PARAGOBALA 25 – Subodai vs Índio

PARAGOBALA 25 – Subodai vs Índio


Pouco mais de 1 mês depois

Era mais uma noite quente e úmida na floresta quando Índio finalmente chegou ao seu destino: a Cabana. Deitou-se no chão e olhou as estrelas, satisfeito. Havia atravessado uma grande distância a pé, e teve o cuidado de sempre apagar sua trilha e criar rotas falsas para qualquer perseguidor, o que lhe custou muito tempo. Seu braço ostentava mais duas marcas novas, vigias Kaapors que tinha encontrado no caminho. Foi até o pequeno depósito que ficava escondido perto da construção que abrigava J.B, e pegou a comida que era coloca ali semanalmente para o gigante. Geralmente caçava o que comia, mas estava cansado. Comeu até se fartar, o que não significava grande quantidade, pois estava acostumado a sobreviver com pouquíssimo alimento, e foi buscar um colchão velho que usava para dormir.

Acordou rejuvenescido e se sentindo inteiro novamente. Pegou o seu facão e treinou alguns golpes básicos no ar, um ritual que repetia quase todos os dias. Sabia que tinha que preparar a fogueira para chamar os seus companheiros e reportar tudo o que passou para o Doutor, mas faria isso apenas mais tarde. Não estava preocupado e nem se perguntava porque a polícia estava atrás dele, além de não sentir ansiedade ou pavor por estar na lista negra da tribo Kaapor. Fez todas as suas atividades com naturalidade e pouca preocupação.

No fim da tarde, pegou alguns galhos, montou uma fogueira, e depois do fogo aparecer, jogou a erva que gerava a fumaça branca. Logo os seus companheiros veriam o filete de mancha branca no céu e se dirigiriam para lá. Estava sentado das chamas quando ouviu um som vindo da mata. Imediatamente se levantou, com a faca em punho. Viu um homem sair de trás das folhas. Ele tinha pele clara, cabelo ruivo e olhos negros. Usava um colar e alguns ornamentos nas mãos e nos pés. A roupa parecia típica Kaapor, mas era mais elaborada. O saiote era um pouco mais comprido que o tradicional, e tinha mais detalhes e ornamentos. “Como ele me seguiu até aqui” – pensou.

Seus olhos percorreram todo o corpo da figura, e ele não encontrou nenhuma marca ou grande cicatriz, a pele era lisa. Parecia ser jovem, e sem muita experiencia. Índio caminhou até ficar na frente do intruso, a distância de não mais que 7 metros. O sujeito era um pouco mais alto que ele, e logo abriu a boca:

– Vim em nome da tribo Kaapor. Nosso líder exige sua presença para lhe aplicar a punição devida pelo crime de assassinato e invasão de território proibido.

Índio sorriu.

– Eu me recuso.

– Eu conheço sua fama, exilado. Você não tem chance contra mim em uma luta. Existe um abismo de diferença entre nossos treinamentos.

O sorriso aumentou no rosto de Índio. Já tinha escutado aquela conversa outra vezes, e o final era sempre igual: um corpo estendido na sua frente. Jovens arrogantes eram suas vítimas preferidas.

– Eu já matei homens melhores do que eu – disse.

– Mas nenhum melhor do que eu – respondeu Subodai, com convicção.

Após um silencio tenso, o jovem falou:

– Então é isso.

Subodai fechou os olhos por um instante, e quando os abriu, avançou em direção ao seu inimigo. Executou 3 ataques rápidos com o seu facão. Índio se defendeu do primeiro com a sua arma, e desviou dos outros dois. Subodai deu um pulo para trás e se afastou. Traçou uma linha no chão. Depois, ergueu sua faca, e a apontou horizontalmente para Índio.

– Já matei homens que lutavam como você. Lutadores que são espertos e experientes. Esperam os adversários atacar e no momento certo contra atacam e vencem.

Índio cerrou os olhos e analisou o seu adversário mais uma vez. O ataque que acabará de receber não o impressionou. Estava ansioso para fazer uma marca nova no braço.

– Isso é uma estratégia para lutadores inferiores, retomou Subodai. Quando eu ultrapassar essa linha no chão, eu vou te atacar. E vou te massacrar. Te atacarei de uma maneira que você nunca viu. Sua defesa não vai aguentar. Vou te cansar, vou te cortar, vou te machucar e vou te humilhar. Ou você pode largar a sua arma e se render. Te levarei até a aldeia e lá você poderá se defender – disse calmamente.

