Kami no Sensou – Cravo Amarelo (Volume 6: Capítulo 3)

O que está acontecendo comigo?

Voltando rapidamente para seu quarto, Kuroshi se deitou na cama de braços abertos e começou a encarar o teto.

As aulas do dia nem sequer passaram pela sua cabeça.

Eu estou… Confuso?

Ouvir a história de Ryoka e Masaya fez Kuroshi se sentir mal. Mas o motivo não estava claro na sua mente.

Amigos de infância?

Relações complexas?

Problemas familiares?

[Guerra Divina]?

Esses sentimentos não identificáveis… Uma possível causa para eles é…

“Kuroshi?”

Ao ouvir uma voz muito familiar, Kuroshi se sentou na cama no susto e olhou em direção a saída.

Na sua frente estava uma linda garota de olhos e cabelos pretos.

“Kurona…”

“Você não deveria faltar aulas após tanto tempo sem ir.”

Enquanto falava, Kurona casualmente foi até uma gaveta e começou a pegar algumas roupas.

“Aah, me pergunto por que alguns dias me sinto mais a vontade com certas roupas…”

“… Kurona.”

“Hm?”

Ver aquela garota na sua frente fez seus sentimentos entrarem em conflito. Muito embora a garota olhasse para ele com um olhar de curiosidade, algo nela parecia dizer que seu nível de inocência era zero.

“… Você… Mesmo podendo dormir neste quarto, você ainda fica em um hotel… É porque você se recusa a dormir sobre o mesmo teto que eu?”

… O que diabos eu estou dizendo?

Ela nem sequer devia estar morando no dormitório masculino…

Porque eu perguntei isso…?

Percebendo que a pergunta já estava feita, Kuroshi colocou a mão na testa em frustração.

Nenhum dos dois falava mais nada, e Kuroshi não tinha coragem para olhar para a cara dela depois de uma pergunta estranha dessas, então ele não sabia o que fazer. Até que—

“Pfft! Hahahahaha”

Ao ver a reação dela, a frustração de Kuroshi aumentou.

“Hahaha… Desculpa, não precisa fazer essa cara.”

“…”

Kurona colocou algumas peças de roupas em uma bolsa e se preparou para sair.

“Não fique mal-humorado. Mas não tinha como eu reagir diferente a uma pergunta dessas, certo? Afinal…”

Ela então se virou para Kuroshi e terminou:

“… Nós já até dormimos na mesma cama. Dormir sobre o mesmo teto seria o de menos.”

A resposta espontânea e natural dela pegou Kuroshi de surpresa.

Ela não estava tentando provoca-lo, tal como ela também não estava envergonhada pelo próprio comentário. Essa naturalidade fez Kuroshi se sentir extremamente estúpido por estar agindo daquela forma. Mas é justamente por isso—

Ah.

Era tão óbvio…

“Então, nos vemos em breve. Até mais, Kuroshi.”

Repentinamente, Kurona se despediu e se dirigiu até a saída.

“Kurona!”

Mas Kuroshi a impediu antes.

Ela somente parou, sem olhar para trás.

“Porque… Porque você voltou para o Japão?”

Se virando apenas o suficiente para olhar na direção dele, Kurona respondeu:

“Para corrigir um erro.”

“Um erro? Que erro?”

“Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.”

E então se retirou do quarto.

Kuroshi, agora sozinho, só pode amaldiçoar a si mesmo.

Veja esse meu estado patético…

É óbvio que ela não ficaria aqui quando ela sabe que é a causa desse meu estado…!

Para me dar espaço para organizar meus sentimentos, ela mantem a devida distância…

Era como uma bola de neve.

Cada vez maior e mais difícil de parar.

Kuroshi estava errado, e ele saber disso só o faz se sentir pior.

Talvez a história de Ryoka e Masaya tenha servido para guia-lo para alguma direção.

Ele só precisa segui-la.

 

 

Uma bela cena acontecia escondida dos olhos de todos.

Kurona dançava. Girando seu corpo de braços abertos com um leve sorriso no rosto.

Ao redor dela, o mais perfeito jardim se encontrava. Flores das mais comuns até as mais exóticas ou mesmo flores completamente desconhecidas, todas elas com uma coisa em comum: O perfeito estado de beleza e bom cuidado, independente da raridade, todas elas brilhavam de maneira sobrenatural.

Dizem que “nada é perfeito”. Ao menos não quando relacionado aos humanos e suas criações.

Talvez isso se aplique a essa situação também, dependendo do ponto de vista.

