Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 6)

É engraçado, apesar de achar que ia acordar e voltar pro colégio com os outros (ou seja lá onde eles levaram meu corpo enquanto estou desmaiado), agora estou em um lugar que não sei onde é, e olhando ao redor só dá pra ver terra plana pra todo lado. Até onde minha vista alcança não tem nada relevante que chame a atenção, exceto o fato do céu estar completamente branco. Tento me mexer pra ter certeza que tenho controle do meu corpo, e aparentemente tudo está normal.

Começo a andar pra frente sem nada em mente, já que não acho que vou conseguir “sair” daqui, porque provavelmente é só uma projeção da minha cabeça ou algum efeito colateral de algo que estejam fazendo pra melhorar minha situação lá fora. A dor que senti antes de desmaiar ainda tá aqui, bem mais leve, mas só me lembrando o estado que eu fiquei. Apesar de tudo, a habilidade da Karin pode vir a ser bem útil, e bem assustadora. Lutar contra alguém que não vai recuar por dor ou sentir fatiga é uma coisa bem medonha de se pensar, mas também é bem perigoso pra seja lá quem estiver sob efeito disso.

Por algum motivo, aqui eu sinto como se minha mente estivesse leve, quase como se nada do que realmente estava me dando dor de cabeça antes existisse, e uma… serenidade? É, serenidade. Enfim, é como se isso me atingisse em cheio. Mal quero pensar em como vai ser difícil voltar pra lá e ter que lidar com toda aquela merda de novo. Agora que paro pra pensar, me meti em muita maluquice deu uma vez só praticamente sem garantia nenhuma de que vou saber o que aconteceu com a Haruka, ou o que aconteceu naquele dia. É bem possível que isso termine com todo meu esforço sendo em vão, mas é a única chance que tenho…

Foi mal, mas vou precisar de uma coisa sua. Não liga, você nem vai se lembrar do que ouviu aqui.

A voz ecoa alto por todos os lados, como se não fosse uma pessoa falando comigo, mas sim algum tipo de ser que está em todos os lugares ou algo do tipo. É uma sensação estranha, porque apesar de estar alerta direto depois de toda essa loucura começar, por algum motivo não sinto que corro perigo ou estou intimidado por essa voz. Ela até mesmo me parece familiar… mas não consigo reconhecer. Como quando sabe que deixou alguma coisa pra trás, sente a falta dela mas não sabe dizer o que esqueceu.

De repente, como se estivesse sendo puxado para cima, um buraco branco se abre no céu, e inúmeras esferas brancas começam a sair do meu corpo em direção aquela luz. Não dói, mas posso sentir que é como se minha essência estivesse sendo sugada, tento lutar contra mas meu corpo não me obedece. Cada vez mais minhas forças vão sendo drenadas, até que então tudo para, e o buraco começa a se fechar, mas não sem antes lançar o que parece um “raio” branco na minha direção, acertando minha testa com uma força que nunca senti antes, e tudo escurece.

– – – – –

Meus olhos abrem devagar, meu corpo dolorido como se tivesse sido atropelado por um rolo compressor… duas vezes. Engraçado que não é como a dor de quando tive pedaços arrancados, ossos quebrados, ou até mesmo quase esquartejado como naquele inferno de treinamento… é mais como se minhas forças tivessem sido completamente esgotadas. Será que é um efeito colateral além dos meus sentidos quase explodindo meu cérebro?

Olhando ao redor, percebo que estou em casa, deitado no sofá da sala, coberto e a TV está ligada. Com algum esforço consigo me sentar direito, e só então sinto o cheiro forte de chocolate que está no ar, vindo da cozinha que está com a luz acesa. A Haruka vem lentamente de lá, soprando uma caneca de leve e vestindo um pijama. É um simples macacão preto, mas não sei se ninguém avisou ela quando foi comprar ou fazer aquilo que é bem apertado no corpo. As curvas estão beeeeem visíveis, mas tento desviar o olhar porque prefiro meus olhos no lugar e minha cabeça grudada no pescoço, obrigado.

Pelo visto meus esforços dão certo, já que ela não diz nada e senta do outro lado do sofá, também se cobrindo e olhando para a televisão. Estranho, eu jurava que ia levar um sermão ou alguma explicação sobre o tal treinamento, mas aparentemente ela está me ignorando completamente, então pelo jeito sou eu que vou ter que tomar a iniciativa aqui…

– Não, não precisa. Eu vou explicar, mas estava só me aproveitando dos utensílios na sua casa. Você até que vive bem pra uma criança órfã, não? – ela diz, sem nem piscar ou virar o rosto.

– … eu gostaria MUITO mesmo que você parasse de ler minha mente.

– Por que eu faria isso?

