ainda mais quando quem bateu foi uma garota. Pra quem não queria ser o centro das atenções, ultimamente tudo que eu faço é trazer os olhares pra mim, mesmo quando a culpa não é minha.

Abro a porta esperando o pior cenário possível, mas surpreendentemente ninguém nem se incomoda em olhar na minha direção. Vou um pouco confuso até minha carteira, e olho pro lado, encontrando a Haruka ali. Estava olhando pela janela, parecia estar sonhando acordada, o que é meio “fora de personagem” pra ela. Provavelmente ela tem alguma coisa a ver com o “esquecimento” dos outros… essa criatura simplesmente não para se surgir com truques novos.

Logo em seguida, um professor entra na sala e manda todos se sentarem. Leva algum tempo pra todos acalmarem os ânimos depois do intervalo, mas nada fora do normal. Olhando ao redor, reparo nos rostos conhecidos que estão aqui, e penso em quão bizarra é a situação. Mais a frente estão os dois esquisitos que apareceram antes, acho que nem cheguei a perguntar os nomes deles.

Do outro lado, a Karin e a Tatsumi estão sentada uma atrás da outra, como sempre. As duas são mais grudadas do que chiclete no cabelo, mas acho que isso deve ter algum motivo, afinal parece que elas se conhecem já faz muito tempo. Mesmo tentando “se misturar”, é bem fácil notar nós seis, já que diferente do resto da sala ninguém fala nada durante a aula. Duvido muito que seja por “disciplina”, provavelmente a mente de todo mundo tá divagando em coisas mais importantes do que saber qual a temperatura que um copo de chá italiano evapora no topo do Himalaia se estiver embalada a vácuo.

Outra vez minha mente começa a divagar, meio que o tempo passa sem eu perceber, ao ponto de ignorar meus arredores quase que completamente. As conversas paralelas na sala ao fundo são praticamente como estática de televisão, sem importância e desinteressantes. O fim da aula chega com o barulho do sinal, que indicava a hora da educação física.

Os garotos levantam e saem e vão se trocar em outra sala, enquanto as garotas ficam por lá mesmo. Pego minhas coisas e sou o último ainda na sala, mas quando vou sair alguém agarra meu braço. Viro minha cabeça e enxergo a mesma garota que dormiu enquanto falava comigo no intervalo… acho que era Kimiko.

– E-ei… – ela tinha uma expressão séria, o que era um pouco estranho.

– Hm? Que foi?

– Eu… – a tensão na voz dela aumentava cada vez mais.

– … você?

– … queria saber se você…

A essa altura, todos os olhares ao redor já estavam totalmente em nós. Essa criatura é mestra em criar situações estranhas, e agora ainda consegue deixar a gente no centro das atenções…  Bom, eu espero que seja algo importante, pelo jeito que ela tá falando.

– … gostou da comida!

Acho que a perguntar levou um segundo pra ser digerida por todo mundo, porque depois do silêncio, veio um som de duas ou três gargalhadas.  Inconscientemente, minha mão foi direto de encontro com a testa, e acho que nunca quis tanto dar uma voadora em alguém tão rápido assim. Vários comentários ao fundo vinham das garotas, mas nenhuma delas se aproximou… será que ela não tem nenhuma amiga?

– “Você gostou da minha comida?”. Depois de todo o teatrinho que ela fez, é isso que sai?! – uma das garotas disse, enquanto ria.

– O carinha do olhar macabro e a Kimimbecil, belo casal! – outra também disse, gargalhando.

As únicas que não estavam fazendo comentários maldosos, apesar de também rirem, eram a Haruka e a Karin. A Tatsumi continuava com a cara de paisagem de sempre, mas provavelmente ela nem ouviu o que aconteceu por causa dos fones. Apesar de estar acostumado, isso não quer dizer que essas babaquices não me irritem.

– … sim, estava ótimo. – eu respondo, mas olhando em direção as que estavam rindo.

– Sério?! – ela disse, apesar de não ver seu rosto, dava pra sentir a felicidade no seu tom.

– Sério, de verdade. Provavelmente é porque você dedica mais tempo a isso do que a… sei lá, encher a cara de pó e rabisco, pra parecer um palhaço e pensar que melhorou, quando na verdade tá camuflando bosta com perfume.

Agora sim, olhando pra ela, pude ver a confusão no rosto dela, mas ainda assim um sorriso tava estampado no seu rosto. Em compensação, acho que algumas das minas não curtiram muito a resposta, porque mais xingamentos continuaram no fundo. Eram apenas as mesmas imbecis que riram antes, mas isso tava deixando o clima tenso.

– Do que você tá falando, maluco do olhar de cadáver?! – uma delas estava ficando vermelha de raiva, com um molho de chaves bem grande na mão.

– Estou falando de uma ou duas vagabundas…

– V-vagabundas?! Ora, seu…!

Ela arremessa com as chaves na nossa direção, o que iria acabar pegando na Kimiko. Essa mina deve fazer algum esporte, porque o jeito que ela arremessou parecia algum tipo de estilo especial, mas… acho que ela nunca esperou ter que jogar alguma coisa contra alguém que veria um tiro como se tivesse parado.

Entrando no meio do caminho entre as chaves e a Kimiko, pego-as na mão, o que causa uma reação impagável de surpresa no rosto da garota que arremessou. Mas rapidamente viro as costas pra ela, com a chave na mão e a mostra.

– M-me devolva  minhas…

– … que acha que está no topo do mundo…

Pode ser um pouco descuidado, e até mesmo me custar um sermão ou dois, mas vale a pena quando é pra irritar alguém como ela. Coloco só um pouco de força na mão, esmagando todas as chaves, fazendo um barulho bem alto de metal arrebentando.

– … até darem de cara com o chão.

Não vi a reação de ninguém, e também não esperei. Largo a chave e começo a andar pra fora da sala, parando só um segundo ao lado da Kimiko, que estava parada ali olhando pra mim.

– Isso foi um agradecimento pelo almoço, valeu. – falei bem baixo, sem que ninguém mais pudesse ouvir.

Quando saio e começo a caminhar, vejo alguém escondido atrás de uma das esquinas, mas não deu pra ver o rosto inteiro. Não sei quem era, mas acho que dá pra ignorar, afinal não é como se eu tivesse feito algo em segredo agora. Mesmo que falem de mim pelas costas, ou mesmo que resolvam tentar mexer comigo, eu fiz isso durante anos sem baixar a cabeça. Não são uma ou duas patricinhas que vão fazer eu colocar o rabo entre as pernas.

Quando finalmente chego na outra sala, todo mundo ainda está lá, mas vários estão só conversando. Passo sem nenhum problema no meio das pessoas, mas por algum motivo sinto que tem alguém me observando. Olho ao redor, mas não consigo sentir nenhuma energia fora do normal… será que é aquela pessoa que eu vi antes quando tava vindo pra cá?

Como já estou quase sem tempo, resolvo deixar pra lá e simplesmente continuar meu dia normalmente. Termino de me trocar e saio junto com o resto da multidão, chegando numa quadra de basquete interna. Do outro lado da quadra estavam as garotas, e eu pude sentir os olhares fixados em mim.

Várias estavam comentando algo enquanto me olhavam de relance, outras apontavam, e as duas que discutiram antes me davam um olhar de ódio. De repente, todo o barulho cessa… e praticamente todo mundo some, com exceção de mim, a Haruka e a Karin. O chão, as paredes, o teto, o céu pela janela… tudo tá completamente cinza.

– … Hogo Dōmu?

– Parece que você tá ficando menos burro, é isso mesmo. – a Haruka comenta, agora olhando diretamente pra mim

– E… por que exatamente você resolveu fazer isso agora? Aliás, como vai ficar com a gente simplesmente sumindo no meio de uma aula?

– Porque você precisa treinar de verdade, não ficar em um joguinho de basquete escolar. E não se preocupe, a Tatsumi cuidou do nosso “sumiço” pra gente.

– O que cê quer dizer com isso? E por que a Karin também tá aqui?

– Porque ela é a única…

– Única o qu…

Um borrão vermelho passa zunindo pelo meu ouvido, fazendo um corte leve no rosto. Olhando pra trás, dava pra ver que… não tinha nada. Um buraco que não dava pra ver o fundo, e ia até além do alcance dos olhos. Essa criatura acabou de abrir um buraco do tamanho do Japão aqui com uma bola de plástico sem acertar o chão?

– … que vai poder juntar teus pedaços pra gente continuar.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 2)

Mesmo que a sensação tenha sido de que dormi poucos minutos, acordo completamente revigorado, o que é bem esquisito. Fazia muito tempo que não tirava uma noite de sono tão boa, e tenho certeza que tem a ver com a minha discussão com o Shin. Sei que não é como se fôssemos completamente amigos, no mínimo agora não tem aquela inimizade de sempre. No fim das contas, não tem muito o que separar, somos só dois lados da mesma moeda.

Checo a hora no relógio do lado da cama, são 6:55 da manhã. Merda, não vai dar tempo de chegar no horário do colégio, mas não é exatamente a maior das minhas preocupações agora. Levanto devagar,  no mesmo ritmo de sempre, e me troco. Nunca coloco muito a cabeça no que vou vestir, então é o estilo de roupa mais genérico que eu tenho: uma camiseta preta, uma calça moletom também preta, e um tênis branco.  Olhando pela janela, parece que vai chover, então também pego um casaco marrom que tenho.

Desço e vou até a cozinha pegar umas torradas pra comer, puras mesmo. Não é porque estou com pressa, mas porque prefiro elas assim mesmo, não faço ideia do porque. Levo uns 10 minutos, mas termino tudo na mesa antes de levantar pra pegar a mochila e cair fora. Eu sei que tô atrasado, mas também não vou sair com uma maldita torrada na boca, a mochila em um braço só e correndo como um idiota.

Pego minhas chaves, abro a porta e começo a andar. Eu podia talvez abrir um Hogo Dōmu pra poder andar sem ser percebido pelas pessoas normais, mas é arriscado demais ser detectado pelos outros por uma coisa tão idiota, então decido andar no meu ritmo normal. Pego o celular e estou prestes a colocar os fones, quando vejo uma pessoa conhecida conhecida do outro lado da rua. É a Karin, com a mochila em um braço, esticando a manga do outro… correndo com a maldita torrada na boca.

– Não sei porque ainda me surpreendo… – minha mão, inconscientemente, pressiona a parte do nariz entre os olhos.

