Kami no Sensou – Gladíolo (Volume 6: Capítulo 6)

“Não há realmente outra escolha? Você sempre foi do tipo que prefere levar as coisas da maneira mais difícil.”

A mulher falou com a garota, que estava de costas para ela, como uma mãe falaria com sua filha ao repreendê-la. Seus olhos verdes que encaravam as costas da garota desistiram e se direcionaram para as flores no seu colo.

“Até hoje você controlou suas emoções perfeitamente, com exceção de um único momento, você merece respeito por isso, mas… Mesmo sabendo que seu mundo pode vir a ruína, você ainda segue o mesmo caminho. De certa forma isso também merece respeito, huh?”

No meio da repreensão, a mulher percebeu que se sentia daquela forma apenas por estar se vendo em um espelho. E a garota, sem pronunciar nenhuma palavra, apenas aguardou a mulher terminar de falar para se retirar.

Eu quero vê-lo novamente… Nem que seja uma última vez… Os erros do passado não podem ser apagados, mas os do futuro podem ser evitados. É assim que você se sente, não é mesmo? Assim como eu…

O conforto do local banhado em um aroma especial logo seria substituído por um amontoado de sentimentos ruins.

 

 

Enquanto Ryoka e os outros acompanhavam as memórias de Kuroshi enquanto ele avançava para a adolescência, as imagens que viam começaram a se distorcer.

Como uma televisão antiga com mau sinal, a imagem se tornou um chiado , o que deixou todos confusos.

“Ryoka-chan?!”

Quando Masaya levantou a voz, preocupado com Ryoka, Seira e Julie imediatamente olharam para ela e perceberam o problema.

Ryoka havia se agachado, colocando um dos joelhos no chão e uma mão na cabeça.

Ela levantou a outra mão para dizer que estava bem.

“Uma interferência ocorreu no [Zenchi Kūkan: Oujibyoubou]… Mas é apenas uma dor de cabeça, relaxem.”

O [Zenchi Kūkan: Oujibyoubou] nada mais é que um espaço que conecta a Ryoka com a memória, ou história, de outra coisa. Em outras palavras, se fosse possível algo atrapalhar essa conexão, isso afetaria tanto a mente de Ryoka quanto o alvo da técnica.

“Um inimigo?!”

Masaya exclamou e olhou para outras direções, mas não viu ninguém.

Estando segurando Kuroshi para ele não atacar mais ninguém, Masaya está incapacitado de lutar. Se algum inimigo perigoso aparecesse nesse momento, seria extremamente inconveniente para ele.

No entanto—

“Não… Se alguém entrasse nesse espaço, saberíamos imediatamente. Nem aquele outro [Avatar de Deus] de antes está aqui dentro.”

“Então…”

Seira, confusa, pediu por uma confirmação de Ryoka.

“… Sim, foi uma interferência feita ou por alguém aqui de dentro, ou por algo que já estava ali desde o começo.”

Kuro-kun tem uma habilidade dessas?

Ryoka já tem conhecimento das técnicas de Kuroshi, por isso, deveria ser impossível ele interferir com sua técnica.

Mas quem garante que ele não escondeu alguma técnica?

Tch…!

Ryoka odiou a si mesma por um momento. Pensar demais e usar lógica demais podem ter seus problemas. Mas mesmo assim, ela se levantou, eliminando uma certa possibilidade que nem deveria ter surgido na sua mente.

“Está estabilizando… Mas as memórias ainda estão pulando rapidamente de uma para a outra.”

O comentário de Julie chamou a atenção de todos. A imagem estava voltando ao normal.

Kuroshi havia ficado estranhamente quieto.

 

 

“Vamos indo, Kuroshi!”

A voz de Kurona trouxe o depressivo Kuroshi de volta para a realidade. Os dois estavam uniformizados.

Caminhando em direção à escola, Kurona estava dois passos à frente, enquanto Kuroshi caminhava atrás de cabeça baixa. O frio e a neve não ajudavam muito na atmosfera.

Havia uma escolinha na vila que eles moravam antes, mas Kuroshi nunca foi permitido estudar lá. Então essa era a primeira vez dele em uma escola.

“O que você gosta de comer, Kouji-kun?”

“Você gosta de jogos?”

Alunos rodearam Kuroshi e o encheram de perguntas, mas ele não respondia nenhum deles. Apenas fazia um rosto de desconforto.

O pior, para Kuroshi, era que aquela turma estava superlotada, isso porque a sala de aula ao lado estava em reforma.

“Ei!”

Para sua salvação, a voz de uma garota chamou atenção dos alunos.

As aulas eram irrelevantes no fim das contas. Kuroshi parecia sempre estar em outro mundo enquanto a aula ocorria.

“—ji. Kouji.”

A voz do professor chamava o seu nome, ele não havia notado a princípio, e por isso ficou perdido no que fazer.

“A-Ah, professor, eu quero responder essa!”

Felizmente uma garota se propôs a responder no seu lugar.

Uma vez Kuroshi viu alguns jovens valentões se aproveitando de um garoto tímido.

Ambos os valentões e o garoto eram de sua sala.

Esses valentões já mexeram com vários alunos da turma deles. Mas até então, Kuroshi não foi um deles.

Considerando sua própria personalidade e jeito de agir, ele se perguntou o motivo.

“Atenção todo mundo! A sala ao lado finalmente está pronta, os seguintes alunos devem se dirigir para lá a partir de hoje. Primeiro: Aizawa…”

Conforme o professor citava os nomes, eventualmente vinha o inevitável…

“Yoshida…”

“…”

Frustrada, a garota se levantou e se dirigiu para a sala ao lado. Mas não sem dar uma leve espiada em um certo garoto antes. Para sua desagradável surpresa, o garoto parecia dolorosamente aliviado.

Recebendo o apoio e amor de outra família, Kuroshi de fato se recuperou da morte dos seus pais adotivos. No entanto, a descoberta que ele teve aos 12 anos fez tudo mudar. Uma velha ferida que já estava cicatrizando foi reaberta sendo atravessada por uma espada.

O garoto que lentamente caminhava para a luz, subitamente fora agarrado por mãos negras. Milhares de mãos negras, lentamente cobrindo todo o seu corpo e o puxando novamente para dentro da escuridão. Sua consciência lentamente se corrompendo enquanto ouvia o que parecia ser resquícios de uma voz chamando o seu nome.

 

O [Avatar de Hades], deus dos mortos. Será que realmente existia uma habilidade automática que causava a morte de todos próximos a ele? A resposta era incerta, mas por via das dúvidas, era melhor não colocar a vida de ninguém em risco, certo? Seguindo essa linha de pensamento, o jovem caminhou lentamente em direção a solidão, rejeitando todo tipo de aproximação.

A única exceção era a família Yoshida. Mas até mesmo isso mudou em um certo dia.

Vocês viram o que aconteceu na casa dos Yoshida?

Parece que o incêndio foi causado por vazamento de gás…

A senhora Yoshida era a única na casa, ela sobreviveu, mas parece que foi grave…

Que horror…

 

Aquilo excedeu os limites de Kuroshi. Até seu medo foi superado. Assim que a mãe de Kurona se recuperou, ele pediu para ter seu próprio apartamento para o Yuuto. Ele não gostava da ideia de uma criança tão jovem morando sozinha, mas…

O pedido de Kuroshi foi aceito mais facilmente do que ele mesmo esperava.

Porém, ele entendeu, mesmo sendo jovem, o motivo era óbvio. Ele não se queixou ou pensou mal de Yuuto por isso, afinal, era o que ele queria.

Total solidão.

 

Cortando os laços com os pais de Kurona, por fim, restava apenas mais uma pessoa.

Mesmo evitando essa pessoa, ela continuava a estar lá por ele.

Por causa disso, era como se o seu casulo tivesse um furo.

O garoto, abraçado pelas mãos negras e sendo arrastado para a escuridão.

A garota, correndo em direção ao garoto com seu braço esticado enquanto chamava seu nome.

 

Um dia, Kuroshi se perguntou o que se passava na cabeça dela, o que ela sentia, o que ela queria.

Um dia, Kuroshi se perguntou o porquê o aroma das flores o perseguia até dentro de casa.

Um dia, Kuroshi se perguntou o que ele deveria realmente fazer.

Um dia, Kuroshi se perguntou se não deveria ser mais rígido nas suas ações.

Um dia, Kuroshi já não estava mais lá.

Um apartamento vazio, uma mesa escolar vazia, e uma pessoa passando o dia na escola, sozinha.

 

Kuroshi possuía poderes sobrenaturais, por isso, ele experimentou se afastar de tudo e sumir.

Naquele dia de nevasca, nenhum sinal de Kuroshi foi encontrado.

Foi então, naquele dia, que o primeiro pesadelo apareceu. O mundo escarlate, os corpos, a pequena garota sendo morta.

E então, o sumiço de um dia acabou. Aterrorizado com o pesadelo, Kuroshi voltou até sua escola e procurou por aquela pessoa.

O que ele ouviu foI: “Ela saiu para te procurar ontem, depois não vimos mais ela”

Naquele momento, ele descobriu algo que ainda era desconhecido para ele até então. E o desespero tomou conta do seu corpo, que saiu correndo em busca daquela pessoa.

Nas ruas vazias durante a nevasca, ocasionalmente ele via policiais, provavelmente fazendo o mesmo que ele.

Correndo desesperadamente, vez ou outra ele caia de cara na neve, mas se levantava e corria novamente.

Sua estamina sobre-humana o permitiu procurar e procurar, sem descanso. Até que…

“—!!“

Seu grito pelo nome da pessoa foi ofuscado pelo barulho da nevasca.

“—na!!”

Mas mesmo assim, ele insistiu. Até chegar na menina caída no chão.

Há quanto tempo ela está aqui? Algo dizia para ele que ela ficou 24 horas o procurando. Ele a levantou e a colocou nas suas costas, e começou a caminhar.

O corpo da garota estava gelado, porém, ele sentiu suas mãos apertarem levemente seus ombros, o que o deixou aliviado.

Ele se distanciou de tudo e de todos. Mas dela, e apenas dessa pessoa, ele não conseguiria. Afinal, do que adianta se afastar dela para não machucá-la, se quando ele se afasta, ela se machuca de qualquer forma?

Mesmo ainda sendo jovem, ainda existia mais um porém.

Uma certa duvida surgiu no peito de Kuroshi.

Nenhuma pessoa normal sobreviveria tanto tempo em uma nevasca assim.

Não era algo que ele gostaria de acreditar, mas…

 

 

“Alguém baixo como você merece severas punições, garoto.”

A voz do homem trouxe Kuroshi de volta a realidade.

Diante dele, aquele que parecia ser o seu “alter ego”. No entanto, sua aparência não era mais uma exata cópia sua, mas sim um homem que ele nunca havia visto.

Suas palavras incompreensíveis como sempre.

Não se deixe enganar pelas palavras dele, Kuroshi.

Reafirmando para si mesmo, ele se preparou para lutar.

“Hmph, você realmente acha que pode fazer algo contra mim, pirralho?”

Kuroshi avançou e o atacou diretamente com sua espada, mas seu ataque foi facilmente repelido.

Dessa vez o homem quem atacou, pressionando Kuroshi a recuar com cada ataque da sua espada, que era idêntica a de Kuroshi.

As duas espadas de lâmina violeta e empunhadura negra eram as mesmas, mas seus usuários eram completamente diferentes. O homem era claramente muito mais experiente e habilidoso com a espada do que Kuroshi.

Além disso—

Eu já esperava, mas ele também tem um excelente controle de [Reisei], muito melhor do que o meu—!

