Kami no Sensou – Jacinto Roxo (Volume 6: Capítulo 4)

Diante dos olhos negros de Kuroshi, um lugar muito familiar se mostrava. Céu vermelho, solo vermelho escuro, quase preto, nenhum sinal de vida seja humana, animal ou vegetal. Uma gigantesca lua escarlate iluminava tudo.

Não haver sinais de vida não significa que não havia nada ali… Muito pelo contrário, em todas as direções que se olhava, corpos humanos sem vida ocupavam espaço no solo morto. Não era uma cena inédita para Kuroshi, mas ver aquilo o encheu de repulsa e vontade de vomitar. Talvez pelos corpos estarem completamente negros, quase como sombras ou como se tivessem acabado de sair de dentro do solo, ele conseguiu resistir.

Ele não estava perdido, ou sem saber o que fazer, essa era uma situação pela qual ele já passou inúmeras vezes no passado, embora que ainda com algumas diferenças.

Kuroshi foi caminhando adiante, evitando pisar nos corpos ou sequer olhar para eles.

É como meus antigos sonhos… Só que…

Sim. Seus sonhos eram totalmente padronizados, sempre se repetindo da mesma forma com apenas uma mudança ou outra. Isso é, até o momento da “morte” de Seira chegar. Naquele dia, seu sonho foi diferente. Dessa vez este sonho também está sendo diferente de todos os outros, ele pode se mover, ele pode agir livremente. Não há Hades, nem a morte de—

“…!”

Após caminhar por um tempo, Kuroshi viu uma pessoa na sua frente. Ela estava de costas pra ele, mas reconhece-la era a coisa mais fácil do mundo.

Kurona—!

Kurona estava com as mãos nas costas, olhando para a lua escarlate.

A forte luz vermelha atingindo a garota que poderia ser denominada como uma bela flor negra combinava perfeitamente. Como se ela pertencesse a aquele mundo—Não, como se aquele mundo pertencesse a ela.

Ela olhou para trás, como se já soubesse que Kuroshi estava ali.

Isso é um sonho? Ou é real?

Enquanto tentava controlar sua mente em confusão, Kuroshi começou a andar em direção a ela. Só havia um problema… A partir do momento em que os olhos dos dois se cruzaram, os movimentos de Kuroshi aconteciam contra a vontade dele. Cada passo que ele dava não era feito porque ele queria, era como se seu corpo estivesse sendo controlado por uma força maior. Logo, sua espada de sempre surgiu nas suas mãos.

Espere… Espere! Esper—

Os dois ficaram há um metro de distância um do outro. Kuroshi se preparou para perfurar diretamente o coração da garota diante dele, e o que aconteceu depois—

 

 

Kuroshi abriu os olhos.

Ele estava deitado na sua cama, o dia já estava amanhecendo.

Não é como se a volta desses sonhos fosse algo bom ou tolerável, mas Kuroshi acordou bem. Sem gritar, sem suar, sem angústia e sem ver ninguém sendo morto. Ele se sentia relaxado e nostálgico.

Ao se sentar na cama, ele aproveitou por alguns segundos o ótimo perfume que havia no quarto.

Logo em seguida, ele se dirigiu até o banheiro e se olhou no espelho. Talvez ele tenha tido alguma esperança de que seus olhos não estariam naquele forte tom escarlate. Seria um pensamento em vão, no entanto, já que as coisas continuavam as mesmas.

Depois da conversa que ele teve com Axel ontem, sua mente ficou tão pesada que não demorou muito para ele cair no sono. Talvez ele tenha dormido até rápido demais, já que ele mal se lembra do que aconteceu após ter voltado para seu quarto. Mas uma boa noite de sono é sempre essencial, já que ele acordou bem mais leve.

“… Preciso resolver essa situação de uma vez por todas.”

Conseguindo a calma necessária para dar um passo adiante, Kuroshi decidiu começar a agir.

Sem perder muito tempo, ele tomou banho, se arrumou e saiu do quarto.

Ainda era bem cedo, por isso, os corredores do dormitório estavam vazios, silenciosos e um tanto quanto desnecessariamente escuros.

Era um cenário um pouco assustador, mas não tanto quanto lutar contra alguém mais perigoso que uma bomba atômica. Por isso, Kuroshi continuou seu caminho rotineiro normalmente.

Andando e andando em um corredor que parecia interminável, Kuroshi começou a sentir uma sensação estranha e parou de andar.

“…”

Era como se alguém o observasse.

Aquela pressão invisível era altamente desconfortável.

“…!”

Subitamente, Kuroshi se virou, tentando ver se havia alguém atrás dele. Mas nada havia ali.

Estou ficando paranoico ou…

“?!”

Ao se virar para frente novamente, ele deu de cara com um homem. O susto o fez saltar cinco metros para trás. Mas logo após essa ação, ele percebeu que não havia mais ninguém lá. Com o nascer do sol, os corredores ficaram mais claros.

Ele só se lembra de ter visto alguém desconhecido, de cabelos roxos. Foram as únicas coisas que aquela fração de segundo permitiu sua memória gravar.

Eu…

O que diabos está acontecendo comigo?

Quando isso se tornou uma história de terror psicológico?!

Droga!

Eu preciso—

“O que houve, Kuroshi?”

Com um forte toque no ombro, Kuroshi foi trazido a realidade novamente e ao olhar para trás, lá estava um amigo bem recente seu, Masaya.

“Masaya? O que…”

“Ryoka-chan me pediu para buscá-lo. Ela queria fazer uma nova reunião…”

Entendo… Acho que entendo o rumo que isso está tomando…

Vendo a cara de desgosto de Kuroshi, Masaya arregalou os olhos, surpreso.

“Woah woah, achei que você gostasse das garotas, ao menos um pouco.”

“Eh?”

Dessa vez foi a vez de Kuroshi ficar surpreso.

“Do que está falando?”

Ele não percebeu?—Pensou Masaya por um momento.

“Não, é… Você parecia descontente com a ideia.”

Ele propositalmente usou a palavra ‘descontente’ para parecer menos grave.

“Uh…”

No entanto, pela reação (Ou falta dela) totalmente confusa de Kuroshi, ele percebeu que não foi proposital.

“Bem, esqueça isso. Nós vamos para um local diferente de qualquer forma.”

“Huh? Como assim?”

“Ao invés de fazer o que a Ryoka-chan me pediu, pensei em termos uma conversa a sós. O que me diz?”

Kuroshi não tinha ideia do que estava passando na cabeça de Masaya, mas ele era alguém de confiança. Talvez por causa da sua personalidade, ou pela sua história, mas Kuroshi sentia que ele era até mais confiável que a própria Ryoka.

“… Certo.”

Tendo a confirmação que queria, os dois se dirigiram até o terraço da escola.

Kuroshi já estava uniformizado, mas como Masaya não era mais um estudante do ensino médio, ele vestia roupas casuais como uma calça e uma jaqueta preta junto com uma camisa azul. Ele estava com as mãos no bolso, embora parecesse relaxado, o ar em volta dele era completamente o oposto disso.

“Tem certeza que irá ignorar o pedido de Ryoka?”

“Ela parece durona por fora, mas quando você a conhece mais de perto, percebe que não é tão complicado assim lidar com ela.”

“…”

A pergunta de Kuroshi não era realmente algo que ele estava preocupado. Ele estava mais preocupado com o que Masaya queria falar com ele, e por isso decidiu falar a primeira coisa que veio a sua mente. Uma atitude incoerente considerando que ele já havia aceitado vir até aqui para conversar de qualquer forma. Mas talvez ainda seja melhor do que ter uma reunião com as garotas, ele pensou.

“O que eu tenho a dizer é algo simples.”

Masaya olhou diretamente nos olhos de Kuroshi, ele estava totalmente sério. Por isso, Kuroshi nem sequer o interrompeu.

“Nos conhecemos há pouco tempo, mas sendo um grande amigo da Ryoka-chan, não hesitei em te dar um voto de confiança. Mas…”

O que Kuroshi ouviu em seguida o deixou perplexo.

“… Se você fizer algo que cause um impacto negativo muito forte, não só na Ryoka-chan, mas no [Partenon] em si, não hesitarei em te chutar para o planeta mais próximo.”

Não havia tom de brincadeira, nem exageros. Sem tirar nem por, Kuroshi acabou de ser ameaçado por um aliado.

“Eu não sei sua história ou suas circunstâncias, mas você é a principal causa das preocupações do nosso grupo atualmente. Você já soube sobre meu passado, então talvez já tenha alguma noção, mas eu não pretendo ter respeito por alguém que não é verdadeiro aos seus próprios sentimentos.”

“… Espere um momento!”

Claramente irritado por algo no discurso de Masaya, Kuroshi deu dois passos adiante e agarrou a camisa dele pela gola. Ele não tirou as mãos do bolso em nenhum momento.

“O que? Quer lutar contra mim? Não sou tão piedoso com quem faz a Ryoka sofrer, você pode perguntar ao Noah se duvidar.”

Nenhuma das palavras de Masaya foi dita com um sorriso no rosto, muito pelo contrário, Kuroshi sentiu uma pressão ao ouvir aquilo.

Aquele momento de reflexão deu a oportunidade para Kuroshi notar que, apesar das ameaças, Masaya está apenas protegendo o grupo.

Eu sou o vilão da história agora?!

Kuroshi soltou Masaya e recuou.

“… Eu me exaltei um pouco. Embora me chamar de falso logo após dizer que não sabe nada sobre mim tenha sido realmente insultante…”

O que está acontecendo comigo? Eu não deveria ser tão agressivo… Apesar da culpa ser dele também. Meus sentimentos são absolutamente verdadeiros, ao menos os que criei aqui.

“Hmph, lamento por isso, mas é o que eu acredito.”

O rosto de Kuroshi se contorceu ao ouvir a resposta dele, mas dessa vez ele respirou fundo e decidiu continuar a conversa.

“Você disse que lutou contra Noah? Não imaginei que você fosse tão violento…”

Por algum motivo, Kuroshi puxou outro assunto com um tom de provocação.

“Isso é óbvio. Ele não só fez a Ryoka-chan chorar ao matar a Sayaka-chan, como feriu a Ryoka-chan vencendo-a em um duelo. Eu tinha que despejar a raiva nele de alguma forma.”

Ele responder como se fosse a coisa mais natural do mundo pegou Kuroshi de surpresa, já que o mesmo esperava que ele caísse na provocação.

“E agora você está seguindo o mesmo caminho, para prejudicar o [Partenon] direta ou indiretamente, mesmo que não seja proposital.”

Novamente essas acusações…!

“… Já deu. Cansei disso.”

Kuroshi declarou, se virou e caminhou em direção a porta para voltar para dentro da escola. Masaya não fez nada para impedi-lo. No entanto, ao abrir a porta, Kuroshi parou e olhou para Masaya mais uma vez.

“Só mais uma coisa. Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

Para a pergunta de Kuroshi, um silêncio de alguns segundos. Segundos esses que pareceram uma eternidade.

“… Hah…”

Masaya suspirou, como se estivesse cansado.

“Isso importa? Eu sou eu independente da existência de uma influência externa ou interna. Diria até que essa influência pode nada mais ser que parte do nosso subconsciente. Querer justificar ações, desejos ou características suas colocando a culpa em algo sobrenatural não é nada mais nada menos que insegurança ou covardia.”

“…”

Kuroshi não respondeu nada. Apenas se virou e se retirou do local.

Masaya, agora sozinho, encostou-se à grade de proteção e olhou para o céu.

Sim… Você é você independente de qualquer coisa. O que você faz, o que você pensa, o que você sente, sempre será ‘você’. Mesmo que exista uma influência por trás disso, é irrelevante. Afinal, porque você saber disso e mudar a si mesmo também não seria parte dessa influência?

Você falhou em um dos princípios básicos, Kuroshi. Aceitar-se do jeito que você é.

 

 

Droga… Droga… Droga…!

Kuroshi caminhava rapidamente.

A discussão com Masaya claramente o afetou bastante.

Mais importante ainda, com as faíscas geradas pelos dois, uma reunião de grupo inevitavelmente trará problemas.

Nos corredores do dormitório, Kuroshi parou e se encostou à parede.

Não é culpa minha… Eu não fiz nada de errado… Sim. A culpa é toda do… Hades. Ele que está mexendo comigo e tentando colocar meus amigos contra mim…!

O que pode ser feito contra algo que está dentro de você?—Kuroshi pensou. Se o problema de tudo for Hades, a única solução seria—

Maldição… Não vou ganhar nada gastando minhas frustrações aqui…

Decidindo se mover, Kuroshi foi em direção ao seu quarto.

Mas ao abrir a porta, ele deu de cara com alguém que ele realmente não esperava ver dentro do quarto dele.

“… Seira…?”

 

A situação era a seguinte: Kuroshi estava sentado na sua cama, braços apoiados nas coxas e olhando para o chão. Seira estava próxima a ele explicando o motivo dela estar lá.

“… Então basicamente por estarmos demorando demais para aparecer, Ryoka pediu para você vir até aqui e a Julie até o parque onde eu estava no outro dia, enquanto ela espera para ver se eu apareço no lugar combinado.”

Não havia como ter certeza de onde Kuroshi estaria, então o melhor a se fazer seria dividir. Kuroshi reagiu de maneira estranha a informação, sua cabeça estava abaixada então não tinha como ver o seu rosto, mas Seira não se sentia bem-vinda ali.

“… Sim… Nós precisávamos fazer uma reunião para resolver melhor sua situação, Kuroshi…”

“Minha situação?”

“… Você sabe, você tem agido estranho ultimamente, então… Queremos te ajudar.”

Até você…?

“Vamos, Kuroshi. Quanto mais cedo resolvermos o seu problema, melhor, né?”

Seira esticou a mão para Kuroshi, mas…

Meu problema… Isso não é…

Um estalo ecoou pelo quarto. Kuroshi deu um tapa na mão de Seira.

“Eu não preciso da ajuda de vocês!”

E levantou o tom de voz.

Aquilo foi tão “fora de personagem” que Seira ficou completamente paralisada.

“… Uh… Eu…”

Ela segurou sua mão atingida na altura do seu peito.

“… Acho que você precisa pensar um pouco… Quando se acalmar, pode… Sempre nos procurar!”

Com dificuldades, Seira terminou de falar e imediatamente se virou e saiu correndo, saindo por onde veio, a janela. Kuroshi não sabe se foi impressão dele ou não, mas pareceu ter visto uma lágrima cair do rosto dela.

O silêncio tomou conta do quarto.

Kuroshi colocou a mão no rosto.

O que… O que diabos eu estou fazendo?

Seus amigos estão obviamente preocupados com ele. Eles querem ajudá-lo.

Para Kuroshi ser ajudado, eles primeiro precisam descobrir qual a fonte do problema. E para isso, Kuroshi precisa conversar com eles. Para uma pessoa ser ajudada, ela primeiro precisa ajudar a si mesma.

Quanto tempo havia passado? Kuroshi estava há horas sentado na mesma posição.

Dessa forma eu acabarei sozinho… Eu preciso ir até meus amigos e falar tudo que eu preciso dizer… Se continuar assim…

“Kuroshi? O que aconteceu?”

Sem nem sequer notar a familiar presença entrando no quarto, a voz de Kurona fez Kuroshi levantar a cabeça, surpreso.

Já são essas horas?!

Kurona sempre aparece no quarto em horários específicos.

“…”

“Kuroshi?”

Eu…

“Tem algo de errado comigo?”

Kuroshi perguntou, preocupado. Mas Kurona apenas entortou de leve a cabeça para o lado, confusa.

Ela então se aproximou dele e colocou suas mãos nas bochechas de Kuroshi, logo em seguida se aproximando do rosto dele até ficar a centímetros de distância.

Kuroshi estava surpreso, mas Kurona olhava seriamente para os olhos dele.

Após alguns segundos, ela se afastou e colocou as mãos na cintura.

“Não há absolutamente nada de errado com você!”

Isso é uma piada?! NADA de errado? Será que ela… Nem sequer nota mais as diferenças em mim…?

Ele ficou incrédulo, e logo em seguida confuso. Ela não comentar nem sobre a cor dos seus olhos era um sinal de que ela nem sequer olha para ele direito… Ou ao menos era o que se passava na mente de Kuroshi.

“Não sei o que aconteceu, mas você parece estar criando um grande labirinto na sua cabeça para algo extremamente simples.”

“…?”

Kuroshi realmente ficou perdido com o que Kurona estava falando, apenas observando ela pegar algumas roupas.

Mas é a Kurona… Então talvez faça algum sentido…

“Nessas horas o melhor a se fazer é agir sem pensar muito.”

“…”

“Bem, era só isso que eu queria dizer. Faça o que você quer fazer. Força, Kuroshi!”

Kurona fez sinal de positivo com o polegar enquanto piscava o olho para ele e então se virou.

“… Você… Já está saindo?”

“Uhum. Você precisa de um tempo sozinho para refletir e decidir sua próxima ação, certo?”

Ao terminar de falar, ela levantou a mão acenando para ele e saiu do quarto.

Diante do silêncio novamente, Kuroshi refletia sobre o que Kurona havia acabado de dizer para ele.

 

 

Algumas horas depois. Kurona Yoshida se encontrava no seu quarto de hotel, deitada de barriga virada para baixo na cama, lendo um livro. No seu título dizia, em inglês, A Victorian Flower Dictionary.

Enquanto lia—

“Hm?”

A campainha do quarto tocou.

Kurona estranhou, já que a recepção nem sequer ligou para ela para pedir permissão para deixar alguém passar. Mas mesmo assim, ela se levantou e se dirigiu até a porta.

Ao abri-la.

“Ohh, que surpresa.”

Para o trio na sua frente, Kurona ofereceu uma reação natural. Ela então se virou e voltou para a cama, deixando a porta aberta.

Interpretando isso como um convite, as olharem umas para as outras, as três garotas entraram no quarto.

Kurona se sentou na cama. Com seu corpo um pouco jogado para trás, apoiado nos seus dois braços, e suas pernas cruzadas, ela sorriu para as três.

“O que a íris amarela, a jacinto azul e a cravo vermelho desejam?”

Ryoka, Seira e Julie não estavam gostando muito do tom de voz de Kurona, mas ignoraram por enquanto. Seira em especial parecia um pouco para baixo.

Kurona pensou em questioná-las como subiram até o quarto dela sem interferências e até cogitou a possibilidade do uso dos seus poderes como [Avatares de Deuses], mas ao olhar para Ryoka ela percebeu que, tal como ela, era bem óbvio os meios usados para chegar até aqui.

Ryoka fechou os olhos por um momento para considerar a melhor maneira de perguntar o que iria perguntar, e então ao se decidir, abriu os olhos novamente, dando um olhar perfurante na direção de Kurona.

“Nós viemos apenas para encontrar uma maneira de ajudar o Kuro-kun. Já que você é a amiga de infância dele e a única com conhecimento do passado dele, nós—“

“Eu recuso.”

Antes que pudesse terminar sua explicação, Kurona já descartou a proposta dela, o que deixou Ryoka bem surpresa.

“Você não nos ouviu? Nós estamos agindo pelo bem do Kuro-kun! Ou você não se importa com ele?!”

Kurona se ajeitou um pouco e levantou um dos braços, e com o punho fechado, levantou dois dos seus dedos.

“—Duas coisas.”

A ação de Kurona fez as três pararem e esperarem ela continuar.

“Primeira. Eu jamais irei contar para vocês algo que o Kuroshi escondeu até então.”

A escolha de palavras dela irritava todas as três, sem exceções. Ryoka deu um passo a frente.

“Não é como—“

“Segunda.”

Mas foi interrompida antes mesmo que pudesse dizer algo.

“Você disse ajudar o Kuroshi… Mas não é justamente o contrário que vocês vem fazendo? Quer dizer…”

Por um momento, as três ficaram sem reação, o que deu tempo para Kurona concluir seu pensamento.

“… Se vocês realmente quisessem ajudar, deixariam ele em paz.

Seira foi a primeira a reagir, e a com mais ferocidade. Ela já tentou andar em direção a Kurona com a intenção de lutar.

—Tentou.

Ryoka, que estava um passo a frente, colocou seu braço no caminho para impedi-la.

“Ryoka?!”

“Acalme-se, Sei-chan. Eu disse, não disse? Não viemos para lutar.”

Ao olhar para Seira e ver que ela recuou, Ryoka olhou novamente para Kurona.

“Você está dizendo que deveríamos deixar Kuro-kun do jeito que ele está agora?!”

Dessa vez, foi Kurona que expressou surpresa para o comentário de Ryoka.

“’Do jeito que ele está’? Eu não sei do que você está falando, mas agora eu sei quem andou fazendo a cabeça do Kuroshi para fazê-lo acreditar que tem algo de errado com ele.”

A expressão de Ryoka se contorceu. Ela não conseguia acreditar que a garota diante dela estava falando sério. Mas ela era obrigada a isso… Afinal—

Meu [Analyzer] não detectou nenhuma mentira, essa garota—

“Vamos embora, Sei-chan, Julie-chan.”

As duas concordaram, e sem se despedirem, as três se retiraram do quarto.

Kurona suspirou.

Me pergunto o porque das três terem vindo se não pretendiam lutar… Bem, elas não pretendiam lutar, talvez tenham considerado que eu poderia começar uma luta e vieram em maior número por precaução?

Além disso, elas nem fecharam a porta. Que rude.

Suspirando novamente, Kurona se levantou para fechar a porta.

 

Nos corredores do hotel, as três caminhavam em direção a saída.

“Está tudo bem sair assim, Ryoka-senpai?”

“Mhmm.”

Ao ouvir a pergunta de Julie, Ryoka apenas “afirmou” positivamente com um som. Aquilo ainda mexia com a cabeça dela.

“Sei-chan, Julie-chan.”

As duas pararam ao serem chamadas, Ryoka então parou e se virou para elas.

“Era só uma hipótese antes, mas agora é possível dizer que é quase certo que a causa do Kuro-kun estar daquele jeito é aquela garota.”

Seira parecia estar esperando por isso, uma vez que ela balançou a cabeça para cima e para baixo imediatamente.

“Ela não mentiu em nenhum momento da nossa conversa.”

Tal revelação surpreendeu as duas.

“Mas isso não significa que ela esteja falando a verdade também.”

“Ryoka… Você quer dizer—“

“Eh? O que vocês pensaram?”

A explicação é simples.

“Meu [Analyzer] pode perceber uma pessoa que esteja mentindo… Mas eu não sou onipotente, nem tenho controle sobre a verdade. Mesmo que ela não esteja dizendo a verdade, se ela acreditar que não está mentindo…”

“Ahh!”

Julie então percebeu.

O [Analyzer] não pode analisar palavras, mas sim comportamentos. Uma pessoa que está mentindo e sabe que está mentindo quase sempre irá apresentar sinais, por mais banais que sejam, de que ela sabe que não está falando a verdade.

Mas e se a pessoa em questão não achar que está mentindo? Uma pessoa que ouviu uma mentira de alguém de extrema confiança pode acabar considerando tal mentira como verdade, e ao contar para outra pessoa, na sua cabeça ela estará apenas expondo um fato, sem chances de ser falso.

O mesmo vale para pessoas com certos tipos de distúrbios ou problemas mentais e emocionais. Em muitos casos específicos, não importa o quão absurdo seja o que a pessoa está falando, dependendo do problema psicológico, ela pode ter certeza que está falando algo normal.

Se por um acaso a teoria de Ryoka estiver certa—

“Então ela está afetando o Kuroshi e fazendo-o ficar daquele jeito, mas na sua cabeça nada mudou?”

Sim, é como Seira diz.

Ryoka acenou positivamente com a cabeça.

“O maior problema é… Sem saber quase nada sobre o passado dela com o Kuro-kun, não tem como sabermos exatamente a fonte do problema. Logo, não tem como agirmos para solucionarmos esse caso. Nessa situação, se continuar a piorar, a única saída seria—“

Ela não precisou terminar de falar para Seira e Julie entenderem.

Seguindo essa linha de pensamento, provavelmente Kuroshi está naquela situação por algo que Kurona fez. Ou seja, uma habilidade da [Avatar de Perséfone]. Além disso, se ela realmente tem algum problema psicológico, grandes são as chances de isso ter sido causado pela [Guerra Divina]. Então, a solução mais simples seria—Matá-la.

As três ficaram em silêncio.

Fosse uma pessoa qualquer, seria uma opção mais considerável. Mas sendo a amiga de infância de Kuroshi, a situação se torna muito mais delicada.

Ryoka imaginou como ela se sentiria se fosse o Masaya no lugar da Kurona, e ela no lugar do Kuroshi.

Sua face distorceu só de imaginar.

Quanto tempo nós ainda temos?—O pensamento de Ryoka se referia até Kuroshi passar do ponto crítico.

Toda essa situação de hoje aconteceu por causa da atitude agressiva de Kuroshi em relação a Seira.

Quando Ryoka ouviu isso dela, ela ficou incrédula.

Nesses quase um ano que ela conhece Kuroshi, se tem uma coisa que ela tem certeza absoluta que nunca aconteceria, é ele tomar uma atitude agressiva em relação a Seira em uma situação comum.

Se o Kuro-kun não quer revelar seu passado, e a Kurona Yoshida também não, eu…

Para alguém como Ryoka, com um forte senso de justiça, algumas coisas são intoleráveis.

Invadir o quarto do Kuroshi para tentar achar algo que desse pistas da fonte do problema já era uma ação que ela muito repudiou.

Mas…

Existe uma maneira de descobrir sobre o passado dos dois facilmente.

Sim—[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].

Uma técnica que Ryoka possui, que pode “reviver” qualquer história, tendo algo que faça a conexão para uma história específica. Se ela forçasse Kuroshi a se submeter a tal técnica, ela poderia investigar o passado dele sem dificuldades.

Absurdo. Eu nunca, nunca irei recorrer a isso.

Ela já se sentiu enojada só de considerar a possibilidade.

“Ryoka?”

Só ao sentir um toque no seu ombro e ouvir a voz de Seira que ela voltou a realidade.

“… Desculpe. Vamos indo.”

As três se retiraram do hotel.

Está certo. Eu não falei para a Sei-chan, mas o maior problema desse caso e o motivo para ele estar tão difícil de resolver é…

Era algo óbvio, que Ryoka percebeu assim que parou para pensar. Talvez Seira já tenha percebido também, ou talvez ela simplesmente não queira perceber. O tal estopim, o motivo que formou essa situação, não é algo atual.

A verdade é que…

Nós não sabemos absolutamente nada sobre Kuroshi Kouji.

Admitir era doloroso. Isso para Ryoka, ela nem imagina como Seira iria se sentir.

Mas era um fato.

Claro, teve toda a história de quando Kuroshi era uma criança, e seus pais morreram em um incêndio.

Mas e depois disso? O que aconteceu nesse intervalo de cerca de 10 anos desde as mortes dos pais dele até o dia em que ele se transferiu para o Colégio Aohoshi?

Não é necessário um relatório super detalhado sobre a vida pessoal da pessoa, mas dentro dessa roda de amigos, Kuroshi é o único que ninguém sabe absolutamente nada de parte da sua infância até metade da sua adolescência.

Aquilo estava colocando Ryoka contra a parede.

Seu grande amigo, que já lutou muitas lutas ao seu lado, agora é um grande ponto de interrogação para ela.

Por já estar acostumada a trabalhar sobre pressão, Ryoka conseguia esconder esse fato. Mas por quanto tempo essa bomba ficará desarmada?

Talvez ele esteja com medo de revelar seu passado justamente por pensamentos como esse… Tch!

Sentimentos obscuros que estavam tentando ocupar o coração de Ryoka foram expelidos pela luz da justiça. Antes de qualquer coisa—

Eu preciso confiar nos meus amigos, para que eles possam confiar em mim.

A determinação de Ryoka foi renovada naquele momento.

 

 

No dia seguinte—

“Ryoka!”

“Uuh… O que foi?”

Ao ouvir sua colega de quarto chama-la, Ryoka relutantemente acordou. Ainda era cedo demais para levantar, mas como sua colega de quarto pratica exercícios constantemente, ela acorda mais cedo que o normal.

Ryoka se sentou na cama e olhou para sua colega.

Ela estava com um papel na mão, entregando para Ryoka.

“… O que é isso?”

“Uma carta. Para você.”

As duas ficaram paradas em silêncio por alguns segundos.

Ryoka então mexeu nos seus cabelos da cabeça como se estivesse pensando em algo.

“Não podia se confessar em um horário mais normal?”

“Hahaha, se você tem tempo para fazer piadas a essa hora, então pode vir correr comigo!”

“… Desculpa.”

Ryoka pegou a carta ao se desculpar.

“Agora se me dá licença, até mais!”

Sua colega de quarto se virou e rapidamente saiu do quarto.

“… Hah…”

Ela então olhou para carta, a parte frontal estava selada.

Quem envia cartas hoje em dia?

Ryoka então olhou a parte de trás da carta—

“?!”

Entendo! Então foi isso que você decidiu…!

 

 

Ryoka imediatamente reuniu todo mundo na sala do conselho estudantil.

Todo mundo, exceto Kuroshi.

“O que aconteceu, Ryoka?”

Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, então Seira perguntou.

“Eu recebi essa carta. Eu ainda não a abri.”

Ela mostrou a carta de longe.

“O que tem ela, Ryoka-chan?”

Agora foi a vez de Masaya perguntar.

Como resposta, Ryoka virou a parte de trás da carta para todos verem.

“Vejam.”

[De: Kuroshi

Para: Todos

Sobre minha vida—Meu passado.]

Dessa vez todos reagiram com surpresa.

“Aqui nesse envelope está, provavelmente, tudo que precisamos saber sobre o Kuro-kun. Com sorte um jeito de ajuda-lo.”

Além disso, outra coisa que passou pela cabeça de Ryoka, foi que de fato ele se sentiu inseguro em relação ao seu passado.

Não era realmente tão diferente de uma pessoa que prefere confessar seus sentimentos através de uma carta ao invés de falar com a pessoa diretamente.

Ryoka nem sequer consegue imaginar o motivo dele ter escondido seu passado esse tempo todo, ou o motivo dele não ter tido a coragem de falar com eles diretamente. Mas ela irá aceitar uma carta de bom grado se for para descobrir a fonte do problema.

Ele propositalmente enviou a carta para Ryoka, sabendo que ela sem duvidas apenas leria a carta com todos juntos.

E cumprindo com essas expectativas, ela abriu a carta e tirou um grande papel dobrado, com uma grande quantidade de texto. Não só um, mas sim dois deles. Ambos numerados com ‘1’ e ‘2’.

“Pois bem—“

O que todos estavam ansiosos para saber, começou a ser revelado.

 

 

Enquanto isso, Kuroshi andava pelo campus.

Sua mão estava no seu rosto, seu olhar direcionado para o chão—Não, para algum lugar distante.

Ele andava um pouco torto.

Para onde você está indo?

A voz o atacou novamente, ao olhar para trás, ele viu sua sombra se estendendo em um tamanho surreal. Além da forma humanoide, sua sombra tinha um sorriso e olhos maléficos.

Kuroshi começou a correr.

Você não pode correr de mim.

Correr de mim é o mesmo que correr de você mesmo.

Impossível.

Sem dar ouvidos para aquela coisa, ele continuou correndo.

Eu sou eu, você é você! E você está tentando acabar comigo! Tentando me consumir! Eu não deixarei!

Antes que percebesse, a voz já havia sumido.

Ele estava na praça novamente, diante do chafariz.

Kuroshi então olhou para a água. O que ele viu—

Um homem de cabelos roxos e olhos vermelhos, uma pessoa que ele nunca havia visto antes.

Quem diabos é você?!

Furioso, ele atingiu a água com um tapa e caiu de joelhos no chão.

Quem diabos é você? Quem diabos é você?

Você está falando comigo? Ou consigo mesmo?

A voz novamente o atormentou.

Cale-se! Eu não vou mais cair na sua farsa!

Eu… Eu sou… Eu definitivamente… Uh… Quem…

“… Ah… Hah…”

Kuroshi colocou as duas mãos no rosto, deixando visível apenas seu par de olhos escarlate.

Subitamente, uma [Dimensão Reversa] foi aberta.

“HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! AAAAH HAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!”

Ali, naquela [Dimensão Reversa], apenas um [Avatar de Deus] residia.

Apenas uma pessoa presente ali dentro.

Quem era essa pessoa?

Kami no Sensou – Cravo Amarelo (Volume 6: Capítulo 3)

O que está acontecendo comigo?

Voltando rapidamente para seu quarto, Kuroshi se deitou na cama de braços abertos e começou a encarar o teto.

As aulas do dia nem sequer passaram pela sua cabeça.

Eu estou… Confuso?

Ouvir a história de Ryoka e Masaya fez Kuroshi se sentir mal. Mas o motivo não estava claro na sua mente.

Amigos de infância?

Relações complexas?

Problemas familiares?

[Guerra Divina]?

Esses sentimentos não identificáveis… Uma possível causa para eles é…

“Kuroshi?”

Ao ouvir uma voz muito familiar, Kuroshi se sentou na cama no susto e olhou em direção a saída.

Na sua frente estava uma linda garota de olhos e cabelos pretos.

“Kurona…”

“Você não deveria faltar aulas após tanto tempo sem ir.”

Enquanto falava, Kurona casualmente foi até uma gaveta e começou a pegar algumas roupas.

“Aah, me pergunto por que alguns dias me sinto mais a vontade com certas roupas…”

“… Kurona.”

“Hm?”

Ver aquela garota na sua frente fez seus sentimentos entrarem em conflito. Muito embora a garota olhasse para ele com um olhar de curiosidade, algo nela parecia dizer que seu nível de inocência era zero.

“… Você… Mesmo podendo dormir neste quarto, você ainda fica em um hotel… É porque você se recusa a dormir sobre o mesmo teto que eu?”

… O que diabos eu estou dizendo?

Ela nem sequer devia estar morando no dormitório masculino…

Porque eu perguntei isso…?

Percebendo que a pergunta já estava feita, Kuroshi colocou a mão na testa em frustração.

