Kami no Sensou – Jacinto Roxo (Volume 6: Capítulo 4)

Diante dos olhos negros de Kuroshi, um lugar muito familiar se mostrava. Céu vermelho, solo vermelho escuro, quase preto, nenhum sinal de vida seja humana, animal ou vegetal. Uma gigantesca lua escarlate iluminava tudo.

Não haver sinais de vida não significa que não havia nada ali… Muito pelo contrário, em todas as direções que se olhava, corpos humanos sem vida ocupavam espaço no solo morto. Não era uma cena inédita para Kuroshi, mas ver aquilo o encheu de repulsa e vontade de vomitar. Talvez pelos corpos estarem completamente negros, quase como sombras ou como se tivessem acabado de sair de dentro do solo, ele conseguiu resistir.

Ele não estava perdido, ou sem saber o que fazer, essa era uma situação pela qual ele já passou inúmeras vezes no passado, embora que ainda com algumas diferenças.

Kuroshi foi caminhando adiante, evitando pisar nos corpos ou sequer olhar para eles.

É como meus antigos sonhos… Só que…

Sim. Seus sonhos eram totalmente padronizados, sempre se repetindo da mesma forma com apenas uma mudança ou outra. Isso é, até o momento da “morte” de Seira chegar. Naquele dia, seu sonho foi diferente. Dessa vez este sonho também está sendo diferente de todos os outros, ele pode se mover, ele pode agir livremente. Não há Hades, nem a morte de—

“…!”

Após caminhar por um tempo, Kuroshi viu uma pessoa na sua frente. Ela estava de costas pra ele, mas reconhece-la era a coisa mais fácil do mundo.

Kurona—!

Kurona estava com as mãos nas costas, olhando para a lua escarlate.

A forte luz vermelha atingindo a garota que poderia ser denominada como uma bela flor negra combinava perfeitamente. Como se ela pertencesse a aquele mundo—Não, como se aquele mundo pertencesse a ela.

Ela olhou para trás, como se já soubesse que Kuroshi estava ali.

Isso é um sonho? Ou é real?

Enquanto tentava controlar sua mente em confusão, Kuroshi começou a andar em direção a ela. Só havia um problema… A partir do momento em que os olhos dos dois se cruzaram, os movimentos de Kuroshi aconteciam contra a vontade dele. Cada passo que ele dava não era feito porque ele queria, era como se seu corpo estivesse sendo controlado por uma força maior. Logo, sua espada de sempre surgiu nas suas mãos.

Espere… Espere! Esper—

Os dois ficaram há um metro de distância um do outro. Kuroshi se preparou para perfurar diretamente o coração da garota diante dele, e o que aconteceu depois—

 

 

Kuroshi abriu os olhos.

Ele estava deitado na sua cama, o dia já estava amanhecendo.

Não é como se a volta desses sonhos fosse algo bom ou tolerável, mas Kuroshi acordou bem. Sem gritar, sem suar, sem angústia e sem ver ninguém sendo morto. Ele se sentia relaxado e nostálgico.

Ao se sentar na cama, ele aproveitou por alguns segundos o ótimo perfume que havia no quarto.

Logo em seguida, ele se dirigiu até o banheiro e se olhou no espelho. Talvez ele tenha tido alguma esperança de que seus olhos não estariam naquele forte tom escarlate. Seria um pensamento em vão, no entanto, já que as coisas continuavam as mesmas.

Depois da conversa que ele teve com Axel ontem, sua mente ficou tão pesada que não demorou muito para ele cair no sono. Talvez ele tenha dormido até rápido demais, já que ele mal se lembra do que aconteceu após ter voltado para seu quarto. Mas uma boa noite de sono é sempre essencial, já que ele acordou bem mais leve.

“… Preciso resolver essa situação de uma vez por todas.”

Conseguindo a calma necessária para dar um passo adiante, Kuroshi decidiu começar a agir.

Sem perder muito tempo, ele tomou banho, se arrumou e saiu do quarto.

Ainda era bem cedo, por isso, os corredores do dormitório estavam vazios, silenciosos e um tanto quanto desnecessariamente escuros.