Índio não pensou duas vezes e respondeu:

– Então venha.

E Subodai foi. Correu até entrar na área de alcance dos golpes e começou a atacar. Seus movimentos eram limpos e rápidos. Um observador poderia até chamá-los de plásticos. Mais uma sequência de 3 golpes, o primeiro central, e os subsequentes laterais. Índio conseguiu defletir os 3, mas o seu atacante continuou. Atacou com um movimento pesado, vindo do alto, na diagonal. Após o contato com o facão de Índio, Subodai puxou a sua arma com extrema rápidez, e deu uma estocada. Índio pulou para trás instantaneamente. Quando aterrissou, percebeu um pequeno corte na barriga. Se preparou para sorrir e troçar de seu adversário, mas não teve tempo. Subodai já havia se aproximado mais uma vez, e continuou a série de ataques. Dessa vez, foram 7 golpes sem descanso. Índio defendia ataque após ataque, e não conseguia enxergar uma brecha para contra atacar. Os ataques eram rápidos demais, e vinham em ângulos difíceis. Depois do sétimo golpe, Subodai deu um passo para trás, e um segundo depois, se aproximou novamente para outra série de ataques.

Índio teve que se concentrar muito para ver cada golpe. Seus olhos estavam fixos na espada e no pulso de seu inimigo, e reagia instintivamente a cada ataque. Conseguia ver a trajetória de cada golpe instantes antes deles chegarem, e os bloqueava sempre a tempo. Os golpes vinham de cima, de lado, de frente. Veio outro golpe da esquerda, e então ele sentiu uma pancada no lado direito de seu rosto e caiu no chão.

Caiu assustado, piscou, e engatinhou para trás. Olhou a frente e só via Subodai, parado, com o seu facão erguido. Se levantou e caminhou para trás. Entendeu o que tinha acontecido. Ele havia se concentrado tanto em defender o seu flanco esquerdo de uma série de ataques, que ficou vulnerável a um soco do inimigo.

– Já percebeu que você não vai conseguir me vencer? – disse Subodai, que avançou outra vez.

Índio voltou a se defender e esquivar, esperando por uma brecha. Mas não estava dando certo. Subodai atacou na direita, e em seguida conseguiu fazer uma estocada na esquerda. Índio deu um passo lateral, mas não saiu impune. Tinha sido cortado mais uma vez. Subodai seguiu atacando, e Índio recebeu mais um corte, dessa vez no ombro. E depois no ante braço, na perna, no peito e outro na cintura. Agora, já ofegava.

– Contra atacar pode funcionar contra adversários ligeiramente melhores que você. Mas não é o caso. Eu sou muito melhor do que você. A diferença entre nossa técnica é enorme. Você não tem habilidade o suficiente para propor uma luta a mim. Vai se defender pateticamente até eu resolver te matar.

Subodai de um passo para atacar outra vez, e então, dessa vez, Índio também deu um passo, tentando surpreender com uma estocada inesperada. Subodai encolheu seu braço, deu um passo lateral e defletiu o facão de índio para o outro lado. Com isso parte do corpo dele ficou exposta, e Subodai não perdoou. Executou um golpe vertical, em toda lateral de tronco de Índio, que gritou ao receber o corte.

– Eu consigo ver todos os seus golpes.

Subodai avançou. Levantou o seu facão e deu um golpe poderoso, vindo de cima para baixo. Índio virou o seu Facão na horizontal para amortecer o golpe. Mas estremeceu e escorregou e dobrou um joelho. Subodai deu um sorriso triunfante, e Índio pensou “isso!”. Fingir um escorregão era uma um movimento que ele usava com frequência e já o havia salvado muitas vezes.

Subodai atacou com volúpia, e, pela primeira vez, Índio viu uma brecha. Gritou e repentinamente deu uma estocada com a sua faca, no peito desprotegido de seu atacante. E então seu Facão voou de sua mão. Atônito, percebeu que havia caído em uma armadilha. Subodai nunca esteve vulnerável, e havia se preparado para defender um golpe, e não finalizar a luta.

De joelhos, ele olhou aquele homem, de expressão fria e cabelos vermelhos. E pela primeira sentiu algo diferente. Era medo. Ele já havia estado naquela situação dezenas de vezes. Porém do outro lado. Dessa vez, ele era a presa indefesa.

