PARAGOBALA – Capítulo 24 – Preparativos

Capítulo 24 – Preparativos

– Mas como vamos fazer isso funcionar, Vincent? Vou atuar nas sombras, investigando sozinho? Quer que eu monte uma equipe?

– Eu estava pensando em algo mais ousado amigo. Você vai trabalhar como delegado. Oficialmente.

– Como!?

– Vamos inserir a nomeação no diário oficial.

Nathan riu.

– Isso não pode dar certo… – parou de falar, olhando fixamente para frente, tentando imaginar como o plano poderia se concretizar.

– Já tenho tudo planejado. O salário não vai cair na sua conta, claro, mas me comprometo a te pagar o salário de um delegado. O que importa é que você vai assumir o comando da delegacia, e vamos ter recursos e mão de obra para alcançar nosso objetivo. Tenho amigos importantes em cargos importantes. Te protegerei a qualquer custo e…

– Pare com essa bobagem irmão. Eu estou aqui para vingar Victus e dane-se as consequências. Vou com você até o fim. Agora, me passe tudo que você tem, e me relate tudo que descobriu até agora.

***


– Senhor, já estabelecemos um novo chefe para o tráfico. Será conhecido como Xingu. Homem nosso, inteligente e leal. Tivemos sorte que muitos concorrentes acabaram se matando…foi mais fácil que o esperado. Logo agendaremos a primeira reunião com a polícia e estaremos operando com total capacidade.

– Muito bem Kiary. Conduziu muito bem nossa reconquista. Continue me informando semanalmente do andamento.

– É uma honra, senhor – disse Kiary, emocionado com um mero elogio do Chefe da tribo.

Após a saída de Kiary, Kerexu se levantou e saiu da oca, marchando em direção a floresta. Dois Índios altos e fortes, acima da média da tribo, seguravam lanças e o seguiram à distância de alguns metros. Eles ficavam o tempo inteiro na frente de sua oca, e o acompanhavam a qualquer lugar. Em certo ponto, Kerexu parou, e fez um sinal para eles voltarem até a aldeia. Os dois homens não titubearam e obedeceram. As ordens do chefe eram absolutas.

Kerexu caminhou mais um pouco, observando as árvores, até chegar em um tronco caído e sentar. Instantes depois, 5 pessoas apareceram, como se fossem teletransportadas para aquele local. Alinharam-se à sua frente e fizeram uma grande venia, apoiando um dos joelhos no chão.

– Levantam-se. O trabalho de vocês, como sempre, foi exemplar na cidade. Já colocamos um novo homem forte no controle da venda de drogas em Paragominas, e nem mesmo o comandante da operação desconfia que estavam atuando. Com esse obstáculo removido, podemos avançar.

Subodai, Tolui, Batu e Sorhatani se levantaram, eretos em posição impecável, aguardando as ordens.

– Um incidente infeliz ocorreu a algum tempo atrás. O exilado invadiu o território Kaapor, fugindo da polícia, que também transpassou o limite, e foram impedidos pelos nossos guardas de fronteira. Não sei como, mas no meio deles tinha um exaltado promotor, que teve de ser contido a socos. Certamente isso terá uma volta. Esse tipo de gente se acha acima de muitas coisas, principalmente de nós, os nativos. Um grupo está perseguindo o exilado. Certifiquem-se que ele foi capturado ou morto. E investiguem quem é esse promotor e se ele pretende fazer alguma coisa contra nós.

Kerexu fez uma pausa, inclinou a cabeça para frente, e continuou a falar:

– E tem mais um assunto que me preocupa. Alguém estava bancando Bezerro do Acre. Descubram.

Depois de uma batida de coração, os 4 já não estavam mais à vista.

***

Bal acordou assustado e se levantou rapidamente. Olhou ao redor, não reconheceu a sua casa, e começou a relembrar sua noite anterior. Sorriu ao ver Rosemari, nua, dormindo na cama. Se vestiu e saiu da casa, sem se despedir. Tinha muito o que pensar. Sabia que aquilo não era certo com a sua namorada, Clara, mas não conseguia se sentir mal por isso. A noite tinha sido fantástica. Muito melhor que o sexo com a inexperiente companheira. Rosemari era uma mulher de verdade, que sabia muito de como dar prazer a um homem. Uma autêntica fêmea. Ele queria transar com ela mais mil vezes. Bebeu uma garrafa de cerveja para dar uma apaziguada no turbilhão de pensamentos em sua cabeça e se preparou para ir trabalhar.

– Como foi sua conversa com a sua amiga?

A pergunta rompeu a concentração de Bal, que já estava trabalhando em um processo desde que chegou, a mais de uma hora. Virou a cabeça na direção de Agha, sem ter uma resposta.

– Conversam muito ontem, a noite e sozinhos? – insistiu o estágiario.

– A noite foi boa, e não te interessa.

– Pela sua cara a conversa foi boa mesmo.