Nenhum dos dois falava mais nada, e Kuroshi não tinha coragem para olhar para a cara dela depois de uma pergunta estranha dessas, então ele não sabia o que fazer. Até que—

“Pfft! Hahahahaha”

Ao ver a reação dela, a frustração de Kuroshi aumentou.

“Hahaha… Desculpa, não precisa fazer essa cara.”

“…”

Kurona colocou algumas peças de roupas em uma bolsa e se preparou para sair.

“Não fique mal-humorado. Mas não tinha como eu reagir diferente a uma pergunta dessas, certo? Afinal…”

Ela então se virou para Kuroshi e terminou:

“… Nós já até dormimos na mesma cama. Dormir sobre o mesmo teto seria o de menos.”

A resposta espontânea e natural dela pegou Kuroshi de surpresa.

Ela não estava tentando provoca-lo, tal como ela também não estava envergonhada pelo próprio comentário. Essa naturalidade fez Kuroshi se sentir extremamente estúpido por estar agindo daquela forma. Mas é justamente por isso—

Ah.

Era tão óbvio…

“Então, nos vemos em breve. Até mais, Kuroshi.”

Repentinamente, Kurona se despediu e se dirigiu até a saída.

“Kurona!”

Mas Kuroshi a impediu antes.

Ela somente parou, sem olhar para trás.

“Porque… Porque você voltou para o Japão?”

Se virando apenas o suficiente para olhar na direção dele, Kurona respondeu:

“Para corrigir um erro.”

“Um erro? Que erro?”

“Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.”

E então se retirou do quarto.

Kuroshi, agora sozinho, só pode amaldiçoar a si mesmo.

Veja esse meu estado patético…

É óbvio que ela não ficaria aqui quando ela sabe que é a causa desse meu estado…!

Para me dar espaço para organizar meus sentimentos, ela mantem a devida distância…

Era como uma bola de neve.

Cada vez maior e mais difícil de parar.

Kuroshi estava errado, e ele saber disso só o faz se sentir pior.

Talvez a história de Ryoka e Masaya tenha servido para guia-lo para alguma direção.

Ele só precisa segui-la.

 

 

Uma bela cena acontecia escondida dos olhos de todos.

Kurona dançava. Girando seu corpo de braços abertos com um leve sorriso no rosto.

Ao redor dela, o mais perfeito jardim se encontrava. Flores das mais comuns até as mais exóticas ou mesmo flores completamente desconhecidas, todas elas com uma coisa em comum: O perfeito estado de beleza e bom cuidado, independente da raridade, todas elas brilhavam de maneira sobrenatural.

Dizem que “nada é perfeito”. Ao menos não quando relacionado aos humanos e suas criações.

Talvez isso se aplique a essa situação também, dependendo do ponto de vista.

O jardim de fato é perfeito. A beleza natural de Kurona não mancha em nada a aparência do jardim, muito pelo contrário, até auxilia.

No entanto, fazendo um contraste surreal com o grande jardim, o céu escarlate criava uma atmosfera extraordinária no local.

Do jardim, era possível ver na distância, um portão de tamanho colossal, completamente negro e que passava um ar sinistro.

“Realmente não irá desfazer a lótus, Kurona?”

A pergunta direcionada a ela a fez parar de dançar.

Ao olhar para uma área especifica do jardim, Kurona avistou uma moça.

A beleza de Kurona já não é novidade para ninguém, isso é um fato. No entanto, a mulher diante dela chega a um nível além. Kurona realmente é muito bonita, mas ainda dentro dos padrões comuns da sociedade. Já a mulher diante dela possuía uma beleza exorbitante, algo que a maioria das pessoas normalmente nunca veriam diretamente no seu curto tempo de vida. Embora alguém como ela certamente seria usada como modelo para alguma pintura famosa, expondo sua aparência quase divina ao mundo.

Ela estava sentada na grama, mexendo nas flores. Seus cabelos, assim como os de Kurona, eram negros. A diferença é que eles eram surpreendentemente longos. Ao contrário de Kurona cujo cabelo não passa da cintura, os cabelos da dama muito provavelmente chegariam até os seus pés. Como tal, por estar sentada, seus cabelos se estendiam pelo chão, criando uma imagem verdadeiramente pitoresca combinado com o jardim.

Seus olhos eram verde esmeralda, e seu longo vestido era uma túnica grega de cor verde água-marinha.

“Eu não posso voltar atrás até nisso… Se ele não se reencontrar sozinho, de nada adiantará. Entendo o que quer dizer, mas independente da escolha que ele fizer, eu o apoiarei.”

“Imagino se ele também se envolverá nisso…”

A mulher olhou para a distância com um olhar solitário.

“… O que exatamente são vocês?”

O sorriso de Kurona já havia sumido quando ela terminou a pergunta. Mas como se tivesse sido trazida de volta para a realidade, a mulher apenas sorriu gentilmente ao olhar para Kurona e disse:

Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.

“… Haa… Você me pegou nessa.”

Kurona rapidamente desistiu e deu de ombros ao ouvir exatamente a mesma frase que ela havia dito pouco tempo atrás.

“Em todo caso, mesmo no escuro minha promessa de trazê-lo de volta para você se mantém.”

“…”

“Não faça essa cara. Eu sei o que isso significa e estou pronta para lidar com isso, principalmente quando um dos motivos para eu reconhecer meu erro ter sido você.”

Com o sorriso de volta no rosto, Kurona declarou antes de se virar.

Não foi muito depois que Kurona simplesmente desapareceu daquele lugar.

“Essa garota… O quanto ela consegue aguentar sozinha?”

 

 

“Ainda restam duvidas de que há algo de errado com ele?”

No dormitório feminino, mais especificadamente no quarto de Ryoka, três garotas, ela incluso, conversavam.

“Mhmm, depois da história da Ryoka-senpai, ele não deu mais as caras ontem…”

A pergunta foi de Seira e a resposta de Julie. Havia se passado um dia desde que Ryoka contou sua história com Masaya.

Após aquilo, Kuroshi não deu mais sinais de vida, ao menos não pessoalmente. As garotas mandaram mensagens para ele, as quais ele respondia, mas sempre tentando evitar se explicar.

“O melhor jeito de se resolver isso é falando diretamente com ele. Masaya me enviou uma mensagem há pouco tempo atrás avisando que avistou Kuroshi se dirigindo até a praça.”

Como de costume, Ryoka sempre era a voz da razão nas discussões.

“Então…!”

“Espere, Sei-chan. Eu irei até ele.”

Ao ver a cara de decepção da sua grande amiga, Ryoka até ficou com um pouco de pena, mas era apenas a escolha mais lógica.

“Você ir até ele provavelmente só irá criar uma pressão desnecessária e o fará ficar na defensiva. Por outro lado, se a Julie for, ele provavelmente vai dispensá-la sem leva-la a sério, como sempre.”

“Fueh? Porque eu tenho a impressão de que estão tirando sarro de mim?”

Julie olhou para cima, refletindo seriamente. Ryoka apenas decidiu ignorá-la por enquanto.

“Enquanto eu dialogo com ele, vocês duas farão outra missão.”

Ao ver que conseguiu a atenção e curiosidade das duas, Ryoka continuou.

“Não é algo que eu goste ou ache certo, mas nossas circunstâncias não são normais, então pedirei para que vocês deem uma olhada no quarto dele, da maneira menos invasiva possível. Vocês podem recusar, se quiserem, claro.”

Invadir a privacidade alheia deixava Ryoka aflita, pior ainda é passar essa tarefa para suas amigas. Mas ela preferiu seguir o lema ‘não me arrependo do que faço, mas sim do que deixo de fazer’. Quando for tarde demais, não terá mais volta.

“Nós faremos.”

Seira afirmou sem hesitar, Julie acenou positivamente concordando com a resposta.

“Nesse caso…”

 

 

Kuroshi estava sentado no banco da praça olhando para o céu.

Ele não escolheu vir para cá aleatoriamente, havia um motivo para isso.

E este era—

“Kuro-kun.”

Seu par de olhos vermelhos imediatamente demonstraram surpresa ao arregalarem e olharem para direção da voz.

Alguém que ele jamais esperava ver ali, justamente a essa hora, apareceu.

“… Ryoka…”

Sem esperar nenhum convite, Ryoka se sentou do lado dele. Ao fazer isso, ela olhou diretamente nos olhos dele, que tentou desviar o olhar como resposta.

“O que está acontecendo com você?”

“… Não é nada…”

Dada a situação, tal resposta devia até mesmo ser considerada inútil, mas mesmo assim ele a usou.

“Não tente mentir. Você sabe que eu posso identificar mentiras com o meu [Analyzer], certo?”

Ao ser lembrado disso, Kuroshi notou que já estava em um beco sem saída.

“… Você tem razão… Eu… Contarei a verdade…”

“Hah… Francamente. Devia estar com essa mentalidade desde o começo. Somos amigos, não somos?”

Ryoka suspirou, como uma mãe tendo que lidar com o filho que fez alguma besteira, mas está com medo de contar.

“Por sinal. O que eu disse sobre o meu [Analyzer] era só um blefe, jamais usaria algo assim para tentar desmentir algum amigo, isso só significaria que eu não tenho confiança na pessoa.”

Ryoka não sabia se estava explicando isso para dizer como se sente ou por se sentir culpada por conta da missão que deu para Seira e Julie.

Eu realmente caí nessa… Devia ter imaginado…

Amaldiçoando sua própria ingenuidade, Kuroshi apenas aceitou que caiu facilmente nos jogos mentais de Ryoka. Se é que pode ser chamado disto.

“E então?”

Novamente pressionado, Kuroshi decidiu revelar a verdade.

“… Eu já te contei sobre a minha amiga de infância, Kurona Yoshida, certo?”

Era uma pergunta retórica, por isso, Kuroshi não esperou resposta e continuou falando.

“Bem, nossa história é um tanto quanto mais complicada do que eu fiz parecer para vocês…”

Ryoka ficou um pouco surpresa. Não por essa revelação, no entanto.

“Entendo, então por isso minha história com o Masaya te afetou mais do que deveria.”

“Sim… Não esperava algo tão relacionável naquele momento…”

“Desculpe, Kuro-kun.”

“Huh?”

“Originalmente eu iria apenas contar as partes mais importantes do meu passado, como o efeito colateral do [Analyzer] ou a minha relação com o Masaya… Mas ao te ver agindo estranho ali, decidi contar tudo e tentar te dizer indiretamente que você podia contar conosco, seus amigos.”

“…”

As palavras ditas por Ryoka ontem vieram a mente de Kuroshi.

Existem alguns motivos para eu ter decidido mostrar essa história a vocês… O primeiro e mais óbvio, é a confiança e afinidade do nosso grupo. Todo mundo tem uma coisa ou outra que gostaria de esconder, mas creio que conhecer a origem do que somos hoje é algo necessário.

O quão perceptiva e o quão longe essa garota consegue pensar…?

Ele tentou evitar, mas desde sempre esteve no alcance dela. Se o dissessem que Ryoka não precisa do [Analyzer] para ser inteligente e perceptiva, ele usaria essa situação como exemplo. E o mais importante de tudo, a atenção que ela deu a ele mesmo enquanto se concentrava em mostrar seu passado para todos era insana, ainda mais por se tratar dela, que certamente deu a mesma quantidade de atenção para todos os outros.

Definitivamente uma pessoa que luta no melhor estilo “um por todos”. Essa é Ryoka Illsbert.

“Então, o que essa amiga de infância tem a ver com a situação atual? Você não se sentiria mal se esse segredo não nos afetasse de alguma forma.”

Ryoka conduzia a conversa cautelosamente, mas cada pergunta dela era feita com uma boa expectativa de qual seria a resposta.

“Ela também é uma [Avatar de Deus]. E ela, que estava morando no exterior, está aqui na cidade agora.”

A expressão de Ryoka não sofreu mudanças, tudo dentro do esperado.

“Desde que ela voltou, coisas estranhas começaram a acontecer comigo… Como esses olhos…”

Ou como essa maneira insegura de agir—Pensou Ryoka no momento. De fato ele estava muito fora do comum, e de fato a maior causa provavelmente é a tal garota.

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é…”

 

 

“Você realmente está bem com isso, Seira-senpai?”

Julie questionou Seira, já demonstrando um pouco de hesitação enquanto as duas estavam de pé diante do dormitório masculino, logo debaixo da janela do quarto de Kuroshi.

“Não estou. Mas é como dizem, há males que vem para o bem. Então vamos logo.”

Decidindo não gastar mais tempo já que não sabiam quando Kuroshi voltaria, as duas saltaram do chão até a sacada. Rapidamente descendo na pequena varanda e entrando no quarto, as duas—

Encontraram uma pessoa, uma garota, deitada na cama de Kuroshi, abraçada com o travesseiro dele.

A virada inesperada de eventos fez Julie simplesmente congelar. Enquanto Seira ficou duas vezes mais séria ao ver aquela situação.

A garota apenas olhava casualmente para as duas com um olhar de surpresa.

“… Quem é você? Entrar no dormitório do sexo oposto em permissão é passível de expulsão…”

A jovem moça de cabelos pretos diante de Seira e Julie cobria toda a parte inferior do seu rosto com o travesseiro enquanto se sentava. Não era possível ver sua boca, mas seus olhos pareciam rir das palavras de Seira.

“Ora? Eu tenho permissão, este é meu quarto, afinal. Vocês duas por outro lado… Talvez eu devesse avisar alguma autoridade sobre essa invasão?”

A expressão de Seira instantaneamente mudou de seriedade para choque.

Se o que a garota disse é verdade, Seira acabou de pisar em um campo minado.

O choque fez ela ficar totalmente sem reação.

Uwaaah, o que eu faço? O que eu faço?!

Julie começou a entrar em estado de pânico ao ver a tensão no ar subir.

Só há um jeito…!

Julie.exe parou de funcionar.

Quando Seira conseguiu se recuperar do baque, ela deu um passo a frente.

“Nós somos amig—“

Julie usou suas habilidades físicas sobre-humanas para se mover rapidamente para trás da garota.

A estratégia de ‘apagar as testemunhas’. Colocá-la para dormir e resolver o problema a partir daí.

Quando o braço de Julie, claramente agindo sem pensar, se aproximou da garota—

“Espere, Julie!”

Ela instintivamente parou ao ouvir a voz de Seira.

Todas as 3 pararam de se mover. Não tinha como Seira deixar aquilo passar.

“… Quem é você?

Seira repetiu a mesma pergunta de antes, porém, com uma entonação completamente diferente. Mais ameaçadora.

“S-Seira-senpai…?”

Visto que nenhuma resposta vinha da misteriosa pessoa, Seira estendeu seu braço para frente e no momento seguinte—

Todas as cores se inverteram completamente.

—[Dimensão Reversa].

Julie se surpreendeu ao ver a ação de Seira, mas levou um real susto ao ver que a garota de cabelos pretos ainda estava presente.

“Você… Acompanhou os movimentos da Julie com os olhos, nenhum humano normal teria essa capacidade.”

“… Haa… Você é muito séria. E você agora está bem mais energética do que antes, huh.”

A garota—Kurona—soltou o travesseiro após se dirigir primeiro a Seira e depois a Julie.

O maior choque para Julie foi finalmente poder ver o rosto da pessoa.

“Você é… A garota da flor…”

A garota que deu uma flor para ela, a mesma que guiou Kuroshi e os outros até o local onde ela estava escondida.

Ao ouvir as palavras de Julie, até Seira se surpreendeu.

Indiretamente, a pessoa diante dela ajudou no resgate de Julie.

Vendo que conseguiu desarmar as duas, Kurona se levantou da cama.

“Podemos parar com as hostilidades? Vocês atacam os outros do nada normalmente assim mesmo ou é algo pessoal contra mim?”

Kurona levantou os dois braços na altura dos ombros, enquanto mantinha um sorriso no rosto.

Seira a encarou por alguns segundos, antes de respondê-la.

“Nós nem sequer te conhecemos, não temos nada pessoal contra você. Mas é apenas natural manter a cautela diante de um [Avatar de Deus] desconhecido, certo?”

A discussão novamente se tornou entre Kurona e Seira, Julie não conseguia ver brecha para dizer algo.

Ao ouvir a resposta de Seira, Kurona olhou para ela, surpresa, talvez tão surpresa que parecia um tanto quanto falso.

“Ora. Kuroshi não deve ter contado sobre mim para vocês, então.”

Uma única frase foi o suficiente para destruir o equilíbrio que Seira estava reconstruindo depois do choque inicial.

“Pela terceira vez… Quem diabos é você? Você tem alguma relação com as mudanças que aconteceram no Kuroshi?”

Ela não esperava uma resposta assumindo culpa nem nada do tipo, mas a fez mesmo assim. No entanto—

“Hah? Mudanças? No Kuroshi? Ele não sofreu absolutamente nenhuma mudança até onde sei, ao menos não recentemente. Tem certeza que não é só impressão sua?”

Ela não parecia estar mentindo, mas por alguma razão, cada resposta de Kurona deixava Seira mais no limite da paciência.

“Definitivamente não é só impressão minha, eu já o conheço há muito tempo, algo desse nível não passaria despercebido por mim.”

“Heh~ Será mesmo? Me pareceu que você nem sequer conhece ele direito, no entanto.”

“… O que você disse?”

As palavras de Kurona atingiram Seira violentamente. Aquilo foi praticamente uma afronta a tudo que os dois já haviam passado para ela.

Com o braço estendido, um tridente dourado se formou na mão de Seira e a ponta dele ficou há poucos centímetros do pescoço de Kurona.

“E-Ei, Seira-senpai… Não está exagerando um pouco…?”

Julie finalmente viu uma brecha para tentar impedir as duas.

Mas ela foi ignorada por ambas.

“Desafio você a repetir o que disse.”

O sorriso que estava até agora presente no rosto de Kurona desapareceu.

“Você acha que é próxima dele, mas pelo visto isso é apenas uma ilusão de uma garota imatu—“

Antes de conseguir terminar a frase, o tridente se moveu violentamente em direção horizontal mirando o pescoço de Kurona.

“Seira-senp—Eh?!”

O estrondo, seguido da ventania que se espalhou pelo quarto, foi originado pela colisão do tridente com o lado externo do pulso de Kurona. Tudo que o ataque de Seira conseguiu fazer foi mover os cabelos de Kurona com a onda de impacto.

Em um momento de susto, mesmo em um local fechado, Seira saltou para trás. No entanto—

Rápida?!

Em um movimento quase imperceptível, Kurona já estava extremamente próxima de Seira, ela então aproveitou o movimento precipitado da oponente e usou o seu antebraço, atingindo o pescoço de Seira e empurrando ela contra a parede.

“Criar uma [Dimensão Reversa] desse tamanho foi um equivoco. Não que o tamanho dela fosse fazer diferença, de qualquer forma.”

“Seira-senpai!”

Já com sua lança criada, Julie partiu para o ataque. Vendo o movimento feroz da lança na sua direção, sem tirar o antebraço do pescoço de Seira, Kurona levantou sua perna e defendeu o ataque com a sola do pé. A força da colisão jogou Julie para trás. Porém—

“?!”

Kurona saltou para trás ao sentir uma queimadura no seu antebraço. Ao olhar, ela percebeu que tal queimadura era simplesmente gelo, seu antebraço estava congelado.

“[Water Whip]!”

Um longo chicote de água atacou Kurona incessantemente, que tentava desviar de todas as investidas.

“Uh!”

No entanto, em um dos seus rápidos movimentos, ela acabou chegando em uma das quinas do quarto, sem espaço para desviar.  O que ela disse antes acabou se voltando contra ela mesma.

Saltando no último momento, ela evitou um ataque certeiro, mas o chicote amarrou seu tornozelo. Com a habilidade especial do constante fluxo da água, o chicote puxou Kurona em direção a Seira.

“Não ache que conseguirá algo lutando de mãos vazias!”

Na direção que Kurona estava sendo puxada, a ponta do tridente de Seira avançava na direção dela. Quando os dois estavam prestes a se encontrar, Kurona usou a palma da sua mão para colidir com a ponta do tridente.

O barulho de vidro quebrando ecoou pelo quarto, e através dos fragmentos do tridente destruído era possível ver a expressão de choque de Seira.

Se aproveitando do efeito do [Water Whip], Kurona conseguiu chegar até Seira rapidamente e com um giro do seu corpo, ela atingiu o rosto de Seira com o lado externo da mão, jogando ela contra a parede.

Seira conseguiu se levantar sem problemas, para alguém que destroçou seu tridente, o ataque dela até que foi fraco.

Nesse caso, eu—Huh?…

Enquanto pensava no seu próximo movimento, o corpo de Seira ficou pesado e caiu de joelhos no chão. Assim que isso aconteceu ela notou que Julie também estava caída no chão, ainda consciente, mas sem conseguir se mover.

Kurona se aproximou de Seira e empurrou ela contra a parede, sua mão acima do seu ombro e seu rosto há meros centímetros do rosto dela.

“Desculpa, não lutei de mãos vazias por subestimar vocês. Eu simplesmente não sou uma [Avatar de Deus] especializada em lutas.”

Seira não soube como reagir. Seu corpo não se movia.

“Muito bem, agora…”

Kurona colocou sua mão no rosto de Seira, quando—

“!”

Um feixe de luz passou pelos seus olhos e perfurou o chão entre as duas.

“Se afaste dela, Kurona Yoshida.”

Em frente a janela—

“Ryoka!”

Exato, Seira estava perfeitamente certa.

Kurona se levantou lentamente e levantou os braços, como um gesto de “cessar fogo”.

“Mais qualquer tentativa de agressão as minhas amigas e serei obrigada a travar uma batalha de verdade contra você.”

O sorriso de Kurona já havia voltado ao seu rosto a essa altura, mas ela não dizia nada.

Um leve olhar no cenário já dava para dizer o que estava acontecendo, então Ryoka afirmou:

“Seus poderes não funcionarão contra mim. Não sei o que te fez atacar Sei-chan e Julie-chan, mas em questão de conhecimento, podemos concluir que eu estou na frente, não acha… [Avatar de Perséfone]?”

Ryoka propositalmente revelou a identidade de Kurona para demonstrar superioridade na situação, mas ainda não foi o bastante para quebrar o seu sorriso. Muito pelo contrário, por algum motivo, Kurona parecia até mais confiante. Mantendo-se calada, ela conseguiu o feito de deixar Ryoka um pouco impaciente. Como se tivesse sido atingida por uma premonição, a face de Seira se contorceu.

Ryoka então disse:

“Parece que você não entendeu ainda… Cancele essa [Dimensão Reversa] de uma vez, caso contrário considerarei isso uma declaração de guerra.”

Era exatamente o que Kurona estava esperando ouvir.

“Uwah, que medo. Medo de como nossa sociedade se tornou tendenciosa e ignorante, não é mesmo, Seira?”

Kurona por algum motivo dirigiu-se a Seira, o que deixou Ryoka confusa.

“… Eu fecharei a [Dimensão Reversa]…”

As palavras de Seira deixaram Ryoka chocada.

“Definitivamente hoje não foi um bom dia, huh? Invadem o meu quarto, me atacam e ainda tentam me colocar como a vilã da história, esperava mais do famoso [Partenon]…”

O tom de voz dela era provocativo, mas as palavras e sua expressão eram sinceras.

“…”

Ryoka ficou totalmente sem ação.

Seira cancelou a [Dimensão Reversa]. Kurona fechou os olhos e pegou suas coisas, se dirigindo até a saída sem dizer mais nada ou olhar para qualquer uma das três.

Após a saída de Kurona, o quarto ficou em silêncio por um bom tempo.

“Desculpa, Ryoka…  Por eu ter agido de cabeça quente, eu acabei fazendo você fazer uma falsa acusação. Sei o quão forte é o seu senso de justiça, então imagino o quanto isso deve ter te afetado… Desculpa…”

Seira já não conseguia mais dizer nada. Nem Ryoka. Nem Julie.

A princípio, entrei em choque por medo de ser expulsa do Colégio Aohoshi e ter que voltar para casa do meu tio… Mas então, deixei meus sentimentos falarem mais alto quando ela disse aquelas coisas e comecei uma luta desnecessária…

Refletindo suas ações, Seira colocou a mão no rosto em frustração.

Enquanto isso, a única coisa que Julie conseguia pensar era: Como uma única pessoa pode desestabilizar tanto um grupo?

O mais frustrante para ela era que não havia provas contra Kurona, e ela em nenhum momento agrediu ou atacou ninguém. Seria isso realmente um efeito colateral de deixar uma amizade falar mais alto do que o justo?

Ryoka se dirigiu até a varanda do quarto, onde o vento balançava seus cabelos, e olhou para o céu.

Ela se lembrou da sua conversa com Kuroshi…

 

 

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é… a [Avatar de Perséfone]…”

Essa era a primeira informação que surpreendeu Ryoka de verdade.

A esposa de Hades, huh…

Perséfone—A deusa da agricultura que sempre se preocupava apenas em colher flores, mas foi crescendo e com isso sua beleza foi encantando a todos, e encantou o deus Hades, o senhor dos mortos. Posteriormente se tornando a rainha do inferno. Sempre disposta a receber e atender os mortais que visitavam o reino dos mortos à procura de ajuda, era uma deusa do bem, mas ao mesmo tempo temida.

“… Influência, talvez?”

“Huh?”

Kuroshi, sem entender o que Ryoka quis dizer, olhou para ela com seus olhos vermelhos.

“Inevitavelmente todos nós, [Avatares de Deuses], sofremos influência dos deuses que representamos. Podendo ser algo mais forte ou mais fraco dependendo da pessoa, mas que pode nos atingir a qualquer momento.

Lembra da história da irmã mais velha da Julie? Talvez o mesmo esteja acontecendo com você. Talvez esse conflito de emoções seja, na verdade, suas emoções entrando em conflito com as emoções de Hades.”

Ouvindo tal resposta, Kuroshi olhou para o chão.

É claro… Só pode ser isso…

Hades está tentando impor suas emoções em cima das minhas…

Aceitando até que fácil demais, Kuroshi deu um fraco sorriso.

“… Para ser sincero… Eu só vim para essa praça pois nesse momento a Kurona deve estar no meu quarto…”

As palavras de Kuroshi surpreenderam Ryoka.

… Droga! Cometi um erro!

Ryoka se levantou bruscamente.

“Ryoka?”

“… Sugiro que você reflita sobre o que eu falei, eu preciso resolver outras coisas agora, mas lembre-se: Pode sempre contar com seus amigos…”

Inconscientemente, Ryoka desviou seu olhar enquanto dizia a última frase.

Ela então se retirou do local, deixando Kuroshi sozinho novamente.

 

 

“Maldição!”

Ryoka socou a sacada controladamente para não quebrá-la.

Eu não só acusei injustamente uma pessoa, eu invadi a privacidade do meu amigo e ainda menti para ele…!

Ela não conseguia se conformar.

Por quê? Por quê?! Onde as coisas começaram a dar errado?

Em algum momento, todos foram condicionados a cometerem erros ao mesmo tempo. Qual foi o estopim?

Qual exatamente é o problema desse caso?

Ryoka tentou pensar o mais longe que conseguia.

Tem que haver uma resposta. Era o que ela pensava.

Até que—

“…”

O olhar de Ryoka ficou distante, sua raiva e frustração desapareceram.

Ah…

Entendo…

Ha…Haha… Se eu contar isso para a Sei-chan, ela certamente irá chorar…

Todos nós estávamos fadados a cometer erros nesse caso desde sempre…

Talvez… Talvez eu tenha cometido um erro maior do que eu imaginei…

 

 

O sol já estava se pondo. As aulas já haviam acabado.

Em um dos banheiros masculinos da escola—

Kuroshi se olhava no espelho.

Ele olhava diretamente para os seus próprios olhos escarlates.

“Eu achei que você estava do meu lado… Mas parece que não…”

Não havia absolutamente mais ninguém no banheiro, talvez nem na escola.

Kuroshi estava falando com seu próprio reflexo.

“Tentando me manipular, me induzir a ser você… Foi realmente um plano venenoso e que conseguiu me confundir…”

“Mas eu não pretendo cair mais nessa… Eu sou eu… Eu definitivamente serei eu…”

Somos um só, garoto. Você sou eu, eu sou você. Lembra?

“!!”

Absolutamente do nada, um fantasma apareceu atrás de Kuroshi. Cabelos roxos um pouco mais compridos que o de Kuroshi, olhos vermelhos, túnica negra com detalhes dourados, manoplas e grevas totalmente negras. Seu rosto não era visível, apenas seus olhos, mas era possível dizer que ele estava sorrindo.

“… Hades!”

Kuroshi expressou raiva, ainda olhando para o espelho.

“Sua falcatrua foi exposta! Suas mentiras não me afetarão mais!”

Hou? Minha falcatrua foi exposta, você diz? E a sua falcatrua? Quando ela será exposta? Quando suas mentiras não te afetarão mais?

Você é o farsante, garoto.

No limite da sua paciência, Kuroshi se virou já invocando sua espada e atacando o fantasma.

Porém, o ataque atingiu apenas o ar. Não havia mais ninguém.

Kuroshi colocou a mão na testa e andou para trás até encostar em uma parede, escorregando por ela até sentar no chão.

Minha nova vida… A que eu trabalhei para construir aqui… Os sentimentos que cultivei e as relações que criei, esse sou o verdadeiro eu… Sem dúvidas, aqui representa minha vida verdadeiramente… Sem dúvidas…

 

 

Um bom tempo depois…

Kuroshi estava voltando para o seu quarto, já estava de noite.

“Oh, Kuroshi.”

“Kuro-chan!”

Ao olhar para trás, Kuroshi viu Axel e Alisha vindo na sua direção, de mãos dadas.

Axel estava maior a cada mês que passava, daqui há um tempo ele já deverá estar até maior que Kuroshi.

“Huh? Seus olhos…”

“… Estou fazendo um treinamento pessoal, é por isso.”

Ao ouvir o comentário de Alisha, Kuroshi usou uma desculpa que ele já havia preparado de antemão.

“Está voltando para o quarto agora? Eu já irei me despedir da Alisha, se quiser podemos voltar juntos.”

Ao ouvir a proposta de Axel, Kuroshi aceitou naturalmente e se sentou em um banco enquanto observava os dois de longe, se despedindo como um casal normal.

Após dois minutos, Axel veio até Kuroshi.

“Vamos indo.”

Caminhando lado a lado, Kuroshi perguntou:

“Axel… Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

“Huh? De onde veio isso?”

“… É só uma coisa que estive pensando em momentos de tédio…”

“Hmm…”

Enquanto Axel refletia, os dois caminhavam em silêncio debaixo do céu estrelado.

“Eu diria que tudo depende do avatar.”

“… Do avatar? Como assim?”

“Sim… Eu não acho que os deuses tentem moldar o avatar ao seu gosto, mas acredito que eles naturalmente possuem uma presença divina que talvez induza a pessoa a fazer certas coisas ou pensar de certa forma, mas no fim das contas, quem decide se vai permitir essa indução é a própria pessoa.”

Kuroshi ficou sem palavras para a resposta complexa de Axel.

“Eu acho que você não se conectaria com algum [Avatar de Deus] apenas porque uma mitologia dita essa conexão. Se isso acontecer, é porque você já estava propício a isso desde o começo. É o que eu acredito.”

“… Isso foi um pouco específico demais…”

A primeira parte da breve teoria de Axel foi natural, mas a segunda ressoou diretamente em Kuroshi. Era como se Axel pudesse ler mentes.

“Hahaha, desculpe. Talvez as memórias do meu passado tenham tido influência na minha resposta.”

Kuroshi arregalou os olhos em surpresa, pois ao ouvir a explicação dele, ele se lembrou daquele determinado dia, um tempo antes da sua luta contra Noah.

Está certo…

Axel perdeu a pessoa que ele amava para Loki no passado…

Essa pessoa era… a [Avatar de Sif]. Sif era a esposa de Thor na mitologia nórdica…

A semelhança era tão forte que Kuroshi esqueceu de continuar andando.

No entanto…

Kuroshi conseguia se lembrar. Naquela época, eles tiveram uma conversa bem similar.

Só que, naquela época, a resposta de Axel foi totalmente oposta. Segundo o palpite dele, dois [Avatares de Deuses] conectados pela mitologia só se conectariam realmente por causa do que a mitologia dita. Hoje ele diz que não é a mitologia que conecta as pessoas, mas seus próprios sentimentos. O que mudou de lá pra cá? Porque ele mudou o ponto de vista? Kuroshi queria perguntar, mas acabou desistindo por se tratar de um assunto delicado.

“E se…”

Por ter parado de andar, Axel estava um pouco mais na frente que Kuroshi. Ele também parou ao ouvir a voz de Kuroshi.

“… E se nossos sentimentos fossem ditados pelos deuses em si e não pelo que realmente sentimos?”

Diga, e se as coisas forem exatamente como a Ryoka previu?

Axel se virou lentamente com um sorriso no rosto.

“Bom, nesse caso, por exemplo, sua relação com a Seira seria uma farsa, não?”

Naquele momento, Kuroshi entendeu porque Axel mudou seu modo de ver as coisas.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 6)

É engraçado, apesar de achar que ia acordar e voltar pro colégio com os outros (ou seja lá onde eles levaram meu corpo enquanto estou desmaiado), agora estou em um lugar que não sei onde é, e olhando ao redor só dá pra ver terra plana pra todo lado. Até onde minha vista alcança não tem nada relevante que chame a atenção, exceto o fato do céu estar completamente branco. Tento me mexer pra ter certeza que tenho controle do meu corpo, e aparentemente tudo está normal.

Começo a andar pra frente sem nada em mente, já que não acho que vou conseguir “sair” daqui, porque provavelmente é só uma projeção da minha cabeça ou algum efeito colateral de algo que estejam fazendo pra melhorar minha situação lá fora. A dor que senti antes de desmaiar ainda tá aqui, bem mais leve, mas só me lembrando o estado que eu fiquei. Apesar de tudo, a habilidade da Karin pode vir a ser bem útil, e bem assustadora. Lutar contra alguém que não vai recuar por dor ou sentir fatiga é uma coisa bem medonha de se pensar, mas também é bem perigoso pra seja lá quem estiver sob efeito disso.