Era um cenário um pouco assustador, mas não tanto quanto lutar contra alguém mais perigoso que uma bomba atômica. Por isso, Kuroshi continuou seu caminho rotineiro normalmente.

Andando e andando em um corredor que parecia interminável, Kuroshi começou a sentir uma sensação estranha e parou de andar.

“…”

Era como se alguém o observasse.

Aquela pressão invisível era altamente desconfortável.

“…!”

Subitamente, Kuroshi se virou, tentando ver se havia alguém atrás dele. Mas nada havia ali.

Estou ficando paranoico ou…

“?!”

Ao se virar para frente novamente, ele deu de cara com um homem. O susto o fez saltar cinco metros para trás. Mas logo após essa ação, ele percebeu que não havia mais ninguém lá. Com o nascer do sol, os corredores ficaram mais claros.

Ele só se lembra de ter visto alguém desconhecido, de cabelos roxos. Foram as únicas coisas que aquela fração de segundo permitiu sua memória gravar.

Eu…

O que diabos está acontecendo comigo?

Quando isso se tornou uma história de terror psicológico?!

Droga!

Eu preciso—

“O que houve, Kuroshi?”

Com um forte toque no ombro, Kuroshi foi trazido a realidade novamente e ao olhar para trás, lá estava um amigo bem recente seu, Masaya.

“Masaya? O que…”

“Ryoka-chan me pediu para buscá-lo. Ela queria fazer uma nova reunião…”

Entendo… Acho que entendo o rumo que isso está tomando…

Vendo a cara de desgosto de Kuroshi, Masaya arregalou os olhos, surpreso.

“Woah woah, achei que você gostasse das garotas, ao menos um pouco.”

“Eh?”

Dessa vez foi a vez de Kuroshi ficar surpreso.

“Do que está falando?”

Ele não percebeu?—Pensou Masaya por um momento.

“Não, é… Você parecia descontente com a ideia.”

Ele propositalmente usou a palavra ‘descontente’ para parecer menos grave.

“Uh…”

No entanto, pela reação (Ou falta dela) totalmente confusa de Kuroshi, ele percebeu que não foi proposital.

“Bem, esqueça isso. Nós vamos para um local diferente de qualquer forma.”

“Huh? Como assim?”

“Ao invés de fazer o que a Ryoka-chan me pediu, pensei em termos uma conversa a sós. O que me diz?”

Kuroshi não tinha ideia do que estava passando na cabeça de Masaya, mas ele era alguém de confiança. Talvez por causa da sua personalidade, ou pela sua história, mas Kuroshi sentia que ele era até mais confiável que a própria Ryoka.

“… Certo.”

Tendo a confirmação que queria, os dois se dirigiram até o terraço da escola.

Kuroshi já estava uniformizado, mas como Masaya não era mais um estudante do ensino médio, ele vestia roupas casuais como uma calça e uma jaqueta preta junto com uma camisa azul. Ele estava com as mãos no bolso, embora parecesse relaxado, o ar em volta dele era completamente o oposto disso.

“Tem certeza que irá ignorar o pedido de Ryoka?”

“Ela parece durona por fora, mas quando você a conhece mais de perto, percebe que não é tão complicado assim lidar com ela.”

“…”

A pergunta de Kuroshi não era realmente algo que ele estava preocupado. Ele estava mais preocupado com o que Masaya queria falar com ele, e por isso decidiu falar a primeira coisa que veio a sua mente. Uma atitude incoerente considerando que ele já havia aceitado vir até aqui para conversar de qualquer forma. Mas talvez ainda seja melhor do que ter uma reunião com as garotas, ele pensou.

“O que eu tenho a dizer é algo simples.”

Masaya olhou diretamente nos olhos de Kuroshi, ele estava totalmente sério. Por isso, Kuroshi nem sequer o interrompeu.

“Nos conhecemos há pouco tempo, mas sendo um grande amigo da Ryoka-chan, não hesitei em te dar um voto de confiança. Mas…”

O que Kuroshi ouviu em seguida o deixou perplexo.

“… Se você fizer algo que cause um impacto negativo muito forte, não só na Ryoka-chan, mas no [Partenon] em si, não hesitarei em te chutar para o planeta mais próximo.”