A espada de Kuroshi estava rachando lentamente.

Os movimentos do homem eram mais rápidos e precisos. Nenhum movimento desperdiçado, e o [Reisei] acompanhava cada movimento dele de maneira magistral.

Era como se o aluno estivesse tentando derrotar o mestre na sua primeira aula.

Percebendo sua grande desvantagem, Kuroshi saltou para trás.

“[Doom Slash]!”

Múltiplos cortes púrpuros voando em direção ao homem, no entanto—

“Hmph! Hah!”

Como se quisesse mostrar a inferioridade de Kuroshi, ele destruiu as técnicas usando ataques normais.

Kuroshi não conseguiu contar a expressão de choque.

Em seguida, o homem olhou para sua espada, várias partes dela haviam se acinzentado um pouco, mostrando que parte da alma da arma havia sido destruída.

Kuroshi jogou sua espada para o lado e recriou uma nova, mas o homem não seguiu o mesmo passo.

Estaria ele me subestimando? Ou…

Os olhos de Kuroshi ficaram vermelhos, seu poder foi aumentado além dos 20%.

Avançando em alta velocidade, Kuroshi atacou ferozmente o homem. Mas para sua surpresa, seus ataques foram repelidos com facilidade.

“O que—Guh?!”

Um chute foi aplicado diretamente no seu peito, fazendo-o ser arrastado por alguns metros.

O homem estava mais forte que antes—

Impossível… Ele…

“Sua sorte acaba aqui, falsário.”

“Falsário? Do que diabos você vem falando todo esse tempo?!”

Enquanto respondia, Kuroshi correu para o lado e lançou mais e mais [Doom Slash] em direção ao homem.

Todos em vão, uma vez que ele desviou dos ataques sem problemas.

“Hmph, alguém que abandona a si mesmo e se torna um traidor não iria realmente entender.”

“… Você apenas fala o que te dá na telha! [Helm of Eternal Darkness]!”

Kuroshi desapareceu daquele espaço.

Mas quando estava prestes a atacar o homem, que não podia vê-lo…

“[Helm of Eternal Darkness]”

O homem apareceu no mesmo espaço que ele, defendendo o ataque com sua manopla.

“?!”

Com o outro braço, o homem agarrou o pescoço de Kuroshi, tentando enforcá-lo.

“Ghh—“

Nesse meio tempo, o [Helm of Eternal Darkness] de ambos se desfez.

Concentrando seu [Reisei] nos braços, Kuroshi conseguiu se soltar—Mas não antes de levar um chute no estomago e ser lançado para bem longe.

Forçando Kuroshi a desproteger o resto do seu corpo, o homem conseguiu causar bem mais dano com um simples ataque.

Ainda assim, Kuroshi se levantou com uma mão na barriga e a outra segurando a espada.

“Desprezível. [Helm of Eternal Darkness].”

O homem mais uma vez desapareceu, o que pegou Kuroshi de surpresa. Ainda não havia se passado 1 segundo, por isso, Kuroshi não podia usar a técnica ainda.

Antes que pudesse ficar incrédulo, Kuroshi sentiu um calor no seu ombro. Sangue começou a sair de lá conforme ele foi atingido por um ataque. Outros dois ataques fizeram um corte na sua perna e no seu rosto, que só não foi mais grave por ele ter desviado por pouco.

Mas naquele momento—

O som de destruição atrás dele o fez olhar para trás enquanto seu corpo estava completamente paralisado. Rochas foram cortadas pelos ataques que não o atingiram em cheio, em outras palavras—

[Doom Slash]…?

Ele combinou o [Doom Slash] com o [Helm of Eternal Darkness]…?

Algo que ele nunca pensou ser possível.

O homem era capaz de fazer.

Ou seja, usar o poder do elmo de invisibilidade em outros ataques, provavelmente até mesmo outras pessoas.

“Consegue entender agora, garoto?”

A voz do homem ecoou pela área, mas ele não podia ser visto em local nenhum.

0.1 segundos já haviam se passado há muito tempo.

Isso significa que—

O [Helm of Eternal Darkness] dele não possui restrições…?!

Kuroshi pode usar a mesma técnica para tentar enfrentá-lo, mas só poderá lutar por 0.1 segundos, o que é o mesmo que uma derrota certa. Se o homem tem as mesmas técnicas que ele, isso significa que em níveis mais altos—

“Diante de situações como essa é que sua verdadeira face aparece, huh?”

Repentinamente, o homem apareceu na frente de Kuroshi, quase como um fantasma.

Mas…

Mas ele…

Sim, mesmo que ele seja invencível, ainda assim…

O olhar de medo de Kuroshi se tornou um olhar de coragem.

E naquele momento—

 

 

“Posso saber o que está acontecendo aqui?”

A nova voz chamou atenção de todos os presentes.

Todos os 4 tiraram os olhos das imagens mostrando o passado de Kuroshi. Todos olharam para a garota que surgiu absolutamente do nada.

Longos cabelos negros, olhos igualmente negros e profundos. Um sorriso no rosto, mas seus olhos acusavam outra coisa.

———Kurona Yoshida.

A atmosfera ficou muito mais tensa naquele momento.

“Kurona… Nós estamos tentando ajudar o Kuro-kun, não tente nos atrapalhar, por favor.”

Ryoka foi a primeira a dizer algo, tentando evitar uma luta.

“Entendo…”

Kurona colocou um dedo no queixo, fingindo estar pensando em algo. Ela então olhou para o cenário todo e disse:

“Vocês ferem o Kuroshi, o imobilizam e começam a invadir as memórias dele. Isso é ajudar na visão do [Partenon]?”

Masaya imediatamente olhou na direção de Ryoka, apenas para vê-la mostrar uma expressão facial que ele quase nunca havia visto.

Porém, contrário às expectativas, Ryoka respirou fundo e manteve o controle.

“Você está redondamente enganada. Sem saber todo o contexto, não pode simplesmente julgar a situação…”

“Hmm, então existe contexto para o suposto grupo da paz justificar atos de violência e invasão? Vocês também fazem isso quando suspeitam de alguém? Ou talvez alguém que não siga à risca suas regras?”

Ao notar que Ryoka estava hesitante, Seira tomou a frente da conversa.

“Não misture as coisas, essa situação é inteiramente pessoal e nada tem a ver com o [Partenon]! Além disso, nós apenas nos defendemos dos ataques do Kuroshi que estava fora de si!”

“Hah? Tem certeza que ele não agiu por vocês terem agido primeiro? Além disso, não era realmente necessário feri-lo tanto para imobilizá-lo, certo?”

“Nós não… Agimos primeiro…”

Como se estivessem a acusando de algo, as memórias do momento em que encontraram Kuroshi voltaram a sua mente. Apenas depois que Ryoka começou a carregar sua técnica que Kuroshi se moveu…

“… E os ferimentos…”

Incerta, ela olhou na direção de Masaya, que possuía um olhar de culpa direcionado ao chão. Ele não se sentia culpado pelo que fez, mas sim pelo o que suas ações resultaram.

Seira inconscientemente deu um passo para trás. Usando isso como sinal, Julie deu um passo à frente para entrar na discussão.

“O que você esperava que fizéssemos?! Deixar o Kuroshi nesse estado? Quem sabe o que poderia acontecer com ele ou mesmo com os outros?! Nos diga o que devíamos fazer então!”

“Você está me dizendo que além de não saber nada do Kuroshi, vocês sequer confiam nele?”

“Eh?”

“Vocês não sabem nada sobre ele, assumem o que bem entendem e ainda tentam justificar seus erros de forma nobre. Encontram alguém aleatório ferido e convenientemente assumem que é culpa de um suposto Kuroshi fora de controle. Mas em nenhum momento param para pensar que a outra pessoa ainda estava viva e sem ferimentos graves, e que ela pode ter se ferido justamente por ter tentado atacar o Kuroshi primeiro. Kuroshi não faria algo assim do nada, se o conhecessem saberiam disso, se confiassem nele não suspeitariam. Deve ser realmente difícil pensar em alguém que não seja vocês mesmos, não é?”

“…”

Julie não soube o que responder.

Ryoka pensou em contra argumentar imediatamente, mas percebeu que não havia como provar. E em poucos minutos de conversa…

Como?

Como?

COMO?

Ryoka ficou chocada e enfurecida.

Em poucos momentos ela fez parecer que nós estávamos contra o Kuro-kun e ela do lado dele…!

“É inútil, Ryoka-chan.”

A voz de Masaya atingiu diretamente seu núcleo.

“Conversar já não adianta mais, se tem um inimigo diante de nós, só há uma coisa a se fazer. Seira-chan, Julie-chan, segurem o Kuroshi.”

“Masaya…”

Masaya sabia mais do que ninguém, Ryoka era a mais inteligente e racional de todos, mas isso também era sua fraqueza. Ela não era boa em captar e interpretar as emoções humanas mais sutis ou complexas, continuar nessa discussão só iria resultar em uma grande derrota.

Seira e Julie olharam uma para a outra, entendendo a situação, e foram até Masaya.

“Segurem ele para mim.”

Sem questionar, as duas seguraram Kuroshi firmemente, dando liberdade para Masaya se levantar.

“Ryoka-chan, concentre-se em manter a técnica ativa.”

“…”

Ryoka não se opôs, talvez aquele realmente fosse o jeito.

Masaya então finalmente se dirigiu a Kurona.

“Peço desculpas antecipadas para o que vai acontecer em seguida, mas como dizem, há males que vem para o bem.”

As memórias que eles observaram através da técnica de Ryoka mostraram que a pessoa diante dele é alguém com uma forte ligação com Kuroshi. Fazer o que ele fará a seguir o deixava com um gosto muito ruim na boca.

Mas todo esse caso afeta diretamente a Ryoka, então Masaya está disposto a fazer o que for necessário por ela.

Mesmo que eu precise ser o vilão…

Kurona não respondeu, apenas o encarou.

Como se estivesse dizendo “Não precisa hesitar, venha”.

Sem mais delongas, em um único impulso, Masaya já estava cara a cara com Kurona atingindo seu estomago diretamente com um chute—Ou era o que ele esperava.

“?!”

Ela se esquivou no último momento, o golpe rasgando levemente o canto do seu uniforme. Masaya foi pego totalmente de surpresa, o que abriu uma pequena brecha para Kurona.

Sem perder tempo, ela atacou com um soco em direção ao rosto de Masaya. Não havia mais tempo para se esquivar, mas ainda era possível se defender—

Leve?!

O ataque de Kurona foi leve como uma pena, seus braços mal sentiram alguma coisa, no entanto… “Gah” ele soltou ar pela boca ao ser atingido com um chute no abdômen e lançado para longe.

O primeiro ataque havia sido apenas uma isca, o segundo ataque que possuía [Reisei] concentrado. Como Masaya concentrou suas defesas nos braços, o ataque dela foi bem afetivo.

 

Seira, Julie e principalmente Ryoka observavam o desenvolvimento inesperado da luta, seus olhares representavam total descrença.

A [Avatar de Perséfone]… Com os poderes dela, ela só poderia ter uma posição mais estratégica nas lutas… Mas ela está encarando o Masaya de frente apenas com suas capacidades físicas e controle de [Reisei]…

Mesmo assim…

 

Masaya atacou novamente, com alguma dificuldade Kurona conseguia desviar dos ataques, mas ela estava claramente sendo pressionada.