Por algum motivo, aqui eu sinto como se minha mente estivesse leve, quase como se nada do que realmente estava me dando dor de cabeça antes existisse, e uma… serenidade? É, serenidade. Enfim, é como se isso me atingisse em cheio. Mal quero pensar em como vai ser difícil voltar pra lá e ter que lidar com toda aquela merda de novo. Agora que paro pra pensar, me meti em muita maluquice deu uma vez só praticamente sem garantia nenhuma de que vou saber o que aconteceu com a Haruka, ou o que aconteceu naquele dia. É bem possível que isso termine com todo meu esforço sendo em vão, mas é a única chance que tenho…

Foi mal, mas vou precisar de uma coisa sua. Não liga, você nem vai se lembrar do que ouviu aqui.

A voz ecoa alto por todos os lados, como se não fosse uma pessoa falando comigo, mas sim algum tipo de ser que está em todos os lugares ou algo do tipo. É uma sensação estranha, porque apesar de estar alerta direto depois de toda essa loucura começar, por algum motivo não sinto que corro perigo ou estou intimidado por essa voz. Ela até mesmo me parece familiar… mas não consigo reconhecer. Como quando sabe que deixou alguma coisa pra trás, sente a falta dela mas não sabe dizer o que esqueceu.

De repente, como se estivesse sendo puxado para cima, um buraco branco se abre no céu, e inúmeras esferas brancas começam a sair do meu corpo em direção aquela luz. Não dói, mas posso sentir que é como se minha essência estivesse sendo sugada, tento lutar contra mas meu corpo não me obedece. Cada vez mais minhas forças vão sendo drenadas, até que então tudo para, e o buraco começa a se fechar, mas não sem antes lançar o que parece um “raio” branco na minha direção, acertando minha testa com uma força que nunca senti antes, e tudo escurece.

– – – – –

Meus olhos abrem devagar, meu corpo dolorido como se tivesse sido atropelado por um rolo compressor… duas vezes. Engraçado que não é como a dor de quando tive pedaços arrancados, ossos quebrados, ou até mesmo quase esquartejado como naquele inferno de treinamento… é mais como se minhas forças tivessem sido completamente esgotadas. Será que é um efeito colateral além dos meus sentidos quase explodindo meu cérebro?

Olhando ao redor, percebo que estou em casa, deitado no sofá da sala, coberto e a TV está ligada. Com algum esforço consigo me sentar direito, e só então sinto o cheiro forte de chocolate que está no ar, vindo da cozinha que está com a luz acesa. A Haruka vem lentamente de lá, soprando uma caneca de leve e vestindo um pijama. É um simples macacão preto, mas não sei se ninguém avisou ela quando foi comprar ou fazer aquilo que é bem apertado no corpo. As curvas estão beeeeem visíveis, mas tento desviar o olhar porque prefiro meus olhos no lugar e minha cabeça grudada no pescoço, obrigado.

Pelo visto meus esforços dão certo, já que ela não diz nada e senta do outro lado do sofá, também se cobrindo e olhando para a televisão. Estranho, eu jurava que ia levar um sermão ou alguma explicação sobre o tal treinamento, mas aparentemente ela está me ignorando completamente, então pelo jeito sou eu que vou ter que tomar a iniciativa aqui…

– Não, não precisa. Eu vou explicar, mas estava só me aproveitando dos utensílios na sua casa. Você até que vive bem pra uma criança órfã, não? – ela diz, sem nem piscar ou virar o rosto.

– … eu gostaria MUITO mesmo que você parasse de ler minha mente.

– Por que eu faria isso?

– Primeiro, porque isso é uma invasão de privacidade enorme. Segundo, porque é errado de tantas maneiras que nem sei por onde começar. Terceiro, porque vamos viver juntos por algum tempo pelo menos, então acho que seria bom pra nós dois se você parasse de monitorar meu cérebro.

– … é, faz algum sentido. Vou deixar disso, não é como se eu estivesse cavando na sua mente também, não fiquei rastreando pra achar nenhum segredo seu, pode ficar tranquilo. E caso eu suspeite que esteja escondendo algo importante, posso só se forçar a contar graças ao nosso pequeno trato. – novamente, sem tirar os olhos da televisão.

– O que diabos você tá assistindo que é tão interessante assim?

Ela não responde, só aponta um dedo em direção a TV enquanto toma um gole de chocolate. É engraçado como ela é (em teoria) uma “mandante” daquela dimensão de seres super-poderosos que poderiam acabar com a vida na Terra em um estalar de dedos, mas agora tá agindo como uma adolescente desinteressada de 16 anos.

– Um tal de “Gravity Falls”, parece bem bobinho no começo mas depois vai ficando bem profundo e pesado. Por que?

– … hã… – sinceramente, não tava esperando uma resposta séria pra isso.

– Eu imagino que você não esperava me ver agindo desse jeito, certo?

– Você não acabou de dizer que não ler…

– Não li, mas pela sua reação isso fica mais que claro pra qualquer pessoa com mais de dois neurônios. Deixa eu esclarecer uma coisa: não sou um tipo de chefe de máfia como você devia ter pensado, nem ameaço pessoas de prendê-las num satélite e lançar no espaço só porque poderia. O único motivo de todos eles me tratarem como algum tipo de “mestre” é porque estão desesperados pra reverter essa situação, e por algum motivo pensam que sou a única esperança deles.

– Espera, e por que seria? Ou melhor, por que eles pensam isso?

Mesmo só podendo enxergar uma parte do rosto dela, fica bem claro que esse deve ser um assunto delicado.

– … vamos só dizer que tem um motivo pra isso. Mas eu sei que não sou capaz de fazer isso sozinha, então precisávamos de ajuda pra ter alguma chance de reverter essa maldita maldição de torneio. Foi então que você simplesmente surgiu, sem mais nem menos, alguém com um potencial de poder desconhecido e que aparentemente evolui muito rápido.

– Então nada do que aconteceu foi planejado?

– Óbvio que não, eu já estava praticamente conformada que vencer seria uma tarefa impossível até alguns dias atrás. Mesmo que nesse momento você não seja alguém com poder suficiente pra fazer o que quero, tenho a impressão que chegará lá em breve.

– E de onde diabos vem toda essa confiança em mim?

– … não sei. Intuição feminina, talvez? – ela responde, mas algo me diz que está escondendo alguma coisa.

– Se você diz… espero que esteja certa.

– Ou estou certa, ou estamos mortos.

– Otimista você hein?!

– Estou mais pra realista. – ela dá de ombros.

Pelo jeito, nada do que eu fizer ou disser vai convencê-la a abrir o bico, e mais uma vez vou ser deixado no escuro com assuntos que provavelmente me afetam diretamente. Mas o que diabos tem de errado comigo que sempre fico de fora desses detalhes importantes, ou não noto algo na minha cara até ser tarde demais?! Acho que é melhor desistir por hoje, mas ainda vou conseguir arrancar tudo que ela possa me dizer… um dia.

– Tá, me explica aí o que tá acontecendo nessa série aí. – ela se vira pela primeira vez, um pouco surpresa pela pergunta.

– Hã… então tá né. Então, esses dois são irmãos que vão passar as férias na casa do tio-avô e…

– – – – –

São cinco da manhã, e a gente ainda tá assistindo séries. Não sei se é porque não costumo ter companhia, mas nem lembro a última vez que fiquei acordado até tão tarde, e dessa vez sinto que vou ter que pular o dia no colégio. A essa altura minhas pálpebras parecem que tão pesando uma tonelada cada, e tenho certeza que devo estar com a maior cara de morto sem nem precisar olhar no espelho.

Por incrível que pareça, a Haruka também não está 100%, e dá pra ver nas olheiras que se formaram e estão bem visíveis. Já tentei chamar ela algumas vezes, mas ou ela entrou em um transe e na verdade tá dormindo de olhos abertos, ou tá tão concentrada na TV que desligou completamente qualquer sensação do mundo real. De qualquer jeito, não acho que ela vá a lugar algum tão cedo. Acho que vou simplesmente é dormir aqui, já que praticamente nem aguento me levantar pelo cansaço.

– Boa noite. – eu digo, sem esperar uma resposta pra desmaiar no sofá outra vez.

Kami no Sensou – Gardênia (Volume 6: Capítulo 2)

Em pouco tempo o treino diário de artes marciais de Masaya começaria, mas ele se encaminhava adiantadamente até Yan Quon. Era com ele que Masaya buscaria respostas.

Antes de chegar até o campo de treinamento, Masaya cruzou com Daisuke.

“Masaya, precisarei de você hoje.”

“Tio Daisuke?”

Ao ouvir seu chamado, Masaya olhou para Daisuke, expressando um pouco de pressa.

“Teremos uma festa para ir hoje a noite, precisarei que tome conta da Ryoka para mim. Tudo bem por você?”

Era um pedido simples, mas que dada a situação atual de Masaya e Ryoka, se tornava muito mais complexo do que Daisuke poderia imaginar.

“… Sim, claro.”

“Obrigado. Contarei com você.”

Daisuke agradeceu e colocou a mão na cabeça de Masaya antes de se retirar.

Ryoka… Huh, tenho que ir de uma vez.

Voltando a se focar no seu objetivo, Masaya foi até Quon.

 

“Mestre, tem um momento?”

“Umu.”

Conseguindo a confirmação de Quon, Masaya pensou em como perguntar o que queria.

“Mestre… O que fazer quando alguém perde o propósito para lutar? O que fazer quando você não consegue destruir a parede diante de você?”

“Hmm…”

Quon, que até então estava olhando para a distância, finalmente se virou e olhou para Masaya diretamente.

“Lute por sua família, Masaya. Assim como por aqueles que são preciosos para você.”

A resposta de Quon irritou um pouco Masaya. Seu mestre claramente não entendia sua situação…

“Nem sempre as coisas funcionam dessa forma! E se você for forçado a lutar?! E se você não tiver uma família?!”

Deixando seus sentimentos fluírem para fora, Masaya levantou o tom de voz.

Quon fechou os olhos e esperou o jovem se acalmar.

“Você está se perdendo, Masaya. Deixar os sentimentos negativos serem a fonte dos seus movimentos servirá apenas para te cegar e eventualmente leva-lo a autodestruição. Lute pelos sentimentos positivos, pela sua família. Nós humanos instintivamente tentamos criar laços uns com os outros, por isso, a não ser que você se isole do mundo, sempre existirá pelo menos uma pessoa que se importa de verdade com você. Essas pessoas que tentam de verdade conseguir um espaço nos nossos corações—É o que significa “Família”. Não são só os laços sanguíneos que formam uma família, mas também os laços emocionais.”

Dando uma leve pausa no discurso, Quon continuou.

“Masaya, quando eu digo para lutar por sua família, isso também significa lutar por você mesmo. Pense, alguém que se importa muito com você ficará triste caso você sofra, talvez essa pessoa até tente lutar por você para te ajudar. É por isso que lutar pelos outros também pode significar lutar para se proteger. Nesse momento parece que você está falhando nesse ponto, mas você ainda pode mudar isso.”

“…”

Masaya não tinha palavras para responder a visão de Quon. Mas definitivamente mudou algo dentro dele.

“… Obrigado, Mestre!”

Se curvando para Quon, Masaya se virou e se retirou.

 

Talvez realmente seja melhor esquecer tudo isso e seguir em frente…

Sentado no fim da cidade, Masaya olhava em direção ao mar e o horizonte. Não havia nenhuma praia ou algo do tipo, por isso, se ele pulasse dali cairia direto na água.

O vento ia e vinha constantemente, o que criava uma atmosfera tranquila e relaxante.

Repentinamente ele sentiu algo gelado no rosto e olhou para trás.

“Agir assim não combina com você.”

Ryoka estava ali, encostando um picolé no rosto de Masaya. Ele pegou o picolé e olhou para o horizonte novamente.

“Você poderia não mais machucar a si mesmo?”

“Huh?”

O comentário de Ryoka, que estava de pé do lado dele, o deixou confuso e o fez olhar para ela.

“Toda vez que eu o vejo machucado, física ou psicologicamente, sinto como se meu corpo estivesse sendo perfurado constantemente…”

“…”

“Se realmente estiver precisando de ajuda, pode sempre contar comigo!”

Tentando suavizar a atmosfera, Ryoka deu o sorriso mais espontâneo que conseguiu.

Ah…

Está certo… Essa garota também pode ser considerada minha “família”.

Famílias não são formadas apenas por laços sanguíneos, mas também por laços emocionais.

“Desculpe. Irei me cuidar mais a partir de hoje. Embora não possa prometer que não vou me ferir caso seja uma situação sem saída.”

“Masaya… Obrigado!”

Ryoka, bem feliz, se jogou em Masaya e o abraçou. Um forte sentimento tomou conta do seu peito ao ver Masaya voltando ao normal.

“Ei! Você vai me derrubar no mar!”

Apesar das reclamações, Masaya não desgostou da situação. Pela primeira vez em muito tempo ele sentiu uma leveza no peito.

Ah… O melhor é deixar tudo isso para trás mesmo.

Tomando sua decisão, Masaya finalmente conseguiu sorrir de verdade.

 

 

Apesar de tudo, o destino parecia não estar do lado de Masaya naquele dia.

Ele terminou de vestir suas roupas de guarda-costas, o que parecia mais um cosplay do que realmente uma roupa de trabalho em uma criança como ele.

Seu próximo passo foi ir conferir se Ryoka estava pronta.

“Ryoka, já terminou de se arrumar? Não podemos nos atrasar.”

Batendo na porta e chamando por ela, Masaya aguardou por uma resposta, mas não recebeu nenhuma.

“Ryoka?”

Ele bateu mais duas vezes, agora com mais força.

Estranhando a situação, ele colocou o ouvido na porta para tentar ouvir algum som, mas não conseguiu escutar nada.

“Estou entrando.”

Decidindo dar uma olhada no quarto, Masaya colocou a mão na maçaneta.

Talvez por estar muito em paz consigo mesmo, ele por algum motivo se lembrou de como em animes e mangás de comédia romântica, situações assim sempre levam a cenas inusitadas.

Mas ao abrir a porta—

Ele se lembrou que vive uma história de um gênero diferente.

A janela aberta foi a primeira coisa que chamou a atenção de Masaya. O quarto estava todo em ordem.

Inspecionando direito, ele encontrou um bilhete.

“Não se preocupe, Masaya. Como uma aliada da justiça, eu salvarei o seu pai!

– Ryoka”

Naquele momento, Masaya congelou.

De tantas e tantas possibilidades, havia uma que ele não parou para considerar—Ryoka tentar resolver tudo sozinha… Novamente.

O motivo para ele não ter parado para pensar nisso era bem simples. A realidade da [Guerra Divina] ainda não havia atingido ele… E muito menos ela. Lutar um contra outros [Avatares de Deuses] até a morte, algo que inevitavelmente eles teriam que fazer, nunca passou pela cabeça de Masaya que Ryoka participaria de algo brutal como isso.

Sem perceber, Masaya estava amassando o papel violentamente.

Sem pensar duas vezes, ele saltou pela janela, torcendo para não ser tarde demais.

Talvez ele estivesse sendo presunçoso demais, mas graças a derrota humilhante que ele sofreu antes, Masaya simplesmente assumiu o pior para Ryoka também.

Maldição… Maldição… Maldição!! Porque!!

Enquanto estava no processo de aceitação com o que aconteceu com o seu pai, ele acaba tendo que passar por isso. Se ele perder Ryoka também—

Viajando pela cidade a uma velocidade absurda, ele procurou incessantemente. Quanto tempo já se passou? 1 minuto? 2? Talvez pareça pouco tempo, mas para alguém na velocidade que ele estava viajando, era tempo até demais.

Eis que repentinamente todas as cores do mundo se inverteram.

“…!”

Finalmente! … Ryoka!

Agora dentro da [Dimensão Reversa], Masaya procurou por Ryoka.

Felizmente a dimensão não era muito grande, então encontra-la foi uma tarefa bem simples.

Mas—

“Ora ora, o que temos aqui?”

“… Vocês…”

Ao ouvir a voz da garota de cabelo violeta, o cérebro de Masaya começou a processar a situação lentamente. Ela estava levantando o corpo caído de Ryoka pelo cabelo quando parou o que estava fazendo para olhar na direção de Masaya.

Perto dela estava seu parceiro com sua grande espada—Zinon.

Ryoka estava coberta de ferimentos e lágrimas escorriam pelo seu rosto, limpando algumas manchas de sangue no caminho.

“Ma… Masaya… Corra…”

Ryoka tinha dificuldades para falar, mas conseguiu dizer o que queria.

Corra? Corra?!

Ele não conseguiu acreditar no que ele havia acabado de ouvir.

Corra… Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra.

Ah……

Masaya olhou para o chão, e viu seus pés equipados com um par de botas douradas com pequenas asas nos calcanhares.

É isso que eu posso fazer? É só disso que [Hermes] é capaz? Correr?!

Ele notou que sua própria existência como um [Avatar de Deus] estava errada. Ele queria proteger, lutar por quem ele preza, por sua família. Mas… Ele é apenas um mensageiro, no fim das contas. A pessoa que deveria lutar pelos outros está ali, no chão.

Acalme-se.

Masaya deu um passo adiante.

“Hmm?”

Em resposta a ele, Zinon também deu um passo adiante e preparou sua espada de duas mãos.

“Não o mate, Zinon. Quero testar onde fica exatamente o limite da mente dele, hehe.”

“Entendido.”

Masaya não conseguiu se dar ao luxo de ligar para o que Antonia estava dizendo.

Toda a euforia de antes desapareceu.

Ou melhor dizendo, ela foi escondida. Seguindo os conselhos do seu mestre, emoções negativas são apenas mais um obstáculo em uma luta.

“Vamos lá, cara, não me decepcione dessa vez!!”

Fazendo um forte movimento horizontal, Zinon nem precisou sair do lugar para atacar Masaya. A rajada de energia que voou na direção dele era perigosa por si só, mas a onda de impacto que a acompanhava também era.

No entanto—

“Huh?!”

Antes de Zinon completar o movimento do seu ataque, Masaya já havia se movido para trás dele.

Por isso, não havia como ele se defender do ataque de Masaya, que acertou um chute certeiro na cabeça dele, o jogando para longe.

Zinon se levantou rapidamente, com um pouco de sangue no canto da sua boca.

“Agora está falando minha língua!”

Segurando a sua espada com uma única mão e a puxando para trás como se fosse a linha de um arco, Zinon preparou um ataque que Masaya já havia visto.

“HAH!”

Dando uma poderosa estocada no ar, todo o espaço na frente dele se distorceu. Mas—

“Muito lento!”

Masaya novamente já estava atrás dele.

Dando um chute com toda a forte nos calcanhares do oponente, ele conseguiu derrubá-lo. Mas antes de cair de costas no chão, Masaya ajudou a gravidade socando o estomago de Zinon com todas as forças e explodindo o chão no processo.

Ele saltou para trás e esperou o inimigo se levantar. Através da cortina de fumaça, Masaya via apenas a silhueta dele se levantando.

“Huhuhu…”

Assim que a fumaça se dispersou, o rosto sorridente de Zinon foi revelado. Sangue e saliva escorriam pelos dois cantos da boca enquanto ele segurava a espada com uma das mãos e o estomago com a outra.

“… Muito bom. Eu estava mesmo querendo testar a fúria da [Durga] em alguém. Você é a cobaia perfeita!”

Durga. Deusa guerreira da mitologia Hindu. Um aspecto guerreiro da Devi Parvati com 8 braços, cavalgando em um leão, carregando armas e assumindo mudras, ou gestos simbólicos com a mão.

Os olhos de Zinon se tornaram vermelhos e começaram a brilhar fortemente.

“Vamos continuar.”

“…”

Repentinamente, a tensão da atmosfera aumentou em 10 vezes.

Zinon saltou e segurou sua espada como se fosse um arpão. A espada começou a brilhar e mudou de forma.

“[Rudra]!”

Se tornando um tridente azul, ele jogou a arma em direção a Masaya com toda a força.

A velocidade do arremesso era assustadora, mas ainda não era o bastante para ultrapassar a velocidade de Masaya, que saltou e desviou do ataque em cima da hora.

Porém—

“Isso é—!”

Incontáveis raios começaram a sair do tridente e do solo ao redor dele, indo do chão para o céu. Era como se estivessem no meio de uma tempestade , com o céu e o chão tendo os lugares trocados.

O ataque repentino pegou Masaya de surpresa, que só conseguiu se defender enquanto via raios rasgarem algumas partes do seu corpo.

Graças ao dano, Masaya não conseguiu aterrissar direito e caiu capotando no chão.

Antes que conseguisse se levantar, ele viu o tridente começar a brilhar novamente e tomar um formato circular.

Um chakram—!

O chakram voou até a mão de Zinon, que o pegou e o jogou em direção a Masaya.

“[Vishnu]!”

Apesar de ter conseguido se esquivar a tempo, o chakram continuou perseguindo ele sem parar. O alvo era especificadamente o pescoço de Masaya.

Se isso me acertar…!!

“Corra! Corra! Hahaha!”

A provocação de Zinon chegou até o ponto mais profundo de Masaya.

Me dizendo para correr novamente…

Ele parou e encarou a direção em que o chakram vinha.

Isso é algum tipo de piada?!

Essa não é minha única arma!

Masaya atingiu o chakram com a sola da bota.

O sorriso da certeza da vitória chegou ao rosto de Zinon.

Ele tinha certeza que tentar parar o chakram seria suicídio.

Mas—

O barulho de vidro se quebrando ecoou pela área. O chakram foi partido em milhares de pedaços.

“Como?!”

Zinon não conseguiu esconder o choque ao ver sua arma destruída.

“Desculpe, mas acho que eu sou um trapaceiro divino.”

Existe um motivo por trás do evento que acabou de ocorrer, mas é muito arriscado deixar os inimigos ficarem sabendo dele.

“Huh!”

Se movendo a uma velocidade ainda maior, Masaya apareceu diante de Zinon dando uma joelhada no estomago dele com toda a força, exatamente no mesmo ponto que havia atingido antes.

Zinon foi jogado para longe, capotando no chão e parando apenas na parede invisível do limite da [Dimensão Reversa].

Ele é muito mais lento que eu, graças a sua espada de duas mãos, ele era capaz de se defender dos meus ataques… As variações de armas foi uma surpresa, mas embora o poder destrutivo dele tenha aumentado muito, sua defesa foi sacrificada no processo.

Se ele não usar a espada, eu posso continuar atingindo ele constantemente. Mas se ele usar a espada, ele não poderá me atingir. Xeque-mate.

Zinon se levantou e recriou sua espada de duas mãos. Ele segurava seu estomago enquanto agonizava de dor.

Desculpe, mas… Eu já tomei minha decisão. Sairei daqui com a Ryoka custe o que custar!

Masaya avançou com toda a velocidade em direção a Zinon.

Um dos combatentes moveu sua espada para tentar afastar o oponente enquanto ele estava longe, mas o outro respondeu indo para o céu e evitando a onda de impacto.

Usando o “teto” da [Dimensão Reversa] como impulso, Masaya se aproximou rapidamente de Zinon, que usou a espada para se defender.

Ele evitou o dano, mas por estar segurando com apenas uma das mãos, foi jogado para trás e bateu novamente no limite da [Dimensão Reversa].

Com um braço só, você não—

Se movendo para atacar novamente, Masaya notou seu erro tarde demais. O sorriso no rosto de Zinon mostrava evidência do momento em que a luta mudava de rumo.

Puxando seu braço para trás como a linha de um arco—

Masaya parou seu movimento forçadamente, mas era tarde demais.

Um ataque de área que destrói tudo que está no caminho.

Da última vez, Masaya se esquivou do ataque se movendo para trás de Zinon, a única área segura.

No entanto—Ele se encontra atualmente no limite da [Dimensão Reversa]. Não existe meios para se mover para trás de Zinon nesse momento.

O que significa…

A estocada de Zinon lançou uma catastrófica onda de impacto, Masaya só pode usar os braços para se defender e tentar resistir ao dano.

“U-UUUAAAAAAAAAAHHHHHH!!!!”

Todo o solo sendo despedaçado e a atmosfera tremendo, Masaya foi engolido pela onda de impacto e jogado para longe.

“Masaya!!”

Ryoka gritou por ele. Ela queria poder fazer algo, mas no momento era impossível.

“Aah… Ahhaahh…”

Masaya se levantou lentamente. Sangue escorria pela sua cabeça. Todo seu corpo estava dolorido. Sua roupa estava totalmente desgastada.

“KAH…”

Quando conseguiu se levantar, ele tossiu sangue. Seu corpo estava totalmente ferido não só por fora, mas por dentro também.

“… Huh?!”

Antes de conseguir recuperar o fôlego, Masaya viu Zinon se preparando para lançar seu ataque novamente.

Eu…

A distância entre eles era enorme.

Naquele momento uma certa ironia da vida o atingiu.

Só há um jeito de evitar o próximo ataque e eventualmente a total derrota.

O que ele tanto rejeitou pouco tempo atrás agora voltou para pegar no seu pé.

Existem certas coisas na vida que você só precisa aceitar que são do jeito que são.

Masaya se preparou para avançar.

Parar de tentar nadar contra a maré, achando que é a única solução viável. Diante de uma situação de risco, Masaya foi forçado a mudar algo dentro de si.

Masaya…

Falando consigo mesmo, ele avançou.

Corra!

Correr nem sempre é algo com conotação negativa.

Zinon estava no meio de concluir seu ataque.

Corra! Mais rápido! CORRA!!

Mais rápido que o som. Mais rápido que a luz.

Mesmo aquela distância tão grande entre os dois não seria um empecilho. Não importa a distância, as barreiras ou qualquer que seja o obstáculo. Como o deus mensageiro, transgredir todas as fronteiras não é uma possibilidade, é uma obrigação!

Como se o tempo tivesse parado, Masaya conseguiu alcançar seu inimigo. Seu punho atingiu pela terceira e última vez o estomago de Zinon. Por estar logo na frente do limite da [Dimensão Reversa], o corpo de Zinon foi imprensado pela parede invisível e o ataque de Masaya, multiplicando ainda mais o dano. Sentindo suas entranhas quase saírem pela boa, Zinon apenas cai no chão sem forças para fazer mais nenhum movimento.

“Haa… Haa…”

A luta acabou.

Ao menos a luta contra Zinon.

“Huh?!”

Sentindo uma presença se aproximar, Masaya saltou para trás.

Só então ele ouviu o som das palmas se batendo.

“Oooh, incrível. Ver como sua mente funcionava naquela situação foi a coisa mais incrível que eu já presenciei!”

Antonia abriu os braços e expressou toda sua felicidade.

Ela se aproximou de Zinon que estava caído e se abaixou.

Levantando um pouco o corpo dele, ela percebeu que ele ainda estava consciente. Ele provavelmente não conseguia sequer falar, mas não importava para ela.

“Você cumpriu bem o seu papel, Zinon.”

Antonia então aproximou seu rosto beijou os lábios dele como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Por um segundo tanto Zinon quanto Masaya expressaram surpresa, mas a expressão de Zinon rapidamente se tornou de choque. Como se tivesse provado de um veneno mortal, o brilho nos olhos de Zinon desapareceu e ele entrou imediatamente em estado vegetativo.

Antonia o soltou descuidadamente e se levantou. Ela então se espreguiçou e alongou o seu corpo como alguém prestes a começar a se exercitar.

Masaya estava completamente confuso enquanto observava a garota olhando suas próprias mãos com um sorriso no rosto.

“… O que você fez?”

Ele estava com receio de fazer tal pergunta, mas precisava saber.

“Eh? Ah, isso? Bem, agora você irá lutar contra mim, certo? Mas eu não era uma lutadora, então eu precisava fazer alguma coisa para render uma luta digna, não acha?”

Ela explicou casualmente, mas Masaya ainda não havia juntado os pontos.

“Eu repliquei todos os atributos físicos e características do Zinon em mim, agora eu posso lutar contra você!”

Com um sorriso no rosto, Antonia disse algo surpreendente.

Masaya já sabia que os poderes dela eram relacionados a mente, mas nunca imaginou que algo assim seria possível.

Isso significa que em troca de conseguir os atributos físicos de outra pessoa…

Ela destruiu a mente dele… Essa garota é insana…

Certo. É como se ela sugasse a mente de outra pessoa para ela, uma espécie de refeição.

Isso é ruim…

Com seu dedo indicador, Masaya afrouxou a gravata da sua roupa de guarda-costas.

Mas se eu vencê-la, tudo estará seguro.

“Venha! Vamos brincar!”

Espere só mais um pouco, Ryoka!

Mesmo no estado em que se encontrava, Masaya avançou com todo o vigor para cima de Antonia, atacando o rosto dela diretamente—

Ou era o plano dele, seu ataque foi redirecionado e atingiu apenas o ar.

Essa brusca mudança o deixou totalmente aberto, o que obviamente não seria desperdiçado por Antonia, que socou o peito de Masaya com toda a força, jogando ele em direção ao limite da [Dimensão Reversa].

Masaya ficou sem ar por um momento, tossindo e com a mão no peito. Quando percebeu, Antonia já estava na frente dele o atacando novamente.

Felizmente a velocidade dela era a mesma que a de Zinon, o que permitiu que ele se esquivasse a tempo.

Ataques diretos não funcionam…!

Masaya saltou para trás e pisou no chão com força, levantando um grande pedregulho, do qual ele chutou em direção a Antonia. Ela vinha caminhando casualmente em direção a ele, sem sequer se dar ao trabalho de desviar, ela viu o pedregulho passar direto por ela.

Eu errei?! Não… Droga!

Ele tentou avançar novamente, dessa vez tentando atacá-la por trás, mas o resultado foi o mesmo. Não só isso, Antonia virou seu corpo e atingiu o rosto de Masaya em cheio com um chute.

Ela não precisava ver o ataque, todos os ataques a erravam. Além disso, seu timing era perfeito na hora de contra-atacar, era como se ela previsse o futuro.

Masaya se levantou e colocou a mão no nariz, percebendo que ele estava sangrando.

Não havia tempo para descanso, Antonia já estava correndo em direção a Masaya, pronta para atacá-lo novamente. Quando ele foi desviar mais uma vez, perdeu um pouco do equilíbrio e sua visão ficou embaçada.

Meu corpo está cedendo…

Todo o dano recebido estava o afetando drasticamente. Ele não conseguiu desviar e Antonia não perdeu a chance.

Um soco na barriga, um soco no rosto, um chute no abdômen e outro nas costas. Por alguns segundos Masaya apanhou sem conseguir reagir.

Ela o pegou pelo rosto e bateu sua nuca no chão com toda a força.

Quando o controle do seu corpo voltou ao normal, já era tarde demais. Antonia havia pegado o seu tornozelo e saltado o mais alto que conseguia o carregando. Já no céu, ela atirou Masaya em direção ao solo com toda a força, causando uma grande explosão na área.

Caído de cara no chão, Masaya já estava sem forças para reagir.

“Masaya!!”

Ao levantar a parte superior do seu corpo, ele viu Ryoka correndo em sua direção.

Mas Antonia apareceu diante de Ryoka logo em seguida.

Ryoka!

“Ei.”

Ela falou com Ryoka em um tom bem humorado.

“…”

Ryoka, em choque, não conseguiu responder.

“Você quer salvá-lo, não quer? Vamos fazer um trato.”

Ryoka ficou confusa com o comentário de Antonia. Já Masaya…

Não… Estou com um péssimo pressentimento…! Ryoka…!

Ele estava tentando levantar seu corpo, um dos seus joelhos já estava no chão.

Meu corpo já não me obedece mais direito…

“Eu farei. Se for para salvar o Masaya, eu farei! O que você quer?!”

Não faça isso, Ryoka!

Ele queria gritar, mas não conseguia.

Pela primeira vez, um sorriso maléfico surgiu no rosto de Antonia.

“Venha comigo. Se torne meu pertence e eu pouparei a vida dele. Nós iremos para bem longe daqui.”

“…”

Claramente espantada, Ryoka não conseguiu reagir a proposta de Antonia.

Até Masaya parou de se mover.

“Não se preocupe, não te maltratarei, muito menos te matarei.”

“… Então porque?”

Respirando fundo, Ryoka perguntou as razões de Antonia.

“Hmm? Isso é óbvio, para observar como a mente daquele jovem se quebrará e se reconstruirá hehe.”

Anormal.

A garota era claramente perturbada. Tudo que ela fez, faz e fará é simplesmente para estudar a mente humana.

“Eu…”

Ryoka já estava decidida sobre o que fazer. As palavras que ela ouviu naquele sonho vieram a sua cabeça.

Recuse, Ryoka! Se lutarmos juntos conseguiremos vencer, sem duvidas!

“Tudo bem… Eu aceito.”

Masaya estava incrédulo, sua boca permanentemente aberta.

Por quê?

Por quê…?

É por eu ter sido incapaz de te proteger?

Não… Não é isso…

Ryoka…

“Hehehehe. Trato feito então. Vamos indo?”

As duas deram as costas para Masaya e começaram a andar, se afastando mais e mais.

As lembranças do dia em que viu seu pai sendo levado voltaram a sua cabeça.

Ela está se sacrificando por mim. Para me salvar. Pela justiça que ela acredita.

“PAREM!!”

Dando um forte grito e um violento soco no chão, Masaya forçou as duas a pararem.

Mesmo no limite do limite, ele se levantou mais uma vez.

As duas garotas olharam para ele. Uma com grande interesse, outra com grande tristeza.

“Masaya… Pare, por favor…”

O pedido de Ryoka entrou por um ouvido e saiu por outro. Masaya respirou fundo e gritou…

“Cale-se, Ryoka!”

“Eh?”

De todas as coisas que ela esperava ouvir, essa não estava nem sequer listada.

Com suas roupas sujas e rasgadas, Masaya removeu a sua gravata. Sua blusa já estava aberta, todos os botões já haviam arrebentado durante a luta. Ele só precisava estar o mais confortável possível.

“Eu não dou a mínima para seus ideais ou qualquer que seja a justiça estúpida que você encontrou! Meu trabalho é um e único… Te proteger!”

Conveniência ou não, o papel de guarda-costas que Masaya recebeu de Daisuke veio a calhar no último momento.

“Mas…”

“Não é só meu trabalho! Meus sentimentos também! Você é a coisa mais importante que eu tenho hoje, definitivamente não permitirei que tomem você de mim!”