Ela olha pro lado e acaba me vendo também, tentando acenar enquanto está com o rosto virado. Não é a coisa mais esperta do mundo a se fazer, e acho que ela também percebe isso quando dá de cara com um poste e cai de costas no chão. Atravesso a rua e ajudo-a a levantar, não que por ela estar machucada, é bem mais fácil o poste arrebentar no impacto com essa cabeça dura, mas porque meio que senti o impulso de fazer isso.

– … vai ter alguma vez que eu vou te encontrar em uma situação normal? – solto a mão dela quando termino a pergunta.

– Uhhh… desculpa, é que eu acabo perdendo a atenção fácil…

– Não sei exatamente como alguém que vai precisar lutar num torneio sobrenatural em três meses pode ser tão sem-noção ao seu arredor, mas acho que existe a exceção pra todo caso mesmo. – nós dois voltamos a andar.

– E-eu não…

– Relaxa, foi só uma piada. Olha, se não se importa, eu preferia ouvir minhas músicas enquanto você termina suas coisas no caminho até lá. Já estamos atrasados mesmo, não tem porque ter pressa agora.

– E-espera! Agora que eu parei pra perceber, onde est…

Não dando tempo dela terminar, coloco os fones no volume mais alto possível e continuo caminhando, com ela vindo atrás. Provavelmente isso foi meio que uma atitude babaca, mas eu realmente precisava de um tempo só pra mim. Fazem poucos dias, mas a verdade é que meu mundo inteiro virou de ponta-cabeça nesse período, e eu não tive a chance de só aproveitar um pouco. É diferente de ontem, quando precisei colocar os pensamentos em ordem, na verdade é mais como se fosse só um momento de paz.

Acho que depois de um ou dois minutos ela desistiu de me chamar, então continuamos em silêncio e caminhando. Chegando lá, o professor nos dá um olhar meio irritado, mas só diz pra nos sentarmos logos. Vamos as nossas mesas, que ficam na parte do fundo da sala, e eu resolvo finalmente quebrar o gelo.

– Foi mal, isso foi meio idiota da minha parte, mas eu precisava de algum tempo de paz, sério. – comento bem baixo, pra que só ela pudesse ouvir.

– E-eu não me incomodo… – só então eu noto o colar no pescoço dela, é totalmente branco e tem um formato retangular, com uma “abertura” do lado.

– Ei, que colar é esse aí?

– Hã?

– Esse no seu pescoço, eu nunca tinha reparado antes. Você tem ele faz muito tempo?

– …eu nunca tiro, por nada. – a voz tímida e baixa dela muda completamente por um segundo, ficando mais confiante e audível, mas ela esconde o rosto entre as mãos logo em seguida.

– … é alguma coisa que eu não devia perguntar? Sabe, não precisa dizer se não quiser, não é como se eu fosse arrancar a resposta de você.

– N-não é isso, é que… – ela tentou continuar, mas estava obviamente desconfortável com o assunto.

– Olha, eu não tive tempo antes, mas agora eu meio que… queria agradecer. – mudo o rumo da conversa na mesma hora.

– Hã? – ela se mostrou confusa.

– Bom, não é nada de grandioso, é só que… você foi quem fez tudo isso começar. Pode até ser que eu tenha me metido em alguma coisa que vai além da minha compreensão, e quase me mataram três vezes nas últimas 24 horas, mas isso é melhor do que continuar no escuro sobre… tudo.

– E-eu não fiz nad…

– Talvez, mas foi a partir de você que eu consegui me conectar a esse novo mundo. Eu devo ter parecido bem imbecil, tentando proteger você de alguns babacas naquela hora, sendo que na verdade eles é que podiam acabar no hospital…

– … eu…

– Mas é graças a isso que agora minhas dúvidas podem ser respondidas, e então eu queria te pedir um favor… de verdade.Sabe aquela história que eu contei, sobre o meu passado e tudo mais?

– S-sei, o que tem…?

– Eu queria que você escondesse isso da Ha… – espera, ela não sabe da minha suspeita, é melhor esconder isso por enquanto – … Kanata.

– Por que? – ela parecia realmente confusa.

– Porque… foi mal, não posso dizer, mas é importante pra mim. Sério, seria uma ajuda gigantesca se você pudesse manter esse segredo.

– … tudo bem, eu posso fazer isso. M-mas…

Ela ia dizer alguma coisa, mas o sinal interrompe não só a conversa, como a aula. O professor sai, e as várias conversas começam no pequeno intervalo de aulas. A conversa meio que morre ali, então deixamos o assunto de lado e só esperamos o dia passar. A Tatsumi ficava logo na nossa frente, mas não olhou pra trás uma única vez.

O dia passa bem rápido, provavelmente porque meio que não sentia como se tivesse realmente voltado a essa “vida normal”. Minha mente estava mais no automático do que prestando atenção em qualquer outra coisa, e quando percebi já era o fim do 3º período, hora do intervalo. A maior parte das pessoas sai e vai comer alguma coisa na cantina, mas eu esqueci de trazer comida e não tenho dinheiro.

Viro pro lado pra ver se podia pedir emprestado da Karin, mas ela não estava lá, nem a Tatsumi. Provavelmente foram comer em algum outro lugar, ou até precisavam falar de alguma coisa que não podia ser em um lugar tão aberto quanto a sala. Desisto da ideia de arranjar alguma coisa, então deito com a cabeça entre os braços tentando dormir.

– Hmm… T-Tsuna-kun? – alguém me chama, pelo parecia estar logo do lado da minha mesa.

A voz parecia familiar… não, na verdade eu já sabia quem era antes mesmo de levantar. Merda, isso vai ser um pé no saco, como vou conseguir fazer essa mina ficar quieta sobre o que aconteceu no outro dia…

– Hã? – viro só uma parte da cabeça, olhando-a no rosto

– V-você…

Lá vem.

– … não tem o que comer?

– … que?

Preciso ser sincero, a minha reação foi espontânea, não esperava que isso é o que ela queria perguntar. Achei que ia ser alguma pergunta sobre como eu sobrevivi a ser esfaqueado na cabeça, ou alguma chantagem pra manter o bico fechado… então fui pego de surpresa.

– Se estiver… quer comer comigo? – ela vira o rosto, corada.

Bom, acho que nada de mau pode vir disso… eu acho. Levanto a cabeça, mas não olho diretamente pra ela.

– Se não for incômodo… claro.

Com o canto do olho, posso ver que ela dá um sorriso antes de sair e ir pegar uma caixa debaixo da mesa dela. Era bem grande, branca e com alguns desenhos  ao redor, com um cheiro bom. Na verdade ela provavelmente fez isso com a intenção de dividir comigo, ou pelo menos com alguém, porque era obviamente grande demais pra alguém do tamanho dela comer sozinha.

Agora que posso observar melhor, ela fica mais bonita do que  a primeira vista. Mesmo sem ter nenhum chamativo especial, era o tipo de garota que os caras viram pra olhar quando passa, mas não ficam comentando o tempo inteiro. Por baixo da blusa, dava pra notar que ela também tinha um corpo um pouco mais desenvolvido que a maioria, mas nada absurdamente extravagante.

– Então, vamos comer! – sou trazido de volta a realidade com ela falando, com a caixa na mesa. Ela abre, e dentro parece que é um lanche bem comum. Alguns onigiris, vegetais, omeletes e…

– Hã… um hambúrguer? – acabei perguntando sem pensar.

– Você não come? – ela, já começando a comer, parece confusa com a pergunta, como se fosse normal.

– Nada, esquece, obrigado pela comida.

Eu pego um pouco pra comer, e apesar da aparência comum (com exceção do hambúrguer…), é extremamente bem-feito. Na verdade, acho que é melhor que qualquer coisa que eu já comi em colégios até hoje. Ela parece estar feliz enquanto come, então eu resolvo ficar quieto e continuar também. Não leva dez minutos e já esvaziamos tudo, ela principalmente com um rosto totalmente satisfeito.

– Valeu. você realmente me salvou nessa.

De repente toda a tranquilidade no rosto dela sumiu, e ela corou de novo, mas dessa vez me encarou e respondeu.

– Que nada! Incrível mesmo foi você saindo ileso de ser esfaq… – avanço rápido o bastante pra tapar sua boca, a idiota estava falando alto demais. Isso atrai alguns olhares, mas rapidamente todos voltam aos seus próprios assuntos

– Eu já disse que você não devia falar sobre isso.

– D-desculpe! – suas mãos então se colocam na frente da boca.

Eu suspiro, isso vai ser realmente problemático.

– Acho que vou ter que esclarecer uma coisa aqui, Kimiko. Eu não fiz aquilo por nenhum motivo especial. Você precisava de ajuda, um imbecil estava tentando fazer o que não devia, e eu intervim. Não preciso que você fique toda agradecida, me persiga ou mesmo que me faça aparecer mais do que já faço. Na verdade, isso só acabaria atrapalhando ainda mais as coisas pro meu lado.

Ela ouvia quieta, sem reagir, um pouco cabisbaixa.

– Tem algumas coisas que as pessoas não precisam saber, e na verdade, eu nem deveria ter feito aquilo. Você devia esquecer o que aconteceu e simplesmente seguir com a sua vida, sem ofensas.

Mais uma vez, ela não esboçou nenhuma reação, o que me deixou um pouco preocupado. Será que fui duro demais?

– Ei, ei, você tá be…

A maldita estava dormindo, com a cabeça quase encostando na mesa. Isso já é um pouco demais até pra mim, pra segurar minha própria vontade de acertar essa mina, levanto e caminho até a porta da sala. Mas quando vou abrir, alguém faz isso antes e algo acerta meu rosto com tanta força que vou parar na parede do outro lado da sala. Quando finalmente olho pra cima, vejo todos com o olhar fixado na figura que chegou de maneira tão extravagante.

Era uma pessoa que eu conhecia, e que aparentemente estava irritada, eu sei até o porque. Acho que ela ficou muito puta da vida por eu ter esquecido dela, e agora veio aqui tirar satisfações, vestida com o uniforme do colégio, sendo que não é obrigatório vesti-lo. Quem estava de pé ali, com um olhar irritado e chamando atenção de meio mundo, era a sem-noção da Haruka.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 1)

Levam alguns minutos pra que uma viatura chegue no beco, e obviamente eu não ia largar a garota ali sozinha com o maníaco nocauteado. Em cima de um dos prédios, do outro lado da rua, minha consciência finalmente descansa quando vejo-a entrar no carro junto com eles, e o cara algemado e sendo arrastado pra dentro do carro sem acordar. Não sei exatamente que tipo de história ela inventou pra não me colocar no meio de tudo aquilo, mas deve ter sido bem convincente, já que não demorou muito para que eles fossem embora.