Não havia tom de brincadeira, nem exageros. Sem tirar nem por, Kuroshi acabou de ser ameaçado por um aliado.

“Eu não sei sua história ou suas circunstâncias, mas você é a principal causa das preocupações do nosso grupo atualmente. Você já soube sobre meu passado, então talvez já tenha alguma noção, mas eu não pretendo ter respeito por alguém que não é verdadeiro aos seus próprios sentimentos.”

“… Espere um momento!”

Claramente irritado por algo no discurso de Masaya, Kuroshi deu dois passos adiante e agarrou a camisa dele pela gola. Ele não tirou as mãos do bolso em nenhum momento.

“O que? Quer lutar contra mim? Não sou tão piedoso com quem faz a Ryoka sofrer, você pode perguntar ao Noah se duvidar.”

Nenhuma das palavras de Masaya foi dita com um sorriso no rosto, muito pelo contrário, Kuroshi sentiu uma pressão ao ouvir aquilo.

Aquele momento de reflexão deu a oportunidade para Kuroshi notar que, apesar das ameaças, Masaya está apenas protegendo o grupo.

Eu sou o vilão da história agora?!

Kuroshi soltou Masaya e recuou.

“… Eu me exaltei um pouco. Embora me chamar de falso logo após dizer que não sabe nada sobre mim tenha sido realmente insultante…”

O que está acontecendo comigo? Eu não deveria ser tão agressivo… Apesar da culpa ser dele também. Meus sentimentos são absolutamente verdadeiros, ao menos os que criei aqui.

“Hmph, lamento por isso, mas é o que eu acredito.”

O rosto de Kuroshi se contorceu ao ouvir a resposta dele, mas dessa vez ele respirou fundo e decidiu continuar a conversa.

“Você disse que lutou contra Noah? Não imaginei que você fosse tão violento…”

Por algum motivo, Kuroshi puxou outro assunto com um tom de provocação.

“Isso é óbvio. Ele não só fez a Ryoka-chan chorar ao matar a Sayaka-chan, como feriu a Ryoka-chan vencendo-a em um duelo. Eu tinha que despejar a raiva nele de alguma forma.”

Ele responder como se fosse a coisa mais natural do mundo pegou Kuroshi de surpresa, já que o mesmo esperava que ele caísse na provocação.

“E agora você está seguindo o mesmo caminho, para prejudicar o [Partenon] direta ou indiretamente, mesmo que não seja proposital.”

Novamente essas acusações…!

“… Já deu. Cansei disso.”

Kuroshi declarou, se virou e caminhou em direção a porta para voltar para dentro da escola. Masaya não fez nada para impedi-lo. No entanto, ao abrir a porta, Kuroshi parou e olhou para Masaya mais uma vez.

“Só mais uma coisa. Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

Para a pergunta de Kuroshi, um silêncio de alguns segundos. Segundos esses que pareceram uma eternidade.

“… Hah…”

Masaya suspirou, como se estivesse cansado.

“Isso importa? Eu sou eu independente da existência de uma influência externa ou interna. Diria até que essa influência pode nada mais ser que parte do nosso subconsciente. Querer justificar ações, desejos ou características suas colocando a culpa em algo sobrenatural não é nada mais nada menos que insegurança ou covardia.”

“…”

Kuroshi não respondeu nada. Apenas se virou e se retirou do local.

Masaya, agora sozinho, encostou-se à grade de proteção e olhou para o céu.

Sim… Você é você independente de qualquer coisa. O que você faz, o que você pensa, o que você sente, sempre será ‘você’. Mesmo que exista uma influência por trás disso, é irrelevante. Afinal, porque você saber disso e mudar a si mesmo também não seria parte dessa influência?

Você falhou em um dos princípios básicos, Kuroshi. Aceitar-se do jeito que você é.

 

 

Droga… Droga… Droga…!

Kuroshi caminhava rapidamente.

A discussão com Masaya claramente o afetou bastante.

Mais importante ainda, com as faíscas geradas pelos dois, uma reunião de grupo inevitavelmente trará problemas.

Nos corredores do dormitório, Kuroshi parou e se encostou à parede.

Não é culpa minha… Eu não fiz nada de errado… Sim. A culpa é toda do… Hades. Ele que está mexendo comigo e tentando colocar meus amigos contra mim…!

