Nanatsu no Sekai – (Volume 2: Capítulo 6)

Capítulo 16

Dämon von Hölle

 

 

O choque era nítido no olhar de todos os presentes no recinto, com exceção, obviamente, daquele que acabara de destroçar um coração humano com suas próprias mãos. Aquele indivíduo continuava a falar lentamente enquanto olhava para os três mas suas palavras pareciam não sair de sua boca. Não, não eram as palavras que não saíam. O medo paralisava Terry, Samantha e Klug de tal forma que nenhum deles conseguia pensar em qualquer outra coisa que não fosse em como fariam para sobreviver naquele momento. Aquela situação se manteve por algum tempo até que o olhar, inicialmente indiferente do demônio começava a se transformar em um olhar visivelmente irritado. Ele, então, disse em um tom um pouco mais alto que o utilizado até aquele momento:

“Se não vão responder às minhas perguntas vocês são tão inúteis quanto esses corpos no chão. Na verdade, não vejo motivo para não torná-los ainda mais semelhantes.”

Terry em um momento de extrema lucidez e pensamento rápido acabou por acordar do transe em que se encontravam e responder a esta frase:

“Pedimos perdão! Nós nos perdemos. Entramos aqui por acaso e não conseguimos mais sair mas não foi nossa intenção perturba-lo de maneira alguma senhor.”

“Ora, ora…então vocês realmente sabem falar. Uma informação vinda em boa hora uma vez que, devo admitir, eu já estava ficando impaciente.”

O demônio, então, sentou-se novamente em seu trono cruzando suas pernas e apoiando seu queixo em uma de seus punhos que, por sua vez, estava apoiado no braço do trono. Ao ver aquela pessoa se sentando, Samantha e Klug também despertaram do choque e, se é que era possível, se acalmaram um pouco. Ele, então, prosseguiu:

“Há algumas semanas atrás eu os mataria imediatamente onde estão por mentirem para mim. Quero dizer, vocês estão no Tártaro e não sabem sobre esse lugar e nem sobre quem está aqui? Isso só poderia ser mentira.”

Samantha e Terry pareciam atônitos com tal frase. Já estava bastante óbvio mas agora não havia mais espaço para dúvidas de que eles haviam adentrado no território de algum peso-pesado daquele mundo. Este prosseguiu seu discurso:

“Contudo, ultimamente alguns ratos estão aparecendo constantemente por aqui e isso jamais aconteceu antes. Eles também pareciam perdidos mas ao contrário de vocês não pareciam dispostos a dialogar. Por isso houve a necessidade de se tomar medidas mais drásticas. Mas agora que sei que vocês possuem a capacidade de falar vocês podem responder minhas perguntas anteriores a começar por: quem são vocês?”

Samantha estava preocupada com algo que muitos poderiam considerar de importância irrisória dada a situação em que o grupo se encontrava. No entanto, sua curiosidade falou mais alto e a Ritualista acabou por cometer um deslize:

“Como você conseguiu compreender o que Terry disse? Você por acaso fala élfico?”

Ao ouvir a pergunta da jovem, o demônio abriu um pequeno sorriso de canto de boca e imediatamente desapareceu. Para a surpresa de todos os presentes, ele reapareceu atrás de Samantha enquanto respondia:

“Mulher insolente, você parece não entender a posição que se encontra nesse momento não é mesmo? O que te faz pensar que é você quem faz as perguntas aqui?”

Samantha, Terry e Klug voltaram a tremer de medo mas a Ritualista conseguiu encontrar forças pra virar seu rosto na direção em que ouviu a voz daquele homem amedrontador. Para sua imensa estupefação ele já não se encontrava mais atrás dela e, quando ela voltou a fitar a direção que visava antes disso, lá estava ele, calmamente sentado em seu trono olhando os três aventureiros com um misto de indiferença e desprezo.

“O que foi isso? Uma ilusão? Não. Eu não posso afirmar com certeza mas não creio que tenha sido uma ilusão. Essa é mesmo a velocidade dele. Isso é completamente absurdo. Ele está em um nível completamente diferente.” pensou Samantha ainda apavorada.

O demônio, então, disse algo que surpreendeu o grupo positivamente:

“Bem, se vocês realmente não são daqui não posso os culpar por não saber a quem dirigem suas insolentes palavras. Pois saibam que vocês estão diante de Dämon von Hölle, o Rei dos Demônios. De qualquer forma eu já perdi meu interesse em vocês. Como recompensa por não terem agido como estes lixos ensanguentados, abrirei uma fenda dimensional que os levará de volta para a entrada dessa caverna. Considerem isso o meu primeiro e único presente. Vão embora. Agora.”

Tal informação pegou todos de forma abrupta mas Terry e Klug estavam mais preocupados em sair daquele lugar o mais rápido possível que qualquer outra coisa naquele momento. Samantha, no entanto, lembrou-se de algo que os dois preferiam que ela tivesse esquecido: os rumores de que o Rei Demônio era um viajante de mundos como eles. E então, tudo começou a dar errado para aqueles três:

“Espere! Se você é mesmo o Rei Demônio então com certeza pode nos dar informações preciosas sobre este mundo e sobre o que está acontecendo conosco não é mes…”

Antes que pudesse terminar sua frase, Samantha fora agarrada pelo pescoço e erguida a uma altura de cerca de pouco mais de 2 metros. Apenas então ficou claro o quão alto o Dämon realmente era pois ele a erguia pouco acima de sua cabeça, ou seja, com certeza sua altura beirava ou mesmo ultrapassava estes 2 metros. Klug imediatamente urrou de raiva e avançou em direção ao Rei Demônio no que foi prontamente interrompido e arremessado contra uma parede por uma espécie de campo de força ao redor dos dois. Terry, que mal havia tido tempo para assimilar aquela situação tão precária, fazia menção a iniciar uma luta mas foi interrompido por Samantha, que gesticulou com suas mãos para que ele parasse enquanto tentava não engasgar e sufocar. Dämon, então, continuou:

“ Você, você, você. Diga-me, garota, na presença de um Rei você o trata por ‘você’ ou por ‘Vossa Majestade’? Está bem óbvio para mim que você possui uma curiosidade tão grande que, mesmo em face de um perigo mortal, você não consegue contê-la. Pois fica mais um aviso: esta será sua ruína. Por que? Por que você abusou de minha benevolência e agora eu mesmo me encarregarei de trazer esta ruína.”

Dämon agora empunhava uma espada escarlate sem que nenhum dos três aventureiros percebesse como e de onde ele havia a desembainhado. Klug, enfraquecido pela queda e pelo choque da barreira de Dämon, tentava distribuir inúmeros socos no campo de força visando quebra-lo de fora para dentro. A essa altura, Terry já havia ignorado o pedido de Samantha e havia invocado o Espírito do Urso para ajudar Klug. Em vão.

“Não se preocupe. Caso seus amigos sejam tão insolentes quanto você eu não hesitarei em os mandar para fazer companhia a você. Agora morra.”

Tudo parecia rodar em câmera lenta naquele momento. A espada fazia seu percurso em direção ao estômago de Samantha enquanto Klug e Terry se desesperavam e tentavam, de todas as formas, ampliar o número de golpes mas estes estavam cada vez mais fracos. Até que uma “explosão” aconteceu e uma cortina de fumaça cobriu o local em que Samantha e Dämon se encontravam. Quando a fumaça se dissipou, apenas Dämon estava no mesmo lugar. Terry se desesperou:

“Não…não é possível…”

Um urro de Klug, no entanto, provou que o pior não havia acontecido. Ao menos por enquanto. Samantha se encontrava de costas para uma das paredes do local, bastante ferida e coberta de sangue. Suas vestes estavam rasgadas em alguns pontos mas ela ainda estava de pé e respirava aceleradamente. Tal feito rendeu reconhecimento de seu agressor:

“Uh? Entendo. Você não é simplesmente uma garotinha fraca e imbecil. Imbecil e insolente mas não fraca.”

Ainda com dificuldades para respirar em um ritmo normal, Samantha disse, também com dificuldades:

“Este pequeno…evento…serviu para eu confirmar duas coisas. Primeiro, você colocou uma barreira ou uma espécie de feitiço em toda essa caverna com exceção do seu próprio campo de força para que o fluxo de magia não fluísse de forma normal. Esse foi um dos motivos pelo qual eu pude sobreviver ao seu ataque, uma vez que eu estava dentro dessa área e, portanto, pude voltar a conjurar uma magia protetora ainda que apenas por um instante.”

Von Hölle faria pela primeira vez, até então, uma cara de surpresa enquanto ria com certa satisfação:

“Você arriscou sua vida por essa possibilidade? E o que você teria feito se sua suposição estivesse incorreta?”

Klug e Terry pareciam completamente alheios a tal diferença de “humor” em toda aquela situação. Samantha respondeu a pergunta do Rei dos Demônios com um sorriso enquanto parecia finalmente recuperar um pouco do seu fôlego:

“Você sabe muito bem que eu teria morrido.”

“Entendo. Você sabia muito bem quais eram as duas opções e ainda assim resolveu arriscar. Interessante. Eu aplaudo sua bravura, mulher. Seu nome é um nome digno de ser conhecido pelo Rei Demônio. Diga-o para que eu possa lembrar a primeira pessoa a sobreviver a um ataque meu nas últimas duas décadas.”

“Meu nome é Samantha Blutbad. Encantada em conhecê-lo.”

“Pois bem, Samantha…você disse que nosso pequeno “confronto” serviu para confirmar duas coisas. Diga-me, qual é a segunda coisa que confirmou?”

Naquele momento, estava claro que Dämon von Hölle havia retomado o interesse no grupo. Mais particularmente em Samantha. Ele, então, andou calmamente em direção a escadaria e sentou-se novamente em seu trono enquanto aguardava a resposta de Samantha com entusiasmo.

“Você falou sobre a minha curiosidade mas isso pode ser considerado uma tremenda hipocrisia visto que você talvez seja ainda mais curioso do que eu. É a única explicação que eu consigo encontrar para se conter quando me atacou.”

Os olhos de Terry se esbugalharam com aquela informação. Toda aquela situação era um Rei Demônio se contendo? Absurdo. Era absolutamente incabível para o Druida pensar que aquilo pudesse ser verdade. Dämon, no entanto, riu novamente e, para espanto de Terry, confirmou a informação:

“Então quer dizer que você percebeu? Hahahaha. Interessante, muito interessante. De fato, é mesmo incrível que tenha assimilado tudo isso prestes a morrer. Eu já tenho uma ideia da razão pela qual acha que me contive mas gostaria de ouvir de você para confirmar meus pensamentos.”

“Ora, esta é a segunda e última razão pela qual eu ainda estou viva. Pelo que apresentou em termos de velocidade e até mesmo pelo nível de poder que podemos sentir em você, minha magia não me protegeria de nem mesmo 1% de um golpe seu com máximo poder. O próprio golpe que dividiu essa caverna e provocou nossa queda aqui foi mais forte do que o que efetuou contra mim, estou enganada?”

Von Hölle se mostrou surpreso pela segunda vez até então. O motivo foi revelado logo em seguida junto com uma recomendação:

“Quer dizer que vocês já estavam na caverna nesse momento? Hmm. Eu deveria ter sentido isso. Provavelmente estava entretido demais com os ratos. De qualquer forma, creio que a ‘atuação’ de sua colega rendeu aos senhores uma segunda chance de sair com vida deste local. Eu sugiro que não a deixem escapar dessa vez.”

Dämon dessa vez estava convicto de que não haveriam mais surpresas por parte de nenhum deles e Terry já fazia menção a agradecer a generosa proposta mas Samantha mais uma vez traiu todas as esperanças de um desfecho simples e amigável ao dizer:

“Eu sinto muito, senhor Dämon mas eu tenho uma proposta a fazer…”

Terry voltou a se desesperar. Não era possível que aquela mulher não pudesse ficar quieta por meros 5 minutos sem colocá-los numa situação delicada. Será mesmo que ela entendia melhor do que qualquer outro ali o quão perigosa era a situação? Ou poderia ser que ela era apenas uma pessoa viciada na adrenalina de situações de vida ou morte?

“Uma proposta? Veja bem, eu certamente duvido que possua algo a me oferecer que desperte meu interesse…”

Samantha sorriu e em seguida respondeu:

“Ah mas eu tenho. Você, em menos de 15 minutos, nos mostrou dois traços de personalidade. A primeira foi a de alguém frio e insensível que parece apenas querer ficar sozinho sem nunca se incomodado enquanto a segunda foi a de alguém curioso por outros e, mais especificamente, por nós, que não somos deste mundo…”

Dämon coçava levemente o queixo. Ele parecia entender onde Samantha queria chegar mas Terry e Klug continuavam completamente alheios à situação. Samantha, então, prosseguiu:

“Traços conflitantes, não concorda? Você quer ser deixado em paz mas ao mesmo tempo quer conhecer mais sobre o que desconhece e isso inclui pessoas. Pois eu tenho uma solução para tal dilema.”

Dämon sorriu. Ele realmente já sabia o que viria. E foi então que este interviu na explicação pela primeira vez:

“Você está, pela segunda vez nesses mesmos 15 minutos que disse, recusando a oferta de um Rei. Eu, infelizmente, não posso fazer vista grossa para tal afronta. Vamos fazer da seguinte forma então. Caso sua oferta, ou o que quer que tenha para dizer sobre ela, capture meu total interesse, eu os deixarei viver. Caso contrário, eu os matarei aqui e agora. O que acha disso?”

A aura de Dämon Von Hölle voltara a exalar um enorme nível de poder demoníaco. Um poder maligno e macabro que até mesmo Klug conseguia sentir. Estava claro que, desta vez, não haviam segundas intenções. Não era uma brincadeira, era real, muito real. Medo voltara aos corpos dos três viajantes. Entretanto, tal medo não fora suficiente para abalar a decisão de Samantha:

“Está bem. Eu não posso dizer sobre eles mas posso dizer sobre sim mesma. Eu aceito sua condição.”

“Samantha pelo amor de Deus pense no que está dizendo. Você mesma disse que esse cara está num nível completamente diferente do nosso. Pelo Espírito da Floresta, olhe os corpos ao redor dele!!! Você vai mesmo jogar sua vida fora assim por um capricho?”

Terry estava genuinamente preocupado. Não apenas com sua vida mas com as intenções de Samantha. O que poderia ser tão importante que faria a garota arriscar sua própria vida? Samantha, então, fez um pedido:

“Por favor, Terry. Confie em mim.”

Terry não confiava em Samantha. Não o bastante naquele momento. Contudo, ele sabia que as chances de sobreviverem sem Samantha e McGavin em mundos diferentes poderia ser drasticamente reduzida e que Samantha, possuidora de conhecimento quase infinito, não poderia estar fazendo isso sem uma boa razão. O instinto de viver disputava espaço com a razão dentro de Terry. Até que tal indecisão fora interrompida por um novamente impaciente Rei dos Demônios:

“Pois bem, você aceita e seus companheiros não caíram fora daqui ainda o que quer dizer que eles estão com você. Agora diga o que tem a dizer e saia ou morra depois disso.”

Samantha não se abalara por essas últimas palavras de Dämon. Ela sabia que teria de ser persuasiva o suficiente para convencer o próprio Rei Demônio de suas intenções. Ela, então, começou:

“Dämon Von Hölle, como você provavelmente sabe nós somos de mundos diferentes. Nós três compartilhamos o mesmo planeta mas vivemos em planos diferentes. Se você realmente for como nós vai acreditar nessas palavras. Em um dos planetas que estivemos, o avanço tecnológico era absurdamente maior do que qualquer outro e lá, tivemos acesso a algumas das mentes mais brilhantes daquele mundo. A causa para tal fenômeno ainda não pôde ser descoberta mesmo por tais mentes equipadas com o que há de melhor na tecnologia mas certas informações nos foram reveladas. A começar pelo fato de que provavelmente existem sete destes mundos o que indica sete indivíduos cujas leis do espaço-tempo não se aplicam. Além disso, todos nós compartilhamos o mesmo DNA apesar das visíveis diferenças físicas entre nós o que era, até então, completamente incabível sequer considerar. Portanto, caso algo aconteça com um de nós, há a chance…”

Samantha não precisava nem mesmo continuar sua explicação. Ela provavelmente queria chegar no ponto de que eles teriam de descobrir juntos a causa para tais fenômenos e, como McGavin, reunir o grupo para que pudessem se proteger e, ao mesmo tempo, descobrir mais sobre o que estava acontecendo. Faria sentido já que despertaria a curiosidade de Dämon sobre novos mundos e indivíduos bem como, a longo prazo, solucionaria seu “problema” com visitantes indesejados. No entanto, aquela última informação que ela estava providenciando acabara por cavar sua própria sepultura:

“…há a chance de todos nós morrermos, certo? Se, de fato, dividirmos o mesmo DNA sendo que é absolutamente impossível existir uma cópia exatamente igual de uma pessoa mesmo entre irmãos gêmeos mas que isso está acontecendo devido a interferências nas leis do espaço-tempo então ao eliminar um dos sete espécimes, os outros seis podem sofrer o mesmo destino não é mesmo?”

“Exatamente. É claro, isso pode não ser verdade pois há pouco  tempo algumas das coisas que estão acontecendo conosco sequer podiam ser tomadas como possíveis mas…”

“Eu não preciso ouvir mais nada. Obrigado pelas informações.”

Imediatamente após dizer isso, Dämon desapareceu de seu trono e reapareceu em frente a Samantha novamente. Dessa vez, a lâmina dava lugar a uma enorme luva escarlate.

“Merd…”

Tampouco completara a palavra, Samantha fora arremessada novamente contra uma das paredes. Ela, no entanto, se encontrava exatamente da mesma maneira que a primeira vez: coberta de sangue e ferimentos mas ainda viva e de pé. Uma espécie de aura azul-gelo a protegia.

“Hmm, que descuido da minha parte. Eu esqueci que eu ainda estava me contendo e acabei não aumentando meu poder. Bem, não vai acontecer de novo. De qualquer forma eu a parabenizo por conjurar feitiços tão rapidamente.”

“Ei, você disse que iria ouvi-la antes de tomar sua decisão! Ela não havia terminado de falar!” reclamou um Terry completamente amedrontado mas fiel à suas palavras

“De fato. E pra ser sincero, o que ela disse cativou meu interesse mas essa é uma oportunidade que eu não posso deixar passar.”

Dämon andou lentamente em direção à Samantha que mal conseguia se manter de pé depois deste segundo golpe. Ela tentava levantar as mãos em direção ao Rei dos Demônios mas seus esforços eram em vão. Provavelmente seu braço estava quebrado. Provavelmente ambos os braços estavam quebrados. Ele iria matá-la e não havia nada que ela pudesse fazer. Ninguém ali era forte o suficiente para detê-lo. Pelo que havia mostrado até então, provavelmente nem mesmo McGavin. Até que algo surgiu entre Samantha e Dämon:

“Saia da minha frente.”

Ignorando a ordem de Dämon, um gigante de rochas se posicionava em frente à Samantha e olhava com fúria para o, agora diminuto, Rei dos Demônios. Um urro e um soco se seguiram:

“NÃO! KLUG, SAIA DAQUI, AGORA!!”

O apelo de Samantha fora tarde demais. Dämon Von Hölle segurou o punho de Klug sem a menor dificuldade e, em seguida, disse em voz baixa:

“Tanto faz. Se aquela hipótese estiver certa você também serve.”

Um segundo depois Klug explodira em milhares de pedaços. Suas enormes rochas davam lugar a minúsculas pedrinhas que se espalharam por todo aquele salão e se banharam no sangue das vítimas anteriores. Os rostos perplexos de Samantha e Terry mostravam a face de quem não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. Com enorme frieza em sua voz, Dämon apenas disse:

“Hmm, ainda estamos vivos. Parece que sua teoria estava errada.”

 

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Em outro lugar naquela caverna, um indivíduo com uma pistola reluzente pulava e corria de um lugar para outro carregando outra pessoa em seu braço e apoiado em seu ombro.

“Samantha, Terry, Klug, onde estão vocês? Este lugar já está me dando nos nervos. Me desculpem por agir com tanto impulso. Vamos sair daqui logo. Juntos.”

Craver, então, riu freneticamente:

“Não, não vão não. Não juntos. Não mais…”

“O que quer dizer com isso, velho? Você não quer dizer que…”

A resposta de Craver foi apenas mais uma gargalhada maléfica e viciosa. McGavin sentiu um frio na espinha enquanto acelerou o passo.

 

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No mesmo lugar em que os outros se encontravam:

“Por favor, parem com seus esforços inúteis. Vocês sabem muito bem o quão sem propósito essa resistência é.”

Samantha estava completamente desgastada bem como Terry que suava bastante além de apresentar muitos ferimentos. Ambos respiravam com dificuldades. Samantha, então, proferiu as seguintes palavras para Dämon Von Hölle:

“Seu traidor maldito. Assassino. Um Rei sem honra. Eu posso não conseguir matá-lo mas me certificarei de arrancar um ou dois membros do seu corpo para vingá-lo. EU PROMETO A VOCÊ DÄMON VON HÖLLE, VOCÊ NÃO SAIRÁ DISSO IMPUNE!!”

Samantha puxou uma faca de dentro de sua meia-calça parcialmente rasgada e, novamente, fez um corte na palma de sua mão deixando as gotas de sangue caírem ao seu redor. Terry entendera o que aquilo significava:

“Um Ritual de Sangue…Samantha…não…”

O demônio invocado levitava enquanto pairava sua foice por trás de Samantha mas dessa vez, para a surpresa de todos os presentes, em vez de cortá-la nas costas como da outra vez em que a Ritualista ofereceu seu próprio sangue em troca de algo, Baphomet fez diferente. Ele fincou sua foice nas costas da garota e mergulhou dentro de seu corpo. Imediatamente seu globo ocular deixou de ser branco para se tornar negro e o vermelho de suas pupilas se intensificou. Dois chifres ondulados surgiram em sua cabeça e sua pele se tornou da cor de um roxo pálido. Por fim, seus cabelos negros e voluptuosos se tornaram brancos e frágeis. Sua aparência havia se modificado por completo e até mesmo suas vestes haviam mudado uma vez que o vestido provocante havia dado lugar a uma armadura pesada negra. Um par de asas surgira atrás de Samantha mas não era possível ver se eram “naturais” ou parte da armadura. Dämon, então, ficou surpreso pela terceira vez naquele dia, definitivamente um novo recorde em muito tempo. Ele disse:

“Ora então você também é um. Quero dizer, sua verdadeira forma…você também é um…

 

 

 

“…demônio.”

Kami no Sensou – Anêmona (Volume 6: Capítulo 1)

“Pois então, tudo começou quando… Bem, acho mais fácil mostrar do que contar, não é? Kuro-kun.”

“Huh? … Ah!”

Por estar um pouco distraído, Kuroshi demorou um pouco para entender o que Ryoka queria dizer.

Imediatamente ele fez a conexão entre os 5 com o [Soul Linker]. Já que nenhum dos 4 estava usando seus poderes, Ryoka ganhou liberdade para exceder um pouco seu limite e chegar aos 30% de poder sem riscos.

A intenção dela é—

“[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].”

O espaço ao redor deles se alterou completamente. Na dimensão que carrega toda a história da existência, é possível acessar o passado de Ryoka e Masaya casualmente e mostrar diretamente para os 3 o que precisa ser mostrado.

“Muito bem, agora… Fechem os olhos.”

Todos seguiram seu comando. Se concentrando e utilizando sua habilidade, como se fosse um sonho, todos começaram a reviver memórias que não eram deles.

Apesar de Ryoka e Masaya também estarem vendo aquilo, ainda era quase uma novidade. Isso porque a história estava sendo recontada, era realmente como se estivessem assistindo a uma história fictícia.

 

 

A família Illsbert sempre teve muito sucesso financeiro na vida, e sempre foi uma família feliz. Daisuke e Emily Illsbert eram casados há pouco tempo, e estavam no ápice da felicidade das suas vidas. Eles viviam quase uma lua de mel constante, que só teve o ritmo diminuído quando Emily descobriu que estava grávida. Nove meses depois veio a nascer a única filha do casal, Ryoka Illsbert.

Durante a vida deles, Daisuke fez um grande amigo, Suguro Fujiwara. Devido a situação complicada da família de Suguro, Daisuke decidiu dar a casa ao lado da sua para ele e o contratou para trabalhar como caseiro para ele, a diferença financeira dos dois nunca foi uma barreira. Após 3 anos depois do nascimento de Ryoka, o foco no trabalho voltou para o casal, embora eles sempre fizessem o máximo para educar e cuidar de Ryoka, muitas vezes eles dependiam do seu vizinho para cuidar dela… Ou mais precisamente do filho de Suguro, que era o primeiro amigo próximo de Ryoka, Masaya Fujiwara.

“Ei, Ryoka-chan ,vamos!”

“Espere, Masaya, você está correndo muito rápido…”

Masaya era bem agitado e animado quando criança, mesmo não tendo uma presença materna na sua vida.

“Você não conhece sua mãe?”

“Sim, ela foi embora quando eu tinha 3 anos, então não tenho quase nenhuma memória dela.”

Os dois estavam sentados em um balanço.

Ryoka desceu do balanço e colocou a mão na cabeça de Masaya.

“Não se preocupe, agora eu estou aqui.”

“Não me venha com essa, você é menor do que eu!”

Vivenciando essas interações quase todos os dias, nenhum dos dois se sentia solitário.

Até chegarem aos 12 anos de idade.

Por ser alguns meses mais velho, Masaya foi o primeiro. Sua vida normal começou a desandar quando ele fez aniversário. Informações chocantes chegaram a sua cabeça, e sem poder rejeitar aquilo, ele acabou dentro da [Guerra Divina].

Aquela coisa de outro mundo fez ele esconder essa realidade dos outros, e seu comportamento começou a mudar, o garoto agitado e animado começou a ficar mais distante e quieto. Mal ele podia esperar que ao seu lado, outro caso similar viria a existir.

Após o aniversário dos dois, certo dia, Ryoka chamou Masaya para contar um segredo.

Que para sua surpresa era o fato dela ser uma [Avatar de Deus]. Ela achou que ele não acreditaria a principio, mas também para sua surpresa, ele disse que também era um [Avatar de Deus].

“Masaya também…”

“Uh…”

Os dois acabaram ficando sem palavras.

“Nesse caso, devemos aproveitar essa coincidência para nos unir!”

Para tentar quebrar a estranheza, ele sugeriu isso.

Sem realmente entender a profundidade daquilo que estavam entrando, Ryoka sorriu e concordou em claro e alto tom.

E então, os dois se tornaram uma animada dupla… Por muito pouco tempo.

Certo dia, Masaya acordou devido a comoção que estava havendo na sua casa.

Ao ir descobrir do que se tratava, uma chocante imagem veio aos seus olhos—Seu pai estava sendo levado.

Levado pela polícia.

“Pai…!”

Muito chocado, Masaya só conseguiu chamar por ele. Suguro olhou para o seu filho com um olhar triste e desolado.

“Vá para a casa do tio Daisuke, Masaya.”

Foi tudo o que ele disse antes do policial que o segurava urgisse para que ele fosse até a viatura.

Masaya continuou  olhando perplexo para as costas do seu pai, sem notar as lágrimas começando a escorrer pelo seu rosto.

No caminho até a viatura, Suguro passou por Daisuke.

“Suguro… Eu cuidarei do Masaya… E farei o possível para te inocentar.”

Suguro deu um sorriso fraco para seu amigo de longa data. Ele estava feliz de verdade por saber que ele acreditava na sua inocência. Podendo deixar Masaya nas mãos dele sem se preocupar, ele não hesitou mais e entrou no carro.

Daisuke foi até a porta onde Masaya estava em pé, parado.

“Vamos Masaya. Nós precisaremos conversar sobre esse ocorrido, mas antes de mais nada você precisa tomar um banho e comer algo para se acalmar.”

Obviamente, naquele dia Masaya não digeriu nada.

Daisuke tentou ao máximo explicar o que havia acontecido. Basicamente, o pai de Masaya havia sido preso por roubo, havia filmagens dele assaltando a loja e o dinheiro e materiais roubados estavam na casa dele.

Conseguir provar que Suguro é inocente seria uma missão quase impossível, mas Daisuke estava disposto a lutar, pois ele sabia que tinha algo estranho nesse caso.

Masaya não sabia o que dizer, o que pensar, ou como reagir. Ele permaneceu quieto, seus olhos não expressando nenhuma emoção.

A criança de antes havia sido completamente destruída.

“… Masaya?”

Abrindo a porta do quarto onde Masaya tem vivido agora, Ryoka tentou falar com ele. Não era a primeira vez, mas a comunicação entre os dois simplesmente não acontecia mais. Ela tentou de tudo, mas nada surtia efeito.

Ela, no entanto, conseguiu pensar em mais uma alternativa.

“Eu tive uma ideia, Masaya…”

Ela olhou para os dois lados do corredor, confirmando que não tinha ninguém por perto, antes de entrar no quarto e se ajoelhar diante de Masaya que estava sentado na cama, em posição fetal.

“Eu tenho uma habilidade especial chamada [Analyzer]. Ela é uma habilidade ocular que me permite enxergar coisas impossíveis de se ver normalmente. Eu acho que usando ela eu conseguirei descobrir um jeito de soltar seu pai!”

“…”

Mesmo assim, não parecia ter surtido efeito. Notando que era inútil, Ryoka se levantou sem desanimar.

“Não se preocupe! Começarei minhas próprias investigações e trarei resultados, prometo!”

E deixando uma perigosa promessa no ar, Ryoka se virou e se retirou do quarto.

Sem perceber que, por um momento, ele havia esboçado algum tipo de reação, acompanhando ela com os olhos e mexendo a boca como se quisesse dizer alguma coisa.

 

Era difícil dizer se ele escolheu certo ou errado, mas depois de algumas semanas, Masaya mudou novamente.

Pode-se dizer que ele encontrou sua própria maneira de lidar com o caso. Ele se tornou mais frio, e também mais rebelde.

Até que chegou o dia que Daisuke deu uma direção pra vida dele.

“Masaya. Este é Yan Quon, ele é um grande artista marcial que eu contratei para te treinar.”

Daisuke apresentou um homem que embora parecesse já ter mais de 60 anos, tinha um corpo com músculos bem definidos e vestia uma tradicional vestimenta chinesa. Mesmo sendo para uma criança, Yan Quon o cumprimentou respeitosamente.

“Me treinar? Pra que?”

Mas Masaya só o ignorou e continuou o diálogo com Daisuke, o que o deixou um pouco sem graça.