O jardim de fato é perfeito. A beleza natural de Kurona não mancha em nada a aparência do jardim, muito pelo contrário, até auxilia.

No entanto, fazendo um contraste surreal com o grande jardim, o céu escarlate criava uma atmosfera extraordinária no local.

Do jardim, era possível ver na distância, um portão de tamanho colossal, completamente negro e que passava um ar sinistro.

“Realmente não irá desfazer a lótus, Kurona?”

A pergunta direcionada a ela a fez parar de dançar.

Ao olhar para uma área especifica do jardim, Kurona avistou uma moça.

A beleza de Kurona já não é novidade para ninguém, isso é um fato. No entanto, a mulher diante dela chega a um nível além. Kurona realmente é muito bonita, mas ainda dentro dos padrões comuns da sociedade. Já a mulher diante dela possuía uma beleza exorbitante, algo que a maioria das pessoas normalmente nunca veriam diretamente no seu curto tempo de vida. Embora alguém como ela certamente seria usada como modelo para alguma pintura famosa, expondo sua aparência quase divina ao mundo.

Ela estava sentada na grama, mexendo nas flores. Seus cabelos, assim como os de Kurona, eram negros. A diferença é que eles eram surpreendentemente longos. Ao contrário de Kurona cujo cabelo não passa da cintura, os cabelos da dama muito provavelmente chegariam até os seus pés. Como tal, por estar sentada, seus cabelos se estendiam pelo chão, criando uma imagem verdadeiramente pitoresca combinado com o jardim.

Seus olhos eram verde esmeralda, e seu longo vestido era uma túnica grega de cor verde água-marinha.

“Eu não posso voltar atrás até nisso… Se ele não se reencontrar sozinho, de nada adiantará. Entendo o que quer dizer, mas independente da escolha que ele fizer, eu o apoiarei.”

“Imagino se ele também se envolverá nisso…”

A mulher olhou para a distância com um olhar solitário.

“… O que exatamente são vocês?”

O sorriso de Kurona já havia sumido quando ela terminou a pergunta. Mas como se tivesse sido trazida de volta para a realidade, a mulher apenas sorriu gentilmente ao olhar para Kurona e disse:

Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.

“… Haa… Você me pegou nessa.”

Kurona rapidamente desistiu e deu de ombros ao ouvir exatamente a mesma frase que ela havia dito pouco tempo atrás.

“Em todo caso, mesmo no escuro minha promessa de trazê-lo de volta para você se mantém.”

“…”

“Não faça essa cara. Eu sei o que isso significa e estou pronta para lidar com isso, principalmente quando um dos motivos para eu reconhecer meu erro ter sido você.”

Com o sorriso de volta no rosto, Kurona declarou antes de se virar.

Não foi muito depois que Kurona simplesmente desapareceu daquele lugar.

“Essa garota… O quanto ela consegue aguentar sozinha?”

 

 

“Ainda restam duvidas de que há algo de errado com ele?”

No dormitório feminino, mais especificadamente no quarto de Ryoka, três garotas, ela incluso, conversavam.

“Mhmm, depois da história da Ryoka-senpai, ele não deu mais as caras ontem…”

A pergunta foi de Seira e a resposta de Julie. Havia se passado um dia desde que Ryoka contou sua história com Masaya.

Após aquilo, Kuroshi não deu mais sinais de vida, ao menos não pessoalmente. As garotas mandaram mensagens para ele, as quais ele respondia, mas sempre tentando evitar se explicar.

“O melhor jeito de se resolver isso é falando diretamente com ele. Masaya me enviou uma mensagem há pouco tempo atrás avisando que avistou Kuroshi se dirigindo até a praça.”

Como de costume, Ryoka sempre era a voz da razão nas discussões.

“Então…!”

“Espere, Sei-chan. Eu irei até ele.”

Ao ver a cara de decepção da sua grande amiga, Ryoka até ficou com um pouco de pena, mas era apenas a escolha mais lógica.

“Você ir até ele provavelmente só irá criar uma pressão desnecessária e o fará ficar na defensiva. Por outro lado, se a Julie for, ele provavelmente vai dispensá-la sem leva-la a sério, como sempre.”

“Fueh? Porque eu tenho a impressão de que estão tirando sarro de mim?”

Julie olhou para cima, refletindo seriamente. Ryoka apenas decidiu ignorá-la por enquanto.

“Enquanto eu dialogo com ele, vocês duas farão outra missão.”

Ao ver que conseguiu a atenção e curiosidade das duas, Ryoka continuou.