A chuva continua piorando, e agora faço meu caminho de volta, com a os pensamentos bem mais claros. Não preciso ficar pensando no que pode acontecer se fizer isso ou aquilo, já senti uma vez o que acontece quando você não pode fazer nada pra mudar a situação ou ajudar quem quer, e não pretendo sentir isso de novo. Com a roupa completamente encharcada, entro em casa e me deparo com uma visão bem… inesperada.

– E aí, terminou seu episódio histérico já?

Ela estava sentada no sofá, assistindo a televisão (algum filme de terror, dava pra ouvir os gritos), com uma camisola branca e um cobertor completamente branco também. Uma bacia de pipoca na cabeceira do sofá, um copo de refrigerante na mesa de vidro da frente, e nem sequer olhava pra mim enquanto falava. Olha, eu nunca imaginaria que alguém equivalente a um milhão de ogivas nucleares estaria desse jeito na minha frente, parece mesmo até que é uma pessoa normal.

– Do que cê tá falando?

– Tô falando de você sair daqui irritadinho, topar com um ladrão e praticamente expor o que não devia ser exposto pra civis comuns. Em menos de uma hora, você quase destruiu o que os nossos antepassados protegeram desde sempre.

– … como?!

– Não tem muito pra onde fugir, capacidade sensorial é uma das minhas especialidades. Se eu quiser, posso saber onde você está e o que está fazendo o dia inteiro. Claro, não pretendo te vigiar toda hora, mas sair sozinho assim foi estúpido, principalmente depois do que aconteceu.

– Tá bom, e você queria que eu fizesse o que? Largasse a garota lá pro maluco fazer o que viesse na telha?!

– Não, você pode fazer o que quiser, mas lembre-se que caso nossa existência seja revelada, coisas muito piores que esse simples caso isolado podem acontecer.

– Mas eu não expus nada!

– Talvez agora, mas nunca se sabe. Estamos na era da internet, quem garante que você não vai ser pego por uma câmera fazendo alguma idiotice dessas? – ela coloca mais um punhado de pipoca na boca, e continua sem olhar diretamente pra mim.

– Então eu só tenho que tomar cuidado, diabos, as chances de eu ser pego são…

– Mínimas, eu sei. Não estou dizendo pra você parar, mas sim para ter mais cuidado, acha mesmo que eu gosto de ficar vendo essas cosas no mundo que luto pra proteger?

Ela tem um ponto.

– Não me entenda mal, eu sei como está se sentindo, já aconteceu muito comigo também. Por isso mesmo acho que posso te ajudar, francamente, me vejo um pouco em você.

– Espera, o que?

– Esquece, não é nada. Enfim, bem-vindo de volta, esquentadinho.

É esquisito pensar nela como a Haruka, as duas tem personalidades muito diferentes.

– Bom, estou subindo então, Haruka.

– Espera aí, o que você disse?

– Hm?

– Do que você me chamou?

– Hã… de Haruka?

– Você… deixa pra lá.

Não entendi nada, mas tá pra nascer alguém mais misteriosa que essa criatura. Finalmente subo, entro no banheiro e coloco as roupas molhadas em um cesto, paro para olhar o lugar onde o canivete me acertou e vejo que não tem nenhuma marca. Eu já devia estar acostumado com isso, mas ainda é estranho ser apunhalado na cabeça sem nenhuma consequência. Me pergunto o quanto eu ainda posso dizer que sou um humano, é bem capaz de não ser tão errado assim me chamar de monstro.

– Mas eu já decidi o que quero fazer, agora não adianta mais olhar pra trás…

Tomo um banho rápido, coloca uma roupa e deito na cama, olhando pra cima com a luz ainda acesa. Um dos maiores motivos de eu estar seguindo esse caminho é pra ter absoluta certeza que ela não é a mesma Haruka, e cada vez mais isso se confirma, mas… algo ainda me diz que isso não é verdade. Não sei se é porque eu quero que seja mentira, ou se tem algum detalhe me escapando, mas não consigo simplesmente engolir que são pessoas diferentes.

Além disso, vou ter que lidar com o fato de que não sou mais uma pessoa normal pelo resto da vida. Mesmo que tudo dê certo, o que já beira o impossível, não vou voltar e “ter uma vida normal” como queria. A maior prova disso vai ser amanhã no colégio, quando eu reencontrar aquela garota… Kimiko? Provavelmente vai acontecer alguma coisa, do tipo várias perguntas pra cima de mim, no pior dos casos até mesmo uma chantagem “para que ela não conte pra todo mundo”. Quanto mais penso nisso, mais minha cabeça dói, então em algum momento acabo desistindo e caio no sono.

– – –

Cercado por escuridão, sentado em uma cadeira branca, de frente com uma mesa cinzenta. A escuridão ao meu redor simplesmente “parava” no meio da mesa, onde começava então um vasto branco, e do outro lado estava outra figura sentada em uma cadeira preta. É esquisito olhar pra ele porque é como se estivesse olhando pra um espelho, só que com cores diferentes. Esse desgraçado resolveu aparecer agora… Shin.

– Finalmente resolveu dar as caras?

Minha estamina não é ilimitada, sabia?

– Sabe o que mais não é ilimitado?

Hm?

– Minha paciência. Agora abre o bico logo.

… você sabe que somos a mesma existência, certo? Não é como se eu realmente pudesse esconder alguma coisa de você.

– Bom, então começa me explicando como caralhos você usou aquela técnica da Touka?

A técnica das sombras?

– Não, a técnica do malabarismo de baiacus. Claro que é!

Eu fico é surpreso de você não entender como usamos aquela técnica, ela é simplesmente uma manipulação de Saikuru, com um pouco de manipulação elemental. Copiar habilidades desse nível não é nada demais para nós, principalmente quando nosso corpo é tão flexível em relação a energia.

– … espera, então eu também posso usar isso? E posso copiar técnicas dos outros?!

Sim e não.

– Explica isso direito!

Sim, técnicas mais simples como a manipulação de sombras nós somos capazes de controlar tranquilamente. Mas não, você não é uma caixa que aprende habilidades e as usa a 120%, tudo depende da complexidade e peculiaridade da técnica.

– Então, coisas que dependem de alguma característica física…

… ou uma assinatura energética específica, nós não podemos utilizar com 100% de eficiência. É possível fazer uma cópia barata de todas elas, mas não chegará aos pés da original, e pode até mesmo ser arriscado fazê-lo. Por isso não comentei sobre nada antes, porque você é impulsivo demais.

– Mas seu desgraç… – vários dos momentos em que agi por impulso surgem na minha cabeça – …é, faz sentido.

– Exatamente. Então, o que mais quer saber? Lembrando que também não sei tudo, é possível que eu não consiga te responder.

– Onde… ou melhor, que lugar é esse?

– … você realmente não se lembra, não é?

– Não faço a menor ideia, pra mim parece que algum arquiteto enlouqueceu de vez e vomitou uma sala no estilo Yin-Yang.

– É melhor que eu não te conte, ao menor por enquanto.

– Espera aí, eu pensei que você não podia esconder as coisa de mim, onde foi toda aquela disposição de agora a pouco?

– Ficou junto com a sua facada na cabeça, uns quarenta minutos atrás. Você sabe que as suas decisões me afetam também, certo?

– E você vai usar isso como desculpa pra manter o bico fechado?

– Preciso usar o que posso, mas se você quiser, sinta-se livre pra tentar arrancar a informação de mim.

Uma energia enorme se expande a partir dele, agressiva e medonha como de costume. Mas esse cara não costuma esconder o jogo, pelo menos não até então, provavelmente tem algum bom motivo pra tudo isso. Me pergunto o que pode ser tão tenso ao ponto dele não querer nem mesmo que eu saiba do que se trata, mas… vou confiar nele. No fim das contas, nós dois somos um só.

– Tá bom, tá certo. Não precisa de tudo isso, não é como se eu estivesse desesperado pra saber o que você tá escondendo. – coloco a mão sobre a testa, e dou um suspiro.

– Bom, parece que o nosso tempo está acabando aqui.

– Espera, o que…?!

Todo o lugar começa a desaparecer aos poucos, não como se fosse um “vácuo”, mas como se literalmente estivesse deixando de existir. Desde as cadeiras, a mesa, o fundo… até mesmo os nossos corpos começam a “dissolver”.

– Se acalme, não é nada demais, apenas indica que você está prestes a acordar. No final de tudo, isso aqui não é nada mais do que uma espécie de “sonho”, só que eu resolvi intervir pra que pudéssemos ter essa conversa.

– Mas eu achava que o tempo mental era muito mais lento do que o exterior, não fazem nem 15 minutos que estamos aqui, como eu posso já estar acordando?

Aquela maga… feiticeira… enfim, seja lá o que for, a tal de Dõm é alguém que não se deve brincar. Ela usou um tipo de técnica de confinamento, que fez com que o tempo passasse na sua mente como um simples sonho, mas para “me invocar” é preciso energia e esforço.  O fato dela conseguir fazer esse tipo de manobra espaço-temporal demonstra que, mesmo sendo uma aliada, não podemos baixar nossa guarda ao redor dela. É melhor que você tome cuidado.

– A criatura que ia fazer o Japão ter mais medo de mim do que do Godzilla está me dizendo pra tomar cuidado, caramba, eu devo estar realmente fodido pra ter que ouvir isso.

– Bom ponto. Enfim, não temos mais tempo, boa sorte. Você… nós vamos precisar.

– Ei, não tente bancar o durão, eu sei que você passou exatamente o mesmo que eu. Mesmo que tente ficar parecendo um monstro pra todo mundo, não tem como nós nos darmos tão mal assim… afinal, até onde eu sei, você nunca apareceu em um momento que fosse fazer mal as pessoas que eu me importo.

– Do que você está falan…

– Ah, qual é, achou mesmo que eu não ia perceber? A primeira vez que você surgiu de verdade foi quando aqueles imbecis estavam me usando de saco de pancadas, e a Tatsumi estava por perto. A segunda vez foi pra evitar que me atropelassem, apesar de você ter exagerado um pouco…

Exagerado? Oras, esganar um pouco alguém é exager…

– … a terceira vez foi quando estava em apuros e precisei de ajuda pra comprar tempo contra aqueles dois malucos, não faz nem um dia.