“A partir de hoje, você será guarda-costas da Ryoka. Ela está para começar o ensino fundamental, e depois do último incidente resolvi ser um pouco mais cauteloso. Ah sim, você irá estudar junto com ela.”

Por incrível que pareça, não é como se Ryoka tivesse mais chances de sofrer algo em comparação a qualquer outra criança. Daisuke nunca expôs sua família para a mídia, então ele não precisaria se preocupar tanto. Mas sendo pai, acima de tudo, ele sempre manteve alguém de olho na Ryoka por precaução durante toda sua infância.

Com sua filha crescendo e chegando a adolescência, é natural que ela queira ter mais espaço pra ela. Tentando encontrar um balanço entre a privacidade da filha e a segurança da mesma, a resposta que Daisuke encontrou foi: Masaya.

Como os dois cresceram juntos, se estudassem juntos não haveria problema em irem juntos para a escola. E se Masaya fosse treinado para defendê-la, não precisaria de muita preocupação.

Por causa da nova fase rebelde de Masaya, Daisuke esperava uma forte negação, mas depois de ouvir os seus motivos, surpreendentemente Masaya apenas desviou o olhar para a direção de Yan Quon fazendo um som de “hmph”.

Não sendo apenas muito vivido e experiente, mas também um homem. Daisuke precisou segurar a risada ao ver aquilo. Não era uma risada de deboche ou algo do tipo, mas talvez de felicidade, pois pela primeira vez ele sentiu que conseguiu compreender um pouco o que se passava na cabeça de Masaya.

“Então, Quon-sensei, contarei com você.”

Daisuke falou com Yan Quon antes de se retirar.

 

Apesar de estar diante de um mestre de artes marciais, na visão de Masaya ele era lento e provavelmente poderia o derrotar com um golpe. Mesmo assim, sem saber se era por ainda ser uma criança ou por conseguir enxergar algo que uma pessoa normal não enxergaria, ele via um grande brilhantismo nos movimentos de Yan Quon. Claro, Masaya não podia simplesmente se mostrar ser um super-humano diante de alguém que não está na mesma situação que ele, por isso, ele escondeu o fato o máximo que pode.

Já nos primeiros dias, Masaya se viu interessado em aprender, e apesar da comunicação quase inexistente entre mestre e discípulo, eles produziam grandes resultados facilmente.

Em uma certa noite…

Ryoka abriu a cortina da janela do seu quarto devido a barulhos no seu quintal. Ela sabia o que era, pois acontecia toda noite.

Eram os sons de Masaya treinando sozinho. Mesmo depois das aulas de Yan Quon, ele permanecia praticando por horas.

De longe era possível notar a musculatura de Masaya tomando forma, apesar do pouco tempo de treino e a idade dele. Usando uma simples camisa branca e uma calça comprida preta, aquele era o uniforme de Masaya. Ele estar suando só provava o tanto de esforço que ele colocava no treino, devido a fisionomia sobre-humana dos [Avatares de Deuses].

Ryoka sabia o propósito desse treinamento, seu pai já havia comunicado ela. Uma parte dela estava descontente com a notícia, enquanto a outra queria estar feliz, mas não conseguia, o que gerava grande frustração nela. Isso acontecia devido ao fato da relação dos dois ter ficado muito estranha desde a última vez que se falaram—Há mais de um mês atrás.

Como ela prometeu, Ryoka tem se esforçado do jeito dela para tentar ajudar Masaya, mas ela ainda não havia encontrado respostas, por isso tem evitado contato com ele. Devido ao estado atual de Masaya, ele também tem evitado contato com ela, logo, de alguma forma eles pararam de se falar.

“Masaya… Seu idiota…”

Com um olhar triste no rosto, ela murmurou e fechou a cortina.

Suas palavras contradiziam seus sentimentos. Acima de tudo, ela culpava a si mesma pela sua covardia, assim como culpava o fato dela ter feito uma promessa que não sabe se conseguirá cumprir.

Vestida só com um pijama quadriculado verde e com seus longos cabelos soltos, ela se jogou na cama e começou a encarar o teto.

O que eu devo fazer?

Esperar?

E se continuarmos nisso pra sempre?

Agir?

E se ele se decepcionar por eu não ter cumprido minha promessa?

Ele faria algo assim?

O Masaya de antigamente não, mas o de agora… Eu não sei…

“Aaaaah, que droga!”

Ela se virou na cama e atirou um raio de luz com o dedo no interruptor, apagando as luzes do quarto.

 

Os dias continuaram passando rapidamente, até finalmente chegar o primeiro dia de aula dos dois.

Vestido com seu uniforme escolar, Masaya aguardou por Ryoka do lado de fora da mansão.

Quando ela apareceu saindo do portão, o coração de Masaya pulou uma batida.

O uniforme da escola era um uniforme de marinheiro preto com listras brancas. E pela primeira vez Ryoka apareceu com o cabelo preso em um rabo de cavalo. Ela estava definitivamente muito bonita, eis a causa.

Mesmo assim, foi algo que ele guardou para si, sem esboçar nenhuma reação.

“V-Vamos indo.” – Ryoka se esforçou para não gaguejar, mas foi tudo em vão.

Os dois começaram a caminhar lado a lado, nenhum dos dois puxava assunto.

Desviando o olhar para evitar contato olho a olho, os dois chegaram na escola antes de perceberem. Diferente de uma situação de um casal tímido demais para se comunicar, aquela atmosfera era feita completamente de estranheza entre eles, por isso, estava bem desconfortável.

Em um primeiro dia de aula, todos os alunos da sala tentaram se conhecer. Isso é, exceto Masaya. Sentado do lado da janela com o cotovelo na mesa e a mão apoiando a cabeça, ele passou o dia de aula com uma aura de poucos amigos, logo, poucos se aproximaram.

Cada resposta dele para seus colegas de classe era fria e curta, se conseguir a antipatia da turma era seu objetivo, ele estava no caminho certo. Era capaz de confundirem ele com um delinquente.

Aquilo preocupava bastante Ryoka, mas ela não conseguia se permitir a fazer alguma coisa. Ela nem conseguia puxar uma conversa com ele direito, afinal.

Aquele primeiro dia de aula se tornaria uma rotina rapidamente. Ou quase.

 

“Haa! Haa! Haa!”

Os treinamentos de artes marciais de Masaya continuavam diariamente.

“Você precisa se focar, Masaya.”

Essa não era a primeira vez que Yan Quon dizia aquilo, o que irritava um pouco Masaya.

“Você tem a força, o que é importante, mas força é algo que pode facilmente ser dominado quando se sabe os segredos das artes marciais.”

Você realmente pode dizer isso? Eu posso te derrotar sem que você sequer perceba.

Claro que a reflexão de Yan Quon se restringia aos limites humanos.

“O que você faria para lidar com alguém muito mais forte que você, Masaya?”

“…”

Ele sabia que a resposta que ele tinha não era o que Yan Quon queria ouvir, por isso ficou em silêncio.

“Eu vou fazer uma demonstração. Me ataque com toda a força.”

Ficando frente a frente, Yan Quon entrou em posição de defesa pessoal.

Talvez eu deva dar um susto nele…

Masaya não pretendia exagerar, mas para aliviar sua frustração decidiu usar uma força muito além do comum para uma criança de 12 anos.

“Haa!!”

Avançando em uma velocidade anormal, Masaya tentou socar Yan Quon com bastante força, mas—

“Hu!”

Arregalando os olhos por um instante, Yan Quon desviou a direção do braço de Masaya com uma mão e levou a outra palma da mão direto até o queixo de Masaya, que o forçou a dar alguns passos para trás.

Apesar de ter conseguido enxergar claramente toda a cena, Masaya não entendeu como aquilo aconteceu.

“Lembre-se disso, Masaya. Tendo o conhecimento e as técnicas necessárias, você pode derrubar alguém muito mais forte que você.”

Ele ainda estava surpreso. Naquele momento, Masaya passou a ver as artes marciais um pouco diferente.

 

Os dias iam e vinham. Em um certo momento, algo surpreendeu bastante Masaya.

Era um dia comum em que ele aguardava por Ryoka para ir para a escola.

“Vamos indo, Masaya.”

Quando ouviu a voz dela, ele parou de observar o céu e olhou na sua direção.

“R-Ryoka?”

Havia um detalhe diferente nela.

“U-Umm… O que?”

“Isso…”

Ele colocou a mão no rosto. Agora ela estava usando óculos.

“A-Ah, isso… Minha visão tem piorado recentemente haha…”

Masaya estava chocado. O que mais sobre Ryoka ele simplesmente não tem mais notado? Quando a distância entre eles ficou tão grande?

N-Não, esqueça isso…

“E-Entendo… Vamos indo para não nos atrasarmos.”

Ele balançou a cabeça e se livrou dos pensamentos.

 

Na escola Ryoka acabou se enturmando bem com seus colegas. Masaya sempre observava de longe (Sobre o pretexto de ser o trabalho dele), mas ele mesmo não fez nenhum amigo.

Refletindo um pouco sobre sua situação atual—

“Hey, Fujiwara.”

A atenção de Masaya foi chamada ao ouvir seu sobrenome enquanto caminhava em direção a cantina.

Três colegas de classe o cercaram. Um deles, que parecia o líder, colocou o braço por cima de um dos ombros dele e a cabeça por cima do outro.

Sendo meio que um observador por praticamente todo o tempo enquanto na escola, ele já sabia da índole desses três jovens.

“Nós ‘esquecemos’ de trazer o dinheiro do nosso almoço, e então pensamos “Ah, claro! Fujiwara com certeza irá nos ajudar”. Tenho certeza que você quer contribuir com uns 3000 ienes, certo?”

“Huh. Quem é você?”

Masaya perguntou despreocupadamente, o que irritou o rapaz.

“Como assim?? Você sabe sobre mim, certo?! Seu colega de classe!”

“Normalmente você não se importa com os diferentes nomes dos insetos, certo? Insetos são insetos. E tal como um, você tá me incomodando.”

Aquilo foi passar do limite, o garoto, furioso, se afastou e disse “Peguem ele”. Sem se importar com as testemunhas visuais por ali, eles avançaram para tentar segurá-lo.

Masaya desviou do líder e bateu com seu cotovelo no rosto dele, fazendo-o cair já inconsciente. Outro que se aproximava levou um forte golpe com a parte de trás da mão de Masaya no seu queixo e desmaiou imediatamente. O terceiro, obviamente, parou e optou por algo mais inteligente: Correr gritando.

Era um resultado esperado. Mesmo se fossem três adultos, o resultado seria o mesmo.

Como consequência, Masaya foi suspenso.

 

“Ouvi dizer que você foi suspenso da escola.”

Yan Quon comentou, sem olhar diretamente para o garoto, enquanto continuava o treinamento.

“Uh… Tive que ficar horas ouvindo o sermão do tio Daisuke.”

A conversa parou por ali. Durante alguns minutos os dois continuaram treinando em silêncio.

“Mestre, você acha que eu estou errado por ter agredido eles?”

Yan Quon olhou com surpresa para Masaya, era a primeira vez que ele havia o chamado de “Mestre”. Mas foi só por um instante, logo Yan Quon retomou o treinamento.

“Sim e não.”

“Sim e não?”

Masaya não havia compreendido a lógica por trás de uma resposta como essa.

“Alguns dizem que resolver as coisas através da violência sempre será errado. Não é um ponto de vista ruim.”

“Então eu estou errado?”

“Sim, mas não por isso. Tudo depende do seu estado emocional.”

“Estado emocional?”

“Sim. Usar da violência por raiva ou ódio devido às ações de um terceiro não passa de uma vingança, usar da violência por frustrações pessoais não passa de algo supérfluo, de fato, quase todas as situações podem ser resolvidas sem o uso da violência. Tudo depende do estado da sua mente, você precisa pacificar seu coração e tornar sua mente imperturbável diante de uma situação onde exista essa opção. Alcançando esse estado controlado de espírito você conseguirá encontrar a resposta certa para suas ações.”

Masaya não entendeu completamente o que Yan Quon queria dizer, mas seu discurso o afetou mesmo assim, fazendo aquelas palavras ficarem na sua mente.

“E quando usar a violência seria a opção certa?”

“Salvar alguém de um perigo inevitável? Impedir alguém incontrolável de espalhar o caos? Isso você mesmo precisa encontrar a resposta.”

A conversa novamente morreu ali. Dessa vez sem volta.

 

 

Terminando de se vestir, Ryoka se olhou no espelho e viu seu reflexo vestindo roupas casuais. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo e ela estava usando seus óculos. Ela estava pronta para sair.

Mais uma vez.

Já havia se tornado uma rotina, todos os dias ela saia mais ou menos na mesma hora. Ela não ia muito longe, por isso Daisuke não se preocupava. De fato, ela nem sequer saia dessa rua, muitas vezes nem sequer ia 2 casas de distância daqui.

Antes que pudesse sair do quarto, ela ouviu batidas na porta.

“Ryoka-sama, Daisuke-sama chama pela senhorita.”

Ao ouvir a voz de uma das empregadas da casa, Ryoka respondeu com um formal “Estou indo” e voltou a terminar de se preparar para sair.

Após isso, ela desceu as escadarias da mansão e se dirigiu até o escritório de Daisuke, que aguardava por ela.

“Pai? O que houve?”

“Ryoka… Você soube sobre a suspensão do Masaya, certo? Afinal, vocês voltam da escola juntos.”

Ryoka não conseguiu responder de imediato. Ela não esperava esse assunto. Com bastante esforço ela respondeu positivamente.

“É bem simples, hm… Eu sou muito ocupado, mas não consigo deixar de me preocupar com aquele garoto. Eu percebi que vocês andam se falando muito pouco, tentei evitar tocar nisso já que a situação dele é tão delicada, mas… Ryoka, você precisa fazer algo.”

“… Eu?”

“Eu sei que pedi a ele para ser seu guarda-costas, mas isso não significa que você precisa deixar que ele resolva tudo sozinho, Ryoka.”

“Eu não—“

“Ryoka.”

Ela parou de falar e notou que estava tentando não apenas mentir para si mesma, mas tentar enganar seu próprio pai para não admitir isso.

“Você pode fazer isso. Ou melhor, só você pode. Recupere o Masaya enquanto é tempo, antes que ele se perca de vez. Se eu o contratei para ser seu guarda-costas, agora estou te pedindo para ser a ‘guarda-costas’ dele. O que me diz?”

Apesar de tudo, aquilo era uma pergunta retórica. Aquela garota, no fim das contas, era filha de Daisuke, ele sabia muito bem o que ela iria dizer.

Comovida com as palavras do seu pai, Ryoka respirou fundo e respondeu, com um sorriso no rosto, um forte “Sim!”.

 

Ryoka estava na frente da casa de Suguro, pronta para mais uma tentativa.

Algo que ela vinha fazendo faz tempo… Tentando encontrar pistas que provem a inocência do pai de Masaya.

Normalmente isso seria uma tentativa inútil, não tem como uma criança fazer algo que a policia não conseguiu. Mas isso, obviamente, não se aplica aos [Avatares de Deuses].

Graças a sua técnica especial—[Analyzer]—Ryoka pode tentar encontrar pistas “invisíveis” a olho nu.

Ela já havia procurado por toda a casa, dessa vez estava investigando o jardim.

Se alguém estava tentando incriminar Suguro, para colocar o dinheiro e os materiais dentro da casa esse alguém precisaria entrar nela em algum momento. Como é possível não haver marcas deixadas?

Mas não só era possível, como era o caso. Ryoka não encontrou nada. Absolutamente nada.

Sua vista já estava cansada e ela havia olhado por todo o lugar.

Minha vista está piorando…

Ela já havia percebido o efeito colateral do uso contínuo do [Analyzer], mas continuava a usar mesmo assim.

Quando pensou em desistir, as palavras do seu pai vieram a sua mente.

Não posso desistir! Se o [Analyzer] não consegue me dar respostas, então eu só tenho que encontrar outro meio!

Já tendo feito alguns testes, Ryoka sabia que poderia descobrir novas habilidades caso elevasse seu nível de poder.

Confirmando sua decisão, Ryoka começou a aumentar drasticamente seu nível de poder. Ela sentiu um calor crescer dentro dela enquanto mudanças físicas aconteciam nela.

Informações antes desconhecidas vieram até sua mente.

—Encontrei!

[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].

A técnica capaz de acessar toda a história da criação.

Com algo assim, descobrir a verdade por trás da prisão do pai de Masaya será fácil.

Não há o que esperar…

“[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou]!”

O espaço se distorceu e se alterou completamente, uma nova dimensão apareceu diante de Ryoka.

Agora, Zenchi Kūkan, me mostre a verdade!

E então, imagens apareceram na mente de Ryoka—Ou melhor dizendo, memórias.

Os olhos de Ryoka se arregalaram completamente.

I-Impossível… Por quê?

Foi difícil compreender.

Duas pessoas.

Poderes especiais.

[Avatares de Deuses]?

Ao ver claramente as ações de uma garota usando estranhas habilidades para incriminar Suguro, Ryoka só pode se perguntar qual era o sentido daquilo.

Eu… Eu preciso contar isso ao Masaya urgente!

Cancelando sua técnica e voltando tudo ao normal, Ryoka decidiu correr até Masaya imediatamente. No entanto—

Eh?

Um choque passou pelo seu corpo, sua visão escureceu e logo ela perdeu a consciência.

Ignorante dos efeitos colaterais de usar muito poder, Ryoka ficou inconsciente durante dias.

 

 

Ryoka se levantou, um pouco tonta.

Tudo estava escuro, mas não era como se ela não enxergasse e sim como se o chão e o espaço ao redor fossem, de fato, pretos.

“… Onde…”

Ao sentir uma luz vindo de trás dela, ela se virou. Descendo do céu vinha uma grande esfera de luz.

“… Ryoka.”

Ao invés de curiosidade, medo ou surpresa, ela só conseguiu sentir fascínio ao olhar para a luz.

“Q-Quem… Quem me chama?”

A esfera ficou a uma altura próxima do solo e começou a tomar forma.

Uma garota com cabelos loiros esbranquiçados e olhos dourados sorria para Ryoka.

“Ryoka.”

“… Quem é você?”

Mesmo estando fascinada, Ryoka não conseguia deixar de notar… Ela parecia estar se olhando no espelho. A garota tinha cabelos e olhos diferentes, mas de resto era exatamente igual a ela.

“Eu sou Palas Atena.”

“A-Atena…”

“Haverá tempos em que você precisará tomar decisões importantes, Ryoka.”

“Decisões… Importantes?”

“Meu dever é te guiar. Mas… Vejo que você já está trilhando o caminho da justiça.”

“Caminho da justiça?”

“Entretanto, acima dos seus sentimentos pessoais, você deve priorizar a ordem e usar a sabedoria para guiar os perdidos.”

“…”

“Haverá tempos em que você precisará assumir a liderança, para assim triunfar sobre todas as impossibilidades.”

“…”

“Você não precisa de mim, Ryoka. Sei que buscará a justiça acima de tudo. Estarei te observando de longe, como sua outra metade, até o momento em que nós duas eventualmente nos separemos para toda a eternidade.”

O corpo de Palas Atena começou a se deformar e se tornar luz novamente.

“… E-Espere, Atena!”

Ryoka tentou esticar a mão e tocar na luz, mas a esfera se afastou e começou a voar para a distância.

Ryoka tentava correr atrás, mas parecia que a luz estava cada vez mais distante.

Se realmente quiser paz, lute pela justiça.

A luz então desapareceu completamente.

“O caminho da justiça…”

Enquanto olhava para direção da luz, a consciência de Ryoka foi se tornando mais e mais pesada, até que ela caiu de joelhos no chão e caiu deitada logo depois.

 

Como eu deixei isso acontecer?

Masaya estava sentado em uma cadeira do lado da cama de Ryoka.

Já faziam 4 dias desde que encontraram Ryoka inconsciente.

Mesmo o melhor médico da cidade não conseguiu encontrar a causa. Por isso, Masaya tinha uma ideia de que poderia ser algo relacionado aos [Avatares de Deuses].

Devido a isso, ele também começou a teorizar que a visão dela ter ficado ruim tem a ver com a habilidade ocular especial dela.

“… Masaya?”

A voz de Ryoka trouxe Masaya de volta para realidade.

“Ryoka! Você está bem?!”

Um pouco agitado, ele se aproximou dela, mas foi impedido com um leve gesto de mão.

Ryoka se sentou na cama e olhou para ele diretamente.

“Eu finalmente descobri.”

“Uh? Do que você está falando? O que aconteceu?”

“Quem incriminou o seu pai… Eu descobri.”

Por um momento o tempo parou para Masaya. Em choque, ele sequer soube o que pensar.

“Espere só mais um pouco, conseguirei informações sobre eles. São dois… [Avatares de Deuses].”

O impacto em Masaya foi inimaginável, e o diálogo entre os dois acabou forçadamente interrompido ali. Posteriormente houve uma comoção quando Daisuke e Emily descobriram que Ryoka havia despertado. A causa do seu desmaio permaneceu um mistério e alguns dias depois Ryoka conseguiu as informações que precisava através do seu pai.

Hildegard Antonia e Yiannis Zinon. 12 e 13 anos respectivamente.

Antonia tinha longos e chamativos cabelos violeta, e olhos da mesma cor, uma jovem garota exótica. Já Zinon tinha cabelos curtos, era loiro e com olhos verdes.

Através da sua técnica especial, Ryoka conseguiu descobrir a aparência e o primeiro nome dos dois, o resto foi fácil de encontrar. Zinon parecia vir de uma família normal, por outro lado, não havia nenhuma informação sobre a família de Antonia.

“Masaya?”

Ryoka bateu na porta do quarto de Masaya e o chamou, em poucos segundos ela foi atendida. Masaya não havia dado as caras desde que ela revelou a descoberta.

“Conseguiu as informações?”

Seu tom parecia mais frio que o normal, sua expressão estava escondida.

“S-Sim… Aqui.”

Ela entregou o que pareciam duas fichas sobre os dois. Masaya deu uma rápida olhada.

“Agora nós temos que pensar em um jeito de—“

“Você fica aqui.”

“Eh?”

Demorou alguns segundos para Ryoka entender o que Masaya quis dizer. Só quando ele deu as costas para ela e se dirigiu para a janela que ela conseguiu reagir.

“Espere, Masaya—“

“Esse é um problema que EU preciso resolver. Espere eu voltar aqui!”

Tendo dito isso, Masaya abriu a janela e saltou para fora.

“Masaya… Será que eu cometi um erro?”

Ryoka se perguntou se, no fim das contas, todo o esforço dela só serviria para piorar a situação.

 

 

Masaya já tinha a aparência, os nomes e até mesmo o endereço. Seu destino era só um.

Ainda era de manhã cedo, mas seus nervos estavam à flor da pele.

Ao chegar no bairro que constava nos papeis, ele começou a procurar. Como ele viajava saltando de teto em teto, sua visão era bem ampla.

Surpreendentemente, muito mais fácil do que ele imaginava, seus dois alvos foram avistados caminhando lado a lado com um uniforme escolar que ele desconhecia.

Sem esperar nem mais um segundo, ele saltou diretamente na frente dos dois.

Um jovem rapaz— Yiannis Zinon.

Uma jovem moça— Hildegard Antonia.

“Huh? Quem é você?”

Com uma das mãos por cima do ombro carregando sua pasta, Zinon questionou o misterioso garoto que apareceu na sua frente com um olhar de leve irritação e duvida.

“Uhmm, parece que fomos descobertos, Zinon.”

Antonia, com um sorriso arrepiante no rosto, comentou casualmente.

“Huh? Foi por isso que eu disse para não fazermos algo tão aleatório como você queria.”

O olhar de irritação dessa vez foi direcionado a Antonia.

“Eeeh? É minha culpa?”

Sem mais aguentar ver os dois discutindo como se ele não existisse, Masaya levantou o rosto.

“Vocês armaram para meu pai ser preso, não foi?!”

Um olhar de ódio ocupava o rosto de Masaya.

“Ah…”

“Sim, foi isso mesmo!”

Enquanto Zinon procurava o que responder, Antonia confessou o crime como se não se importasse.

“Hey! Não confesse o crime como se não tivesse nada a ver com você!”

“Eeeh? Estou errada?”

Masaya simplesmente sentiu como se estivessem debochando dele, já tendo a confirmação que queria, ele decidiu se mover.

Apesar de sido instintivamente, ele escolheu atacar Zinon primeiro. Ele deu um soco na cara dele e o jogou para longe.

Antonia acompanhou o corpo de Zinon sendo jogado para longe com a cabeça.

“Ooh… Espere, isso é um problema! Precisamos lutar na [Dimensão Reversa], não?”

Ela entortou a cabeça enquanto falava com Masaya.

Ele não sabia qual era o problema dela para agir dessa forma com ele, mas ela tinha um bom ponto.Antonia abriu a [Dimensão Reversa], grande o bastante para ter espaço para os três lutarem, o que cobriu parte da rua.

“Nós fizemos seu pai ser preso por algo que ele não fez. Se quiser podemos soltá-lo, mas pra isso você terá que vencer nós dois! O que acha? Você só terá uma chance. Se ganhar, desfaremos essa armação, mas se perder, terá de aceitar a prisão dele hehe.”

Masaya olhou com os olhos arregalados para a proposta de Antonia, ele não conseguia acreditar no que ela estava falando.

“Eu já pretendia chutar vocês dois para o quinto dos infernos de qualquer forma. Mas antes eu preciso saber… Por quê?”

Masaya nunca havia visto esses dois na vida, que ligação eles tem com Suguro? Porque eles fariam algo assim? Isso era o mínimo que ele precisava fazer.

“Antonia queria te testar. Huh, talvez seja melhor dizer ‘testar sua mente’?”

Masaya olhou surpreso para Zinon, que se aproximou só com um pequeno corte na boca.

“Testar minha mente?”

“Huh… Sabe, a Antonia é a [Avatar de Mens]. Mens era a personificação do pensamento, consciência e da mente na mitologia romana. Por isso, ela queria testar sua mente, é algo tipo um instinto natural para ela. Quando ela te encontrou e viu seu dia-a-dia, ela insistiu que precisávamos destruir aquilo para ver como você lidaria com a situação.”

“Então eu usei meus poderes para causar a prisão do seu pai, e você se tornou completamente outra pessoa hehe.”

Pasmo. Era a melhor definição para Masaya naquele momento.

Ele havia se decidido, esses dois eram loucos.

Já era um pouco notável a aura meio psicótica de Antonia, mas ele não imaginava que ela tentaria destruir a vida de um estranho porque seus “instintos” queriam assim.

“Lamento pelo seu pai, cara. Mas a Antonia pode ler mentes, ela descobriu que você era um [Avatar de Deus] junto com aquela sua amiga imediatamente. Você só deu azar de estar no lugar errado, na hora errada, agora é seguir em frente.”

Zinon também claramente não era normal. Dando conselhos para aquele que você tentou destruir a vida era simplesmente bizarro.

Não havia mais porque dialogar.

“Entendo…”

Masaya fechou os punhos com força e cerrou os dentes.

“… Estejam prontos para pagarem pelo que fizeram!”

As botas de Hermes apareceram nos pés de Masaya, que avançou em alta velocidade na direção de Zinon e tentou atingir seu rosto mais uma vez.

No entanto—

“Duas vezes seguidas não!”

Agora com um sorriso no rosto, Zinon já havia largado sua pasta e agora segurava uma espada de duas mãos, que ele usou para se defender.

“Você luta, Zinon. Eu não sou uma lutadora, então ficarei olhando, okay?”

“Huh, desnecessário dizer.”

“Tch!!”

Masaya tentou novamente, saltando e atacando com socos e chutes em alta velocidade, mas Zinon ainda conseguia se defender, os poucos ataques que o atingiam pareciam não surtir muito efeito.

“Hahahaha, agora está falando minha língua!”

Zinon balançou sua espada de duas mãos, mas Masaya recuou e se esquivou, uma rajada de energia com formato arcaico voou na sua direção, mas ainda era lento demais para atingi-lo, que desviou rapidamente para a esquerda—

“!!”

Masaya sentiu um forte impacto atingir seu corpo e jogá-lo para longe.

Capotando no chão, ele sentiu seu interior ficar bagunçado.

O que foi isso?! Um ataque invisível?!

“O que aconteceu, cara? Seu ódio só vai até ai?”

Caindo totalmente na provocação de Zinon, Masaya avançou para cima dele novamente.

“Aaaaaah!!”

Zinon não tinha velocidade o suficiente para se esquivar, mas enquanto conseguisse se defender, o dano seria mínimo.

Ele saltou para trás, segurou a espada com uma das mãos e levou o braço para trás como se estivesse puxando a corda de um arco. Em seguida, ele deu uma estocada na direção de Masaya.

A distância entre os dois era grande, logo, a espada nunca tocaria em Masaya dali.

Mas depois do primeiro ataque, Masaya já sabia o que esperar. Ele tentou se afastar o máximo possível, mas…

Sua visão se distorceu junto do seu corpo.

Ou melhor… O cenário estava se distorcendo.

A rua, as paredes, as casas, tudo estava se curvando de maneiras impossíveis. Em um instante, uma onda de impacto foi liberada e destruiu tudo ao redor do local, Masaya foi lançado para longe.

“Ufa, esse foi um bom aquecimento!”

“Eeeh? Já acabou? Esperava algo mais emocionante…”

“Huh… Pare de esperar coisas psicologicamente ou emocionalmente mais efetivas de tudo.”

Mais uma vez, Masaya se levantou. Seu corpo mal conseguia se manter de pé.

“Ah, ele levantou novamente!”

“Aprenda a desistir, cara.”

Os dois olharam para ele, Antonia com um olhar de curiosidade, Zinon com um olhar de pena.

Se ao menos a usuária do poder… Ao menos ela… Talvez…

Última tentativa. Masaya preparou-se para usar toda sua energia restante em um único movimento.

Ele sabia que Zinon não era rápido o bastante para entrar na frente do seu ataque. Se ele conseguir derrota-la com um golpe…

“HAH!!”

“Huh?!”

Em um movimento ultra veloz, Masaya surgiu na frente de Antonia, quando Zinon percebeu era tarde demais!

Dando um soco diretamente na direção do coração de Antonia, ele terminaria a luta imediatamente.

Talvez ele tivesse conseguido… Se tivesse acertado.

O brilho nos olhos de Masaya desapareceu quando ele notou que seu ataque não atingiu Antonia.

Não foi ela quem desviou, foi ele quem errou o ataque.

Como… Como isso é possível…

“Você cometeu um erro, cara!”