Desesperadamente, Índio caminhou para trás e quando vez menção de correr até sua faca, levou um chute no rosto e caiu. Se levantou no mesmo instante e caminho de quatro, como um animal. Não se conteve, e virou o rosto para olhar para trás e procurar alguma saída.

– Homens que se guiam puramente pelo instinto nunca vão me vencer. Seu instinto lhe disse que era a chance de me matar?

Índio calculava o que fazer naquele momento. Não carregava consigo nenhum valor de honra, e sairia correndo na primeira oportunidade. No entanto, não achava que conseguiria fugir daquele homem. Mas algo o contagiou, mais um sentimento que ele desconhecia: ele não queria morrer. Queria sobreviver e lutaria até o fim pela sua vida.

Um estrondo fez Subodai olhar para trás, e viu um homem gigante correndo sua direção. Deu um pulo para o lado, e por centímetros conseguiu desviar da investida. A criatura se virou e tentou lhe acertar com um soco, e Subodai mais uma vez desviou do ataque com uma esquiva. Continuou se afastado, com dificuldade, enquanto recebia os golpes. A explosão muscular do agressor era impressionante. “Mesmo com todo esse tamanho, ele é rápido demais”. A cada golpe que se livrara, sentia que estava mais perto de ser acertado. Veio mais um golpe, e então Subodai de um passo a direita e contra atacou com sua faca, fazendo um corte no braço do monstro. Para sua surpresa, foi como se o inimigo não tivesse sentido o ataque, e usando o próprio braço ferido, deu um empurrão no guerreiro Kaapor, que foi lançado para trás e por pouco não caiu no chão.

Subodai não lembrava da ultima vez que foi tocado em uma batalha. Com um grito, J.B avançou novamente, com seu ombro à frente. O índio deu um giro e fez outro corte no gigante, agora nas costas. Mais uma vez, a criatura não parou e seguiu atacando, sem descanso. O Kapoor sabia que caso fosse acertado e perdesse o equilíbrio, poderia morrer. Percebeu que Índio se movia discretamente, e estava em busca de uma brecha para mata-lo. J.B tentou um chute, e Subodai desviou com uma cambalhota, aproveitando para fazer um corte em sua perna plantada no chão. Nem isso diminuiu o movimento da criatura. “Esse monstro parece imune aos meus ataques. Mas não passa de um homem forte.” Na nova investida, conseguiu outra vez girar, e dessa vez mirou atrás do joelho. Dominava a arte de machucar o corpo humano, e sabia os botões exatos para fazer cada parte dele parar de funcionar. J.B gritou e quando tentou correr, mancou e o seu joelho dobrou. Teve que apoiar a mão no chão para não cair, e Subodai viu a chance de atacar o seu pescoço. Nesse exato momento, Índio deu uma avançou por trás. O seu braço estava todo estendido, e só tinha acertado o ar. Subodai estava ao seu lado, com um sorriso triunfante. Segurou o pulso do braço de Índio e o puxou para baixo ao mesmo tempo em que deu uma joelhada. Índio gritou depois do estalo no osso, e soltou o seu facão. Com a empunhadura da faca, acertou a nuca, e o homem a sua frente caiu.

J.B estava arrastando uma perna, vindo em sua direção. Subitamente, ambos foram iluminados por um faról de carro. Um homem saiu do veículo com uma pistola apontada para Subodai, que rápidamente se agachou e puxou o corpo de Índio para sí. O segurava, com a faca colada na sua garganta.

O homem que veio do carro chegou mais perto, e disse:

– Você é o da tribo Kaapor, não? Solte o meu companheiro.

Subodai deu um riso de escárnio.

– Arrisque o tiro.

Bal ficou observando a cena por alguns instantes, e depois abaixou a arma.

– Me leve ao seu líder. Tenho uma proposta para vocês.

Após nenhuma resposta, continuou:

– Eu trabalho com o promotor da cidade. Posso ajudar os Kaapor.

A feição do rosto de Subodai mudou.

– O que oferece? – perguntou.

– Sou assistente dele. Acompanho de perto tudo que ele faz, e tenho sua confiança. Posso passar a vocês informações sigilosas e avisar de qualquer movimento que ele faça.

Subodai ficou em silêncio por alguns instantes.

– Abaixe sua arma. Se você for digno, talvez possa ter um encontro com Kerexu.