“Não é algo que eu goste ou ache certo, mas nossas circunstâncias não são normais, então pedirei para que vocês deem uma olhada no quarto dele, da maneira menos invasiva possível. Vocês podem recusar, se quiserem, claro.”

Invadir a privacidade alheia deixava Ryoka aflita, pior ainda é passar essa tarefa para suas amigas. Mas ela preferiu seguir o lema ‘não me arrependo do que faço, mas sim do que deixo de fazer’. Quando for tarde demais, não terá mais volta.

“Nós faremos.”

Seira afirmou sem hesitar, Julie acenou positivamente concordando com a resposta.

“Nesse caso…”

 

 

Kuroshi estava sentado no banco da praça olhando para o céu.

Ele não escolheu vir para cá aleatoriamente, havia um motivo para isso.

E este era—

“Kuro-kun.”

Seu par de olhos vermelhos imediatamente demonstraram surpresa ao arregalarem e olharem para direção da voz.

Alguém que ele jamais esperava ver ali, justamente a essa hora, apareceu.

“… Ryoka…”

Sem esperar nenhum convite, Ryoka se sentou do lado dele. Ao fazer isso, ela olhou diretamente nos olhos dele, que tentou desviar o olhar como resposta.

“O que está acontecendo com você?”

“… Não é nada…”

Dada a situação, tal resposta devia até mesmo ser considerada inútil, mas mesmo assim ele a usou.

“Não tente mentir. Você sabe que eu posso identificar mentiras com o meu [Analyzer], certo?”

Ao ser lembrado disso, Kuroshi notou que já estava em um beco sem saída.

“… Você tem razão… Eu… Contarei a verdade…”

“Hah… Francamente. Devia estar com essa mentalidade desde o começo. Somos amigos, não somos?”

Ryoka suspirou, como uma mãe tendo que lidar com o filho que fez alguma besteira, mas está com medo de contar.

“Por sinal. O que eu disse sobre o meu [Analyzer] era só um blefe, jamais usaria algo assim para tentar desmentir algum amigo, isso só significaria que eu não tenho confiança na pessoa.”

Ryoka não sabia se estava explicando isso para dizer como se sente ou por se sentir culpada por conta da missão que deu para Seira e Julie.

Eu realmente caí nessa… Devia ter imaginado…

Amaldiçoando sua própria ingenuidade, Kuroshi apenas aceitou que caiu facilmente nos jogos mentais de Ryoka. Se é que pode ser chamado disto.

“E então?”

Novamente pressionado, Kuroshi decidiu revelar a verdade.

“… Eu já te contei sobre a minha amiga de infância, Kurona Yoshida, certo?”

Era uma pergunta retórica, por isso, Kuroshi não esperou resposta e continuou falando.

“Bem, nossa história é um tanto quanto mais complicada do que eu fiz parecer para vocês…”

Ryoka ficou um pouco surpresa. Não por essa revelação, no entanto.

“Entendo, então por isso minha história com o Masaya te afetou mais do que deveria.”

“Sim… Não esperava algo tão relacionável naquele momento…”

“Desculpe, Kuro-kun.”

“Huh?”

“Originalmente eu iria apenas contar as partes mais importantes do meu passado, como o efeito colateral do [Analyzer] ou a minha relação com o Masaya… Mas ao te ver agindo estranho ali, decidi contar tudo e tentar te dizer indiretamente que você podia contar conosco, seus amigos.”

“…”

As palavras ditas por Ryoka ontem vieram a mente de Kuroshi.

Existem alguns motivos para eu ter decidido mostrar essa história a vocês… O primeiro e mais óbvio, é a confiança e afinidade do nosso grupo. Todo mundo tem uma coisa ou outra que gostaria de esconder, mas creio que conhecer a origem do que somos hoje é algo necessário.

O quão perceptiva e o quão longe essa garota consegue pensar…?

Ele tentou evitar, mas desde sempre esteve no alcance dela. Se o dissessem que Ryoka não precisa do [Analyzer] para ser inteligente e perceptiva, ele usaria essa situação como exemplo. E o mais importante de tudo, a atenção que ela deu a ele mesmo enquanto se concentrava em mostrar seu passado para todos era insana, ainda mais por se tratar dela, que certamente deu a mesma quantidade de atenção para todos os outros.

Definitivamente uma pessoa que luta no melhor estilo “um por todos”. Essa é Ryoka Illsbert.

“Então, o que essa amiga de infância tem a ver com a situação atual? Você não se sentiria mal se esse segredo não nos afetasse de alguma forma.”