Agora toda a parte abaixo dos quadris já sumiu, é uma visão esquisita, mas pouco importa. Acho que finalmente comecei a entender o que esse cara realmente esteve fazendo esse tempo todo, e não posso simplesmente ignorar isso.

– Provavelmente naqueles momentos “sobre-humanos” que eu já tive foram coisa sua também, não é?

Um leve sorriso brotou em seu rosto, apesar dele tentar esconder.

– Foi graças a isso que, por várias vezes, eu pude ajudar as pessoas que amei. Claro, no final das contas não conseguimos proteger ela…

Dessa vez seu sorriso sumiu, e ele mudou o ângulo de seu rosto pra uma posição que os cabelos ficavam sobre a expressão facial. Não dava pra ver o que ele estava sentindo, mas eu sabia mesmo sem precisar olhar.

– Eu realmente fico mal sabendo que fui um peso morto por todo esse tempo, mas você não precisa mais ficar “nas sombras” tentando me… – não, na verdade não só eu – …nos proteger. Agora já não preciso mais ser só um idiota inconsequente, mas também posso ajudar no que puder, e espero que a gente possa cooperar daqui pra frente.

Estico meu punho, esperando a reação dele, que é quase imediata.

– … você é mais esperto do que parece. – ele também levanta seu punho em direção ao meu, mas ambos começam a sumir pouco antes de se tocarem.

– Eu sei.

De repente, como se fosse realmente um sonho, tudo acaba.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Prólogo)

Eu abro a porta, e entro primeiro enquanto ela vem atrás com as malas que trouxe. Sempre ouvi dizer que garotas tem bagagens gigantescas, com trocentas milhões de coisas que carregam por aí no caso de, sei lá, ter que fazer uma cirurgia em alguém ou algo do tipo, mas ela trouxe bem pouca coisa. São só duas, uma preta e uma vermelha, nenhuma delas é muito grande e nem muito pesada pra uma mala comum. Acho que isso deve ser um “efeito colateral” de passar muito mais tempo se preocupando em não ser morta por algum demônio infernal aleatório que pode pular pela sua janela durante o café, do que pensando em o que ia vestir pra impressionar os colegas no dia seguinte.

Não sei direito o que dizer, afinal nunca pensei que iria trazer uma garota pra vir morar comigo desse jeito… muito menos que fosse a Haruka. É uma sensação estranha, um misto de felicidade e medo, já que naquela época muita coisa aconteceu rápido demais. Tem várias pontas soltas que quero amarrar, mas não posso simplesmente jogar tudo em cima dela, principalmente porque pode ser verdade e ela não ser a Haruka no fim das contas. A verdade é que quero que seja isso, mas não quer dizer que vai ser simples assim.

– Hã… então, vai me mostrar o lugar ou o que?

A voz dela me trás de volta, eu estava meio perdido nos pensamentos mesmo.

– Ah, foi mal. Só estava pensando em algumas coisas…

– Espero que não sejam o que estou pensando.

– … você realmente acha que tentaria algo assim?

– Por que não? Você já me disse bem claramente como é um pervertido sem noção, então o que me faria confiar em você?

– O fato de você, literalmente, mandar em mim não é o suficiente? Além disso, eu não tive a chance de te dizer isso antes, mas aquilo foi uma piada.

– Hã?

– Eu não podia estar cagando e andando mais pra você ou pros seus peitos, mas tem algumas coisas sim que preciso tirar a limpo.

Ela cora outra vez.

– Q-que seriam?

– Não acho que eu devia te dizer agora.

– Você sabe que posso simplesmente te ordenar me contar, certo?

– … sei. Mas nesse caso, prefiro morrer do que jogar a oportunidade fora.

Não sei qual a expressão que eu estava fazendo, mas depois de me observar por alguns segundos, ela suspira e vira de costas.

– Tudo bem, não é como se eu tivesse necessidade de saber, e também não quero basear nossa relação totalmente na base da força. Vamos ter que viver juntos daqui em diante, então conto com você.

Ela vira o rosto e dá um sorriso, não sei se é forçado ou não, mas o bastante pra me fazer corar também. Não só pelo fato dela ser igual a Haruka, isso tem parte da culpa, mas ela é provavelmente a garota mais bonita que eu já conheci. Das últimas vezes, não tive muito tempo pra poder prestar atenção, e agora realmente consigo perceber isso. Mesmo sem usar nenhum tipo de maquiagem ou nada extravagante, ela podia chamar atenção tranquilamente no meio de uma multidão.

– … vai ficar com essa cara de bocó aí o dia inteiro? – a voz dela me trás de volta a realidade. Eu nem tinha notado, mas estava encarando faz algum tempo.

– Não, vamos lá.

A casa é grande, mas não tem coisas interessantes pra mostrar, então não leva muito tempo. Em menos de 15 minutos já demos uma volta por todos os cômodos, e ela colocou as suas coisas dentro de um quarto e ficou por lá pra arrumar o que precisava. Obviamente que não me deixou ficar junto, mas nada que não fosse esperado. Desço pra sala e começo a pensar de verdade na situação que eu fui me meter, não que eu me arrependa, mas é muita coisa ao mesmo tempo.

Se as pessoas que tiver que enfrentar forem do nível daqueles caras, ou se tiver alguém ainda mais forte que ela… eu não vou ter a mínima chance. A diferença é simplesmente grande demais, não importa por qual ângulo se olhe, a situação não é nada boa. Simplesmente ter liberado as tais restrições mentais não é o bastante pra nada, mas não faço ideia do que fazer a partir daqui.

– Merda… o que diabos eu preciso fazer?! – a frustração de se sentir impotente, ou melhor, a sensação de retornar aquela época me irrita.

Só percebo a força que estava fazendo quando ouço o barulho de um dos braços do sofá arrebentando, o que significa que está na hora de dar uma volta. Sempre que minha cabeça está cheia demais, ou estou muito irritado, saio um pouco de casa pra tentar clarear a mente um pouco. Nesse caso, estou com cabeça muito cheia  irritado, então é melhor eu vazar logo daqui antes que arrebente alguma coisa importante.

Pego só um casaco, as chaves, e saio pela porta o mais rápido que posso, tomando cuidado pra não quebrar nada sem querer. Sempre achei uma baboseira aquele papo de “viver em um mundo de papelão”, mas acho que agora consigo entender melhor o que isso quer dizer.

O tempo tá muito fechado, nublado e com cara de que vai ter uma chuva daquelas. Não que importe muito, tomar uma chuva assim talvez seja até melhor pra que eu possa esfriar a cabeça um pouco. Nunca tive um caminho exato pra seguir nessas caminhadas que dou, simplesmente sigo reto e depois volto, mas por algum motivo hoje começo a tomar alguns caminhos diferentes. Vivo por essa área desde sempre, e quando era mais novo tive que conhecer tudo ao redor pra procurar latinhas e coisas do gênero. Não é exatamente a coisa mais agradável de se lembrar, mas pode ser útil as vezes.

Todos esses lugares que passo me fazem lembrar de alguma coisa, a maior parte não é boa. Uma criança andando sozinha a noite a procura de coisas pra comer parece algo saído de uma mente doentia, e pode até ser verdade, mas no meu caso foi a realidade durante muito tempo.  Parece que estou me fazendo de coitado, mas na verdade eu não guardo mágoas daquele tempo, pois foi exatamente graças aquilo que eu consegui conhecer os três. Foram poucos anos, mas são lembranças inesquecíveis pra mim.

– …dia do caralho!

Fazem quase vinte minutos que eu sai, e só agora ouvi alguma voz. Meus sentidos estão mais aguçados, e eu pude ouvir isso mesmo de muito longe. Não sei porque, mas vou direção ao som mesmo achando que é uma péssima ideia.

– Olha o jeito como você anda, não é possível que não queria isso!

A voz ficava cada vez mais agressiva, e dava pra ouvir um choro leve próximo.

– D-desculpa…

– Cala a boca, caralho!

– N-não! Para, por favor! Não!!!

Meu sangue começa a ferver, ouvir esses gritos me faz ter uma ideia do que tá acontecendo, mas não vou tirar uma conclusão precipitada. Mesmo querendo entrar no meio, chego próximo das duas vozes e me escondo na entrada do beco que estavam.

Quem estava gritando e ameaçando era um homem, provavelmente na casa dos 30. Ele não era um gigante, mas parecia que tomava aquela cota diária de bomba pra derreter o cérebro e crescer os músculos. Barbudo, com uma regata branca colada no corpo… quem diabos usa uma porra dessas nesse frio?

Ele estava prendendo uma garota na parede, segurando os dois braços dela com uma mão, e a outra em seu rosto. Eu reconheço aquele rosto… não a conheço, mas sei quem é porque vi na sala hoje. Ela tinha cabelos castanhos não muito longos, mais ou menos na altura dos ombros, e amarrados com um rabo de cavalo. Seu rosto era bonito, com olhos castanho-claros, mas nada de especialmente atraente.

Mais importante, ela estava chorando naquela hora. Não é preciso ser um gênio pra entender o que tava acontecendo, principalmente quando ele começou a tentar tirar a blusa dela, que obviamente começou a se debater na parede tentando se soltar. Minha vontade era entrar ali e encher aquele cara de porrada, ao ponto de fazer o rosto dele ficar irreconhecível no dia seguinte. Mas então as palavras do Kisuke ecoam em minha mente, como se fosse uma merda de maldição.

Por que você acha que nunca falam sobre usuários como nós em público? Não existem muitos de nós, provavelmente há um milhão de humanos normais para cada um, mas um único combatente regular poderia dizimar exércitos inteiros com facilidade. Pouquíssimas pessoas sabem sobre isso, e nenhuma delas quer deixar isso vazar para o povo.”

Ele está certo, não se trata só de mim ou dessa garota, estamos falando aqui de algo que pode causar pânico público e até mesmo destruir a civilização como a conhecemos. A ideia de super-humanos-monstros-que-podem-destruir-países-inteiros é mais do que suficiente pra fazer tudo entrar em ruínas, então não vale a pena expor tudo isso pra salvar uma garota. Além disso, ainda tem o fato de que isso por ser só uma armadilha pra me atrair, e tenha algum daqueles malucos aqui por perto esperando pra me emboscar. Ele tem toda a razão…

– N-não faz isso, por favor!!!