O que pode ser feito contra algo que está dentro de você?—Kuroshi pensou. Se o problema de tudo for Hades, a única solução seria—

Maldição… Não vou ganhar nada gastando minhas frustrações aqui…

Decidindo se mover, Kuroshi foi em direção ao seu quarto.

Mas ao abrir a porta, ele deu de cara com alguém que ele realmente não esperava ver dentro do quarto dele.

“… Seira…?”

 

A situação era a seguinte: Kuroshi estava sentado na sua cama, braços apoiados nas coxas e olhando para o chão. Seira estava próxima a ele explicando o motivo dela estar lá.

“… Então basicamente por estarmos demorando demais para aparecer, Ryoka pediu para você vir até aqui e a Julie até o parque onde eu estava no outro dia, enquanto ela espera para ver se eu apareço no lugar combinado.”

Não havia como ter certeza de onde Kuroshi estaria, então o melhor a se fazer seria dividir. Kuroshi reagiu de maneira estranha a informação, sua cabeça estava abaixada então não tinha como ver o seu rosto, mas Seira não se sentia bem-vinda ali.

“… Sim… Nós precisávamos fazer uma reunião para resolver melhor sua situação, Kuroshi…”

“Minha situação?”

“… Você sabe, você tem agido estranho ultimamente, então… Queremos te ajudar.”

Até você…?

“Vamos, Kuroshi. Quanto mais cedo resolvermos o seu problema, melhor, né?”

Seira esticou a mão para Kuroshi, mas…

Meu problema… Isso não é…

Um estalo ecoou pelo quarto. Kuroshi deu um tapa na mão de Seira.

“Eu não preciso da ajuda de vocês!”

E levantou o tom de voz.

Aquilo foi tão “fora de personagem” que Seira ficou completamente paralisada.

“… Uh… Eu…”

Ela segurou sua mão atingida na altura do seu peito.

“… Acho que você precisa pensar um pouco… Quando se acalmar, pode… Sempre nos procurar!”

Com dificuldades, Seira terminou de falar e imediatamente se virou e saiu correndo, saindo por onde veio, a janela. Kuroshi não sabe se foi impressão dele ou não, mas pareceu ter visto uma lágrima cair do rosto dela.

O silêncio tomou conta do quarto.

Kuroshi colocou a mão no rosto.

O que… O que diabos eu estou fazendo?

Seus amigos estão obviamente preocupados com ele. Eles querem ajudá-lo.

Para Kuroshi ser ajudado, eles primeiro precisam descobrir qual a fonte do problema. E para isso, Kuroshi precisa conversar com eles. Para uma pessoa ser ajudada, ela primeiro precisa ajudar a si mesma.

Quanto tempo havia passado? Kuroshi estava há horas sentado na mesma posição.

Dessa forma eu acabarei sozinho… Eu preciso ir até meus amigos e falar tudo que eu preciso dizer… Se continuar assim…

“Kuroshi? O que aconteceu?”

Sem nem sequer notar a familiar presença entrando no quarto, a voz de Kurona fez Kuroshi levantar a cabeça, surpreso.

Já são essas horas?!

Kurona sempre aparece no quarto em horários específicos.

“…”

“Kuroshi?”

Eu…

“Tem algo de errado comigo?”

Kuroshi perguntou, preocupado. Mas Kurona apenas entortou de leve a cabeça para o lado, confusa.

Ela então se aproximou dele e colocou suas mãos nas bochechas de Kuroshi, logo em seguida se aproximando do rosto dele até ficar a centímetros de distância.

Kuroshi estava surpreso, mas Kurona olhava seriamente para os olhos dele.

Após alguns segundos, ela se afastou e colocou as mãos na cintura.

“Não há absolutamente nada de errado com você!”

Isso é uma piada?! NADA de errado? Será que ela… Nem sequer nota mais as diferenças em mim…?

Ele ficou incrédulo, e logo em seguida confuso. Ela não comentar nem sobre a cor dos seus olhos era um sinal de que ela nem sequer olha para ele direito… Ou ao menos era o que se passava na mente de Kuroshi.