Bal se levantou, irritado e apontou o dedo:

– Eu sou um homem! Sou homem. Faço coisas que homens fazem. Pare de me julgar.

Agha respondeu de bate pronto com uma coragem inesperada:

– Só se for homem sem caráter.

– Seu moleque, você não sabe nada sobre a vida adulta. Não me conhece, não sabe o que eu faço pelas pessoas! Eu ajudo um orfanato! As crianças de lá me adoram.

– Até um relógio quebrado acerta duas vezes por dia.

Bal fez um esforço para se controlar e sentou-se novamente. “Como esse garoto consegue me tirar do sério dessa maneira? Quem é ele perto de mim”.

– Fique com os seus pensamentos, e eu fico com os meus – concluiu Bal.

– Eu te avisei ontem o que iria acontecer.

– O que aconteceu ou não só diz respeito a mim.

– E a sua namorada também, não?

Bal rangeu os dentes, e não sabia o que responder.

– Eu tenho mais o que fazer! – e levantou-se e saiu da sala.

Ele não tinha realmente nada para fazer. Caminhou pelo fórum tentando esfriar a cabeça e refletindo sobre Clara. “No final das contas, só fiz mal a essa garota. É óbvio que eu não sirvo para nenhum tipo de relacionamento”.Depois de bater perna sem destino pelos corredores do edifício, chegou até a sala onde costumava trabalhar antes de virar assistente de Vincent e viu que as pessoas estavam entretidas em uma conversa. Mais precisamente, fofoca:

– “Dizem que o promotor estava perseguindo o bandido junto dos policiais…!”.

Quando perceberam que Bal estava na sala, se silenciaram e olharam.

– Bal! Como vai? Faz tempo que não vem aqui – disse João, um escrevente do fórum.

– Vou bem. O trabalho lá não é moleza, mas não me arrependo da mudança.

– Como é trabalhar com esse promotor? – Perguntou Janaína, que era a colega mais próxima de Bal nos tempos em que ele trabalhava por lá.

– Ah…quando você conhece o homem percebe que não tem nada de outro mundo. É só um profissional que entende do que faz.

As pessoas o olharam com desconfiança. A fama do Pelicano era enorme, e era tratado dentro do fórum como uma celebridade.

– O que sabe desse perseguição que ele se envolveu? Ele te contou alguma coisa?

– Não me falou muita coisa…o que vocês sabem? – perguntou fingindo desinteresse.

– A Joice do outro departamento tem uma amiga que é esposa de um policial. Dizem que o promotor quis comandar pessoalmente uma perseguição a um bandido extremamente perigoso.

– Isso não é atribuição do Ministério Público, deve ser apenas um boato. E o que esse bandido fez?

– Isso ninguém sabe…

Bal terminou a conversa de maneira cordial, e saiu de lá com muito o que pensar. “Achei que Vincent confiava em nós, já que ele nos pediu ajuda no caso do serial killer. Mas não disse uma palavra sobre isso…”. Faria o possível para investigar o caso. O primeiro passo era descobrir quem era essa tal de Joice e extrair tudo que ela sabia. O episódio da perseguição de Índio o corroía por dentro. Não tinha pesar e nem ficava ansioso ao pensar o destino de seu colega. Mas temia que alguma investigação poderia chegar até ele e as atividades do seu bando.

***

Vincent chegou no seu apartamento depois do trabalho, e viu Nathan no sofá, extremamente concentrado, observando diversos papéis espalhados pelo chão. Muitas anotações e uma bagunça generalizada, com direito a folhas coladas na parede.

– Vejo que fez algum progresso – disse Vincent.

– Teremos muito trabalho aqui – respondeu Nathan. Essa tribo Kaapor é muito peculiar. Conheci muitos povos indigenas pela região do Amazonas, mas esses são diferentes. Preciso investigar melhor, no campo. As principais perguntas que temos de descobrir são: 1) Esse suspeito é um índio Kaapor? 2) A tribo compactua com o que ele faz? 3) Se sim, qual seria o interesse dessa tribo em eliminar os bandidos da cidade?. Não sei se tudo isso se encaixa Vincent. Esse bando de justiceiros deve ter deixado mais rastros. Cometido algum outro erro. A partir de amanhã começarei a minha própria investigação.

Vincent assentiu, satisfeito. Ver a determinação de Nathan o revigorava.

– Até semana que vem vou preparar sua nomeação. A polícia daqui é muito corrupta, mas sinto que muito disso era por causa do antigo delegado que partiu.

– Tenho experiência em lidar com corruptos, com um promotor no bolso então, será um passeio no parque, disse sorrindo.

 

Após uma pausa, perguntou:

Vincent, quero saber um coisa de você. Quando acharmos os responsáveis, o que você vai fazer?

O Pelicano ficou em silêncio, e já tinha ponderado muito sobre essa questão. Sabia exatamente o que iria fazer.

– Vou levá-los à justiça. A minha justiça. Os matarei, e não de forma rápida. Está comigo?