Ryoka conduzia a conversa cautelosamente, mas cada pergunta dela era feita com uma boa expectativa de qual seria a resposta.

“Ela também é uma [Avatar de Deus]. E ela, que estava morando no exterior, está aqui na cidade agora.”

A expressão de Ryoka não sofreu mudanças, tudo dentro do esperado.

“Desde que ela voltou, coisas estranhas começaram a acontecer comigo… Como esses olhos…”

Ou como essa maneira insegura de agir—Pensou Ryoka no momento. De fato ele estava muito fora do comum, e de fato a maior causa provavelmente é a tal garota.

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é…”

 

 

“Você realmente está bem com isso, Seira-senpai?”

Julie questionou Seira, já demonstrando um pouco de hesitação enquanto as duas estavam de pé diante do dormitório masculino, logo debaixo da janela do quarto de Kuroshi.

“Não estou. Mas é como dizem, há males que vem para o bem. Então vamos logo.”

Decidindo não gastar mais tempo já que não sabiam quando Kuroshi voltaria, as duas saltaram do chão até a sacada. Rapidamente descendo na pequena varanda e entrando no quarto, as duas—

Encontraram uma pessoa, uma garota, deitada na cama de Kuroshi, abraçada com o travesseiro dele.

A virada inesperada de eventos fez Julie simplesmente congelar. Enquanto Seira ficou duas vezes mais séria ao ver aquela situação.

A garota apenas olhava casualmente para as duas com um olhar de surpresa.

“… Quem é você? Entrar no dormitório do sexo oposto em permissão é passível de expulsão…”

A jovem moça de cabelos pretos diante de Seira e Julie cobria toda a parte inferior do seu rosto com o travesseiro enquanto se sentava. Não era possível ver sua boca, mas seus olhos pareciam rir das palavras de Seira.

“Ora? Eu tenho permissão, este é meu quarto, afinal. Vocês duas por outro lado… Talvez eu devesse avisar alguma autoridade sobre essa invasão?”

A expressão de Seira instantaneamente mudou de seriedade para choque.

Se o que a garota disse é verdade, Seira acabou de pisar em um campo minado.

O choque fez ela ficar totalmente sem reação.

Uwaaah, o que eu faço? O que eu faço?!

Julie começou a entrar em estado de pânico ao ver a tensão no ar subir.

Só há um jeito…!

Julie.exe parou de funcionar.

Quando Seira conseguiu se recuperar do baque, ela deu um passo a frente.

“Nós somos amig—“

Julie usou suas habilidades físicas sobre-humanas para se mover rapidamente para trás da garota.

A estratégia de ‘apagar as testemunhas’. Colocá-la para dormir e resolver o problema a partir daí.

Quando o braço de Julie, claramente agindo sem pensar, se aproximou da garota—

“Espere, Julie!”

Ela instintivamente parou ao ouvir a voz de Seira.

Todas as 3 pararam de se mover. Não tinha como Seira deixar aquilo passar.

“… Quem é você?

Seira repetiu a mesma pergunta de antes, porém, com uma entonação completamente diferente. Mais ameaçadora.

“S-Seira-senpai…?”

Visto que nenhuma resposta vinha da misteriosa pessoa, Seira estendeu seu braço para frente e no momento seguinte—

Todas as cores se inverteram completamente.

—[Dimensão Reversa].

Julie se surpreendeu ao ver a ação de Seira, mas levou um real susto ao ver que a garota de cabelos pretos ainda estava presente.

“Você… Acompanhou os movimentos da Julie com os olhos, nenhum humano normal teria essa capacidade.”

“… Haa… Você é muito séria. E você agora está bem mais energética do que antes, huh.”

A garota—Kurona—soltou o travesseiro após se dirigir primeiro a Seira e depois a Julie.

O maior choque para Julie foi finalmente poder ver o rosto da pessoa.

“Você é… A garota da flor…”

A garota que deu uma flor para ela, a mesma que guiou Kuroshi e os outros até o local onde ela estava escondida.

Ao ouvir as palavras de Julie, até Seira se surpreendeu.

Indiretamente, a pessoa diante dela ajudou no resgate de Julie.

Vendo que conseguiu desarmar as duas, Kurona se levantou da cama.

“Podemos parar com as hostilidades? Vocês atacam os outros do nada normalmente assim mesmo ou é algo pessoal contra mim?”

Kurona levantou os dois braços na altura dos ombros, enquanto mantinha um sorriso no rosto.