Kurona estendeu os braços um para cada lado e em volta dela, um jardim de flores roxas nasceu. Um pólen roxo começou a se espalhar pelo local. Masaya não precisava experimentar nada para saber que não era uma boa ideia tocar naquilo, por tanto, tudo que ele fez foi saltar e atingir o solo com toda a força. A onda de impacto dispersou o pólen junto com uma onda de poeira.

Saltando para dentro da poeira, Masaya atacou novamente, mas ela ainda conseguia reagir de alguma forma. Ele era muito mais rápido que Kurona, mas ela tinha velocidade de reação o bastante para se manter de pé na luta.

Mas tudo ainda estava dentro do controle de Masaya. Em boa parte dos casos, só a sua velocidade natural já é o bastante para resolver a luta, mas quando não é…

[Instant Ride]!

Sua perna que ia atacar a costela de Kurona praticamente foi teletransportada para lá em um movimento que faria a luz parecer se mover em câmera lenta.

Antes de ser lançada com todas as forças, a poeira ao redor foi completamente obliterada. Só então Kurona foi arremessada até o limite superior da [Dimensão Reversa].

“Fuu…”

Masaya suspirou e saiu da postura de batalha enquanto Kurona caia do céu até o chão perto dali.

Com a mão na costela, ela cuspiu sangue. Ela tentou se levantar, mas estava com grandes dificuldades. Provavelmente não foram só alguns ossos quebrados nesse último ataque.

“Desista, nesse momento, você provavelmente perdeu cerca de 70% da sua capacidade de movimento, lutar contra mim seria suicídio.”

Ignorando o aviso, Kurona se levantou. Seu olhar era feroz.

“Haah…”

Masaya suspirou novamente, dessa vez pela teimosia da garota na sua frente.

Se movendo em alta velocidade, ele atacou com bem menos ferocidade. Kurona foi atingida uma, duas, três, dez, trinta, cinquenta vezes em um curto período de tempo. Foram golpes fracos, mas muitas feridas e hematomas foram espalhados pelo seu corpo, ela não conseguiu reagir a nenhum deles.

Mesmo assim, ela continuou de pé.

“Pelo visto terei de tirar sua consciência…”

Foi naquele momento—

OOOOOOOOOOOAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH

Todos olharam para a mesma direção ao mesmo tempo.

UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHH

Kuroshi rugiu, e junto do rugido fortes ondas de vento foram geradas dele.

“O que?!”

“Ele está fazendo muita força!”

Seira e Julie se esforçaram ao máximo para segurá-lo no chão, mas o próprio chão estava rachando completamente.

Os cabelos de Kuroshi ficaram púrpuros, representando seu poder chegando aos 30%.

“Kyaaaaa”

“Aaaaah”

As duas foram arremessadas para longe.

Os olhos vermelhos de Kuroshi brilhavam fortemente. Direcionado para um único alvo todo seu instinto assassino.

Masaya o encarou, chocado.

— — — — [Dark Sword of Death]

“MASAYA, DESVIE”

O grito de Ryoka foi o que provavelmente salvou sua vida, ele instintivamente inclinou a parte superior do seu corpo para trás, no instante seguinte—

Uma espada de energia roxa gigantesca passou perto do seu rosto, a espada saiu do solo em uma posição diagonal. A onda de choque lançou o corpo de Masaya para longe.

Capotando violentamente no chão, Masaya sentiu uma coisa que nunca havia sentido antes.

Quando foi levantar do chão, quase caiu novamente.

O que é isso?!

Meu corpo…!

Algumas partes do seu corpo estavam acinzentadas. Uma parte da sua alma foi levada pelo ataque. Seu corpo foi enfraquecido, tanto em força, velocidade, reação e resistência.

Logo…

Tudo mudou. A atmosfera ao redor de Masaya. Um frio inexplicável atingiu seu corpo, e o lugar mais gelado era no seu pescoço.

Ao olhar para tal, ele teve a ilusão de ter visto uma grande foice encostada no seu pescoço. A mão feita de ossos segurando a foice mostrava que algo muito tenebroso estava atrás dele.

Ao olhar para frente, Kuroshi voava na sua direção com sua espada na mão. A velocidade dele era absurda, e a posição atual de Masaya o impedia de desviar ou reagir.

Atrás de Kuroshi, bem no fundo, ele via Ryoka com um rosto apavorado.

Entendo…

Então isso é a morte…

Hades havia o escolhido. Sendo assim, sua vida será levada.

Não havia nada que ele pudesse fazer. Não havia nada que ninguém pudesse fazer.

Naquele momento de eternidade pré-morte, ele pode realmente repensar toda a sua vida, sua trajetória.

Ryoka… Desculpe.

A espada infernal estava prestes a mutilar a vida de Masaya.

Mas agora, ao menos nesse momento…

A última coisa que ele veria, seria o rosto de Kuroshi. Seu olhar.

Eu consigo entender perfeitamente o que está acontecendo.

Ele olhou uma última vez para cada uma das outras pessoas.

Ryoka… Desesperada.

Seira… Desesperada.

Julie… Desesperada.

Kurona…

Eh?

Ele olhou novamente para Kuroshi. O que ele viu, não foi um olhar assassino. A atmosfera lentamente voltou ao normal, e a foice no seu pescoço desapareceu.

A espada de Kuroshi se dirigiu para o chão logo ao seu lado.

Tudo voltou ao normal.

 

 

Masaya… Masaya!

Mesmo quando tentou se mover, Ryoka estava atrasada demais para fazer qualquer coisa.

Ela pôde somente observar as costas de Kuroshi enquanto se aproximava para dar o golpe final.

Mas quando chegou até lá—Ela viu a espada de Kuroshi sendo desviada com um chute.

Ele conseguiu reagir?! Como?!

No momento seguinte, Masaya aproveitou a abertura e se jogou em cima de Kuroshi, virando ele de costas e prensando ele no chão novamente. A situação rapidamente voltou ao estado original e Ryoka não conseguiu entender direito como chegou naquele ponto.

Foi um estranho momento de silêncio na área, ninguém se moveu por alguns segundos.

Quem quebrou a atmosfera foi Kurona, avançando na direção de Masaya rapidamente.

“Sei-chan! Julie- chan!”

Ryoka chamou a atenção das duas, que rapidamente se moveram para defender Masaya.

“[Water Whip]!”

O chicote de água atacou Kurona em alta velocidade, mas ela desviou com facilidade.

“Os movimentos dela…!”

Julie comentou ao notar que as capacidades físicas de Kurona estavam voltando ao normal. As duas então notaram que ela estava pressionando algo na sua costela.

“Flores?”

A dúvida de Julie criou a certeza de Seira.

“Deve ser alguma planta com habilidades regenerativas!”

Dessa forma, Kurona estava apenas se aproveitando da situação para se curar.

Ela ainda estava bem ferida, mas ao menos podia se mover mais livremente agora.

Julie tomou a frente e disse:

“Porque está fazendo isso? Quando te encontrei pela primeira vez, tive a impressão de que você era uma boa pessoa!”

“Os seres humanos são muito rápidos para definir o que gostam ou desgostam como bom ou ruim. Vocês apenas estão sendo completamente parciais dentro da sua própria ignorância.”

“Eu não entendo onde você quer chegar!”

“Fufu… A essa altura explicar não faz sentido, vocês já assumiram um ponto de vista tendencioso a seu favor. Se para vocês eu sou a vilã, então venham! Todos esses ferimentos e dificuldades que estou passando também são uma boa punição pelas minhas escolhas erradas.”

Kurona abriu os braços, desafiando as duas. Mas Seira apenas deu um passo adiante com um olhar sério.

“Já sabemos que conhece o Kuroshi desde a infância, e essa posição parece ter te cegado do que você está fazendo com ele. Não questionarei suas intenções, mas os resultados são claramente negativos, apenas olhe para ele e você entenderá! Ele lentamente foi caindo nesse estado desde que você apareceu!”

A troca de acusações continuou.

“De novo isso? Vocês não têm provas contra mim, nem como testemunhas vocês serviriam. Me acusar é apenas uma forma de livrar a culpa de vocês mesmos. Ou vocês realmente acharam que não tinha como a culpa desse caso ser de vocês? Supostos amigos próximos que nada sabem da vida do Kuroshi, mal conseguem compreender seus sentimentos e suas ações, e ainda querem decidir o que ele é ou não é?”

Embora boa parte disso seja culpa do Kuroshi também. Francamente. Kurona preferiu deixar essa última parte apenas nos seus pensamentos.

“…”

“E então? O que vai ser?”

Enquanto Kurona questionava, seus olhos mudaram de pretos para verdes. Aquele era um dos sinais que mostrava que um [Avatar de Deus] estava usando no mínimo 20% dos seus poderes.

“Seira-senpai, ela está falando sério. Esse é o único jeito! … Seira-senpai?”

O silêncio de Seira deixou Julie confusa e inevitavelmente olhou para ela, mas os olhos de Seira não estavam grudados na oponente delas logo a frente, mas sim para o lado, em uma das imagens do passado de Kuroshi que ainda estavam sendo reproduzidas, mantidas por Ryoka logo atrás.

Os olhos de Julie logo se dirigiram para a mesma direção dos olhos de Seira. Lá havia uma imagem. Logo Julie também ficou em silêncio, surpresa.

O que elas viram?

“Ora… Kuroshi não contou para vocês?”

A voz de Kurona, mostrando um pingo de superioridade, chamou a atenção das duas. Ela estava com um sorriso sarcástico. De certa forma parecia que ela estava debochando das duas, mas de outra forma parecia que ela estava debochando de si mesma. Era um sorriso que podia ser interpretado como autodepreciativo.

Na tela, uma memória que ela nunca iria esquecer. Um momento marcado nos mais profundos níveis da sua alma.

Um por do sol. Uma confissão. Um abraço. Um beijo.

“Eu não sou só uma amiga de infância do Kuroshi. Eu também sou sua ex-namorada.”

Diante da cena e da revelação, a situação tomou um rumo bem inesperado para todos presentes—Não, na verdade, apenas Seira e Julie pareciam realmente surpresas e chocadas com tal informação. Ryoka e Masaya fizeram uma cara azeda, mas não pareciam realmente surpresos.

O sorriso de Kurona desapareceu do seu rosto. E então, em mais uma indagação…

“Irei repetir. E então? O que vai ser?”

Sua voz ecoou pela área silenciosa, agora passando muito mais confiança, e muito mais irritação.

Nanatsu no Sekai: Volume 2, Capítulo 7

Capítulo 7 – A Filha do Demônio

– Então você também é mesmo um demônio? Maravilhoso. Agora tudo faz sentido. Não que vocês sejam seres normais mas era óbvio desde o princípio que você não era igual àquele Golem de Pedra e a esse Druida. Você é…algo mais. Assim como eu, você também é um demônio! Quão excitante esse desenrolar de eventos se tornou! Sim, assim como você é…

Antes que pudesse repetir sua afirmação, Dämon tivera de desviar rapidamente para o lado para escapar de uma considerável quantidade de energia disparada pela palma da mão direita de Samantha. A Ritualista, então, disse seriamente:

– Eu e você não somos nada parecidos. Não ouse nos comparar ou sequer sugerir que pudéssemos ser algo semelhante. Não fale do que você não tem ideia, von Hölle.

Dämon sorria. Era a primeira vez que ele sentia tamanha excitação em anos? Décadas? Nem mesmo ele sabia quanto tempo fazia desde a última vez que sentia “eletricidade correr pelo seu corpo”. Ele, então, respondeu:

– Então, por favor, mostre-me o quão diferentes nós somos. Apesar de que você está certa em algo. Mesmo que sejamos demônios, você e eu somos, de fato, muito diferentes. Nossos níveis de poder, quero dizer. Mesmo colocando uma frente forte e corajosa você já deve ter percebido que essa “transformação” não vai fazer a menor diferença contra mim, não é mesmo? Quero dizer, você claramente não é apenas uma garotinha ingênua.