Aproveitando o momento, Zinon acertou o corpo de Masaya com a espada e o jogou diretamente no muro de uma casa, o impacto fez o ar sair dos pulmões dele.

Todas as suas forças acabaram, todo seu corpo doía. Ele estava sentado no chão, em um péssimo estado, e olhando para o nada.

“Bububu, você perdeu. Seu pai ficará preso por anos agora!”

O tom de voz de Antonia não era de deboche, nem nada do tipo, ela apenas o informou casualmente.

“Huh, ele parecia que seria um oponente melhor.”

Zinon pegou sua pasta no chão, e se virou.

“Vamos indo, Antonia.”

“Nós vamos nos atrasar, não vamos?”

“Se nos apressarmos talvez consigamos a tempo.”

A voz dos dois lentamente desapareceu.

Masaya logo perdeu a consciência graças ao dano recebido.

Com a [Dimensão Reversa] cancelada, toda destruição e ferimentos de Masaya desapareceram.

Mas um dano em específico permaneceu.

 

 

“Masaya, o que houve? Você não tocou na sua comida ainda.”

A voz do seu pai, preocupado, veio aos seus ouvidos.

O pequeno Masaya, com 6 anos de idade, não estava com fome.

“Papai, quando a mamãe vai voltar?”

Suguro congelou quando ouviu a pergunta do filho.

“M-Masaya… Sua mãe não vai voltar…”

“Mas eu sempre vejo todo mundo com suas mães…”

Masaya olhou para o seu prato, o pouco de comida que tinha ali era triste de se ver.

“Porque só eu não tenho mãe? Porque comemos tão pouco? Eu não gosto disso!”

Suguro não soube como agir. Vendo isso, Masaya saiu correndo para seu quarto.

“Desculpe, filho…”

 

Dentro do seu quarto, Masaya se lamentava. Ele não queria entristecer seu pai.

Para Masaya, Suguro era a única família dele.

“Desculpe, papai…”

Apesar de não falar diretamente para Suguro, por sentir vergonha após ter agido daquela forma, ele ainda se arrependia.

“Eu prometo que serei mais animado daqui pra frente e ajudarei em casa…”

Seu maior medo era perder a única coisa que lhe restou.

Desde aquele dia, ele se forçou a ser mais animado, a demonstrar menos tristeza.

Eventualmente essa coisa forçada se tornou algo natural quando conheceu alguém importante para ele…

 

 

“…ya!”

Uma voz trouxe sua consciência lentamente de volta para a realidade depois de um sonho azedo.

“Masaya!”

Ao abrir os olhos, o rosto de Ryoka estava diante dele.

Entendo… Eu perdi. Desculpe, pai…

“Alguém me viu inconsciente?”

“Não… Eu te trouxe pra cá sem que ninguém percebesse.”

“Desculpe por isso.”

Por algum motivo ele se sentia mais à vontade para falar com Ryoka agora.

“… Você está bem?”

“Sim, não se preocupe. Eu só preciso descansar mais um pouco, então…”

“Ah… Tudo bem, eu vou deixa-lo descansar… Se precisar de mim é só chamar.”

Ele acenou positivamente com a cabeça, tentando parecer o mais gentil possível. Assim que Ryoka saiu do quarto, a atmosfera ao redor dele ficou mais depressiva.

Deveria eu realmente… Apenas desistir?

O que ele pode fazer? Quais são suas opções?

Para Masaya, os sentimentos pesados no seu peito o faziam ter duvidas sobre tudo. A ponto de considerar aceitar as coisas do jeito que estão.

Se isolando sentado no canto da cama, ele começou a pensar no que fazer.

Foram algumas horas até que alguma ação relevante chegou na mente de Masaya.

Talvez… Talvez me comunicar traga alguma resposta…

Decidindo se livrar de vez dessa atmosfera que o circundava, ele se levantou e saiu do quarto.

PARAGOBALA: CAPÍTULO 22 – FUGA

PARAGOBALA: CAPÍTULO 22 – FUGA

Antônio levantou da cama onde dormiam duas mulheres, prostitutas de luxo. Comemorava em grande estilo a morte de Bezerro. “No final, o moleque não passava de um covarde que se matou antes de arrombarmos o lugar”. A quantidade de dinheiro deixada pelo criminoso em seu cofre foi decepcionante, mas isso era só a cereja do bolo. O premio principal foi restabelecer o controle do tráfico da cidade.

Foi até o seu computador navegar na internet, ainda estava empolgado demais para dormir. Tinha uma mensagem nova no e-mail e o abriu. Entrou em choque enquanto a lia:

“ Você tem 24 horas para sumir dessa cidade e nunca mais aparecer. Tenho provas de diversos crimes que você cometeu no cargo de delegado. Estou às enviando em anexo. Caso ainda esteja aqui amanhã, às enviarei para o ministério público e para a imprensa”.

“Não pode ser”, pensou incrédulo. Abriu o anexo e os seus temores se concretizaram. Haviam ali incontáveis provas de seus crimes e ligação com o tráfico. O trabalho impressionava pelo detalhismo e número de evidências. “Alguém me traiu! Malditos…merda!” e deu um murro na mesa, acordando as garotas que tinham idade para serem suas filhas. Sua mão tremia e ele não conseguia ver nenhuma saída. “Preciso pensar”. Foi até a cama e puxou uma das garotas até perto dele, e em seguida empurrou a cabeça dela para baixo. “Me ajudem a relaxar garotas”. Minutos depois ele percebeu que aquilo não iria funcionar. Ele não estava funcionando. “Filho da puta, me tirou até isso” pensou. Empurrou a garota e gritou “ Saiam daqui suas vadias, já chega”. Jogou maços de dinheiro para elas, que saíram às pressas. Depois foi até o fundo do armário, pegou uma mala e começou a separar suas roupas.

***

Logo no início da manhã, Vincent já estava na sua mesa no fórum. Tinha desaparecido por dois dias e queria colocar o trabalho em dia. Estava animado com as perspectivas. Havia terminado de montar o seu dossiê contra o corrupto delegado da cidad, e em breve ele deixaria de ser um problema. No seu lugar, planejava colocar o seu amigo Nathan, em quem depositava total confiança. Ainda não sabia ao certo como seria o processo ou se ele assumiria o cargo dentro da legalidade, mas essa era uma preocupação secundária. Já conseguia se enxergar trabalhando com Nathan e arrumando aquela cidade.

Começou a revisar as peças feitas por Bal e Agha. Diferentemente de muitos outros promotores, raramente as assinava sem fazer modificações. Sempre encontrava alguma coisa para adicionar, principalmente nas peças de Agha. Achava a argumentação dele muitas vezes preguiçosa, como se ele não fizesse realmente questão de colocar o suspeito atrás das grades. Muito se enganava quem pensasse que Vincent denunciava qualquer um que aparecesse em sua mesa. Por muitas vezes pedia absolvição, e quando achava o caso improcedente, arquivava. Porém, uma vez que se convencia que o sujeito era culpado, não descansava, e não se intimidava por escassez de provas. Jurou a muito tempo nunca arquivar um processo de um culpado com fundamentação em falta de provas. No entanto o seu estagiário parecia ter dificuldades em seguir essa linha de pensamento, e em breve eles teriam uma conversa séria sobre isso.

Bal, por outro lado, sempre buscava meios de fazer uma denuncia, e por muitas vezes apresentava uma pesquisa meticulosa. Ainda pecava em alguns momentos por ser legalista demais e até inocente. Quanto a isso, pensou que precisa demonstrar a Bal que confiava nele e que não era preciso ter receio na hora de denunciar.

Em meio a vários processos, se lembrou do caso bizarro e violento da mulher que foi assassinada e teve o ânus cauterizado. A polícia tinha empurrado uns pobres coitados quaisquer, mas era óbvio que não haviam cometido o crime. Havia pedido uma diligência, até agora sem resposta. Pegou o telefone e ligou na polícia.

Para a sua satisfação, Antônio não atendeu.

***

Bal recebeu uma mensagem no celular e notou que era de Clara: “ Precisamos nos encontrar, tenho que conversar com você.” Ele viu com bons olhos o conteúdo. “Ela quer terminar o relacionamento? Já é hora”. Respondeu e marcou um encontro a noite.

Caminhou pela academia de peito estufado, sem desviar o olhar que recebia de garotas do local. Já se sentia praticamente um solteiro novamente. Distribuía sorrisos e reparava nas moças como não fazia a muito tempo. Mas apesar da oferta de corpos do local, pensava na sua vizinha. Queria despi-la, e não se tratava só das roupas, queria entrar em sua mente e conhecê-la melhor. “Quem sabe hoje, após o meu encontro com Clara” fantasiava.

***

Vincent estava estupefato pelo que havia sabido do policial. Não só a polícia não tinha obtido progresso na investigação, como eles encontraram outro corpo. Outra mulher, com o ânus suturado. O seu instinto lhe dizia que aquilo não pararia por ali. Assassino em série, foi o que piscou em sua mente. “E esse fim de mundo consegue ser ainda pior do que eu imaginei”.

A polícia obteve o celular da vítima em sua casa, e o enviou para um perito técnico, o único da cidade. Não era funcionário público, mas tinha uma longa parceria com o departamento. Vincent lamentou que dessa vez os policiais seguiram o procedimento legal, pois ele não exitaria em levar o aparelho para casa para investigar ele mesmo. O fazer com as próprias mãos lhe instigava, e dava uma sensação maior de dever cumprido. Fora isso, ele tinha convicção que teria mais condições de hackear um telefone do que um técnico local. Pegou com o policial o endereço desse técnico e foi até lá.

Chegou no local indicado e viu que se tratava de uma lojinha pequena, com uma placa no alto “ Assistência técnica para celulares e eletrônicos”. Empurrou a porta e entrou no estabelecimento. Não havia ninguém no balcão. Deu uma olhada ao redor, e tudo era surpreendentemente organizado. Tinha a experiência de já ter visitado várias lojas de eletrônicos que eram uma bagunça. Nas paredes, produtos relacionados a celulares ficavam pendurados. A bancada em formato de U, toda limpa. Vincent foi até o balcão e gritou:

– Bom dia!?

– Oi! – uma voz veio lá do fundo. Já estou indo ai!

Instantes depois, chegou um jovem, através de uma porta do outro lado da bancada. Ele tinha a mesma altura de Vincent e cabelo castanho no clássico formato tigela. Na frente, a franja era dividida em duas, exatamente no meio da testa. O funcionário da loja estendeu a mão e disse:

– Prazer, sou João Rizi.

– Vincent. Fui informado que o celular de uma vítima foi entregue a você para investigar.

– Vitima?

– Uma mulher que foi assassinada…

– Ah sim. Tenho ele aqui sim.

– Algum progresso, descobriu alguma coisa?

– O senhor é da polícia? Não tenho autorização para falar sobre isso.

– Ah desculpe-me. Eu sou o promotor da cidade. Trabalho junto com a polícia. Estou comandando essa investigação. Estou no rastro desse assassino e queria saber se você conseguiu pistas novas. – Vincent mostrou seu crachá para João, que o pegou e analisou de perto. Se quiser posso pedir para um policial ligar aqui e conversar com você.

– Não precisa – devolveu o crachá. Eu consegui acessar o telefone, mas não descobri nada. Estou tentando recuperar arquivos deletados, mas duvido que vou achar alguma coisa relevante.

– Bom saber que teve progresso. Você tem ai registro do que você conseguiu? Eu gostaria de levar para dar uma lida.

– É…sim. Só um instante que eu vou pegar para você no computador.

Vincent viu o sujeito ir até a um computador ao seu lado. Percebeu que usava o sistema operacional Windowns, e quis provocá-lo.

– Usa windows, hein? Para um técnico não seria mais seguro usar Linux não?

– Olha, usar Linux ou Windowns tanto faz. Se alguém realmente quiser os seus dados, não dá para se proteger.

Vincent se preparou para rebater, explicar em detalhes o porque daquilo ser um absurdo, e de como o sistema Linux entregava segurança aos usuários. Sua impressão de que um técnico local não teria grande qualificação havia se confirmado naquele instante. Mas antes dele falar, Rizi disse:

– Aqui está o pendrive com os arquivos.

– Obrigado – agradeceu o promotor e logo depois saiu da loja.

***

Em casa, Vincent ainda estava com o técnico na cabeça “ que sujeitinho mais despreparado para exercer sua profissão.” Por outro lado, conseguia ver isso como algo positivo “ é capaz que ele tenha deixado passar coisas importantes nesses arquivos. Mal vejo a hora de colocar minhas mãos naquele aparelho.”

Entretanto, a investigação foi decepcionante. Não descobriu nada relevante naqueles dados. A dona do aparelho era uma estudante de administração, tinha um namorado e amigas. Uma garota aparentemente normal.

Assassinatos em série não eram sua especialidade. Como grande fã de investigação, já havia assistido diversos filmes e lido alguns livros sobre o assunto. Precisava procurar semelhanças entre as duas vítimas. Aquilo, no entanto, iria lhe tomar muito tempo, e ele precisava pensar no outro caso, o principal caso: o bando que assassinou o seu irmão.

Teve uma ideia e ficou curioso para saber como isso seria recebido: iria pedir para Bal e Agha ajudá-lo na investigação do caso das mulheres mortas.

***

Bal saiu 5 minutos antes do trabalho, ansioso para o encontro com Clara. A viu de longe, no banco de uma praça.

Quando se aproximou, Clara se levantou, e veio abraça-lo, para sua surpresa.

– É bom te ver, Bal.

Sem resposta pronta, apenas concordou com a cabeça.

– Sobre o que quer conversar comigo? Eu também quero falar algo com você – se precaveu, agora que já não estava tão certo sobre como seria essa conversa.

– Sei que eu andei te aborrecendo, que sou diferente das outras namoradas que você teve. Mas eu gosto muito de você, eu preciso de você. Vou assumir minhas decisões e lidar com os meus traumas.

– Clara…- tentou falar Bal.

– Deixe eu terminar, por favor. Como eu disse, eu preciso de você perto de mim…da sua força e forma tranquila de lidar com o mundo. Hoje minha mãe descobriu em um exame que está com câncer de mama – os seus olhos se encheram de lágrimas nesse ponto, e ela se aproximou de Bal para abraçá-lo outra vez.

Bal ficou sem reação. A segurou em um abraço, e passou a mão por cima do cabelo dela.

Ela levantou o rosto e disse:

– O que você queria falar comigo?

– Não era nada importante.

***

Antônio dirigia de madrugada pela estrada. Tinha levado uma quantidade considerável de dinheiro e os seus pertences mais valiosos. Chovia e a visibilidade era ruim, mas ele não tirava o pé do acelerador. Estava com medo e queria se distanciar o mais rápido possível de Paragominas. A mera sugestão de ir para a cadeia o assustava. Então o carro deu um solavanco, e depois começou a perder velocidade. Ele ouviu um barulho estranho e repetitivo vindo da frente. “Pneu furou! Que dia!”. Sua vontade era continuar assim mesmo, mas sabia que o veículo não aguentaria muito tempo nesse ritmo. Encostou no acostamento e foi conferir o pneu.

Deu a volta no carro e foi até a roda direita dianteira. Congelou ao ver que tinha uma flecha cravada na borracha. “Mas que porra é ess…” levou uma pancada na nuca e caiu no chão.

Tentou tirar uma arma do cinto, mas um vulto a chutou longe. Tentou ver quem estava a sua frente, mas chovia e estava escuro.

– Você tem sangue de índio nas mãos. Sabemos que participou do massacre dos Guaranis.

– Eu..eu não tive nada a ver com isso! Vocês estão enganados, sou amigo dos índios.

Levou um chute na boca e cuspiu sangue.

– Hoje você vai morrer pelas mãos dos Kaapor.

Ouviu um barulho de arco, e depois sentiu uma dor enorme no seu joelho. Uma flecha cravada no osso.

– Aaaahhhh! Por favor! Eu não tive escolha! Aquele maníaco me ameaçou!

– Todos envolvidos vão pagar, não se engane. Mas sua hora chegou agora. Você vai sofrer mais um pouco e depois partirá desse mundo.

Mais um barulho de vento cortando o ar, e mais uma flecha, agora cravada no joelho que estava bom.

Antonio chorava e balbuciava. Subodai o olhava sem emoção. Se estava tendo prazer naquele momento não demonstrava. Seus olhos eram serenos. Guardou o arco nas costas e sumiu na escuridão. Tolui então surgiu com um machado na mão e um sorriso no rosto. Antonio viu o brilho da arma no escuro e começou a gritar ainda mais alto, e pela última vez. O Índio levantou o machado acima da cabeça e então um golpe seco perfurou o crânio do delegado.

Contos de Ustrael – Cidade de Ballas (Capítulo 6)

A cena era no oceano de Kanszes.

Aos poucos…E de maneira lenta….Kaori foi abrindo os olhos.

“!”

Levou um susto pelo fato de estar sendo carregada as costas de alguém.

“Hu?Finalmente acordou, princesa?”

“Last…?”

“Estava passando por ali e a vi, então ainda continua com esses treinos loucos e sem sentido?Dessa vez passou mesmo dos seus limites, ficou sonsa, fechou os olhos e afundou no meio do mar, podia morrer afogada se não tivesse ninguém por perto, não seja tão irresponsável da próxima vez.”

“…”

Deu apenas um sorriso fraco.

“Sim, obrigada…”

Foi como o jovem bem disse, a herdeira de Kanzes treinava há duas horas interruptas dois golpes que exigem demais de seu corpo, se colocar na balança que ontem a noite teve um sparing realmente puxado com Ground que ainda faz seus membros estarem doloridos, o certo seria passar a manhã em repouso.

Porém…

Não.

Não conseguia.

O casamento estava cada dia ficando mais perto, tomou para si que jamais deve achar que sua força atual é boa o suficiente para lutar contra Perseus, mas é um fato que se encontra passando um pouco dos limites atualmente.

Last não é o nome deste garoto, o verdadeiro é Lastarus, sim, uma bela de uma porcaria segundo o detentor do que chamou de “maldição” de uma mãe.

Last é um jeito carinhoso que Kaori se refere a ele.

É um dos estudantes da academia de paladinos que existe na ilha três e em algumas outras, o jovem é um verdadeiro prodígio que dominou inúmeras técnicas avançadas de maneira veloz se tornando extremamente hábil na arte da espada e magia ao mesmo tempo.

Por seus resultados foi selecionado para entrar rapidamente no exército e realocado para a ilha principal.

Inclusive, como o guarda-costas de Kaori recentemente.

Por não estar trabalhando nesse momento vestia roupas casuais do verão infinito do país.

Possui cabelos dourados que caem até a orelha com belos olhos verdes.

18 anos e 1,80cm.

—–

Chegaram a margem da ilha e caminharam até o hotel que ficava ali perto construído em cima da própria água.

Como princesa, era apenas claro que não precisava pagar por nada, sendo assim, entraram sem problemas em um dos quartos.

Primeiro trocou as roupas molhadas pelo fato de ter naufragado, depois se sentou a cama enfaixando a canela.

Forçou demais uma postura e pareceu que o osso ia quebrar, era difícil andar e cada toque fazia parecer que se quebraria em mil pedaços.

“Você devia pensar mais em mim.”

“Hã?”

Olhou para frente e o viu cruzando os braços.

“Se a princesa morrer em um acidente de treino a cabeça do guarda-costas vai junto!Quem acha que ia te salvar naquela parte deserta do oceano se eu não estivesse te procurando há uns 40 minutos, heim???”

“Desculpe, desculpe!”

Essas palavras foram em um tom totalmente irônico sem um pingo de arrependimento, aliás, a própria pergunta de Lastarus foi uma ironia, a chance dela morrer afogada era 0.

“Por que não ligou pro meu celular???”

“Por que você não atendia!”

“Ah…Eu o esqueci mesmo no quarto…”

“IDIOTA!”

Mas…Agora sim.

Agora fez um olhar preocupado e se aproximou sentando na cadeira ao lado.

“Entendo o turbilhão de coisas que devem estar passando na sua mente neste momento por causa do casamento, mas saiba de algo, se forçar além de seus limites assim não vai melhorar nada, aliás…”

Cerrou os olhos.

“Por que está treinando tanto assim?Não parece que você quer simplesmente ficar mais forte do nada, QUER IMPRESSIONAR O PERSEUS, É?!”

“CLARO QUE NÃO!”

Obviamente que Lastarus não sabia a verdade dos eventos de 18 anos atrás, tinha para ele, tal como todo o povo do país, que a pessoa a sua frente era a filha de Órion.

Então…É apenas natural.

Nada anormal não entender por que se esforçar tanto assim nos treinos sendo que “não iria” se rebelar contra Perseus e nem traria bons resultados a curto prazo arriscando tanto assim a saúde.

Qual seu objetivo?

O que exatamente quer?

Foi pego em total curiosidade.

“Eu apenas…Tenho algo a provar para um certo alguém que vai estar aqui no casamento e-

Deu um grito e abaixou a cabeça.

O motivo?

Ele a socou.

“NOVAMENTE, IDIOTA!NÃO COLOQUE SUA SEGURANÇA EM RISCO POR ORGULHO!”

“Não é orgulho…!!!”

Pelo golpe repentino fez bico.

Mas…O deu um sorriso sincero.

“!”

Foi do nada.

Veio completamente do nada e fora pego de guarda totalmente baixa.

Injusto!

Não conseguiu encará-la e virou o rosto.

“Mas obrigada por se preocupar comigo, eu não posso te contar agora, mas vai entender em pouco tempo.”

“Entender, é?”

Fez um olhar reflexivo.

Kaori nunca foi orgulhosa.

Muito pelo contrário.

Se existe algo que não pode atingir sozinha…Pede ajuda e a aceita sem problema algum, nunca viu problema em depender dos outros para atingir lugares ao qual sozinha são inacessíveis.

Então…

Realmente não pode ser algo tão idiota como orgulho se nunca o teve.

Logo… Se está se esforçando tanto assim nesses treinos recentemente…A situação que iria ocorrer em breve realmente pedia esse esforço, certo?Sendo algo assim não pode culpá-la.

Na realidade ele sempre soube disso.

Apenas tentou fazer um jogo de palavras para Kaori dividir este problema com ele.

Pois não saber os problema que a garota que ama está passando é horrível.

Se sente um inútil por não ter força para fazer nada, queria fazer algo, qualquer coisa independente do que fosse, por que toda vez que pensa no dia em que provavelmente será entregue a Perseus…

Se sentia frustrado.

Completamente irado.

Queria ajudar e tinha vontade de gritar estes sentimentos a ela, mas…Não vai, ela não vai dizer nada, já podia ler essa resposta vendo a expressão da jovem.

Se fosse tão fácil já teria dito.

O paladino ergueu o braço o que a fez fechar os olhos achando que ia vim outro soco.

Mas…Tocou o ombro dela o que a fez levar um susto.

“Apenas não se esforce demais.”

“Sim…Obrigada por compreender.”

“Hu, você é bem injusta.”

“QUE FOI DESSA VEZ?!”

Olhou para cima, o notou fazer um olhar sério.

“Tendo me escolhido em meio a tantos outros com esse casamento marcado, hu, não sabe como me sinto por só poder ficar olhando.”

“Ah…”

O sentimento de amor era recíproco.

Mesmo antes de Lastarus ser movido a ilha principal, enquanto ainda estava em formação na ilha três…Ele e Kaori sempre andavam juntos até que evoluiu a algo maior recentemente.

Mas…

O casamento impedia de realmente terem planos futuros.

A ordem de momento, por enquanto, era aproveitar estes dias e vê o que o futuro aguardava.

“Ei, Last.”

“Hum?”

Ela disse.

Falou claramente.

“Meu irmão está vindo chutar a bunda do Perseus.”

Sim.

Porém…Falou em outro idioma, um que Lastarus não era nem um pouco fluente.

“…”

“…”

“FALE EM UM QUE EU POSSA ENTENDER!”

“Acredite!Quando você entender o que eu acabei de falar, vai mudar tudo, MAS NÃO USE NENHUM TRADUTOR!”

“POR QUE!?Ah, olha aqui, dane-se você!”

Ficou em pé caminhando até a porta, saiu e fechou com força fazendo o cômodo tremer

Ela deu uma risada.

“(Onde você vai????)”

“(Não sei!)”

Foi por telepatia.

Kaori levou a mão até os dedos do pé e começou a se alongar, a pressão não devia demorar tanto tempo a passar a partir de agora.

Se jogou de cabeça no travesseiro e olhou para a direita vendo o oceano.

Estava animado.

Banhistas nadando, praticando snorkel e outros esportes, lanchas, navios….

O mar de Kanszes era extremamente vivo.

O conhecido “tráfego oceânico”.

Uma das coisas que estava treinando era…Usar o elemento de gelo, ao qual, é o mais compatível a ela buscando atingir a maior temperatura negativa possível que para todos os átomos, e, para tal era necessário usar a Unlimiteds.

A usando, pode ir aos extremos de qualquer elemento que existe no planeta.

Mas não era fácil.Dominar esses extremos que tem a porta aberta pela unlimiteds força demais o corpo.

E logicamente não fora isso que quase quebrou sua perna.

E sim um golpe que estava criando.

Apenas suspirou.

Com certeza não ficará pronto em apenas três meses.

“Isso é difícil…”

Levantou o punho na direção do teto.

“Mas bem…”

Fechou os olhos.

“Eu vou ter que ir para Ballas amanhã negociar com o Rei, é melhor que paremos por aqui.”

“Hu!”

Ele voltou.

Só o percebeu quando o “viu” jogar uma garrafa de suco em sua direção que agarrou por puro reflexo.

“Termos que dar apoio a esse futuro aliado idiota que não pode resolver seus próprios problemas, é um tanto problemático.”

A situação de Ballas no momento…É complicada.

Olhando de fora…

Não entendia.

Nenhum dos dois podia ver o que teriam a ganhar se aliando a um país com tantas dificuldades ao qual nem mesmo de Rank-5 é.

Mas sem duvidas tinham um poder militar imenso, apesar disso.

A intenção de Adeko era clara.

Está escancarada.

Negociar um tratado que vise o melhor para Kanszes quando terminarem de ajudar Ballas com seus problemas.

Negociar um tratado que vise o melhor para Kanszes.

Sim.

Isso está em suas mãos.

“Meu tio sempre faz tudo pelo país e dificilmente tem uma visão errada sobre qualquer coisa ao redor, e se você quer mesmo saber…”

“Hã?”

“Está bem claro que ele quer que eu negocie com o Rei, e nesse tratado…Uma brecha seja aberta para uma traição e tomar tudo depois.”

“Ho?”

Deu uma risada.

Era realmente algo típico de Adeko por outras atitudes basicamente idênticas.

“Mas eu posso entender, por trás dessa tirania e desejo de proteger Kanszes acima de tudo..Ele não quer deixar tudo que seu pai protegeu se perder.”

“(Meu “”pai””, né?)”

“Você só se tornou um paladino por causa do “meu pai”, né?”

“Não só a mim, Órion foi uma inspiração para todas as crianças de Kanszes, quando alguém nos diz o que ele fez não tem como não querer proteger este país com todas as nossas forças, hu, se certifique que quando for a primeira rainha que comandará este país, ter a mesma influencia do seu pai, tio, e os outros.”

“Rainha, é?”

Não.

Não tinha o que rebater no momento.

Apenas esperar…O destino de todo o país seria decidido em três meses.

Até lá…Não tem outra escolha se não arcar com os títulos que possui.

“Ah, sim, isso era o por que estava lhe procurando.”

“Hã?”

Jogou uma pequena caixa de presente na cama ao lado dela, ficou em pé e a segurou.

“Estava destinado a você, me pediram para entregar.”

“Um presente…?”

Desconhecido.

Só tinha o seu nome e não constava o remetente.

Bem…É estranho.

Com certeza.

E por tal hesitou um pouco, mas decidiu abrir.

“!!!!!!!!!!!”

“KAORI????”

O olhar dela se abalou.

Ira.

Um ódio que corrompeu cada célula em seu corpo.

Era a cura.

A cura do androgênesis mandada por Perseus com uma mensagem.

“Para minha noiva preferida.”

“Vá pro inferno…!!!!!!”

Isso foi uma clara provocação.

Pegou a seringa ao qual continha o soro, e então…A jogou no chão o despedaçando!

“KAORI!?”

—–

Kai e Lumia haviam alugado um quarto de hotel.

E ela se sentia mal enquanto o ex-príncipe ainda estava rindo, ele usou a manipulação de Ki…Para criar dinheiro falso.

Pegaram um quarto cinco estrelas do melhor hotel da cidade de graça.

“Qual o problema, bruxa?”

Estava deitado ao sofá.

“Qual o problema…?Me diga, Kai, como você vive sua vida até hoje?Enganando todo mundo assim, é?”

“Cada um faz o que pode para sobreviver.”

“O que pode, é?”

Não parece muito.

Ela é uma maga de nível extremamente alto.

Então é apenas natural que note algumas coisas.

A energia vital dele está fraca.

Terrivelmente fraca.

Não iria demorar muito para chegar a 0 em alguns anos e morrer.

Seria algum tipo de maldição?

Não queria se intrometer na vida dele e perguntar, mas…Visto que disse que iria ajudá-la mesmo quando viu ser enganado queria tentar fazer algo para retribuir o favor.

Lumia é talentosa.

O suficiente para destruir o androgênesis caso venha a se focar nisso.

Porém, ao menos por enquanto não falaria nada.

Se ele não quer dizer, mesmo sabendo que poderia ajudá-lo, pois com certeza já sabe a essa altura, é bem claro que não queria ninguém envolvido.

Mas, terminando o que vão fazer em Ballas.

Iria tocar no assunto se nada for dito.

—–

Uma cachoeira estava desaguando neste local.

Tomando banho nela…Havia um homem que se encontrava de olhos fechados meditando.

Devagar…Os abriu.

Pegou a lança ao lado, a girou e atacou!

Mudou por alguns segundos o fluxo da água a fazendo subir para cima.

E então…Voltou a cair normalmente.

Era o Rei de Ballas.

“Daichi.”

Ao escutar ser chamando, se virou para a direita.

Um soldado se aproximou.

“A princesa de Kanszes chegará em pouco tempo.”

“Ah?”

Sorriu.

“Entendo, obrigado pelo aviso.”

—–

Um navio cruzava o oceano.

Era aquele que levaria Kaori e Lastarus até Ballas,saíram as três da manhã e mesmo o navio se movendo a mach 2 iriam demorar 12 horas para chegar a seu destino.

Sim, a distancia entre os países é enorme.

Kaori estava apoiada nas grades olhando o oceano ao mesmo tempo que usava fones de ouvido.

Calma.