O rosto de Ryoka corou após tal afirmação, seu coração batia violentamente. O velho conflito entre a lógica e os sentimentos fez Ryoka hesitar.

“Woah! Não esperava um discurso desses!”

Antonia bateu palmas novamente para Masaya e se colocou na frente de Ryoka.

Fuu… Essa gritaria me custou mais energia do que eu esperava. Agora…

A última parede diante de Masaya.

Eu queria dizer algo legal como “mesmo que eu perca meu corpo, jamais permitirei ferir aqueles que amo”, mas eu não posso me sacrificar aqui.

Lutar por minha família, as pessoas mais queridas para mim. Mas ao mesmo tempo lutar por mim mesmo, não é mesmo, mestre?

“Venha, vamos acabar com isso de uma vez!”

Com um sorriso assustador no rosto, Antonia avançou em direção a Masaya.

“Hehehehehehehe”

Antonia começou a atacar Masaya descontroladamente. Ela não tinha com o que se preocupar, afinal.

Masaya estava desviando facilmente de todos os ataques. Mas quanto mais ele esticava a luta, mas difícil de se manter de pé ficava.

“Huh?”

Enquanto tentava atingir Masaya, Antonia viu ele desaparecer completamente da sua vista.

Ele reapareceu alguns metros atrás dela e começou a correr.

Correndo em alta velocidade, ele formou um circulo cujo Antonia era o centro dele.

“Hehh, acha mesmo que isso vai funcionar?”

Antonia parecia bem confiante.

Todo e qualquer ataque eu direcionar a ela será desviado. Após atacá-la por trás eu percebi… Ela consegue manipular o subconsciente, por isso é impossível atingi-la. Não é que o ataque muda de direção, ela nos força a errar nossos próprios ataques…

Nesse caso…

A velocidade de Masaya aumentava mais e mais.

O nível que eu atingi quando derrotei Zinon, preciso alcança-lo novamente… Não, preciso superá-lo!

Quanto mais rápido ele se movia, mais seu corpo doía.

Ele teria no máximo a chance de mais um ataque.

Se o ataque falhar ou não for o bastante para derrotar Antonia, tudo estará acabado.

Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido!

Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido!

AGORA!

O círculo foi quebrado e Masaya avançou com toda velocidade em direção a Antonia.

Ela sequer estava o enxergando. Não era necessário. O ataque de Masaya será desviado pelo próprio subconsciente dele—

Quando Antonia percebeu, ela apenas sentiu a dor se espalhando por todo seu corpo.

Um chute certeiro atingiu o corpo dela.

Ela pode programar nosso subconsciente a nunca atingi-la… Mas ela não pode prever o futuro.

Nossas ações são alteradas sem nós percebermos.

Mas—

Rachaduras se espalharam por toda a dimensão.

Ryoka viu algo de outro mundo. Uma visão impossível.

A dimensão foi destruída na força bruta.

Antonia foi lançada a vários metros de distância. Por grande parte da força ter sido gasta na dimensão em si, ela não foi jogada tão longe.

Mudar nossas ações, ou realizar uma determinada ação, não significa que ela certamente será concretizada.

Se minha velocidade de movimento for alta demais, será impossível mudar o curso do meu ataque.

Entretanto, com grande dificuldade, Antonia se levantou.

Masaya estava perplexo.

“Hehe…”

Não existe mais espaço  para continuar a luta. Masaya está de pé agora, mas se ele se mover mesmo que um centímetro, seu corpo cairá.

“Você se superou. Observar sua mente valeu muito a pena hehe…”

Masaya não sabia o que dizer, então apenas esperou.

“Mas… Não há muita felicidade te esperando adiante.”

Naquele momento, Ryoka havia se aproximado de Masaya e apoiado o corpo dele.

“Vocês dois… Ideais opostos… Talvez vocês não entrem em conflito entre si… Mas sem duvidas entrarão em conflito com a história que estão criando.

Alguém que luta por vários e alguém que luta por poucos lutando juntos só pode terminar em tragédia.”

“…”

Masaya não entendia totalmente o que ela estava falando, mas algo dentro dele o fazia concordar um pouco com ela.

Não é como se ela conhecesse os dois o suficiente para fazer afirmações desse tipo. Mas ele sabia que devido ao poder dela, era bem provável que esses comentários que ela está fazendo sejam baseados em algo que só o poder dela consegue enxergar.

“Eu gostaria de observar a reação de vocês para o que ainda está por vir nos seus futuros, hehehe…”

Antonia então caiu de joelhos e logo em seguida de cara no chão.

“Acabou…”

Todos os ferimentos no corpo de Antonia desapareceram completamente, o mesmo já havia acontecido com Zinon.

Mas Masaya…

“Masaya!”

Usando Ryoka como apoio, Masaya deixou seu corpo cair.

Porque os ferimentos dele não sumiram?!

Por conta da destruição irregular da [Dimensão Reversa], os danos causados em Masaya não foram revertidos.

Aquela batalha. Aquela noite. Definitivamente ficaria marcada no corpo de Masaya para sempre.

 

Após aqueles eventos, Ryoka conseguiu ajuda para carregarem Masaya, Antonia e Zinon.

Quando questionada pelo seu pai, Daisuke, ela inventou uma história dizendo que precisou ir na casa de uma amiga e levou Masaya junto, mas que se distraiu na rua e quando ia ser atropelada, foi salva pelo Masaya que sofreu o atropelamento no lugar dela.

Graças a esses eventos, Daisuke deixou Ryoka ficar com Masaya no hospital ao invés de irem para a festa.

Quando diagnosticado, relataram que Masaya sofreu ferimentos gravíssimos. E que era um milagre ele ter sobrevivido.

No dia seguinte—

“Ei, Ryoka. Acorde.”

“Umm…”

Ryoka foi chamada, depois sacudida. Então foi obrigada a abrir os olhos.

“… M-Masaya?!”

Ela ficou surpresa ao ver Masaya sentado na cama. Ela estava sentada em uma cadeira do lado dele, mas acabou pegando no sono.

“Isso está ficando rotineiro, não acha?”

Masaya se referia a um dos dois desmaiar, e o outro tomar conta.

“Haha… Mas mais importante, você está bem?”

“Hmm, meu corpo ainda dói em todos os lugares, mas sobreviverei.”

Ryoka encarou Masaya firmemente por alguns segundos.

“O que?”

“Você disse que ia se cuidar para não se ferir tanto!”

“Err… Não é como se eu tivesse alguma escolha…”

“…”

“…”

Um silêncio tomou conta do quarto do hospital por algum tempo.

“Ei, Ryoka.”

“Diga…”

“Sei que é egoísta da minha parte, mas quero que você evite o máximo possível usar aquela técnica ocular.”

“…”

[Analyzer]. Uma técnica que talvez seja crucial para mudar o rumo de uma batalha, mas o custo dela não é baixo. Uma técnica contraditória, que concede uma visão poderosa o bastante para ver o futuro, mas também consome a visão lentamente até a pessoa ficar cega.

“… Tudo bem.”

Ryoka aceitou o pedido de Masaya.

Ela não pretende parar de usar a técnica, seria ingenuidade demais. Mas ela ao menos tentará deixá-lo menos preocupado.

Após mais algum tempo com os dois em silêncio…

“Ei, Masaya.”

“Hmm?”

“Sobre aquilo que você disse ontem…”

“”Aquilo”?”

“Sim.. Uhm… Sobre eu ser a pessoa mais importante para você…”

“…”

Ryoka estava totalmente corada, olhando de um canto para o outro.

Uma certa tensão se levantou no local.

“… Eu realmente disse aquilo, não disse? Afinal, você é uma grande amiga!”

A tensão que existia no ar evaporou naquele momento.

“Então era isso que você queria dizer…”

“…”

“… I…”

“I?”

Já tremendo, Ryoka se levantou e pegou o travesseiro da cama.

“IDIOTA!!”

E começou a atacar Masaya.

“Woah! Era uma piada! Espere! Me escute!”

Depois de conseguir acalmar Ryoka.

“Hah, eu estava apenas tentando quebrar a tensão, não precisava reagir daquela forma…”

“Hmph. Não é como se eu me importasse!”

Eu chamo isso de se importar multiplicado por 100…

Respirando fundo, Masaya começou a falar sério.

“O que Antonia falou no final continua na minha cabeça até agora…”

“Masaya…”

“Escute, Ryoka. Eu quero te dizer o que eu sinto direito. Mas quero que seja em um momento onde possamos realmente nos focar nesses sentimentos. Eu quero primeiro terminar essa [Guerra Divina]… Você esperaria até lá?”

Ryoka ficou surpresa, ela não esperava algo tão sincero.

“Hmm, não posso fazer nada, não é mesmo? Irei aceitar esse egoísmo seu, fique agradecido.”

A conversa terminou ali, principalmente porque—

“Masaya!”

Ao ouvir alguém vindo correndo pelo corredor e abrindo a porta violentamente, os dois viram uma figura que não esperavam ver tão cedo.

A única coisa que Masaya conseguiu dizer foi:

“Pai?!”

Suguro correu para abraçar o seu filho, que ainda chocado, o abraçou de volta.

Tudo que foi causado pela Antonia se desfez.

Suguro foi solto e seu nome foi limpo como se fosse a coisa mais normal a se fazer. E Suguro disse que havia “voltado de viagem”, o que Masaya sabia que não era verdade.

De alguma forma a realidade foi remodelada, as memórias de todos os humanos normais envolvidos foram alteradas e tudo voltou ao normal.

E então, os dias de grande felicidade daquelas duas famílias voltaram.

 

 

Voltando ao presente…

O [Zenchi Kūkan: Oujibyoubou] desapareceu lentamente, e logo a [Dimensão Reversa] também.

Ryoka suspirou ao cancelar seus poderes.

“Bom, acho que é isso. Essa é nossa história.”

Seira e Julie estavam impressionadas com o que viram.

“Existem alguns motivos para eu ter decidido mostrar essa história a vocês… O primeiro e mais óbvio, é a confiança e afinidade do nosso grupo. Todo mundo tem uma coisa ou outra que gostaria de esconder, mas creio que conhecer a origem do que somos hoje é algo necessário.”

Após uma leve pausa, Ryoka continuou.

“O segundo é para vocês conhecerem melhor o Masaya. E o terceiro… O terceiro foi mais um experimento.”

“Experimento?”

Julie perguntou enquanto virava a cabeça um pouco para o lado, curiosa.

“Eu precisava testar se minhas capacidades haviam evoluído agora que eu posso controlar o [Reisei], e eu estava certa. Eu posso de fato observar o passado, mas antes eu não era capaz de mostrar o que eu via para os outros.”

“Então isso significa…”

“Exato, Sei-chan. É possível aprimorar nossas técnicas para um nível além usando o controle de [Reisei].”

Em suma. Ryoka quis mostrar para Seira, Julie e Kuroshi que ela confia neles tanto quanto ela confia no Masaya, apresentá-lo para eles e testar as possibilidades do controle de [Reisei].

“Eu tenho algumas ideias de coisas que podemos treinar e gostaria de discutir com vocês em breve.”

Enquanto Ryoka discutia tais assuntos com Seira e Julie, Kuroshi estava em silêncio.

“…”

Passado.

Confiança.

Algumas palavras afetaram Kuroshi da maneira errada.

Diante daquilo, sua mente começou a viajar para longe. Bem longe—

“Se continuar assim, elas irão perceber.”

Com um toque no ombro, Masaya trouxe Kuroshi de volta para a realidade.

“Huh? O que você está fazendo, Kuroshi?”

“Eh?”

A pergunta e o rosto confuso de Masaya deixaram Kuroshi sem saber como reagir.

“Você aumentou seu poder para 20%, não? Seus olhos estão vermelhos.”

“Ah…”

Kuroshi deu um passo para trás.

“Kuroshi?”

“Ahaha… É que eu tinha esquecido que eu precisava ir em um certo lugar, então aumentei meu poder para chegar lá mais rápido. Até mais!”

Praticamente fugindo, Kuroshi se virou e se retirou rapidamente.

“O que aconteceu, Masaya? Porque Kuroshi foi embora sem falar conosco?”

Notando a estranha situação. Seira perguntou.

Masaya pensou em simplesmente falar o que aconteceu de fato, mas algo dizia que era melhor não falar sobre isso por enquanto.

Pensando em uma maneira de livrar Kuroshi sem comprometê-lo, Masaya respondeu:

“Hmm… Dor de barriga, eu acho?”

PARAGOBALA 25 – Subodai vs Índio

PARAGOBALA 25 – Subodai vs Índio


Pouco mais de 1 mês depois

Era mais uma noite quente e úmida na floresta quando Índio finalmente chegou ao seu destino: a Cabana. Deitou-se no chão e olhou as estrelas, satisfeito. Havia atravessado uma grande distância a pé, e teve o cuidado de sempre apagar sua trilha e criar rotas falsas para qualquer perseguidor, o que lhe custou muito tempo. Seu braço ostentava mais duas marcas novas, vigias Kaapors que tinha encontrado no caminho. Foi até o pequeno depósito que ficava escondido perto da construção que abrigava J.B, e pegou a comida que era coloca ali semanalmente para o gigante. Geralmente caçava o que comia, mas estava cansado. Comeu até se fartar, o que não significava grande quantidade, pois estava acostumado a sobreviver com pouquíssimo alimento, e foi buscar um colchão velho que usava para dormir.

Acordou rejuvenescido e se sentindo inteiro novamente. Pegou o seu facão e treinou alguns golpes básicos no ar, um ritual que repetia quase todos os dias. Sabia que tinha que preparar a fogueira para chamar os seus companheiros e reportar tudo o que passou para o Doutor, mas faria isso apenas mais tarde. Não estava preocupado e nem se perguntava porque a polícia estava atrás dele, além de não sentir ansiedade ou pavor por estar na lista negra da tribo Kaapor. Fez todas as suas atividades com naturalidade e pouca preocupação.

No fim da tarde, pegou alguns galhos, montou uma fogueira, e depois do fogo aparecer, jogou a erva que gerava a fumaça branca. Logo os seus companheiros veriam o filete de mancha branca no céu e se dirigiriam para lá. Estava sentado das chamas quando ouviu um som vindo da mata. Imediatamente se levantou, com a faca em punho. Viu um homem sair de trás das folhas. Ele tinha pele clara, cabelo ruivo e olhos negros. Usava um colar e alguns ornamentos nas mãos e nos pés. A roupa parecia típica Kaapor, mas era mais elaborada. O saiote era um pouco mais comprido que o tradicional, e tinha mais detalhes e ornamentos. “Como ele me seguiu até aqui” – pensou.

Seus olhos percorreram todo o corpo da figura, e ele não encontrou nenhuma marca ou grande cicatriz, a pele era lisa. Parecia ser jovem, e sem muita experiencia. Índio caminhou até ficar na frente do intruso, a distância de não mais que 7 metros. O sujeito era um pouco mais alto que ele, e logo abriu a boca:

– Vim em nome da tribo Kaapor. Nosso líder exige sua presença para lhe aplicar a punição devida pelo crime de assassinato e invasão de território proibido.

Índio sorriu.

– Eu me recuso.

– Eu conheço sua fama, exilado. Você não tem chance contra mim em uma luta. Existe um abismo de diferença entre nossos treinamentos.

O sorriso aumentou no rosto de Índio. Já tinha escutado aquela conversa outra vezes, e o final era sempre igual: um corpo estendido na sua frente. Jovens arrogantes eram suas vítimas preferidas.

– Eu já matei homens melhores do que eu – disse.

– Mas nenhum melhor do que eu – respondeu Subodai, com convicção.

Após um silencio tenso, o jovem falou:

– Então é isso.

Subodai fechou os olhos por um instante, e quando os abriu, avançou em direção ao seu inimigo. Executou 3 ataques rápidos com o seu facão. Índio se defendeu do primeiro com a sua arma, e desviou dos outros dois. Subodai deu um pulo para trás e se afastou. Traçou uma linha no chão. Depois, ergueu sua faca, e a apontou horizontalmente para Índio.

– Já matei homens que lutavam como você. Lutadores que são espertos e experientes. Esperam os adversários atacar e no momento certo contra atacam e vencem.

Índio cerrou os olhos e analisou o seu adversário mais uma vez. O ataque que acabará de receber não o impressionou. Estava ansioso para fazer uma marca nova no braço.

– Isso é uma estratégia para lutadores inferiores, retomou Subodai. Quando eu ultrapassar essa linha no chão, eu vou te atacar. E vou te massacrar. Te atacarei de uma maneira que você nunca viu. Sua defesa não vai aguentar. Vou te cansar, vou te cortar, vou te machucar e vou te humilhar. Ou você pode largar a sua arma e se render. Te levarei até a aldeia e lá você poderá se defender – disse calmamente.

Índio não pensou duas vezes e respondeu:

– Então venha.

E Subodai foi. Correu até entrar na área de alcance dos golpes e começou a atacar. Seus movimentos eram limpos e rápidos. Um observador poderia até chamá-los de plásticos. Mais uma sequência de 3 golpes, o primeiro central, e os subsequentes laterais. Índio conseguiu defletir os 3, mas o seu atacante continuou. Atacou com um movimento pesado, vindo do alto, na diagonal. Após o contato com o facão de Índio, Subodai puxou a sua arma com extrema rápidez, e deu uma estocada. Índio pulou para trás instantaneamente. Quando aterrissou, percebeu um pequeno corte na barriga. Se preparou para sorrir e troçar de seu adversário, mas não teve tempo. Subodai já havia se aproximado mais uma vez, e continuou a série de ataques. Dessa vez, foram 7 golpes sem descanso. Índio defendia ataque após ataque, e não conseguia enxergar uma brecha para contra atacar. Os ataques eram rápidos demais, e vinham em ângulos difíceis. Depois do sétimo golpe, Subodai deu um passo para trás, e um segundo depois, se aproximou novamente para outra série de ataques.

Índio teve que se concentrar muito para ver cada golpe. Seus olhos estavam fixos na espada e no pulso de seu inimigo, e reagia instintivamente a cada ataque. Conseguia ver a trajetória de cada golpe instantes antes deles chegarem, e os bloqueava sempre a tempo. Os golpes vinham de cima, de lado, de frente. Veio outro golpe da esquerda, e então ele sentiu uma pancada no lado direito de seu rosto e caiu no chão.

Caiu assustado, piscou, e engatinhou para trás. Olhou a frente e só via Subodai, parado, com o seu facão erguido. Se levantou e caminhou para trás. Entendeu o que tinha acontecido. Ele havia se concentrado tanto em defender o seu flanco esquerdo de uma série de ataques, que ficou vulnerável a um soco do inimigo.

– Já percebeu que você não vai conseguir me vencer? – disse Subodai, que avançou outra vez.

Índio voltou a se defender e esquivar, esperando por uma brecha. Mas não estava dando certo. Subodai atacou na direita, e em seguida conseguiu fazer uma estocada na esquerda. Índio deu um passo lateral, mas não saiu impune. Tinha sido cortado mais uma vez. Subodai seguiu atacando, e Índio recebeu mais um corte, dessa vez no ombro. E depois no ante braço, na perna, no peito e outro na cintura. Agora, já ofegava.

– Contra atacar pode funcionar contra adversários ligeiramente melhores que você. Mas não é o caso. Eu sou muito melhor do que você. A diferença entre nossa técnica é enorme. Você não tem habilidade o suficiente para propor uma luta a mim. Vai se defender pateticamente até eu resolver te matar.

Subodai de um passo para atacar outra vez, e então, dessa vez, Índio também deu um passo, tentando surpreender com uma estocada inesperada. Subodai encolheu seu braço, deu um passo lateral e defletiu o facão de índio para o outro lado. Com isso parte do corpo dele ficou exposta, e Subodai não perdoou. Executou um golpe vertical, em toda lateral de tronco de Índio, que gritou ao receber o corte.

– Eu consigo ver todos os seus golpes.

Subodai avançou. Levantou o seu facão e deu um golpe poderoso, vindo de cima para baixo. Índio virou o seu Facão na horizontal para amortecer o golpe. Mas estremeceu e escorregou e dobrou um joelho. Subodai deu um sorriso triunfante, e Índio pensou “isso!”. Fingir um escorregão era uma um movimento que ele usava com frequência e já o havia salvado muitas vezes.

Subodai atacou com volúpia, e, pela primeira vez, Índio viu uma brecha. Gritou e repentinamente deu uma estocada com a sua faca, no peito desprotegido de seu atacante. E então seu Facão voou de sua mão. Atônito, percebeu que havia caído em uma armadilha. Subodai nunca esteve vulnerável, e havia se preparado para defender um golpe, e não finalizar a luta.

De joelhos, ele olhou aquele homem, de expressão fria e cabelos vermelhos. E pela primeira sentiu algo diferente. Era medo. Ele já havia estado naquela situação dezenas de vezes. Porém do outro lado. Dessa vez, ele era a presa indefesa.

Desesperadamente, Índio caminhou para trás e quando vez menção de correr até sua faca, levou um chute no rosto e caiu. Se levantou no mesmo instante e caminho de quatro, como um animal. Não se conteve, e virou o rosto para olhar para trás e procurar alguma saída.

– Homens que se guiam puramente pelo instinto nunca vão me vencer. Seu instinto lhe disse que era a chance de me matar?

Índio calculava o que fazer naquele momento. Não carregava consigo nenhum valor de honra, e sairia correndo na primeira oportunidade. No entanto, não achava que conseguiria fugir daquele homem. Mas algo o contagiou, mais um sentimento que ele desconhecia: ele não queria morrer. Queria sobreviver e lutaria até o fim pela sua vida.

Um estrondo fez Subodai olhar para trás, e viu um homem gigante correndo sua direção. Deu um pulo para o lado, e por centímetros conseguiu desviar da investida. A criatura se virou e tentou lhe acertar com um soco, e Subodai mais uma vez desviou do ataque com uma esquiva. Continuou se afastado, com dificuldade, enquanto recebia os golpes. A explosão muscular do agressor era impressionante. “Mesmo com todo esse tamanho, ele é rápido demais”. A cada golpe que se livrara, sentia que estava mais perto de ser acertado. Veio mais um golpe, e então Subodai de um passo a direita e contra atacou com sua faca, fazendo um corte no braço do monstro. Para sua surpresa, foi como se o inimigo não tivesse sentido o ataque, e usando o próprio braço ferido, deu um empurrão no guerreiro Kaapor, que foi lançado para trás e por pouco não caiu no chão.

Subodai não lembrava da ultima vez que foi tocado em uma batalha. Com um grito, J.B avançou novamente, com seu ombro à frente. O índio deu um giro e fez outro corte no gigante, agora nas costas. Mais uma vez, a criatura não parou e seguiu atacando, sem descanso. O Kapoor sabia que caso fosse acertado e perdesse o equilíbrio, poderia morrer. Percebeu que Índio se movia discretamente, e estava em busca de uma brecha para mata-lo. J.B tentou um chute, e Subodai desviou com uma cambalhota, aproveitando para fazer um corte em sua perna plantada no chão. Nem isso diminuiu o movimento da criatura. “Esse monstro parece imune aos meus ataques. Mas não passa de um homem forte.” Na nova investida, conseguiu outra vez girar, e dessa vez mirou atrás do joelho. Dominava a arte de machucar o corpo humano, e sabia os botões exatos para fazer cada parte dele parar de funcionar. J.B gritou e quando tentou correr, mancou e o seu joelho dobrou. Teve que apoiar a mão no chão para não cair, e Subodai viu a chance de atacar o seu pescoço. Nesse exato momento, Índio deu uma avançou por trás. O seu braço estava todo estendido, e só tinha acertado o ar. Subodai estava ao seu lado, com um sorriso triunfante. Segurou o pulso do braço de Índio e o puxou para baixo ao mesmo tempo em que deu uma joelhada. Índio gritou depois do estalo no osso, e soltou o seu facão. Com a empunhadura da faca, acertou a nuca, e o homem a sua frente caiu.

J.B estava arrastando uma perna, vindo em sua direção. Subitamente, ambos foram iluminados por um faról de carro. Um homem saiu do veículo com uma pistola apontada para Subodai, que rápidamente se agachou e puxou o corpo de Índio para sí. O segurava, com a faca colada na sua garganta.

O homem que veio do carro chegou mais perto, e disse:

– Você é o da tribo Kaapor, não? Solte o meu companheiro.

Subodai deu um riso de escárnio.

– Arrisque o tiro.

Bal ficou observando a cena por alguns instantes, e depois abaixou a arma.

– Me leve ao seu líder. Tenho uma proposta para vocês.

Após nenhuma resposta, continuou:

– Eu trabalho com o promotor da cidade. Posso ajudar os Kaapor.

A feição do rosto de Subodai mudou.

– O que oferece? – perguntou.

– Sou assistente dele. Acompanho de perto tudo que ele faz, e tenho sua confiança. Posso passar a vocês informações sigilosas e avisar de qualquer movimento que ele faça.

Subodai ficou em silêncio por alguns instantes.

– Abaixe sua arma. Se você for digno, talvez possa ter um encontro com Kerexu.

***

Os dois seguiam Subodai mata a dentro, estavam com as mãos amarradas nas costas, e Índio caminhava com alguma dificuldade. Subodai havia feito um curativo na perna de J.B, que ficou deitado repousando na cabana. Havia prometido enviar um curandeiro até lá caso o acordo de Bal tivesse sucesso.

– É bom te ver vivo – disse Bal a Índio.

– Não sei por quanto tempo – respondeu.

– Confie em mim. Dará tudo certo.

Índio assentiu e confiou em seu líder. A única pessoa que Índio seguia e acreditava. Percebeu no rosto do Doutor uma determinação que não via a algum tempo.

– Como foi a perseguição da polícia? – quis saber Bal. Aquele era um mistério que ele havia se esforçado muito para desvendar no último mês. Julgava já entender tudo e queria confirmar a história.

– Eu estava na rua, e a polícia apareceu querendo me levar. Fugi de moto até a floresta. Fui perseguido por Kaapors, os matei, e depois fugi, até chegar aqui na cabana. Apaguei todo o meu rastro…mas não adiantou nada – resumiu rapidamente.

Bal sabia que dificilmente Índio daria mais detalhes. O seu companheiro enxergava qualquer evento com simplicidade. A versão do amigo bateu com tudo que tinha descoberto. Sua confiança de que o acordo daria certo aumentou.

O progresso dos três não era rápido. Índio tinha dificuldades para caminhar, e em determinado ponto, Subodai parou e disse:

– Vamos descansar aqui por um tempo, depois retomamos a caminhada. Sentem ali e não se mexam.

Saiu da vista da dupla e desapareceu.

– Posso soltar as nossas minha amarras, Doutor.

– Não. Mesmo se matássemos esse homem, os Kapoors continuaram vindo atrás de nós. É uma briga que não podemos vencer. Eles são muitos. Usaremos outra abordagem.

Pouco tempo depois, o Kaapor retornou com alguns galhos na mão. Colocou os no chão, e depois pegou um isqueiro na sua bolsa para acender a fogueira.

– E eu achando que veria como um legítimo índio acende uma fogueira – troçou Bal.

Subodai apenas o olhou e não respondeu nada. Levantou e entrou na mata outra vez. Retornou um tempo depois com duas cobras mortas na mão. As colocou no solo, pegou o seu facão e removeu a cabeça dos animais mortos. Em seguida, cuidadosamente retirou a pele delas e as cortou ao meio. Descartou algumas partes dos bichos e separou a carne, que espetou em um graveto. O deixou acima do fogo por algum tempo e o puxou. O levou até perto de Bal e falou:

– Essa é sua comida. Coma.

– Você vai dar de comer na minha boca? – riu.

– A viagem é longa. Morda a carne ou vai ficar sem nada.

Bal assentiu e mordeu a carne branca. Escondeu todo o seu receio, pois não queria demonstrar fraqueza. O gosto foi surpreendentemente bom. Depois de acabar de comer o pedaço, o Kapoor também alimentou Índio, que comeu sem dizer nada. Após a refeição, Subodai os instruiu a dormir um pouco, e ambos deitaram na própria mata.

Era escuro quando eles voltaram a andar, e foram guiados pela luz forte da lanterna que Subodai segurava.

– Conhece esse homem? – perguntou Bal a Índio.

– Nunca o vi antes – respondeu o lacônico companheiro.

O Doutor estava analisando o sujeito desde que o tinha visto pela primeira vez. Fisicamente era diferente dos índios. Um pouco mais alto. Cor da pele, cabelo e olhos diferentes do habitual. Alguns traços ainda lembravam os outros Kapoors que ele já tinha visto. Concluiu que era um mestiço. Era alguém altamente treinado e preparado. Um guerreiro de elite. Não tinha visto a luta dele contra Índio e J.B e não sabia se tinha sido uma emboscada ou um confronto direto. Não achava que alguém poderia vencer os dois em uma luta. Seu colega não era conhecido pelo orgulho, mas Bal sabia que ele gostava da sensação de ser superior às suas vítimas, por isso evitou perguntar sobre o combate.

Em determinado ponto, Subodai amarrou tiras de pano ao redor da cabeça dos dois, para bloquear a visão. Bal teve alguma dificuldade em andar, e Índio se adaptou rapidamente. Subodai os guiava, indicando o caminho e avisando o momento de parar ou quando existia um obstáculo a frente. O Doutor não fazia ideia de quanto tempo já estava andando, mas se sentia cansado. Não estava acostumado com o calor da selva e nem a caminhar distâncias tão grandes. Sem poder enxergar, perdeu a noção do tempo.

Quando a faixa do removida da sua vista, o céu estava mais claro. Bal presumiu que era o início do dia, por volta de 5 ou 6 da manhã.

– Esperem aqui, disse o Índio ruívo.

Os dois sentaram e relaxaram. Mais de uma hora depois, Índio levantou a cabeça e olhou para os lados.

– O que foi? – perguntou Bal.

– Estão vindo. Muitos.

Ele começou a olhar ao redor, buscando uma saída.

– Vamos esperar. – disse o Doutor ao perceber a movimentação de Índio.

10 índios armados com arcos e flechas apareceram na frente dos dois. Bal ouviu ruídos as suas costas, e imaginou que existiam vários outros escondidos ao redor deles. Um dos índios tomou a frente e falou:

– Vamos ver se você merece falar com o nosso líder, homem da cidade.

Eles seguiram o grupo, e depois de uma caminhada, finalmente era possível ver ocas ao longe. Enfim, estavam na aldeia. Um índio apareceu por trás da dupla e soltou as amarras.

– Você vai enfrentar um dos nossos. Se vencer, pode falar com Kerexu.

Bal titubeou. Não estava esperando esse tipo de coisa. “Tinha pensado que esses índios eram minimamente racionais, mas não passam de um bando de selvagens!” pensou com raiva.

Foi caminhando até o local apontado, e viu que um grande círculo foi formado, por dezenas de índios. “Será que finalmente encontrei o meu fim? Não há muito a se lamentar”.

Um índio musculoso e alto apareceu na frente de Bal. Estava a 20 metros de distância. Apesar do receio, a expressão do Doutor era de confiança. Assim que percebeu quem era o seu adversário, começou a escrutina-lo com sua visão. Pouco prestou atenção nos rituais ao redor ou a um juíz dando início a batalha. Sua mente estava focada no homem, que agora corria em sua direção. Bal permaneceu imóvel. O índio estava agora a poucos metros de distância, quando deu o impulso final para pular. O Doutor percebeu a intenção instantes antes e pulou para trás. O grandalhão agarrou apenas o ar, e Bal emendou uma cotovelada no supercílio, antes de se afastar mais uma vez. O seu adversário atacou com uma sequência de socos, que foram aparados pelos braços de Bal em posição de guarda. Ainda assim cada pancada doia. No quinto soco, ele conseguiu se agachar, e contra atacou com um soco nas costelas do selvagem, que aparentemente não se abalou pelo golpe, tentando mais uma vez agarrar Bal. Outra vez o golpe falhou. Bal conseguia ler aquele homem sem problemas. Durante toda sua vida, Bal sempre se envolveu em brigas, na escola, na rua, nos bares. Nunca foi o mais forte, o mais corajoso ou mais rápido. Nunca tinha treinado artes marciais. Mas geralmente levava vantagem, mesmo contra adversários maiores. Ele sempre teve facilidade para prever os movimentos dos seus inimigos, e com o tempo, foi aprendendo os pontos mais frágeis do corpo humano. Seu soco podia não ser o melhor, mas ele sabia onde aplicá-lo. Após mais um agarrão frustrado do índio, Bal deu um chute no mesmo ponto do corpo que havia socado antes, na costela. O homem recuou e ficou mais cauteloso.

– Está doendo? Vai quebrar já já – disse Bal.

O comentário irritou o homem que se aproximou. Bal ameaçou socar a costela uma terceira vez, e o Índio se protegeu. Foi o seu erro. O ataque era uma falso, e a defesa precipitada abriu uma brecha, que foi muito bem explorada. O Doutor lhe acertou uma joelhada no meio das pernas, e o índio gritou de dor. Em seguida, puxou sua nuca em direção seu outro joelho, usando toda força que tinha. Por fim, vendo o adversário de joelhos e sangrando, desferiu socos no seu rosto. O homem caiu desacordado.

Ouviu gritos ao redor. Alguns apontavam para ele e tinham expressões agressivas. Outros batiam lanças no chão. Logo alguém puxou o seu braço e o levou para fora do círculo. Bal foi escoltado por mais um tempo, até ficar na frente de uma grande oca. Ela era guardada por dois Índios grandes, ainda maiores do que o seu adversário na luta. Cada um segurava uma lança, e contavam com um facão preso na cintura. O índio ao seu lado falou:

– Entre. Kerexu o espera.

PARAGOBALA – Capítulo 24 – Preparativos

Capítulo 24 – Preparativos

– Mas como vamos fazer isso funcionar, Vincent? Vou atuar nas sombras, investigando sozinho? Quer que eu monte uma equipe?

– Eu estava pensando em algo mais ousado amigo. Você vai trabalhar como delegado. Oficialmente.

– Como!?

– Vamos inserir a nomeação no diário oficial.

Nathan riu.