“Não sei o que aconteceu, mas você parece estar criando um grande labirinto na sua cabeça para algo extremamente simples.”

“…?”

Kuroshi realmente ficou perdido com o que Kurona estava falando, apenas observando ela pegar algumas roupas.

Mas é a Kurona… Então talvez faça algum sentido…

“Nessas horas o melhor a se fazer é agir sem pensar muito.”

“…”

“Bem, era só isso que eu queria dizer. Faça o que você quer fazer. Força, Kuroshi!”

Kurona fez sinal de positivo com o polegar enquanto piscava o olho para ele e então se virou.

“… Você… Já está saindo?”

“Uhum. Você precisa de um tempo sozinho para refletir e decidir sua próxima ação, certo?”

Ao terminar de falar, ela levantou a mão acenando para ele e saiu do quarto.

Diante do silêncio novamente, Kuroshi refletia sobre o que Kurona havia acabado de dizer para ele.

 

 

Algumas horas depois. Kurona Yoshida se encontrava no seu quarto de hotel, deitada de barriga virada para baixo na cama, lendo um livro. No seu título dizia, em inglês, A Victorian Flower Dictionary.

Enquanto lia—

“Hm?”

A campainha do quarto tocou.

Kurona estranhou, já que a recepção nem sequer ligou para ela para pedir permissão para deixar alguém passar. Mas mesmo assim, ela se levantou e se dirigiu até a porta.

Ao abri-la.

“Ohh, que surpresa.”

Para o trio na sua frente, Kurona ofereceu uma reação natural. Ela então se virou e voltou para a cama, deixando a porta aberta.

Interpretando isso como um convite, as olharem umas para as outras, as três garotas entraram no quarto.

Kurona se sentou na cama. Com seu corpo um pouco jogado para trás, apoiado nos seus dois braços, e suas pernas cruzadas, ela sorriu para as três.

“O que a íris amarela, a jacinto azul e a cravo vermelho desejam?”

Ryoka, Seira e Julie não estavam gostando muito do tom de voz de Kurona, mas ignoraram por enquanto. Seira em especial parecia um pouco para baixo.

Kurona pensou em questioná-las como subiram até o quarto dela sem interferências e até cogitou a possibilidade do uso dos seus poderes como [Avatares de Deuses], mas ao olhar para Ryoka ela percebeu que, tal como ela, era bem óbvio os meios usados para chegar até aqui.

Ryoka fechou os olhos por um momento para considerar a melhor maneira de perguntar o que iria perguntar, e então ao se decidir, abriu os olhos novamente, dando um olhar perfurante na direção de Kurona.

“Nós viemos apenas para encontrar uma maneira de ajudar o Kuro-kun. Já que você é a amiga de infância dele e a única com conhecimento do passado dele, nós—“

“Eu recuso.”

Antes que pudesse terminar sua explicação, Kurona já descartou a proposta dela, o que deixou Ryoka bem surpresa.

“Você não nos ouviu? Nós estamos agindo pelo bem do Kuro-kun! Ou você não se importa com ele?!”

Kurona se ajeitou um pouco e levantou um dos braços, e com o punho fechado, levantou dois dos seus dedos.

“—Duas coisas.”

A ação de Kurona fez as três pararem e esperarem ela continuar.

“Primeira. Eu jamais irei contar para vocês algo que o Kuroshi escondeu até então.”

A escolha de palavras dela irritava todas as três, sem exceções. Ryoka deu um passo a frente.

“Não é como—“

“Segunda.”

Mas foi interrompida antes mesmo que pudesse dizer algo.

“Você disse ajudar o Kuroshi… Mas não é justamente o contrário que vocês vem fazendo? Quer dizer…”

Por um momento, as três ficaram sem reação, o que deu tempo para Kurona concluir seu pensamento.

“… Se vocês realmente quisessem ajudar, deixariam ele em paz.

Seira foi a primeira a reagir, e a com mais ferocidade. Ela já tentou andar em direção a Kurona com a intenção de lutar.

—Tentou.

Ryoka, que estava um passo a frente, colocou seu braço no caminho para impedi-la.

“Ryoka?!”

“Acalme-se, Sei-chan. Eu disse, não disse? Não viemos para lutar.”