***

Os dois seguiam Subodai mata a dentro, estavam com as mãos amarradas nas costas, e Índio caminhava com alguma dificuldade. Subodai havia feito um curativo na perna de J.B, que ficou deitado repousando na cabana. Havia prometido enviar um curandeiro até lá caso o acordo de Bal tivesse sucesso.

– É bom te ver vivo – disse Bal a Índio.

– Não sei por quanto tempo – respondeu.

– Confie em mim. Dará tudo certo.

Índio assentiu e confiou em seu líder. A única pessoa que Índio seguia e acreditava. Percebeu no rosto do Doutor uma determinação que não via a algum tempo.

– Como foi a perseguição da polícia? – quis saber Bal. Aquele era um mistério que ele havia se esforçado muito para desvendar no último mês. Julgava já entender tudo e queria confirmar a história.

– Eu estava na rua, e a polícia apareceu querendo me levar. Fugi de moto até a floresta. Fui perseguido por Kaapors, os matei, e depois fugi, até chegar aqui na cabana. Apaguei todo o meu rastro…mas não adiantou nada – resumiu rapidamente.

Bal sabia que dificilmente Índio daria mais detalhes. O seu companheiro enxergava qualquer evento com simplicidade. A versão do amigo bateu com tudo que tinha descoberto. Sua confiança de que o acordo daria certo aumentou.

O progresso dos três não era rápido. Índio tinha dificuldades para caminhar, e em determinado ponto, Subodai parou e disse:

– Vamos descansar aqui por um tempo, depois retomamos a caminhada. Sentem ali e não se mexam.

Saiu da vista da dupla e desapareceu.

– Posso soltar as nossas minha amarras, Doutor.

– Não. Mesmo se matássemos esse homem, os Kapoors continuaram vindo atrás de nós. É uma briga que não podemos vencer. Eles são muitos. Usaremos outra abordagem.

Pouco tempo depois, o Kaapor retornou com alguns galhos na mão. Colocou os no chão, e depois pegou um isqueiro na sua bolsa para acender a fogueira.

– E eu achando que veria como um legítimo índio acende uma fogueira – troçou Bal.

Subodai apenas o olhou e não respondeu nada. Levantou e entrou na mata outra vez. Retornou um tempo depois com duas cobras mortas na mão. As colocou no solo, pegou o seu facão e removeu a cabeça dos animais mortos. Em seguida, cuidadosamente retirou a pele delas e as cortou ao meio. Descartou algumas partes dos bichos e separou a carne, que espetou em um graveto. O deixou acima do fogo por algum tempo e o puxou. O levou até perto de Bal e falou:

– Essa é sua comida. Coma.

– Você vai dar de comer na minha boca? – riu.

– A viagem é longa. Morda a carne ou vai ficar sem nada.

Bal assentiu e mordeu a carne branca. Escondeu todo o seu receio, pois não queria demonstrar fraqueza. O gosto foi surpreendentemente bom. Depois de acabar de comer o pedaço, o Kapoor também alimentou Índio, que comeu sem dizer nada. Após a refeição, Subodai os instruiu a dormir um pouco, e ambos deitaram na própria mata.

Era escuro quando eles voltaram a andar, e foram guiados pela luz forte da lanterna que Subodai segurava.

– Conhece esse homem? – perguntou Bal a Índio.

– Nunca o vi antes – respondeu o lacônico companheiro.

O Doutor estava analisando o sujeito desde que o tinha visto pela primeira vez. Fisicamente era diferente dos índios. Um pouco mais alto. Cor da pele, cabelo e olhos diferentes do habitual. Alguns traços ainda lembravam os outros Kapoors que ele já tinha visto. Concluiu que era um mestiço. Era alguém altamente treinado e preparado. Um guerreiro de elite. Não tinha visto a luta dele contra Índio e J.B e não sabia se tinha sido uma emboscada ou um confronto direto. Não achava que alguém poderia vencer os dois em uma luta. Seu colega não era conhecido pelo orgulho, mas Bal sabia que ele gostava da sensação de ser superior às suas vítimas, por isso evitou perguntar sobre o combate.

Em determinado ponto, Subodai amarrou tiras de pano ao redor da cabeça dos dois, para bloquear a visão. Bal teve alguma dificuldade em andar, e Índio se adaptou rapidamente. Subodai os guiava, indicando o caminho e avisando o momento de parar ou quando existia um obstáculo a frente. O Doutor não fazia ideia de quanto tempo já estava andando, mas se sentia cansado. Não estava acostumado com o calor da selva e nem a caminhar distâncias tão grandes. Sem poder enxergar, perdeu a noção do tempo.