– Isso não pode dar certo… – parou de falar, olhando fixamente para frente, tentando imaginar como o plano poderia se concretizar.

– Já tenho tudo planejado. O salário não vai cair na sua conta, claro, mas me comprometo a te pagar o salário de um delegado. O que importa é que você vai assumir o comando da delegacia, e vamos ter recursos e mão de obra para alcançar nosso objetivo. Tenho amigos importantes em cargos importantes. Te protegerei a qualquer custo e…

– Pare com essa bobagem irmão. Eu estou aqui para vingar Victus e dane-se as consequências. Vou com você até o fim. Agora, me passe tudo que você tem, e me relate tudo que descobriu até agora.

***


– Senhor, já estabelecemos um novo chefe para o tráfico. Será conhecido como Xingu. Homem nosso, inteligente e leal. Tivemos sorte que muitos concorrentes acabaram se matando…foi mais fácil que o esperado. Logo agendaremos a primeira reunião com a polícia e estaremos operando com total capacidade.

– Muito bem Kiary. Conduziu muito bem nossa reconquista. Continue me informando semanalmente do andamento.

– É uma honra, senhor – disse Kiary, emocionado com um mero elogio do Chefe da tribo.

Após a saída de Kiary, Kerexu se levantou e saiu da oca, marchando em direção a floresta. Dois Índios altos e fortes, acima da média da tribo, seguravam lanças e o seguiram à distância de alguns metros. Eles ficavam o tempo inteiro na frente de sua oca, e o acompanhavam a qualquer lugar. Em certo ponto, Kerexu parou, e fez um sinal para eles voltarem até a aldeia. Os dois homens não titubearam e obedeceram. As ordens do chefe eram absolutas.

Kerexu caminhou mais um pouco, observando as árvores, até chegar em um tronco caído e sentar. Instantes depois, 5 pessoas apareceram, como se fossem teletransportadas para aquele local. Alinharam-se à sua frente e fizeram uma grande venia, apoiando um dos joelhos no chão.

– Levantam-se. O trabalho de vocês, como sempre, foi exemplar na cidade. Já colocamos um novo homem forte no controle da venda de drogas em Paragominas, e nem mesmo o comandante da operação desconfia que estavam atuando. Com esse obstáculo removido, podemos avançar.

Subodai, Tolui, Batu e Sorhatani se levantaram, eretos em posição impecável, aguardando as ordens.

– Um incidente infeliz ocorreu a algum tempo atrás. O exilado invadiu o território Kaapor, fugindo da polícia, que também transpassou o limite, e foram impedidos pelos nossos guardas de fronteira. Não sei como, mas no meio deles tinha um exaltado promotor, que teve de ser contido a socos. Certamente isso terá uma volta. Esse tipo de gente se acha acima de muitas coisas, principalmente de nós, os nativos. Um grupo está perseguindo o exilado. Certifiquem-se que ele foi capturado ou morto. E investiguem quem é esse promotor e se ele pretende fazer alguma coisa contra nós.

Kerexu fez uma pausa, inclinou a cabeça para frente, e continuou a falar:

– E tem mais um assunto que me preocupa. Alguém estava bancando Bezerro do Acre. Descubram.

Depois de uma batida de coração, os 4 já não estavam mais à vista.

***

Bal acordou assustado e se levantou rapidamente. Olhou ao redor, não reconheceu a sua casa, e começou a relembrar sua noite anterior. Sorriu ao ver Rosemari, nua, dormindo na cama. Se vestiu e saiu da casa, sem se despedir. Tinha muito o que pensar. Sabia que aquilo não era certo com a sua namorada, Clara, mas não conseguia se sentir mal por isso. A noite tinha sido fantástica. Muito melhor que o sexo com a inexperiente companheira. Rosemari era uma mulher de verdade, que sabia muito de como dar prazer a um homem. Uma autêntica fêmea. Ele queria transar com ela mais mil vezes. Bebeu uma garrafa de cerveja para dar uma apaziguada no turbilhão de pensamentos em sua cabeça e se preparou para ir trabalhar.

– Como foi sua conversa com a sua amiga?

A pergunta rompeu a concentração de Bal, que já estava trabalhando em um processo desde que chegou, a mais de uma hora. Virou a cabeça na direção de Agha, sem ter uma resposta.

– Conversam muito ontem, a noite e sozinhos? – insistiu o estágiario.

– A noite foi boa, e não te interessa.

– Pela sua cara a conversa foi boa mesmo.

Bal se levantou, irritado e apontou o dedo:

– Eu sou um homem! Sou homem. Faço coisas que homens fazem. Pare de me julgar.

Agha respondeu de bate pronto com uma coragem inesperada:

– Só se for homem sem caráter.

– Seu moleque, você não sabe nada sobre a vida adulta. Não me conhece, não sabe o que eu faço pelas pessoas! Eu ajudo um orfanato! As crianças de lá me adoram.

– Até um relógio quebrado acerta duas vezes por dia.

Bal fez um esforço para se controlar e sentou-se novamente. “Como esse garoto consegue me tirar do sério dessa maneira? Quem é ele perto de mim”.

– Fique com os seus pensamentos, e eu fico com os meus – concluiu Bal.

– Eu te avisei ontem o que iria acontecer.

– O que aconteceu ou não só diz respeito a mim.

– E a sua namorada também, não?

Bal rangeu os dentes, e não sabia o que responder.

– Eu tenho mais o que fazer! – e levantou-se e saiu da sala.

Ele não tinha realmente nada para fazer. Caminhou pelo fórum tentando esfriar a cabeça e refletindo sobre Clara. “No final das contas, só fiz mal a essa garota. É óbvio que eu não sirvo para nenhum tipo de relacionamento”.Depois de bater perna sem destino pelos corredores do edifício, chegou até a sala onde costumava trabalhar antes de virar assistente de Vincent e viu que as pessoas estavam entretidas em uma conversa. Mais precisamente, fofoca:

– “Dizem que o promotor estava perseguindo o bandido junto dos policiais…!”.

Quando perceberam que Bal estava na sala, se silenciaram e olharam.

– Bal! Como vai? Faz tempo que não vem aqui – disse João, um escrevente do fórum.

– Vou bem. O trabalho lá não é moleza, mas não me arrependo da mudança.

– Como é trabalhar com esse promotor? – Perguntou Janaína, que era a colega mais próxima de Bal nos tempos em que ele trabalhava por lá.

– Ah…quando você conhece o homem percebe que não tem nada de outro mundo. É só um profissional que entende do que faz.

As pessoas o olharam com desconfiança. A fama do Pelicano era enorme, e era tratado dentro do fórum como uma celebridade.

– O que sabe desse perseguição que ele se envolveu? Ele te contou alguma coisa?

– Não me falou muita coisa…o que vocês sabem? – perguntou fingindo desinteresse.

– A Joice do outro departamento tem uma amiga que é esposa de um policial. Dizem que o promotor quis comandar pessoalmente uma perseguição a um bandido extremamente perigoso.

– Isso não é atribuição do Ministério Público, deve ser apenas um boato. E o que esse bandido fez?

– Isso ninguém sabe…

Bal terminou a conversa de maneira cordial, e saiu de lá com muito o que pensar. “Achei que Vincent confiava em nós, já que ele nos pediu ajuda no caso do serial killer. Mas não disse uma palavra sobre isso…”. Faria o possível para investigar o caso. O primeiro passo era descobrir quem era essa tal de Joice e extrair tudo que ela sabia. O episódio da perseguição de Índio o corroía por dentro. Não tinha pesar e nem ficava ansioso ao pensar o destino de seu colega. Mas temia que alguma investigação poderia chegar até ele e as atividades do seu bando.

***

Vincent chegou no seu apartamento depois do trabalho, e viu Nathan no sofá, extremamente concentrado, observando diversos papéis espalhados pelo chão. Muitas anotações e uma bagunça generalizada, com direito a folhas coladas na parede.

– Vejo que fez algum progresso – disse Vincent.

– Teremos muito trabalho aqui – respondeu Nathan. Essa tribo Kaapor é muito peculiar. Conheci muitos povos indigenas pela região do Amazonas, mas esses são diferentes. Preciso investigar melhor, no campo. As principais perguntas que temos de descobrir são: 1) Esse suspeito é um índio Kaapor? 2) A tribo compactua com o que ele faz? 3) Se sim, qual seria o interesse dessa tribo em eliminar os bandidos da cidade?. Não sei se tudo isso se encaixa Vincent. Esse bando de justiceiros deve ter deixado mais rastros. Cometido algum outro erro. A partir de amanhã começarei a minha própria investigação.

Vincent assentiu, satisfeito. Ver a determinação de Nathan o revigorava.

– Até semana que vem vou preparar sua nomeação. A polícia daqui é muito corrupta, mas sinto que muito disso era por causa do antigo delegado que partiu.

– Tenho experiência em lidar com corruptos, com um promotor no bolso então, será um passeio no parque, disse sorrindo.

 

Após uma pausa, perguntou:

Vincent, quero saber um coisa de você. Quando acharmos os responsáveis, o que você vai fazer?

O Pelicano ficou em silêncio, e já tinha ponderado muito sobre essa questão. Sabia exatamente o que iria fazer.

– Vou levá-los à justiça. A minha justiça. Os matarei, e não de forma rápida. Está comigo?

Nathan olhou para o seu amigo, com um olhar sério e respondeu:

– Até o fim.

***

Bal chegou em casa animado. Não se passou 5 minutos, e ele estava batendo na porta de sua vizinha. Não teve nenhuma resposta. Incomodado, pegou o celular e mandou uma mensagem. Não conseguiu evitar diversos pensamentos negativos, e em sua cabeça via flashes de imagens de Rosemari com outros homens. Dizia a sí mesmo “pare de pensar besteira. Não tenho motivos para pensar uma bobagem dessas”. Pegou o celular e enviou uma mensagem a ela:

Como vai? Cheguei do trabalho e acho que daqui umas horas estarei livre. Quer fazer alguma coisa?

Antes do esperado, uma resposta chegou:

Olá querido. Hoje não estou em casa. É dia do meu culto. Só voltarei muito tarde. Amanhã nos vemos…ou então toco sua campainha quando eu chegar…se você deixar.

A mensagem deixou Bal excitado. Aquela mulher mexia com ele.

Pode tocar. Caso eu não atenda, é porque dormi, rs.

Imediatamente já começou a relembrar do sexo fantástico da noite passada, e fantasiava como seria o de hoje. O seu celular vibrou novamente, e ele foi ver a resposta de Rosemari. No entanto, a mensagem era de outra mulher: Clara.

Bal, onde está? Não falou comigo ontem. Está tudo bem meu amor? Queria muito ve-lo hoje.

Estou fazendo plantão no trabalho está noite. Marcamos algo para outro dia. Estou muito bem e com saudades.

Escreveu a mensagem quase automaticamente, de maneira fria. Preferia não pensar nas consequências e muito menos nos sentimentos da garota. A única certeza que tinha é que não sairia da sua casa hoje, e aguardava ansiosamente a sua nova amante.

– Muita saúde e muita fé para vocês. Acreditem, as coisas vão melhorar, se vocês acreditarem. Boa noite. E assim, o Pastor encerrou mais um culto, depois de um discurso inflamado. O número de fiéis só aumentava. A igreja já era pequena, e ele planeja a construção de uma nova. No próximo encontro, recolheria mais dinheiro do público, tudo em nome do Senhor. Já mentalizava as palavras, e explicaria como era importante para Deus a criação de uma igreja maior. Sua linha de pensamento foi interrompida quando percebeu Rosemari na platéia, e acenou a ela. Pouco tempo depois, ela estava a sua frente.

– Pastor, tenho muito a te contar, e a te agradecer. O senhor é muito sábio.

– Imagina. Eu apenas propago a palavra de nosso senhor.

– Eu confesso que quando me fez aquele pedido achei muito estranho…e até duvidei de você, que Deus me perdoe. Não se deve duvidar de um servo do senhor você. Agora…agora eu entendo.

– Conheceu o seu vizinho?

– Sim…e…nós nos conectamos de uma forma que o senhor não imagina! Não sei como sabia disso…mas parece que fomos feitos um para o outro. Nunca fui tão feliz! Como posso te agradecer, Pastor?

– Não precisa me agradecer…agradeça a Deus. Ele é o responsável por tudo. Eu sou apenas um meio em que ele age. Fico feliz com as suas novas.

Rosemari se despediu e foi embora, alegre. O Pastor a observou caminhar, com olhar fixo em suas nádegas. “ Eu sabia que o meu irmão não iria resistir a essa gostosa. Se já comeu, vai logo largar aquela namoradinha dele. Ele foi sempre muito reticente com essa história de pagar puta…não sabe o que perdeu, são as melhores na cama, e agora ele vai descobrir isso da melhor maneira. Ele sabe ler todo mundo, mas é inocente em relação a si mesmo. Bal, um namorado fiel, haha, faça me rir.”

Tolui examinava agachado um corpo sem vida de um índio Kaapor e disse:

– Esse aqui tem um corte na garganta. Parece que 4 morreram com golpes de Facão. O outro com uma flechada. O exilado é bom.

Subodai andou em silêncio e observou os Kaapors mortos.

– Ele atacou por trás, e primeiro matou esse aqui, falou apontando. Depois avançou contra esse arqueiro, o mais jovem do grupo, que provavelmente errou o tiro e matou aquele ali, que devia ser o segundo melhor lutador do grupo. Matou esse arqueiro e se virou para enfrentar aqueles dois que…tentaram um movimento de ataque duplo. O exilado partiu para ofensiva e matou esse, e depois se envolveu em uma demorada luta contra o líder do grupo, Ru’i, que foi morto com um golpe na nuca. O exilado tem astúcia e teve sorte. Eu vou encontrá-lo e o tratei até Kerexu, vivo.

Batu se virou e disse:

– Você vai sozinho? É melhor pelo menos irmos em dupla para garantir.

– Não. Eu vou sozinho. Começem a investigar esse promotor. Vou seguir essa trilha e em breve o encontrarei. Será interessante.

PARAGOBALA – Capítulo 23 – Fuga na floresta

Capítulo 23 – Fuga na floresta

Índio corria o mais rápido que podia no meio da floresta. Sabia que estava sendo perseguido por vários membros da tribo Kaapor, e se fosse capturado seria morto, pois era a pena destinada aos exilados que voltavam a pisar no território da tribo. Ele sabia que fugir para dentro do território Kaapor foi um movimento desesperado e arriscado, porém foi a única coisa que lhe veio à cabeça durante a perseguição repentina da polícia. Índio nunca foi um homem que pesasse muito as causas e consequências de suas ações. Homens mais ponderados, talvez tivessem se entregado à polícia ao invés de despertar a irá dos Kaapors. Índio apenas se concentrava em sobreviver, correndo com velocidade, mas sem desespero. Prestava atenção aos sons da mata, os pisões, os gritos, e o barulho das cordas dos arcos e das flechas sendo disparadas.  Ele conseguia perceber o momento exato de cada disparo, e sempre fazia movimentos irregulares na hora certa para desviar de cada flecha. Já tinha percebido pelo menos 3 índios atrás dele, mas não tinha certeza do total. Continuaria correndo.

– Maldito exilado! – reclamou Ru’i, ao errar mais um disparo de flecha. Ele havia sido encumbido de liderar a perseguição ao invasor, que foi rapidamente notado por um vigia assim que entrou no território. Com ele, totalizavam 5 índios.

Com sinais, ele comunicou aos seus companheiros para continuarem a perseguição. Eles conheciam aquele terreno melhor que o invasor, e estavam mais descansados e equipados. Era questão de tempo. As ordens eram claras: capturar ou matar.

***

Bal trabalhava em mais um processo de um menor infrator, quando o seu celular tremeu na mesa. Pegou o aparelho e viu uma mensagem de Rosemari, sua nova vizinha:


Olá meu vizinho! Te encontrei aqui! Tudo bem?

Bal ficou instigado.

“Como descobriu o meu telefone?”  – respondeu rapidamente.

“Isso é segredo” – respondeu a mulher, junto de uma figura com um beijo.

Bal costumava ficar ressabiado e nervoso com qualquer tipo de invasão a sua privacidade. Desta vez, no entanto, sorria. Percebeu que vinha mais mensagens e aguardou.

“O que acha de vir jantar aqui hoje?

Quase que automaticamente, aceitou o convite, mas se deteve.

Tenho compromissos mais tarde. Se eu conseguir sair cedo, eu te aviso.

Sempre esteja no controle, pensou.

– Ganhou algum prêmio, é? – perguntou Agha.

Bal abruptamente colocou o celular na mesa e olhou para o lado, percebendo que estava sendo observado por Agha.

– Do que você está falando?

– Do jeito que você está sorrindo ai, logo depois de ler alguma coisa no celular.

– Ah…não é nada. Uma amiga me convidou pra jantar.

– Amiga, é? Sei…

– Uma amiga sim, minha vizinha. Batemos um papo a noite de vez em quando. Coisa que a maioria dos seres humanos normais fazem – acusou.

– Até onde sei, não é tão normal um homem comprometido ficar de papinho com a vizinha. Aposto que ela não é feia…

– Quer dizer que um homem que tem namorada não pode conversar com outras mulheres? Quanta infantilidade da sua parte! Saia mais, conheça mais pessoas. Saia dessa bolha em que vive, Agha!

– Sua namorada sabe então dessas suas conversas?

– Eu tenho um relacionamento adulto com ela, onde um não tem que prestar contas ao outro…e muito menos tenho que prestar contas a um mero estagiário intrometido.

– Pensa bem no que você vai fazer, só te digo isso…meu pai também tinha muitas “amigas”…

Antes que Bal pudesse responder, Vincent adentrou na sala, com uma pasta na mão e visivelmente animado.

– Bom dia camaradas. Preciso conversar com vocês.

Bal gelou por um instante. “Sera que tem conexão com a perseguição ao índio!?”.

Vincent se dirigiu até sua mesa, e pediu para ambos se aproximarem. Abriu sua pasta e colocou algumas fotos na mesa. Explicou rapidamente do caso das mulheres que forem encontradas com o ânus suturado, e de como a investigação tinha progredido pouco, e concluiu:

– A verdade é uma só: se nós não formos atrás disso, ninguém irá. Ou só quando mais mulheres morrerem. Quero a ajuda de vocês dois para investigarmos esse caso.

Agha estava achando a situação surreal, e em vários momentos achou que fosse uma pegadinha do chefe. Aparentemente não era. Pensava no que ia falar, quando, surpreendentemente, Bal se antecipou e disse:

– Doutor, isso é muito bonito…mas investigação não consta nas nossas funções e acho que é ilegal. Em todo o tempo que trabalhei nesse fórum, nunca fiz nada que não fosse expressamente dito na lei…

– Vocês estão seguros. Ninguém saberá disso, e ninguém os punirá. É um mero trabalho investigativo, que encaminharei as autoridades competentes quando necessário. As questões que você levantou são importantes, mas existem outras de maior urgência. Quem vai proteger as pessoas de um assassino como esse? Quantas mulheres mais irão morrer enquanto nos atermos a mera formalidades legais?  Tratem isso como diligências do ministério público.

“Sei muito bem quem poderia lidar com esse tipo de marginal. Existe gente que protege essa cidade fora dos limites da lei” – pensou Bal.

– Mas eu respeito a decisão de vocês. Caso não se sintam confortáveis, posso iniciar um novo processo de seleção. Não estudei para virar um burocrata ou legalista inerte. Meu objetivo é melhorar a vida das pessoas, ajudar os que precisam ou não podem se defender. E é o que farei aqui, e preciso de gente que tenha afinidade com esses ideias.

– Eu ajudarei – respondeu Bal.

Agha fez que sim com a cabeça, quase anestesiado.

– Ótimo. Tirei cópias dos arquivos do caso para vocês dois. Usem essa semana para entenderem tudo sobre o caso, e qualquer coisa podem me perguntar.

Pouco antes de sair de seu trabalho, Bal enviou uma mensagem a Rosemari avisando que poderia ir jantar, mas chegaria tarde. Ele não tinha nenhum compromisso, porém gostava de passar a impressão de que era uma pessoa muito requisitada e atarefada. Passará a tarde lendo os arquivos do caso do assassino. Definitivamente era um serial killer, concluiu. Pensou que talvez chegará a hora de o bando dele voltar a agir, visto que o estado pouco podia fazer. Os esforços do promotor eram bonitos, mas Bal duvidava que dariam em alguma coisa. No próximo encontro, colocaria Antônio para investigar o caso.

Foi até a academia e fez um treino focado na parte superior. Queria chegar com os músculos pulsando para o encontro. Não parava para se perguntar porque queria impressionar Rosemari com o seu físico em um mero encontro entre amigos. Apenas puxava o peso, animado e ansioso.

Finalmente chegou a sua casa, tomou um banho e se arrumou para a visita. Tocou a campainha da vizinha 15 minutos depois do horário combinado.

– O senhor está atrasado – disse a anfitriã, que vestia um vestido simples, mas bonito. Ele era curto e bem rente ao corpo.

– Infelizmente sou um homem ocupado – disse com um sorriso, enquanto analisava o corpo da garota. E então, o que teremos para jantar?

Uma mesa estava preparada, com uma garrafa de vinho no centro.

– Fiz uma receita que aprendi na minha família. Pato no Tucupi.

Era um prato típico da região que Bal provará poucas vezes. O cheiro da comida lhe agradava. Sentou a cadeira e foi servido pela mulher. Gostou da sensação, e não tirava os olhos dos quadris de Rosemari.

– E o trabalho, como foi, Bal?

– Foi um dia atípico. O promotor nos pediu para executar uma nova função – revelou, se surpreendendo com a facilidade que foi revelando a informação.

– Gosta de mudanças?

– Não vou dizer que sou um fã. Minha rotina é bem estabelecida, e gosto de me mantar a ela.

– Aposto que esse jantar é uma quebra na sua rotina.

– Certamente é…mas algumas quebras de rotina são bem vindas.

Apesar de estar gostando da conversa, se forçou a tirar o foco de si, e perguntou:

– E você? Para falar a verdade não me lembro de você ter me contato o que faz.

– Eu trabalho na creche da igreja, cuidando das crianças.

– Ah a igreja…interessante. Gosta do que faz?

– Claro! Adoro crianças. Em comparação com os meus empregos anteriores, esse é uma graça de Deus.

– Foram muito ruins?

– Você se surpreenderia com tudo que eu já fiz.

Eles conversaram mais tempo, Bal explicou melhor qual era o seu emprego e sua função, e o vinho foi sendo consumido com o passar do tempo. Depois da comida ter acabado, eles ainda conversaram por mais tempo na mesa, até que Bal se levantou e avisou que tinha de ir pois já era tarde. Rosemari se aproximou, e eles se olharam de forma intensa.

– É uma pena que você já vai. Sinto que temos muito o que conversar. Sua mão foi até a de Bal, e um simples roçar de dedos despertou um instinto quase animalesco no homem. Bal agarrou o braço dela e a puxou. Rosemari o beijou de maneira intensa. Ele a levantou do chão e ela se prendeu nele com suas pernas, enquanto caminhavam até a cama. Não pensavam em mais nada, apenas eram consumidos pelo desejo. Se despiram rapidamente e a vista do corpo de Rosemari foi exuberante. Definitivamente uma das mulheres mais bonitas que já vira. Estava excitado como não estivera a muito tempo. Usava sua força para sobrepuja-la na cama, segurava os seus braços e movia o seu corpo. “Na cama, a mulher tem que ser submissa”, pensava.

Os beijos dela eram certeiros. Sabia os lugares exatos que aumentavam o seu fogo. Ele já não aguentava a vontade, e sequer pensou no uso do preservativo. Então, Rosemari o virou na cama, e em cima dele disse:

– Calma…essa viagem está apenas no começo. Foi descendo pelo seu corpo, e Bal já imaginava  o que estava por vir. Mas ela passou do ponto esperado, as mãos perigosamente perto de um local geralmente indesejado para os homens. Um misto de insegurança e expectativa o invadiram.

– Não se preocupe. Não vou enfiar o meu dedo ali. Você já viajou até a terra de ninguém?

Bal não teve tempo de responder, e em seguida teve uma das melhores sensações de sua vida.

***

Já era noite, Índio observava de cima de uma árvore a mata. Uma pessoa acostumada com iluminação artificial, provavelmente não enxergaria um palmo a frente naquele lugar. Mas para Índio, o brilho da lua era como uma lâmpada no céu. Estava muito habituado a andar na floresta a noite, e os seus olhos já estavam acostumados àquele grau de iluminação. Porém sabia que os seus perseguidores também estavam acostumados a isso. Kaapors sempre patrulhavam as florestas, seja de dia, seja de noite. Não tinha ideia de quantos quilômetros havia percorrido naquele dia, mas sabia que eles já tinham adentrado bastante na mata. A essa altura, já tinha certeza do número de perseguidores. Pretendia surpreendê-los, os atacando, pois tinha consciência que em um jogo de fôlego, os 5 venceriam cedo ou tarde. Já emboscada, ele confiava nas suas chances.

Fez uma trilha falsa da melhor maneira que conseguiu, e se escondeu no alto. Pretendia fazer um ataque rápido e letal, matar um ou dois e fugir. Se os perseguidores ainda estivessem com arco na mão, seria ainda mais fácil. Antes de ouvir ou ver qualquer coisa, os pelos de seu corpo arrepiaram. Ele sabia que estavam vindo. Dois na frente, com facões, e três atrás com os arcos, apontados para baixo, segurando as flechas, prontos para atirar a qualquer momento. Esperou pacientemente os homens passarem. Desceu silenciosamente da árvore. Em uma mão segurava uma pedra, em outra sua faca. Apressou o passo, furtivamente, e a arremessou para a esquerda. O grupo rapidamente virou naquela direção, assustado. Os arqueiros levantaram o arco e puxaram as flechas. Então, ele correu e cravou sua faca pelas costas de um deles, atravessando o coração. Empurrou o corpo para cima de outro, e atacou o terceiro arqueiro. Os índios gritaram, e os dois que portavam facões pularem em sua direção. O terceiro arqueiro, era de longe o mais novo entre eles. Índio percebeu seu espanto e o seu medo. O arqueiro disparou a flecha, que passou por cima da cabeça de Índio, e ela acertou a garganta de um dos seus companheiros. Ao mesmo tempo que ele caia, Índio matava o jovem arqueiro. 3 mortos em alguns segundos. A sorte lhe trouxe um novo cenário. Agora via a sua frente dois Kaapor. Um deles claramente parecia ser o líder, e outro já havia largado o arco e carregava sua faca. “Dois contra um? Não vou recusar” e sorriu.

Ru’i estava perplexo. Sempre comandou grupos de patrulha pela floresta, e nunca havia perdido um homem sequer. Em um piscar de olhos, tinha perdido 3. Olhou para o seu companheiro, Jandir, e fez um sinal para ele ter calma.

– Você é um homem morto exilado. Renda-se e terá uma passagem adequada para o outro mundo.

– Diga-me…vocês lutam melhor que o Acir? – respondeu Índio despreocupado.

Ru’i ignorou a pergunta, olhou para Jandir e fez um sinal com a cabeça. Iriam atacar. Cada um se aproximava devagar, um de cada lado. Quando estivessem um pouco mais perto, ambos acelerariam ao mesmo tempo e atacariam. Era um movimento clássico de combate em dupla. Enquanto o inimigo bloqueia o primeiro golpe, o segundo o mata. Índio provavelmente não conhecia os movimentos de ataque em grupo, pois só depois de certa idade os jovens Kaapor começavam a treinar em equipe.

Índio viu os dois se aproximaram, e ficou inquieto. Seu instinto dizia para se mexer, e ele não titubeou um instante sequer. Seu estilo de luta era o de contra ataque, e sempre teve frieza para analisar e esperar o erro do adversário. Mas sabia se adaptar a qualquer situação. Seu treinamento formal era incompleto, e o seu estilo se baseava puramentente na intuição. Avançou para perto de Jandir, que se assustou e atacou com um estocada. Índio fez um movimento leve de esquiva a direita, o Facao inimigo passou a milímetros do seu peito. Cravou o seu Facão na garganta de Jandir. Puxou a faca rapidamente, e se ajeitou para ficar frente a frente com Ru’i. Deu uma rápida analisada em seu oponente, e o primeiro coisa em que reparou foi se ele tinha ou não cicatrizes pelo corpo. Pela experiência, Índio entendia que cicatrizes era um sinal de um lutador experimentado e perigoso. E Ru’i tinha muitas…mas nem metade das que ele próprio ostentava.

– Parece que esse treinamento de vocês não me faz falta – disse.

Ru’i mais uma vez ignorou a provocação e atacou. Usava movimentos cautelosos, que eram rebatidos sem muita dificuldade pelo seu adversário. “ Ele talvez seja mais rápido do que eu”, pensava enquanto analisava o corpo magro de Índio, “ mas eu sou muito mais forte…” e começou a por peso em cada um dos seus golpes. O primeiro foi aparado com dificuldade, já os seguintes não eram mais rebatidos. Índio passou a desviar dos golpes, e caminhava lentamente para trás. “Ele não vai conseguir desviar para sempre” pensava enquanto atacava sem descanso. Os ataques passavam cada vez mais perto, e o próximo golpe sempre seria o fatal na cabeça de Ru’i. Depois de mais de 20 tentativas, Ru’i de um passo para trás. Seu braço ardia, e estava ofegante. Queria abaixar a arma por um instante para descansar. Antes de se decidir, Índio avançou com um golpe frontal, uma estocada em direção a sua garganta. A especialidade dele era identificar um momento de fraqueza. O golpe foi evitado com um passo para trás, e Índio continuou a atacar. Passará ele a ser o agressor. Seus golpes não tinham peso, mas vinham de ângulos impensados, e sempre com intenção fatal. Ru’i se defendia com dificuldade, e começou a colecionar alguns cortes. Cansado e ferido, não conseguia mais raciocinar direito, e tentou surpreender. Ao rebater um dos golpes de Índio, deu um passo à frente e atacou com um movimento vindo do alto. Índio recolheu o seu braço e virou de lado. A lâmina passou a sua frente, rente ao seu rosto. Completando o movimento, deu um giro, virou sua faca ao contrário na mão, e a cravou na nuca de Ru’i. O corpo logo desabou, e ele olhava satisfeito sua lâmina suja de sangue. Sorriu, esticou o braço, e começou a marcar os novos integrantes a sua extensa galeria de vítimas.

***

Vincent estava satisfeito com o desfecho da conversa com Bal e Agha. Estava ansioso com o desfecho da análise dos colegas. Fechou o seu carro e se virou para a direção do elevador,  quando repentinamente uma mão tapou sua boca e outra imobilizou o seu braço. Por um instante, sentiu pânico. Em seguida, tentou usar o seu outro braço para se desvencilhar, mas foi em vão. Foi empurrado até o chão, preso, sentiu um peso enorme pressioná-lo.

– Anda descuidado meu amigo – ouviu de uma voz familiar.

Seu braço foi solto, e o homem levantou, o deixando livre.

– Seu filho da puta! – disse Vincent, sorrindo e limpando o terno ao se levantar. Bem vindo Nathan.

Uma história de Paragobala – Caçador de Índios: O Chamamento

Autoria: autor convidado

Caçador de Índios:  O Chamamento

Num  toca  ni  mim  policial,  eu  sou  índio.  Ó  aqui  minha  carteirinha!!

Tira a mão do bolso, vagabundo! Mão na cabeça, agora!

–  Eu  cunheço  meus  direito,  tá  pensando  o  que!  Já  falei  pra  num  tocá  ni  mim!!

–  Segura esse filho da puta ô Jonas, ele está fugindo!!

E assim os dois PM’s começaram a correr atrás do indígena, ainda que cada passada dos policiais fosse suplantada por três ou quatro do fugitivo, evidenciando uma larga desvantagem em preparo físico. O índio, cada vez mais, ia se distanciando enquanto eles, em vão, tentavam acompanhar.

–  Atira na perna dele, Jonas, ele vai fugir!

–   Ora porra, atira tu! – disse com a convicção de que nenhum dos dois possuía a perícia necessária para acertar a perna de um sujeito em movimento. – Parece que não sabe a merda que dá quando mata índio nesse fim de mundo.

–   Mas… – balbuciou, engasgando nas próprias palavras, de tanto ofegar. – Eu já reportei que estávamos com ele. Se ele fugir, a gente… tá fudido… vão nos transferir pra alguma comunidade na puta que pariu.

–  Ah, então tu prefere responder por homicídio, Alceu?

–   Eu sei que não estamos em nenhuma metrópole… mas eu prefiro é MORRER do que ser obrigado a apodrecer em algum lugar na fronteira do Acre… capaz da minha mulher me deixar e voltar pra Manaus com as crianças.

Enquanto o índio praticamente já sumia de suas vistas, Alceu e Jonas finalmente pareciam ter desistido do inútil esforço que, àquele ponto, se limitava ao simples arrastar de seus pés pela areia. O cansaço não lhes permitia mais, sequer, andar normalmente. Jonas sofria, sentindo o joanete pulsar dentro do coturno e, para piorar, era obrigado a ouvir Alceu reclamando do empréstimo consignado que tomava 30% do seu salário. Mas subitamente, um som de motor começou a se avolumar atrás dos dois policiais. O extenso lavrado simbilou enquanto a poeira se levantava no horizonte, onde a estrada de terra desaparecia da vista humana.

Em poucos instantes, um vulto branco passou pelos dois. A velocidade era absurda. Havia areia subindo por toda parte, e a pressão do vento até ameaçava derrubá-los. “Caralho, entrou no meu olho!” reclamou Alceu, enquanto tropeçava e caía à beira da estrada. Somente após alguns instantes foi possível reconhecer a pickup branca que passara. O símbolo da Polícia Civil gravado nas portas lhe entregava a procedência. Já distante, cravando os pneus na terra por dezenas de metros, foi possível ouvir a frenagem do veículo, que perdurou até que outro barulho se destacasse ao final: tuft! O som seco de um corpo batendo contra a lataria da caminhonete. O índio sai embolando no chão ainda quente daquele fim de tarde. O crepúsculo finalmente dava seus primeiros sinais no horizonte.