Ao olhar para Seira e ver que ela recuou, Ryoka olhou novamente para Kurona.

“Você está dizendo que deveríamos deixar Kuro-kun do jeito que ele está agora?!”

Dessa vez, foi Kurona que expressou surpresa para o comentário de Ryoka.

“’Do jeito que ele está’? Eu não sei do que você está falando, mas agora eu sei quem andou fazendo a cabeça do Kuroshi para fazê-lo acreditar que tem algo de errado com ele.”

A expressão de Ryoka se contorceu. Ela não conseguia acreditar que a garota diante dela estava falando sério. Mas ela era obrigada a isso… Afinal—

Meu [Analyzer] não detectou nenhuma mentira, essa garota—

“Vamos embora, Sei-chan, Julie-chan.”

As duas concordaram, e sem se despedirem, as três se retiraram do quarto.

Kurona suspirou.

Me pergunto o porque das três terem vindo se não pretendiam lutar… Bem, elas não pretendiam lutar, talvez tenham considerado que eu poderia começar uma luta e vieram em maior número por precaução?

Além disso, elas nem fecharam a porta. Que rude.

Suspirando novamente, Kurona se levantou para fechar a porta.

 

Nos corredores do hotel, as três caminhavam em direção a saída.

“Está tudo bem sair assim, Ryoka-senpai?”

“Mhmm.”

Ao ouvir a pergunta de Julie, Ryoka apenas “afirmou” positivamente com um som. Aquilo ainda mexia com a cabeça dela.

“Sei-chan, Julie-chan.”

As duas pararam ao serem chamadas, Ryoka então parou e se virou para elas.

“Era só uma hipótese antes, mas agora é possível dizer que é quase certo que a causa do Kuro-kun estar daquele jeito é aquela garota.”

Seira parecia estar esperando por isso, uma vez que ela balançou a cabeça para cima e para baixo imediatamente.

“Ela não mentiu em nenhum momento da nossa conversa.”

Tal revelação surpreendeu as duas.

“Mas isso não significa que ela esteja falando a verdade também.”

“Ryoka… Você quer dizer—“

“Eh? O que vocês pensaram?”

A explicação é simples.

“Meu [Analyzer] pode perceber uma pessoa que esteja mentindo… Mas eu não sou onipotente, nem tenho controle sobre a verdade. Mesmo que ela não esteja dizendo a verdade, se ela acreditar que não está mentindo…”

“Ahh!”

Julie então percebeu.

O [Analyzer] não pode analisar palavras, mas sim comportamentos. Uma pessoa que está mentindo e sabe que está mentindo quase sempre irá apresentar sinais, por mais banais que sejam, de que ela sabe que não está falando a verdade.

Mas e se a pessoa em questão não achar que está mentindo? Uma pessoa que ouviu uma mentira de alguém de extrema confiança pode acabar considerando tal mentira como verdade, e ao contar para outra pessoa, na sua cabeça ela estará apenas expondo um fato, sem chances de ser falso.

O mesmo vale para pessoas com certos tipos de distúrbios ou problemas mentais e emocionais. Em muitos casos específicos, não importa o quão absurdo seja o que a pessoa está falando, dependendo do problema psicológico, ela pode ter certeza que está falando algo normal.

Se por um acaso a teoria de Ryoka estiver certa—

“Então ela está afetando o Kuroshi e fazendo-o ficar daquele jeito, mas na sua cabeça nada mudou?”

Sim, é como Seira diz.

Ryoka acenou positivamente com a cabeça.

“O maior problema é… Sem saber quase nada sobre o passado dela com o Kuro-kun, não tem como sabermos exatamente a fonte do problema. Logo, não tem como agirmos para solucionarmos esse caso. Nessa situação, se continuar a piorar, a única saída seria—“

Ela não precisou terminar de falar para Seira e Julie entenderem.

Seguindo essa linha de pensamento, provavelmente Kuroshi está naquela situação por algo que Kurona fez. Ou seja, uma habilidade da [Avatar de Perséfone]. Além disso, se ela realmente tem algum problema psicológico, grandes são as chances de isso ter sido causado pela [Guerra Divina]. Então, a solução mais simples seria—Matá-la.

As três ficaram em silêncio.