… mas que se foda a razão. Eu não estou nem aí pro que vai acontecer, mas se tiver que ficar escondido e não puder ajudar as pessoas ao meu alcance, prefiro morrer logo de uma vez. No instante em que ele ia conseguir arrancar a roupa dela, eu chego o mais rápido que posso e seguro seu braço.

– Mas o que…?! Quem caralhos é você, moleque!?

– Não faz diferença, você não precisa saber meu nome. É melhor você parar com essa merda agora, e quem sabe eu te deixo ir.

Acho que foi rápido demais pra qualquer um dos dois processar a informação, porque ela ficou estática e ele deu uma risada.

– Você vai fazer o que exatamente, frangote? Me matar de tédio? Vaza daqui, antes que eu decida fazer um buraco nessa tua cara.

– … eu vou entender isso como um “não”.

Antes que ele pudesse reagir, agarro o braço dele com minhas duas mãos, viro de costas e arremesso-o no chão. Acho que me segurei demais, porque não teve nenhum grito ou expressão de dor. A garota atrás de mim ainda estava paralisada, mas ele levanta com um rosto bem irritado.

– Seu moleque!!!

Pra todos os efeitos, eu ainda sou só um adolescente magro que não pode simplesmente ter a força de um tanque de guerra. Mas ainda posso fazer esse imbecil beijar o chão de outras formas, só sendo um pouco mais rápido do que ele. Vindo na minha direção e tentando acertar um soco com todo o peso do corpo por trás, eu saio da frente e coloco meu próprio punho na frente de seu rosto. Não preciso fazer muito, já que esse idiota colocou toda a força que precisava por mim, o impacto atinge o rosto dele com tudo, fazendo-o cair de costas no chão e com o nariz sangrando. Acho que posso ter quebrado alguma coisa na cara desse maluco aí.

– S-seu…!

Ele ainda estava consciente, esse cara é bem durão pra alguém sem poder nenhum, preciso admitir pelo menos isso. Engolindo o próprio choro, e com uma expressão que dizia “esse não é um moleque qualquer” no melhor estilo de desenho animado, coloca a mão no bolso e tira dois canivetes. Merda, eu devia ter esperado por alguma coisa do tipo.

– Você vai morrer aqui, pivete de merda.

Curiosamente, na mesma hora em que ele diz isso um trovão ecoa e começa a chuva.

– … quantos?

– O que?

– Quantos dentes você quer que eu deixe sobrar? Ou não tem problema se eu arrebentar todos eles?

Acho que eu devo ter tocado algum nervo, mas exatamente como eu queria. Quanto mais de cabeça quente, mais fácil é de prever o que esses brutamontes vão fazer… mas não é fácil imaginar o que uma garota desesperada pode.

– E-ele não tem nada a ver com isso…

A maluca se colocou na minha frente, com os braços abertos e completamente encharcada.

– Vaza da minha frente, piranha.

Ela não se move.

– Eu também acho que você devia sair daqui, chamar a polícia, ou coisa do tipo. Esse cara não tá brincando, parece até um maníaco do parque.

Tiro ela do meio do caminho, e outra vez fico frente a frente com o pirado ali. Sem hesitar nem um pouco, ele avança bem rápido pra alguém do tamanho dele, tentando me acertar com os dois canivetes ao mesmo tempo. Apesar de parecer medonho, esse idiota só tá balançando duas lâminas e tentando não arrancar a própria cara no processo, ele não tem habilidade nenhuma. O beco é bem estreito, então minha opções de esquiva são limitadas, mas nada impossível de se fazer. Em um movimento maior e desnecessário, ele acaba tentando acertar minha cabeça, mas pega a parede com o impacto.

– Já não é hora de você desisti…

Merda, desnecessário porra nenhuma. Esse cara acabou de limitar ainda mais meus movimentos, me colocando contra a parede e de frente com seu corpo.

– Você é rápido, pivete, eu te digo isso. Mas se meteu com alguém que não devia.

– E você fala muito, projeto de pé grande.

E esse é outro dos momentos que odeio, quando algum fator impossível de prever entra no meio e detona todo o planejamento. A maluca, outra vez, entrou no meio do caminho e ficou de costas pra ele, me segurando no processo.

– O que você…?!

– Sua vagabunda, esse aí já cavou a própria cova, mas se quer tanto assim posso te enterrar junto! – ele abaixa o braço rápido, o canivete indo em direção a cabeça dela.

Merda! Não tenho como tirar ela da frente nesse espaço curto, mas se não fizer alguma coisa, esse retardado realmente vai matá-la! Não tenho escolha senão ter que aparecer um pouco mais do que deveria. Aumento um pouco a quantidade de energia ao redor do meu corpo, o suficiente só pra conseguir trocar de lugar com ela e ficar de costas pro canivete. Rapidamente, um barulho de ferro arrebentando podia ser ouvido, e os dois claramente não entenderam nada do que aconteceu. O grito dela ao ver que troquei nossas posições chegou a machucar meus ouvidos.

– C-como…?!

Eu me viro e vejo-o segurando um canivete arrebentado, com o pedaço que faltava caído ali do lado. O som da chuva e trovões ao fundo abafa um pouco a gagueira dele, mas fica bem claro que ele está em estado de choque. Não simplesmente porque o canivete quebrou, isso seria comum acontecer acertando uma parede, mas porque o choque com meu crânio o fez arrebentar. Ele deixa os dois canivetes caírem, e vira de costas pra correr, mas pego sua camiseta por trás e o jogo no chão.

– Onde você pensa que vai, campeão? Eu não sou nenhum telepata, mas tenho um jeito bem fácil de te fazer esquecer o que viu. – falo baixo, para que a garota não possa ouvir.

– N-não me mata, cara, era só uma brincadeira… – o soluço e medo em sua voz era evidente.

– É mesmo? Então vamos brincar de “20 perguntas” também, se você vencer eu te deixo ir.

– M-mesmo?!

– É, agora cala a boca e faz a primeira pergunta.

– É uma pessoa?

– Não. Agora é a minha vez, e eu pergunto: você está prestes a levar um soco tão forte que vai acordar só daqui uma semana?

– N-não?

– Resposta errada.

Um golpe na cabeça, não forte o bastante pra matar, mas o bastante pra fazer um barulho tão alto que mesmo a chuva e os trovões não puderam abafar. Já deixei pessoas sofrerem mais de uma vez por ser incapaz de ajudar, mas agora não quero mais ter esses arrependimentos, então fiz o que tinha que fazer. A garota que eu ajudei ainda está estática na parede, olhando pra mim incrédula.

– Err… qual é seu nome mesmo? Eu lembro do seu rosto, mas não cheguei a me apresentar. – tento quebrar aquele clima tenso em volta dela, mas é impossível pra mim.

– …miko.

– Que?

– Kimiko.

As lágrimas nos olhos dela não paravam de sair, de um jeito que nem mesmo dava pra confundir com a chuva. Bom, provavelmente foi um belo choque essa situação toda, então não a culpo. Mas preciso dar um jeito nisso, e não posso só larga-la aqui. Me levanto e ando até ela, colocando a mão em seu ombro.

– Olha, eu, hã… ia agradecer se você não contasse pra ninguém o que aconteceu aqui.

Ela leva algum tempo pra responder.

– P-por que…?

– Eu tenho meus motivos. Acho melhor você ligar pra polícia e entregar esse cretino aqui, mas eu queria que você realmente não me mencionasse.

– … t-tá.

– Valeu.

Eu viro de costas, pronto pra subir em algum lugar e observar de longe, quando ela me chama de novo.

– E-espera! Q-qual o seu nome?!

– … Tsuna.

Então saio do campo de visão dela, com o peito muito mais leve do que antes. Acho que encontrei a resposta que precisava.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 2 – Epílogo)

Acordo praticamente com um salto, mas meu corpo faz questão de me lembrar que não tenho condições de fazer isso. A dor no corpo inteiro, parece até que eu fui atropelado por um caminhão, e ele voltou pra ter certeza que passou por cima de alguma coisa. Mas principalmente no meu braço, é como se a parte perto do ombro estivesse queimand… espera aí, como e quando meu braço voltou a funcionar?!

De nada.

Você tem muita coisa pra me explicar.

Tenho mesmo, mas vou fazer isso depois. Curar seu corpo custou um esforço enorme, agora vou descansar.

Ô seu maldito, não foge não!

– Filho da puta, sumiu mesmo…

– E eu aqui achando que a sua única mania era ser nocauteado toda hora.

Era a Tatsumi, com um olho em mim e outro no celular, enquanto usa um lado do fone de ouvido.

– Onde eu tô?

– Numa das salas do Kisuke.

Quão grande é essa sala de diretor?!

– Mas isso não tinha tudo sido destruído?

– Tudo aconteceu dentro de uma Hogo dōmu, não houve danos ao colégio, e é bem provável que nenhum civil tenha sido afetado.

– “Civil”?

– É, pessoas como os alunos e professores.

– Do jeito que cê fala, parece até que é uma agente do FBI.

Ela deu de ombros.

– Eu sou uma garota com poderes especiais, participando de algum tipo de torneio cósmico inter-dimensional, e que tem acesso a informações que só as pessoas mais influentes do mundo normal podem ver. Além disso, se nada der certo esse ano, posso perder todas as pessoas que me importo por causa de um trato milenar entre duas forças desconhecidas.

– … faz sentido.

– Não, não faz. E é por isso que estamos aqui.

Ela volta a olhar pro celular, e no mesmo momento a porta abre e entram algumas pessoas discutindo. Haruka, Karin e Kayaba.

– … e eu temo que você vai tentar se opor, Kanata-san.

– Não se preocupe, Kayaba. Eu já disse, a decisão da maioria será a usada, não sou um tipo de ditadora absoluta. Acho até estranho você ter uma visão assim de mim.

– M-mas Kanata-san, acho que isso pode acabar dando muito errado…

A Karin falou tão baixo que quase não deu pra ouvir, mas a Haruka coloca a mão no ombro dela.

– Não se desanime assim, tudo vai dar certo no fim das con…

– Dá pros três patetas pararem com o show, e perceber que eu tô aqui?

A Haruka vira e me encara na hora, mas eu (tento) não me intimidar. Depois de ver do que essa maluca é capaz, percebi que realmente não estou em condições de achar que estou em nível pra ajudar.

– Eu tenho várias perguntas.

Ela suspira e senta em uma das cadeiras.

– Confesso que não esperava chegar a isso, dessa vez você não teve culpa de nada, o erro foi nosso. Estou te devendo explicações, então pode perguntar o que quiser.