Se encontra aparentemente calma demais para quem até ontem praticava ao espelho como se portar.

E isso foi percebido pelo paladino que parou ao lado.

“Está bem calma, não é?”

Deu uma risada.

“Não, nem um pouco, só tento transparecer.”

“Ho?Ao menos pode blefar para o Daichi com essas expressões falsas, você pode ser uma boa manipuladora se quiser.”

“…Pelo o que meu tio disse…Tentar mentir para aquele homem é um suicídio.”

—–

Kai e Lumia chegaram em Ballas.

A cidade era em completo estilo medieval com as casas tendo em sua maioria de dois a três andares.

Um rio cruzava ela por inteiro em formatos aleatórios ao qual pontes ligavam uma parte da cidade a outra.

Também existiam pontes longas para o percurso.

Inúmeras praças eram presentes que no total superavam trinta onde o comércio de tudo que existia era feito.

Tal como estradas em todos os lugares visando a melhor locomoção de carros, motos, caminhões, etc…

A natureza também é bem presente tendo bastantes arbustos e árvores pelos locais fazendo diferentes espécies de pássaros estarem ao redor.

Ele olhou para a direita e cerrou os olhos, viu um panfleto na parede anunciando a chegada da princesa de Kanszes.

Kai não ficou surpreso.

Nem um pouco.

Já sabia a alguns dias que Kaori viria.

“Qual o problema?”

“Hun?”

Lumia andava alguns passos a frente e o viu ficar para trás.

“Ah?Você?Um gênio que ontem fez o teste e deu mais de 200 pontos de QI perdido em pensamentos por causa dessa Kaori?”

Sorriu.

“Vai dizer que logo você é daqueles garotos que tem nas princesas suas ídolos sendo que nenhuma delas sabe da sua existência?”

“Lumia.”

Conseguiu notar alguma irritação.

“Eu já avisei para não ler minha mente.”

“É algo passivo para poder me antecipar a ataques, só que a sua está uma bagunça tão grande que os pensamentos simplesmente explodiram na minha cabeça e-

Parou.

Perdeu a voz.

O motivo?

Kai sorriu.

A segurou pelo queixo e aproximaram o rosto.

Estão perto.

Muito perto.

Perto até demais.

“Se você quiser saber do meu drama, com certeza vai se apaixonar.”

“!”

Corou e o empurrou para trás.

“O QUE ACHA QUE ESTÁ FAZENDO?!”

“Hu, isso foi uma reação bem fofin-

Dor.

Pareceu que algo segurou…Segurou e apertou forte seu coração.

Colocou os joelhos no solo e bateu a cabeça.

“E…KAI???”

E apareceu.

Ou melhor.

Desapareceu.

O que fez a bruxa arregalar os olhos ao ver a energia vital ao redor de Kai…Simplesmente diminuiu de modo assustador.

Ele forçou um sorriso.

Sabia muito bem o por que disso acontecer.

“(A Kaori…Chegou, é!?)”

—–

Exatamente.

O navio atracou no porto.

Ela sentiu a mesma coisa.

Só que…Não.Não foi fraqueza.

Por absorver a energia vital de Kai…Se sentiu mais forte, um súbito ganho de força surgiu que até mesmo a fez se sentir bem.

“…”

“Kaori?”

“Hã??”

Lastarus chamou a atenção alguns passos a frente, nem tinha percebido que instintivamente parou de caminhar.

“Houve algo?”

Balançou a cabeça negativamente.

Nem ela saberia explicar o que sentiu, correu até ele e começaram a descer as escadas.

Um soldado bebia cerveja sentado a um barril, escutou alguns passos e teve sua atenção para a direita onde viu a dupla.

Era aquele responsável por recepcioná-los.

Jogou a lata para a esquerda, tocou o solo e fora se aproximando.

Esticou os braços.

“Bem vindos, amantes da praia!”

Os soldados de Kanszes entraram em formação.

Atrás da princesa e do cavaleiro formaram cinco fileiras de seis homens cada.

Era um membro dos pressa negra, um dos clãs mais poderosos deste continente.

Ele é negro e seu corpo é musculoso.

Até demais.

De tal modo que academia alguma e muito menos treino poderia lhe dar este físico dos Deuses.

Os cabelos, tal como as sobrancelhas são completamente brancos e arrepiados, indo pelo menos 20 centímetros para cima.

NT: No verdadeiro estilo de um Super Sayajin.

Usava um colar de cruz, duas munhequeiras brancas longas até o cotovelo e uma bermuda que batia nos joelhos.

Seu olhar passava uma confiança extrema e possui um intimidar natural com seus 1,96cm e 24 anos.

“Bem vindos a Ballas, eu, o grande Heavy estava esperando, e você, boy, tire a mão da espada, eu não mordo, as vezes.”

Exatamente.

Lastarus por impulso estava prestes a retirá-la em uma ação de defesa.

Deu uma risada sem graça.

“Desculpe ,mas…Você possui um certo intimidar.”

“É bom saber disso!”

Ela deu alguns passos a frente e parou a três metros do pressa negra.

“Eu sou a princesa de Kanszes, Kaori Kanszes Lancelot.”

Fechou os olhos fazendo uma referência.

“É um prazer.”

“Pare com as formalidades para alguém como eu!”

A deu um tapa nas costas o que a fez gritar e cair ajoelhada.

“Epa, não era para ser tão forte!Mas seja mais informal!Estamos entre amigos aqui.”

De um sorriso sem graça.

“….S..Sim..”

Mas…Então era este homem, certo?

Heavy…

“(O braço direito do Daichi, né?)”

“Vamos.”

Esticou o braço para a direita.

Uma limousine se encontra ali na estrada.

“Eu vou levá-los ao boss.”

—–

Kai estava sentado na praça com um olhar abalado.

Era apenas o natural.

A distancia que fazia o androgênesis não se ativar…Foi quebrada.

Lumia usou incontáveis magias de cura.

Mas…Completamente inúteis.

Como bem esperava, essa “maldição” era complexa e não poderia curá-lo do dia para noite.

Antes de tudo teria que saber o que estava causando os efeitos e estudar durante um tempo indeterminado o que poderia fazer.

Envolvia a Kaori?

Afinal…Ele não parava de pensar nela desde que chegaram em Ballas, e agora isso acontece.

Se os dois tem mesmo alguma relação…Era isso que o estava ferindo?

Gritos.

Olharam para a direita, a fonte de onde vieram.

E o motivo era claro.

Daichi passava a pé no meio da rua sendo cumprimentado por todos.

Possui realmente uma aparência imponente.

Seus longos cabelos negros caem até um pouco abaixo dos ombros.

Vermelho.

Seus olhos eram vermelhos e profundos como sangue, trajava uma longa capa imperial azul que balançava ao vento junto a roupas bem nobres.

Carrega consigo sua arma característica.

Uma lança de três metros nas costas maior que o próprio.

Tem 26 anos e 1,85cm.

Só passava uma única imagem.

Invencível.

O ar que todo Rei é obrigado a colocar nas pessoas.

“Eu já escutei histórias daquele homem.”

Kai a encarou.

“É engraçado…Perdeu tudo nas mãos desse país, vivia em um clã nas planícies que sempre produziu inúmeros guerreiros para este reino, e todos eram de elite protagonizando verdadeiros milagres nas guerras, por causa disso, o Rei escolheu nunca interferir visto que podia fazê-los “perder” o que os tornava tão especiais, então as tradições foram mantidas durante todo o tempo que existiram, mas…”

Ballas no passado vivia uma crise.

Era terrível.

E mesmo até hoje não a conseguiram superar.

O clã sempre teve sua existência escondida para que as forças inimigas não tentasse um ataque as escondidas.

Mas…Espiões de outros reinos existem dentro de Ballas assim como em qualquer outro lugar.

O clã…Foi descoberto.

Um ataque seria armado ali, raptariam todos e usariam sua força contra o próprio país.

Pelas péssimas condições daquele ano, era impossível.Simplesmente impossível colocar todos dentro do país e fazer a migração.

Então…Explodiram tudo.

O único sobrevivente foi Daichi.

Kai cerrou os olhos.

“Um plebeu órfão jogado no lixo que ascendeu ao posto mais alto possível dentro de um império, realmente o admiro por ter entendido que a vida de milhões de pessoas valiam mais do que as de sua família e hoje coloca sua força sobre esta bandeira em vez de jurar vingança, é um jeito condenável de se pensar?Pode ser, mas o mais correto em tempos como esse quando analisa a situação matando suas emoções.”

Colocou a mão no joelho e ficou em pé.

Alguns metros a frente de Daichi…Heavy, Kaori e Lastarus estavam ali.

Sim.

Kai a viu.

Mas…Se virou na direção de Lumia.

“Vamos, temos que ir até a biblioteca, não é?”

“Como você está?”

“Hum?A mesma porcaria, não há nada que possa ser feito por enquanto.”

Kaori olhou para a direita.

Também viu.

Fora capaz de ver ambos andando para frente.

Uma sensação nostálgica a preencheu.

Suas pernas…Iriam se mover sozinhas para correr atrás mas fora impedida.

Daichi parou a frente e sorriu.

“É um prazer a tê-la no meu país, filha do herói, Kaori Kanszes.”

“….Igualmente.”

—–

Estavam dentro do quarto de um hotel que fora preparado para esse encontro.

A esquerda…Daichi e Heavy.

A direita….Kaori e Lastarus.

As duplas se encontravam sentadas aos sofás.

O Rei sorriu.

“Eu posso ver a ansiedade em seus olhos e este silêncio faz as batidas do seu coração serem audíveis aos meus sentidos, está com medo?Por que?”

“…”

Como Adeko bem disse, seria impossível mentir ou blefar perante este homem por ser alguém que consegue ler através de qualquer tipo de expressão seja real ou não…

Apenas fechou os olhos dando um sorriso.

“É nervosismo, eu nunca participei de qualquer tipo de negociação antes, e a “estréia” é logo com um Rei, e tem mais, seu olhar é bem penetrante, sabia?”

“Oh, por que revelou que é sua primeira vez?Pode ser fácil manipulá-la.”

“Você não vai tentar.”

“E por que?”

“Por que?É facilmente perceptível pela  sua situação nesse país, é amado por esse povo vide a recepção e se realmente não estivesse disposto a lutar por esse pessoal já poderia ter feito um acordo com a “outra parte” para mudar de lado, aliás, isso é inútil, o fato de ter aceitado lutar por este lugar após o que aconteceu na sua infância entrega o quanto ama Ballas, e claro…”

Cerrou os olhos.

“O mais importante de tudo, a ultima coisa que pode tentar fazer é sair por cima em negociação de aliança e ver a ajuda indo embora.”

Sim.

Exatamente.

A situação de Ballas é complicada.

Se existe mesmo um país disposto a prestar reforços, jamais deveria deixar a ajuda ir embora, mesmo sendo amadora…Qualquer um iria perceber quando o outro lado está “passando dos limites” em uma negociação.

“Essa garota é astuta.”

Só conseguiu pensar nisso.

E sorriu.

Não deveria ser enganado por aparências, foi excelente saber disso antes de começarem pois se tentasse levar a conversa para um lado favorável…

Iria sair sem nada.

“(Ou…Este homem apenas quis ter uma noção da minha intuição com essa pergunta?)”

Também podia ser uma verdade, a pergunta talvez desde o inicio foi uma pegadinha para descobrir com base na resposta o tipo de pessoa que negociaria.

“Nada mal, vejo que fez bem o dever de casa antes de vir aqui conversar comigo e pesquisou algumas coisas a respeito da situação deste solo, muito bem, eu quero uma aliança com Kanszes para retornar Zwuan.”

Zwuan…

É a cidade que faz fronteira com a capital de Ballas que está sobe ataques da “outra parte”, e se a perderem..O caminho para esta cidade capital do reino estaria aberto.

“E também sei de algo, pelo jeito Adeko já fez os primeiros contatos com Calibri e nada os impediria de fazer uma aliança com eles e os ajudarem a dominar este país, é realmente a decisão mais fácil, mas não seria nada vantajoso ajudá-los em vez do nosso lado, segredos, tesouros, heranças, terras mais fortes, estão todas aqui, ficar do lado deles é só perder homens e destruir o tesouro que poderiam colocar as mãos.”

Calibri…

No começo era apenas mais uma cidade dentro do reino de Ballas, mas de maneira secreta e silenciosa fez várias contatos com reinos de outros continentes e foi aos poucos crescendo, crescendo e crescendo.

Hoje domina 40% do país.

Ballas foi dividido em dois e vivem uma forte crise interna.

A deu um sorriso desafiante.

“Mas claro, vocês também tem coisas a ganhar, faça sua proposta.”

“…”

Ela sabia.

Sabia muito bem das riquezas deste país.

O conhecimento extremamente vasto que adquiriu do continente pelos livros que Adeko a faz ler até agora eram para momentos como esse.

Mas…Simplesmente…

Deu branco.

Por ser sua primeira vez parecia que estava em uma prova e as respostas sumiram de sua mente.

Sorriu assustada.

“(E agora…?)”

Mas…Começou a se acalmar e raciocinar.

Vide algo que tinha a seu favor.

Daichi não estava em posição de recusar quase nada.

Sim.

Lembrou de algo.

Com certeza seria o que Adeko iria propor em troca.

“O mar de Estrael.”

Daichi apenas sorriu.

Não tinha outra coisa para ser pedida.

 

—–

No teto de uma das casas…Havia uma pessoa ali de braços cruzados.

O vento batia confortavelmente em seus cabelos os fazendo dançar.

Foi mandado diretamente por Prometheus.

Sentiu a presença de Destroyer neste local.

Veio recuperá-lo.

“Na direção da biblioteca, é?”

As coisas definitivamente…Irão ficar agitadas.

Habitantes do Cosmos – Artemísia – (Volume 1: Capítulo 1)

Capítulo 1

 

Então em seu peito, Hermes Mensageiro Argifonte

mentiras, sedutoras palavras e dissimulada conduta

forjou, por desígnios do baritonante Zeus. Fala

o arauto dos deuses aí pôs e a esta mulher chamou

Pandora, porque todos os que têm Olímpia morada

deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão.

 

(Hesíodo – Os Trabalhos e os Dias; v. 77 — 82)

 

 

LEMBRANÇAS

 

Sentada sobre uma rocha, uma mulher mantém seu olhar fixo no horizonte. O vento do deserto acaricia seus cabelos negros. Sua respiração é quase imperceptível. Ela fecha os olhos e se lembra de uma briga com seu pai quando tinha dez anos.

 

 

— Vá brincar no jardim. — Uma mulher diz à filha, com semblante triste.

— Sim, mamãe.

A menina segue pelo largo corredor que dá acesso ao jardim e à sala sagrada da casa. Ela vê o pai saindo da sala, mas percebe que a porta não havia se fechado totalmente. Ela poderia ter avisado ao pai, ou simplesmente ter ignorado o fato e seguido para o jardim, mas algo parecia chamar-lhe para dentro. Quando percebe que o pai desapareceu, no final do corredor, ela entra.

Um frio intenso quase paralisa a menina, era medo de ser pega. Seus olhos apreciam, admirados, toda a beleza que há ali, e quando observa bem ao centro, vê a bela espada ancestral. Ela corre para perto da espada, suspensa sobre um sol dourado cravado no chão. Os olhos da menina brilham e a lâmina da espada parece refletir a luz de sua alma. Como se estivesse em transe, ela ousa empunhar a espada com as duas mãos; nesse momento seu pai entra na sala, furioso. Ele toma a espada bruscamente, bate no rosto da menina e a pega com força pelos ombros, sacudindo-a e proferindo sandices aos berros, então conclui:

— Como ousa profanar o salão das armas com sua presença imunda? Você é uma mulher, jamais deve tocar nessas armas; você nunca poderá usar uma espada como essa; é a espada de meus ancestrais. Você me desonrou com sua imprudência e sua desobediência.

O pai a tira da sala puxada pelos cabelos. Perto da porta, no corredor, alguns criados, a mãe e suas damas esperavam pelos dois. O pai joga a menina aos pés da mãe.

— Veja, mulher; sua filha não recebeu a devida educação. A culpa é sua. — A mãe ouve tudo de cabeça baixa. — Por não ter educado direito essa menina, agora não terei mais a bênção de meus ancestrais. Esta família cairá em desgraça.

— Peço perdão, meu senhor. Cuidarei de castigá-la.

— Castigos agora seriam tardios demais. O mal já está feito. Tenho uma reunião com o Conselho, quando voltar decidirei o que será feito de vocês. Que nenhum dos presentes comente o ocorrido com mais ninguém. Se essa história chega aos ouvidos do Conselho, a menina será sacrificada. Tal desonra é punida com a morte, como todos aqui bem sabem. — O pai olha com ódio para a menina. — Talvez, no seu caso, seria mais sensato entregá-la ao Conselho.

Após o pai sair, a mãe vai chorando para o seu quarto. A menina continua no chão, sozinha, com o olhar fixo, quase morto. Rangendo os dentes de ódio, fica ali por um tempo, com seu choro sem lágrimas.

 

 

— Artemísia, o mestre a espera. — Um jovem discípulo diz.

Artemísia abre os olhos e retorna para o deserto. Seu olhar agora contempla o horizonte vermelho de Marte. Ela se levanta e segue em direção ao templo.

— Bela Artemísia, seja bem-vinda! — O mestre do templo diz.

— Obrigada por me receber, mestre.

— Não me chame assim; por enquanto, para você, continuo sendo apenas Andyrá. Você sabe que para recebê-la como discípula há provas pelas quais precisa passar.

— Sim. Eu sei.

— Venha. Vou lhe mostrar o seu quarto. Descanse um pouco da viagem, depois conversamos.

Artemísia não se sentia cansada. Pretendia passar logo pelas tais provas e ser admitida no templo de Andyrá, mas sabia que não adiantaria argumentar com um dos sábios mais antigos de Apolo. Ela ficou no quarto meditando até que sua presença fosse solicitada novamente.

O clã de Artemísia seguia costumes tão antigos quanto os tempos. Quando Artemísia nasceu, a humanidade já havia superado vários tipos de preconceitos, dentre eles, os preconceitos relacionados ao gênero e à expressão da sexualidade. A ciência já havia evoluído ao ponto de provar que a sexualidade humana variava em cada indivíduo, assim como a tonalidade da pele, a cor dos olhos, a textura dos cabelos, etc. Os seres humanos não se dividiam mais em grupos marcados pela sexualidade. Os dois gêneros, masculino e feminino, conviviam naturalmente, sem vantagens ou desvantagens sociais por se pertencer a um gênero específico, mesmo porque, àquela altura, o gênero de nascimento poderia ser alterado em qualquer fase da vida, se essa fosse a vontade do indivíduo.

As questões que envolviam o gênero e a expressão da sexualidade já haviam perdido o sentido há séculos para a população do sistema solar Apolo, exceto para o clã de Artemísia. O Clã Nômade, como ficou conhecido por séculos, insistia em preservar conceitos primitivos sobre a existência humana e com isso também preservavam costumes e uma organização social extremamente primitivos.

Quando a humanidade ainda habitava a Terra, o Clã tentou várias vezes constituir uma nação autônoma, mas o Governo Mundial nunca permitiu, pois considerava um retrocesso para a humanidade que tal sociedade se estabelecesse. Enquanto nação reconhecida mundialmente, o Clã Nômade poderia influenciar sociedades menores, podendo um dia se mostrar um poder contrário ao Governo, o que seria um problema, pois geraria guerras e instabilidade. Assim, o Clã sobreviveu por séculos como um grupo mal visto pelos demais, tendo que migrar de tempos em tempos para que não sucumbisse ao desprezo de seus vizinhos, com os quais sempre entrava em conflito.

Após o grande desastre, que expulsou de vez a humanidade do planeta Terra, o Clã foi diminuído a um pequeno grupo de poucas centenas de indivíduos. Esse grupo, diante do desespero, se tornou mais fanático com suas crenças e seus costumes, pois entendeu que disso dependeria a sobrevivência do Clã. Foi nessa época que definiram seu código sagrado de leis e costumes, e a pena de morte foi estabelecida para aqueles que descumprissem as principais regras do grupo.

Desesperados e determinados, os homens do Clã se tornaram guerreiros ainda mais temidos do que seus ancestrais. Extremamente impiedosos e primitivos, seu exército era sempre solicitado para resolver conflitos em todo o sistema Apolo. O Clã Nômade havia se tornado um exército de mercenários e, assim, ao longo dos tempos, foi prosperando.

Os primeiros habitantes de Vênus pertenciam a um grupo formado por cientistas, engenheiros e arquitetos. Conseguiram em pouco tempo transformar o planeta hostil em um lar. Mas a humanidade nessa época estava desesperada. A Terra já não era mais uma opção de sobrevivência e encontrar corpos celestes que pudessem abrigar a vida humana era também razão para guerras pelo direito de ali viver.

Cansados de serem invadidos constantemente, e sem habilidades bélicas suficientes para se defender dos invasores, os venusianos contrataram os serviços do Clã, mas com uma oferta que seria irrecusável para eles. Após uma decisão do Conselho, os venusianos pretendiam oferecer ao Clã metade do planeta, com a condição de que os guerreiros nômades cuidassem para sempre da segurança de Vênus. O Clã entendeu a oferta como um presente dos deuses e, como honravam sempre seus compromissos, nunca tentaram tomar o planeta para si. Em Vênus o Clã prosperou. Ali se isolaram do resto do sistema solar, preservando seu pensamento primitivo e suas ideias insanas. Nenhuma mulher tinha permissão para sair de sua nação; não podiam sequer cruzar a fronteira para o lado dos venusianos originais. A punição para quem descumprisse essa lei, é claro, era a morte.

Um dos discípulos de Andyrá bate à porta do quarto.

— O mestre a aguarda no jardim principal.

Artemísia segue o jovem até o portão que leva ao jardim principal. Andyrá está sentado sob a sombra de uma bela árvore, contemplando os gansos se movendo lentamente sobre o lago. Com um semblante sereno, quase preguiçoso, ele faz sinal para que Artemísia sente-se ao seu lado. Ela obedece.

— Então, você tem trinta anos e nasceu na Terra, certo? — Andyrá pergunta, em tom de brincadeira.

— Não brinque comigo… Sei que se há alguém em Apolo que conhece a minha verdadeira história, esse alguém é você; o Sábio Oculto.

— Sim, minha querida, eu conheço a sua história. Sei mais do que imagina e mais do que você mesma sabe.

— Sei o suficiente, e muitas vezes gostaria de não me lembrar de nada.

Andyrá olha dentro dos olhos de Artemísia.

— Agora compreendo porque Hikari lhe pediu que me procurasse.

— O mestre Hikari se arrependeu de me admitir como discípula. Falou que só seria meu mestre novamente se eu fosse admitida por você e recebesse a sua indicação para continuar meus estudos.

O Mais Antigo dos Sábios nunca erra. — Andyrá comenta.

— Quando começam as provas?

— Elas começaram quando você saiu pela porta do templo de Hikari.

— Da cabana?

— Sim.

— E como vou saber se estou passando nos testes se nem mesmo sei o que é um teste?

— Desde que você nasceu está passando por testes todos os dias. O caminho que sua Alma decidiu trilhar está cheio deles, o tempo todo. Mesmo nas situações aparentemente insignificantes você é levada a fazer escolhas. Para saber se passou em um teste desse tipo, basta observar o seu caminho, o seu propósito na vida. Se você sente que está se aproximando do seu objetivo, então você passou em um teste; mas se sente que está retrocedendo e se afastando do seu objetivo, saiba que foi reprovada em um teste e talvez tenha que começar tudo novamente.

— Nem ao menos sei o que minha alma escolheu.

— Bela menina, se você não soubesse, certamente não estaria aqui. Acalme a sua mente e o seu coração, somente assim terá consciência das respostas que tanto busca. — Andyrá diz. Artemísia respira fundo e se cala. Ela sente que suas palavras seriam impróprias naquele momento. — Veja este templo. Um belíssimo Oasis neste vasto deserto. Foi construído pelo pai do meu mestre e deixado aos meus cuidados após sua morte. Toda essa beleza foi idealizada por um único homem, mas construída através do trabalho de vários seres humanos; homens e mulheres. Quando eu era apenas um discípulo, sentia que aqui era o meu lar, o meu lugar, mas desde que me tornei o mestre do templo, sinto que preciso construir o meu próprio templo. Agora me responda, como posso ter certeza de que o correto seria mesmo construir outro templo ao invés de cuidar do templo que meu mestre confiou a mim?

Temendo que se tratasse de um teste, Artemísia pensa bastante antes de responder.

— O correto não seria honrar a vontade de seu mestre?

— Isso foi uma pergunta, minha jovem?

— Não sei.

— Então só me responda quando tiver segurança suficiente para fazer uma afirmação.

— Me desculpe.

— Não se desculpe, me dê uma resposta; mas antes, pense mais um pouco, busque em seu coração uma resposta sincera. Não pense no que eu gostaria de ouvir de você, não imagine que se trate de um teste e que exista uma resposta correta. Simplesmente se coloque na situação que indiquei e me diga o que você faria se estivesse no meu lugar.

— Tudo bem.

Uma leve brisa gera ondas na superfície do lago. Artemísia consegue se ver na situação que Andyrá propôs e encontra uma resposta.

— O correto é você construir seu próprio templo. Este templo é uma extensão da Alma do pai do seu mestre, ele representa em cada detalhe tudo que ele pôde compreender neste mundo. Tudo aqui conta a história dele, assim, esse “chamado” que você ouve, indicando que um novo templo deve ser construído, é na verdade a sua Alma lhe indicando que necessita contar a sua própria história. Não acredito que seu mestre se oporia a tal feito.

— Eis uma resposta digna de uma discípula de Hikari.

Artemísia sorri.

— Então, você vai construir um novo templo?

— Já estou construindo. Se tudo correr bem, um dia te levo para ver a obra.

— E este templo, o que será feito dele?

— Isso não cabe a mim decidir. Agora vou deixá-la aqui no jardim. Aprecie o pôr do sol. Sem testes no momento, você está livre para ir aonde quiser.

— Obrigada, Andyrá; mas isso também é um teste, certo?

Andyrá sorri e segue rumo ao portão.

Artemísia olha um pouco ao redor, mas não espera o pôr do sol. Ela decide conhecer melhor o templo, a “extensão da alma” do pai do mestre de Andyrá.

No salão principal havia vários quadros indicando o que cada sala representava. Artemísia escolhe visitar o salão que contava a história do templo.

Mestre Ybytuura … Então esse homem foi o idealizador do templo! — Artemísia aprecia um quadro com a representação artística do mestre, depois busca nos arquivos digitais o holograma com o histórico dele.

Artemísia passa horas analisando a história e a filosofia daquele lugar. Depois se dedica a contemplar os quadros, verdadeiros trabalhos artísticos executados pelos discípulos que por ali passaram. Um deles lhe prende a atenção. Era uma bela mulher, com olhar firme e determinado, postura de guerreira destemida. A mulher trajava roupas escuras, aparentemente de couro, traje bem primitivo, mas só destacava a nobreza dela. Os olhos de Artemísia brilhavam enquanto observava cada detalhe daquela mulher. Em baixo, em uma espécie de placa de metal, havia algo escrito em caracteres desconhecidos. Artemísia aciona seu bracelete dourado, um dispositivo desenvolvido por Hikari, presente do seu antigo mestre.

— Identificar idioma e tradução.

Em uma projeção holográfica ela lê as respostas: “GREGO DO PERÍODO HELENÍSTICO. ARTEMÍSIA”.

Artemísia sorri e sente um calor percorrendo todo o seu corpo. Sentia-se como se estivesse acabando de nascer. Nos olhos daquela mulher, Artemísia reconheceu a si mesma.

— Vejo que você encontrou minha singela contribuição para a galeria do templo. —Andyrá diz, enquanto se aproxima da venusiana. Ela então olha para ele, que logo percebe algo diferente em sua face.

— Você é o autor dessa obra?

— Sim.

— Quem é ela?

— E isso importa?

— Talvez.

— Essa mulher viveu em uma época muito distante da nossa. Naquele tempo, o patriarcado dominava praticamente todas as culturas espalhadas pela Terra. Essa mulher foi uma guerreira em todos os sentidos dessa palavra. Superou as dificuldades de ter nascido um ser humano do gênero feminino em um momento em que a humanidade desprezava tal gênero e o submetia a todo tipo de humilhação que se possa imaginar. Mesmo assim, ela foi forte e vitoriosa. Liderou exércitos e conquistou a confiança e a admiração de um grande rei. Sua essência parece resistir ao tempo.

Artemísia volta seu olhar para o quadro.

— Olhando pra ela, não vejo uma feminista que venceu a opressão do machismo, seria uma interpretação medíocre.

— E o que você vê?

— Vejo um ser humano que superou seus limites.

— Hum… Então você compreendeu bem a mensagem que essa pintura carrega. O primeiro nome que pensei em dar à obra foi “Superação”, mas não quis limitar a interpretação do observador. Mas vamos, menina… O jantar já está sendo servido.

Atravessando os corredores do templo, ao lado de Andyrá, Artemísia permanece calada. Os dois passam pelo portão que dá acesso ao jardim. Ela vê ao longe a árvore em que esteve há algumas horas, sentada junto de Andyrá, lembra-se da conversa. Artemísia para de uma vez. Andyrá percebe que ela deseja falar-lhe algo.

— O que foi?

— Andyrá; quando meu mestre Hikari me disse para procurá-lo, falou que eu precisava aprender algumas lições com você, antes de retomar meus estudos com ele. Sinto que tais lições já foram aprendidas.

— Seja mais objetiva, minha jovem. — Andyrá diz, com um sorriso sereno no rosto.

— Sinto que o caminho da sabedoria não é o meu caminho. Olhando seus discípulos meditando pelo templo, vendo suas faces serenas e celestiais, senti que não há identificação por parte da minha alma com esses futuros mestres. Mas quando olhei o quadro que você pintou, senti meu sangue pulsando em minhas veias.

— Você é exatamente como Hikari a descreve. Uma joia rara. Sua Alma tem um caminho longo a seguir, cheio de perigos, mas há muita força em você. E se engana quando diz que o caminho da sabedoria não é o seu. É exatamente o caminho da sabedoria que você busca, mas antes de segui-lo é necessário que você aprenda a controlar todo esse ódio, essa mágoa e essa paixão que você traz em seu peito.

— Vou construir o meu próprio templo.

— Sim. Mas antes que ele fique pronto, você ainda encontrará outros mestres.

— Não serei mais discípula, senão de mim mesma.