Samantha não queria admitir mas sabia que ele dizia a verdade. Mais do que isso. Sabia que Dämon havia desviado de seu ataque por puro capricho e que se ela tivesse acertado diretamente seu rosto, provavelmente nada teria acontecido ao Rei dos Demônios. A situação ainda era desesperadora e, além de não ter certeza se poderia proteger a si própria, Samantha ainda teria de se preocupar com algo mais.

Ao olhar para trás, os olhos rubro-negros de Samantha fitaram um Terry completamente atônito com tal situação. O Druida tremia de joelhos próximo à Samantha. Ele havia até mesmo parado de recolher algumas rochas do corpo estilhaçado de Klug numa inútil e desesperada tentativa de remontá-lo apesar de saber muito bem o quão impossível aquilo parecia ser. O terror era grande demais. Estaria ele diante de dois monstros? Samantha ainda era uma aliada ou ela havia se tornado algo diferente? E ainda que ela permanecesse como aliada, seria suficiente para derrotar aquele que se intitulou Rei dos Demônios? Eram muitas perguntas e as respostas não pareciam ser fáceis de se alcançar. A cabeça do jovem Druida estava doendo e ele parecia a ponto de desmaiar a qualquer momento até que Samantha o trouxe de volta para a realidade.

– Terry, fuja agora. Me deixe aqui. Encontre McGavin e fuja. A morte de Klug nos provou com todas as letras que se um de nós morrer os outros continuarão vivendo. Nossas vidas não estão conectadas completamente. Você ainda é jovem, salve-se. Se encontrar McGavin no caminho reporte a situação e diga para ele fugir também. Esse homem é um oponente cujo poder está muito acima do que podemos sequer sonhar enfrentar portanto…

– NÃO ME SUBESTIME!!

O grito de Terry pegou Samantha de surpresa. Até mesmo Dämon que apenas observava de longe ficara surpreendido com a reação do jovem Druida. Ele, então, continuou:

– Eu tenho a sensação de que perdi tudo. Eu não consigo me lembrar muito bem todos os detalhes mas eu sei muito bem que algo horrível aconteceu no mundo de onde eu vim e agora você quer que eu fuja sem a menor noção do que fazer e de como enfrentar isso que todos nós estamos passando? Nunca! Você querendo ou não todos nós somos companheiros agora! Compartilhamos o mesmo destino juntos! Eu, você, McGavin, Klug…vamos descobrir a verdade juntos! Além disso, não me peça pra fugir pra que você possa se sacrificar pra ganhar tempo para nós se você também sente medo! Não tente carregar esse fardo nas costas sozinha!

Era verdade. Samantha tremia muito. Algumas lágrimas caíam daqueles olhos rubro-negros. Tamanho era o desespero que aquele monstro chamado Dämon von Hölle representava. Ela não sabia ao certo se estava resoluta em morrer. A verdade é que ela, assim como todas as criaturas vivas, não queria morrer. Seu instinto de sobrevivência ainda existia firme e forte como sempre apesar de tentar racionalizar aquela situação. As palavras de Terry, então, mexeram muito com aquela que também era uma jovem apenas um pouco mais velha do que o Druida. O orgulho, porém, apenas permitiu que ela respondesse sem mesmo olhar para ele novamente:

– Tente não me atrapalhar.

– Pode ficar tranquila, chefe! – respondera Terry invocando o espírito do Urso e amplificando sua força e resistência.

Dämon que até então apenas observava toda aquela situação com atenção e curiosidade, resolveu se pronunciar pela primeira vez desde que havia desviado do golpe de Samantha:

– Quanta indelicadeza fazer com que um Rei espere por tanto tempo. Se vocês não fossem criaturas extremamente peculiares eu certamente não os perdoaria por tamanha desfeita. De qualquer forma vocês deveriam escutar e pensar melhor antes de agir no impulso. Isso jamais traz bons resultados para…

Novamente antes que pudesse terminar uma frase, o Rei dos Demônios teve de desviar de um golpe, dessa vez executado por Terry que havia se esgueirado por trás dele para tentar atingi-lo com algo que lembrava muito uma patada de urso pardo. Dämon, então, desviara sem sequer olhar para trás e, ainda sem mover seu rosto para identificar seu agressor, acertou um chute certeiro no estômago do pobre rapaz que não conseguira esconder a dor ao ficar sem ar por um tempo e vomitar imediatamente após cair de joelhos.

– Bem, mas acho que se vocês fazem tanta questão assim, podemos nos divertir um pouco e depois vocês podem ouvir o que eu tenho para dizer não é mesmo? Então nesse caso…venham!

Enquanto Terry se recuperava do simples, porém potente, golpe de Dämon, Samantha partira em disparada com uma velocidade incrível em direção ao demônio. Ao reduzir a distância entre eles, ela iniciou uma saraivada de golpes a uma velocidade completamente surreal. Era possível entender apenas ao presenciar a luta entre os dois que aqueles golpes fariam um estrago absurdo se atingissem um oponente de mesmo nível. Dämon von Hölle, porém, não era um oponente do mesmo nível e tanto Samantha quanto Terry sabiam disso. Ele estava muito acima do nível de ambos combinados. Aquela não seria uma luta difícil, seria certamente uma luta impossível a qual eles teriam de lutar de forma perfeita esperando e aproveitando uma única brecha de seu oponente e contando com o fato de que ele fosse “brincar com a comida” como um gato brinca com sua presa antes de matá-la. Era com isso que ambos estavam contando. Com o fato de que Dämon iria menosprezá-los dando uma chance para o combate se arrastar e uma brecha pudesse aparecer no decorrer da luta. Era uma chance minúscula mas era a única chance de vitória com a qual eles podiam contar naquela situação aterrorizante.

E a luta se desenrolara exatamente dessa maneira. Com Dämon apenas desviando da maioria dos golpes de Terry e Samantha enquanto parecia analisar atentamente seus níveis de poder e habilidades. Porém, enquanto a luta se arrastava ficava cada vez mais nítido um outro fator: Dämon parecia não se cansar de forma alguma enquanto Samantha e Terry caminhavam a passos largos para ficarem completamente exauridos em pouco tempo. Samantha, então, deu alguns passos para trás e murmurou consigo mesma:

– Merda. Não estamos chegando a lugar algum desse jeito. Mesmo comigo nessa forma…ele aparentemente não estava mentindo quando disse ser o Rei dos Demônios. Eu inclusive nem quero imaginar caso ele esteja mentindo e realmente existam seres mais fortes que ele nesse mundo. O que diabos vamos fazer?

Samantha sabia o que devia ser feito pra que ao menos um deles sobrevivesse. Eles haviam tentado, eles falharam. Todo aquele discurso de Terry era muito bonito na teoria mas ambos sabiam que se ao menos um dos dois sobrevivessem era melhor do que ambos morrerem. Não havia a necessidade disso. Samantha sabia disso. Terry, embora não aceitasse, sabia também. E a troca de olhares entre os dois deixava isso completamente claro:

– Não, não, NÃO! EU NÃO VOU ABANDONAR VOCÊ PRA SUA MORTE!

– Terry, por favor, pare de ser irracional. Pare de agir como uma criança. Você não tem motivo algum para lutar ao meu lado e muito menos para morrer comigo. Salve-se. Salve McGavin. Evite que ambos encontrem esse monstro, saiam daqui e deem um jeito de jamais voltar pra esse mundo. Você pode salvar duas vidas em vez de jogar mais três fora. Veja o que aconteceu com Klug. Tome a decisão correta, Terry, por favor…

Terry sabia disso. Terry sabia que tudo o que Samantha dizia fazia sentido. Mais do que isso. Era a mais pura verdade. Ele não tinha a menor obrigação de lutar ao lado dela, de McGavin, Klug ou qualquer outro. Porém, algo dentro dele dizia que era necessário. Que era importante que todos eles ficassem juntos. Mais do que moral ou princípios ele tinha uma estranha e inexplicável sensação de que eles realmente deveriam permanecer na presença uns dos outros mesmo que isso significasse passar por obstáculos aparentemente impossíveis. No entanto, sem uma explicação plausível para convencer alguém racional como Samantha, seria o mesmo que reproduzir contos de fadas e esperar que ela acreditasse. Ainda assim, ele tentou argumentar ai dizer:

– Samantha, eu sinceramente não acho que você…

– TERRY PELO AMOR DE DEUS! VOCÊ SABE O QUÃO DIFÍCIL ESTÁ SENDO LUTAR E ME PREOCUPAR EM NÃO VER VOCÊ EXPLODIR EM MIL PEDAÇOS COMO KLUG?? POR FAVOR TIRE ESSE FARDO DE MIM, EU NÃO QUERO VER OUTRO COMPANHEIRO MORRER DIANTE DE MEUS OLHOS!

Era a primeira vez em muito tempo que Terry ouvira Samantha gritar com ele. Diabos, talvez fosse a primeira vez que ela gritaram com ele desde que se conheceram. Aquela situação fez com que Terry traísse seus próprios pensamentos e princípios uma vez que agira mais por pressão do que por vontade própria. Ele, então, com lágrimas nos olhos correu a esmo para dentro da escuridão. Dämon, porém, deixara de ser um mero espectador degustando o desespero e horror de suas vítimas para tentar impedir a fuga do Druida:

– Você não vai a lugar algum sem a permissão de seu Rei meu caro jovem.

Imediatamente longas garras negras aparentemente feitas com sombras saíram de dentro do corpo de Dämon von Hölle e começaram a perseguir Terry que olhara para trás sabendo que seria impossível desviar daquele golpe na velocidade em que se encontrava. Ele, porém, foi resgatado no último segundo por Samantha, que refletiu o golpe com suas próprias garras negras fazendo com que uma expressão de descontentamento surgisse no rosto do Rei dos Demônios pela primeira vez enquanto Terry finalmente sumia na escuridão da caverna.

– Bem, estava claro que você não estava fazendo o melhor uso de seus poderes demoníacos enquanto tinha de lutar protegendo e se preocupando com o garotinho ali mas agora…agora você realmente pode me mostrar do que é capaz não é mesmo? Estou ansioso para ver com meus próprios olhos o quão “diferentes” nós somos um do outro, Ritualista.

Enquanto isso, as sombras de Samantha voltavam de onde Terry estava antes de fugir para servir como uma aura protetora em volta da Ritualista. Em seguida, a aura começara a expandir e em pouco tempo ela se transformou em chamas negras que tomaram conta da sala inteira exceto pela área em que Dämon se encontrava. Nessa área as chamas eram repelidas como se um campo de força circular estivesse protegendo o Rei dos Demônios.

– Eu planejo mostrar exatamente o quão diferentes nós somos, “meu caro rei”. Mas antes devo deixar claro que o “garotinho” ali é mil vezes mais homem do que um covarde como você. Não tenha a menor dúvida disso.

Dämon riu e disse, em seguida:

– Isso. Deixe que a emoção tome conta de você. Amplifique seus poderes e venha com tudo que tem contra mim. Faça com que isso ao menos seja divertido!

– Se é o que quer, então eu vou fazer exatamente o que pede!