A porta dianteira do passageiro se abre, e uma bota marrom desce ao chão com firmeza, indicando o porte físico daquele que a calça. Ainda de dentro do veículo, o delegado olha para o céu alaranjado, enquanto termina sua conversa no celular.

–  Ah, não… Não foi nada. Acho que o Regis atropelou algum bicho na estrada. Isso… Ainda estamos procurando por ele… Não tenho certeza ainda. Aham… Isso… Claro, doutor. Até mais – E após guardar o celular, comentou dentro do carro. – O juiz vai passar o final de semana fora.

O delegado, então, desceu do veículo calmamente, emanando uma simplicidade digna de um frade beneditino. Indo em direção ao indígena, estirado no chão, ele permanecia a admirar o céu crepuscular, enquanto guardava seu óculos escuro no bolso frontal da camisa.

Enfim aproximando-se, o silêncio que reinava sobre o local prontamente foi rompido pelos gritos do índio, logo que o delegado deu um belo chute em suas costelas.

–  Se fingindo de morto, né vagabundo?! – acusou enquanto gargalhava alto.

Somente então, após sinalizar com as mãos, os outros três ocupantes desceram do veículo e se aproximaram.

–  Parece que nem precisava ter reduzido tanto a velocidade, doutor. Olha esse filho da puta… ainda está inteiro – disse, com um intrigante sorriso no rosto, o indivíduo que até o momento esteve na direção do veículo.

–  Mas o objetivo não era mandá-lo para o hospital. É apenas uma pequena lição, pra ensinar a não fugir da polícia. Levanta ele aí, Durval.

Claramente o maior dentre os quatro, um terceiro sujeito se adiantou e ergueu o índio pela gola da camisa. Os pés dele balançaram no ar, desconcertados, como os de uma criança, até que todo o seu corpo encontrou apoio ao ser lançado sobre o capô da caminhonete.

–  Eu  sou  índio,  viu!!  Eu  vou  denunciar  todos  voc.

Como já diria o ditado “Ao sábio, basta uma advertência. Ao tolo, nem mesmo mil açoites”. Nesse caso, não bastou o beijo de um para-choque pra fazer aquele indivíduo entender a situação de fragilidade na qual se encontrava. Por óbvio, ele não foi capaz de terminar suas ameaças, pois, antes disso, um punho lhe deixou inconsciente após cortar o ar e acertar a ponta do seu queixo num piscar de olhos.

O fato do próprio delegado ter nocauteado aquele homem foi prontamente entendido como uma carta branca para que os demais pudessem finalmente descarregar suas aflições naquele pobre diabo. Mas rapidamente veio a advertência.

–    Se acalmem, não queremos que o índio fique cheio de marcas e lesões corporais – E enquanto o índio retomava a consciência, completou com um explícito tom de sarcasmo na voz. – Na verdade, não queremos ter que utilizar qualquer método que atente contra a dignidade da pessoa humana, só queremos conversar, não é verdade, sargento?

–  Claro doutor, só queremos algumas informações.

Naquele local estavam presentes quatro célebres figuras públicas do município de Anori, no estado do Amazonas.

O sargento George, que comandava a guarnição da Polícia Militar em Anori, era um deles. Um senhor de meia-idade que despendia energia no cultivo de um bigode. Acomodado dentro do sistema e, em geral, pouco comovível por quaisquer limites de natureza ética ou moral. Passado sujo. Presente duvidoso. Não gostou muito da chegada do novo delegado, na época; mas sendo um homem esperto, foi capaz de se adaptar com o passar do tempo.

–  Me deixa bater um papo com ele – insistiu George, enquanto puxava sua carteira de cigarros do bolso.

–     Ora,  vamos  dar  uma  oportunidade  para  o  rapaz  –  retrucou  sorrindo  o  delegado,  e prosseguiu. – Cidadão, onde seu amigo se escondeu?

–  Eu num  sei de nada  não,  dotô.  Juro.

Outro, dentre eles, era o investigador Regis. Recém empossado na Polícia Civil, havia sido transferido para Anori algumas semanas após a chegada do delegado, tonando-se o seu braço direito. Um jovem inteligente. Sua sede de justiça escondia um certo nível de sadismo. Talvez na medida perfeita para os trabalhos nos quais precisava se envolver.

–    Doutor, é melhor correr com isso – observou Regis, referindo-se às dificuldades que enfrentariam caso fosse necessário adentrar em determinadas regiões da mata, ou sair dos limites do município.

–  Quer dizer que você não sabe de nada?

–  Sei  não,  dotô.

–   Vish, ele vai querer brincar com a gente – disse novamente o sargento, enquanto tragava o cigarro.

Por fim, estava ali o Durval, chefe da Guarda Municipal de Anori. Um homem de hábitos simples, que cresceu no próprio município, com toda a intimidade com a floresta que se pode esperar de um nativo. Possuidor de feições mestiças. Filho de um ex-garimpeiro que se estabeleceu na região, Durval perdeu sua mãe, uma indígena, ainda durante a infância. Seu porte físico impressionava, com seus mais de 1,90m e 120kg de pura força. Desenvolveu um profundo sentimento de amizade e respeito pelo delegado, transformando a Guarda Municipal numa extensão das suas mãos e da Polícia Civil.

–  Durval, põe o vagabundo dentro do carro.

Sentado no branco traseiro entre George e Durval, o índio estava apreensivo quanto ao que estava por vir, afinal, ele conhecia muito bem a fama do delegado Nathan. Na verdade, todos conheciam a fama do delegado.

–   Tudo bem, presta atenção. Você tem até a próxima bifurcação pra dizer o que eu quero. Se disser, bom. Pegaremos o caminho da direita e iremos à delegacia. Acaba por aí. Se você não disser, pegaremos o caminho da esquerda. Mas eu quero lhe avisar uma coisa. Independente do caminho que este carro tomar, você vai falar o que eu quero saber. Mas há uma diferença: se tomarmos o rumo da esquerda, eu não vou me contentar com a informação. Você vai sofrer por cada segundo que me fizer desperdiçar.

O índio engoliu seco, com uma expressão de terror estampada no rosto. A calma e naturalidade com que todos os outros se portavam, naquela situação, apenas lhe deixavam mais atemorizado. Sem gritos, sem solavancos. Ele até estava confortavelmente sentado. Mas a frieza no tom em que a ameaça fora pronunciada, era pior que qualquer outra coisa. Penetrava em sua alma como sensação de certeza absoluta. A inquietação começou a tomar conta quando os dois caminhos no fim daquela estrada tornaram-se visíveis. Ele se retorcia em dúvidas por não saber a quem deveria temer mais: o traficante ou o delegado.

*********

Desde que o delegado Nathan chegou em Anori, há dois anos, a delegacia do município já acumula dois “Prêmios de Eficiência” consecutivos, conferidos pela Secretaria de Segurança do Estado anualmente. E não apenas isso. Logo após seu primeiro ano, o delegado ganhou o título honorífico de “Cidadão Anoriense”, concedido em raras oportunidades pela Câmara Municipal de Vereadores à pessoas cujos feitos marcaram a história da cidade.

Não sem qualquer motivo, diga-se. Desde que chegou, Nathan hasteou duas grandes bandeiras: a guerra contra a corrupção e a guerra contra o tráfico de drogas.

Contrário ao que o senso comum possa imaginar, o combate à corrupção foi o menor dos desafios. Os políticos e servidores públicos locais não eram acostumados com uma polícia disposta a agir. Soma-se a isso o fato de que o juiz da comarca detestava corrupção tanto quanto Nathan. Assim, bastaram algumas interceptações telefônicas, alguns mandados de busca e apreensão, alguns testemunhos e pronto. O prefeito e o vice-prefeito, o presidente da Câmara Municipal e mais um terço dos vereadores, além de uma larga parte dos servidores da prefeitura: todos presos preventivamente e afastados de seus respectivos mandatos eletivos. Tudo por uma delegacia pequena e mal equipada. A repercussão midiática o tornou em um pequeno super star local.

De outro modo, o mesmo não poderia ser dito sobre o combate às drogas. Um ponto mais sensível e problemático, notadamente  pela íntima relação entre o tráfico e grupos indígenas locais.

De nenhum modo se pode negar que os índices de apreensão de narcóticos – bem como a prisão de pequenos e médios traficantes – subiram a níveis estratosféricos após a sua chegada, mas Nathan nunca se conformou com meros índices estatísticos. Ele possuía plena consciência que tudo aquilo não passava de uma rasa camada do problema. Seria inútil remover a secreção se a infecção não fosse combatida. Mero desperdício do esforço alheio. A verdadeira força do tráfico na região, que dispunha de farta mão de obra, era em quem queria pôr as mãos. A causa da infecção.

Mas, para isso, algumas fronteiras precisaram ser cruzadas.

A polícia vivia em larga desvantagem. Era um jogo em que somente um dos lados precisava seguir as regras. De algum modo, Nathan precisou retomar o equilíbrio à balança dessa disputa. A pouca mão de obra, o pouco recurso, o suporte escaço. Isso precisou ser compensado.

Para isso, criou seu próprio código moral de conduta. Algo que lhe ajudasse a se manter eficiente, mas o impedisse de perder os escrúpulos e o respeito próprio.

No caminho em que seguiu, Nathan comprou peculiar inimizade com grande parte das comunidades indígenas locais, todas envolvidas nos esquemas do tráfico, direta ou indiretamente. E nessa quebra de braço, o delegado se rebaixou ao último dos níveis de seu código. Disseminou o terror pontualmente, estrategicamente, coordenadamente, até que seu nome fosse sinônimo de medo, causando calafrios em qualquer índio que tivesse o que esconder. Não à toa, ele foi contemplado com um apelido que passou a ser sussurrado nas vielas de Anori: Nathan, o caçador de índios.

E finalmente, após desmantelar peça por peça, após se infiltrar e intimidar cada nível, um por um, e após sujar as mãos incontáveis vezes, o delegado enfim encurralou o cabeça de todo o esquema de tráfico da região. Um dos maiores do Norte. Marreco era como o conheciam. Um verdadeiro Pablo Escobar da Amazônia, responsável pela entrada de drogas pelas fronteiras de Roraima, distribuindo por todo o país. Famoso pela sordidez e pela inteligência, era um homem peculiar.

O momento era de excitação para toda a corporação.

*********

–   Devo admitir que não achei que ele abriria o bico apenas com ameaças – disse o sargento enquanto ria.

–   Bom, foi uma péssima notícia descobrir que o Marreco está abrigado dentro de uma tribo indígena. O que faremos, doutor?

O relógio na parede marcava 18:25. Aquele havia sido um longo dia, mas ainda estava muito longe de terminar. Nathan permanecia sentado atrás de sua mesa, imóvel e silencioso, enquanto considerava com muito cuidado seu próximo passo. Regis insistia num diálogo, mas não obtinha qualquer resposta. Estavam todos aguardando um pronunciamento. Por alguns instantes um quase-silêncio ensurdecedor era orquestrado pelo tic-tac do relógio e seguido pelo ruído do motor do ar-condicionado, que se apropriaram do ambiente. Então, sua voz irrompe:

–  Eu não posso exigir que vocês me sigam no próximo passo que darei. Por isso… – Deu uma pequena pausa, conferiu as horas no seu relógio, e prosseguiu. – Quem não estiver disposto a ir até o fim, pode ir para casa agora.

Nathan não encarou ninguém em particular, apenas abaixou a cabeça e esperou por poucos segundos. Por assim dizer, aquilo não passava de uma formalidade, pois conhecia bem aqueles três homens. Regis, George e Durval se entreolharam em silêncio. Apesar do aviso

amistoso do delegado, todos naquela sala já sabiam o que viria a seguir; todos estavam ansiosamente esperando por aquilo.

–   Se vocês insistem, é melhor se preparar, porque nós vamos entrar naquela porra de aldeia e arrastar o Marreco de lá!

Um leve sorriso brotou no rosto deles. Afinal, ainda que cada qual possuísse suas próprias motivações para prosseguir naquilo, é certo que em todos eles fervia o sangue, em euforia, todas as vezes que uma oportunidade desse nível surgia. Era um vício em adrenalina, de certo modo.

–    Prestem atenção: todo mundo vai voltar imediatamente para casa, e deixar lá o celular ligado com o GPS e serviço de localização do Google ativados. Os aparelhos podem ser rastreados, inclusive pelo IMEI, e pode ser um álibi a mais, caso venhamos a precisar.

Após esse aviso, o delegado começou a passar as instruções:

–  Sargento, nós não podemos fazer isso com as armas da corporação, pois se for preciso atirar as cápsulas poderão ser identificadas e relacionadas a nós; por isso eu quero que você providencie quatro fuzis anônimos, numeração raspada e supressor. Durval, você será nosso guia, certifique-se de que realmente sabe chegar nesse lugar. Regis, prepara aquela caminhonete que foi apreendida ontem e traz capuz preto pra todo mundo. Aliás, todo mundo de preto. Nos encontramos às 23:00 na saída da cidade. E lembrem-se, quanto mais complexa uma mentira mais difícil será sustentá-la, então não deem satisfação e não inventem histórias desnecessárias. Apenas façam o que precisam fazer, sejam discretos, e estejam lá no horário. Vamos acabar com isso.

**********

Nathan chega em casa. São 18:53. Mais uma vez, ele lembra de haver se esquecido de comprar as lâmpadas. Já faz três semanas que o único cômodo iluminado da casa é a cozinha, e quando a noite surge – o único horário em que geralmente está em casa – a escuridão é total. Mas ele não parecia se importar muito; pelo contrário. Se sentia relaxado naquele ambiente, além de não demorar até seus olhos se adaptarem à baixa luminosidade.

Ele caminhou até o armário da sala, carcomido por cupins, puxou uma garrafa de whisky sem rótulo e um copo, encheu um dedo e virou a dose. Encheu outro dedo. Seguiu até o seu quarto e abriu a cortina da janela, sendo agraciado com uma vista privilegiada, por estar na cobertura de uma pequena pensão de quatro andares. Ele se abaixou na frente do guarda- roupas, retirou a última gaveta e puxou um notebook do fundo. Então foi até sua mesa e sentou, abrindo o notebook.

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“Agora só me resta esperar e torcer para que ele apareça” pensou Nathan.

Ele não conseguia parar de pensar no absurdo que seria caso tentassem entrar em um lugar daquele tamanho sem fazer a menor ideia de onde o alvo esteja. Talvez os outros não tenham se apercebido, mas a aldeia indígena para onde iriam é do tamanho de uma vila. Seria praticamente impossível atingir o objetivo com discrição, e o delegado definitivamente não gostava de contar com a sorte. Ele tentava se precaver.

Ele virou a segunda dose.

Não havia muito o que ser feito, por enquanto. Ainda faltavam mais de duas horas para as 23:00 e, provavelmente, o álcool começava a fazer efeito, lhe induzindo num estado de nostalgia. Nathan estava em pé, olhando através da janela a imponente lua cheia que abrandava a escuridão daquela noite. Ele sentia seu coração aquecer ao relembrar do seu passado. Que saudade sentia da sua família e dos seus amigos.

Lembrava do orgulho que seus pais sentiam pelo filho que saiu das favelas do Recife para os bancos da Faculdade de Direito da universidade federal. Sua mãe, com um sorriso de ponta a ponta no rosto, fazia questão de lembrar que do mesmo lugar haviam saído nomes como Pontes de Miranda, Nilo Peçanha e Joaquim Nabuco. Quando indagada sobre quem seriam essas pessoas, não sabia responder, mas retrucava que foram pessoas importantes. Havia lido na internet.

Um profundo arrependimento lhe causava embrulhos no estômago toda vez que lembrava da vergonha que sentia de sua origem humilde. Quantas vezes havia evitado apresentar os pais, semianalfabetos, aos amigos do colégio – colégio que, apesar da bolsa, era pago a duras penas pelos mesmos pais semianalfabetos. Sua mãe, diarista, trabalhava incansavelmente de segunda a segunda, e seu pai fazia bicos, do jeito que fosse possível, para ajudar a cobrir as despesas da casa. A integridade e dedicação deles não poderiam ser nada menos do que motivo de orgulho. “Coisa de moleque estúpido” dizia a si mesmo, com a convicção de que seus pais são aquilo de mais precioso no mundo para ele.

Nathan prosseguia divagando em pensamentos, hipnotizado pelo luar, quando recordou dos tempos de treinamento. Desde sua infância, quando brigava na rua, à caminho da academia de jiu-jitsu, por ser chamado de “Naty” ou “Natália” pelas outras crianças, até as disputas no campeonato brasileiro. Lembrava com carinho até mesmo das inúmeras lesões.

Mas sem dúvida, o período mais marcante de sua vida foi o tempo de faculdade. Nathan estampou um grande sorriso no rosto ao recordar das amizades verdadeiras que pôde cultivar nesse momento da vida. Talvez as únicas. Ele sempre achou que seus amigos – cada um do seu modo – eram pessoas brilhantes, e realmente foi capaz de aprender um pouco com a paranoia que cada um deles possuía. Ainda assim, ele tinha algo a se gabar: foi o responsável por tê-los apresentados às artes marciais e ensinado um truque ou dois. Era um grupo e tanto.

Infelizmente, após o curso, eles se dispersaram pelo país. Nathan foi o único que não soube exatamente o que fazer após a graduação. Se sentia obrigado a ajudar em casa, razão pela qual começou a trabalhar numa firma de advocacia. Mas ele sentia nojo daquilo. Na verdade, ele nutria certa desilusão por todo o sistema.

De todo modo, as vezes a vida toma rumos inesperados. Ele quase não acreditava que estaria ali, hoje, porque um dia precisou de dinheiro para pagar o tratamento de saúde da mãe. Uma longa história, envolvendo o SUS e uma briga judicial, que nem gostava de relembrar.

~~PLING!!~~

Nathan, que estava escorado na lateral da janela, rapidamente se virou e olhou para a tela do seu notebook.

DT_Master Online.

Ele limpou do rosto as lágrimas que haviam escorrido, um pouco relutante, e perguntou a si mesmo a quanto tempo estava chorando. “Droga, pareço uma menininha” pensou. Tomou assento em sua mesa e retomou o foco.

RedHunter [20:49:12]: Preciso de um  favor.

DT_Master [20:51:07]: ok, adoro ter dívidas para cobrar dos outros 🙂

RedHunter [20:51:46]: Eu tenho um número de telefone: +55(92)9527-5088. Pertence a Antônio Andrade da Costa, vulgo Marreco. IMEI: 829187463290948. Tendo essas informações, com  qual precisão você consegue rastreá-lo?

DT_Master  [20:52:37]:  se  ele  for  um   rato  qualquer  usando  android  com   os frameworks  padrões  do  google,  com  uma  precisão  de  poucos  metros

RedHunter [20:52:55]: Sensacional. Preciso encontrar essa pessoa.

DT_Master [20:54:12]: hmm

RedHunter  [20:54:39]:  Provavelmente  ele  está  sem  sinal  da  operadora,  pela localidade,  mas  dá  para  encontrá-lo  pelo  GPS.

DT_Master [20:55:18]: jura? me ensine mais sobre isso 🙂

RedHunter [20:55:27]: Desculpe.

DT_Master [20:56:09]: vou precisar de algum tempo

RedHunter [20:56:32]: Tudo bem, mas eu não quero apenas a informação. Quero que  me  guie  em  tempo  real  até  ele.

DT_Master [20:58:24]: hmm

RedHunter [20:58:49]: Quebra  esse  galho.  Quando  chegar  a  hora,  vou  te dar acesso  à  minha  localização  e  você  me  guia.

DT_Master [20:59:11]: como vc pretende que eu faça isso? RedHunter [20:59:18]: Chamada  via satélite. Criptografada. DT_Master [20:59:36]: esses dados não passam pela rede TOR

RedHunter  [20:59:49]:  Pelo  amor  de  Deus.  Você  não  precisa  se  ocultar  de

mim.

DT_Master [21:00:25]: não  seja  tão  egocêntrico  minha  preocupação  ñ  é  com  vc

RedHunter [21:01:03]: Nós dois sabemos que se alguém pode se fuder nessa história, serei eu. Você consegue permanecer anônimo.

DT_Master [21:01:22]: xD

RedHunter [21:01:38]: Até  as  01:00  horário  de  Manaus  estará  tudo  pronto?

DT_Master [21:01:52]: sei lá que porra é o horário de manaus

RedHunter [21:01:58]: 02:00 horário de brasília.

DT_Master [21:02:06]: hmm. Ok, pode ser

RedHunter  [21:02:15]: Não  fura  comigo.  É  questão  de  vida  ou  morte.

DT_Master [21:02:26]: rlx 🙂

RedHunter [21:02:32]: Fico te devendo.

DT_Master [21:02:49]: 😉 AFK

DT_Master Offline.

Estava aliviado. Foi mais fácil do que imaginava, mas isso só o fazia imaginar que tipo de contrapartida sórdida lhe seria cobrada depois. Não importa agora. Desligou o notebook e o guardou. Sentado na borda de sua cama, concatenava os próximos passos a serem seguidos. Dentre eles, talvez um fosse o mais importante.

Começou a procurar algo com o braço embaixo da cama, como quem tateia no escuro, até que conseguiu puxar uma pequena caixa de metal. A caixa possuía uma trava nada sofisticada que abriu com o primeiro sopapo que Nathan deu sobre a tampa. Dentro podia ser visto uma diversidade de celulares e smartphones. Oito ou nove deles. Remexeu até encontrar o seu Nexus 5x rodando CopperheadOS. Daria conta do recado.

Aquela maldita cãibra na perna esquerda voltou a atacar. Acontecia toda vez que ele ficava nervoso. Começou a se alongar, mas não demorou até que o alongamento evoluísse para uma sessão de sparring. Ele dava socos e chutes no ar, em movimentos muito rápidos, enquanto se movia pela casa. ~ Jab, direto, cruzado. Jab, direto, jab, gancho. Chute rodado. Jab, direto, joelhada ~. Era uma verdadeira terapia para ele. Descarregava aquela pressão que estava sentindo.

Após alguns minutos e depois de quase quebrar alguns objetos pela casa, ele finalmente parou. Deu um profundo trago no ar a sua volta, retomando o fôlego. Checou no relógio e se assustou com as horas, pois iria caminhando até o local de encontro. Ele se apressou em tomar banho e começou a preparar tudo o que pretendia levar. Conferiu duas vezes. Saiu pelos fundos do terreno, todo de preto, vestindo uma jaqueta com capuz que cobria seu rosto. Talvez uma aparência suspeita, mas a noite era pouco movimentada, como de costume, e as únicas testemunhas eram os cachorros que vagavam pela rua. O clima estava estranhamente ameno para a região. Frio, segundo alguns.

22:58.

Quando chegava à saída da cidade, Nathan já pôde avistar a velha Hillux preta estacionada na beira da estrada. Se aproximou e entrou no carro. Todos já estavam ali dentro. Não conseguiu deixar de notar que toda euforia e excitação já havia se esvaído daqueles homens e somente a tensão lhes fazia companhia. Todos os três tinham o rosto gravado por um misto de ansiedade, adrenalina e medo. O delegado também possuía sentimentos semelhantes, mas tentava transparecer tranquilidade e confiança. Se tornava cada vez mais óbvia, com o passar do tempo, a situação de perigo em que estavam se metendo.

Eles finalmente partiram. Era uma longa viagem. Quase 01h45m de carro, somado a mais 20 minutos de caminhada na mata.

–   Já estamos quase no meio do caminho e eu quero passar algumas instruções para vocês. Primeiro, isso não é uma chacina ou execução. O objetivo é trazer o Marreco, e quem mais for possível, VIVOS!

O sargento George claramente se incomodou, sussurrando alguma reclamação para o Durval, que estava ao seu lado. O delegado prosseguiu.

–  Segundo, não atirem nos malditos nativos!

E novamente o sargento se balançou no banco de trás, soltando alguns murmúrios.

–    Mas a terceira regra é a mais importante – Disse enquanto se virava, olhando para o sargento com uma cara de impaciência. – Se suas vidas estiverem em risco, esqueçam as regras anteriores. Não sabemos em quantos eles estarão, mas certamente o Marreco não estará sozinho. Se for necessário, não exitem em matar, índio, branco ou preto.

E finalizou Natham:

–   Nós estaremos encapuzados e todas as armas estão com silenciadores. Provavelmente vão achar que somos alguma facção rival. Então sejam discretos! Quanto menos falarem, menor será a chance de ter a voz reconhecida num eventual futuro. Alguma pergunta?

O silêncio do grupo respondeu a indagação. Estavam todos concentrados e prontos para irem até o final.

**********

O brisa fria da floresta lhe abraçava num sentimento pouco aconchegante. Nathan era uma mancha negra que se esgueirava em meio à escuridão. Segurando sua metralhadora junto ao corpo, ele finalmente contemplou o interior daquela aldeia. Um ambiente pouco organizado que, salvo por uma grande maloca, quase ao centro, se resumia a  diversas pequenas edificações de madeira, que se espalham pelo vasto descampado.

Através de um ponto em sua orelha, pareado ao celular por bluetooth, ele se comunicava com DT_Master, que o guiava em sua caminhada solitária até o alvo. Se movia com destreza, fazendo transparecer o extenso currículo onde se incluem diversos cursos da Força Tática da Polícia Civil. O delegado conseguia ouvir alguns roncos vindo das ocas pelas quais passava, mas os ruídos de bichos e insetos se sobressaíam, chegando a incomodar.

Notou que estava deixando a área mais densa, ao ponto que todas as habitações estavam bem atrás dele, exceto por uma única oca, semelhante a uma pequena cabana. Em seu interior, ela ostentava um brilho opaco e amarelado, típico da luz de velas; estava bem afastada do restante da aldeia, guardando posição nas fronteiras daquele assentamento, na divisa com a mata fechada.

Pelas coordenadas que estava recebendo, certamente ele estaria lá. Nathan se aproxima cuidadosamente.

Mas os planos do delegado vão por água abaixo no exato momento em que a porta daquela cabana se abre. De dentro não saiu alguém desprevenido. De lá surgiu uma pessoa que, ignorando a absoluta escuridão que reinava, foi capaz de olhar dentro dos seus olhos desde o primeiro instante. O largo sorriso daquele homem exalava confiança, destacando seus dentes grandes e amarelados que brilhavam ao luar.

“É ele” rapidamente concluiu o delegado. Sua mente entrou em loop. Tinha segundos para agir. Talvez menos. Sua primeira reação foi procurar por armas nas mãos do inimigo. Nenhuma. “Vou matá-lo” foi o terceiro ou quarto pensamento que lhe veio nessa fração de segundos. Num movimento rápido, preciso e único, Nathan subiu a mira do rifle ao seu olho direito. A cabeça dele estava bem no alvo. Só faltava apertar.

“Merda”. Foi a única coisa que lhe veio à mente quando ouviu o estalo de meia dúzia de armas sendo engatilhadas em sua retaguarda. Aquele maldito sorriso amarelo ainda estava sob sua mira. Ele pôde ver os lábios do alvo começarem a mover.

–   Doutor Nathan!! Mas que honra recebê-lo. Não seja tão hostil e baixe sua arma. Ninguém sairá ganhando se nós dois morrermos. Não é mesmo?

O delegado, que até então estava apoiado sobre um joelho, em posição de assalto, se colocou em pé, tirou o capuz e largou o rifle. Alguém rapidamente se aproximou, por trás, e recolheu a arma do chão. Hora de entrar em pânico? Jamais. Nathan limpou sua mente, deu um suspiro, e abriu um amigável sorriso. O barulho dos insetos, que por alguns instantes passaram desapercebidos, logo voltaram a lhe incomodar.

–  Posso lhe perguntar algo? – indagou o delegado, sorrindo.

–   Como eu sabia? – disse Marreco, já antecipando a pergunta. – A mesma pessoa com a qual você conseguiu minha localização. Eu diria que não foi uma escolha inteligente soltá-lo tão cedo. Cheguei a desconfiar, de tão inesperada que foi uma burrada dessas vinda do senhor.

“É O QUE?” pensou enquanto ardia em raiva, “não me fode Durval! Não acredito que ele soltou o cara. Devia ter pedido para o sargento se livrar daquele filho da puta”. Mas não obstante os conflitos internos, Nathan continuava ostentando o seu simpático sorriso. Era uma máscara que evitava a leitura de suas emoções.

–    Eu não sabia exatamente se o senhor viria hoje ou em outro dia. Mas definitivamente precisava estar preparado para a visita – e o sorriso amarelado permanecia inalterado em sua face. – Só devo admitir uma coisa; estou impressionado com sua coragem, doutor Nathan. Se fosse outra pessoa chamaria de estupidez o fato de vir sozinho.

–  Obrigado – respondeu de forma curta, sem se deixar envolver pelos jogos do inimigo.

–  Mas então, que tal entrar para podermos conversar um pouco?

–   Claro! – falou ao mesmo tempo em que pensava “Como se eu tivesse opção, seu filho da puta”.

Nathan seguiu o traficante para dentro da pequena cabana enquanto os capangas ficavam para trás. Olhou rapidamente por cima do ombro esquerdo. “Sete. Dois fuzis e cinco pistolas” notou. Não pareciam homens treinados. Um sorriso malicioso e sincero conseguiu escapar de dentro da sua máscara.

O interior da cabana era muito simples. Não havia divisórias. Um colchonete numa extremidade, alguns bancos de madeira e uma pequena mesa na outra extremidade, onde um castiçal de madeira se apoiava para iluminar o ambiente.

–  Por favor, tome assento doutor Nathan – Pediu ao puxar um dos bancos junto à mesa.

O delegado foi levando. Precisava ganhar algum tempo. Após sentar-se, Marreco prosseguiu.

–   Sinceramente, eu acredito que nós estamos perdendo uma grande oportunidade de negócio com essa rixa infantil. – E então deu uma pausa, mudando a postação da voz como quem fizesse uma observação. – Mas eu preciso que o senhor me acompanhe nesse raciocínio; é preciso expandir a mente para além desses conceitos simplistas de “certo ou errado”.

–  Tudo bem. – se limitou a responder.

–  Eu digo isso porque existe um certo paradigma social. As pessoas temem serem vistas como corruptas ou imorais, mas esquecem que a probidade e a moralidade não passam de convenções. Elas não existem em absoluto. – A voz do Marreco não era grave, mas possuía uma rouquidão distintiva, ostentando certa simplicidade – Veja… – prosseguiu. – O senhor está fazendo um excelente trabalho, dá pra notar que gosta do que faz. Mas é possível continuar o bom trabalho, enquanto evita essa matança desnecessária e ainda aproveita para ganhar um bom dinheiro.

O delegado parecia considerar, balançando a cabeça enquanto ouvia as ponderações do traficante.

–  Quanto você ganha no ano? 250 mil? Se entrarmos em um acordo, essa quantia pode entrar na sua conta toda semana. Não que eu esteja querendo lhe comprar, mas sabemos que um homem precisa de dinheiro pra viver com dignidade e dar conforto para sua família. Não faz muito tempo desde que eu pude dar a primeira casa própria para minha mãe. – O traficante suspirou e o seu semblante mudou. – A coitada sempre viveu de aluguel. Sustentava a mim, meus seis irmão e ao vagabundo do meu pai…

E após vários minutos ouvindo tediosas histórias de família, Nathan não aguentou e finalmente se manifestou.

–  Ah qual é, você já pode cortar esse papo furado pra cima de mim. Essa filosofia barata não convence ninguém e esse papo de “mamãe” também não me comove. Que tal me falar de uma vez o que você quer?

O traficante não esperava aquilo. Deu um forte soco na mesa, apontou o dedo bem próximo ao rosto de Nathan e gritou: “Gostei!”.

–   Eu pensei que estava lidando com algum idiota idealista, mas já que você acabou com toda a brincadeira, vamos ser diretos. – disse sorrindo. – O que eu quero é óbvio: abra as pernas e pare de me atrapalhar, prender meus homens e impedir meus carregamentos. Veja… se você reparar bem, não é como se eu estivesse lhe pedindo qualquer coisa. Suas opções são aceitar ou morrer. – Ele parou por um instante e encarou Nathan. – É claro… eu prefiro evitar toda a dor de cabeça que a morte de um delegado famoso como você me causaria, e exatamente por isso estou propondo um acordo que deixe a todos contentes. Mas se for preciso, eu posso aguentar um pouco de enxaqueca.

–  Eu quero números. 250 mil semanais?

–     Bom, eu acho que deveria ter maneirado quando disse isso – comentou enquanto gargalhava. – Mas tudo bem. Eu posso pagar.

–  E quanto aos fornecedores? Eu quero saber onde estou me metendo.

–  Ah, não fode delegado. Temos um acordo ou não?

Após lançar a pergunta no ar, o traficante estendeu a mão direita, propondo um aperto de mãos que selaria o proveitoso acordo. Mas algo aconteceu. Gritos vindos do lado de fora. Dois ou três tiros ecoaram mata a dentro. Eram os capangas do Marreco.

Antes que o seu alvo tivesse tempo para qualquer reação, Nathan puxou uma faca de dentro do seu coturno direito e  atravessou, ainda no ar, a mão estendida do traficante, cravando-a na mesa de madeira. O grito que se seguiu foi mais estrondoso que os tiros disparados a alguns instantes.

–  Parece que minhas opções eram mais amplas do que você imaginava, não é mesmo?

O delegado se levantou e seguiu para o lado de fora da cabana, enquanto Marreco agonizava em dor. Ao sair ele sentiu o característico cheiro de sangue sendo carregado pela brisa da madrugada. Sete corpos no chão. Se assustou quando um pedaço de pano surgiu voando em sua direção. Ao bater em seu peito, entendeu. O seu capuz. Nathan o vestiu e finalmente viu seus três companheiros, irreconhecíveis para qualquer outra pessoa, surgindo das sombras.

–  Bom trabalho. Vamos pegá-lo e sair logo daqui. – disse aos outros três.

Marreco já estava algemado. Uma faixa revolvia sua mão, estancando o sangramento. Nathan, George e Durval preparavam as coisas coisas para partir, quando Regis, que guardava a porta, deu o aviso:

–  Doutor, parece que temos problemas.