— É o que todos nós somos, minha querida. Nossos mestres não passam de espelhos. No momento, o espelho que você deve buscar está na Terra. Mas venha, vamos jantar. Quando se sentir pronta para partir, terá tudo que precisa levar.

Artemísia se sente feliz, mas não sabe direito explicar por quê.

 

O MESTRE

 

Artemísia está carregando uma pequena bagagem nas costas; ela está caminhando entre as pessoas em um porto de uma cidade flutuante na Terra, ainda sem saber aonde ir. Quando desce as escadas do prédio portuário, que estão do lado de fora, ela olha para o alto e vê, através da cúpula transparente, um céu com nuvens nervosas; era mais um dia de chuva ácida naquela região.

Nuvens Negras… Adoro esses bons presságios. — Artemísia comenta, de forma sarcástica. Ela sorri, enche os pulmões com o ar artificial da cidade e segue seu caminho ainda sem rumo.

De repente, uma cena chama a atenção da guerreira. Do outro lado da rua, em uma praça, uma garotinha brinca de mercenária com outras crianças. A garotinha empunha uma espada de brinquedo e, com atitude selvagem, acaba machucando três crianças, dois meninos e uma menina. As outras duas crianças, uma menina e um menino, estão no time da garotinha da espada. Os perdedores saem chorando. Artemísia observa a brincadeira até o fim.

— Cenas impossíveis de se ver no lado negro de Vênus! — Artemísia comenta e suspira enquanto sente uma mistura de nostalgia e alívio devido às lembranças de seu planeta natal.

Ao perceber que a moça estava distraída, um garoto controla um pequeno drone que rouba a bagagem dela. Artemísia se assusta, mas derruba o drone com uma flecha de seu arco de energia, depois se aproxima do drone que está destruído no chão. Ela se abaixa e pega seus pertences, então o garotinho aparece, irritado.

— Por que você fez isso? Esse drone foi um presente da minha avó.

Artemísia olha curiosa para o garotinho.

— Então ele não devia estar por aí roubando as coisas dos outros. Teve o que mereceu. — Artemísia diz, em tom descontraído. Ela ri da situação e segue em frente.

— Moça! Ainda não terminei. Não vire as costas pra mim.

Artemísia para, pensa em dizer uns desaforos para o garoto insolente, mas só balança a cabeça, sorrindo, e continua seguindo em frente.

O garoto corre e fica parado na frente dela.

— Quero outro drone.

Artemísia já estava se preparando para bater no garoto, então uma mulher, que parecia ter aproximadamente uns 40 anos, se aproxima.

— Por favor, desculpe o atrevimento desse menino. Já tentamos de tudo, mas ainda não conseguimos consertar um bug em sua programação.

Artemísia entende que o garoto é um humanoide.

— Ele lhe pertence?

— Sim. Já está na família há três gerações. Foi construído por meu bisavô; por isso temos muito apreço por ele. Mas o velho não era bom programador. — A mulher sorri. — Sou Yuki. — A mulher estende a mão.

— Artemísia. — Artemísia diz, hesita um pouco, mas acaba cumprimentando Yuki.

— O que te traz à Terra, Artemísia?

— Ainda não sei.

— Você tem para onde ir?

— Talvez.

— Está na hora do chá, uma tradição antiga na minha família; se quiser nos fazer companhia, sinta-se bem-vinda!

— Acho que um chá me faria bem no momento. — Artemísia sorri e segue Yuki e o garotinho humanoide marrento.

Na casa de Yuki, todos estão sentados à mesa. Era uma família muito unida e alegre. Após o chá, algumas pessoas recolhem os talheres.

— Fique à vontade Artemísia. Vi que você se interessou por nosso jardim, pode explorá-lo como quiser. — Yuki diz amavelmente.

Artemísia agradece a gentileza e segue para o jardim. Era muito comum as casas construídas nas cidades flutuantes manterem seus jardins particulares. A flora na Terra já parecia alienígena para os humanos, e muitas das plantas que ali existiam eram tóxicas para a humanidade, mas eles haviam conseguido preservar a flora dos tempos em que a Terra ainda os acolhia como filhos, e os jardins haviam se tornado um recanto sagrado, não só nas cidades flutuantes da Terra, mas em cada canto do Sistema Apolo onde os humanos insistiam em sobreviver.

Caminhando pelo jardim, Artemísia percebe ao longe uma mulher fazendo leves movimentos, como se fosse uma espécie de dança em câmera lenta. Ela observa um tempo, então a mulher percebe a atenção que Artemísia estava lhe dando. Sem alterar seus movimentos ela olha para Artemísia e monta um sorriso de boas-vindas. Artemísia se aproxima da mulher.

Quando Artemísia já está bem próxima, a mulher para, com o corpo reto, junta as mãos e faz um sinal de reverência ao Sol. Então sua atenção se volta para Artemísia.

— Bem-vinda nobre guerreira! Eu a aguardava.

Artemísia sorri.

— Andyrá…

— Sim, ele me veio em um sonho e me avisou que você estava a caminho. — A bela mulher diz. Artemísia a observa, um pouco constrangida.

— Me desculpe, mas não posso ser sua discípula.

A mulher olha para Artemísia como se estivesse lendo cada célula em seu corpo.

— Percebo que a decepcionei. Parece que você não esperava encontrar uma figura feminina como mestre.

— Peço desculpas, mas não me identifico com mulheres, pois os exemplos que tive em minha infância são execráveis. Seres submissos, fúteis, fracos e extremamente infelizes. Conheci mulheres diferentes, fora do meu povo, mas as referências da infância ainda se sobressaem. No Clã, os homens representam força, coragem, determinação; mas ao mesmo tempo que o machismo lhes garante uma nobreza aparente, também os impede de superar os seus defeitos, lhes condenando a uma existência presa à ignorância, esse é o preço que pagam por perpetuar uma ilusão patética. Sem a couraça do machismo, aqueles homens não passam de meninos inseguros, bebês chorões; e as mulheres nunca se esforçaram muito pra mudar isso, são cúmplices da ignorância e das fraquezas do meu povo.

— Compreendo.

— Isso também é um teste, certo?

A mulher sorri.

— Você é nossa convidada; fique o quanto precisar.

— Artemísia agradece.

A mulher já estava de saída, então para e, sem virar o corpo, olha para trás e diz:

— A propósito, sou Itá. Acredito que a pequena queda d’água lhe ajudará a refrescar seus pensamentos. — Itá diz e segue rumo à porta da casa, que dá acesso ao jardim.

Artemísia fica pensativa, o fato de seu novo mestre ser uma mulher lhe tirou totalmente a motivação para ficar na Terra. Ela pensa em desistir e ir embora dali mesmo, mas algo lhe impede.

— A viagem foi longa, acho que um mergulho me faria bem. — Artemísia pensa alto, enquanto segue para a pequena cachoeira do jardim.

A pequena queda d’água vinha de uma pedra grande, e alimentava um lago de tamanho médio, que era uma espécie de piscina. Artemísia se despe e pula na água. Em seu mergulho, percebe algo dourado ao pé da pedra grande. Ela nada até o objeto e vê que se tratava de uma inscrição em ouro. Era uma língua extinta, mas não muito antiga. Artemísia a conhecia e conseguiu decifrá-la. “EMPURRE”.

Artemísia empurra a inscrição e uma porta se abre. Ela nada para dentro. A porta se fecha. Artemísia segue até um local onde pôde emergir e encontra um pequeno pátio, dentro de uma caverna iluminada por luzes artificiais. Logo em frente há um portal, todo enfeitado com imagens, que parecem uma espécie de escrita totalmente desconhecida para Artemísia. Ela atravessa o portal e chega até uma bela sala, com o chão coberto por um piso de pedra branca, liso, as paredes estão cheias de desenhos em alto relevo, quadros e demais objetos de arte.

Artemísia caminha pela sala, e quando olha à sua esquerda, vê ao fundo um objeto suspenso sobre uma pequena estátua de mulher, segurando um vaso do qual caía água. Esse objeto chama sua atenção; Artemísia vai até ele.

Na estátua há uma inscrição, na mesma língua da inscrição encontrada no lado de fora. Artemísia traduz a inscrição: “NOSSA HISTÓRIA”.

O objeto parece um amuleto, mas é um projetor de hologramas. Artemísia o pega e aciona o equipamento, que cai no chão e projeta uma história, contada através de imagens e de uma narração.

No início, não havia homem ou mulher, somente a humanidade, sem distinção de gênero. Um dia isso mudou, e o que era um só se torna dois. Homem e Mulher, agora precisavam conviver e perpetuar a raça que habitava a Terra. Mas a humanidade, que já havia se corrompido há um tempo, não sabia lidar muito bem com as diferenças, e as mulheres entenderam que por manterem em seus corpos o dom da reprodução, seriam superiores aos homens.

Os homens sentiram-se traídos pela Natureza, pois seus corpos estavam incompletos, tornando-os totalmente dependentes da mulher para gerar seus descendentes. Nesse tempo, ambos possuíam a mesma força, os mesmos costumes, a mesma essência; mas a mulher se impôs, aproveitando o complexo de inferioridade e dependência no qual o homem foi jogado. Assim, os homens foram subjugados por séculos, sendo obrigados a viver sob o sistema rígido do matriarcado, que transformava as fêmeas humanas em verdadeiras divindades, que exigiam culto dos homens.

Mas a Terra tremeu, sacudiu e jogou pelo chão toda a organização artificial humana. Muitos morreram, sobrando uma humanidade atormentada pelo medo e pela fome. As orações antigas já não resolviam, nem mesmo os antigos sacrifícios eram aceitos pelos deuses. Sozinha, em meio à escassez, a humanidade precisava sobreviver, e uma nova organização estava surgindo.

O corpo da mulher, que já era considerado sagrado, tornou-se mais importante ainda; pois dele dependia a perpetuação da humanidade. Mas exatamente por ser tão importante, o útero tomou o lugar da mulher; pois somente ele importava. Aos homens foram dadas as tarefas mais duras. Eles deviam lutar pela sobrevivência do grupo. Assim, os homens caçavam, enfrentavam perigos extremos atravessando ambientes hostis atrás de alimentos e ainda precisavam defender as mulheres dos ataques de outros homens, pois quanto maior o número de fêmeas em um clã, mais descendentes estavam garantidos, isso implicava em mais guerreiros, caçadores e coletores; e era isso que tornava um clã forte.

A princípio, homens e mulheres aceitaram essa nova organização social, pois a sobrevivência do grupo dependia disso; nesse contexto, somente mulheres que não geravam filhos podiam executar tarefas perigosas, as outras deviam permanecer em seus acampamentos, gerando e cuidando dos descendentes do Clã. Com o tempo, essa forma de vida deixou as mulheres mais fracas, pois se dedicavam somente a trabalhos leves, não exercitavam seus corpos correndo de perigos e nem condicionavam suas mentes para enfrentar os riscos impostos pela sobrevivência; se tornaram dependentes dos homens, pois ao permanecerem nos acampamentos, sendo vigiadas e protegidas por eles, o medo encontrou um lugar seguro em seus corações, desde então a mulher deixa de ser uma divindade e os papeis sociais são invertidos; mas agora, a mulher perde até mesmo a sua humanidade, se tornando um animal procriador sem outra razão para existir. Assim surge o patriarcado.

Os olhos de Artemísia se enchem de lágrimas e ela não consegue ver mais. Desliga o equipamento, senta-se no chão e, encolhida, chora sem parar; como uma criança que acabou de perder a mãe.

 

O SOL E A LUA

 

— Bom dia Artemísia! — Yuki diz.

— Bom dia.

— Sirva-se à vontade!

Yuki está sentada à mesa, com sua família. Todos tomam o café da manhã no clima de confraternização de sempre. Artemísia se junta a eles.

— Itá não se levantou ainda? — Artemísia pergunta.

Todos se olham como se a pergunta não fizesse sentido.

— Itá?

— Sim. Conversamos ontem no jardim, mas não a vi depois disso.

— Itá não mora mais aqui. Desde que encontrou seu mestre, Itá deixou esta casa; mas sempre que precisamos ela aparece. Ela foi construída por ancestrais nossos, há várias gerações. — Yuki explica.

— Itá é uma ginoide?

— Sim; a melhor que já vi. Em nossa família sempre existiram engenheiros muito bons, mas nenhum se compara às gêmeas que criaram Itá. Ela é perfeita em todos os aspectos, desde sua mecânica até sua programação. Cada detalhe de Itá foi minuciosamente trabalhado pelas gêmeas. Ao observá-la, é difícil até para um especialista identificar que Itá não é um ser humano, mas sim um humanoide. Mesmo porque, Itá é muito mais humana do que a maioria de nós.

Artemísia fica pensativa.

— Onde posso encontrá-la?

— Nunca sabemos.

Um homem entra na sala carregando um jarro.

— Vocês estão falando sobre Itá?

— Sim.

— Ela deixou um recado para a nossa hóspede.

O homem tira um pequeno cartão transparente do bolso e entrega para Artemísia.

— Me desculpe, mas parece que ela escreveu em uma língua muito antiga; não sei traduzi-lo.

Artemísia lê o cartão, pressionando-o.

— Obrigada!

Artemísia se levanta e vai até o quarto onde dormiu. Ela arruma seus pertences e segue até a sala do café, novamente.

— Sou grata pela hospitalidade. Preciso ir.

— Foi um prazer recebê-la, Artemísia. Você será sempre bem-vinda aqui. — Yuki diz, se levanta e dá um abraço em Artemísia. Elas se despedem e a venusiana segue seu caminho.

No cartão estava descrita a localização de Itá, e um aviso. “SÓ ME PROCURE NA CONDIÇÃO DE DISCÍPULA”.

Artemísia segue para o porto da cidade.

— Atlântida. — Artemísia diz ao humanoide no guichê. Ele entrega o cartão de passagem para ela.

— Portão 7.

Artemísia pega o cartão. Ela sente um peso enorme no peito. Sua mente não consegue raciocinar direito; ela só sabe que deve procurar Itá. Velhas mágoas precisavam ser curadas, e Itá parecia ter o remédio.

Em Atlântida estavam as Matrizes mais antigas, nas quais ainda eram construídos humanoides. Era lá também que o androide mais antigo estava. Huxley, o guru humanoide, sempre recebia muitas visitas, tanto de humanos quanto de humanoides; o que fazia de Atlântida um continente com ares de misticismo, um misticismo quântico digital. Foi Huxley que indicou a Itá o seu mestre, e previu que ela despertaria uma consciência além da compreensão humana e humanoide.

“PROCURE HUXLEY”, era uma das indicações no cartão que Itá deixou para Artemísia.

Devido à fama de Huxley, não foi difícil para Artemísia encontrá-lo na Matriz mais antiga da Terra. O humanoide ancião, com sua energia diferenciada, estava pronto para indicar um caminho para a venusiana, filha do Clã.

— Pode seguir até o fim do corredor à esquerda. — O recepcionista indica o caminho na Matriz.

Artemísia segue um longo e escuro corredor. Sem que ela entenda por que, seu coração bate acelerado; suas mãos começam a suar frio. Ela sente pânico, e o pânico vai aumentando à medida que ela vai caminhando em direção ao fim do corredor. Uma força estranha parece querer impedi-la de seguir em frente, mas ela luta contra o medo, contra as vozes que sopram em seu ouvido: “desista”. Ela precisava arrancar aquele peso do peito, e decidiu que nada a faria recuar.

Quase sem forças, e muito ofegante, Artemísia chega até a porta. Ela hesita antes de abri-la; então uma voz a convida.

— Entre. Tenho o que você procura.

A porta se abre e ela vê Huxley. Ele está sentado sobre um tapete em que se vê o desenho da lua. Seus olhos estão fechados, como se estivesse em transe. Sem que sua boca se mecha, ele diz.

— Olhando para o seu lado esquerdo você encontrará água. Olhando para o seu lado direito, você também encontrará água. Você pode beber o quanto quiser.

Artemísia olha para o lado direito e depois para o lado esquerdo. Ela precisava muito de um pouco d’água, pois a adrenalina liberada pelo pânico havia lhe deixado sedenta, e ela precisava recuperar suas forças. Artemísia segue para o lado direito, mas quando tenta beber da fonte, percebe que não há água. Ela procura algum dispositivo para que a água flua, mas não encontra nada. Então ela vai até o lado esquerdo, e encontra a mesma situação.

— Mais um teste. — Artemísia diz em voz baixa, desanimada. Huxley continua sua meditação.

Artemísia olha pela sala e vê no chão, no meio do caminho entre as duas fontes, um símbolo da Lua e do Sol, cada um ocupando uma metade do círculo que forma a figura. Ela vai até a figura e pisa no meio, mas nada acontece. Ela pisa com a ponta do pé na figura da Lua, e a água flui na fonte do lado esquerdo. Artemísia então pode saciar sua sede.

Artemísia bebe a água e sente-se melhor. Ela se aproxima de Huxley, que abre os olhos e faz sinal para que se sente diante dele.

— Agora que você descobriu como beber a água da fonte, e que pode escolher o lado do qual quer beber; está pronta para encontrar seu novo mestre. No centro de Atlântida há uma montanha, no meio do deserto; é um lugar de difícil acesso, mesmo para humanoides, mas seu coração a guiará. Itá a espera.

Huxley se levanta e deixa a sala. Artemísia resolve meditar um pouco, antes de partir.

Fora das cidades flutuantes, os humanos necessitam de roupas e equipamentos especiais para transitar na Terra. Os trajes são pesados e tornam uma caminhada pequena muito desgastante. A temperatura no deserto é insuportável, mesmo dentro dos trajes especiais, mas Artemísia estava decidida, precisava encontrar Itá. Em uma cidade humanoide ela aluga um veículo para atravessar o deserto.

— Atravessar esse deserto é muito perigoso. — Um humanoide diz, de trás do balcão.

— Eu sei. — Artemísia responde.

O comerciante entrega os códigos de comando do veículo para Artemísia. O veículo a espera na entrada do deserto, que é marcada com um portal.

Artemísia entra com as coordenadas da montanha e o veículo segue. Sua vida passa em sua mente como um filme. Ela se lembra da infância, sem amor, sem liberdade. Lembra-se da solidão e do medo que sentiu quando sua mãe morreu após serem raptadas em Vênus. De repente, um animal enorme, que parecia feito de aço, atropela o veículo, que gira por uns instantes e bate em uma pedra grande. Artemísia desmaia.

 

 

— Senhora, o Senhor está a caminho; está com olhar furioso e dois guardas do Conselho o acompanham.

A criada avisa à mãe de Artemísia, que está deitada em sua cama, melancólica devido ao ocorrido na sala das armas. Artemísia está sentada no chão, perto da cama da mãe. A mãe de Artemísia se levanta assustada e olha para a filha.

— Vieram te buscar. — A mãe da menina diz, assustada. Artemísia não se meche.

A porta se abre bruscamente, era o pai da menina com os guardas. Ele entra furioso e, enquanto se aproxima de Artemísia, três homens vestidos de preto entram pelas janelas do quarto. Eram guerreiros mercenários, mas não pertenciam ao Clã. O pai de Artemísia se assusta, então começam a lutar com suas espadas. Os guardas do Conselho correm para ajudá-lo. As mulheres gritam e choram desesperadamente. Artemísia continua imóvel.

Em meio à luta, um dos mercenários pega a menina, a joga sobre o ombro e sai pela janela. A mãe vê tudo e não consegue falar nada, estava apavorada. Os dois homens matam um dos guardas e ferem o pai de Artemísia na perna e nos braços, ele cai no chão aos gritos, então um dos homens de preto também sequestra a mãe de Artemísia enquanto o outro luta com o guarda que estava vivo. Quando o homem sai pela janela com a mãe da menina, o outro mercenário empurra o guarda no chão e também sai pela janela. Do lado de fora, um veículo o esperava, com os outros dois mercenários, uma mulher que guiava o veículo, Artemísia e sua mãe. O guarda corre até a janela, mas só consegue ver o veículo já distante, que desaparece em alta velocidade. Artemísia continua indiferente. Sua mãe está desesperada.

— O que querem de nós?

— Somos mercenários, minha senhora. Não se preocupe, nos pagarão muito bem por vocês, não iremos machucá-las. — Diz um dos mercenários enquanto tira a máscara que cobria seu rosto. Era um belo rapaz com sorriso cativante.

— Isso é um sequestro?

— Sim. — Diz uma mulher que também está tirando a máscara. — Digam adeus ao seu lar antigo. Agora vocês serão cidadãs do lado alegre de Vênus. Deveriam nos agradecer.

— Não conseguiremos passar pelos portões. — Artemísia diz, friamente.

— Vejam só, a bonequinha fala. Não se preocupe, não somos amadores, doce criança. — O belo mercenário diz. Artemísia lança um olhar cheio de ódio para o mercenário sorridente.

O veículo faz uma manobra no ar, então desce até o portão principal. O espaço aéreo do Clã era bem vigiado, qualquer nave ou veículo flutuante que tentasse atravessar, sem permissão, os limites de suas fronteiras era abatido imediatamente.

Um guarda confere os códigos do veículo. Todos possuíam identidade liberada, com códigos venusianos, do outro lado; Artemísia e sua mãe também receberam códigos falsos. A mãe de Artemísia pensa em entregar a farsa, mas teme por sua vida, então fica quieta. O veículo é liberado e o portão se abre. Do outro lado, Artemísia sente um frio na espinha.

— Bem-vinda à liberdade, futura mercenária! — Diz a mulher que sequestrou a menina.

 

 

O calor sufocante faz com que Artemísia acorde. As lembranças ainda estavam frescas em sua memória e por um momento ela tem dificuldade em se situar no presente.

— Itá! — Artemísia diz. Ela se lembra de onde quer chegar.

Artemísia sai do veículo e tem que seguir o resto do caminho a pé. Com o traje utilizado para andar na Terra, ela sai, pega seus pertences e olha ao seu redor. A pedra grande onde o veículo bateu está à sua frente. Ela olha para o solo seco e rachado, em que a poeira é soprada por um vento forte. À sua esquerda ela vê ao fundo, bem distante, a montanha.

— Será uma bela caminhada. — Artemísia comenta, desanimada.

Sem pensar na distância, ela segue em frente; já conhece o caminho que deve seguir.

 

NESTE PEITO AINDA BATE UM CORAÇÃO

 

Os ventos fortes do deserto só tornavam a caminhada mais difícil. A distância, que já não era tão pequena, parecia triplicar graças ao traje pesado, aos ventos fortes e ao calor insuportável.

Artemísia cai no chão, exausta.

— Preciso continuar. — Ela pensa alto, deitada no chão olhando para o céu escuro, com nuvens turbulentas.

A guerreira tenta reunir suas forças, então se levanta e segue em frente.

Na metade do caminho, seu corpo dá sinais de que não aguentaria mais. Sua visão se torna turva, sua mente fica confusa e ela quase perde a razão. A loucura ou a morte pareciam certas. Mas antes que seu corpo se tornasse inútil, os ventos trouxeram um alívio. Em uma phantom, um humanoide aventureiro aparece.

— Moça! Aceita uma carona? — O humanoide diz em tom descontraído, sorrindo. Depois desce do veículo, carrega Artemísia e a prende em suas costas, através de uma espécie de cinto.

— Aponte a direção em que deseja seguir, e te levo até lá. — O humanoide diz. Artemísia, com muita dificuldade, aponta para a montanha, que para a phantom não estava muito distante.

Ao chegarem à montanha, o humanoide, ainda no veículo, para e olha ao redor.

— Aqui não há nada, garota. Talvez você esteja delirando.

Artemísia teme que o humanoide a leve embora, na tentativa de salvá-la. Seu coração dispara, mas ela não consegue se manifestar. Mas antes que a phantom entrasse em movimento novamente, Itá aparece.

— Obrigada meu bom rapaz. Deixe-a e pode seguir novamente o seu caminho.

O humanoide não questiona. Faz como Itá disse, e a phantom desaparece em meio ao vento e à poeira do deserto.

No templo, Itá cuida de Artemísia e a leva até um quarto.

— Agora que você já tomou um banho e está se sentindo melhor, descanse um pouco. Amanhã teremos um dia longo. — Itá diz, sorrindo, para Artemísia que está deitada sobre uma cama.

Artemísia agradece com um sorriso e adormece.

Itá havia herdado o templo de seu antigo mestre. Era um templo cravado dentro da montanha e já estava ali há várias gerações. Itá, assim como Hikari, não recebia senão um discípulo por vez, e a maioria era sempre indicada por outro sábio. Mesmo percebendo que Artemísia não seguiria o caminho dos sábios tão cedo, Itá sentiu que o coração dela precisava bater forte novamente, pois disso dependia a libertação de sua alma, de sua verdadeira essência. Mas as mágoas e o ódio funcionavam como uma grande muralha que impedia qualquer ensinamento de chegar até o ser mais profundo de Artemísia, e Itá era a única que poderia, naquele momento, enfraquecer essa muralha.

Quando Artemísia acorda, vê Itá em sua cerimônia de reverencia em direção ao nascer do Sol. Ela observa os leves movimentos da mestra enquanto espera.

— Bom dia, minha querida. Como se sente hoje?

— Melhor, obrigada!

— Venha, você precisa se alimentar.

Enquanto Artemísia se alimenta, Itá lhe pergunta sobre sua experiência na caverna da queda d’água; do jardim de Yuki.

— Não consegui ver toda a história. Nem faço ideia a qual época o holograma se referia. Não consegui prosseguir; parei bem no momento em que surge o patriarcado.

— Então você não viu nada ainda. Essa é uma história muito longa. Mas você terá oportunidade de conhecê-la; não se preocupe, tudo tem seu momento certo.

Artemísia come um pedaço de pão.

— Alguma vez você já se apaixonou, Artemísia?

A venusiana se engasga. Itá sorri.

— É claro que não. Conheci pessoas que conquistaram meu respeito, mas não consigo me imaginar apaixonada por um ser humano. Somos seres patéticos.

— Então seu coração nunca bateu mais forte por ninguém?

— Sim, já bateu. Quando meu pai me arrancou aos berros da sala sagrada da minha família, meu coração bateu forte de ódio.

— Você já conheceu o ódio, disso já sei; mas, e o amor?

— O amor… Me soa mais como uma lenda; um mito que alguém inventou para que as pessoas suportassem umas às outras em busca desse ideal inatingível.

Itá analisa Artemísia; sua pulsação, temperatura, expressões… Após escanear a guerreira, Itá conclui.

— Enfim encontrei algo que a guerreira teme.

— Do que está falando?

— Você conhece, há muito tempo, o ódio e as mágoas, mas jamais experimentou o amor. Embora anseie profundamente vivenciar tal sentimento, seu coração teme descobrir que ele existe, mas lhe foi negado durante toda a vida. Isso a faria sentir-se inferior aos demais, por isso prefere acreditar que ele não existe, nem pra você, nem pra ninguém. Imaginar que o amor é uma falácia lhe conforta o coração.

Artemísia se levanta, furiosa. Olha para Itá e pensa um pouco antes de falar.

— Com todo o respeito que lhe devo, mestre… irei para o meu quarto.

— Fique à vontade, minha querida. Estarei meditando na sala azul; se precisar de mim, pode me interromper.

As duas se despedem com um sinal positivo com a cabeça.

No quarto, deitada, Artemísia lembra-se da cena que a fez procurar os ensinamentos do sábio Hikari.

Em uma das tantas batalhas mercenárias já travadas por ela, na Lua, em sua região mais sombria e esquecida, onde a miséria humana se manifestava ferozmente, Artemísia viu, em meio aos cadáveres, um homem, carregando um bebê, chorando como se lhe tivessem arrancado a única razão para existir. Ele estava debruçado sobre o corpo de uma mulher, a mãe do bebê que ele carregava nas costas. O bebê não chorava, estava quieto; parecia saber o que estava acontecendo. As lágrimas do homem molhavam o rosto da mulher, enquanto ele dizia o quanto a amava e o quanto sentiria sua falta. Aquela cena roubou a atenção de Artemísia em plena batalha.

Enquanto olhava para o homem, um soldado feriu Artemísia no braço; ela o matou instintivamente com uma espada e voltou sua atenção para a cena. Artemísia sentiu algo que nunca havia sentido antes; inveja. Se aquele sentimento existia, o amor, por que então ela não o experimentara ainda? O que havia de errado em sua alma que a deixava excluída de tal conexão? E se ele fosse mesmo algo tão raro, o que ela faria caso um dia pudesse experimentá-lo? Viver sem encontrar o amor já era confortável para ela, mas como seria sua vida caso um dia o encontrasse? Naquele dia, Artemísia desistiu de seu pagamento e foi para uma taberna beber. Um mal-estar havia tomado conta de todo o seu ser, e ela já não se reconhecia mais. No dia seguinte, procurou por Hikari, O mais antigo dos Sábios; a vida de mercenária já não servia para a venusiana.

— Itá. — Artemísia chama pela mestra. Itá acorda de sua meditação. — Sim. Eu tenho medo. É um medo que me consome; que me leva para os cantos mais escuros da minha alma. É um medo que me afasta de tudo e de todos, pois não posso correr o risco de me conectar a alguém. Amei meus pais… e o que recebi deles? Nessa época eu ainda era uma criança, embora a dor tenha sido intensa, eu ainda não compreendia muito bem as coisas da vida; mas não posso correr o risco de amar novamente e ver tudo se repetindo. Meu caminho é com a solidão, somente nela posso confiar; somente a ela me sinto confortável em me conectar.

Itá sorri.

— Minha querida… já não tenho mais lições para você. Volte para a casa de Yuki, lá encontrará tudo que precisa agora.

— Você se refere às lições dos documentos guardados dentro da pedra da queda d’água no jardim?

— Também.

Artemísia fica pensativa um tempo.

— Quanto estrago Vênus causou em mim… — Artemísia diz, com pesar.

— Não precisa mais se preocupar com Vênus; o que viveu lá faz parte de você, mas não pode definir quem você é hoje.

— Sim; mas Vênus ainda me dói. Tanto que evito aquele lugar há anos. Maldito Clã.

— Não carregue tanto ódio em seu coração; mesmo porque, neste exato momento, a vida em sua terra natal está desaparecendo.

— Desaparecendo?

— Sim. A última nação patriarcal do nosso Sistema deixa de existir hoje. O planeta entrou em colapso. Parece que a antiga deusa não quer mais a humanidade em sua esfera.

Uma tragédia põe fim à ocupação humana em Vênus.