Seira a encarou por alguns segundos, antes de respondê-la.

“Nós nem sequer te conhecemos, não temos nada pessoal contra você. Mas é apenas natural manter a cautela diante de um [Avatar de Deus] desconhecido, certo?”

A discussão novamente se tornou entre Kurona e Seira, Julie não conseguia ver brecha para dizer algo.

Ao ouvir a resposta de Seira, Kurona olhou para ela, surpresa, talvez tão surpresa que parecia um tanto quanto falso.

“Ora. Kuroshi não deve ter contado sobre mim para vocês, então.”

Uma única frase foi o suficiente para destruir o equilíbrio que Seira estava reconstruindo depois do choque inicial.

“Pela terceira vez… Quem diabos é você? Você tem alguma relação com as mudanças que aconteceram no Kuroshi?”

Ela não esperava uma resposta assumindo culpa nem nada do tipo, mas a fez mesmo assim. No entanto—

“Hah? Mudanças? No Kuroshi? Ele não sofreu absolutamente nenhuma mudança até onde sei, ao menos não recentemente. Tem certeza que não é só impressão sua?”

Ela não parecia estar mentindo, mas por alguma razão, cada resposta de Kurona deixava Seira mais no limite da paciência.

“Definitivamente não é só impressão minha, eu já o conheço há muito tempo, algo desse nível não passaria despercebido por mim.”

“Heh~ Será mesmo? Me pareceu que você nem sequer conhece ele direito, no entanto.”

“… O que você disse?”

As palavras de Kurona atingiram Seira violentamente. Aquilo foi praticamente uma afronta a tudo que os dois já haviam passado para ela.

Com o braço estendido, um tridente dourado se formou na mão de Seira e a ponta dele ficou há poucos centímetros do pescoço de Kurona.

“E-Ei, Seira-senpai… Não está exagerando um pouco…?”

Julie finalmente viu uma brecha para tentar impedir as duas.

Mas ela foi ignorada por ambas.

“Desafio você a repetir o que disse.”

O sorriso que estava até agora presente no rosto de Kurona desapareceu.

“Você acha que é próxima dele, mas pelo visto isso é apenas uma ilusão de uma garota imatu—“

Antes de conseguir terminar a frase, o tridente se moveu violentamente em direção horizontal mirando o pescoço de Kurona.

“Seira-senp—Eh?!”

O estrondo, seguido da ventania que se espalhou pelo quarto, foi originado pela colisão do tridente com o lado externo do pulso de Kurona. Tudo que o ataque de Seira conseguiu fazer foi mover os cabelos de Kurona com a onda de impacto.

Em um momento de susto, mesmo em um local fechado, Seira saltou para trás. No entanto—

Rápida?!

Em um movimento quase imperceptível, Kurona já estava extremamente próxima de Seira, ela então aproveitou o movimento precipitado da oponente e usou o seu antebraço, atingindo o pescoço de Seira e empurrando ela contra a parede.

“Criar uma [Dimensão Reversa] desse tamanho foi um equivoco. Não que o tamanho dela fosse fazer diferença, de qualquer forma.”

“Seira-senpai!”

Já com sua lança criada, Julie partiu para o ataque. Vendo o movimento feroz da lança na sua direção, sem tirar o antebraço do pescoço de Seira, Kurona levantou sua perna e defendeu o ataque com a sola do pé. A força da colisão jogou Julie para trás. Porém—

“?!”

Kurona saltou para trás ao sentir uma queimadura no seu antebraço. Ao olhar, ela percebeu que tal queimadura era simplesmente gelo, seu antebraço estava congelado.

“[Water Whip]!”

Um longo chicote de água atacou Kurona incessantemente, que tentava desviar de todas as investidas.

“Uh!”

No entanto, em um dos seus rápidos movimentos, ela acabou chegando em uma das quinas do quarto, sem espaço para desviar.  O que ela disse antes acabou se voltando contra ela mesma.

Saltando no último momento, ela evitou um ataque certeiro, mas o chicote amarrou seu tornozelo. Com a habilidade especial do constante fluxo da água, o chicote puxou Kurona em direção a Seira.

“Não ache que conseguirá algo lutando de mãos vazias!”

Na direção que Kurona estava sendo puxada, a ponta do tridente de Seira avançava na direção dela. Quando os dois estavam prestes a se encontrar, Kurona usou a palma da sua mão para colidir com a ponta do tridente.

O barulho de vidro quebrando ecoou pelo quarto, e através dos fragmentos do tridente destruído era possível ver a expressão de choque de Seira.