Quando a faixa do removida da sua vista, o céu estava mais claro. Bal presumiu que era o início do dia, por volta de 5 ou 6 da manhã.

– Esperem aqui, disse o Índio ruívo.

Os dois sentaram e relaxaram. Mais de uma hora depois, Índio levantou a cabeça e olhou para os lados.

– O que foi? – perguntou Bal.

– Estão vindo. Muitos.

Ele começou a olhar ao redor, buscando uma saída.

– Vamos esperar. – disse o Doutor ao perceber a movimentação de Índio.

10 índios armados com arcos e flechas apareceram na frente dos dois. Bal ouviu ruídos as suas costas, e imaginou que existiam vários outros escondidos ao redor deles. Um dos índios tomou a frente e falou:

– Vamos ver se você merece falar com o nosso líder, homem da cidade.

Eles seguiram o grupo, e depois de uma caminhada, finalmente era possível ver ocas ao longe. Enfim, estavam na aldeia. Um índio apareceu por trás da dupla e soltou as amarras.

– Você vai enfrentar um dos nossos. Se vencer, pode falar com Kerexu.

Bal titubeou. Não estava esperando esse tipo de coisa. “Tinha pensado que esses índios eram minimamente racionais, mas não passam de um bando de selvagens!” pensou com raiva.

Foi caminhando até o local apontado, e viu que um grande círculo foi formado, por dezenas de índios. “Será que finalmente encontrei o meu fim? Não há muito a se lamentar”.

Um índio musculoso e alto apareceu na frente de Bal. Estava a 20 metros de distância. Apesar do receio, a expressão do Doutor era de confiança. Assim que percebeu quem era o seu adversário, começou a escrutina-lo com sua visão. Pouco prestou atenção nos rituais ao redor ou a um juíz dando início a batalha. Sua mente estava focada no homem, que agora corria em sua direção. Bal permaneceu imóvel. O índio estava agora a poucos metros de distância, quando deu o impulso final para pular. O Doutor percebeu a intenção instantes antes e pulou para trás. O grandalhão agarrou apenas o ar, e Bal emendou uma cotovelada no supercílio, antes de se afastar mais uma vez. O seu adversário atacou com uma sequência de socos, que foram aparados pelos braços de Bal em posição de guarda. Ainda assim cada pancada doia. No quinto soco, ele conseguiu se agachar, e contra atacou com um soco nas costelas do selvagem, que aparentemente não se abalou pelo golpe, tentando mais uma vez agarrar Bal. Outra vez o golpe falhou. Bal conseguia ler aquele homem sem problemas. Durante toda sua vida, Bal sempre se envolveu em brigas, na escola, na rua, nos bares. Nunca foi o mais forte, o mais corajoso ou mais rápido. Nunca tinha treinado artes marciais. Mas geralmente levava vantagem, mesmo contra adversários maiores. Ele sempre teve facilidade para prever os movimentos dos seus inimigos, e com o tempo, foi aprendendo os pontos mais frágeis do corpo humano. Seu soco podia não ser o melhor, mas ele sabia onde aplicá-lo. Após mais um agarrão frustrado do índio, Bal deu um chute no mesmo ponto do corpo que havia socado antes, na costela. O homem recuou e ficou mais cauteloso.

– Está doendo? Vai quebrar já já – disse Bal.

O comentário irritou o homem que se aproximou. Bal ameaçou socar a costela uma terceira vez, e o Índio se protegeu. Foi o seu erro. O ataque era uma falso, e a defesa precipitada abriu uma brecha, que foi muito bem explorada. O Doutor lhe acertou uma joelhada no meio das pernas, e o índio gritou de dor. Em seguida, puxou sua nuca em direção seu outro joelho, usando toda força que tinha. Por fim, vendo o adversário de joelhos e sangrando, desferiu socos no seu rosto. O homem caiu desacordado.

Ouviu gritos ao redor. Alguns apontavam para ele e tinham expressões agressivas. Outros batiam lanças no chão. Logo alguém puxou o seu braço e o levou para fora do círculo. Bal foi escoltado por mais um tempo, até ficar na frente de uma grande oca. Ela era guardada por dois Índios grandes, ainda maiores do que o seu adversário na luta. Cada um segurava uma lança, e contavam com um facão preso na cintura. O índio ao seu lado falou:

– Entre. Kerexu o espera.

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