Eu hesito por um segundo, não esperava que ela fosse ser tão compreensiva… algo não tá me cheirando bem.

– Como estão os outros dois?

– A Touka está bem, na medida do possível é claro. Nenhum ferimento muito grave, sem riscos de vida, mas continua inconsciente até agora.

É a minha vez de dar um suspiro, só que dessa vez é de alívio.

– E o diretor, Hotaro, Kisuke, ou seja lá o nome desse cara. Eu precisava falar com ele o quanto antes, então queria saber se já pos…

– Infelizmente, as condições do Kisuke-san são muito piores. Não só as feridas que você provavelmente viu, que já são várias, mas também queimaduras e hematomas internos. Além disso, aparentemente houve dano mental com alguma técnica que não conhecemos, vai levar tempo pra que ele possa se recuperar… se é que vai.

– O velho…

Mas aquele cara parecia tão seguro de si, como diabos isso foi acontecer?! Eu sei que aqueles dois malucos eram barra pesada, mas tanto ao ponto de simplesmente tratar o diretor como se fosse uma boneca de pano?!

– Não acredito…

– Próxima pergunta.

Os olhos dela mostravam claramente que ela também estava abalada, mas se mantendo firme. Acho melhor eu seguir o exemplo dela, e continuar com isso.

– E como isso foi acontecer?

– Bom, é difícil de explicar, mas basicamente você foi atacado pelos inimigos que passaram pela nossa “segurança”.

– Jura? Eu nunca teria percebido que eles me atacaram, obrigado Sherlock. Quem eram eles?

Ela ignorou a provocação e respondeu.

– Não temos certeza, mas se forem quem nós estávamos pensando, isso vai ser complicado…

Uma dúvida… não, raiva foi o que veio a tona.

– E posso saber por que exatamente você deixou aqueles desgraçados fugirem?!

A expressão dela ficou sombria, e sua cabeça abaixou um pouco, mas eu não estava nem aí.

– Você estava na vantagem e mesmo assim deixou aqueles caras saírem por aí como se nada tivesse acontecido, em que merdas cê tava pensando?!

Ela não respondia, o que só me deixava mais irritado.

– E eu aqui achando que cê podia ser alguém decente, mas pelo jeito não é muito diferente dos outros imbecis. Parabéns.

O Kayaba se coloca entre nós dois.

– Ela tem motivos pra não ter atacado, Tsuna.

Os “honoríficos” pelo jeito foram pro espaço. Bom, não que eu ligasse pra eles.

– E eles seriam?

– Se aqueles dois forem realmente quem achamos que eram… abatê-los aqui seria uma aposta arriscada demais. Se realmente são companheiros dele, então toda nossa cautela é pouco.

– E quem é esse ca…

A porta abre de novo, só que dessa vez bate tão forte que arrebenta e cai no chão. Entram dois car… espera aí!

– Eu conheço esses dois malucos aí! O pivete baixinho aí até tentou falar comigo enquanto eu vinha pra cá!

O baixinho ficou claramente irritado, uma veia saltando na testa dele, acho que pisei em um calo.

– Não sei se você reparou, seu fracote, mas fui eu que tirei aquele balofo de cima de você. E toda essa merda começou só porque cê tava levando uma puta surra daqueles dois antes da gente chegar.

Esse cara…

– Oh, foi mal aí ô Cinderela, pisei no teu sapatinho de cristal? Se bem que é bem capaz que você precise usar um pras pessoas te enxergarem, anãozinho.

– Seu..!

– Vocês vão continuar a briga de casal, ou podemos terminar o que finalmente viemos fazer aqui?

A Tatsumi voltou a conversa.

– A gente veio aqui exclusivamente pra decidir o que íamos fazer em relação ao Tsuna, que tal decidirmos isso logo de uma vez?

– T-Tatsumi-chan, não é tão fácil assim… – dessa vez foi a Karin.

– Claro que é, e eu acho que tenho a melhor solução pra isso.

A Haruka virou o olhar pra ela, com interesse.

– E o que seria?

– Nós precisamos, de algum jeito, garantir a segurança desse palerma, certo?

– Ei!

Eu protesto, mas elas me ignoram.

– Sim. – a Haruka responde.

– E precisa ser de algum jeito que não funcione só na escola, mas em qualquer outro lugar, certo?

– Sim.

– E além disso, não pode parecer suspeito para as pessoas de fora, certo?

– Sim.

– Então eu sugiro que você, Kanata, more junto com ele e acompanhe-o aqui no colégio também.

– Sim… espera, o que?!

A Haruka corou pesado.

– Todos a favor, levantem a mão.

A Tatsumi não deu tempo nem pra nós digerirmos a ideia, e começou a tal “votação” levantando a mão. Em poucos segundos, todos na sala levantaram seus braços também, pra minha surpresa… e, principalmente, o desespero da Haruka.

– Ehhhhhhhhhhh?!!

Kodomo no Haiburiddo (Volume 2 – Capítulo 8)

Mesmo fingindo estar bem, não dá pra ignorar a situação. Eu estou muito desgastado de agora a pouco, e agora surgem esses caras… puta merda, minha sorte ultimamente tá horrível. O maior problema são aqueles dois no fundo, não sei dizer exatamente porque, mas eles me dão uma sensação de imponência que eu nunca vi antes. Mesmo que eu consiga fazer alguma coisa com relação aos outros dez, duvido muito que eu possa lutar por muito tempo assim.

– … o que?

– Que foi, tá surdo por acaso?

Dá pra ouvir um grunhido de raiva do cara que eu respondi, mas outro coloca o braço na frente dele.

– Vá com calma, ser cuidadoso nunca é demais. Não sabemos o que esse cara pode ter na manga.

Acho que eu não tenho muita escolha, não queria ter que fazer isso, mas não é como se eu pudesse me dar ao luxo de diminuir ainda mais minhas opções agora.

– O que um moleque com dois pés na cova vai poder fazer?

– Da última vez que você disse isso, tivemos um problemão…

– Ora, seu…

Ignoro a discussão dos dois e me concentro o máximo que posso, não vai ser fácil convencer ele de me ajudar nessa. Mas provavelmente ele também não quer morrer aqui, então vou apostar nisso mesmo. Vasculho minha mente do jeito mais eficiente possível, mas parece que estou vagando por uma imensidão sem fim, por que esse cara não pode simplesmente aparecer na minha frente?

– … e como eu disse, não tem porque ir pra cima dele sem um plano.

– Ele não está nem prestando atenção na gente, filho da puta!

O primeiro reclamão corre pra cima de mim, mas parece bem mais lento do que imaginei antes… ou melhor, acho que aquele papo de despertar deu certo. Provavelmente eu poderia vencê-lo bem fácil sozinho, mas preciso ganhar tempo aqui, não quero que todos esses desgraçados venham ao mesmo tempo. Levo meu punho de encontro ao dele com força o bastante só pra anular o golpe, fazendo com que nenhum de nós saia do lugar. Mesmo assim dá pra sentir uma dor imensa no meu braço, por causa dos ferimentos de antes.

– … você é melhor do que eu pensei.

– E você fala demais, babaca.

Puxo o braço dele com uma das mãos, acertando-o no rosto com a outra, usando só força o suficiente pra machucar um pouco. É bem óbvio que esse cara tem experiência em lutas, já que mesmo levando um direto na cara, nem msmo piscou com isso e manteve um pé de apoio no chão pra me acertar um chute no pescoço. Não doeu, mas reajo de acordo e deixo meu corpo ser arremessado em direção a parede.

– Tem razão, não vou falar mais, afinal não dá pra conversar com os mortos!

Paro de prestar atenção nele e começo a lutar no automático. Desvia, golpeia, bloqueia, se deixa acertar, salta, usa as linhas… praticamente como se fosse programado pra isso. Minha atenção agora está completamente em achar aquele maldito, então continuo vasculhando o mais fundo que posso, mesmo sem achar nada. Não sei como pode ser tão difícil assim achar alguém que vivia me importunando até alguns dias atrás…

Acho que posso ter passado tempo demais sem prestar atenção, porque quando volto o cara lá está no chão, ofegante e com o rosto sangrando. Acho que o nariz dele deve estar quebrado ou algo assim, e eu devo ter dado um puta show, porque os outros estão bem mais alertas do que antes. Um deles, o mesmo cara que falou sobre cautela agora a pouco, avança um passo e coloca a mão sobre o ombro do caído.

– Ainda acha que dá conta disso sozinho, 3?

O que diabos “3” quer dizer? Um apelido?

– … eu odeio quando você tá certo, 2.

– E por isso você me odeia sempre.

– Só cala a boca e ajuda aqui.

O “2” ajuda o “3” a se levantar, e eles me encaram de um jeito bem sério. Será que esse outro tem alguma habilidade esquisita pra encher meu saco?

– Não acredito que eu vou ter que precisar de ajuda pra acabar com você, pirralho.

Ele cospe no chão, e sai um pouco de sangue.

– Estava ficando chato mesmo te usar de saco de pancadas, agora tenho dois em quem bater.

O “2” dá um sorriso que pode ser visto por baixo do manto, e coloca a mão no queixo.

– Você mal estava se mantendo com ele, o que o faz pensar que pode vencer nós dois? E mesmo que consiga, tem muito mais aqui. Sua situação é completamente sem saída, eu acho que seria mais esperto você morrer logo de uma vez e não sofrer muito.

O pior é que ele tá certo, não sobre eu ter problemas com os dois, mas que eu estava muito fudido.

– Bom, vamos começar?

Esse tal de “2” é bem mais rápido que o outro, e quase conseguiu me acertar um direto no queixo. Quando eu desvio “por pouco”, ele vira pra mim e dá uma risada.

– Ora, conseguiu desviar? Não seria divertido mesmo se você morresse logo, mesmo…

– … cê consegue se ligar que acabou de se contradizer, né?

De repente ouço uma voz de trás de mim.

– Você tem mais com o que se preocupar do que com isso!

Um chute na nuca me manda direto de cara no chão, fazendo uma pequena parte sangrar. Merda, se eu começar a lutar em outro nível, eles vão perceber que é só uma distração… mas se eu continuar lutando assim, vou é só apanhar dos dois. Acho que vale a pena arriscar, vou tentar lutar só o bastante pra me manter contra os dois, e me concentrar outra vez.