Fosse uma pessoa qualquer, seria uma opção mais considerável. Mas sendo a amiga de infância de Kuroshi, a situação se torna muito mais delicada.

Ryoka imaginou como ela se sentiria se fosse o Masaya no lugar da Kurona, e ela no lugar do Kuroshi.

Sua face distorceu só de imaginar.

Quanto tempo nós ainda temos?—O pensamento de Ryoka se referia até Kuroshi passar do ponto crítico.

Toda essa situação de hoje aconteceu por causa da atitude agressiva de Kuroshi em relação a Seira.

Quando Ryoka ouviu isso dela, ela ficou incrédula.

Nesses quase um ano que ela conhece Kuroshi, se tem uma coisa que ela tem certeza absoluta que nunca aconteceria, é ele tomar uma atitude agressiva em relação a Seira em uma situação comum.

Se o Kuro-kun não quer revelar seu passado, e a Kurona Yoshida também não, eu…

Para alguém como Ryoka, com um forte senso de justiça, algumas coisas são intoleráveis.

Invadir o quarto do Kuroshi para tentar achar algo que desse pistas da fonte do problema já era uma ação que ela muito repudiou.

Mas…

Existe uma maneira de descobrir sobre o passado dos dois facilmente.

Sim—[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].

Uma técnica que Ryoka possui, que pode “reviver” qualquer história, tendo algo que faça a conexão para uma história específica. Se ela forçasse Kuroshi a se submeter a tal técnica, ela poderia investigar o passado dele sem dificuldades.

Absurdo. Eu nunca, nunca irei recorrer a isso.

Ela já se sentiu enojada só de considerar a possibilidade.

“Ryoka?”

Só ao sentir um toque no seu ombro e ouvir a voz de Seira que ela voltou a realidade.

“… Desculpe. Vamos indo.”

As três se retiraram do hotel.

Está certo. Eu não falei para a Sei-chan, mas o maior problema desse caso e o motivo para ele estar tão difícil de resolver é…

Era algo óbvio, que Ryoka percebeu assim que parou para pensar. Talvez Seira já tenha percebido também, ou talvez ela simplesmente não queira perceber. O tal estopim, o motivo que formou essa situação, não é algo atual.

A verdade é que…

Nós não sabemos absolutamente nada sobre Kuroshi Kouji.

Admitir era doloroso. Isso para Ryoka, ela nem imagina como Seira iria se sentir.

Mas era um fato.

Claro, teve toda a história de quando Kuroshi era uma criança, e seus pais morreram em um incêndio.

Mas e depois disso? O que aconteceu nesse intervalo de cerca de 10 anos desde as mortes dos pais dele até o dia em que ele se transferiu para o Colégio Aohoshi?

Não é necessário um relatório super detalhado sobre a vida pessoal da pessoa, mas dentro dessa roda de amigos, Kuroshi é o único que ninguém sabe absolutamente nada de parte da sua infância até metade da sua adolescência.

Aquilo estava colocando Ryoka contra a parede.

Seu grande amigo, que já lutou muitas lutas ao seu lado, agora é um grande ponto de interrogação para ela.

Por já estar acostumada a trabalhar sobre pressão, Ryoka conseguia esconder esse fato. Mas por quanto tempo essa bomba ficará desarmada?

Talvez ele esteja com medo de revelar seu passado justamente por pensamentos como esse… Tch!

Sentimentos obscuros que estavam tentando ocupar o coração de Ryoka foram expelidos pela luz da justiça. Antes de qualquer coisa—

Eu preciso confiar nos meus amigos, para que eles possam confiar em mim.

A determinação de Ryoka foi renovada naquele momento.

 

 

No dia seguinte—

“Ryoka!”

“Uuh… O que foi?”

Ao ouvir sua colega de quarto chama-la, Ryoka relutantemente acordou. Ainda era cedo demais para levantar, mas como sua colega de quarto pratica exercícios constantemente, ela acorda mais cedo que o normal.

Ryoka se sentou na cama e olhou para sua colega.

Ela estava com um papel na mão, entregando para Ryoka.

“… O que é isso?”

“Uma carta. Para você.”

As duas ficaram paradas em silêncio por alguns segundos.