Em seguida, cerca de 5 lâminas negras surgiram de dentro do fogo de Samantha e foram disparadas em alta velocidade contra Dämon que estava do outro lado daquela sala. O Demônio refletiu todas elas com extrema facilidade mas, para sua surpresa, Samantha havia desaparecido. Ele, então, procurou rapidamente ao seu redor e, de fato a encontrou, quando esta estava a ponto de enfiar garras feitas de sombras na parte esquerda de seu tronco exatamente em um ponto cego de Dämon pouco abaixo de seu braço esquerdo. Ele, então, esquivou-se para trás e aplaudiu por alguns segundos:

– Que velocidade! Realmente impressionante! Incrível. Você não estava utilizando tanta velocidade assim agora há pouco. Por qual motivo, poderia me dizer?

– Eu não tenho obrigação de dizer nada pra você.

– Entendo. Então você poderia ao menos me dizer de onde seus poderes demoníacos vem? Algo me diz que você não é um demônio puro não é mesmo? Você parece… diferente. O que você é?

Samantha permaneceu em silêncio olhando fixamente para Dämon e, em seguida, disparou em direção a ele novamente. Dessa vez, porém, com suas garras recém-crescidas pela transformação demoníaca. No entanto, o Rei dos Demônios bloqueou seus golpes com facilidade enquanto ambos se encaravam ainda com seus braços travados um contra o outro. Dämon, então, perguntou para a Ritualista:

– Me parece que você realmente não vai me dizer nada não é mesmo? Uma garota misteriosa aparentemente…

Samantha apenas permaneceu em silêncio enquanto continuava a encarar os olhos ameaçadores de Dämon von Hölle. Ela parecia, ao mesmo tempo, pensativa e claramente preocupada. A jovem tentava planejar seus próximos movimentos mas sabia que tudo em que pensava não surtiria efeito em seu adversário. O nível de poder era claramente discrepante. Um sentimento de conformidade com sua derrota parecia inundar sua mente de uma só vez e esses pensamentos não passaram despercebidos por aquele que parecia ser o ser mais forte daquele mundo:

– Você não está considerando em desistir dessa batalha de forma tão patética, estaria? Creio que disse pra me entreter o máximo que pudesse antes de sua inevitável derrota e eu SEI que você ainda tem algo mais pra jogar contra mim…

Algo mais para jogar contra tal monstro? Do que diabos aquele homem estava falando? Ele sabia tão bem quanto ela que nada que fizesse contra ele parecia arranhar sequer a superfície de sua pele quanto mais provocar algum dano considerável. Por mais que ela não quisesse admitir, aquela era a sua derrota e isso estava tão claro quanto as águas cristalinas de um lago. Era apenas questão de tempo até que ele cansasse de brincar com a garota e a matasse assim como o fez com Klug. Todos esses pensamentos passavam pela cabeça de Samantha. Até que eles tiveram de ser abruptamente interrompidos por uma frase que poderia mudar consideravelmente os rumos daquela batalha:

– Bem, se o que lhe falta é estímulo para lutar contra a conformidade do destino, parece que tal estímulo acabou de chegar. Para a minha sorte!

Ao dizer isso, Dämon sorriu malevolamente enquanto olhava para algo muito atrás de Samantha. A Ritualista, no entanto, pareceu levar alguns segundos a mais para entender o que aquela frase significava. Alguns segundos que pareciam ter sido vitais…

– NÃO DESISTA! NÃO ENTREGUE SUA VIDA ASSIM TÃO FACILMENTE! NÃO DEIXE QUE ELE BRINQUE COM VOCÊ, SAMANTHA!!!

Dämon continuava sorrindo. Em seguida, disse:

– Ora, ora. Muito bem dito, jovem Druida…

“Aquele idiota!” era tudo o que Samantha pensava enquanto virava na direção de Terry para tentar esboçar uma resposta ao que havia sido dito para ela:

– POR QUE VOCÊ VOLTOU? EU DISSE PARA FUGIR! ELE NÃO VAI TE POUP…

Antes que pudesse terminar sua frase, no entanto, algo tão rápido quanto um disparo passou ao seu lado. Um borrão negro que rapidamente tomou forma próximo a Terry. E então a cor negra trouxe com ela a vermelha. Samantha sabia o que aquilo representava. Era sangue. Muito sangue. A garota parecia não acreditar em seus próprios olhos mas aquilo que estava vendo era a mais pura verdade: as garras ao fim do braço direito de Dämon empalavam o estômago de Terry o levantando do chão alguns centímetros. Terry cuspia muito, muito sangue enquanto Dämon demonstrava frieza e calculismo:

– E com isso, eu espero que você tenha reencontrado a sua vontade de brincar mais um pouco…

Um grito de desespero ecoou pelo salão em que ambos se encontravam. Um grito animal. Na verdade nenhum animal selvagem sequer chegaria perto de entoar um grito como aquele.

– Isso, ISSO, LIBERTE TODO O SEU PODER!!

– Samantha…não…não faça…isso…

– Ora, você ainda está vivo? De qualquer forma, não adianta, garoto. É uma pena que você tenha de ter sido usado como o gatilho para o meu entretenimento mas ao menos deu certo. Aquela mulher já não é mais quem você conhece. Ela sequer tem controle sobre si mesma no momento.

E por mais que Terry não quisesse admitir, tudo o que Dämon havia dito parecia ser verdade. Os olhos de Samantha já não mostravam mais suas pupilas. Estavam completamente negros e sua pele ficou ainda mais grossa com alguns pelos cobrindo seu corpo quase como uma fera de verdade. Aquilo era o sinal que Dämon estava esperando. O sinal de que seus poderes demoníacos haviam atingido um novo nível e agora estavam fora de controle.

– Samantha…por…favor…

Terry não conseguira sequer completar sua súplica. Ele desmaiara com a insana dor que estava sentindo. Dämon então, finalmente largara Terry no chão enquanto parecia murmurar alguma coisa em sua direção em voz baixa. Em seguida, virou-se em direção à Samantha quase que no último segundo possível para desviar de sua investida ensandecida. Em seguida, Dämon tentou provocar Samantha novamente. Tentou.

– Isso sim é poder! Era isso o que eu estava esperando para…

Ele não conseguira completar sua frase por um simples motivo: Samantha já estava novamente em seu encalço e o havia arremessado contra uma das paredes daquele local da caverna, destruindo-a por completo enquanto permanecia no local em que havia executado seu ataque. Sua respiração era pesada e barulhenta como a de um animal e ela parecia olhar para o local em que havia arremessado Dämon para garantir que havia eliminado sua presa. O que obviamente, não havia se concretizado já que Dämon surgira de dentro dos escombros e disse:

– SIM, SIM! ERA POR ALGO ASSIM QUE EU ESTAVA ESPERANDO! JÁ FAZIA ALGUM TEMPO QUE EU NÃO…

Sem tempo para sequer terminar sua frase novamente, Samantha pulou de onde estava diretamente para o buraco na parede da caverna para continuar sua rajada de ataques contra o Rei dos Demônios mas este, dessa vez, não estava disposto a receber diretamente o ataque. Ele deixou que ela montasse sobre ele e tentasse acertá-lo com inúmeros socos e arranhões em seu rosto mas todos eles passavam no vácuo já que ele desviava com certa facilidade para os lados toda vez que o ataque parecia conectar. Até que, em dado momento, Dämon “perdera a paciência” e agarrou ambos os braços de Samantha para, enfim, completar sua frase:

– Sabe, eu estou muito satisfeito por liberar todo esse poder mas não é nada educado da sua parte que não deixe eu dizer o que quero dizer. Achei que já havíamos passado por essa fase, não?

Samantha, ainda completamente dominada por seus próprios poderes demoníacos, pareceu não ligar para o que Dämon havia dito e, uma vez que possuía seus braços imobilizados, recorreu ao único meio que ainda havia disponível para atacá-lo fisicamente, acertando uma fortíssima cabeçada contra a cabeça de Dämon. O ataque, porém, pareceu surtir mais efeito em si mesma do que em seu adversário, já que ela pulou para trás, próximo a sua posição de origem enquanto colocava suas mãos na cabeça como para “sentir” o local que doía. Dämon sorria enquanto finalmente saía calmamente de dentro daquele buraco.

– E então? Agora parece que mesmo fora de controle você novamente percebeu a diferença de poder entre nós dois não é mesmo? Qual será seu próximo movimento, criança?

Como se parecesse ter entendido o que seu adversário dizia, Samantha estendeu seus braços e começou a reunir uma massiva quantidade de energia em ambas as suas garras. A energia se acumulava e duas esferas escarlates cresciam exponencialmente em suas mãos sem que nunca parecessem alcançar um limite até que Dämon finalmente mostrara alguma preocupação mas, surpreendentemente, não com sua própria vida:

– Não, NÃO, NÃÃÃOO!!! Eu sei o que está planejando fazer e se é isso que quer eu infelizmente não vou permitir que se mate para tentar futilmente me levar junto. Isso além de falhar vai fazer com que eu perca o meu único brinquedo! EU JAMAIS PERMITIREI QUE ISSO ACONTEÇA!

Como um raio, Dämon partiu em direção à Samantha e, fazendo uso do mesmo ataque que utilizou contra Terry, cravou suas garras na barriga de Samantha. Porém, desta vez algo diferente estava acontecendo. Sangue não escorria de dentro para fora do ferimento que ele havia acabado de abrir no estômago da Ritualista. Ao invés disso, as esferas estavam ficando cada vez menores até que estas desapareceram por completo e, pouco a pouco, Samantha parecia transformar-se novamente. Contudo, dessa vez a transformação era reversa e ela parecia recuperar a forma humana até tornar-se completamente humana novamente. Dämon, então, retirou seu punho de dentro do estômago da jovem e este se encontrava normal, sem uma marca sequer. Apenas suas roupas estavam, obviamente, destroçadas. A Ritualista, então, caiu com seu corpo e rosto virados para o chão e, incapaz de se mover, parecia estar na iminência de perder a consciência mas algo estava errado pois em vez de chorar ou demonstrar qualquer sinal de desespero ela apenas ria em voz baixa até que sua risada começara a ficar um pouco mais alta, provocando até mesmo a curiosidade de seu agressor:

– O esforço a deixou louca, criança? Por que diabos você está rindo numa situação dessas? Para onde foi todo aquele desespero e angústia ao ver seus companheiros sendo mortos e perceber que você não tem chance contra um rei?

Samantha, então, parou de rir imediatamente mas, reunindo os últimos resquícios de suas forças, sorriu cinicamente para Dämon e disse antes de desmaiar:

– Por que eu consegui ganhar tempo o suficiente para ele. E ele não vai gostar nada do que vai ver quando chegar aqui…

Dessa vez era Dämon quem não havia entendido o que Samantha queria dizer com aquilo e, ainda um pouco confuso, preparava-se para tomar Samantha para si mesmo como se fosse sua propriedade. Porém, quando este abaixou-se para agarrá-la pelas vestes, Dämon von Hölle sentiu um calafrio pela primeira vez em muitos anos e, por instinto, pulou para trás o que provou-se ser uma decisão bastante acertada uma vez que uma absurda onda de luz branca havia inundado, de uma só vez, grande parte daquele salão onde tal feroz batalha acontecera e Dämon percebeu imediatamente o que Samantha havia dito poucos instantes antes:

– Ah sim, havia um terceiro…

Saindo de dentro das sombras de um dos cantos daquele salão e jogando um maltrapilho Craver de seus ombros ao chão, McGavin entrava devagar dentro do local ainda com seu rifle apontado em direção ao local que havia disparado sua rajada originalmente. Ele voltou seu olhar para Terry, que estava estirado imóvel no chão ao seu lado, completamente banhado em sangue, e em seguida para os rochedos dispersos de Klug. Por fim, olhou para onde havia disparado seu tiro e confirmou que Samantha, ainda que estivesse em situação completamente perigosa, respirava e havia desmaiado graças aos danos sofridos pouco antes. Sem dizer uma palavra sequer, McGavin apenas apontou seu rifle para Dämon enquanto conjurava um segundo rifle em sua mão esquerda e também o apontou para o Rei dos Demônios. Ele, então, o fitou seriamente ainda sem dizer qualquer coisa. Não era necessário sair som algum daquela boca para entender o que se passava. Dämon conseguia compreender perfeitamente o quão enfurecido aquele homem estava por mais que ele estivesse fazendo excelente uso de seu treinamento para manter o sangue frio e a calma. Dämon, voltando ao seu estado natural, disse em alto e bom tom com um sorriso em seu rosto:

– Não posso acreditar que conseguirei DOIS novos brinquedos em um mesmo dia…

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Paragobala 26

Capítulo 26 – A PROPOSTA

– Agora que eu derrotei o brutamontes, sou selvagem o suficiente para falar com você? – disse
Bal, enquanto limpava o sangue que escorria do nariz.