Se aproveitando do efeito do [Water Whip], Kurona conseguiu chegar até Seira rapidamente e com um giro do seu corpo, ela atingiu o rosto de Seira com o lado externo da mão, jogando ela contra a parede.

Seira conseguiu se levantar sem problemas, para alguém que destroçou seu tridente, o ataque dela até que foi fraco.

Nesse caso, eu—Huh?…

Enquanto pensava no seu próximo movimento, o corpo de Seira ficou pesado e caiu de joelhos no chão. Assim que isso aconteceu ela notou que Julie também estava caída no chão, ainda consciente, mas sem conseguir se mover.

Kurona se aproximou de Seira e empurrou ela contra a parede, sua mão acima do seu ombro e seu rosto há meros centímetros do rosto dela.

“Desculpa, não lutei de mãos vazias por subestimar vocês. Eu simplesmente não sou uma [Avatar de Deus] especializada em lutas.”

Seira não soube como reagir. Seu corpo não se movia.

“Muito bem, agora…”

Kurona colocou sua mão no rosto de Seira, quando—

“!”

Um feixe de luz passou pelos seus olhos e perfurou o chão entre as duas.

“Se afaste dela, Kurona Yoshida.”

Em frente a janela—

“Ryoka!”

Exato, Seira estava perfeitamente certa.

Kurona se levantou lentamente e levantou os braços, como um gesto de “cessar fogo”.

“Mais qualquer tentativa de agressão as minhas amigas e serei obrigada a travar uma batalha de verdade contra você.”

O sorriso de Kurona já havia voltado ao seu rosto a essa altura, mas ela não dizia nada.

Um leve olhar no cenário já dava para dizer o que estava acontecendo, então Ryoka afirmou:

“Seus poderes não funcionarão contra mim. Não sei o que te fez atacar Sei-chan e Julie-chan, mas em questão de conhecimento, podemos concluir que eu estou na frente, não acha… [Avatar de Perséfone]?”

Ryoka propositalmente revelou a identidade de Kurona para demonstrar superioridade na situação, mas ainda não foi o bastante para quebrar o seu sorriso. Muito pelo contrário, por algum motivo, Kurona parecia até mais confiante. Mantendo-se calada, ela conseguiu o feito de deixar Ryoka um pouco impaciente. Como se tivesse sido atingida por uma premonição, a face de Seira se contorceu.

Ryoka então disse:

“Parece que você não entendeu ainda… Cancele essa [Dimensão Reversa] de uma vez, caso contrário considerarei isso uma declaração de guerra.”

Era exatamente o que Kurona estava esperando ouvir.

“Uwah, que medo. Medo de como nossa sociedade se tornou tendenciosa e ignorante, não é mesmo, Seira?”

Kurona por algum motivo dirigiu-se a Seira, o que deixou Ryoka confusa.

“… Eu fecharei a [Dimensão Reversa]…”

As palavras de Seira deixaram Ryoka chocada.

“Definitivamente hoje não foi um bom dia, huh? Invadem o meu quarto, me atacam e ainda tentam me colocar como a vilã da história, esperava mais do famoso [Partenon]…”

O tom de voz dela era provocativo, mas as palavras e sua expressão eram sinceras.

“…”

Ryoka ficou totalmente sem ação.

Seira cancelou a [Dimensão Reversa]. Kurona fechou os olhos e pegou suas coisas, se dirigindo até a saída sem dizer mais nada ou olhar para qualquer uma das três.

Após a saída de Kurona, o quarto ficou em silêncio por um bom tempo.

“Desculpa, Ryoka…  Por eu ter agido de cabeça quente, eu acabei fazendo você fazer uma falsa acusação. Sei o quão forte é o seu senso de justiça, então imagino o quanto isso deve ter te afetado… Desculpa…”

Seira já não conseguia mais dizer nada. Nem Ryoka. Nem Julie.

A princípio, entrei em choque por medo de ser expulsa do Colégio Aohoshi e ter que voltar para casa do meu tio… Mas então, deixei meus sentimentos falarem mais alto quando ela disse aquelas coisas e comecei uma luta desnecessária…

Refletindo suas ações, Seira colocou a mão no rosto em frustração.

Enquanto isso, a única coisa que Julie conseguia pensar era: Como uma única pessoa pode desestabilizar tanto um grupo?

O mais frustrante para ela era que não havia provas contra Kurona, e ela em nenhum momento agrediu ou atacou ninguém. Seria isso realmente um efeito colateral de deixar uma amizade falar mais alto do que o justo?