Do lado de fora, um batalhão de índios se aglomerava ao redor da cabana. Muitos pareciam guerreiros, armados com arcos e lanças, outros apenas faziam volume. Ao centro, um velho liderava a movimentação. O delegado olhou de relance pela porta. Parecia que os problemas nunca iriam acabar.

De fora, bradou uma frágil voz, castigada pelos muitos anos:

–  Homem branco, essa pessoa é convidada em nossa tribo!! Não deixaremos que vocês  saiam  daqui  com  ela!!  Vocês  vão  todos  morrer!

Marreco brincou:

–   Eu sou o ganha-pão dessa gente. Vocês realmente acham que eles vão deixar assim? Tão barato?

O delegado gesticulou com as mãos. Ele apontava para uma janela nos fundos da cabana que desembocava diretamente na mata fechada.

–  Vocês três… saiam com ele pela floresta e deem a volta na aldeia. Me esperem no carro.

–  Como assim? O que o senhor pretende fazer? – indagou Regis com certo desespero na voz.

–   Ah, não se preocupe comigo. Só não saiam daqui sem mim! – completou em tom de brincadeira.

Marreco se debateu quando um pano molhado cobriu sua boca e nariz, mas rapidamente perdeu a consciência. Como um saco de batatas, Durval o pôs sobre os ombros. Enquanto isso, Nathan se preparava. Recarregou o fuzil, removeu o silenciador, posicionou a faca. Os gritos e (possivelmente) ameaças dos indígenas ficavam cada vez mais altos, invadindo o interior da cabana. Flechas podiam ser ouvidas cravando no exterior da velha parede de madeira.

George foi o primeiro que pulou a janela. Do outro lado, ele recebeu o corpo desacordado do traficante. Durval foi o próximo. Ainda dentro, Regis se despedia.

–  Vê se não morre, amigo!

A resposta foi um pequeno sorriso, simples e meigo. Enquanto saltava para fora, Regis olhou para trás. Seu coração apertou ao ver o delegado correndo em fúria porta afora. Muitos tiros e gritos foram ouvidos. Os sons eram indistinguíveis. Eles precisavam sair dali.

**********

Dois dias depois.

A manchete do jornal dizia: Conflito entre facções do tráfico deixa 38 mortos em comunidade indígena. Logo abaixo, um pequeno parágrafo completava: Um dos homens mais procurados do norte, chefe de uma das facções, foi capturado pela polícia na manhã seguinte enquanto tentava fugir do conflito.

São 09:00 da manhã. Nathan lia o jornal enquanto terminava de tomar seu café, na cama. Precisou tirar alguns dias de folga. Seu corpo ainda doía e os ferimentos de flechas estavam longe de cicatrizar.

Após terminar sua refeição, ele girou o corpo sentando sobre a beirada da cama.

–  Ei! Já falei para me chamar quando precisar de algo! Eu estou cuidando de você.

Nathan sorriu.

–  A única coisa que eu preciso é você do meu lado, meu bem.

–  Você é um descarado mesmo… – disse, também sorrindo, a bela moça.

Nesse momento um leve ruído, abafado, começou a ressoar pelo quarto. Ele demorou um pouco a entender.

–  Meu amor, eu preciso que você saia do quarto.

–  Como assim?

–  Sai do quarto, agora!

A moça, assustada, saiu e fechou a porta. Nathan se apressou. Mesmo com dificuldades, foi até seu guarda-roupas. Removeu a última gaveta. Ao lado do notebook, havia um celular tocando. “Apenas três pessoas possuem esse número” lembrava consigo mesmo. Ele atendeu.

–  Alô?

Cara, que bom ouvir sua voz. É o Pelicano. Preciso de você.

FIM.

Nanatsu no Sekai – (Volume 2: Capítulo 6)

Capítulo 16

Dämon von Hölle

 

 

O choque era nítido no olhar de todos os presentes no recinto, com exceção, obviamente, daquele que acabara de destroçar um coração humano com suas próprias mãos. Aquele indivíduo continuava a falar lentamente enquanto olhava para os três mas suas palavras pareciam não sair de sua boca. Não, não eram as palavras que não saíam. O medo paralisava Terry, Samantha e Klug de tal forma que nenhum deles conseguia pensar em qualquer outra coisa que não fosse em como fariam para sobreviver naquele momento. Aquela situação se manteve por algum tempo até que o olhar, inicialmente indiferente do demônio começava a se transformar em um olhar visivelmente irritado. Ele, então, disse em um tom um pouco mais alto que o utilizado até aquele momento:

“Se não vão responder às minhas perguntas vocês são tão inúteis quanto esses corpos no chão. Na verdade, não vejo motivo para não torná-los ainda mais semelhantes.”

Terry em um momento de extrema lucidez e pensamento rápido acabou por acordar do transe em que se encontravam e responder a esta frase:

“Pedimos perdão! Nós nos perdemos. Entramos aqui por acaso e não conseguimos mais sair mas não foi nossa intenção perturba-lo de maneira alguma senhor.”

“Ora, ora…então vocês realmente sabem falar. Uma informação vinda em boa hora uma vez que, devo admitir, eu já estava ficando impaciente.”

O demônio, então, sentou-se novamente em seu trono cruzando suas pernas e apoiando seu queixo em uma de seus punhos que, por sua vez, estava apoiado no braço do trono. Ao ver aquela pessoa se sentando, Samantha e Klug também despertaram do choque e, se é que era possível, se acalmaram um pouco. Ele, então, prosseguiu:

“Há algumas semanas atrás eu os mataria imediatamente onde estão por mentirem para mim. Quero dizer, vocês estão no Tártaro e não sabem sobre esse lugar e nem sobre quem está aqui? Isso só poderia ser mentira.”

Samantha e Terry pareciam atônitos com tal frase. Já estava bastante óbvio mas agora não havia mais espaço para dúvidas de que eles haviam adentrado no território de algum peso-pesado daquele mundo. Este prosseguiu seu discurso:

“Contudo, ultimamente alguns ratos estão aparecendo constantemente por aqui e isso jamais aconteceu antes. Eles também pareciam perdidos mas ao contrário de vocês não pareciam dispostos a dialogar. Por isso houve a necessidade de se tomar medidas mais drásticas. Mas agora que sei que vocês possuem a capacidade de falar vocês podem responder minhas perguntas anteriores a começar por: quem são vocês?”

Samantha estava preocupada com algo que muitos poderiam considerar de importância irrisória dada a situação em que o grupo se encontrava. No entanto, sua curiosidade falou mais alto e a Ritualista acabou por cometer um deslize:

“Como você conseguiu compreender o que Terry disse? Você por acaso fala élfico?”

Ao ouvir a pergunta da jovem, o demônio abriu um pequeno sorriso de canto de boca e imediatamente desapareceu. Para a surpresa de todos os presentes, ele reapareceu atrás de Samantha enquanto respondia:

“Mulher insolente, você parece não entender a posição que se encontra nesse momento não é mesmo? O que te faz pensar que é você quem faz as perguntas aqui?”

Samantha, Terry e Klug voltaram a tremer de medo mas a Ritualista conseguiu encontrar forças pra virar seu rosto na direção em que ouviu a voz daquele homem amedrontador. Para sua imensa estupefação ele já não se encontrava mais atrás dela e, quando ela voltou a fitar a direção que visava antes disso, lá estava ele, calmamente sentado em seu trono olhando os três aventureiros com um misto de indiferença e desprezo.

“O que foi isso? Uma ilusão? Não. Eu não posso afirmar com certeza mas não creio que tenha sido uma ilusão. Essa é mesmo a velocidade dele. Isso é completamente absurdo. Ele está em um nível completamente diferente.” pensou Samantha ainda apavorada.

O demônio, então, disse algo que surpreendeu o grupo positivamente:

“Bem, se vocês realmente não são daqui não posso os culpar por não saber a quem dirigem suas insolentes palavras. Pois saibam que vocês estão diante de Dämon von Hölle, o Rei dos Demônios. De qualquer forma eu já perdi meu interesse em vocês. Como recompensa por não terem agido como estes lixos ensanguentados, abrirei uma fenda dimensional que os levará de volta para a entrada dessa caverna. Considerem isso o meu primeiro e único presente. Vão embora. Agora.”

Tal informação pegou todos de forma abrupta mas Terry e Klug estavam mais preocupados em sair daquele lugar o mais rápido possível que qualquer outra coisa naquele momento. Samantha, no entanto, lembrou-se de algo que os dois preferiam que ela tivesse esquecido: os rumores de que o Rei Demônio era um viajante de mundos como eles. E então, tudo começou a dar errado para aqueles três:

“Espere! Se você é mesmo o Rei Demônio então com certeza pode nos dar informações preciosas sobre este mundo e sobre o que está acontecendo conosco não é mes…”

Antes que pudesse terminar sua frase, Samantha fora agarrada pelo pescoço e erguida a uma altura de cerca de pouco mais de 2 metros. Apenas então ficou claro o quão alto o Dämon realmente era pois ele a erguia pouco acima de sua cabeça, ou seja, com certeza sua altura beirava ou mesmo ultrapassava estes 2 metros. Klug imediatamente urrou de raiva e avançou em direção ao Rei Demônio no que foi prontamente interrompido e arremessado contra uma parede por uma espécie de campo de força ao redor dos dois. Terry, que mal havia tido tempo para assimilar aquela situação tão precária, fazia menção a iniciar uma luta mas foi interrompido por Samantha, que gesticulou com suas mãos para que ele parasse enquanto tentava não engasgar e sufocar. Dämon, então, continuou:

“ Você, você, você. Diga-me, garota, na presença de um Rei você o trata por ‘você’ ou por ‘Vossa Majestade’? Está bem óbvio para mim que você possui uma curiosidade tão grande que, mesmo em face de um perigo mortal, você não consegue contê-la. Pois fica mais um aviso: esta será sua ruína. Por que? Por que você abusou de minha benevolência e agora eu mesmo me encarregarei de trazer esta ruína.”

Dämon agora empunhava uma espada escarlate sem que nenhum dos três aventureiros percebesse como e de onde ele havia a desembainhado. Klug, enfraquecido pela queda e pelo choque da barreira de Dämon, tentava distribuir inúmeros socos no campo de força visando quebra-lo de fora para dentro. A essa altura, Terry já havia ignorado o pedido de Samantha e havia invocado o Espírito do Urso para ajudar Klug. Em vão.

“Não se preocupe. Caso seus amigos sejam tão insolentes quanto você eu não hesitarei em os mandar para fazer companhia a você. Agora morra.”

Tudo parecia rodar em câmera lenta naquele momento. A espada fazia seu percurso em direção ao estômago de Samantha enquanto Klug e Terry se desesperavam e tentavam, de todas as formas, ampliar o número de golpes mas estes estavam cada vez mais fracos. Até que uma “explosão” aconteceu e uma cortina de fumaça cobriu o local em que Samantha e Dämon se encontravam. Quando a fumaça se dissipou, apenas Dämon estava no mesmo lugar. Terry se desesperou:

“Não…não é possível…”

Um urro de Klug, no entanto, provou que o pior não havia acontecido. Ao menos por enquanto. Samantha se encontrava de costas para uma das paredes do local, bastante ferida e coberta de sangue. Suas vestes estavam rasgadas em alguns pontos mas ela ainda estava de pé e respirava aceleradamente. Tal feito rendeu reconhecimento de seu agressor:

“Uh? Entendo. Você não é simplesmente uma garotinha fraca e imbecil. Imbecil e insolente mas não fraca.”

Ainda com dificuldades para respirar em um ritmo normal, Samantha disse, também com dificuldades:

“Este pequeno…evento…serviu para eu confirmar duas coisas. Primeiro, você colocou uma barreira ou uma espécie de feitiço em toda essa caverna com exceção do seu próprio campo de força para que o fluxo de magia não fluísse de forma normal. Esse foi um dos motivos pelo qual eu pude sobreviver ao seu ataque, uma vez que eu estava dentro dessa área e, portanto, pude voltar a conjurar uma magia protetora ainda que apenas por um instante.”

Von Hölle faria pela primeira vez, até então, uma cara de surpresa enquanto ria com certa satisfação:

“Você arriscou sua vida por essa possibilidade? E o que você teria feito se sua suposição estivesse incorreta?”

Klug e Terry pareciam completamente alheios a tal diferença de “humor” em toda aquela situação. Samantha respondeu a pergunta do Rei dos Demônios com um sorriso enquanto parecia finalmente recuperar um pouco do seu fôlego:

“Você sabe muito bem que eu teria morrido.”

“Entendo. Você sabia muito bem quais eram as duas opções e ainda assim resolveu arriscar. Interessante. Eu aplaudo sua bravura, mulher. Seu nome é um nome digno de ser conhecido pelo Rei Demônio. Diga-o para que eu possa lembrar a primeira pessoa a sobreviver a um ataque meu nas últimas duas décadas.”

“Meu nome é Samantha Blutbad. Encantada em conhecê-lo.”

“Pois bem, Samantha…você disse que nosso pequeno “confronto” serviu para confirmar duas coisas. Diga-me, qual é a segunda coisa que confirmou?”

Naquele momento, estava claro que Dämon von Hölle havia retomado o interesse no grupo. Mais particularmente em Samantha. Ele, então, andou calmamente em direção a escadaria e sentou-se novamente em seu trono enquanto aguardava a resposta de Samantha com entusiasmo.

“Você falou sobre a minha curiosidade mas isso pode ser considerado uma tremenda hipocrisia visto que você talvez seja ainda mais curioso do que eu. É a única explicação que eu consigo encontrar para se conter quando me atacou.”

Os olhos de Terry se esbugalharam com aquela informação. Toda aquela situação era um Rei Demônio se contendo? Absurdo. Era absolutamente incabível para o Druida pensar que aquilo pudesse ser verdade. Dämon, no entanto, riu novamente e, para espanto de Terry, confirmou a informação:

“Então quer dizer que você percebeu? Hahahaha. Interessante, muito interessante. De fato, é mesmo incrível que tenha assimilado tudo isso prestes a morrer. Eu já tenho uma ideia da razão pela qual acha que me contive mas gostaria de ouvir de você para confirmar meus pensamentos.”

“Ora, esta é a segunda e última razão pela qual eu ainda estou viva. Pelo que apresentou em termos de velocidade e até mesmo pelo nível de poder que podemos sentir em você, minha magia não me protegeria de nem mesmo 1% de um golpe seu com máximo poder. O próprio golpe que dividiu essa caverna e provocou nossa queda aqui foi mais forte do que o que efetuou contra mim, estou enganada?”

Von Hölle se mostrou surpreso pela segunda vez até então. O motivo foi revelado logo em seguida junto com uma recomendação:

“Quer dizer que vocês já estavam na caverna nesse momento? Hmm. Eu deveria ter sentido isso. Provavelmente estava entretido demais com os ratos. De qualquer forma, creio que a ‘atuação’ de sua colega rendeu aos senhores uma segunda chance de sair com vida deste local. Eu sugiro que não a deixem escapar dessa vez.”

Dämon dessa vez estava convicto de que não haveriam mais surpresas por parte de nenhum deles e Terry já fazia menção a agradecer a generosa proposta mas Samantha mais uma vez traiu todas as esperanças de um desfecho simples e amigável ao dizer:

“Eu sinto muito, senhor Dämon mas eu tenho uma proposta a fazer…”

Terry voltou a se desesperar. Não era possível que aquela mulher não pudesse ficar quieta por meros 5 minutos sem colocá-los numa situação delicada. Será mesmo que ela entendia melhor do que qualquer outro ali o quão perigosa era a situação? Ou poderia ser que ela era apenas uma pessoa viciada na adrenalina de situações de vida ou morte?

“Uma proposta? Veja bem, eu certamente duvido que possua algo a me oferecer que desperte meu interesse…”

Samantha sorriu e em seguida respondeu:

“Ah mas eu tenho. Você, em menos de 15 minutos, nos mostrou dois traços de personalidade. A primeira foi a de alguém frio e insensível que parece apenas querer ficar sozinho sem nunca se incomodado enquanto a segunda foi a de alguém curioso por outros e, mais especificamente, por nós, que não somos deste mundo…”

Dämon coçava levemente o queixo. Ele parecia entender onde Samantha queria chegar mas Terry e Klug continuavam completamente alheios à situação. Samantha, então, prosseguiu:

“Traços conflitantes, não concorda? Você quer ser deixado em paz mas ao mesmo tempo quer conhecer mais sobre o que desconhece e isso inclui pessoas. Pois eu tenho uma solução para tal dilema.”

Dämon sorriu. Ele realmente já sabia o que viria. E foi então que este interviu na explicação pela primeira vez:

“Você está, pela segunda vez nesses mesmos 15 minutos que disse, recusando a oferta de um Rei. Eu, infelizmente, não posso fazer vista grossa para tal afronta. Vamos fazer da seguinte forma então. Caso sua oferta, ou o que quer que tenha para dizer sobre ela, capture meu total interesse, eu os deixarei viver. Caso contrário, eu os matarei aqui e agora. O que acha disso?”

A aura de Dämon Von Hölle voltara a exalar um enorme nível de poder demoníaco. Um poder maligno e macabro que até mesmo Klug conseguia sentir. Estava claro que, desta vez, não haviam segundas intenções. Não era uma brincadeira, era real, muito real. Medo voltara aos corpos dos três viajantes. Entretanto, tal medo não fora suficiente para abalar a decisão de Samantha:

“Está bem. Eu não posso dizer sobre eles mas posso dizer sobre sim mesma. Eu aceito sua condição.”

“Samantha pelo amor de Deus pense no que está dizendo. Você mesma disse que esse cara está num nível completamente diferente do nosso. Pelo Espírito da Floresta, olhe os corpos ao redor dele!!! Você vai mesmo jogar sua vida fora assim por um capricho?”

Terry estava genuinamente preocupado. Não apenas com sua vida mas com as intenções de Samantha. O que poderia ser tão importante que faria a garota arriscar sua própria vida? Samantha, então, fez um pedido:

“Por favor, Terry. Confie em mim.”

Terry não confiava em Samantha. Não o bastante naquele momento. Contudo, ele sabia que as chances de sobreviverem sem Samantha e McGavin em mundos diferentes poderia ser drasticamente reduzida e que Samantha, possuidora de conhecimento quase infinito, não poderia estar fazendo isso sem uma boa razão. O instinto de viver disputava espaço com a razão dentro de Terry. Até que tal indecisão fora interrompida por um novamente impaciente Rei dos Demônios:

“Pois bem, você aceita e seus companheiros não caíram fora daqui ainda o que quer dizer que eles estão com você. Agora diga o que tem a dizer e saia ou morra depois disso.”

Samantha não se abalara por essas últimas palavras de Dämon. Ela sabia que teria de ser persuasiva o suficiente para convencer o próprio Rei Demônio de suas intenções. Ela, então, começou:

“Dämon Von Hölle, como você provavelmente sabe nós somos de mundos diferentes. Nós três compartilhamos o mesmo planeta mas vivemos em planos diferentes. Se você realmente for como nós vai acreditar nessas palavras. Em um dos planetas que estivemos, o avanço tecnológico era absurdamente maior do que qualquer outro e lá, tivemos acesso a algumas das mentes mais brilhantes daquele mundo. A causa para tal fenômeno ainda não pôde ser descoberta mesmo por tais mentes equipadas com o que há de melhor na tecnologia mas certas informações nos foram reveladas. A começar pelo fato de que provavelmente existem sete destes mundos o que indica sete indivíduos cujas leis do espaço-tempo não se aplicam. Além disso, todos nós compartilhamos o mesmo DNA apesar das visíveis diferenças físicas entre nós o que era, até então, completamente incabível sequer considerar. Portanto, caso algo aconteça com um de nós, há a chance…”

Samantha não precisava nem mesmo continuar sua explicação. Ela provavelmente queria chegar no ponto de que eles teriam de descobrir juntos a causa para tais fenômenos e, como McGavin, reunir o grupo para que pudessem se proteger e, ao mesmo tempo, descobrir mais sobre o que estava acontecendo. Faria sentido já que despertaria a curiosidade de Dämon sobre novos mundos e indivíduos bem como, a longo prazo, solucionaria seu “problema” com visitantes indesejados. No entanto, aquela última informação que ela estava providenciando acabara por cavar sua própria sepultura:

“…há a chance de todos nós morrermos, certo? Se, de fato, dividirmos o mesmo DNA sendo que é absolutamente impossível existir uma cópia exatamente igual de uma pessoa mesmo entre irmãos gêmeos mas que isso está acontecendo devido a interferências nas leis do espaço-tempo então ao eliminar um dos sete espécimes, os outros seis podem sofrer o mesmo destino não é mesmo?”

“Exatamente. É claro, isso pode não ser verdade pois há pouco  tempo algumas das coisas que estão acontecendo conosco sequer podiam ser tomadas como possíveis mas…”

“Eu não preciso ouvir mais nada. Obrigado pelas informações.”

Imediatamente após dizer isso, Dämon desapareceu de seu trono e reapareceu em frente a Samantha novamente. Dessa vez, a lâmina dava lugar a uma enorme luva escarlate.

“Merd…”

Tampouco completara a palavra, Samantha fora arremessada novamente contra uma das paredes. Ela, no entanto, se encontrava exatamente da mesma maneira que a primeira vez: coberta de sangue e ferimentos mas ainda viva e de pé. Uma espécie de aura azul-gelo a protegia.

“Hmm, que descuido da minha parte. Eu esqueci que eu ainda estava me contendo e acabei não aumentando meu poder. Bem, não vai acontecer de novo. De qualquer forma eu a parabenizo por conjurar feitiços tão rapidamente.”

“Ei, você disse que iria ouvi-la antes de tomar sua decisão! Ela não havia terminado de falar!” reclamou um Terry completamente amedrontado mas fiel à suas palavras

“De fato. E pra ser sincero, o que ela disse cativou meu interesse mas essa é uma oportunidade que eu não posso deixar passar.”

Dämon andou lentamente em direção à Samantha que mal conseguia se manter de pé depois deste segundo golpe. Ela tentava levantar as mãos em direção ao Rei dos Demônios mas seus esforços eram em vão. Provavelmente seu braço estava quebrado. Provavelmente ambos os braços estavam quebrados. Ele iria matá-la e não havia nada que ela pudesse fazer. Ninguém ali era forte o suficiente para detê-lo. Pelo que havia mostrado até então, provavelmente nem mesmo McGavin. Até que algo surgiu entre Samantha e Dämon:

“Saia da minha frente.”

Ignorando a ordem de Dämon, um gigante de rochas se posicionava em frente à Samantha e olhava com fúria para o, agora diminuto, Rei dos Demônios. Um urro e um soco se seguiram:

“NÃO! KLUG, SAIA DAQUI, AGORA!!”

O apelo de Samantha fora tarde demais. Dämon Von Hölle segurou o punho de Klug sem a menor dificuldade e, em seguida, disse em voz baixa:

“Tanto faz. Se aquela hipótese estiver certa você também serve.”

Um segundo depois Klug explodira em milhares de pedaços. Suas enormes rochas davam lugar a minúsculas pedrinhas que se espalharam por todo aquele salão e se banharam no sangue das vítimas anteriores. Os rostos perplexos de Samantha e Terry mostravam a face de quem não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. Com enorme frieza em sua voz, Dämon apenas disse:

“Hmm, ainda estamos vivos. Parece que sua teoria estava errada.”

 

————————————————-

 

Em outro lugar naquela caverna, um indivíduo com uma pistola reluzente pulava e corria de um lugar para outro carregando outra pessoa em seu braço e apoiado em seu ombro.

“Samantha, Terry, Klug, onde estão vocês? Este lugar já está me dando nos nervos. Me desculpem por agir com tanto impulso. Vamos sair daqui logo. Juntos.”

Craver, então, riu freneticamente:

“Não, não vão não. Não juntos. Não mais…”

“O que quer dizer com isso, velho? Você não quer dizer que…”

A resposta de Craver foi apenas mais uma gargalhada maléfica e viciosa. McGavin sentiu um frio na espinha enquanto acelerou o passo.

 

———————————————————

 

No mesmo lugar em que os outros se encontravam:

“Por favor, parem com seus esforços inúteis. Vocês sabem muito bem o quão sem propósito essa resistência é.”

Samantha estava completamente desgastada bem como Terry que suava bastante além de apresentar muitos ferimentos. Ambos respiravam com dificuldades. Samantha, então, proferiu as seguintes palavras para Dämon Von Hölle:

“Seu traidor maldito. Assassino. Um Rei sem honra. Eu posso não conseguir matá-lo mas me certificarei de arrancar um ou dois membros do seu corpo para vingá-lo. EU PROMETO A VOCÊ DÄMON VON HÖLLE, VOCÊ NÃO SAIRÁ DISSO IMPUNE!!”

Samantha puxou uma faca de dentro de sua meia-calça parcialmente rasgada e, novamente, fez um corte na palma de sua mão deixando as gotas de sangue caírem ao seu redor. Terry entendera o que aquilo significava:

“Um Ritual de Sangue…Samantha…não…”

O demônio invocado levitava enquanto pairava sua foice por trás de Samantha mas dessa vez, para a surpresa de todos os presentes, em vez de cortá-la nas costas como da outra vez em que a Ritualista ofereceu seu próprio sangue em troca de algo, Baphomet fez diferente. Ele fincou sua foice nas costas da garota e mergulhou dentro de seu corpo. Imediatamente seu globo ocular deixou de ser branco para se tornar negro e o vermelho de suas pupilas se intensificou. Dois chifres ondulados surgiram em sua cabeça e sua pele se tornou da cor de um roxo pálido. Por fim, seus cabelos negros e voluptuosos se tornaram brancos e frágeis. Sua aparência havia se modificado por completo e até mesmo suas vestes haviam mudado uma vez que o vestido provocante havia dado lugar a uma armadura pesada negra. Um par de asas surgira atrás de Samantha mas não era possível ver se eram “naturais” ou parte da armadura. Dämon, então, ficou surpreso pela terceira vez naquele dia, definitivamente um novo recorde em muito tempo. Ele disse:

“Ora então você também é um. Quero dizer, sua verdadeira forma…você também é um…

 

 

 

“…demônio.”

Kami no Sensou – Anêmona (Volume 6: Capítulo 1)

“Pois então, tudo começou quando… Bem, acho mais fácil mostrar do que contar, não é? Kuro-kun.”

“Huh? … Ah!”

Por estar um pouco distraído, Kuroshi demorou um pouco para entender o que Ryoka queria dizer.

Imediatamente ele fez a conexão entre os 5 com o [Soul Linker]. Já que nenhum dos 4 estava usando seus poderes, Ryoka ganhou liberdade para exceder um pouco seu limite e chegar aos 30% de poder sem riscos.

A intenção dela é—

“[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].”

O espaço ao redor deles se alterou completamente. Na dimensão que carrega toda a história da existência, é possível acessar o passado de Ryoka e Masaya casualmente e mostrar diretamente para os 3 o que precisa ser mostrado.

“Muito bem, agora… Fechem os olhos.”

Todos seguiram seu comando. Se concentrando e utilizando sua habilidade, como se fosse um sonho, todos começaram a reviver memórias que não eram deles.

Apesar de Ryoka e Masaya também estarem vendo aquilo, ainda era quase uma novidade. Isso porque a história estava sendo recontada, era realmente como se estivessem assistindo a uma história fictícia.

 

 

A família Illsbert sempre teve muito sucesso financeiro na vida, e sempre foi uma família feliz. Daisuke e Emily Illsbert eram casados há pouco tempo, e estavam no ápice da felicidade das suas vidas. Eles viviam quase uma lua de mel constante, que só teve o ritmo diminuído quando Emily descobriu que estava grávida. Nove meses depois veio a nascer a única filha do casal, Ryoka Illsbert.

Durante a vida deles, Daisuke fez um grande amigo, Suguro Fujiwara. Devido a situação complicada da família de Suguro, Daisuke decidiu dar a casa ao lado da sua para ele e o contratou para trabalhar como caseiro para ele, a diferença financeira dos dois nunca foi uma barreira. Após 3 anos depois do nascimento de Ryoka, o foco no trabalho voltou para o casal, embora eles sempre fizessem o máximo para educar e cuidar de Ryoka, muitas vezes eles dependiam do seu vizinho para cuidar dela… Ou mais precisamente do filho de Suguro, que era o primeiro amigo próximo de Ryoka, Masaya Fujiwara.

“Ei, Ryoka-chan ,vamos!”

“Espere, Masaya, você está correndo muito rápido…”

Masaya era bem agitado e animado quando criança, mesmo não tendo uma presença materna na sua vida.

“Você não conhece sua mãe?”

“Sim, ela foi embora quando eu tinha 3 anos, então não tenho quase nenhuma memória dela.”

Os dois estavam sentados em um balanço.

Ryoka desceu do balanço e colocou a mão na cabeça de Masaya.

“Não se preocupe, agora eu estou aqui.”

“Não me venha com essa, você é menor do que eu!”

Vivenciando essas interações quase todos os dias, nenhum dos dois se sentia solitário.

Até chegarem aos 12 anos de idade.

Por ser alguns meses mais velho, Masaya foi o primeiro. Sua vida normal começou a desandar quando ele fez aniversário. Informações chocantes chegaram a sua cabeça, e sem poder rejeitar aquilo, ele acabou dentro da [Guerra Divina].

Aquela coisa de outro mundo fez ele esconder essa realidade dos outros, e seu comportamento começou a mudar, o garoto agitado e animado começou a ficar mais distante e quieto. Mal ele podia esperar que ao seu lado, outro caso similar viria a existir.

Após o aniversário dos dois, certo dia, Ryoka chamou Masaya para contar um segredo.

Que para sua surpresa era o fato dela ser uma [Avatar de Deus]. Ela achou que ele não acreditaria a principio, mas também para sua surpresa, ele disse que também era um [Avatar de Deus].

“Masaya também…”

“Uh…”

Os dois acabaram ficando sem palavras.

“Nesse caso, devemos aproveitar essa coincidência para nos unir!”

Para tentar quebrar a estranheza, ele sugeriu isso.

Sem realmente entender a profundidade daquilo que estavam entrando, Ryoka sorriu e concordou em claro e alto tom.

E então, os dois se tornaram uma animada dupla… Por muito pouco tempo.

Certo dia, Masaya acordou devido a comoção que estava havendo na sua casa.

Ao ir descobrir do que se tratava, uma chocante imagem veio aos seus olhos—Seu pai estava sendo levado.

Levado pela polícia.

“Pai…!”

Muito chocado, Masaya só conseguiu chamar por ele. Suguro olhou para o seu filho com um olhar triste e desolado.

“Vá para a casa do tio Daisuke, Masaya.”

Foi tudo o que ele disse antes do policial que o segurava urgisse para que ele fosse até a viatura.

Masaya continuou  olhando perplexo para as costas do seu pai, sem notar as lágrimas começando a escorrer pelo seu rosto.

No caminho até a viatura, Suguro passou por Daisuke.

“Suguro… Eu cuidarei do Masaya… E farei o possível para te inocentar.”

Suguro deu um sorriso fraco para seu amigo de longa data. Ele estava feliz de verdade por saber que ele acreditava na sua inocência. Podendo deixar Masaya nas mãos dele sem se preocupar, ele não hesitou mais e entrou no carro.

Daisuke foi até a porta onde Masaya estava em pé, parado.

“Vamos Masaya. Nós precisaremos conversar sobre esse ocorrido, mas antes de mais nada você precisa tomar um banho e comer algo para se acalmar.”

Obviamente, naquele dia Masaya não digeriu nada.

Daisuke tentou ao máximo explicar o que havia acontecido. Basicamente, o pai de Masaya havia sido preso por roubo, havia filmagens dele assaltando a loja e o dinheiro e materiais roubados estavam na casa dele.

Conseguir provar que Suguro é inocente seria uma missão quase impossível, mas Daisuke estava disposto a lutar, pois ele sabia que tinha algo estranho nesse caso.

Masaya não sabia o que dizer, o que pensar, ou como reagir. Ele permaneceu quieto, seus olhos não expressando nenhuma emoção.

A criança de antes havia sido completamente destruída.

“… Masaya?”

Abrindo a porta do quarto onde Masaya tem vivido agora, Ryoka tentou falar com ele. Não era a primeira vez, mas a comunicação entre os dois simplesmente não acontecia mais. Ela tentou de tudo, mas nada surtia efeito.

Ela, no entanto, conseguiu pensar em mais uma alternativa.

“Eu tive uma ideia, Masaya…”

Ela olhou para os dois lados do corredor, confirmando que não tinha ninguém por perto, antes de entrar no quarto e se ajoelhar diante de Masaya que estava sentado na cama, em posição fetal.

“Eu tenho uma habilidade especial chamada [Analyzer]. Ela é uma habilidade ocular que me permite enxergar coisas impossíveis de se ver normalmente. Eu acho que usando ela eu conseguirei descobrir um jeito de soltar seu pai!”

“…”

Mesmo assim, não parecia ter surtido efeito. Notando que era inútil, Ryoka se levantou sem desanimar.

“Não se preocupe! Começarei minhas próprias investigações e trarei resultados, prometo!”

E deixando uma perigosa promessa no ar, Ryoka se virou e se retirou do quarto.

Sem perceber que, por um momento, ele havia esboçado algum tipo de reação, acompanhando ela com os olhos e mexendo a boca como se quisesse dizer alguma coisa.

 

Era difícil dizer se ele escolheu certo ou errado, mas depois de algumas semanas, Masaya mudou novamente.

Pode-se dizer que ele encontrou sua própria maneira de lidar com o caso. Ele se tornou mais frio, e também mais rebelde.

Até que chegou o dia que Daisuke deu uma direção pra vida dele.

“Masaya. Este é Yan Quon, ele é um grande artista marcial que eu contratei para te treinar.”

Daisuke apresentou um homem que embora parecesse já ter mais de 60 anos, tinha um corpo com músculos bem definidos e vestia uma tradicional vestimenta chinesa. Mesmo sendo para uma criança, Yan Quon o cumprimentou respeitosamente.

“Me treinar? Pra que?”

Mas Masaya só o ignorou e continuou o diálogo com Daisuke, o que o deixou um pouco sem graça.

“A partir de hoje, você será guarda-costas da Ryoka. Ela está para começar o ensino fundamental, e depois do último incidente resolvi ser um pouco mais cauteloso. Ah sim, você irá estudar junto com ela.”