Kerexu o olhou com rigidez antes de responder.

– Vocês não entenderiam o propósito desse teste. Você tinha uma proposta para nós. Fale, e
saiba que sua vida depende disso.

Bal sabia que a ameaça era real, mas não estava com medo. Se sentia extremamente a
vontade desde o momento que sacou sua arma e apontou a Subodai. A partir dali, ele não era
mais Joebaldo. Ele era o Doutor. Sem nenhuma máscara.

– No último mês, foram presos mais índios Kapoor do que nos últimos 15 anos. Ligações entre
vocês e o tráfico de drogas na cidade surgem a cada dia. Na minha mesa já vi pelo menos 3
processos diferentes sobre o assunto. O promotor está fazendo uma cruzada na cidade. E
além de tudo isso…ouço boatos…e histórias…que os Kapoors não se sentem mais tão
soberanos mesmo dentro da mata…

– Basta! – gritou Kerexu.

O Doutor segurou o seu sorriso, sabendo que ele poderia lhe acarretar um problema. Sabia
que índios estavam sendo capturados dentro da floresta, e alguns deles até delatavam outros
companheiros, algo até então inédito. A lealdade dos Kapoors era conhecida na cidade. Os
índios não se sentiam mais seguros, com a sombra do chamado Caçador de Índios pairando
sobre eles.

– Eu trabalho diretamente com o promotor Vincent. Ele é o responsável por tudo isso. Ele não
vai parar. É um homem determinado…e diria até que louco. Não se importa muito com os
limites legais e tem muito poder.

– E quando que vocês se importaram com limites legais? Todos nós sabemos que a proteção
que os índios têm das suas leis são não se aplicam no mundo real. Nós nos protegemos.
– Tudo começou quando ele foi barrado por vocês em uma perseguição…
– Uma perseguição ao maldito exilado. Mas não importa quem seja, ninguém entra no nosso
território sem autorização.
– Um ato de orgulho que pode ter custado caro.

Kerexu riu.

– Orgulho? Você é ignorante. Se eu deixar vocês entrarem livremente aqui, nossa tribo acabará
em menos de uma geração. Diga sua proposta e não me faça perder mais tempo.
– Eu trabalho diretamente com ele. Conheço o modo dele pensar. Tenho acesso a operações
da polícia, aos processos contra vocês. Ele confia em mim. Posso espioná-lo para vocês. Em
troca, vocês deixam o exilado em paz.
– Apenas o exilado? E quanto a você e o seu grupinho?

O Doutor ficou sem reação. Não esperava que alguém conhecesse o seu grupo de extermínio.
Em outra hora ou lugar, talvez negasse. Mas não ali.

– O meu grupo também. Quero os meus homens a salvo – exigiu. Sentiu-se
surpreendentemente bem ao admitir que tinha um grupo de homens ao seu comando.
– Vou te entregar um celular. Quero notícias toda semana. Traição não será tolerada e se você
romper nosso acordo, mataremos vocês.
Índio desgraçado! Quem estará morto, cedo ou tarde, será você, pensou Bal.
– Me comprometo a fazer o que pediu, grande Kerexu.

***

Subodai encarava Kerexu dentro da floresta.

– E você acha que podemos confiar nesse homem?
– Não. Ele é um tolo, que acha que sabe ler e manipular as pessoas. Nesse momento deve
estar pensando em como ele é esperto. Mas sei que ele não está a serviço do promotor. O
promotor não sabe do grupo dele, e se soubesse, Bal estaria morto. Ele nem imagina o quanto
esse homem quer sua cabeça.
– Porque não entregamos ao Pelicano o que sabemos sobre esse grupelho? Assim ele
desviaria o olhar de nós…
– Os Kapoors não temem, Subodai. Não iremos nos submeter a ninguém. Esse homem não vai
parar o que começou. O exilado e seus companheiros ainda podem nos ser muito úteis.
Dependendo do rumo dos acontecimentos…podemos fazer o que sugeriu. Por hora não.

***

Bal seguia Índio pela floresta, rumo a cabana. Os dois tinham sido levados com sacos na
cabeça até um ponto da floresta e libertados. Passou todo o caminho de volta com um sorriso
no rosto. O estratagema que bolou em poucos segundos tinha dado certo. Estava orgulhoso da
própria inteligência. Iria colocar dois de seus inimigos, um contra o outro. Manipularia a
situação até a destruição de ambos.

– Índio, nosso grupo voltou a operar com força total. Terei novas missões para você em breve.
Ele assentiu e não perguntou nada, para nenhuma surpresa do Doutor. No último mês ele
havia se livrado de suas amarras na sociedade, e percebido que o seu verdadeiro eu era esse.
Sem mais ressentimento com sí mesmo, simplesmente por ele ser quem é.

– Percebi novas marcas no seu braço.
– Índios Kapoors que encontrei no caminho.
– Eles lutavam bem?
– Alguns sim, outros eram muito jovens.
– E o tal do ruivo?

A resposta não veio, e quando Bal já aceitou que não teria resposta, Índio falou:

– É o melhor lutador que já vi. Quero matá-lo. Mas não quero enfrentá-lo.
Orgulho ferido e medo ao mesmo tempo. Dois sentimentos que ele não esperava ver naquela
figura.
– Numa luta tudo pode acontecer Índio. Treinamento e técnica só te levam até um certo ponto.
Quando se trata de vida ou morte, outras coisas são mais importantes. Se vocês lutarem outra
vez matará ele.
– Você não o viu lutar Doutor. Se você não tivesse aparecido, eu e João Bobo estaríamos
mortos. Eu preciso… – parou e olhou para as mãos – me aprimorar.
– Por melhor que ele seja, é um homem, e um tiro na cabeça é o suficiente. Toda a habilidade
dele não pode superar minha inteligência.

Depois de horas, Bal finalmente chegou ao seu apartamento. Parou a frente de sua casa e
olhou a porta ao lado, uma residência que agora estava desabitada, desde que Rosemere se
mudou. Reprimiu o que sentiu e entrou em casa, cansado, precisando desesperadamente
dormir. Tiraria o dia de folga no trabalho.

***

– Agha, alguma novidade sobre o serial killer? Descobriram alguma coisa? Cade o Bal?
“Nenhuma novidade, eu não estou brincando de detetive e mal li essa porcaria”.
– Não descobri nada doutor. O Bal tinha estudado mais o caso, mas não me contou nada.
Também não sei ele vem trabalhar.
– Sabe aquela sensação de que você está esquecendo alguma coisa? Estou me sentindo
assim desde que peguei esse caso. Preciso descobrir o que é…
“É tão difícil assim de perceber que fazer isso não é sua função? Bicho burro!”.
Agha trabalhava em mais um caso envolvendo um índio que foi pego com drogas. Mas estava
tentado a arquivar o caso. O indivíduo foi capturado dentro da área protegida. A polícia invadiu
o local sem nenhuma autorização. Ele sabia que o promotor iria protestar, mas sua consciência
não permitia uma decisão diferente. Levantou e entregou o processo a Vincent, que o pegou e
leu na hora. Antes mesmo de Agha voltar a sua mesa, foi chamado.
– Agha, arquivamento!? Como assim? Você viu a quantidade de droga que ele estava
carregando?
– Não importa, a prisão foi ilegal.
– Esse juiz já aprovou uma prisão semelhante. Temos que denunciar.
– Não me importa o que esse juíz acha.
Vincent jogou o processo na mesa e levantou:
– Tenho cada vez mais asco dessa conduta de se reclamar sobre como que descobriram que
alguém estava errado! Onde fica a justiça e a verdade? É cada vez menos justificável
desapegar-se da verdade real em nome de formalismos, Agha!
– Me desculpe, mas eu só estou seguindo o que aprendi nos livros.
– Talvez você precise aprender mais na rua, com as pessoas. O Ministério Público deve
trabalhar para proteger os mais frágeis.
– Até onde sei, o MP é o fiscal da lei…
– E a lei, foi criada com que finalidade meu caro!?
– Isso não importa. A lei está aí e temos que segui-la a risca.

Vincent balançou a cabeça, cansado para continuar a discussão.

– Vou ver o que faço com esse processo. “Preciso tirar esse garoto dessa sala com ar
condicionado e mostrar um pouco da realidade para ele.” O seu celular começou a tocar
enquanto pensava, e ele saiu da sala para atender.
– Vincent, sou eu, Nathan.
– Quais as novidades?
– É um poço sem fundo meu amigo. Esse esquema parece maior a cada dia. Eles não são
meros produtores e vendedores de droga. Estou começando a achar que eles colocam um
testa de ferro no papel de chefe dos traficantes na cidade. E não só isso. Funcionários
públicos, políticos e até gente da polícia. É uma rede digna das melhores máfias que já estudei.
A diferença é que esses índios têm uma proteção que outros não tem.
– Continue seu trabalho ai, que eu vou continuar denunciando e pressionando. Vamos acabar
com esses vagabundos. Me mande no e-mail suas últimas descobertas. No tutanota, óbvio.
Nathan consentiu e desligou o telefone. Saiu de sua sala e fez um sinal para alguns policiais,
avisando que sairiam. Todos se prepararam rapidamente e em instantes estavam prontos para
partir. Eles já estavam acostumados com as saídas do delegado. Diferentemente do último,
Nathan passava mais tempo no campo que no escritório. Em pouco tempo, ele já havia
conseguido a lealdade da maioria dos homens, mostrando coragem e linha dura. Afastou
homens com quem teve problemas, e tentava mostrar que os índios não eram algo a se temer,
fazendo incursões sozinho para o meio da floresta. Ainda assim, a maioria temia os Kapoors.
– Onde vamos, doutor?
– Depósito de drogas. Recebi uma denuncia anônima – disse com um sorriso despojado no
rosto.

***

No fim do expediente, Vincent refletia enquanto relia o caso do assassino serial. “Contratar
Agha talvez tenha sido um erro meu. Vi potencial…mas falta vontade”. “Por outro lado quem eu
traria? Aquele amigo de Índio ou….”. Vincent deu um tapa na mesa, e levantou animado. “É
isso!”, falou em voz alta. Procurou no histórico de seu e-mail, e finalmente achou o que queria.
Discou o número e esperou.