Ryoka se dirigiu até a varanda do quarto, onde o vento balançava seus cabelos, e olhou para o céu.

Ela se lembrou da sua conversa com Kuroshi…

 

 

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é… a [Avatar de Perséfone]…”

Essa era a primeira informação que surpreendeu Ryoka de verdade.

A esposa de Hades, huh…

Perséfone—A deusa da agricultura que sempre se preocupava apenas em colher flores, mas foi crescendo e com isso sua beleza foi encantando a todos, e encantou o deus Hades, o senhor dos mortos. Posteriormente se tornando a rainha do inferno. Sempre disposta a receber e atender os mortais que visitavam o reino dos mortos à procura de ajuda, era uma deusa do bem, mas ao mesmo tempo temida.

“… Influência, talvez?”

“Huh?”

Kuroshi, sem entender o que Ryoka quis dizer, olhou para ela com seus olhos vermelhos.

“Inevitavelmente todos nós, [Avatares de Deuses], sofremos influência dos deuses que representamos. Podendo ser algo mais forte ou mais fraco dependendo da pessoa, mas que pode nos atingir a qualquer momento.

Lembra da história da irmã mais velha da Julie? Talvez o mesmo esteja acontecendo com você. Talvez esse conflito de emoções seja, na verdade, suas emoções entrando em conflito com as emoções de Hades.”

Ouvindo tal resposta, Kuroshi olhou para o chão.

É claro… Só pode ser isso…

Hades está tentando impor suas emoções em cima das minhas…

Aceitando até que fácil demais, Kuroshi deu um fraco sorriso.

“… Para ser sincero… Eu só vim para essa praça pois nesse momento a Kurona deve estar no meu quarto…”

As palavras de Kuroshi surpreenderam Ryoka.

… Droga! Cometi um erro!

Ryoka se levantou bruscamente.

“Ryoka?”

“… Sugiro que você reflita sobre o que eu falei, eu preciso resolver outras coisas agora, mas lembre-se: Pode sempre contar com seus amigos…”

Inconscientemente, Ryoka desviou seu olhar enquanto dizia a última frase.

Ela então se retirou do local, deixando Kuroshi sozinho novamente.

 

 

“Maldição!”

Ryoka socou a sacada controladamente para não quebrá-la.

Eu não só acusei injustamente uma pessoa, eu invadi a privacidade do meu amigo e ainda menti para ele…!

Ela não conseguia se conformar.

Por quê? Por quê?! Onde as coisas começaram a dar errado?

Em algum momento, todos foram condicionados a cometerem erros ao mesmo tempo. Qual foi o estopim?

Qual exatamente é o problema desse caso?

Ryoka tentou pensar o mais longe que conseguia.

Tem que haver uma resposta. Era o que ela pensava.

Até que—

“…”

O olhar de Ryoka ficou distante, sua raiva e frustração desapareceram.

Ah…

Entendo…

Ha…Haha… Se eu contar isso para a Sei-chan, ela certamente irá chorar…

Todos nós estávamos fadados a cometer erros nesse caso desde sempre…

Talvez… Talvez eu tenha cometido um erro maior do que eu imaginei…

 

 

O sol já estava se pondo. As aulas já haviam acabado.

Em um dos banheiros masculinos da escola—

Kuroshi se olhava no espelho.

Ele olhava diretamente para os seus próprios olhos escarlates.

“Eu achei que você estava do meu lado… Mas parece que não…”

Não havia absolutamente mais ninguém no banheiro, talvez nem na escola.

Kuroshi estava falando com seu próprio reflexo.

“Tentando me manipular, me induzir a ser você… Foi realmente um plano venenoso e que conseguiu me confundir…”

“Mas eu não pretendo cair mais nessa… Eu sou eu… Eu definitivamente serei eu…”

Somos um só, garoto. Você sou eu, eu sou você. Lembra?

“!!”

Absolutamente do nada, um fantasma apareceu atrás de Kuroshi. Cabelos roxos um pouco mais compridos que o de Kuroshi, olhos vermelhos, túnica negra com detalhes dourados, manoplas e grevas totalmente negras. Seu rosto não era visível, apenas seus olhos, mas era possível dizer que ele estava sorrindo.

“… Hades!”

Kuroshi expressou raiva, ainda olhando para o espelho.

“Sua falcatrua foi exposta! Suas mentiras não me afetarão mais!”