Nathan olhou para o seu amigo, com um olhar sério e respondeu:

– Até o fim.

***

Bal chegou em casa animado. Não se passou 5 minutos, e ele estava batendo na porta de sua vizinha. Não teve nenhuma resposta. Incomodado, pegou o celular e mandou uma mensagem. Não conseguiu evitar diversos pensamentos negativos, e em sua cabeça via flashes de imagens de Rosemari com outros homens. Dizia a sí mesmo “pare de pensar besteira. Não tenho motivos para pensar uma bobagem dessas”. Pegou o celular e enviou uma mensagem a ela:

Como vai? Cheguei do trabalho e acho que daqui umas horas estarei livre. Quer fazer alguma coisa?

Antes do esperado, uma resposta chegou:

Olá querido. Hoje não estou em casa. É dia do meu culto. Só voltarei muito tarde. Amanhã nos vemos…ou então toco sua campainha quando eu chegar…se você deixar.

A mensagem deixou Bal excitado. Aquela mulher mexia com ele.

Pode tocar. Caso eu não atenda, é porque dormi, rs.

Imediatamente já começou a relembrar do sexo fantástico da noite passada, e fantasiava como seria o de hoje. O seu celular vibrou novamente, e ele foi ver a resposta de Rosemari. No entanto, a mensagem era de outra mulher: Clara.

Bal, onde está? Não falou comigo ontem. Está tudo bem meu amor? Queria muito ve-lo hoje.

Estou fazendo plantão no trabalho está noite. Marcamos algo para outro dia. Estou muito bem e com saudades.

Escreveu a mensagem quase automaticamente, de maneira fria. Preferia não pensar nas consequências e muito menos nos sentimentos da garota. A única certeza que tinha é que não sairia da sua casa hoje, e aguardava ansiosamente a sua nova amante.

– Muita saúde e muita fé para vocês. Acreditem, as coisas vão melhorar, se vocês acreditarem. Boa noite. E assim, o Pastor encerrou mais um culto, depois de um discurso inflamado. O número de fiéis só aumentava. A igreja já era pequena, e ele planeja a construção de uma nova. No próximo encontro, recolheria mais dinheiro do público, tudo em nome do Senhor. Já mentalizava as palavras, e explicaria como era importante para Deus a criação de uma igreja maior. Sua linha de pensamento foi interrompida quando percebeu Rosemari na platéia, e acenou a ela. Pouco tempo depois, ela estava a sua frente.

– Pastor, tenho muito a te contar, e a te agradecer. O senhor é muito sábio.

– Imagina. Eu apenas propago a palavra de nosso senhor.

– Eu confesso que quando me fez aquele pedido achei muito estranho…e até duvidei de você, que Deus me perdoe. Não se deve duvidar de um servo do senhor você. Agora…agora eu entendo.

– Conheceu o seu vizinho?

– Sim…e…nós nos conectamos de uma forma que o senhor não imagina! Não sei como sabia disso…mas parece que fomos feitos um para o outro. Nunca fui tão feliz! Como posso te agradecer, Pastor?

– Não precisa me agradecer…agradeça a Deus. Ele é o responsável por tudo. Eu sou apenas um meio em que ele age. Fico feliz com as suas novas.

Rosemari se despediu e foi embora, alegre. O Pastor a observou caminhar, com olhar fixo em suas nádegas. “ Eu sabia que o meu irmão não iria resistir a essa gostosa. Se já comeu, vai logo largar aquela namoradinha dele. Ele foi sempre muito reticente com essa história de pagar puta…não sabe o que perdeu, são as melhores na cama, e agora ele vai descobrir isso da melhor maneira. Ele sabe ler todo mundo, mas é inocente em relação a si mesmo. Bal, um namorado fiel, haha, faça me rir.”

Tolui examinava agachado um corpo sem vida de um índio Kaapor e disse:

– Esse aqui tem um corte na garganta. Parece que 4 morreram com golpes de Facão. O outro com uma flechada. O exilado é bom.

Subodai andou em silêncio e observou os Kaapors mortos.

– Ele atacou por trás, e primeiro matou esse aqui, falou apontando. Depois avançou contra esse arqueiro, o mais jovem do grupo, que provavelmente errou o tiro e matou aquele ali, que devia ser o segundo melhor lutador do grupo. Matou esse arqueiro e se virou para enfrentar aqueles dois que…tentaram um movimento de ataque duplo. O exilado partiu para ofensiva e matou esse, e depois se envolveu em uma demorada luta contra o líder do grupo, Ru’i, que foi morto com um golpe na nuca. O exilado tem astúcia e teve sorte. Eu vou encontrá-lo e o tratei até Kerexu, vivo.

Batu se virou e disse:

– Você vai sozinho? É melhor pelo menos irmos em dupla para garantir.

– Não. Eu vou sozinho. Começem a investigar esse promotor. Vou seguir essa trilha e em breve o encontrarei. Será interessante.

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