– Alo!? Eu gostaria de falar com o…Dogue?
– É ele mesmo.
– Sou promotor de justiça da cidade, e gostaria de uma consultoria com você.
– Comigo? Por que?
– No seu currículo consta que é especialista em serial killers. Mas só posso dar mais detalhes
em um encontro presencial.
– Claro! Pode vir. Eu moro dentro da reserva. Vou te passar o endereço.
Após finalizar a ligação, Vincent disse:
– Agha, amanhã chegue mais cedo. Vamos fazer um visita a um especialista em assassinatos
em série. Ele mora em um lugar curioso…”Reserva Drakuista”…conhece?

Kami no Sensou – Alstroemeria (Volume 6: Capítulo 5)

Dúvidas.

Conturbado.

O que eu vejo não é o que eu sinto.

O que eu sinto não é o que eu vejo.

Embora agora eu veja.

Interseção.

Um só.

Mas, dois ao mesmo tempo.

Quando aconteceu?

Passado e presente.

É como estar amarrado.

Mas as amarras possuem espinhos e veneno.

Preciso liberar elas.

Mas o veneno me paralisa.

E os espinhos se movem através do meu corpo se eu não liberá-las.

Logo.

Loucura. Talvez.

Não consigo mais distinguir o que é meu e o que não é.

Preciso de ajuda.

Mas será que serei ajudado? Ou serei julgado?

Por isso.

Dúvidas.

Me ajude, por favor. Te dou permissão.

 

 

“… Isso é ruim…”

Ryoka olhava as folhas com um olhar apreensivo.

“Ryoka?”

Seira começou a ficar apreensiva também e se aproximou para olhar os papéis.

“…”

Logo, todos na sala deram uma olhada nos papéis.

Muitas folhas estavam dentro do envelope, mas apenas uma delas estava…legível. Rabiscos impossíveis de tirar algum sentido ocupavam todo o espaço da maioria das folhas. Apenas a última dela havia palavras compreensíveis.

Embora tenha sido usado o termo “compreensível”, isso apenas se aplica ao fato de que é possível reconhecer as palavras, mas não o significado por trás delas. O conteúdo dessa última folha não parecia ser direcionado a ninguém específico, parecia mais como um monólogo sendo colocado em palavras. Isso é, tudo exceto a última linha. Ryoka sentiu como se a última linha tivesse sido direcionada diretamente para ela.

Ryoka sentiu como se Kuroshi estivesse dizendo “Entre na minha cabeça e veja meu passado diretamente caso queira me entender de verdade!”.

Antes que percebesse, ela estava quase rasgando a folha com a força que estava colocando no punho.

Você não está mostrando nenhuma consideração pelos meus sentimentos dessa vez, não é, Kuro-kun?

“O que você vai fazer, Ryoka-chan?”

A voz de Masaya trouxe ela de volta a realidade.

“… Vamos encontrá-lo e investigar o problema diretamente.”

A frase “investigar o problema” era bem clara para todos na sala.

“Tem certeza que irá fazer isso?”

Para a pergunta de Masaya, Seira e Julie olharam para Ryoka esperando pela resposta óbvia.

Ryoka apenas respondeu com um sorriso no rosto.

“Ter boas amizades também significa ter que agir em situações que você não gostaria de agir, não existe amizade que só usufrui de bons momentos.”

Saindo da sala, todos se dirigiram até o lado de fora. Seira então adicionou:

“Ryoka, acha que o Kuroshi está por perto ainda?”

“Ele definitivamente está nesse campus. Teremos que procurar.”

Pela primeira vez o tamanho desse campus pode vir a ser uma inconveniência…

Já diante do céu aberto, Ryoka se pronunciou.

“Irei usar o [Analyzer] para tentar encontra-lo.”

Não é algo que ela normalmente precisaria anunciar, mas…

“Ryoka-chan…”

O rosto de Masaya se distorceu levemente ao ouvir tão anuncio.

“Não se preocupe, serei breve.”

Percebendo que Masaya não iria dizer mais nada, Ryoka ativou sua técnica.

Após alguns segundos…

“… Isso é péssimo. Ele não está em lugar algum.”

“Eeeh?! Ele não está na escola?!”

Julie não acreditou nos seus ouvidos, sendo a única capaz de fazer uma reação exagerada nessas horas.

“Não é isso… Eu disse que ‘ele definitivamente está nesse campus’, não disse?”

Como Ryoka tinha tanta certeza? Instinto? Alguma lógica por trás? Nenhum dos três sabia ao certo.

“Ryoka, você quer dizer…”

Seira parecia ter entendido, mas pediu por uma confirmação mesmo assim.

“Sim. Provavelmente ele está dentro de uma [Dimensão Reversa].”

Silêncio ocupou a área.

“… Você não pode localizar a [Dimensão Reversa] com os seus olhos?”

De cabeça baixa, Seira parecia ainda querer pensar positivo. No entanto, Masaya pareceu reprovar a linha de raciocínio de Seira.

“Impossível. Só posso analisar o que é observável. A única forma de analisar uma [Dimensão Reversa] seria estando dentro dela.”

Era um tanto quanto surpreendente. O [Analyzer], técnica capaz de observar até mesmo o futuro ou o passado, ser inútil para encontrar uma [Dimensão Reversa].

O problema é que, a partir desse ponto, tudo depende da sorte e das circunstâncias. Se por exemplo a [Dimensão Reversa] que Kuroshi se encontra for uma de tamanho consideravelmente grande, eles não demorariam muito para encontra-lo. Podem também dar a sorte de entrar na [Dimensão Reversa] mais cedo do que esperavam. Por outro lado, se a [Dimensão Reversa] for pequena e estiver em algum ponto muito escondido, eles podem demorar bastante para encontrar.

Não se sabe a situação em que Kuroshi está, logo, quanto mais demorarem mais arriscado a situação fica.

“Ryoka, se nos separarmos poderemos encontra-lo mais rapidamente!”

Julie deu sua sugestão levantando seu braço como uma aluna querendo chamar atenção da sua professora.

“Recusado.”

“Eh?! Por quê?!”

O rosto de Ryoka demonstrava cansaço em ter que explicar algo tão óbvio.

“Use sua cabeça direito. Se nos separarmos e um de nós encontra-lo, só significa que um de nós se perderá dos outros três, nos levando a uma situação onde essa pessoa teria que resolver a situação sozinho(a). Dependendo de quem for, a situação pode até ir de mal a pior por causa disso.”

“… Ah.”

Julie pareceu entender com tal explicação.

Se fosse, por exemplo, ela mesma encontrando a [Dimensão Reversa] onde Kuroshi está. O que ela faria sozinha?

Em situações complicadas ficarem todos juntos quase sempre é a melhor escolha. Se separarem deveria ser uma exceção, para casos circunstanciais.

“Não temos escolha, vamos ter que atravessar todo o campus em busca dele.”

Todos olharam uns para os outros e acenaram positivamente antes de partirem.

Felizmente a viagem foi curta. Em pouco tempo todo o local teve suas cores invertidas, incluindo o céu.

 

A linha de raciocínio de Ryoka foi simples. Ela escolheu começar pelos lugares onde Kuroshi já havia criado memórias. Não foi algo que ela decidiu por achar que Kuroshi se moveria baseado no sentimentalismo ou algo parecido. Se ela estiver correta sobre a condição atual de Kuroshi, é bem provável que ele esteja fora de si, logo, deve estar se movendo baseado nos seus instintos, passando por lugares dos quais ele já tem familiaridade. O corpo já ter memorizado certos caminhos e por isso ele se mover para algum deles quando deseja “fugir” inconscientemente, essa era a aposta de Ryoka.

E essa aposta, ela venceu.

Diante dos quatro, a [Dimensão Reversa] se revelou.

A situação estava além do que imaginavam.

A área estava devastada. Destruição para todos os lados, praticamente toda a destruição se resumia a ataques cortantes. Na borda dos cortes e em algumas áreas até um tanto além disso, o chão estava cinza, como se estivesse sem vida.

“… M-Me t-tirem… D-Daqui!”

A voz desconhecida surpreendeu o grupo, que olhou para o lado por reflexo.

Sentado no chão encostado na parede invisível do limite da [Dimensão Reversa], havia um garoto desconhecido.

Não, apesar de isso valer para Masaya, Seira e Julie, o garoto não era um rosto desconhecido para Ryoka.

Como era mesmo o nome dele? … Acredito que era Ricardo, ou algo do tipo. Um jovem vindo da Argentina que é o [Avatar de Agni]…

Ryoka obviamente reconheceria um dos membros do [Partenon]. Era algo que ela tinha a obrigação de fazer caso quisesse demonstrar a seriedade da organização.

Ricardo estava apavorado, havia feridas em todo o seu corpo. Porém, ele rapidamente olhou com reprovação para Ryoka.

“Isso é coisa de vocês! Vocês disseram que estaríamos protegidos aqui, mas um de vocês me atacou!”

Seu medo deu lugar para desespero sem titubear.

Ao notar que Masaya estava para dar um passo adiante, Ryoka agiu primeiro.

“Acalme-se. Nosso amigo foi pego pela técnica mental de um inimigo que invadiu o local, estamos indo resolver isso agora.”

O olhar de surpresa não foi só de Ricardo, mas de todos ali no local.

Vendo que ele parecia ter compreendido a situação, Ryoka adicionou:

“Fique aqui para se proteger enquanto resolvemos esse caso, você ficará bem agora.”

Terminando de dizer o que queria dizer, Ryoka finalizou dizendo “Vamos indo, pessoal” antes de ir em direção ao centro dessa [Dimensão Reversa].

Os três seguiram ela.

“Ryoka-chan, está tudo bem mentir dessa forma?”

“Aah… Eu me sinto péssima por isso, mas foi um mal necessário. Não posso deixar que a confiança no [Partenon] seja abalada caso ele saísse espalhando boatos por aí.”

Ryoka falou sobre a “confiança no [Partenon]” para Masaya, mas era mais uma questão da falta de confiança em si. A maioria dos membros normais do [Partenon] não tinham muita confiança nela e nos seus amigos, ninguém iria simplesmente fingir que está tudo bem viver em paz como se suas vidas não estivessem em risco, muito menos colocar sua segurança nas mãos de pessoas desconhecidas. Mas graças aos esforços no caso de Isaac Schylar, Magna Diefenbach e Noah, lentamente os [Avatares de Deuses] começam a acreditar que Ryoka e os outros estão realmente lutando para criar um lugar de paz.

Nessa frágil confiança que vem se solidificando, o que aconteceria caso começassem a espalhar por aí que um dos membros chaves da [Partenon] está atacando os outros?

Ryoka mordeu o próprio lábio com força.

“Sei-chan, Julie-chan, as coisas ficarão violentas em breve. Estejam prontas.”

“Ryoka?” “Eh?”

As duas responderam em confusão.

“Lá está ele.”

Sem responder, Ryoka afirmou, apontando o dedo em direção ao centro da [Dimensão Reversa].

“OooOoOoOOoooooOOOhHhHHhHhhhhhhhhHHhHHhhhhhHHH!!!!!!!”

Algo que parecia um rugido direcionado ao nada. Uma mistura de vozes ecoou pelo ar.

“Kuro-kun!”

Ryoka gritou.

Ao ouvir o apelido que ele já estava acostumado ao ouvir, Kuroshi se virou para eles.

Seus olhos brilhavam na cor escarlate.

Sua espada já estava na sua mão.

“Eu vou preparar a técnica agora.”

Os cabelos de Ryoka mudaram de cor, ela aumentou seus poderes até os 30% sem receio das consequências. O [Zenchi Kūkan: Oujibyoubou] estava sendo carregado.

Talvez por instinto, mas no momento em que Ryoka começou a carregar sua técnica, Kuroshi avançou em direção a ela.