Clareio completamente minha mente, e começo a vasculhar ainda mais fundo do que antes. É como se eu fosse um espectro passando no meio de inúmeras telas com memórias, informações, rostos… como se eu realmente estivesse “navegando” dentro da minha cabeça. Continuo com isso durante alguns minutos, sem prestar atenção nenhuma ao mundo exterior, e outra vez chego em uma área completamente escura, sem sinal nenhum do maldito Shin. Onde esse cara foi se meter?!

Volto ao controle do meu corpo, e dessa vez não são só dois deles que estão caídos no chão. Merda, acho que eu exagerei enquanto fiquei no “modo automático”, agora tem dois caídos e feridos no chão, enquanto seguro outros dois malucos pelo pescoço. Jogo eles em cima dos outros dois caídos no chão, e viro de frente pro resto que ainda estava de pé. Alguns tremendo na base, outros loucos pra vir pra cima de mim, até um dos dois caras de preto resolver se intrometer.

– Desistam, vocês todos juntos não o fariam suar. Ele estava escondendo o jogo durante esse tempo todo, provavelmente querendo comprar tempo.

O 3 se levanta e me pega pelo colarinho.

– Você estava brincando com a gente, seu maldito?!

– … algum problema com isso?

– Não tem respeito pelo adversário não, seu filho da puta?! E sua honra, fica aonde?! Enfiou no rabo?!!!

Não sei que cara eu fiz, mas provavelmente a raiva que eu senti foi toda transferida pra ela, já que ele ate mesmo recuou um pouco.

– Você invade o meu colégio…

Eu acerto o rosto dele com tanta força que a mandíbula dele é arremessada pra longe, enquanto ele chora de dor.

– … quase mata o diretor…

Agora um soco no peito faz as costelas dele afundarem, ao ponto de dar pra encaixar minha mão inteira no desnível de lá. Ele tosse sangue, provavelmente devo ter furado alguns órgãos internos nessa.

– … nocauteia a Touka…

Levanto minha mão pra acertar ele de novo, mas um do grupo veio pelas minhas costas. Pego o diabo pelo pescoço e aperto com o máximo de força que posso, fazendo parecer que esmaguei uma latinha de alumínio. O olhar no rosto do “3” era de completo desespero.

– … tenta me matar…

Agora quem eu pego pelo pescoço é ele, e levanto no ar, direto na frente do outro cara que eu esmaguei. O sangue deles escorrendo nas minhas mãos tem um cheiro podre, a carne saindo da pele também não ajudava muito, e eu acho que tinha algumas lágrimas misturadas no meio. Eu viro pro grupo que estava lá, e encaro eles num geral.

– … e acha que eu tenho alguma obrigação de te respeitar?!

Eu esmago a cabeça deles um contra o outro, fazendo com que o que estivesse lá dentro fosse espalhado pra todo lado. Sangue caia no meu rosto, e alguns gritos eram ouvidos dos caras que assistiram, principalmente depois que eu jogo o corpo dos dois de volta no meio deles.

Opa, acho que cheguei na hora certa, né não?

Seu puto, onde cê tava até agora?!

Eu só posso aparecer quando você está sentindo raiva ou ódio, não quando tenta clarear sua mente, tolo.

Que tal eu ficar puto com VOCÊ, isso serve?!

Calado. Seu corpo está em frangalhos por causa da surra que tomou daquela mulher, então eu posso te ajudar bem pouco. Pra falar a verdade, não acho que você tenha nem mais 5 segundos pra se aguentar de pé.

Faz logo o que tem que fazer, porra!

– C-corram!!!

Opa, acho que não.

Meu braço se levanta, dá pra sentir algo estranho vindo dele. Uma energia diferente de qualquer outra que já usei, parece que tá me conectando com alguma coisa… e acho que está mesmo. No momento em que levanto ele acima da cabeça, os caras todos que tentaram correr, e os outros dois vestidos de preto também, foram perfurados por alguma coisa preta… sombras?!

Opa, peraí! Como cê sabe usar isso?!

Não tenho tempo de te contar agora, e o tempo acabou. De nada por salvar sua pele.

Nossa pele.

Hunf.

Pelo menos agora acabo… pera, o que?

Os dois de preto continuam de pé, e um deles vem caminhando até a minha direção. Merda, eu não tenho força o suficiente pra nem me mexer agora, como esse cara tá vivo depois de ser furado aquele jeito?!

– Até que foi uma boa tentativa, “Tsuna”…

– Como você… sabe meu nome?

Ele me pega pelos cabelos, me suspendendo no ar e ignorando minha pergunta. Agora que dá pra ver por debaixo do manto,  esse cara é bizarro. O rosto dele é enorme, provavelmente é gordo pra caramba, mas não tem nariz nem orelhas, e a boca parece mais com um rasgo feito em pele. Não tem dentes, e seus olhos vermelhos são gigantescos, parece algo saído de um pesadelo.

– Você ficou famoso depois de toda a confusão que causou no Kōheina sekai, garoto. Alguém que compra briga com a Kanata daquele jeito tem que ter bolas, eu admito isso.

Então já ficaram sabendo de tudo isso… merda.

– Sabemos do seu potencial, embora eu não ache você particularmente perigoso, só mais um petisco delicioso.

– Petisco…?!

O que diabos esse cara tá dizendo?!

– De qualquer forma, não é a minha opinião que vale, é a do chefe. Ele tem medo de que você possa se tornar algum perigo, então mandou a gente aqui pra te fazer sumir. Que peninha pra você.

– Seu…!

Ele me prende no chão, ficando por cima de mim, com as duas mãos no meu pescoço.

– Mas o que você tá fa…

A força pra falar desaparece, e começo a sentir como se estivesse correndo uma maratona depois de ficar um mês sem comer ou dormir. Cansaço começa a bater no meu corpo inteiro, e meus sentidos começam a sumir aos poucos. Já não sinto mais dor, minha visão tá turva, não sinto o cheiro de sangue, não consigo falar e minha audição está bem pior. É como se eu tivesse minha vida drenada pra fora…

– Tchau tchau, Tsuninha.

Até mesmo tava achando que não tinha jeito dessa vez, quando simplesmente o peso em cima de mim sumiu. Ele foi chutado pra longe com muita força, por alguma coisa que parecia um raio branco passando… mas não sei descrever muito bem o que ou quem realmente era. Talvez tenha sido só alucinação minha por estar tão detonado, mas o fato é que alguém chegou pra ajudar… espero.

– Você não devia estar aqui, “Thor”.

– Eu que digo isso, Anúgami. As lutas só começam na arena, não fora dela, imbecil.

– E quem vai me fazer parar mesmo? Você?

Alguém se aproxima do meu rosto e tenta falar comigo, e reconheço imediatamente quem é.

– Ei, tá vivo ainda?

Não que fosse muito difícil reconhecer esse cabelo lilás extravagante, mas fico feliz de alguém realmente ter vindo.

– Mais ou menos…

Ela dá um sorriso e se levanta.

– Foi mal, eu devia ter previsto algo assim. Fica aí que eu vou resolver isso.

Ela saiu do meu campo de visão, e provavelmente entrou no meio da discussão.

– Eu vou dar dez segundos pra vocês estarem fora da minha vista.

– … Kanata?! O que você está fazendo aqui?!

– Nove…

Uma voz que eu não reconheço, provavelmente o outro cara de preto, entra na conversa.

– Anúgami, não viemos aqui pra isso. Nosso dever era matar o Tsuna, mas não conseguimos a tempo. Precisamos voltar e avisar ele disso.

– Oito…

– Tudo o que precisamos fazer é mata-lo agora! Ele está ali na frente, você espera que eu recue agora, só porque ela está aqui?!

– Sete…

– E você acha que tem alguma chance disso? Não é só ela, “Thor”, “Fênix” e “Tifão” também estão por aqui. Nossas chances de sucesso são nulas.

– Seis…

– Se nos juntarmos, nós conseguimos vencer esses pivetes sim!

– Cinco…

É como se te colocassem dentro de um tornado… que estivesse chacoalhando o Atlântico inteiro. Não sei descrever a sensação de outra forma, era avassalador e imponente, como se o próprio mundo estivesse saltando em cima de você. Comparado a isso, aquele gosto de força que eu tive mais cedo parece um grão de areia na praia… e eu sei de quem era. Como diabos a Haruka foi ficar tão forte?!

Aparentemente eles pensaram a mesma coisa que eu, já que não ouvi mais nenhuma conversa ou contagem. Eu queria perguntar muitas coisas, mas minha garganta não queria fazer a voz sair, e meu corpo não queria se mexer. Quando ela finalmente volta pra perto, me levanta como se eu fosse a noiva. É uma sensação embaraçosa, mas vou ter que lidar com ela por agora.

– Temos que resolver isso, e agora.

Não acho que ela estava falando comigo, mas foi o suficiente pra fazer com que a tensão finalmente saísse dos meus ombros. Me rendo ao cansaço e as feridas, finalmente deixando minha consciência escapar.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 2 – Capítulo 7)

… não importa agora, tenho coisas mais importantes pra fazer do que ficar refletindo sobre como essa força faz eu me sentir. Como, por exemplo, essa maluca tentando fazer um espetinho de mim com um conjunto de sombras. Mesmo meu corpo estando muito ferido, graças a essa nova leva de energia, consigo sair da frente do golpe por milímetros de distância.

Enquanto fura as rochas abaixo, uma risada no mínimo bizarra ecoava dela, isso até notar que o furo ali não era na minha cara. Um momento de confusão faz com que ela olhe ao redor me procurando, e quando finalmente me acha a reação é diferente do que eu esperava. Ao invés de surtar e avançar de cabeça quente pra cima de mim, seu rosto agora parecia muito mais calmo do que antes.

– Então você finalmente liberou esse maldito “selamento psicológico”?

Agora quem tá confuso sou eu, parece até mesmo que tô falando com outra pessoa. Diferente da sem-noção sádica psicopata que tava rindo pensando em como era bom abrir um buraco na minha testa de agora a pouco, agora ela parece muito mais comportada.

– Não sei… liberei?

– É fácil descobrir.

Ela simplesmente some da minha vista… mas é diferente de antes. Não é que eu não consiga acompanha-la com os olhos, não foi por velocidade que ela driblou meu campo de visão, é mais como se ela simplesmente tivesse sumido. De repente uma sensação gelada surge atrás de mim, e essa é uma que eu nunca tinha tido antes, mas consigo reagir a tempo de virar e segurar seja lá o que fosse. Era a própria Touka, só que dessa vez com um olhar de peixe morto penetrante, e absolutamente nenhuma aura sendo emanada dela. Comparado com aquele instinto assassino e sede de sangue de antes, agora é mais como se ela estivesse simplesmente passando por cima de mim sem nem notar direito o que estava fazendo… como alguém pisando em um inseto.