Hou? Minha falcatrua foi exposta, você diz? E a sua falcatrua? Quando ela será exposta? Quando suas mentiras não te afetarão mais?

Você é o farsante, garoto.

No limite da sua paciência, Kuroshi se virou já invocando sua espada e atacando o fantasma.

Porém, o ataque atingiu apenas o ar. Não havia mais ninguém.

Kuroshi colocou a mão na testa e andou para trás até encostar em uma parede, escorregando por ela até sentar no chão.

Minha nova vida… A que eu trabalhei para construir aqui… Os sentimentos que cultivei e as relações que criei, esse sou o verdadeiro eu… Sem dúvidas, aqui representa minha vida verdadeiramente… Sem dúvidas…

 

 

Um bom tempo depois…

Kuroshi estava voltando para o seu quarto, já estava de noite.

“Oh, Kuroshi.”

“Kuro-chan!”

Ao olhar para trás, Kuroshi viu Axel e Alisha vindo na sua direção, de mãos dadas.

Axel estava maior a cada mês que passava, daqui há um tempo ele já deverá estar até maior que Kuroshi.

“Huh? Seus olhos…”

“… Estou fazendo um treinamento pessoal, é por isso.”

Ao ouvir o comentário de Alisha, Kuroshi usou uma desculpa que ele já havia preparado de antemão.

“Está voltando para o quarto agora? Eu já irei me despedir da Alisha, se quiser podemos voltar juntos.”

Ao ouvir a proposta de Axel, Kuroshi aceitou naturalmente e se sentou em um banco enquanto observava os dois de longe, se despedindo como um casal normal.

Após dois minutos, Axel veio até Kuroshi.

“Vamos indo.”

Caminhando lado a lado, Kuroshi perguntou:

“Axel… Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

“Huh? De onde veio isso?”

“… É só uma coisa que estive pensando em momentos de tédio…”

“Hmm…”

Enquanto Axel refletia, os dois caminhavam em silêncio debaixo do céu estrelado.

“Eu diria que tudo depende do avatar.”

“… Do avatar? Como assim?”

“Sim… Eu não acho que os deuses tentem moldar o avatar ao seu gosto, mas acredito que eles naturalmente possuem uma presença divina que talvez induza a pessoa a fazer certas coisas ou pensar de certa forma, mas no fim das contas, quem decide se vai permitir essa indução é a própria pessoa.”

Kuroshi ficou sem palavras para a resposta complexa de Axel.

“Eu acho que você não se conectaria com algum [Avatar de Deus] apenas porque uma mitologia dita essa conexão. Se isso acontecer, é porque você já estava propício a isso desde o começo. É o que eu acredito.”

“… Isso foi um pouco específico demais…”

A primeira parte da breve teoria de Axel foi natural, mas a segunda ressoou diretamente em Kuroshi. Era como se Axel pudesse ler mentes.

“Hahaha, desculpe. Talvez as memórias do meu passado tenham tido influência na minha resposta.”

Kuroshi arregalou os olhos em surpresa, pois ao ouvir a explicação dele, ele se lembrou daquele determinado dia, um tempo antes da sua luta contra Noah.

Está certo…

Axel perdeu a pessoa que ele amava para Loki no passado…

Essa pessoa era… a [Avatar de Sif]. Sif era a esposa de Thor na mitologia nórdica…

A semelhança era tão forte que Kuroshi esqueceu de continuar andando.

No entanto…

Kuroshi conseguia se lembrar. Naquela época, eles tiveram uma conversa bem similar.

Só que, naquela época, a resposta de Axel foi totalmente oposta. Segundo o palpite dele, dois [Avatares de Deuses] conectados pela mitologia só se conectariam realmente por causa do que a mitologia dita. Hoje ele diz que não é a mitologia que conecta as pessoas, mas seus próprios sentimentos. O que mudou de lá pra cá? Porque ele mudou o ponto de vista? Kuroshi queria perguntar, mas acabou desistindo por se tratar de um assunto delicado.

“E se…”

Por ter parado de andar, Axel estava um pouco mais na frente que Kuroshi. Ele também parou ao ouvir a voz de Kuroshi.

“… E se nossos sentimentos fossem ditados pelos deuses em si e não pelo que realmente sentimos?”

Diga, e se as coisas forem exatamente como a Ryoka previu?

Axel se virou lentamente com um sorriso no rosto.

“Bom, nesse caso, por exemplo, sua relação com a Seira seria uma farsa, não?”

Naquele momento, Kuroshi entendeu porque Axel mudou seu modo de ver as coisas.

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