 

VÊNUS

 

Após a ocupação de Marte, Vênus se torna a esperança humana de encontrar um novo lar. Muitos acreditavam que o planeta poderia ser uma nova Terra, e seria a garantia da sobrevivência humana depois que o planeta natal se tornasse extremamente hostil a seus filhos; mas resolver a questão do efeito estufa em Vênus, que mantinha a temperatura em sua superfície por volta dos 480 °C, ainda era um desafio que ninguém conseguia vencer. Mesmo os humanoides não conseguiam visitar o planeta sem que sofressem sérias avarias em seu sistema, isso dificultava bastante as pesquisas científicas.

Mas após a última grande catástrofe na Terra; o instinto de sobrevivência pareceu falar mais alto, e um grupo de engenheiros, arquitetos e cientistas se uniu para encontrar uma forma de tornar o planeta Vênus habitável. Enquanto desenvolviam suas pesquisas, eles viveram em naves, que orbitavam Vênus. Um dia as pesquisas começaram a dar bons frutos, e os gases da atmosfera do planeta foram mudando sua composição até que a pressão e a temperatura se tornaram mais brandas, possibilitando as visitas e o trabalho dos drones e dos humanoides.

Em pouco tempo, os humanoides conseguiram desenvolver uma flora no planeta, muito parecida com a da Terra, e uma fauna microscópica começou a surgir. A temperatura estava próxima dos climas de regiões quentes, mas habitadas, do planeta Terra dos tempos antigos, de antes das catástrofes, e animais terrestres puderam sobreviver por lá. Em poucos anos, a vida humana já podia prosperar em Vênus; mas os recursos do planeta eram bem limitados, não havia possibilidade de abrigar um contingente muito grande, e quando o grupo que curou Vênus se fixou por lá, as guerras contra os invasores se tornaram frequentes.

Após a aliança com o Clã, os habitantes de Vênus puderam encontrar um pouco de paz. Mas o planeta sempre se mostrou instável; as transformações artificiais causadas pela humanidade pareciam, de alguma forma, fazer mal ao planeta. Era como se a essência de Vênus não aceitasse tais transformações e lutasse o tempo todo para prevalecer.

Humanos x Natureza; mesmo na Terra essa luta era frequente. E, assim como na Terra, também em Vênus a Natureza ganhou essa disputa.

Enquanto Artemísia estava aprendendo suas lições com Itá, seu planeta natal estava destruindo tudo aquilo que o impedia de ser ele mesmo. Uma série de vulcões entrou em erupção, destruindo praticamente todas as cidades, que não eram muitas, construídas ali. Os gases expelidos pelos vulcões logo tomaram conta da atmosfera que, sem o controle humano, começou a voltar ao que era antes. Não demorou muito para que Vênus voltasse a ser uma deusa intocada pela humanidade.

— Você é a única descendente viva de sua família; tome.

Uma mulher, já idosa, entrega a Artemísia a espada de sua família, a Espada Ancestral; estopim da tragédia que a levou, ainda menina, a ser condenada à morte pelo Conselho, motivo da maior mágoa que ela guardava no coração a respeito de seu pai.

— Jogue fora. — Artemísia diz, impaciente.

A mulher se aproxima de vagar.

— Minha filha. Os costumes que esta espada representa já não existem mais… mas ela carrega uma história, a sua história. Sei que ela não lhe traz boas lembranças, mas é mais que um simples objeto. Um dia você compreenderá. — A velha diz. Artemísia fica pensativa, mas aceita a espada. — Poucos de nós sobreviveram. Carregue essa espada sempre com você, para que nunca se esqueça de onde veio.

A velha sai amparada por Yuki.

Artemísia vai para o jardim. Ela senta sob a sombra de uma cerejeira e, com a espada do lado, começa a meditar.

— Quem era a velha, Yuki? — O irmão de Yuki pergunta.

— Uma antiga serva do pai de Artemísia, pelo que entendi. Parece que ela sobreviveu ao desastre de Vênus porque alguém na família de Artemísia incumbiu a velha de cuidar da espada e a colocou em uma das naves que deixaram Vênus antes do colapso final.

— E porque o pai de Artemísia mesmo não fez isso?

— Ele tinha princípios de honra, ou sei lá; acredito que ele tinha esperança de que as coisas pudessem melhorar no planeta e ficou para proteger o Clã. Eu acho.

— Entendo.

— Vamos, Yama; o mercado já vai fechar.

— Espere, Yuki!

Yama, irmão mais novo de Yuki, segue a irmã, que está saindo pela porta.

Desde que se despediu de Itá, na montanha, Artemísia ficou na casa de Yuki. Ela precisava aprender as lições que Itá havia deixado atrás da pedra da queda d’água. Em algumas ocasiões Itá ia visitá-la; e elas conversavam sobre o que Artemísia estava aprendendo. Eram conversas tranquilas, agradáveis, bem naturais; sempre no jardim.

Aos poucos, as mágoas de Artemísia estavam diminuindo e já não pesavam tanto em seu peito. O fim trágico do Clã foi levando para longe tudo de ruim que ela viu em sua infância; que já parecia uma outra vida.

— Nem Hikari conseguiu fazer por mim o que você tem feito, Itá.

— Você ainda não estava preparada para os ensinamentos de Hikari, minha querida; por isso ele não podia fazer muito por você. Somente nós podemos curar nossas feridas, mas há casos em que não conseguimos encontrar a cura sozinhos, por isso a vida nos coloca diante de pessoas ou situações que nos ajudam a enxergar essa cura.

— A vida é estranha.

— Por que você diz isso?

— O Clã. Parecia eterno. E hoje não resta nem o pó de suas construções.

— Sim. Mas algumas sementes resistiram.

— Sementes?

— Há sobreviventes do Clã espalhados por Apolo. São poucos, mas são suficientes para que suas ideologias ganhem forma novamente.

Artemísia olha para o chão.

— Há coisas que não morrem nunca, certo?

Itá sorri.

— Na verdade… a morte não existe.

As duas se olham. Artemísia está séria e pensativa. Itá está sorrindo, docemente, com uma das mãos sobre o ombro de Artemísia.

Yuki se aproxima.

— Venham. É hora do chá.

O clima de amor e fraternidade que havia naquela família parecia tocar fundo no coração da venusiana. Foi a única vez, até então, que Artemísia pôde experimentar a doçura da convivência em família. O fim do Clã também contribuiu para amolecer seu coração; agora, somente lembranças opacas ligavam Artemísia ao seu passado; cheio de dor, abandono e sofrimento.

Yama, o irmão mais novo de Yuki, também era um bom engenheiro. Estava sempre em sua oficina trabalhando em seus projetos. Como vários em sua família, também havia tentado resolver o problema do bug no garoto humanoide; mas esse era um desafio que ninguém ali conseguia resolver. Então, Yama estava investindo na tarefa de desenvolver um humanoide que pudesse consertar o garoto.

— Aproxime-se, Artemísia.

— Não. Só estou observando. Não quero atrapalhá-lo.

— Você nunca atrapalha. Venha.

Artemísia se aproxima do projeto de Yama, que está sobre uma mesa.

— Que belo humanoide você está desenvolvendo! Será uma ginoide ou um androide?

— Ainda não sei. Talvez seja um andrógeno. A tecnologia humanoide é uma só; o gênero não tem importância alguma. É um detalhe herdado da humanidade antiga; do tempo que ainda havia discussões ideológicas ferrenhas sobre as questões que envolvem essas diferenças tão simplórias.

Artemísia fica pensativa.

— Me desculpe Artemísia. Às vezes me esqueço que você recebeu uma educação com princípios muito antigos.

— Não se desculpe. Meu Clã era um pedaço do passado que insistia em existir, apesar de tudo ao redor lhe indicar um caminho diferente.

— Talvez porque fossem necessários ainda.

— Talvez…

— Bem, quanto aos humanoides, no tempo em que sua tecnologia foi desenvolvida, as características de gênero eram muito importantes para a humanidade, por isso criaram ginoides e androides; isso os confortava devido às suas crenças da época. Mas hoje, é uma simples questão de estética, pois, para nós, as diferenças, os detalhes, têm outro significado; não os vemos como razão de exclusão, mas como algo que define e expressa a essência do ser; e são raros os humanoides que atingem essas características que muitos consideram exclusivas da humanidade.

— Assim como Itá, certo?

— Sim; Itá é um exemplo disso. Sua essência esbanja o princípio feminino da Natureza; não haveria problema se fosse um androide, ainda assim, esse princípio seria o mesmo nela, pois ele não está associado ao gênero e sim a características da Natureza que se expressam através da passividade, do acolhimento, da receptividade… Enfim; é o princípio que sustenta tudo, que sustenta a ação.

— No Clã, muitos sábios associavam as características do princípio feminino da Natureza às mulheres; e usavam isso para justificar sua superioridade, dizendo que as mulheres deviam sempre ser passivas e aceitarem sua natureza.

— No passado, muitos foram os sábios que entenderam dessa forma; e muita confusão e sofrimento reinou nesse tempo. Sendo o princípio masculino o ativo e o princípio feminino o passivo, relacionar essas Forças aos conceitos de macho e fêmea leva a erros absurdos, já que tais princípios existem em tudo no universo.

Artemísia vê em um computador os códigos nos quais Yama trabalhava.

— Condicionamento.

— Como?

— Estou vendo os códigos que você está escrevendo para o humanoide. Com esses códigos você pode definir que tipo de personalidade ele irá desenvolver. Pode definir se ele terá características de uma ginoide, um androide ou um neutro.

— Sim.

— Isso me fez lembrar do quanto foi difícil me adaptar aos costumes fora do Clã. Homens e mulheres convivendo como iguais, como neutros; agora me veio a resposta. Tudo questão de condicionamento social. São as culturas que definem as diferenças no comportamento humano.

— A maior parte do tempo, sim. — Os dois olham para o humanoide sobre a mesa. — Eles foram feitos à nossa imagem e semelhança; e sempre têm algo a nos ensinar. — Yama diz.

Artemísia se lembra de Andyrá e pensa alto.

— Os espelhos…

Contos de Ustrael – Dias de Treino (Capítulo 5)

A lua é visível, hoje nada podia impedi-la de brilhar violentamente neste céu ao qual parecia mais forte que o próprio sol, seu imponente azul banhava o país inteiro de uma parte a outra.

Kaori se encontra a parada no meio de um mar de girassóis com os olhos fechados.

Inúmeros vaga-lumes voavam ao seu redor trazendo uma paisagem linda ao ser combinada com esta sutil brisa gelada que fazia as flores voarem.

Vestia um kimono totalmente branco para o seu treino noturno que começaria em alguns segundos.

Passos.

Ground se aproximava.

“Vejo uma boa aura em você hoje.”

“Hê?”

Abriu os olhos.

“Podemos dizer que eu preciso me animar um pouco.”

“Exatamente.”

Estalou os punhos.

“Até por que você sabe, pirralha, eu vou destruir cada membro de seu corpo se não levar isto a sério.”

Sim.

Após os eventos do ataque de Zanteos…Kaori começou a treinar exaustivamente todos os dias com uma vontade muito maior para poder participar de batalhas de tal magnitude em vez de apenas observar com olhos indefesos.

Ground é seu professor particular de artes marciais já fazem dez anos.

E nunca pegou leve.

Jamais deu uma colher de chá independente de seu humor ou situação.

“Vamos começar.”

Não esperou nada, imediatamente avançou na direção dela que sorriu e fixou as pernas no chão.

Impacto.

Colidiram os punhos violentamente fazendo os girassóis voarem ao redor.

—–

“Fogo, água, trovão, terra, gelo, madeira, vácuo, trevas, luz, magma, ácido, gravidade,são apenas alguns dos elementos que compõem este mundo e que podem ser utilizados para a criação de magias, existem aquelas conhecidas como conceituais não fazendo uso destes elementos básicos porém são mais difíceis de serem dominadas e criadas, o número de afinidade que uma pessoa pode dominar depende unicamente do individuo logicamente, até mesmo uma regra bem boba da afinidade elemental por mês é descartável em incontáveis casos, por tal, não irei me aprofundar nela por ser totalmente irrelevante, consegue entender isso até aqui?Hu, mas lógico que pode, se não terei que pensar que tem menos de 70 pontos de Q.I.”

Kaori fez beiço.

Se encontravam no mesmo mar de girassóis para o inicio de seu treinamento com magia, contando com hoje, fazia-se apenas cinco meses do ataque de Zanteos.

“Eu não sou burra a esse ponto…”

“Hu?É sempre bom confirmamos, sabe?E a runa?”

Balançou a cabeça positivamente.

Apontou para os seios.

“Está aqui, disse que era bom um lugar não visível, né?”

“Sim, afinal existem muitas maneiras de fazer a runa perder a efetividade durante uma batalha,  e é ela que regula e controla a quantidade de magia no corpo, muitos magos não conseguem lutar sem ela, só a elite se dispõe desse prazer após anos de treinamento, e o seu equipamento mágico?”

Silêncio.

Apenas o som do vento foi visível.

Ground leu através da expressão sem graça que fez não o encarando.

Sorriu irritado.

“Garota…!!!”

“DESCULPE!MAS NÃO ME FALARAM ANTES!”

Colocou a mochila a frente e a abriu tirando um bracelete que ia até o cotovelo.

Ele o pegou e jogou longe!

“EI!”

“Eu disse para ser o menos chamativo possível‼Algo como um brinco, anel, até mesmo um dente falso!E você me aparece com aquilo?!”

“Não disse não!”

“Não!?”

Suspirou.

Isso não ia levar a lugar algum.

Depois iriam encomendar outro.

“Muito bem, magia só está presente em algumas milhões de pessoas neste mundo, é um gene especial que atua na forma de um órgão extra chamado de vasto, a magia fica presa aqui dentro e mesmo para aqueles que nascem com este gene a luta para se tornar um mago é longa, afinal precisa da runa e do seu equipamento mágico, este por sinal é feito especialmente para combinar com o gene e selecionar o quanto de magia você pode usar.”

Teletransportou o bracelete para seu punho.

“Afinal ela não é infinita, alguns nascem com um estoque imenso, outros nem tanto, um exemplo…Você quando vai tirar sangue, tem vezes que tira até a seringa ficar cheia, e outros nem tanto, não é?É mais ou menos assim que vai funcionar, a magia vai ser o sangue, o órgão o braço, e o bracelete a seringa, com a seringa você vai poder escolher quanta quantidade de sangue vai ser tirada e usar essa quantidade, perceba que é impossível ser um mago mesmo nascendo com o gene sem esses dois itens.”

Balançou a cabeça positivamente.

Colocando em palavras mais simples tal analogia…

Magia = Sangue

Órgão da magia onde ficaria o “sangue” = Braço

Regulador = Seringa.

Com o regulador (Seringa), você pode regular o quanto de sangue vai tirar (A magia presente no órgão extra), e então…

Distribuir ao corpo e fazer um uso correto dela sem desperdiçar nada.

Apesar dele a ter chamado de burra, era apenas uma provocação normal do dia a dia, pois a verdade é muito diferente.

Já pensou…

Você quer usar um ataque sem muita potência, mas sai um com toda a sua força, e vice-versa também?

Foi o que pensou neste momento.

Com certeza é o que ocorreria no começo não sendo capaz de regular a magia.

O regulador vai “implantando” no corpo do usuário o controle necessário durante anos, anos e anos de uso.

Assim, no futuro, com certeza ele não seria mais necessário, pois o corpo teria aprendido naturalmente.

“Entendo…A runa regula a quantidade correta de magia, e o equipamento é feito para selecionar a quantidade que desejar e usar, sem a runa e apenas com o equipamento, não iria conseguir tirar magia nenhuma, não é?”

“Apenas magos experientes lutam sem ela por já serem completamente de elite e passaram por um rigoroso treinamento, normalmente príncipes guerreiros do continente são assim mesmo em idades bem jovens, como uma regra moral, seu dever, como uma princesa guerreira de um país de Rank-5, é não usar equipamento algum aos 9 – 10 anos de idade.”

“V-Vá com calma!”

Pessoas normais levam sempre mais de 20 anos para terem o controle.

“Mas a magia pode ficar para depois, o motivo é bem simples, primeiro vem a manipulação de Ki que está ligado diretamente ao Aurae por terem bases idênticas, seu pai me fala que você não consegue dominar este estilo mágico, então é necessário pegar a base do Ki antes visando facilitar o aprendizado a ele.”

Balançou a cabeça positivamente.

Isso é verdade.

O Ki…Ele possibilita ter uma percepção muito maior das coisas.De tudo que está ao redor, entendendo o fluxo de energia do adversário e dos seres vivos em volta se torna muito mais fácil a leitura de um golpe certeiro.

Além de aumentar e muito a agilidade, capacidade de raciocínio e outras coisas.

A melhor maneira de fazer isso é meditando e ouvindo tudo ao seu redor, ao sentir essas energias e vibrações da natureza…Aprendendo isso podem lutar de olhos fechados pois qualquer movimento muscular de uma criatura viva gera pequenos campos elétricos.

E é exatamente isso.

Sentir o Ki é sentir as mudanças nesses campos e lutar usando um sexto sentido.

“Primeiro…O Ki jamais deve ser confundido com a magia, apesar de serem parecidos são coisas completamente diferentes com funções distintas, o Ki tem duas formas de ser manipulado, passivo e ofensivo, inclusive o estilo de luta Aurae que é dito como o melhor dos magos foi originado do Ki, basicamente o Aurae é uma evolução absurda do Ki, então eles possuem semelhanças, mas apenas esses dois tem alguma coisa em comum, inclusive dizem que o Ki é o estilo Aurae dos pobres como deve ter bem ouvido.”

“Sim…”

O encarou.

“Ground.”

“Sim?”

O tom de voz o pegou de surpresa.

“Seja sincero, acha que…Eu tenho talento para poder realizar os mesmos milagres do meu pai e do meu tio?”

“Hum?”

Realmente foi uma surpresa este tipo de pergunta vindo do nada, apenas fechou os olhos dando uma risada.

O vento ficou mais forte fazendo os girassóis voarem.

“Para ser sincero…”

Pronto.

Estava preparada para o pior.

Mas…As próximas palavras a surpreenderam.

“Eu vejo mais potencial em você do que em seu pai.”

“!”

Arregalou os olhos.

Não.

Não era uma mentira.

Vide que Ground nunca se importou de machucá-la com palavras soltando a verdade sem piedade.E isso já a fez se sentir mal de verdade inclusive, aprendeu a ver quando ele mente, ou não.

“Eu também ajudei na formação de seu pai como mago, então posso comparar ambos muito bem, o seu potencial é gigantesco, Kaori, então temos que fazer valer a pena, cada segundo, minuto e hora, por que no futuro…Vai com certeza poder ser orgulhar do que vai se tornar.”

“Ground…”

Sorriu emocionada.

“Sim!”

A animação,porém…Não durou muito!

Estava completamente atônita.

O motivo?

A dupla se encontrava a frente a uma caverna.A melhor maneira de ir despertando a capacidade de manipulação de Ki é meditando.

Sim.

Pensou que iria começar ali mesmo ao ar livre.

Infeliz engano.

Seria dentro dessa caverna ao qual parecia ser a passagem do submundo.

Nada poderia ser visto e sons assustadores vinham de dentro.

“Vai ser ae dentro!Junto com cobras, baratas, morcegos!”

“N…NEM PENSAR!!!”

“Não é como se você tivesse direito de escolha.”

Exatamente.

A verdade a fez abaixar a cabeça.

“E eu não lhe disse que qualquer movimento muscular de uma criatura viva gera campos elétricos?”

“Hum?”

O encarou.

Ground socou para a direita.

“Exato, eu posso ver…Este meus movimentos geraram correntes elétricas, e você só pode começar a manipular o Ki quando for capaz de enxergá-la.”

Subitamente!

A agarrou pelo pulso erguendo do solo a fazendo gritar.

“É a mesma coisa com a aura do Aurae, quem aprende a dominar o Ki com perfeição pode inclusive despertar o Aurae acidentalmente se for um gênio já que as bases são ridiculamente as mesmas, agora, VAI PARA DENTRO E NÃO SAI ATÉ CONSEGUIR!”

Uma “pena”, a arremessou como se pesasse menos que uma pena caverna a dentro.

Quando se chocou ao solo…Saiu rolando alguns metros a frente até parar de barriga no chão.

“Ai…”

Ficou assim por alguns segundos até que fora começando a ficar em pé.

“!!!”

Não.

Não era capaz de ver absolutamente nada.

Estava de olhos abertos?

Ficou cega?

Se encontravam fechados?

Impossível.

Simplesmente impossível perceber.

Seu senso de direção também fora destruído.

Pois não importa para onde olhava.

Só existia trevas.

Nem mesmo era capaz de dizer para onde devia ir e onde ficavam as direções.

Ficou em pé em pânico e logo após caiu sentada.

Mais alto.

Os sons dos animais ficavam cada vez mais altos.

A “perca” da visão fez tudo parecer mais perto, alto e amedrontador que antes.

Não era só a visão.

Parecia ser uma questão de tempo para os outros sentidos também pararem de funcionar.

Forte.

Parecia uma bateria.

Cada batida de seu coração parecia que o faria sair pelo peito.

Basicamente estava amedrontada.

Mas…

“O seu potencial é gigantesco, Kaori, então temos que fazer valer a pena, cada segundo, minuto e hora, por que no futuro…Vai com certeza poder ser orgulhar do que vai se tornar.”

Não.

Não apenas isso.

De algum modo conseguiu raciocinar que muitas coisas estavam em jogo.

O resto de sua vida.

A de seu irmão.

De sua mãe.

O país inteiro.

Novamente….Não.De jeito nenhum.O escuro não podia fazê-la esquecer tudo isto.

Fechou os punhos mais fortes.

Sim.

Realmente não tinha senso de nada e seus sentidos a abandonaram.

Essa era a tão falada “Caverna do desespero” que existia na ilha principal, então…

Porém, Adeko sempre a disse algo.

“A luz brilha mais forte no escuro, né, Pai?”

Deu uma risada.

Exato.

A única coisa que podia ser visto nesse breu…Eram o brilho de seus olhos azuis que reluziam mais do que tudo ignorando a escuridão.

E então.

Aos poucos…Fechou os olhos começando a meditar.

E então.

O tempo passou.

Algumas horas?

Alguns minutos?

Dias?

Era impossível saber.

Perdeu completamente a noção de tudo que podia existir, como se estivesse em uma dimensão diferente.

Mas…Sentiu algo.

Uma eletricidade.

Abriu apenas o olho direito.

Estava mais claro?

Por que?

A luz não chega até aqui.

Isso só podia significar algo.

Mesmo que aos poucos…Está se acostumando a escuridão.

Mas não fora isso.

Uma corrente elétrica fraca estava se aproximando daquele lado, ainda não sabia se era direita ou esquerda, porém o acompanhou.

Foi um rato.

Seu grito foi ouvido até do lado de fora da caverna.

Após o incidente voltou a meditar.

Inúmeras coisas vinham a sua cabeça nesse momento.

Viu uma imagem.

Ou teve uma visão do futuro?

Havia um garoto que estava de costas a ela, nunca tinha visto mas sentia uma sensação nostálgica.

Acabou dando um sorriso inconsciente.

Até por aquele cenário que podia ser visto ao redor dele, era…

E então.

Foi em um único flash.

Ainda se encontra sentada em meio a escuridão, foi quando subitamente a caverna apareceu em um pulsar.

Mas era diferente.

Apenas podia ver os contornos da caverna sendo feitos de eletricidade, tal como os animais.

Tudo.

Podia ver tudo.

Até mesmo o lado de fora.

Colocou a mão no joelho, se levantou e fora caminhando até a saída.

Nunca foi tão fácil encontrá-la.Quando finalmente saiu da caverna…

Estava de noite.

“Antes…Tava de dia, né?”

Logo, tomou para si que ficou algumas horas.

Não.

Uma semana.

Ground estava sentado ao lado, e foi de encontro falando sobre o tempo.

“COMO EU NÃO MORRI????”

“Eu já disse, você é uma princesa guerreira, a combinação de genes fantásticos que estão em você a faz muito mais forte que uma pessoa normal, deixando isso de lado, como se sente?”

“É estranho…”

Levou a mão até a cabeça.

Isso até a faz te dor de cabeça, tudo está mais perto, a árvore que originalmente devia estar a 10 metros.

Parecia a um.

Valia para qualquer coisa, também enxergava muito mais limpo, como se fosse um HD perfeito.

Sentia que qualquer coisa iria atacá-la pois os sons todos ocorriam ao lado, os sentidos estavam mais aguçados do que nunca.

Ground notou a expressão.

Sorriu.

Foi um sucesso.

—–

Três semanas de treinamento após…Ainda continuavam na manipulação de Ki.

Kaori devia dominá-lo em seu potencial máximo.

Logo, só passariam para a magia quando o básico e avançado fosse completado com perfeição.

“Força, Kaori!”

“C..C…COMO ISSO É POSSÍVEL!?”

Gritou irada.

O motivo?

Estava deitada ao chão, Ground ao lado e com o dedo indicador na barriga da jovem.

Impossível.

O segurava pelo pulso tentando movê-lo.

Nem mesmo um centímetro.

“Isso também é manipulação de Ki.”

O retirou.

Logo ficou sentada.

Suspirou e o encarou.

Queria que explicasse o que fez.

“Manipulação de massa, podemos mudar a massa de qualquer coisa usando o Ki, aumentei o peso do meu dedo para algumas toneladas, era impossível que o movesse.”

É algo normal.

Em qualquer luta, os usuários de Ki mudam a massa de seus corpos para assim aplicarem golpes muito mais poderosos e efetivos que o normal.

“Também é possível fazer isso.”

10 metros.

Fora a altura que começou a flutuar a deixando surpresa.

“0”

Mudou a massa corporal para zero e assim era capaz de planar.

Mas era arriscado.

Se levar um golpe nessas condições…

Derrota total.

Tocou o solo.

Kaori a essa altura era perfeitamente capaz de ver as correntes elétricas, então agora podia ser feito.

“Vamos para a arte de Ki definitiva.”

Arte.

É o nome que está sendo dado para as “magias” que são feitas totalmente a base de Ki.

Não recebe mais o nome de magia.

E sim Arte.

“É a maior de todas, nem mesmo o Aurae tem algo tão poderoso e avassalador quanto isso.”

“A maior?”

Tinha uma noção do que Ground se referia.

O Aurae é manipulação de aura.

O ki a manipulação de correntes elétricas.

Então tinha algo…

Unlimiteds.

Algo que o Aurae não poderia reproduzir.

“Quando corremos um perigo de vida ou morte o corpo libera uma série de hormônios que são utilizados para nos salvar destas situações terríveis. Por esta razão, “milagres” acontecem, como levantar um carro e coisas do tipo, depois de um tempo não conseguirá fazer isso novamente. É interessante, porque o músculo não diminuiu, na verdade, você passou a utilizá-lo na sua totalidade, pois era um momento necessário de desespero. Esta situação implica que força não vem do tamanho do músculo, mas, sim, da mente. Quem treina para ficar forte treina antes de tudo a ligação neuromuscular, ou seja, a capacidade em utilizar todo o tamanho do músculo para gerar força, através do Ki podemos gerar isso da maneira como bem entendermos, preste bem atenção nisso que farei.”

Balançou a cabeça positivamente.

Entendeu o que ele queria dizer, só não viu uma ligação com a manipulação de Ki, então teria que ver na prática.

Caminhou até uma rocha de 50 metros ao qual faria qualquer humano olhar como uma mera formiga.

“Através do Ki nós vamos dar uma ordem ao nosso cérebro que pelos neurotransmissores irão levar isso ao resto do corpo, essa ordem é, “liberem adrenalina constante.”

“Eh?”

Ela percebeu algo.

O Ki ao redor do corpo de Ground ficou mais poderoso.

Não apenas isso.

Seus músculos…Cresceram!

“Isso significa…Manipular o Ki também é…”

“Sim, manipular o Ki é conseguir dar ordens ao próprio cérebro, manipular o corpo em sua totalidade o elevando ao máximo.”

A arte definitiva que faz magias de Rank-S parecerem brincadeira.

Seria fácil mudar a massa dessa rocha para 0 e a erguer também.

Não.

Ele não fez isso.

Dando a ordem de seu corpo agir na potência máxima…A levantou com uma mão e jogou para cima transpassando as nuvens.

….

Kaori ficou de boca aberta.

Não podia ter outra reação.

A encarou.

O vento começou a ficar mais forte.

“Como é uma arte de Ki, e não magia, é desnecessário ter a runa e o regulador, foi até ótimo ser uma arte, pois se fosse magia, hu, só deus sabe o quão impossível seria a dominar, e veja bem, criança.”

Ela se ajoelhou.

“EH???”

Por que?

Por que estava ajoelhada?

Não.

Isso não fez sentido algum.

Olhou para Ground.

“O que você…”

“Eu dei uma ordem ao seu cérebro através da atmosfera, quem não sabe usar a Unlimiteds  pode acabar se tornando um brinquedo para aquele que a domina, como isso, repita 10x, eu sou uma idiota.”

“Por que e-

Iria retrucar.

Mas…Era impossível.

E então…Começou.

“Eu sou uma idiota.”

Uma, duas, três…

Dez vezes!

“Ah…Ah…?”

Ground rolava no chão de rir.

“O QUE TÁ FAZENDO COMIGO????”

“Uma ultima experiência, tente ficar em pé.”

“…”

Já sabia que não ia conseguir.

Mas tentou.

E realmente.

O corpo simplesmente não se move.

Nem mesmo um centímetro.

Sentiu os membros completamente inúteis.

O motivo?

Ground deu a ordem ao cérebro de Kaori jurar obediência absoluta.

Por mais que tentasse se mover…Seu cérebro mantinha a ordem de obedecê-lo funcionando e não havia como contrariá-lo, afinal…Não podia ir contra seu cérebro.

E então, ficou sentada ofegante.

Ele a retirou.

Foi uma experiência horrível.

Por alguns segundos…Esse corpo não a pertenceu mais.

Aqueles que dominam a unlimiteds podem realmente fazer o que quiserem com a vitima, reescrever memórias, dar ordens para o cérebro parar de funcionar, retirar os sentidos dizendo que não são mais necessários, mudar personalidades, entre várias outras só dependendo da imaginação.

Basta a ordem.

E o cérebro fará.

“Se eu quisesse deixar fluir todo meu ódio contra você iria mudar totalmente sua personalidade, poderia fazê-la esquecer todas essas memórias até hoje, colocar novas fazendo pensar que é qualquer animal e agir como tal, criar traumas, sentimentos falsos, fazer pensar que está vendo ilusões desses traumas, enfim, muitas outras coisas, agora, escute bem o por que disso ser possível, as mesmas correntes elétricas que vemos quando aprendemos a ver o Ki estão presentes no encéfalo que é o centro do sistema nervoso em todos os animais vertebrados, nós apenas precisamos manipular essas correntes elétricas, é necessário primeiro concentrar o Ki nas orelhas sendo um iniciante, essa é a primeira parte.”