– Mas que diabos… cê tem múltiplas personalidades ou alguma coisa do tipo?! Isso já tá enchendo o saco!

– Confirmado, você liberou. Agora eu não preciso me segurar mais.

Eu deixo uma risada escapar, e ela não entende bem o que aconteceu.

– Não vai mesmo, porque isso acaba aqui.

Um estalo de dedos é tudo que eu faço, então ela cai de bruços no chão, com o corpo tremendo e uma agonia aguda no rosto.

– Mas o que… você fez comigo?!

Resolvo finalmente me sentar pra descansar, agora que acabou.

– Eu vou explicar tudo desde o começo, pra você entender o que eu fiz. Primeiro, você agora não vai conseguir se mexer nem mesmo se entrar naquele modo de olhos do diabo ou seja lá como se chama. Eu sei como você consegue um aumento de força ridículo com aquilo, mas nem assim vai ser suficiente pra quebrar as Atomic Chains.

– Ato o que?!

Eu suspiro, agora que eu finalmente parei pra descansar, mesmo com toda essa energia que aparentemente foi “liberada”, posso sentir todos os efeitos colaterais no meu corpo.

Atomic Chains. Você provavelmente não percebeu, mas todas vez que eu te atacava, não tinha intenção nenhuma de te causar algum dano grave ou algo do tipo. Todas as vezes que eu toquei em você, prendi um pedaço da carne e pele do braço que arrancou mais cedo.

A surpresa no rosto dela era evidente, mas eu continuei.

– As Molecular Lines são produzidas a partir do meu próprio corpo, e por isso precisei prender alguns pedaços em você. Com a constante produção de linhas que ficam cada vez mais fortes e menores, elas foram te envolvendo em uma escala atômica pra que você não percebesse. Só que isso leva muito mais tempo do que qualquer outra técnica minha, e mais esforço também, então também aproveitava os meus ferimentos pra jogar sangue em você, que acelerava o processo.

Toda aquela calma no olhar dela se foi.

– M-mas você não deveria ser forte ou rápido o bastante pra tentar competir comigo, e várias vezes eu tinha certeza que você desviava dos meus golpes por pouco!

– Ah, você deve estar falando de quando eu usava as linhas pra confundir sua visão.

Eu aponto pro meu lado direito.

– Confundir minha visão…?

Ela demora pra enxergar, mas provavelmente agora já reparou. No meio de um monte de rochas, parece que uma parte tá completamente fora do lugar. É como tentar enxergar algo através de um copo com água, sua visão fica muito torta.

– Essas linhas são transparentes a primeira vista, mas a verdade é que eu posso modifica-las o bastante pra causar um pequeno efeito de refração na luz. Isso fazia você me vir alguns centímetros de distância da onde eu realmente estava, por isso o efeito de “velocidade” que você viu. E o barulho, obviamente eram as linhas arrebentando.

A frustração no rosto dela agora é claro.

– Além disso, o motivo daquele monte de rochas e poeira que eu levantei era só pra poder me posicionar direito, afinal seria completamente previsível se você simplesmente me visse “teleportar” quando passasse por trás delas.

E sem mais nem menos, toda aquela tensão e frustração no rosto dela sumiram, substituídos por um sorriso e uma risada.

– … por acaso eu fritei seu cérebro ou algo do tipo? Ver você mudando sua expressão desse jeito bizarro assim me dá até calafrios.

– Não, seu idiota. Use os neurônios um pouco, você se lembra do porque estarmos aqui em primeiro lugar?

– Hã… por que você não queria levar o Japão inteiro comigo nisso aqui?

Pela expressão dela, acho que foi um facepalm imposto.

– O seu potencial preso, garoto. Lembre-se: o único motivo de você ter vindo aqui é porque você selava a própria força de maneira inconsciente, e o medo da morte, ou seja lá o que aconteceu com você, o fez se livrar dessa restrição. Ou pelo menos por agora.

Agora eu quase acerto meu próprio rosto com a palma da mão.

– Como diabos eu me esqueci disso?

– E eu vou saber? Agora me livra logo daqui.

– E por que eu faria isso…?

– Porque ou você me solta, ou vai ficar preso por aqui. A escolha é sua.

Eu suspiro, e coloco uma das mãos no cabelo pra tentar disfarçar minha tensão. Não tenho mais disposição pra conseguir fazer alguma coisa se ela resolver despirocar.

– Tudo bem, acho que preciso de você pra voltar.

Um estalo de dedos e toda a tensão no corpo dela some.

– Obrigada. Espero que não tenha realmente levado pro lado pessoal, a maior parte do que eu disse ou fiz era só pra te encurralar, não é como se eu tivesse algo contr…

– “A maior parte”? E qual foi real, a parte que cê enlouqueceu sobre eu falar do Kayaba?

Ela se vira de costas pra mim, provavelmente pra que eu não possa ver a cara que ela está fazendo.

– Prefiro não falar sobre isso.

– Que coincidência, eu também não. Agora tira a gente logo daqui.

Ela se levanta, me encara e se aproxima rápido.

– Hã, o que você….

Então pega minha mão e fecha os olhos.

– … isso tá estranho demais, que merda cê tá tentando fazer afinal?!

– Eu não posso simplesmente nos levar de volta agora, estou desgastada demais pra isso, por isso preciso usar a sua energia.

– Como assim?

– Pra usar qualquer técnica relacionada a teletransporte ou viagens dimensionais, é preciso utilizar uma quantidade enorme de energia. Não só isso, como quanto maior for o objeto, ou mais forte for a pessoa, mais poder é necessário pra manda-la.

– Então… basicamente você não consegue por exemplo, mandar o diretor pra dentro do Sol?

– Não, eu não tenho força o suficiente pra fazer isso. Tanto o Saikuru quanto Shinkū te mantém preso, querendo ou não, ao espaço em que se encontra.

– … preciso entender mais sobre essas energias aí depois, mas agora não é hora pra isso.

– Está certo, devemos voltar logo, o Kisuke-san já deve estar preocup…

Uma das mãos cobre a boca dela, mas tarde demais. Como eu não tinha percebido isso antes?! Mas esse maldito diretor já tinha me dito o nome dele… Só que não havia nenhum documento ou algo do tipo na sala. Juntando com o fato que ele conhecia o Hiroshi-san e a Akane-san, ele…

– Então ele é o tal Kisu…

– – –

– …suke?!

Aparentemente o teleporte funcionou no meio da conversa, e então voltamos pra sala do diretor, mas…

– O que caralhos aconteceu aqui?!

A sala está completamente arrasada, móveis quebrados, paredes destruídas, buracos no teto e no chão… e sangue. Tem uma trilha gigantesca de sangue cruzando o chão, e vai até dentro da tal “sauna” de antes, que também está em pedaços. Não dá pra ver o que tá lá dentro, mas eu tenho um péssimo pressentimento sobre isso. A Touka tenta correr, mas eu ajo rápido e seguro o braço dela com força.

– Por que você está fazendo isso?!!! Me largue, pode ter acontecido algo péssimo as pessoas do colégio! Espero que o Kisuke-san tenha tudo sobre control…

Tapo a boca dela o mais rápido que posso, e então começo a suar frio.

– Fale baixo, idiota!

Tiro minha mão, e ela parece confusa, mas obedece.

– O que você tá fazendo?!
– Salvando a nossa pele!
– Você acabou de sair de uma situação de vida ou morte e tá com medo de um incêndio ou bombinha?!
– Não, sua anta! Olha direito ao redor!

Ela começa a mexer a cabeça sem entender, até que finalmente repara no que eu quis dizer. A cara de espanto dela era muito evidente, e eu fiquei com medo que ela fosse gritar. Tudo ao nosso redor estava silencioso, e o mais importante… o chão, as paredes, os móveis e até o céu, estava tudo cinza. Estávamos dentro de uma Hogo Dōmu.

– Isso aqui não tem nada a ver com algum acidente. Ou o sangue que estamos vendo é de alguém que o diretor arrebentou, e o culpado disso, ou…

… ou é o próprio diretor que tá no fim dessa trilha de sangue, e a gente só vai dar de cara com o cadáver dele. Mas eu não podia dizer isso pra alguém com a cara de desesperada dela.

– Espera aqui, eu vou ver o que aconteceu.

Acho que o choque foi grande demais, ela só balançou a cabeça e não saiu do lugar. Agora a pouco ela estava tentando me matar, mas não tem como não sentir no mínimo um pouco de pena dela… principalmente sabendo como ela tá se sentido. Mas preciso me concentrar, se o que eu estou pensando realmente aconteceu, então essa vai ser a menor das minhas preocupações.

A trilha não ia muito longe, mas os destroços da “sauna” estavam no meio do caminho, e era difícil movê-los com os meus ferimentos e sem fazer barulho. De algum jeito consigo tirar tudo do caminho sem fazer um puta estardalhaço, e no fim do túnel não tinha uma luz. O que tinha era um corpo grande, com uma roupa tão encharcada de sangue que realmente parecia vermelha,  preso na parede com dez facas furando em vários pontos diferentes… e era o diretor.

Eu não sou um maldito médico, então agi por impulso e tirei todas as facas que estavam no corpo dele, ele estava num estado tão destruído que nem conseguiu gritar alto. Deixei seu corpo no chão pra checar o pulso, e é muito leve, mas existe. Como eu vou conseguir ajudar ele?! Merda, logo agora que eu tenho mais perguntas que nunca e a pessoa que pode responder aparece, como isso foi acontecer?!

Um barulho vindo das minhas costas fez eu me virar, só a tempo de ver um vulto passando do meu lado e afundando na parede. Era a Touka, inconsciente e com mais ferimentos ainda do que antes. Sangue escorria por várias partes do corpo, e alguns cortes eram tão grandes e fundos que dava pra ver os ossos dela. Isso não é algo que vem de um soco,  a mesma pessoa que fez isso com o Kisuke, acabou de atacar a Touka.

Doze pessoas, ou pelo menos acho que são pessoas, aparecem de onde a Touka veio arremessada. Todas estão com mantos que cobrem o corpo inteiro, escondendo o rosto e qualquer aparência física. Dois estavam mais atrás usando mantos pretos, enquanto os dez da frente estão usando cinzas. Uma veia começa a pulsar, minha raiva desses caras já é enorme e eu nem sei quem são.

- Quem são vocês?!