Por incrível que pareça, não é como se Ryoka tivesse mais chances de sofrer algo em comparação a qualquer outra criança. Daisuke nunca expôs sua família para a mídia, então ele não precisaria se preocupar tanto. Mas sendo pai, acima de tudo, ele sempre manteve alguém de olho na Ryoka por precaução durante toda sua infância.

Com sua filha crescendo e chegando a adolescência, é natural que ela queira ter mais espaço pra ela. Tentando encontrar um balanço entre a privacidade da filha e a segurança da mesma, a resposta que Daisuke encontrou foi: Masaya.

Como os dois cresceram juntos, se estudassem juntos não haveria problema em irem juntos para a escola. E se Masaya fosse treinado para defendê-la, não precisaria de muita preocupação.

Por causa da nova fase rebelde de Masaya, Daisuke esperava uma forte negação, mas depois de ouvir os seus motivos, surpreendentemente Masaya apenas desviou o olhar para a direção de Yan Quon fazendo um som de “hmph”.

Não sendo apenas muito vivido e experiente, mas também um homem. Daisuke precisou segurar a risada ao ver aquilo. Não era uma risada de deboche ou algo do tipo, mas talvez de felicidade, pois pela primeira vez ele sentiu que conseguiu compreender um pouco o que se passava na cabeça de Masaya.

“Então, Quon-sensei, contarei com você.”

Daisuke falou com Yan Quon antes de se retirar.

 

Apesar de estar diante de um mestre de artes marciais, na visão de Masaya ele era lento e provavelmente poderia o derrotar com um golpe. Mesmo assim, sem saber se era por ainda ser uma criança ou por conseguir enxergar algo que uma pessoa normal não enxergaria, ele via um grande brilhantismo nos movimentos de Yan Quon. Claro, Masaya não podia simplesmente se mostrar ser um super-humano diante de alguém que não está na mesma situação que ele, por isso, ele escondeu o fato o máximo que pode.

Já nos primeiros dias, Masaya se viu interessado em aprender, e apesar da comunicação quase inexistente entre mestre e discípulo, eles produziam grandes resultados facilmente.

Em uma certa noite…

Ryoka abriu a cortina da janela do seu quarto devido a barulhos no seu quintal. Ela sabia o que era, pois acontecia toda noite.

Eram os sons de Masaya treinando sozinho. Mesmo depois das aulas de Yan Quon, ele permanecia praticando por horas.

De longe era possível notar a musculatura de Masaya tomando forma, apesar do pouco tempo de treino e a idade dele. Usando uma simples camisa branca e uma calça comprida preta, aquele era o uniforme de Masaya. Ele estar suando só provava o tanto de esforço que ele colocava no treino, devido a fisionomia sobre-humana dos [Avatares de Deuses].

Ryoka sabia o propósito desse treinamento, seu pai já havia comunicado ela. Uma parte dela estava descontente com a notícia, enquanto a outra queria estar feliz, mas não conseguia, o que gerava grande frustração nela. Isso acontecia devido ao fato da relação dos dois ter ficado muito estranha desde a última vez que se falaram—Há mais de um mês atrás.

Como ela prometeu, Ryoka tem se esforçado do jeito dela para tentar ajudar Masaya, mas ela ainda não havia encontrado respostas, por isso tem evitado contato com ele. Devido ao estado atual de Masaya, ele também tem evitado contato com ela, logo, de alguma forma eles pararam de se falar.

“Masaya… Seu idiota…”

Com um olhar triste no rosto, ela murmurou e fechou a cortina.

Suas palavras contradiziam seus sentimentos. Acima de tudo, ela culpava a si mesma pela sua covardia, assim como culpava o fato dela ter feito uma promessa que não sabe se conseguirá cumprir.

Vestida só com um pijama quadriculado verde e com seus longos cabelos soltos, ela se jogou na cama e começou a encarar o teto.

O que eu devo fazer?

Esperar?

E se continuarmos nisso pra sempre?

Agir?

E se ele se decepcionar por eu não ter cumprido minha promessa?

Ele faria algo assim?

O Masaya de antigamente não, mas o de agora… Eu não sei…

“Aaaaah, que droga!”

Ela se virou na cama e atirou um raio de luz com o dedo no interruptor, apagando as luzes do quarto.

 

Os dias continuaram passando rapidamente, até finalmente chegar o primeiro dia de aula dos dois.

Vestido com seu uniforme escolar, Masaya aguardou por Ryoka do lado de fora da mansão.

Quando ela apareceu saindo do portão, o coração de Masaya pulou uma batida.

O uniforme da escola era um uniforme de marinheiro preto com listras brancas. E pela primeira vez Ryoka apareceu com o cabelo preso em um rabo de cavalo. Ela estava definitivamente muito bonita, eis a causa.

Mesmo assim, foi algo que ele guardou para si, sem esboçar nenhuma reação.

“V-Vamos indo.” – Ryoka se esforçou para não gaguejar, mas foi tudo em vão.

Os dois começaram a caminhar lado a lado, nenhum dos dois puxava assunto.

Desviando o olhar para evitar contato olho a olho, os dois chegaram na escola antes de perceberem. Diferente de uma situação de um casal tímido demais para se comunicar, aquela atmosfera era feita completamente de estranheza entre eles, por isso, estava bem desconfortável.

Em um primeiro dia de aula, todos os alunos da sala tentaram se conhecer. Isso é, exceto Masaya. Sentado do lado da janela com o cotovelo na mesa e a mão apoiando a cabeça, ele passou o dia de aula com uma aura de poucos amigos, logo, poucos se aproximaram.

Cada resposta dele para seus colegas de classe era fria e curta, se conseguir a antipatia da turma era seu objetivo, ele estava no caminho certo. Era capaz de confundirem ele com um delinquente.

Aquilo preocupava bastante Ryoka, mas ela não conseguia se permitir a fazer alguma coisa. Ela nem conseguia puxar uma conversa com ele direito, afinal.

Aquele primeiro dia de aula se tornaria uma rotina rapidamente. Ou quase.

 

“Haa! Haa! Haa!”

Os treinamentos de artes marciais de Masaya continuavam diariamente.

“Você precisa se focar, Masaya.”

Essa não era a primeira vez que Yan Quon dizia aquilo, o que irritava um pouco Masaya.

“Você tem a força, o que é importante, mas força é algo que pode facilmente ser dominado quando se sabe os segredos das artes marciais.”

Você realmente pode dizer isso? Eu posso te derrotar sem que você sequer perceba.

Claro que a reflexão de Yan Quon se restringia aos limites humanos.

“O que você faria para lidar com alguém muito mais forte que você, Masaya?”

“…”

Ele sabia que a resposta que ele tinha não era o que Yan Quon queria ouvir, por isso ficou em silêncio.

“Eu vou fazer uma demonstração. Me ataque com toda a força.”

Ficando frente a frente, Yan Quon entrou em posição de defesa pessoal.

Talvez eu deva dar um susto nele…

Masaya não pretendia exagerar, mas para aliviar sua frustração decidiu usar uma força muito além do comum para uma criança de 12 anos.

“Haa!!”

Avançando em uma velocidade anormal, Masaya tentou socar Yan Quon com bastante força, mas—

“Hu!”

Arregalando os olhos por um instante, Yan Quon desviou a direção do braço de Masaya com uma mão e levou a outra palma da mão direto até o queixo de Masaya, que o forçou a dar alguns passos para trás.

Apesar de ter conseguido enxergar claramente toda a cena, Masaya não entendeu como aquilo aconteceu.

“Lembre-se disso, Masaya. Tendo o conhecimento e as técnicas necessárias, você pode derrubar alguém muito mais forte que você.”

Ele ainda estava surpreso. Naquele momento, Masaya passou a ver as artes marciais um pouco diferente.

 

Os dias iam e vinham. Em um certo momento, algo surpreendeu bastante Masaya.

Era um dia comum em que ele aguardava por Ryoka para ir para a escola.

“Vamos indo, Masaya.”

Quando ouviu a voz dela, ele parou de observar o céu e olhou na sua direção.

“R-Ryoka?”

Havia um detalhe diferente nela.

“U-Umm… O que?”

“Isso…”

Ele colocou a mão no rosto. Agora ela estava usando óculos.

“A-Ah, isso… Minha visão tem piorado recentemente haha…”

Masaya estava chocado. O que mais sobre Ryoka ele simplesmente não tem mais notado? Quando a distância entre eles ficou tão grande?

N-Não, esqueça isso…

“E-Entendo… Vamos indo para não nos atrasarmos.”

Ele balançou a cabeça e se livrou dos pensamentos.

 

Na escola Ryoka acabou se enturmando bem com seus colegas. Masaya sempre observava de longe (Sobre o pretexto de ser o trabalho dele), mas ele mesmo não fez nenhum amigo.

Refletindo um pouco sobre sua situação atual—

“Hey, Fujiwara.”

A atenção de Masaya foi chamada ao ouvir seu sobrenome enquanto caminhava em direção a cantina.

Três colegas de classe o cercaram. Um deles, que parecia o líder, colocou o braço por cima de um dos ombros dele e a cabeça por cima do outro.

Sendo meio que um observador por praticamente todo o tempo enquanto na escola, ele já sabia da índole desses três jovens.

“Nós ‘esquecemos’ de trazer o dinheiro do nosso almoço, e então pensamos “Ah, claro! Fujiwara com certeza irá nos ajudar”. Tenho certeza que você quer contribuir com uns 3000 ienes, certo?”

“Huh. Quem é você?”

Masaya perguntou despreocupadamente, o que irritou o rapaz.

“Como assim?? Você sabe sobre mim, certo?! Seu colega de classe!”

“Normalmente você não se importa com os diferentes nomes dos insetos, certo? Insetos são insetos. E tal como um, você tá me incomodando.”

Aquilo foi passar do limite, o garoto, furioso, se afastou e disse “Peguem ele”. Sem se importar com as testemunhas visuais por ali, eles avançaram para tentar segurá-lo.

Masaya desviou do líder e bateu com seu cotovelo no rosto dele, fazendo-o cair já inconsciente. Outro que se aproximava levou um forte golpe com a parte de trás da mão de Masaya no seu queixo e desmaiou imediatamente. O terceiro, obviamente, parou e optou por algo mais inteligente: Correr gritando.

Era um resultado esperado. Mesmo se fossem três adultos, o resultado seria o mesmo.

Como consequência, Masaya foi suspenso.

 

“Ouvi dizer que você foi suspenso da escola.”

Yan Quon comentou, sem olhar diretamente para o garoto, enquanto continuava o treinamento.

“Uh… Tive que ficar horas ouvindo o sermão do tio Daisuke.”

A conversa parou por ali. Durante alguns minutos os dois continuaram treinando em silêncio.

“Mestre, você acha que eu estou errado por ter agredido eles?”

Yan Quon olhou com surpresa para Masaya, era a primeira vez que ele havia o chamado de “Mestre”. Mas foi só por um instante, logo Yan Quon retomou o treinamento.

“Sim e não.”

“Sim e não?”

Masaya não havia compreendido a lógica por trás de uma resposta como essa.

“Alguns dizem que resolver as coisas através da violência sempre será errado. Não é um ponto de vista ruim.”

“Então eu estou errado?”

“Sim, mas não por isso. Tudo depende do seu estado emocional.”

“Estado emocional?”

“Sim. Usar da violência por raiva ou ódio devido às ações de um terceiro não passa de uma vingança, usar da violência por frustrações pessoais não passa de algo supérfluo, de fato, quase todas as situações podem ser resolvidas sem o uso da violência. Tudo depende do estado da sua mente, você precisa pacificar seu coração e tornar sua mente imperturbável diante de uma situação onde exista essa opção. Alcançando esse estado controlado de espírito você conseguirá encontrar a resposta certa para suas ações.”

Masaya não entendeu completamente o que Yan Quon queria dizer, mas seu discurso o afetou mesmo assim, fazendo aquelas palavras ficarem na sua mente.

“E quando usar a violência seria a opção certa?”

“Salvar alguém de um perigo inevitável? Impedir alguém incontrolável de espalhar o caos? Isso você mesmo precisa encontrar a resposta.”

A conversa novamente morreu ali. Dessa vez sem volta.

 

 

Terminando de se vestir, Ryoka se olhou no espelho e viu seu reflexo vestindo roupas casuais. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo e ela estava usando seus óculos. Ela estava pronta para sair.

Mais uma vez.

Já havia se tornado uma rotina, todos os dias ela saia mais ou menos na mesma hora. Ela não ia muito longe, por isso Daisuke não se preocupava. De fato, ela nem sequer saia dessa rua, muitas vezes nem sequer ia 2 casas de distância daqui.

Antes que pudesse sair do quarto, ela ouviu batidas na porta.

“Ryoka-sama, Daisuke-sama chama pela senhorita.”

Ao ouvir a voz de uma das empregadas da casa, Ryoka respondeu com um formal “Estou indo” e voltou a terminar de se preparar para sair.

Após isso, ela desceu as escadarias da mansão e se dirigiu até o escritório de Daisuke, que aguardava por ela.

“Pai? O que houve?”

“Ryoka… Você soube sobre a suspensão do Masaya, certo? Afinal, vocês voltam da escola juntos.”

Ryoka não conseguiu responder de imediato. Ela não esperava esse assunto. Com bastante esforço ela respondeu positivamente.

“É bem simples, hm… Eu sou muito ocupado, mas não consigo deixar de me preocupar com aquele garoto. Eu percebi que vocês andam se falando muito pouco, tentei evitar tocar nisso já que a situação dele é tão delicada, mas… Ryoka, você precisa fazer algo.”

“… Eu?”

“Eu sei que pedi a ele para ser seu guarda-costas, mas isso não significa que você precisa deixar que ele resolva tudo sozinho, Ryoka.”

“Eu não—“

“Ryoka.”

Ela parou de falar e notou que estava tentando não apenas mentir para si mesma, mas tentar enganar seu próprio pai para não admitir isso.

“Você pode fazer isso. Ou melhor, só você pode. Recupere o Masaya enquanto é tempo, antes que ele se perca de vez. Se eu o contratei para ser seu guarda-costas, agora estou te pedindo para ser a ‘guarda-costas’ dele. O que me diz?”

Apesar de tudo, aquilo era uma pergunta retórica. Aquela garota, no fim das contas, era filha de Daisuke, ele sabia muito bem o que ela iria dizer.

Comovida com as palavras do seu pai, Ryoka respirou fundo e respondeu, com um sorriso no rosto, um forte “Sim!”.

 

Ryoka estava na frente da casa de Suguro, pronta para mais uma tentativa.

Algo que ela vinha fazendo faz tempo… Tentando encontrar pistas que provem a inocência do pai de Masaya.

Normalmente isso seria uma tentativa inútil, não tem como uma criança fazer algo que a policia não conseguiu. Mas isso, obviamente, não se aplica aos [Avatares de Deuses].

Graças a sua técnica especial—[Analyzer]—Ryoka pode tentar encontrar pistas “invisíveis” a olho nu.

Ela já havia procurado por toda a casa, dessa vez estava investigando o jardim.

Se alguém estava tentando incriminar Suguro, para colocar o dinheiro e os materiais dentro da casa esse alguém precisaria entrar nela em algum momento. Como é possível não haver marcas deixadas?

Mas não só era possível, como era o caso. Ryoka não encontrou nada. Absolutamente nada.

Sua vista já estava cansada e ela havia olhado por todo o lugar.

Minha vista está piorando…

Ela já havia percebido o efeito colateral do uso contínuo do [Analyzer], mas continuava a usar mesmo assim.

Quando pensou em desistir, as palavras do seu pai vieram a sua mente.

Não posso desistir! Se o [Analyzer] não consegue me dar respostas, então eu só tenho que encontrar outro meio!

Já tendo feito alguns testes, Ryoka sabia que poderia descobrir novas habilidades caso elevasse seu nível de poder.

Confirmando sua decisão, Ryoka começou a aumentar drasticamente seu nível de poder. Ela sentiu um calor crescer dentro dela enquanto mudanças físicas aconteciam nela.

Informações antes desconhecidas vieram até sua mente.

—Encontrei!

[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].

A técnica capaz de acessar toda a história da criação.

Com algo assim, descobrir a verdade por trás da prisão do pai de Masaya será fácil.

Não há o que esperar…

“[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou]!”

O espaço se distorceu e se alterou completamente, uma nova dimensão apareceu diante de Ryoka.

Agora, Zenchi Kūkan, me mostre a verdade!

E então, imagens apareceram na mente de Ryoka—Ou melhor dizendo, memórias.

Os olhos de Ryoka se arregalaram completamente.

I-Impossível… Por quê?

Foi difícil compreender.

Duas pessoas.

Poderes especiais.

[Avatares de Deuses]?

Ao ver claramente as ações de uma garota usando estranhas habilidades para incriminar Suguro, Ryoka só pode se perguntar qual era o sentido daquilo.

Eu… Eu preciso contar isso ao Masaya urgente!

Cancelando sua técnica e voltando tudo ao normal, Ryoka decidiu correr até Masaya imediatamente. No entanto—

Eh?

Um choque passou pelo seu corpo, sua visão escureceu e logo ela perdeu a consciência.

Ignorante dos efeitos colaterais de usar muito poder, Ryoka ficou inconsciente durante dias.

 

 

Ryoka se levantou, um pouco tonta.

Tudo estava escuro, mas não era como se ela não enxergasse e sim como se o chão e o espaço ao redor fossem, de fato, pretos.

“… Onde…”

Ao sentir uma luz vindo de trás dela, ela se virou. Descendo do céu vinha uma grande esfera de luz.

“… Ryoka.”

Ao invés de curiosidade, medo ou surpresa, ela só conseguiu sentir fascínio ao olhar para a luz.

“Q-Quem… Quem me chama?”

A esfera ficou a uma altura próxima do solo e começou a tomar forma.

Uma garota com cabelos loiros esbranquiçados e olhos dourados sorria para Ryoka.

“Ryoka.”

“… Quem é você?”

Mesmo estando fascinada, Ryoka não conseguia deixar de notar… Ela parecia estar se olhando no espelho. A garota tinha cabelos e olhos diferentes, mas de resto era exatamente igual a ela.

“Eu sou Palas Atena.”

“A-Atena…”

“Haverá tempos em que você precisará tomar decisões importantes, Ryoka.”

“Decisões… Importantes?”

“Meu dever é te guiar. Mas… Vejo que você já está trilhando o caminho da justiça.”

“Caminho da justiça?”

“Entretanto, acima dos seus sentimentos pessoais, você deve priorizar a ordem e usar a sabedoria para guiar os perdidos.”

“…”

“Haverá tempos em que você precisará assumir a liderança, para assim triunfar sobre todas as impossibilidades.”

“…”

“Você não precisa de mim, Ryoka. Sei que buscará a justiça acima de tudo. Estarei te observando de longe, como sua outra metade, até o momento em que nós duas eventualmente nos separemos para toda a eternidade.”

O corpo de Palas Atena começou a se deformar e se tornar luz novamente.

“… E-Espere, Atena!”

Ryoka tentou esticar a mão e tocar na luz, mas a esfera se afastou e começou a voar para a distância.

Ryoka tentava correr atrás, mas parecia que a luz estava cada vez mais distante.

Se realmente quiser paz, lute pela justiça.

A luz então desapareceu completamente.

“O caminho da justiça…”

Enquanto olhava para direção da luz, a consciência de Ryoka foi se tornando mais e mais pesada, até que ela caiu de joelhos no chão e caiu deitada logo depois.

 

Como eu deixei isso acontecer?

Masaya estava sentado em uma cadeira do lado da cama de Ryoka.

Já faziam 4 dias desde que encontraram Ryoka inconsciente.

Mesmo o melhor médico da cidade não conseguiu encontrar a causa. Por isso, Masaya tinha uma ideia de que poderia ser algo relacionado aos [Avatares de Deuses].

Devido a isso, ele também começou a teorizar que a visão dela ter ficado ruim tem a ver com a habilidade ocular especial dela.

“… Masaya?”

A voz de Ryoka trouxe Masaya de volta para realidade.

“Ryoka! Você está bem?!”

Um pouco agitado, ele se aproximou dela, mas foi impedido com um leve gesto de mão.

Ryoka se sentou na cama e olhou para ele diretamente.

“Eu finalmente descobri.”

“Uh? Do que você está falando? O que aconteceu?”

“Quem incriminou o seu pai… Eu descobri.”

Por um momento o tempo parou para Masaya. Em choque, ele sequer soube o que pensar.

“Espere só mais um pouco, conseguirei informações sobre eles. São dois… [Avatares de Deuses].”

O impacto em Masaya foi inimaginável, e o diálogo entre os dois acabou forçadamente interrompido ali. Posteriormente houve uma comoção quando Daisuke e Emily descobriram que Ryoka havia despertado. A causa do seu desmaio permaneceu um mistério e alguns dias depois Ryoka conseguiu as informações que precisava através do seu pai.

Hildegard Antonia e Yiannis Zinon. 12 e 13 anos respectivamente.

Antonia tinha longos e chamativos cabelos violeta, e olhos da mesma cor, uma jovem garota exótica. Já Zinon tinha cabelos curtos, era loiro e com olhos verdes.

Através da sua técnica especial, Ryoka conseguiu descobrir a aparência e o primeiro nome dos dois, o resto foi fácil de encontrar. Zinon parecia vir de uma família normal, por outro lado, não havia nenhuma informação sobre a família de Antonia.

“Masaya?”

Ryoka bateu na porta do quarto de Masaya e o chamou, em poucos segundos ela foi atendida. Masaya não havia dado as caras desde que ela revelou a descoberta.

“Conseguiu as informações?”

Seu tom parecia mais frio que o normal, sua expressão estava escondida.

“S-Sim… Aqui.”

Ela entregou o que pareciam duas fichas sobre os dois. Masaya deu uma rápida olhada.

“Agora nós temos que pensar em um jeito de—“

“Você fica aqui.”

“Eh?”

Demorou alguns segundos para Ryoka entender o que Masaya quis dizer. Só quando ele deu as costas para ela e se dirigiu para a janela que ela conseguiu reagir.

“Espere, Masaya—“

“Esse é um problema que EU preciso resolver. Espere eu voltar aqui!”

Tendo dito isso, Masaya abriu a janela e saltou para fora.

“Masaya… Será que eu cometi um erro?”

Ryoka se perguntou se, no fim das contas, todo o esforço dela só serviria para piorar a situação.

 

 

Masaya já tinha a aparência, os nomes e até mesmo o endereço. Seu destino era só um.

Ainda era de manhã cedo, mas seus nervos estavam à flor da pele.

Ao chegar no bairro que constava nos papeis, ele começou a procurar. Como ele viajava saltando de teto em teto, sua visão era bem ampla.

Surpreendentemente, muito mais fácil do que ele imaginava, seus dois alvos foram avistados caminhando lado a lado com um uniforme escolar que ele desconhecia.

Sem esperar nem mais um segundo, ele saltou diretamente na frente dos dois.

Um jovem rapaz— Yiannis Zinon.

Uma jovem moça— Hildegard Antonia.

“Huh? Quem é você?”

Com uma das mãos por cima do ombro carregando sua pasta, Zinon questionou o misterioso garoto que apareceu na sua frente com um olhar de leve irritação e duvida.

“Uhmm, parece que fomos descobertos, Zinon.”

Antonia, com um sorriso arrepiante no rosto, comentou casualmente.

“Huh? Foi por isso que eu disse para não fazermos algo tão aleatório como você queria.”

O olhar de irritação dessa vez foi direcionado a Antonia.

“Eeeh? É minha culpa?”

Sem mais aguentar ver os dois discutindo como se ele não existisse, Masaya levantou o rosto.

“Vocês armaram para meu pai ser preso, não foi?!”

Um olhar de ódio ocupava o rosto de Masaya.

“Ah…”

“Sim, foi isso mesmo!”

Enquanto Zinon procurava o que responder, Antonia confessou o crime como se não se importasse.

“Hey! Não confesse o crime como se não tivesse nada a ver com você!”

“Eeeh? Estou errada?”

Masaya simplesmente sentiu como se estivessem debochando dele, já tendo a confirmação que queria, ele decidiu se mover.

Apesar de sido instintivamente, ele escolheu atacar Zinon primeiro. Ele deu um soco na cara dele e o jogou para longe.

Antonia acompanhou o corpo de Zinon sendo jogado para longe com a cabeça.

“Ooh… Espere, isso é um problema! Precisamos lutar na [Dimensão Reversa], não?”

Ela entortou a cabeça enquanto falava com Masaya.

Ele não sabia qual era o problema dela para agir dessa forma com ele, mas ela tinha um bom ponto.Antonia abriu a [Dimensão Reversa], grande o bastante para ter espaço para os três lutarem, o que cobriu parte da rua.

“Nós fizemos seu pai ser preso por algo que ele não fez. Se quiser podemos soltá-lo, mas pra isso você terá que vencer nós dois! O que acha? Você só terá uma chance. Se ganhar, desfaremos essa armação, mas se perder, terá de aceitar a prisão dele hehe.”

Masaya olhou com os olhos arregalados para a proposta de Antonia, ele não conseguia acreditar no que ela estava falando.

“Eu já pretendia chutar vocês dois para o quinto dos infernos de qualquer forma. Mas antes eu preciso saber… Por quê?”

Masaya nunca havia visto esses dois na vida, que ligação eles tem com Suguro? Porque eles fariam algo assim? Isso era o mínimo que ele precisava fazer.

“Antonia queria te testar. Huh, talvez seja melhor dizer ‘testar sua mente’?”

Masaya olhou surpreso para Zinon, que se aproximou só com um pequeno corte na boca.

“Testar minha mente?”

“Huh… Sabe, a Antonia é a [Avatar de Mens]. Mens era a personificação do pensamento, consciência e da mente na mitologia romana. Por isso, ela queria testar sua mente, é algo tipo um instinto natural para ela. Quando ela te encontrou e viu seu dia-a-dia, ela insistiu que precisávamos destruir aquilo para ver como você lidaria com a situação.”

“Então eu usei meus poderes para causar a prisão do seu pai, e você se tornou completamente outra pessoa hehe.”

Pasmo. Era a melhor definição para Masaya naquele momento.

Ele havia se decidido, esses dois eram loucos.

Já era um pouco notável a aura meio psicótica de Antonia, mas ele não imaginava que ela tentaria destruir a vida de um estranho porque seus “instintos” queriam assim.

“Lamento pelo seu pai, cara. Mas a Antonia pode ler mentes, ela descobriu que você era um [Avatar de Deus] junto com aquela sua amiga imediatamente. Você só deu azar de estar no lugar errado, na hora errada, agora é seguir em frente.”

Zinon também claramente não era normal. Dando conselhos para aquele que você tentou destruir a vida era simplesmente bizarro.

Não havia mais porque dialogar.

“Entendo…”

Masaya fechou os punhos com força e cerrou os dentes.

“… Estejam prontos para pagarem pelo que fizeram!”

As botas de Hermes apareceram nos pés de Masaya, que avançou em alta velocidade na direção de Zinon e tentou atingir seu rosto mais uma vez.

No entanto—

“Duas vezes seguidas não!”

Agora com um sorriso no rosto, Zinon já havia largado sua pasta e agora segurava uma espada de duas mãos, que ele usou para se defender.

“Você luta, Zinon. Eu não sou uma lutadora, então ficarei olhando, okay?”

“Huh, desnecessário dizer.”

“Tch!!”

Masaya tentou novamente, saltando e atacando com socos e chutes em alta velocidade, mas Zinon ainda conseguia se defender, os poucos ataques que o atingiam pareciam não surtir muito efeito.

“Hahahaha, agora está falando minha língua!”

Zinon balançou sua espada de duas mãos, mas Masaya recuou e se esquivou, uma rajada de energia com formato arcaico voou na sua direção, mas ainda era lento demais para atingi-lo, que desviou rapidamente para a esquerda—

“!!”

Masaya sentiu um forte impacto atingir seu corpo e jogá-lo para longe.

Capotando no chão, ele sentiu seu interior ficar bagunçado.

O que foi isso?! Um ataque invisível?!

“O que aconteceu, cara? Seu ódio só vai até ai?”

Caindo totalmente na provocação de Zinon, Masaya avançou para cima dele novamente.

“Aaaaaah!!”

Zinon não tinha velocidade o suficiente para se esquivar, mas enquanto conseguisse se defender, o dano seria mínimo.

Ele saltou para trás, segurou a espada com uma das mãos e levou o braço para trás como se estivesse puxando a corda de um arco. Em seguida, ele deu uma estocada na direção de Masaya.

A distância entre os dois era grande, logo, a espada nunca tocaria em Masaya dali.

Mas depois do primeiro ataque, Masaya já sabia o que esperar. Ele tentou se afastar o máximo possível, mas…

Sua visão se distorceu junto do seu corpo.

Ou melhor… O cenário estava se distorcendo.

A rua, as paredes, as casas, tudo estava se curvando de maneiras impossíveis. Em um instante, uma onda de impacto foi liberada e destruiu tudo ao redor do local, Masaya foi lançado para longe.

“Ufa, esse foi um bom aquecimento!”

“Eeeh? Já acabou? Esperava algo mais emocionante…”

“Huh… Pare de esperar coisas psicologicamente ou emocionalmente mais efetivas de tudo.”

Mais uma vez, Masaya se levantou. Seu corpo mal conseguia se manter de pé.

“Ah, ele levantou novamente!”

“Aprenda a desistir, cara.”

Os dois olharam para ele, Antonia com um olhar de curiosidade, Zinon com um olhar de pena.

Se ao menos a usuária do poder… Ao menos ela… Talvez…

Última tentativa. Masaya preparou-se para usar toda sua energia restante em um único movimento.

Ele sabia que Zinon não era rápido o bastante para entrar na frente do seu ataque. Se ele conseguir derrota-la com um golpe…

“HAH!!”

“Huh?!”

Em um movimento ultra veloz, Masaya surgiu na frente de Antonia, quando Zinon percebeu era tarde demais!

Dando um soco diretamente na direção do coração de Antonia, ele terminaria a luta imediatamente.

Talvez ele tivesse conseguido… Se tivesse acertado.

O brilho nos olhos de Masaya desapareceu quando ele notou que seu ataque não atingiu Antonia.

Não foi ela quem desviou, foi ele quem errou o ataque.

Como… Como isso é possível…

“Você cometeu um erro, cara!”

Aproveitando o momento, Zinon acertou o corpo de Masaya com a espada e o jogou diretamente no muro de uma casa, o impacto fez o ar sair dos pulmões dele.

Todas as suas forças acabaram, todo seu corpo doía. Ele estava sentado no chão, em um péssimo estado, e olhando para o nada.

“Bububu, você perdeu. Seu pai ficará preso por anos agora!”

O tom de voz de Antonia não era de deboche, nem nada do tipo, ela apenas o informou casualmente.

“Huh, ele parecia que seria um oponente melhor.”

Zinon pegou sua pasta no chão, e se virou.

“Vamos indo, Antonia.”

“Nós vamos nos atrasar, não vamos?”

“Se nos apressarmos talvez consigamos a tempo.”

A voz dos dois lentamente desapareceu.

Masaya logo perdeu a consciência graças ao dano recebido.

Com a [Dimensão Reversa] cancelada, toda destruição e ferimentos de Masaya desapareceram.

Mas um dano em específico permaneceu.

 

 

“Masaya, o que houve? Você não tocou na sua comida ainda.”

A voz do seu pai, preocupado, veio aos seus ouvidos.

O pequeno Masaya, com 6 anos de idade, não estava com fome.

“Papai, quando a mamãe vai voltar?”

Suguro congelou quando ouviu a pergunta do filho.

“M-Masaya… Sua mãe não vai voltar…”

“Mas eu sempre vejo todo mundo com suas mães…”

Masaya olhou para o seu prato, o pouco de comida que tinha ali era triste de se ver.

“Porque só eu não tenho mãe? Porque comemos tão pouco? Eu não gosto disso!”

Suguro não soube como agir. Vendo isso, Masaya saiu correndo para seu quarto.

“Desculpe, filho…”

 

Dentro do seu quarto, Masaya se lamentava. Ele não queria entristecer seu pai.

Para Masaya, Suguro era a única família dele.

“Desculpe, papai…”

Apesar de não falar diretamente para Suguro, por sentir vergonha após ter agido daquela forma, ele ainda se arrependia.

“Eu prometo que serei mais animado daqui pra frente e ajudarei em casa…”

Seu maior medo era perder a única coisa que lhe restou.

Desde aquele dia, ele se forçou a ser mais animado, a demonstrar menos tristeza.

Eventualmente essa coisa forçada se tornou algo natural quando conheceu alguém importante para ele…

 

 

“…ya!”

Uma voz trouxe sua consciência lentamente de volta para a realidade depois de um sonho azedo.

“Masaya!”

Ao abrir os olhos, o rosto de Ryoka estava diante dele.

Entendo… Eu perdi. Desculpe, pai…

“Alguém me viu inconsciente?”

“Não… Eu te trouxe pra cá sem que ninguém percebesse.”

“Desculpe por isso.”

Por algum motivo ele se sentia mais à vontade para falar com Ryoka agora.

“… Você está bem?”

“Sim, não se preocupe. Eu só preciso descansar mais um pouco, então…”

“Ah… Tudo bem, eu vou deixa-lo descansar… Se precisar de mim é só chamar.”

Ele acenou positivamente com a cabeça, tentando parecer o mais gentil possível. Assim que Ryoka saiu do quarto, a atmosfera ao redor dele ficou mais depressiva.

Deveria eu realmente… Apenas desistir?

O que ele pode fazer? Quais são suas opções?

Para Masaya, os sentimentos pesados no seu peito o faziam ter duvidas sobre tudo. A ponto de considerar aceitar as coisas do jeito que estão.

Se isolando sentado no canto da cama, ele começou a pensar no que fazer.

Foram algumas horas até que alguma ação relevante chegou na mente de Masaya.

Talvez… Talvez me comunicar traga alguma resposta…

Decidindo se livrar de vez dessa atmosfera que o circundava, ele se levantou e saiu do quarto.

O lugar certo para quem gosta de contar histórias!