Existiam dois meios de dar ordens.

Pela atmosfera juntando seu Ki ao próprio ar.

Ou por contato físico sendo iniciantes.

Ele se ajoelhou a frente dela colocando as mãos em suas orelhas a surpreendendo, as mesmas foram preenchidas por Ki.

“Só estou lhe dando uma noção, você deve conseguir fazer sozinha após alguns treino.”

“Sim…”

“É agora que a Arte precisa ser adicionada, coloque seus pensamentos nesse Ki que rodeia toda a sua orelha.”

“Pensamentos?”

“Não faça perguntas agora, vai entender tudo quando eu terminar, coloque uma ordem no centro desse Ki como se tivesse o formato de qualquer coisa e uma corrente a segurando fortemente, mas não que seja nada acima do que você pode fazer, essa arte pode aumentar a velocidade, força, para um nível que treino nenhum permitiria em determinadas pessoas, porém se o corpo não tiver poder o suficiente, vai morrer quando seu efeito passar.”

“…Certo.”

Ela fechou os olhos se concentrando.

“Já fez, não é?”

“Sim.”

“Certo.”

E então.

O Ki entrou pelas orelhas.

“!!!”

“Hu, fique calma, o último osso da cadeia ossicular, o estribo, está acoplado a uma fina membrana chamada de janela oval.A janela oval é na realidade uma entrada para a orelha interna, que contém o órgão da audição, a cóclea.Quando o osso estribo move, a janela oval move com ele.No outro lado da janela oval está a cóclea ,um canal em forma de caracol preenchido por líquidos e, quando as vibrações chegam à cóclea provenientes da orelha interna, serão transformadas em ondas de compressão que por sua vez ativam o órgão de Corti que é responsável pela transformação das ondas de compressão em impulsos nervosos que são enviados ao cérebro para serem interpretados, assim,podendo dar ordens ao cérebro pelo Ki, a arte consiste em uma magia para prender o pensamento no Ki e enviá-lo ao cérebro.”

Então é assim.

Sim.

Tudo fez sentido agora.

Isso que quis dizer com as correntes elétricas do Ki serem as mesmas do encéfalo.

Essa Arte…Era realmente..

Definitiva.

Estava assustada com seu potencial infinito.

O nome faz jus.

“Então,que ordem você deu ao cérebro?

“Ah?”

Sorriu e piscou o olho.

“Uma promessa.”

“Oh, hu, se não for pessoal demais, qual foi?”

“Nunca desistir.”

“!”

Levou um susto.

Mas deu uma risada logo depois.

Estavam se encarando após alguns minutos.

“Essa Arte consiste em tornar físico o não físico, até mesmo o pensamento é estimulado pelas correntes elétricas do cérebro, ao colocar seu pensamento em algo…Vamos explicar.”

Pegou uma pedra no chão e ergueu a frente de ambos.

“Se você imaginar um pensamento nessa pedra, nasce um pequeno Ki aqui desse pensamento, aonde você imaginar um pensamento um Ki vai surgir, na pedra, no ar, no meu braço, em qualquer lugar, é nesse momento que deve usar a arte de transformar o não físico em físico, e combiná-la com uma arte que ira transformar o pensamento em correntes elétricas.”

“Foi por isso que colocou o Ki na minha orelha, para economizar tempo, não é?”

“Sim, como eu disse, você ainda é uma amadora, precisa ter um recipiente para prender o seu pensamento e começar a transformá-lo em algo físico, magos experientes fazem na própria atmosfera tornando a defesa impossível como quando te dei aquelas ordens, eu vou começar a lhe ensinar essas duas, primeiro, vamos pelo mais fácil.”

Após alguns minutos…

Kaori estava sentada com um olhar reflexivo.

As palavras de Ground continuavam em sua mente.

“Se você imaginar um pensamento nessa pedra, nasce um pequeno Ki aqui desse pensamento, é nesse momento que deve usar a arte de transformar o não físico em físico, e combiná-la com uma arte que ira transformar o pensamento em correntes elétricas, onde você imaginar um pensamento o Ki vai surgir, seja nessa pedra, no ar, no chão, em qualquer lugar, quando você imaginar o Ki ele vai surgir, nesse momento tem que usar uma magia para torná-lo físico, e outra para transformá-lo em corrente elétrica, infinitas possibilidades estão escondidas nessa arte, por isso o nome, com uma simples ordem…A luta vai ser decidida.”

Fechou os olhos e sorriu.

“Okay, vamos começar!”

Um mês.

Ground disse que antes de avançar nos treinos ela devia dominar por completo a unlimiteds.

Visto, que, por ser quem é, só ira enfrentar pessoas de um poder equivalente.

Dificilmente iria trocar punhos com plebeus e guerreiros mais limitados.

Para o mundo ao qual pertence…

Para sobreviver a essas lutas.

A manipulação de Ki em sua totalidade máxima era obrigação.

E passado estes 30 dias.

Estavam se encarando deitados de barriga no solo.

Uma queda de braço.

Ele sorriu.

“Hê, você disse que aprendeu, não acha que um mês é pouco tempo?”

Sim.

Normalmente levasse anos no mínimo para tal arte ser dominada.

Mas por ser uma princesa guerreira e ter algo como o Dna*R que foi sendo moldado pelos Reis de Kanszes…Esse tempo caia drasticamente.

Mesmo entre gênios como Ground…Se Kaori levar o treinamento a sério como estava disposta, iriaia ficar acima da própria elite daqui a alguns anos.

“Hu, se você estiver mentindo eu vou obliterar esse seu braço.”

“Eu não ia te chamar se algo assim pudesse ocorrer!”

“Vai saber?O seu cérebro não funciona mui…Sim, você tem razão, é uma garota sensacional e talvez eu não seja digno de ser seu professor e…O QUE FOI ISSO!!!?”

Ela sorriu.

“Uma pequena vingança.”

“Ora…”

Sorriu empolgado.

Ela o deu uma ordem!

No três…

Foi imediato.

Uma cratera de 20 metros surgiu no local pela pressão exercida.

—–

Sons de golpes…

Kaori e Ground trocavam golpes em uma velocidade absurda sacudindo o solo.

Nenhum golpe ficava sem resposta.

Cada soco, chute, esquiva, defesa era feito de maneira idêntica pelos dois adversários.

Quando um aumentava a velocidade, o outro repetia.

Ground acertou um soco na barriga de Kaori.

Que repetiu com um chute no rosto igualmente poderoso!

Porém…Mesmo com essa igualdade que perdurou algum tempo alguém começou a ter a mão superior.

E não foi Ground.

Para cada golpe conectado sempre levava dois em troca.

Recebeu um chute que gerou uma corrente de ar o jogando 10 metros para trás.

Era impossível ter outro sentimento se não…

Sim.

Orgulho.

Realmente está orgulhoso.

A ensinou muito bem.

Valeu a pena.

Cada minuto e hora.

Embora fosse uma visão difícil para a maioria associar a garota de 10 anos atrás com essa a sua frente…Ele sempre soube.

Já sabia que este seria o resultado.

É como Adeko.

Viu uma imagem do pai a sobrepor por alguns momentos.

São realmente parecidos.

Até na capacidade de destruir seu antigo frágil eu e crescer mais forte que qualquer um.

O resultado de todos os sentimentos que tem de tentar consertar as coisas com Kai…Era impossível que ele não percebesse.

Os girassóis começaram a flutuar.

Avançaram!

Socaram ao mesmo tempo causando um terremoto.

“Eu realmente…”

A encarou.

Notou um sorriso.

“Preciso te agradecer por nunca ter desistido da inútil que fui no começo..!!Sem você, jamais chegaria tão longe, obrigada!”

“Hu..!!Ainda…É muito cedo para elogios!”

“Eh??”

Rápido!

Deu um passo a frente e segurou o braço direito da herdeira com os seus dois.

Se virou, e então a levantou por completo e desceu!

Ia acontecer um verdadeiro “ipon”, um tanto brutal por sinal.

Mas…

Ele não conseguiria ver este sorriso que se formou no rosto de Kaori, ainda tinha seu outro braço livre.

Centímetros.

Era a distancia que a separava do solo.

Foi como um raio.

Segurou o ombro de Ground.

E então.

Mostrando um controle perfeito do corpo e uma elasticidade que só poderiam ter vindo pelas aulas de dança…

Agarrou forte!

Como se tivesse, realmente, com a mão apoiada no chão, puxou o corpo para a direita se soltando.

“!”

Ainda no ar, girou e o chutou no rosto fazendo se chocar com as flores.

Colocou os punhos no chão e pulou para trás caindo ajoelhada.

“Hu.”

Ficou sentado.

Cuspiu sangue para a direita.

Realmente.

Nada mal.

“A ida para a Ballas está lhe deixando mais animada?”

“Não sei, mas…Só sinto que algumas coisas vão acontecer ali.”

“Hu?”

Foi como um flash, o aurae cor de ouro de Kaori tomou forma por seu corpo tal como o marrom de Ground.

Vão ir um pouco mais sérios a partir daqui.

—–

“Estarei logo atrás.”

Uma pessoa olhou para trás, essa fala…Foi de Prometheus.

“Se falhar, eu mesmo vou entrar em cena.”

Apenas balançou positivamente e andou para frente na direção de Ballas.

Contos de Ustrael – A Cidade Onde os Destinos se Cruzam (Capítulo 4)

Os raios solares ao passarem pelas folhas das árvores e refletirem na estrada de pedra sem duvida alguma enfeitava de uma maneira bem mais caprichada toda a paisagem ao redor realçando ainda mais todo este verde bem vivo.

Kai parou no topo de uma pequena colina, tinha sua visão fixa em uma construção apenas alguns metros a frente ao qual muralhas de dez metros foram construídas ao redor em um formato esférico, seu interior  não era pequeno.

Não mesmo.

O espaço é de 2km de diâmetro além de reter cinco casas que lembravam pequenos castelos, tem uma estrada de asfalto construída ao lado da muralha que continuava até onde a visão alcançava.

“Com certeza é usada para importação e exportação de produtos…”

Ilegais ou não?

Dane-se.

Não é importante.

Apenas algo passa a sua mente…Se Lumia pensa em invadir o local…O que parece óbvio a essa altura não seria tão fácil.

“É como um pequeno exército.”

Deixou escapar pela alta concentração de soldados armados.

“São só números.”

“Ho, então vai lá, vai, eu vou gostar de te ver levando uns tapas.”

“Desculpe lhe decepcionar.”

Deu um salto para baixo, tocou o solo, levantou-se e caminhou a frente, o ex-principe se deitou e apoiou o cotovelo no solo junto ao punho na bochecha a observando.

Apesar de ter dito que gostaria de a ver levando uma surra…Sabe que a ultima coisa que precisa é se preocupar com aquela pessoa que recebe o nome de bruxa, ter criado “pessoas” falsas, manipulá-las com telecinese e lutar daquela maneira enquanto fingia um falso sono significa só uma coisa.

Talento puro.

Em tal nível que provavelmente é ameaça a algum assunto complexo visto que a querem morta.

Uma explosão bem violente aconteceu na entrada das muralhas.

O impacto foi forte.

Fez o portão literalmente “voar” para trás girando e se chocar contra uma das casas causando um principio de caos, o susto foi bem alto e o coração quase saiu pela boca, olharam a direita e a viram se aproximando.

“Quem é você?!”

Não respondeu.

Ficou movendo o olhar para os lados como se estivesse a procura de algo.

Perante a falta de resposta…Atacaram!

Tinham “metralhadoras” consigo, bem, ao menos o formato era o mesmo mas a diferença é notável quando disparada.

Não eram balas.

E sim lasers de energia.

Pequenos terremotos tiveram inicio que facilmente chegavam até onde Kai estava.

Lumia usou uma magia muito similar a que colocou em prática para enganá-lo aquela vez quando “escondeu” as outras ilusões.

Funcionava da mesma maneira.

Destruía seu conceito de existência no presente, só que dessa vez, não para ficar invisível, apenas intangível, sendo assim os lasers ao se chocarem no chão iniciavam os tremores.

“O corpo dela..!!”

Estalou os dedos e usou está magia em todos os inimigos.

Não entenderam absolutamente nada ao verem seus corpos transparentes e nem mesmo teriam tempo para tal, a “bruxa” levantou e bateu a perna no chão aumentando a gravidade nesta área como um todo.

E então aconteceu.

Foi em um único flash.

Um dos homens abriu os olhos.

Impossível…

Definitivamente impossível.

Era só o que podia pensar.

Afinal, o planeta…O estavam vendo!

Foram jogados ao espaço com a combinação das duas magias em ação.

Lumia olhou para a direita vide que Kai parou ao seu lado e a encarou.

“Ainda não pegou todos.”

Colocou a mão em seu ombro.

Existe algo que pode ser feito para quem domina o Ki amplamente, outra versatilidade é a capacidade de expansão que ele retém, o seu usuário pode retirá-lo do próprio corpo e o expandir por uma área que vária de individuo a individuo.

Qualquer movimento muscular de uma criatura viva gera pequenos campos elétricos, sentir o Ki é sentir as mudanças nesses campos e lutar usando um sexto sentido.

Expandindo seu Ki por uma certa área…O permite uma visão muito especial.

Tudo ao redor de Kai ficou negro instantaneamente, tudo o que via era feito por contornos de eletricidade.

Exato.

O sexto-sentido do Ki, popularmente conhecido como a “visão da onipresença.”, recebe tal nomeclatura pois eles são capazes de ver tudo, absolutamente tudo nos kms que podem expandir seu Ki.

Estava compartilhando essa visão com Lumia que levou um pequeno susto.

Mas…Era perfeito desta maneira, o clã continuava para o subterrâneo, onde, agora sim, podia ver os outros em guarda.

Usou uma magia para ignorar distancia os atacando com a mesma combinação de antes, agora sim “limparam” tudo.

“Visão da onipresença, é?Mesmo para mestres em Ki fazer isso é um tanto quanto complicado.”

“Eu sou demais.”

Sem nada para atrapalhar…Tomaram caminho.

Encontraram uma entrada secreta dentro de uma das casas e foram descendo as escadas por cinco minutos inteiros antes de chegarem em um corredor, ele não sabia para onde estavam indo e nem o que poderia encontrar.

Aliás….Nem mesmo ela parecia saber, parece que se move muito mais por instinto do que qualquer outra coisa.

Entraram em uma sala que a principio estava decorada como um quarto luxuoso, ao qual tinha inúmeras estantes com livros.

Lumia deu alguns passos a frente caminhando a elas procurando um livro.

“Muito bem, eu vim com você até aqui, não é?”

Se virou o encarando.

“Acho que no mínimo, NO MINIMO, eu mereço uma explicação.”

—–

Ábaris e Destroyer…Dois dragões com um poder de destruição ao qual não poderia ser colocado em palavras ou registros.

O motivo?

Em cada lenda que contava sobre suas forças…Ilhas, países, continentes…Tudo era levado a perdição por tais criaturas que destruíam a vida de maneira indiscriminada.

Claro, tal nível de poder era acreditado ser apenas lenda e provavelmente era mesmo.

Mas…Toda lenda tem uma realidade.

O poder de tais monstros…Que superava o de qualquer outro ser vivo era verdade, faziam um Abyssal olhar como criança.

Junto a estes colossos….Existiam mais dois homens.

A história não diz como essa improvável parceria ocorreu, mas aconteceu, e juntos, levaram o verdadeiro genocídio a humanidade.

O plano era ousado, conquistar todo o planeta, porém, naquele momento, não seria possível.

Mas não impossível se tudo fosse preparado corretamente e decidindo jogar com a sorte.

Um poder conhecido como “Rebirth.”

Ele existe em qualquer ser vivo deste planeta, mas apenas exemplares fantásticos são capazes de despertá-lo, seu funcionamento é ousado, e, talvez, até injusto?

Quem o usa pode entrar em um estado forçado de hibernação em um gigantesco esquife de gelo que toma forma.

E vai ficando mais forte.

Conforme permanece nesse estado, a força vai aumentando de acordo com o tempo em que permanece adormecido.

Mas é arriscado.

O ser não pode acordar por conta própria e é passível a ser “absorvido”.

Não são apenas animais que podem dividir sua consciência e corpo com humanos, os próprios também podem fazer esse papel com os outros.

Precisa que um desavisado tente fazer o link-orgânico para se tornar um alvager. (O que Fang temporariamente se tornou no ataque a Kanszes)

Os “Alvagers naturais” precisam dominar através de um duelo mental a alma do ser que está tentando fazer o link.

Se ele perder…A existência será reescrita, a existência que estava tentando dominar irá renascer por completo em seu corpo.

Se vencer, vira um Alvager e pode se usufruir de todas as características de um.

O planos dos quatro era ousado.

Os dois humanos não possuíam a rebirth, e mesmo se possuíssem, não era parte do plano, após Ábaris e Destroyer entrarem nesse estado…Os homens se conservaram no tempo.

E iriam esperar.

Esperar os tolos irem atrás do poder dos dois dragões adormecidos e tentar fazer uso próprio.

Para isso criaram a lenda que os cerca levando o caos a humanidade.

Hoje, é conhecida como “a lenda dos quatro”.

3000 anos, então, se passaram.

É impossível.

Completamente impossível qualquer humano ganhar um confronto mental com os dois, visto que ficaram mais fortes enquanto adormeciam do que se treinassem nesse tempo.

Ábaris despertou por completo nos dias atuais e foi até o corpo de Prometheus, um dos humanos, o selo que os homens usaram para se preservarem tinha as mesmas características do Rebirth.

Criaram um gene artificial que faria isto naquela época.

E então, quando encontrou com Prometheus, fez um link-orgânico e o tornou um alvager, assim, quebrando o selo.

O motivo do link-orgânico é óbvio, se combinassem suas forças…O poder que teriam iria aumentar ainda mais do que apenas o natural que ganharam nesses 3000 anos.

Porém…

Destroyer e Marte…

Permaneciam “desaparecidos.”

—–

“Ainda nada, Ábaris?”

A cena era em uma praia.

Havia um homem sentado ali olhando o mar, a maré subia indo até seus pés e descia em um ciclo repetitivo, foi quando ele chegou…Uma sombra colossal se aproximou e parou ao lado fazendo tudo tremer.

“Hu, não, parece que nenhum dos outros dois ainda despertou mesmo após todos estes anos, e é estranho, mesmo usando meu sensor não consigo encontrá-los.”

“Não acha que outra coisa é estranha?”

“Hum?”

Prometheus olhou seu punho o fechando e abrindo algumas vezes.

“Contando com hoje, dois anos foram deixados para trás desde que acordamos nos dias atuais, mas…Hu, por que a vontade de dominar tudo, se perdeu, ou está tão fraca?”

Sim.

Sem dúvida era um sentimento complicado de entender.

Mas…Pode ser visto de outra maneira e até mais simples?

Qual a graça?

Era simplesmente impossível que houvesse resistência, já possuem um poder tão sobrenatural, que simplesmente…Não teria graça.

A vontade de fazer algo que sabe que não terá desafios, ao qual bastaria só desejar para ter sucesso…

Era tedioso.

Tão tedioso que não dava vontade nem de começar.

A prova…É que não se esforçam muito para encontrar os outros dois, apenas fazem por um senso de obrigação moral.

Tanto faz afinal, apenas um já poderia dominar este mundo sozinho, então se é solo, em dupla, ou em trio…

Tanto faz.

Vive se perguntando se algo não se perdeu no tempo que ficaram adormecidos, pois algo assim…Esse desejo que tiveram no passado não poderia se perder “do nada”.

“Completamente tedioso,  provavelmente, alcançar algum estágio que se destaca de maneira tão absurda dos demais…Torna qualquer outra coisa sem graça.”

“Ei!”

Ambos olharam para trás, uma garota sorriu e acenou.

“Prometheus, Ábaris!Está pronto!”

Criaram um clã nesse tempo que não tinham nada para fazer apenas pelo simples desejo de testar coisas novas.

O dragão, então, usou uma magia de transformação para ter uma forma humana, e juntos, caminharam até a jovem.

Prometheus cerrou os olhos.

“Mas, talvez, seja melhor remediar um pouco aquele mal pressentimento, acho que irei me dirigir até Ballas em alguns dias onde senti aquela presença.”

—–

Acabou de contar esta lenda a Kai que cerrou os olhos.

“Alvagers naturais antes de fazer o link-orgânico…Precisam dominar a base de um confronto mental o ser que quer fazer contrato, já os artificiais, este poder só precisa ser inseridos de maneira artificial, entendo…”

A encarou.

“E onde estão Destroyer e Marte?”

Houve-se um silêncio  ensurdecedor por alguns segundos, apenas refletiam um nos olhos do outro sem dizer nada.

Por que essa hesitação?

Era só falar um “não sei.”

Mas…

Deu uma risada sem graça.

Tinha algo a mais.

Com certeza tinha.

Lumia suspirou.

Lentamente…Levou a mão aos seios.

“Ele está aqui.”

Não teve a reação normal que seria gritar em completa surpresa e fugir do local, já havia trabalhado com esse hipótese na lentidão para responder.

Usando telecinese, “pegou” um livro da estante o jogando a ele que o segurou.

“Prometheus e Ábaris estão criando inúmeros clãs ao redor do globo visando algo, eu ainda não sei o que é, e não, não estou tentando impedi-los, por que é impossível, tenho sérias duvidas que mesmo que todos os julgadores se unam algo poderá ser feito, mas tente ler este livro.”

Dane-se, sua vida já é uma bagunça, um pouco mais não vai mudar em nada.

Apenas abriu.

Mas…

impossível.

“Isso…”

“Conta uma parte da história que lhe falei, porém como vê tem algumas letras que são impossíveis de serem lidas, provavelmente é a história dos quatro contada de maneira correta”

“Ho, se tem juízo e não está tentando pará-los, então o-

Parou de falar.

Começou a pensar de maneira mais racional.

A chamam de Bruxa.

A querem morta.

Se o que está falando de ter “feito” um link-orgânico com Destroyer for verdade…Tudo iria se encaixar.

Em momento algum com ela concordo com isso, certo?

“(Foi parte de algum experimento, e fugiu, é?)”

Podia notar uma expressão confusa no rosto de Kai.

Bem, era o esperado no fim das contas.

“Eu vou lhe mostrar.”

“Hã?”

Escuridão.

Parece que foi teletransportado para um local diferente.

Nada.

Para onde quer que olhasse só havia um breu infinito, não sabia se estava de olhos abertos ou fechados, e é um tanto assustador, havia perdido todos os sentidos a esse pânico repentino.

E foi então…

Dois olhos vermelhos surgiram atrás.

Nunca.

Nunca antes sentiu esse tipo medo antes.

A sensação…Era horrível.

Aliás…Podia dizer que estava apavorado como uma menina?Queria sair correndo rezando pela vida.

Hesitante…Olhou para trás.

A criatura sorriu.

“Então…”

A voz tinha eco.

Um eco infinito que ressoava nas trevas e fazia tudo tremer parecendo que este “mundo” iria entrar em colapso.

“A pirralha trouxe um amigo?E ae, cara?”

Forçou um sorriso amarelo sem graça.

Era difícil não tremer a boca.

“Só sua presença…É superior a de um Abyssal, hu, não importa como eu o veja, mesmo que aquela garota tenha um poder mágico incrível seria impossível para vencer uma disputa mental com você.”

“Ho?”

“Se ela acabou de lhe contar a história…Sabe que alguma coisa deu muito errado, não é?”

Deu um grito caindo sentado ao chão ofegante.

“Viu?”

“Hu-hu-hu…Vá se ferrar…!!!”

“Quanto mais eu uso magia, mesmo uma simples telecinese…”

A encarou.

“Tudo emana o poder de Destroyer, ele flui de maneira descontrolada de dentro de mim, é como um incêndio que se joga gasolina e não água, o que acaba trazendo aqueles dois para perto, ao mesmo tempo…Que o selo que o mantém preso vai enfraquecendo, a próxima vez que eu usar magia…Pode ser quando vai tomar total pose do meu corpo destruindo minha existência.”

Sim.

Tudo estava fazendo sentido agora, seu poder mágico era uma bomba relógio.

“Preciso de alguém que reveze comigo para não fazer o selo perder o controle antes que eu possa dar um jeito de resolver esse assunto.”

Ergueu um livro.

“Vim atrás disso, tem uma magia aqui que posso usá-la retirá-lo de mim e devolver ao estado que estava, mas para decifrar…Preciso ir na maior biblioteca do continente, que fica em Ballas, o caminho não é pequeno.”

Algo bastante complexo a cercava.

Por um momento.Mesmo que pequeno…Viu Kaori nela.

Deu uma risada fechando os olhos.

“Entendo, acho que não tem mais volta pra mim de qualquer maneira.”

“Vai mesmo??”

Colocou a mão no joelho e ficou em pé.

“É surda?”

Foi surpreendida, claro, ele realmente veio com ela até aqui, mas tinha a quase certeza absoluta que iria largá-la ao escutar o perigo da situação.

E embora não tenha como entender…Talvez se a ajudar agora, consiga um pouco de redenção?

“!”

Corou quando ele tocou seu ombro e andou para trás inconscientemente.

“….O que foi, mulher?Iria nos tirar daqui.”

“Ah..N..Nada…”

Novamente a tocou e usou a visão da onipresença do Ki.

Kai possui teletransporte.

Logo…Os levou para o topo do clã novamente.

Olhou para a direita.

Então o destino era a cidade de Ballas.

Suspirou levando a mão ao pescoço, vai ser bem complicado, o país passa por uma grave crise no momento sem falar que o caminho será longo.

“Muito be-

Não terminou.

Se colocou a frente de Lumia e chutou uma rajada para a direita ao qual destruiu uma casa liberando ventos furiosos.

Claramente foi pega de surpresa enquanto seus cabelos começaram a balançar.

Essa rajada…Estava combinada a uma magia de apagar a presença, Kai só reagiu por que ainda mantinha o sentido elétrico ativo.

Entrando pela passagem agora destruída…Vinha um homem.

O ex-príncipe sorriu.

Com certeza veio atraído pela magia de Destroyer, podia ver que algo borbulhava do corpo do inimigo.

Era roxo e queimava como uma chama….Ou seja, a resposta só podia ser uma, e a pior possível?O estilo mágico número um do mundo.

Aurae.

Prometheus e Ábaris sendo a este ponto os habitantes mais poderosos do planeta…Era fácil para ensinar aos membros de seu clã a arte mais poderosa que existe.

Porém, ignorando completamente o fato do Ki ser inútil perante a tal força, foi caminhando a frente.

“Eu cuido dele, não vamos deixar o selo ir quebrando, não é?”

“Pelo o que eu já vi em você desde ontem…Se soubesse usar o Aurae já teria feito, e sendo um falso mago…Sua chance de vencer beira o 0.”

Essas palavras eram quase uma verdade.

Quase.

Não é impossível um usuário de Ki derrotar um de Aurae, apenas passa essa impressão pelos resultados ao longo da história.

Um completo massacre.

Mas Kai nunca deu a mínima para isso.

Sempre soube que em uma luta assim só precisa acertar um golpe, aliás, qualquer luta neste mundo tem 90% de chances de acabar no primeiro movimento.

Era nisso que apostava.

O adversário bateu o pé no solo…E avançou!

Kai repetiu o gesto!

Tomou forma.

O Ki preencheu todo o corpo como um azul escuro que pulsava forte.

“Hu, um usuário de Ki tentando me derrotar!?”

“Não fique tão cheio de si, sua imitação.”

Quando o Aurae entra em contato com o Ki o anula completamente, o estilo nasceu para formar uma hierarquia e nada mais do que isso.

Apenas os nobres teriam esse poder visando manter a ordem em cidades.

E claro, algo ainda mais importante, manter sem nenhum imprevisto seu titulo de elite.

Um metro era a distancia.

Praticamente não existia mais.

Ambos fecharam o punho e socaram na direção do outro!

Um pulsar abalou a floresta.

Kai cuspiu sangue sendo arremessado para trás contra uma pedra.

O “embate” terminou.

Sorriu e encarou Lumia.

“Você é a próxima.”

Ela não disse nada, apenas deu de ombros e caminhou na direção do ex-príncipe.

“Ho?”

“Você já perdeu, e de qualquer maneira não preciso me preocupar em dar atenção aos mortos.”

“Ah?O que dia-

Não terminou.

Subitamente…Se ajoelhou caindo derrotado.

Milésimos antes de ser atingido…

Kai propositalmente retirou todo o Ki do seu corpo o concentrando na ponta do dedão do pé fazendo um buraco no sapato.

No momento que o mesmo levou o golpe sendo jogado para trás…Colocou uma magia nessa partícula de Ki e a jogou na “aura” do adversário.

O mesmo não percebeu.

Por que, colocado junto a aquele Ki tinha uma magia para apagar a presença.

Este teria sido um movimento suicida.

Porém antes de avançar…Kai e Lumia conversaram por telepatia.

A mesma usou uma pequena anti-magia junto a magia de ignorar distância na canela do inimigo, então foi apenas óbvio, onde a partícula de Ki tocou e se ativou por que seu aurae não cobria mais aquela parte…Foi o momento da derrota.

Tudo isso…Aconteceu ao mesmo tempo no momento do golpe.

Fora extremamente rápido.

A magia que continha naquela “invisível” partícula de Ki não foi a remoção sensorial, sabendo da força do seu inimigo por usar Aurae, era óbvio que também poderia usar o sexto-sentido do Ki, então retirar seus cinco sentidos era inútil.

O que foi usado uma versão mais fraca do Julgamento dos dragões de Órion.

No total leva 15 segundos para os átomos serem apagados e o usuário da técnica não pode mais usar magia pelo resto do dia.

Os segundos se passaram e o adversário “sumiu” como se jamais tivesse existido.

E como tal os 89%..A luta acabou no primeiro movimento.

Teria sido uma dupla-morte se ela não tivesse agido antes e impedisse o golpe que recebeu de ser fatal, pois deveria ser morto naquele impacto, porém, uma barreira protetora o salvou do pior.

Ainda estava encostado a pedra, o golpe foi pesado e mal conseguia ficar em pé sendo difícil de respirar.

Sorriu irritado, esta jornada realmente começou muito mal.

Olhou para frente, e mesmo que fosse complicado enxergar pela visão turva, fora capaz de ver Lumia se aproximando.

Parou a poucos metros e começou a recitar uma magia.

“O que ela…”

“Regrade.”

“!”

Arregalou os olhos.

A dor sumiu e ficou em pé olhando seu corpo.