Ryoka então mexeu nos seus cabelos da cabeça como se estivesse pensando em algo.

“Não podia se confessar em um horário mais normal?”

“Hahaha, se você tem tempo para fazer piadas a essa hora, então pode vir correr comigo!”

“… Desculpa.”

Ryoka pegou a carta ao se desculpar.

“Agora se me dá licença, até mais!”

Sua colega de quarto se virou e rapidamente saiu do quarto.

“… Hah…”

Ela então olhou para carta, a parte frontal estava selada.

Quem envia cartas hoje em dia?

Ryoka então olhou a parte de trás da carta—

“?!”

Entendo! Então foi isso que você decidiu…!

 

 

Ryoka imediatamente reuniu todo mundo na sala do conselho estudantil.

Todo mundo, exceto Kuroshi.

“O que aconteceu, Ryoka?”

Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, então Seira perguntou.

“Eu recebi essa carta. Eu ainda não a abri.”

Ela mostrou a carta de longe.

“O que tem ela, Ryoka-chan?”

Agora foi a vez de Masaya perguntar.

Como resposta, Ryoka virou a parte de trás da carta para todos verem.

“Vejam.”

[De: Kuroshi

Para: Todos

Sobre minha vida—Meu passado.]

Dessa vez todos reagiram com surpresa.

“Aqui nesse envelope está, provavelmente, tudo que precisamos saber sobre o Kuro-kun. Com sorte um jeito de ajuda-lo.”

Além disso, outra coisa que passou pela cabeça de Ryoka, foi que de fato ele se sentiu inseguro em relação ao seu passado.

Não era realmente tão diferente de uma pessoa que prefere confessar seus sentimentos através de uma carta ao invés de falar com a pessoa diretamente.

Ryoka nem sequer consegue imaginar o motivo dele ter escondido seu passado esse tempo todo, ou o motivo dele não ter tido a coragem de falar com eles diretamente. Mas ela irá aceitar uma carta de bom grado se for para descobrir a fonte do problema.

Ele propositalmente enviou a carta para Ryoka, sabendo que ela sem duvidas apenas leria a carta com todos juntos.

E cumprindo com essas expectativas, ela abriu a carta e tirou um grande papel dobrado, com uma grande quantidade de texto. Não só um, mas sim dois deles. Ambos numerados com ‘1’ e ‘2’.

“Pois bem—“

O que todos estavam ansiosos para saber, começou a ser revelado.

 

 

Enquanto isso, Kuroshi andava pelo campus.

Sua mão estava no seu rosto, seu olhar direcionado para o chão—Não, para algum lugar distante.

Ele andava um pouco torto.

Para onde você está indo?

A voz o atacou novamente, ao olhar para trás, ele viu sua sombra se estendendo em um tamanho surreal. Além da forma humanoide, sua sombra tinha um sorriso e olhos maléficos.

Kuroshi começou a correr.

Você não pode correr de mim.

Correr de mim é o mesmo que correr de você mesmo.

Impossível.

Sem dar ouvidos para aquela coisa, ele continuou correndo.

Eu sou eu, você é você! E você está tentando acabar comigo! Tentando me consumir! Eu não deixarei!

Antes que percebesse, a voz já havia sumido.

Ele estava na praça novamente, diante do chafariz.

Kuroshi então olhou para a água. O que ele viu—

Um homem de cabelos roxos e olhos vermelhos, uma pessoa que ele nunca havia visto antes.

Quem diabos é você?!

Furioso, ele atingiu a água com um tapa e caiu de joelhos no chão.

Quem diabos é você? Quem diabos é você?

Você está falando comigo? Ou consigo mesmo?

A voz novamente o atormentou.

Cale-se! Eu não vou mais cair na sua farsa!

Eu… Eu sou… Eu definitivamente… Uh… Quem…

“… Ah… Hah…”

Kuroshi colocou as duas mãos no rosto, deixando visível apenas seu par de olhos escarlate.

Subitamente, uma [Dimensão Reversa] foi aberta.

“HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! AAAAH HAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!”

Ali, naquela [Dimensão Reversa], apenas um [Avatar de Deus] residia.

Apenas uma pessoa presente ali dentro.

Quem era essa pessoa?

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