– Primeiro, porque isso é uma invasão de privacidade enorme. Segundo, porque é errado de tantas maneiras que nem sei por onde começar. Terceiro, porque vamos viver juntos por algum tempo pelo menos, então acho que seria bom pra nós dois se você parasse de monitorar meu cérebro.

– … é, faz algum sentido. Vou deixar disso, não é como se eu estivesse cavando na sua mente também, não fiquei rastreando pra achar nenhum segredo seu, pode ficar tranquilo. E caso eu suspeite que esteja escondendo algo importante, posso só se forçar a contar graças ao nosso pequeno trato. – novamente, sem tirar os olhos da televisão.

– O que diabos você tá assistindo que é tão interessante assim?

Ela não responde, só aponta um dedo em direção a TV enquanto toma um gole de chocolate. É engraçado como ela é (em teoria) uma “mandante” daquela dimensão de seres super-poderosos que poderiam acabar com a vida na Terra em um estalar de dedos, mas agora tá agindo como uma adolescente desinteressada de 16 anos.

– Um tal de “Gravity Falls”, parece bem bobinho no começo mas depois vai ficando bem profundo e pesado. Por que?

– … hã… – sinceramente, não tava esperando uma resposta séria pra isso.

– Eu imagino que você não esperava me ver agindo desse jeito, certo?

– Você não acabou de dizer que não ler…

– Não li, mas pela sua reação isso fica mais que claro pra qualquer pessoa com mais de dois neurônios. Deixa eu esclarecer uma coisa: não sou um tipo de chefe de máfia como você devia ter pensado, nem ameaço pessoas de prendê-las num satélite e lançar no espaço só porque poderia. O único motivo de todos eles me tratarem como algum tipo de “mestre” é porque estão desesperados pra reverter essa situação, e por algum motivo pensam que sou a única esperança deles.

– Espera, e por que seria? Ou melhor, por que eles pensam isso?

Mesmo só podendo enxergar uma parte do rosto dela, fica bem claro que esse deve ser um assunto delicado.

– … vamos só dizer que tem um motivo pra isso. Mas eu sei que não sou capaz de fazer isso sozinha, então precisávamos de ajuda pra ter alguma chance de reverter essa maldita maldição de torneio. Foi então que você simplesmente surgiu, sem mais nem menos, alguém com um potencial de poder desconhecido e que aparentemente evolui muito rápido.

– Então nada do que aconteceu foi planejado?

– Óbvio que não, eu já estava praticamente conformada que vencer seria uma tarefa impossível até alguns dias atrás. Mesmo que nesse momento você não seja alguém com poder suficiente pra fazer o que quero, tenho a impressão que chegará lá em breve.

– E de onde diabos vem toda essa confiança em mim?

– … não sei. Intuição feminina, talvez? – ela responde, mas algo me diz que está escondendo alguma coisa.

– Se você diz… espero que esteja certa.

– Ou estou certa, ou estamos mortos.

– Otimista você hein?!

– Estou mais pra realista. – ela dá de ombros.

Pelo jeito, nada do que eu fizer ou disser vai convencê-la a abrir o bico, e mais uma vez vou ser deixado no escuro com assuntos que provavelmente me afetam diretamente. Mas o que diabos tem de errado comigo que sempre fico de fora desses detalhes importantes, ou não noto algo na minha cara até ser tarde demais?! Acho que é melhor desistir por hoje, mas ainda vou conseguir arrancar tudo que ela possa me dizer… um dia.

– Tá, me explica aí o que tá acontecendo nessa série aí. – ela se vira pela primeira vez, um pouco surpresa pela pergunta.

– Hã… então tá né. Então, esses dois são irmãos que vão passar as férias na casa do tio-avô e…

– – – – –

São cinco da manhã, e a gente ainda tá assistindo séries. Não sei se é porque não costumo ter companhia, mas nem lembro a última vez que fiquei acordado até tão tarde, e dessa vez sinto que vou ter que pular o dia no colégio. A essa altura minhas pálpebras parecem que tão pesando uma tonelada cada, e tenho certeza que devo estar com a maior cara de morto sem nem precisar olhar no espelho.

Por incrível que pareça, a Haruka também não está 100%, e dá pra ver nas olheiras que se formaram e estão bem visíveis. Já tentei chamar ela algumas vezes, mas ou ela entrou em um transe e na verdade tá dormindo de olhos abertos, ou tá tão concentrada na TV que desligou completamente qualquer sensação do mundo real. De qualquer jeito, não acho que ela vá a lugar algum tão cedo. Acho que vou simplesmente é dormir aqui, já que praticamente nem aguento me levantar pelo cansaço.

– Boa noite. – eu digo, sem esperar uma resposta pra desmaiar no sofá outra vez.

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