“O que diabos…”

É a magia de cura mais poderosa que existe.

Ao qual simplesmente volta o corpo do individuo no tempo curando qualquer tipo de ferida física tal como anormalidades corporais que atrapalhem o funcionamento natural do corpo, sejam maldições, venenos, perca de memória, qualquer coisa não natural irá ser automaticamente expulsa.

Kai ficou surpreso.

“Por que usou uma magia de tão alto nível sabendo que o selo fica instável?”

“Ora, não é claro?Eu não vou te carregar por ae não!”

“Ah..”

Deu uma risada fechando os olhos.

Foi um bom ponto.

Mas…Algo chamou a sua atenção.

Por que nada aconteceu agora?

A Regrade é Rank-S.

Devia trazer alguma conseqüência por menor que seja.

Isso o fez lembrar quando se encontrou com Destroyer apenas alguns minutos atrás, realmente ficou com medo e intimidado por ser tão do nada, mas ao mesmo tempo…Não é como se sentiu intenções ruins ou perigosas daquele Dragão.

Era um assunto estranho e que não conseguiria respostas agora.

Apenas tinham que continuar indo até Ballas.

Até por que…É um fato.

Toda lenda possui erros e más interpretações, não é simples descobrir até onde começa a realidade e ficção em uma.

Logo…Foram para a estrada e caminharam dando inicio a jornada.

—–

“EU JÁ SEI, PAI!”

“Só estou aqui para lembrá-la, não ache que vou permitir que se esqueça.”

“COMO ACHA QUE POSSO ESQUECER ISSO???”

“Ho?Como eu vou saber?Não posso ler a sua mente.”

Adeko está todo dia, toda hora, todo minuto lembrando sua filha que terá que ir para Ballas se encontrar com Daichi ainda nesta semana.

Já está ficando irritada.

Suspirou e olhou para a direita na direção da janela.

Por que seu coração bate tão rápido quando pensa sobre isso?

PARAGOBALA – CAPÍTULO 21 – ATAQUE AO BEZERRO

CAPÍTULO 21 – Ataque ao Bezerro

 

Antônio ainda estava de boca aberta, processando tudo o que os seus subordinados contaram sobre a perseguição liderada pelo promotor Vincent. Em sua longa carreira, nunca uma história parecida tinha chegado a ele. Depois de longos momentos de silêncios, ele levantou da cadeira, e comunicou com energia para os policiais a sua frente:

 

– Amanhã atacamos o Bezerro. Façam os preparativos.

 

***

 

Um policial a paisana olhava para o seu relógio à espera do horário combinado: 7:15 da manhã. Estava dentro de um boteco na periferia da cidade, na região do refúgio de Bezerro. Já havia combinado tudo com alguns bandidos locais. Assaltariam o local, atacariam o dono e fugiriam. Ele pegaria sua arma e logo tudo descabaria para uma troca generalizada de tiros e por fim toda a polícia chegaria e invadiria tudo.

 

Na delegacia, os policiais se preparavam para o ataque. Alguns levavam armamento para os veículos, enquanto outros checavam equipamento e terminavam de vestir os seus coletes a prova de bala, entre eles Antônio, que fazia questão de participar dessa operação. Às 7:17, o telefone tocou. Antonio atendeu:

 

– É da Policia!? Eu acabei de ser assaltado, bateram em mim, levaram um monte de coisa e..

– Fique calmo, nós já vamos até aí, passe o endereço.

 

E logo todos os veículos dispararam para o local.

 

***

 

Bal estava deitado, de olhos abertos. Não havia conseguido dormir. Italiano não tinha lhe ligado, e ele não fazia ideia do paradeiro de Índio. Tinha confiança no seu companheiro, porém sua mente não o deixava quieto, e durante aquela madrugada já tinha pensando literalmente em mais de 20 possibilidades diferentes, grande parte delas com um desfecho trágico para sí. Bal tinha consideração pelo seu grupo, e principalmente pela sua causa, mas naquele momento, a única coisa em que conseguia pensar era de como aquilo iria acabar para ele. Se tratava de um instinto básico: sobrevivência.

 

Durante a noite, por várias vezes levantou e bebeu um pouco de cerveja. Desde a fatídica noite em que desvirginou Clara, havia largado a tola ideia de abandonar a bebida. Seu relacionamento havia estremecido, e ele mesmo tinha pouca vontade de entrar em contato com a sua namorada. Não tinha grande atração ou admiração por ela. Seu projeto havia fracassado. A convivência com ela, definitivamente, não havia lhe tornado um homem melhor. “Eu sou podre…e tenho que simplesmente aceitar isso. O melhor é eu me afastar das pessoas que tem algo de bom. E voltar a me aproximar das pessoas que tem tudo de ruim”.

 

Se revirou por mais algum tempo e finalmente desistiu de tentar dormir e se levantou para se aprontar para o trabalho. Ao menos ali conseguiria distrair um pouco a sua acelerada mente.

 

Quando já terminava de fazer os seus afazeres no banheiro, só com uma toalha presa na cintura, sua campainha tocou. Estranhou aquilo e foi com desconfiança até a porta. Viu pelo olho mágico que quem estava lá era sua mais nova vizinha: Rosemere. Deu um pequeno sorriso de canto de boca e resolveu atender a porta assim mesmo.

 

– Bom dia – falou prontamente.

 

Rosemere ficou encabulada por alguns instantes, e Bal conteve o sorriso. “Ela está chocada com o meu físico” imaginou.

 

– Bom dia, vizinho…desculpe te incomodar, é que eu percebi que estou sem nada de sal em casa…poderia pegar um pouquinho emprestado?

 

– Claro! Pode entrar – e deu passagem a vizinha, aproveitando para conferir o seu traseiro. Não se incomode com a bagunça, eu não estava esperando visitas – e riu ao terminar de falar. A cozinha é por aqui.

 

Bal abriu o armário e pegou um pote com sal. Em seguida encheu um copo com o pó e entregou a ela.

 

– Tenho bastante por aqui, pode ficar com isso. Agora me diga, vai preparar o que para comer com esse sal?

– Ah, isso é segredo. Quem sabe um dia você prova lá em casa? – disse com um sorrisinho

– Hmm…mal posso esperar para conhecer suas habilidades…culinárias.

 

Eles se despediram e Bal ficou parado olhando a porta. Já não pensava nas suas preocupações e tinha preenchido sua mente com outra coisa: aquela mulher sensual e misteriosa. Se sentia um caçador outra vez, e sua presa era ela.

 

***

 

– Avise a todos os homens para subirem a ladeira! Vamos montar um certo daqui – gritou Schneider pelo rádio.

 

A polícia estava avançando e derrubando os não tão numerosos homens de Bezerro. Os que ainda lutavam não tinham um bom treinamento e muito menos lealdade para se sacrificar. Vários se rendiam facilmente. A polícia anunciava que qualquer homem que largasse a sua arma e abrisse passagem, não sofreria retaliações.

 

– Malditos! Estão se entregando para a polícia sem nem mesmo oferecer resistência. Logo eles estarão aqui – disse para Bezerro.

– Esses filhos da puta não vão chegar aqui! – e pegou um fuzil e foi para o lado de fora do prédio, em uma espécie de sacada, e começou a atirar de lá.

– Pare, é inútil! Eu já fiz testes, e o tiro só chega até aquele ponto – e apontou para um trecho da rua, que os policiais ainda estavam longe.

– Que se foda! Isso vai intimida-los, huehuehue!

 

Schneider balançou a cabeça e não falou nada. Então ouviu mais tiros do seu outro lado, e agora quem atirava era Vândalo, que forçava uma gargalhada. Schneider, com raiva, foi até lá e segurou com força o braço de Vândalo.

 

– Mas que merda você está fazendo! Não ouviu o que eu falei???

– Eu…eu estou intimidando eles também!

– Pare de atirar agora! E poupe essas balas, a coisa vai ficar feia para o nosso lado.

 

Depois entrou na sala e na frente de um mapa e com um rádio na mão, começou a planejar a defesa.

 

A policia continuava avançando, e Antônio estava na retaguarda. Apenas entrava em um território após ele ter sido dominado pelos seus homens. Até agora, a operação era um sucesso. Nenhuma baixa, e os bandidos largavam suas armas ao menor sinal de aproximação da polícia. Para ele, não era interessante um grande número de mortes. Não queria publicidade, e desejava que o próximo chefe do crime tivesse mão de obra para lucrar mais. Dessa vez sua fatia seria gorda.

 

Rodnei chegou ao seu lado e falou:

 

– Já sabemos em que prédio ele está. O caminho até lá não vai ser muito difícil. Podemos enviar um rádio e tentar negociar uma rendição.

– Esse filho da puta vai morrer hoje! – gritou Antonio. Mas podemos enganar esse trouxa. Façam chegar um rádio até lá. Logo Rodnei fez um sinal e um garoto saiu correndo de dentro de um barraco em sua direção.

 

Não muito tempo depois, um jovem chegou correndo até Schneider com um rádio na mão.

 

– Os poliça querem falar com vocês.

 

Schneider pegou o rádio, mas imediatamente Bezerro entrou na sala, jogando um balde de água fria em sua expectativa que seu chefe não tivesse ouvido o garoto:

 

– Que porra é essa aí?

– A polícia, quer conversar. Vou estabelecer contato.

 

Schneider ligou o rádio e disse brevemente:

 

– Estamos ouvindo.

– Os termos são o seguinte: rendição total e ninguém morre. Saiam daí com as mãos na cabeça. Dou 20 minutos para decidirem.

 

Bezerro pegou o rádio da mão de Schneider e falou:

Heuheuheuhe, se render é o caralho! Venham buscar minha cabeça, seus merdas. Vocês vão morrer tudo! To esperando pode vir.

 

Em seguida ele jogou o aparelho no chão e deu um tiro.

 

Vândalo, que escutava a conversa atrás da porta, entrou na sala e falou:

 

– Nós…vamos morrer?

 

Bezerro foi até ele, e lhe aplicou um tabefe no rosto.

 

– Seu frouxo! Viado! Foda-se se vamos morrer, vira homem! Nós vamos matar policial hoje, isso sim!

 

Schneider nada disse, e foi até a sacada, observando que os policias agora entravam na zona de tiro. Além de Bezerro e Vândalo, alguns outros homens se juntaram a eles e se preparam para atirar.

 

– Atirem ao meu sinal! – gritou Schneider.

 

Todos, e desta vez inclusive Bezerro, esperaram pacientemente, e quando Schneider deu sinal positivo, começaram a atirar.

 

Os policiais foram pegos de surpresa, e rapidamente começaram a revidar. Para os atiradores do alto, era muito mais fácil de mirar e atirar. Estavam em uma posição melhor e mais protegidos. Schneider já havia derrubado dois homens, mas sabia que não era uma posição sustentável. Tinham poucos homens e armas, e a polícia logo traria escudos e subiria por entre a favela até lá.

 

Aos poucos os policiais foram revidando com maior qualidade e quantidade, a ponto de Vândalo, Schneider e Bezerro entrarem na sala, deixando do lado de fora os soldados rasos para atirar de volta e consequentemente, morrerem.

 

– Eu sei o que esses filhos da puta querem! Eles querem a porra do meu dinheiro! – urrou Bezerro e saiu do cômodo, para voltar logo depois com uma garrafa com uma pinga.

– Eu não vou deixar! – foi até o cofre e começou a digitar a sequência para abri-lo.

– Vou queimar a porra toda huehuehuehue. Não vão ter nada!!!

 

BANG!

 

E Bezerro caiu morto com um tiro na nuca.

 

Schneider segurava a arma, com frieza. Vândalo o olhou assustado, e largou sua arma quando Schneider apontou a pistola em sua direção.

 

– De joelhos, mãos na cabeça e fique quietinho.

– Por favor não me mata, não me mata.

– Cala a bola, fica quieto.

– Eu eu não gostava do Bezerro também.

– Cala sua boca filho da puta! Se falar outra vez morre.

 

Vândalo se calou. Schneider foi até o corpo de Bezerro, e o tirou de perto do cofre.

 

– Coloca suas duas mãos nas orelhas, agora – disse a Vândalo, que prontamente atendeu.

 

Schneider colocou um joelho no chão, e pegou um celular de dentro da jaqueta. Vândalo estranhou aquela postura estranha. Parecia que ele estava se ajoelhando a alguém, como um lorde inglês ganhando um título de cavaleiro. Mas não havia ninguém lá além dos dois. Mantinha as mãos nas orelhas, mas não exerceu tanta pressão, de modo que conseguiu ouvir a o que Schneider falava ao telefone.

 

– Papa, meu senhor, tenho notícias e busco orientação.

– Tive que matar Bezerro. Ele ia queimar todo o nosso dinheiro.

– Estamos cercados pela polícia, mas consigo fugir daqui com o dinheiro.

– Tem mais um homem aqui, o que faço com ele?

 

Nesse momento, Schneider olhou Vândalo, que instintivamente forçou as mãos nos ouvidos e não conseguiu ouvir mais nada.

 

Schneider desligou o telefone, e caminhou lentamente em direção a Vandalo, parando a poucos metros.

 

“Meu deus, ele está vindo pra cá, eu aqui de joelhos…esse filho da puta vai pedir um boquete em troca da minha vida! Merda! Filho da puta!!! Não sou viado…! Mas…quem faz boquete para não morrer não é viado né? Isso é sobrevivência! Quero viver. E pelo menos ele é loiro e de pele clara, tem olho azul! Podia ser pior! Não sou viado! Pode vir filho da puta.”

 

Schneider deu mais alguns passos, e Vândalo moveu lentamente as mãos em direção ao cinto de Schneider, que prontamente empurrou a arma na testa de Vândalo:

 

– Que porra é essa! Mãos na cabeça!

 

Vândalo, confuso, seguiu a instrução.

 

– Preste muita atenção agora. Sua vida como era antes acabou. Agora você tem duas opções. Levante as duas mãos, palmas para cima, e jure fidelidade a Draku ou morra.

 

***

 

Vincent havia passado o dia inteiro enfurnado em casa, na frente de seu notebook. Salvou um arquivo, e levantou da cadeira, com expressão de alívio e com um sorriso no rosto; Foi até a janela e olhou a cidade. “Pensei que poderia fazer o que precisava aqui sem mudar muita coisa. Eu estava errado. Amanhã é um novo começo para a polícia de Paragominas.”

Voltou ao seu computador, abriu um e-mail e digitou uma mensagem. Anexou um arquivo e enviou. Em seguida fechou o aparelho, e com a ajuda a de uma faca de cozinha, começou a abri-lo. Levou algumas partes para o micro-ondas, e o resto ele terminou de arrebentar com a faca.

Eraba Remashita (Volume 1: Capítulo 4)

Capítulo 4

 

Vir a um mundo como esse, explorá-lo, conhecer diversos seres e criaturas… são coisas que só se passavam na minha imaginação, mas sabendo que há algo a fazer, não posso ficar apenas andando por aí sem rumo.

 

A visão começa a se encaixar

 

– Ake-chan, por acaso está acontecendo alguma guerra nesse mundo?

 

– Bom… guerra eu não digo, mas após o Rei Neheb assumir o trono do reino das espadas, os guerreiros de lá foram ordenados a atacar os outros reinos. O Rei parece estar querendo tomar tudo para ele e seus seguidores.

 

– Entendo… Isso é péssimo. – Ok. Provavelmente isso que desencadeará a guerra que terei que impedir. Facinho, quem sabe saio dessa vivo…

 

– Mas Caed, você deveria saber disso, certo? Afinal veio do primeiro reino.

 

– Errr… A verdade, é que eu saí de lá faz um bom tempo para conhecer outros lugares. Só foi eu sair que tudo desandou, que coisa né haha.

 

– Acho que se você ficasse lá, ia dar na mesma cof cof. De qualquer forma, esses ataques do primeiro reino podem causar uma verdadeira guerra. Aqui no centro comercial mesmo, os guerreiros passaram a ser evitados e muitas brigas já ocorreram. Vocês devem tomar cuidado.

 

– Tomaremos sim, pode deixar! Aliás Ake-chan, por acaso você teria um mapa com a localização dos 5 reinos para nos dar?

 

– Tenho sim. Muitos viajantes por aqui pedem por isso pois seria um grande problema se entrassem no território de um reino diferente ao qual pertencem, então esse é de graça pra vocês – disse ela enquanto pegava o mapa.

 

– Muuuito obrigado. Enfim, é só isso que precisamos por enquanto. Acho que nos despedimos aqui Ake-chan – queria conhecê-la mais.

 

– Que isso, eu que agradeço. Se cuidem vocês dois e voltem sempre que precisarem tá bom.

 

– Claro, na próxima talvez possamos nos conhecer melhor, certo?

 

Nesse momento, Kanisa me deu um chute e me puxou para fora da casa. Nem pude ouvir a resposta da Akemi, mas provavelmente ela deve ter me chamado pra sair ou algo do tipo.

 

– Tchau, Akemi – disse Kanisa e em seguida fechou a porta.

 

– Qual é o seu problema? Isso doeu. – Ainda mais porque Kanisa desde pequena praticou artes marciais, então ela podia facilmente me quebrar.

 

– Como você mesmo disse, estamos aqui para cumprir uma missão, então você não deve ficar perdendo tempo paquerando, ainda mais quando a garota é muita areia pro seu caminhãozinho, não acha?

 

– Ah, já sei!

 

– Já sabe o que idiota?

 

– Você está tendo o sentimento de medo de perder, para outrem, o afeto da pessoa amada. Resumindo, tu tá com ciúmes.

 

– Me desculpe, mas eu não sinto isso por lixo – disse ela com um sorriso assustador. Foi tipo levar um tapa na cara.

 

– Eu estava só brincando, por que está tão bravinha hoje?

 

Fui ignorado…

 

Estávamos andando pelo centro comercial enquanto conversávamos e eu nem havia percebido o que estava acontecendo. Todos nos olhavam de uma forma estranha, provavelmente por eu estar carregando uma espada. Por isso Akemi pediu para termos cuidado.

 

– Sei que você está brava, mas vamos sair logo daqui. É só um palpite, mas acho que não somos bem vindos.

 

– Nossa, mas se você está com medo de comerciantes, como pretende parar uma guerra? Você não tem os poderes de um Deus? – Kanisa, codinome sarcasmo.

 

– Vem logo e para de tagarelar.

 

Tive que puxá-la pelo braço pois não ia demorar muito para a situação piorar.

 

Saímos e andamos até a pedra que usamos para nos esconder antes de entrar no vilarejo, e em cima da pedra abri o mapa.

 

– Por acaso você tem alguma ideia de por onde começar essa “missão”, Caed?

 

– Eu quero ir até o primeiro reino. Se pudermos de alguma forma convencer o Rei a parar os ataques, podemos impedir a guerra antes mesmo dela começar.

 

– Nossa. E não é que você tem mesmo um plano. Como esperado de alguém que sempre tirou boas notas mesmo sendo um vagabundo nato.

 

– Vindo de você, vou considerar isso um elogio.

 

Voltei minha atenção para o mapa e ela fez o mesmo. Para nossa sorte, o primeiro e o quinto reinos, eram os mais pertos, eu imaginava que seria o contrário. Os cinco reinos formavam juntos um círculo em ordem crescente no sentido horário, o que explicava essa proximidade.

 

O dia nesse mundo parecia durar bem mais do que na Terra, mas exatamente por não saber o tempo que demoraria para escurecer, decidi que era melhor partir imediatamente.

 

– Vamos Kanisa, parece finalmente estar baixando o segundo sol, é melhor que cheguemos antes que escureça de vez.

 

– Sim. Espero que sejamos bem recebidos lá, fiquei com bastante medo quando todos começaram a nos olhar no centro comercial daquela forma odiosa. – Bipolaridade ataca, Kanisa modo garota frágil.

 

– Não parecia, você só queria saber de brigar comigo.

 

– Eu estava tentando me distrair por causa do medo e você nem percebeu isso. Você deveria ser mais gentil.

 

– Meu Deus, eu desisto! – Será que esses poderes vem acompanhados de um pacote de ajuda psicológica?

 

Apesar de o reino das espadas ser o mais próximo, ainda havia um bom caminho para percorrer e cada vez mais a escuridão tomava conta do céu. Enquanto andávamos Kanisa cantarolava e com isso eu apenas me perdi em meus pensamentos.

 

Erictónio maldito, nem pra me dar uma ajuda sobre o que fazer. Preciso mudar a opinião do Rei sobre os ataques, mas não sei como, preciso de dinheiro desse mundo, mas não tenho, sem contar que ainda tenho que aprender a usar esses poderes. Droga! – Toda minha animação ao chegar, cada vez mais se esvaía.

 

“Ano koro mitai nitte modoritai wake janai no nakushite kita sora wo sagashiteru”.

 

– O que você está cantando?

 

– É a música de um anime – bipolaridade, Kanisa modo despreocupada.

 

– Como consegue estar tão alegre? Corrigindo, como sua personalidade muda tão rápido?

 

– Porque será né… Caed, olha, olha. Acho que chegamos.

 

Depois de cerca de 30 minutos andando, chegamos ao primeiro reino e era totalmente diferente do centro comercial. Diversas casas grandes e bem construídas, um enorme castelo ao fundo cercado por muros, um verdadeiro reino, assim como os que haviam na Terra antigamente.

 

Nos aproximamos para entrar e logo avistamos dois guardas na entrada. Eles nos barraram imediatamente.

 

– Identifiquem-se – disse um deles.

 

– Meu nome é Caed e essa é minha esposa Kanisa, somos plebeus provenientes do quinto reino e queremos nos tornar guerreiros para lutar pelo rei.

 

– …Hmm, ok. Podem passar. Ao amanhecer, vocês devem ir ao castelo e se identificar. Lá serão instruídos sobre o que devem fazer. Não ousem deixar de fazer isso de forma alguma, entendido. Do contrário serão capturados e punidos.

 

– Pode deixar, assim que acordarmos será a primeira coisa que faremos. Aliás, vocês podem me ajudar? Eu gostaria de saber onde podemos arrumar dinheiro e passar a noite por aqui.

 

– Ah, claro. Há um bar aqui perto, é só seguirem reto e passarão por ele. Lá há quartos e se vocês ajudarem o dono até que o bar feche, poderão passar a noite. Já o dinheiro conseguirão assim que entrarem para o exército, como todos no reino.

 

– Fico agradecido, nobre guerreiro.

 

Seguimos em frente andando até que, quando os guardas sumiram de vista:

 

– E-e-esposa? – Kanisa parou, completamente envergonhada pelo o que eu tinha falado.

 

– Desculpa, era a forma mais rápida de enganá-los. Foi apenas para isso, não precisa se iludir.

 

– V-você diz isso mas foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça né. De qualquer forma, pode ficar tranquilo – disse ela colocando a mão em meu ombro – eu te rejeitaria!

 

Engraçado ela dizendo isso enquanto ainda está vermelha.

 

– …

 

Continuamos andando, olhando um pra cada lado até chegarmos ao bar que o guarda havia mencionado. Para minha surpresa, todos, até os que estavam trabalhando lá, portavam suas espadas.

 

– Vão querer o que? Cachaça ou cerveja? – disse, assim que nos viu, o rapaz no balcão do bar.

 

– Cerveja sempre… Q-quero dizer, estamos aqui pois acabamos de vir para esse reino e precisamos um lugar para passar a noite. Um guarda me disse que se nós ajudássemos nesse bar poderíamos dormir aqui. É verdade? – Um sorriso meio de vergonha tomou conta do meu rosto.

 

– Ora! Claro. Esse bar está aqui exatamente para ajudar e ser ponto de encontro para aqueles que acabam de chegar ao primeiro reino – disse ele dando tapas em minhas costas – Garota, como você é bonita, sirva os clientes e você garoto, pode ir lavar os pratos e copos.

 

Droga, preferia servir que lavar, eu também sou bonito, atrairia muitas garotas para o bar. Quanto mal gosto…

 

– Claro chefe! ohoho – disse Kanisa rindo de mim.

 

– Aliás, podem me chamar de Ryou.

 

– Prazer, Ryou-san. Eu sou Caed e essa é Kanisa. Obrigado por nos receber – fiz uma pequena reverência.

 

– Eu que agradeço, estávamos com falta de pessoal. De qualquer forma, mãos à obra por que clientes não se servem sozinhos.

 

Então eu e Kanisa começamos a fazer cada um sua parte. Lavar era uma droga, mas por outro lado, trabalhar ali foi de grande ajuda não só por ter conseguido um lugar para dormir, mas também pelo que os clientes conversavam. Falaram sobre as atividades recentes do reino o tempo todo.

 

Pelo que escutei, os ataques se baseavam numa espécie de ditadura, pois eles queriam mandar em todos os outros reinos. Além disso, queriam obter a magia do segundo reino e os objetos preciosos do terceiro.

 

– “A partir de amanhã irei para o bloqueio” – disse um dos clientes após comentar sobre uma muralha que foi construída para cercar o quarto reino e impedir qualquer contato dos seres que viviam lá, com o lado de fora. Provavelmente por ser um lugar onde há diversos monstros, segundo o que Ake-chan disse.

 

Esses foram alguns dos assuntos que escutei enquanto lavava a louça e, após cerca de uma hora trabalhando, o bar começou a esvaziar até que, em pouco tempo, só sobrou eu, Ryou-san, Kanisa e outra garota.

 

– Kanisa, Caed, bom trabalho. Se puderem, espero contar com vocês mais vezes. Bom, vocês devem estar exaustos. Yuna, você pode leva-los até o quarto? – disse Ryou-san.

 

Kanisa realmente parecia acabada, então ela apenas acenou com a cabeça e começou a seguir para o quarto.

 

Acho que ter diversas pessoas dando em cima dela por tanto tempo foi realmente exaustivo. Tem cego pra tudo.

 

– Sim, papai.

 

Espera aí, agora percebi uma coisa. A filha do Ryou-san… é muito linda. Bom trabalho Ryou-san. Esse pequeno corpo, esses olhos e o cabelo grande… é a primeira loli que vejo nesse mundo. Desculpe-me Ryou-san, mas já me decidi!

 

– Yuna-chan, ainda não me apresentei. Prazer, meu nome é Caed. Dezesseis anos. Profissional lavando pratos.

 

– Caed? Nome estranho hahaha.

 

– Sério que do que eu falei, o estranho foi meu nome? – Eu ficaria abatido após isso, maaas… ela sorriu e isso é um sinal. Meu nome incomum, valeu a pena.

 

– A apresentação até que foi engraçada, irei aderir haha. Yuna. Quatorze anos. Sua chefe.

 

– Minha chefe… me sinto inferior.

 

A boa notícia é que a diferença de idade é pequena, não cometerei um crime.

 

– Um dia você chegará ao meu nível – disse ela enquanto abria uma porta – Bom, esse é o quarto de vocês, melhor descansarem. Sua namorada parece realmente exausta, ela não disse nada no caminho. – Namorada… E com esse mal entendido minhas chances se acabaram – Boa noite.

 

– Kanisa, você é um verdadeiro repelente de garotas.

 

Apesar de ter falado com ela, Kanisa parecia não ter me ouvido, estava dormindo em pé. Pelo menos não impediu minha conversa.

 

Entrei no quarto, foi um dia realmente cansativo, então eu também precisava muito descansar, mas ainda havia um problema.

 

– UMA CAMA?! Impossível.

 

– Você… dorme… no chão. Se quiser… dormir em cama, peça para a… “Yuna-chan” – disse Kanisa enquanto bocejava e já se deitava.

 

– QUEEEE?!! PORQUEE?

 

– Estou cansada… para discutir, mas não surda… Aliás… se não perdesse seu… tempo cantando garotas, eu não… me importaria que você dormisse… na cama também. Boa noite, espero… que você… fique com dor nas costas – disse ela e logo em seguida dormiu.

 

Droga! Kanisa me tortura até com sono. Eu não devia ter feito aquilo perto dela só porque parecia estar sonolenta. Pelo menos estou cansado, então durmo em qualquer lugar, sem problemas. Uaaaah… – Após alguns minutos, dormi.

 

— — —

 

Acordei com a claridade da manhã e fui direto para o banheiro lavar o rosto. Minhas costas realmente amanheceram doendo, mas dando sequência a maré de azar…

 

– Kyaaaa!!! – Assim que entrei no banheiro, ainda meio sonolento, escutei um grito e logo em seguida levei uma pancada em meu rosto que me fez cair no chão. Quando me dei conta, percebi que Kanisa estava lá e ainda por cima, se trocando.

 

– Cresceram… – Fiquei paralisado por um instante.

 

– S-s-sai logo daquiii!! – ela finalizou com um chute, me jogando para fora do banheiro.

 

Por quê isso sempre acontece comigo? Não que tenha sido de todo ruim, mas ela vai ficar de mal humor de novo…

 

Após alguns minutos, Kanisa saiu do banheiro usando o rodo para me fazer manter distância e desceu para o bar sem dizer uma palavra sequer. Aproveitei para me aprontar também e logo em seguida saí para descer também.

 

POW!!

 

– Aaai! – Bati a cabeça em algo no meio do caminho – Hoje não é meu dia.

 

– Você está bem? – disse Yuna-chan.

 

Assim que olhei pra ela, minha cabeça começou a girar e a mesma visão que eu havia tido antes de me teletransportar, novamente veio à minha cabeça. Foi aí que percebi: a jovem garota que apareceu em minha cabeça junto às imagens do mundo, era a Yuna-chan.

Anúncio de nova obra no ItadakiNovel!

Caros leitores e autores,

 

é com muito prazer que anunciamos uma nova obra a ser publicada aqui no nosso espaço. Trata-se do segundo volume de “Habitantes do Cosmos – Artemísia”. Habitantes do Cosmos é uma obra de autoria de Francélia Pereira e conta a história de uma distopia na qual a humanidade se espalhou pelo Sistema Solar e cuja essência é enormemente influenciada pela mitologia de diversos povos antigos.

“Habitantes do Cosmos” é uma série com volumes independentes e nós, do ItadakiNovel, publicaremos o segundo volume “Habitantes do Cosmos – Artemísia”. O primeiro volume pode ser encontrado no site da loja virtual da Editora Multifoco através deste link e por ainda estar sob contrato, a autora infelizmente não pode nos disponibilizar.

A série será publicada – muito – em breve e contamos com o apoio e a leitura de todos! Uma obra que trata de temas bastante recorrentes na sociedade atual além de fantasia na medida certa, “Habitantes do Cosmos – Artemísia” tem tudo pra ser uma obra apreciada por todos que a lerem!

 

Atenciosamente,

Remy

O lugar certo para quem gosta de contar histórias!