“Kuroshi está vindo!”

Seira afirmou, chocada. Ela não esperava que ele emitisse tanta hostilidade em direção a eles. Julie estava na mesma situação.

Ryoka, no entanto, estava despreocupada.

Desculpe, Kuro-kun, isso vai doer um pouco. Tome isso como punição pelo trabalho que está me dando.

“Masaya?”

Ao ver as botas douradas formadas nas pernas de Masaya e ele entrando em posição de combate, Seira tentou chamar sua atenção, com um mau pressentimento.

Mas era tarde demais. Ela ficou em dúvida se sua voz conseguiu chegar até ele, uma vez que sua imagem desapareceu um instante antes.

Invadir a privacidade de outra pessoa. Mentir. Colocar a confiança no [Partenon] que ela vem construindo até então…

“… Você pecou em todas as partes, Kuroshi!!”

Ao ouvir uma voz vinda de trás, Kuroshi se virou, mas só deu tempo de ver a perna de Masaya atingindo seu rosto em cheio.

O corpo de Kuroshi arrastou violentamente pelo chão.

AaaAAhHhhH…”

Kuroshi levantou, ainda meio tonto, com sangue escorrendo pelo canto da boca.

Ele se virou e lançou um olhar carregado de hostilidade na direção de Masaya—Exceto que não havia mais ninguém lá.

Subitamente um impacto extremamente forte atingiu seu estomago. Masaya atingiu um chute em cheio nele, lançando-o para longe novamente.

Mesmo percorrendo o ar por causa do impacto, Kuroshi moveu seu braço e lançou diversos [Doom Slash] em Masaya. Mas os ataques pareciam se mover lentamente no ponto de vista de Masaya, por isso, ele desviou dos ataques com facilidade enquanto se aproximava novamente.

Os milésimos conseguidos com essa tática foi aproveitado com Kuroshi encaixando a espada no chão para parar o movimento do seu corpo, e em seguida, avançar na direção de Masaya e ataca-lo diretamente.

Lento demais!

A espada de Kuroshi atingiu apenas o ar.

As pupilas de Kuroshi se moveram para os lados, procurando seu alvo, mas apenas quando olhou para baixo que ele o encontrou.

A sola da bota dourada de Masaya atingiu o queixo de Kuroshi em cheio, jogando ele para o ar.

Fazendo uma parábola completa, Kuroshi caiu no chão.

 

De longe, Seira e Julie encaravam a cena diante dos seus olhos incrédulas.

“… É assim que as coisas são. Ainda falta chão para o Kuro-kun conseguir lutar no mesmo nível do Masaya.”

Ryoka explicou enquanto carregava sua técnica.

Apenas mais um pouco, Kuro-kun, e eu investigarei a fonte do problema. Logo você voltará ao normal.

“Ele está levantando novamente!”

Julie afirmou, trazendo a atenção de Ryoka de volta a luta.

 

“Você deveria apenas continuar no chão, seria menos doloroso.”

Masaya comentou, olhando para Kuroshi com desdém.

Ou melhor, para Masaya, o certo seria dizer “olhando para aquilo com desdém”.

Ele não sabia exatamente qual era o problema, mas ele sabia que Kuroshi havia se perdido.

Quando foi que Kuroshi começou a ser o que ele não era? Pensava Masaya.

“… Muito bem, venha.”

Ele se preparou para a batalha novamente. Kuroshi também já estava em posição de combate.

Masaya estava confiante, pois sabia que uma das maiores capacidades de combate de Kuroshi era sua velocidade. E ele era lento perto de Masaya.

No entanto—

“?!”

A velocidade era apenas uma das maiores capacidades de combate.

Kuroshi desapareceu da sua vista.

No instante seguinte, vários cortes apareceram no corpo de Masaya. Ele não sabia de onde estava vindo os ataques, mas sabia que não era um feito de velocidade apenas.

Essa técnica—!!

Ele se lembrou de ter visto algo similar quando foram salvar Julie.

Masaya saltou para longe tentando se afastar, e para sua surpresa, a silhueta de Kuroshi apareceu no meio do ar, perseguindo ele.

Você pediu por isso!

Cerrando os dentes, Masaya se moveu até Kuroshi e atingiu seu rosto em cheio com um soco usando toda sua força.

Na visão de Kuroshi, nada pôde ser visto.

Era como se uma granada tivesse detonado no chão, tamanha a velocidade que Kuroshi atingiu o solo.

 

“Kuroshi…”

Seira fazia uma expressão complicada ao assistir a luta.

Na cabeça de Ryoka, ela lamentava a situação de Kuroshi.

Kuro-kun…

O maior defeito da sua técnica é ela durar 0.1 segundos, e só poder ser usada novamente 1 segundo depois.

Dar 1 segundo inteiro para o Masaya é o mesmo que pedir para ser derrotado.

 

Kuroshi se levantou mais uma vez.

“AAAAAHHAHHAAHHHHHAA

Seu corpo desapareceu mais uma vez ao ativar o [Helm of Eternal Darkness]…

AAH?

Mas ele não saia do lugar. Uma mão segurava sua nuca e outra o seu braço dominante, que tinha a espada.

Masaya em algum momento se moveu para trás dele e segurou o seu corpo antes dele sumir.

Kuroshi tentou se debater, mas não conseguiu se soltar a tempo e seu corpo voltou a aparecer.

“Essa técnica não funcionará mais contra mim.”

Masaya então forçou o corpo de Kuroshi no chão, prendendo ele e parando seus movimentos.

Ele olhou em direção a Ryoka, parecia que ela estava pronta.

Ryoka acenou positivamente com a cabeça e estendeu a mão na direção dos dois.

“[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou]”

Toda a dimensão mudou.

Chegou a hora, Kuro-kun.

Desculpe por isso, mas esses segredos precisam ser expostos.

E assim, os quatro acessaram as partes mais profundas da história de Kuroshi.

Já de cara, as cenas que surgiram diante dos olhos dos quatro já diziam muito sobre o que estava errado.

Principalmente para Ryoka e Seira, que ouviram a versão dessa história contada por Kuroshi. As contradições apareceram imediatamente.

 

 

O pequeno Kuroshi.

Não… Aquela pequena criança nem nome tinha.

Órfã, foi carregada pela igreja enquanto imigravam para o Japão.

Sua vida na vila deveria ser a mesma das outras crianças órfãs, mas…

Uma criança se perdeu em uma floresta próxima e foi picada por uma cobra, infelizmente falecendo.

Uma criança caiu do segundo andar da igreja enquanto brincava, infelizmente falecendo.

Uma criança adoeceu, infelizmente falecendo.

Um dos adultos que trabalhava na igreja caiu em uma ribanceira, infelizmente falecendo.

A criança ficou sobre suspeita dos adultos, devido as suas crenças religiosas.

Certo dia, o padre e a criança estavam sozinhos na capela, quando um pedaço do teto caiu na cabeça do padre, deixando-o hospitalizado por um tempo.

Aquilo foi o estopim.

A criança começou a ser tratada como uma praga. Seu nome então foi decidido: Kuroshi.

Usando os Kanjis de 黒 (Preto) e 死 (Morte). Como se fosse algo tão ruim quanto a peste negra.

Sendo considerada repulsiva, a criança, Kuroshi, foi constantemente atacada. No entanto, não importava o que tentassem… Pedras, pauladas, até mesmo facadas. Seu corpo não podia ser ferido, reforçando a crença dos moradores da vila.

Certo dia, um casal que havia se mudado recentemente para a vila resolveu intervir e adotar a criança.

Os respeitáveis cientistas logo começaram a serem odiados.

Sempre que uma briga começava, eles defenderiam que o sobrenatural não existia e que era cientificamente impossível uma criança causar a morte dos outros.

Antes a criança sequer sorria. Como um boneco sem vida.

Seus pais adotivos correram contra o tempo para provar cientificamente o porquê do seu corpo ser tão resistente.

Eles queriam ver sua criança feliz, eles fizeram de tudo.

As primeiras demonstrações de emoção da criança vieram em forma de rebeldia. Rebeldia contra uma vila de intolerantes.

Mas essa rebeldia nada mais era que uma máscara para esconder seus próprios medos.

Quando os seus vizinhos mostraram que estariam do lado do casal de cientistas, a criança finalmente teve a possibilidade de fazer uma amizade.

Foi em um dia que parecia mais um dia cinzento como qualquer outro.

Kuroshi mexia em uma flor que havia acabado de florescer.

“Essa se chama Alstroemeria.”

Ele olhou para trás, surpreso ao ver uma pequena menina da sua idade. Vestia com um fofo vestido preto e uma flor presa nos seus cabelos pretos.

“Ela é a flor da amizade. Mas também pode simbolizar prosperidade, boa sorte e saúde. Conseguir superar as dificuldades da vida.”

Kuroshi não respondeu, apenas olhou novamente para a flor.

“Meu nome é Kurona. O seu é?”

Para Kuroshi, ela definitivamente já sabia o seu nome. Todos na vila sabiam. Por isso, ele respondeu mal humorado.

“Vá embora.”

“Vaeinborah? Que nome esquisito.”

Kurona entortou a cabeça, confusa com o que ouviu.

Esse foi o primeiro contato que os dois tiveram. Diante dos olhos de uma Alstroemeria.

A partir daquele dia, os dois começaram a brincar juntos.

 

 

“Isso é…”

Todos estavam surpresos com o que viram.

Alguns por motivos diferentes dos outros.

Julie havia sido a primeira a falar, mas Ryoka logo a interrompeu.

“… Então a história do Kuro-kun era falsa… Não, ele não mentiu, mas sim omitiu o suficiente para que a história parecesse diferente.”

Mas por quê?

Essa era a questão.

Por qual motivo Kuroshi mentiria? O que ele ganharia com isso e o que ele perderia contando a verdade?

Seria falta de confiança neles?

Ou existe algo que ele gostaria de esconder dos seus amigos?

Algo de errado que ele fez que possa mudar a visão dos outros sobre ele?

Esse tipo de coisa rapidamente passou pela cabeça de Ryoka.

Porém, o único jeito de descobrir atualmente é investigando mais a fundo. Esse foi apenas um fragmento do passado de Kuroshi e Ryoka já se via em uma situação complicada.

Talvez a situação seja mais complexa do que ela imaginava.

Mas mais importante…

“Aquela menina…”

A voz de Seira reproduziu os atuais pensamentos de Ryoka.

Kurona Yoshida.

A garota nas memórias de Kuroshi definitivamente é a mesma Kurona.

Com um olhar preocupado, Ryoka olhou em direção a Seira. Ir adiante com as memórias de Kuroshi pode causar um tipo de impacto diferente em Seira comparado aos outros.

Mas eles não podem voltar atrás agora.

“Tudo bem, Sei-chan?”

Seira entendeu a conotação da pergunta de Ryoka e acenou positivamente antes de responder.

“Sim… Eu só… Relembrei importantes memórias…”

Importantes memórias?

Ryoka não entendeu o sentido das palavras de Seira, mas decidiu continuar a investigação.

 

 

Quando Kuroshi abriu os olhos, o céu escarlate deu as boas vindas a ele.

Levantando apenas a parte superior do seu corpo, Kuroshi olhou ao redor para confirmar sua localização.

O lugar era definitivamente o “Meikai”. Ou o reino dos mortos, se preferir.

Confuso, Kuroshi se levantou e se dirigiu a beira do mar vermelho. Ao olhar seu reflexo, ele via sua aparência normal de sempre, incluindo seus olhos negros.

Por um momento ele sentiu alivio.

“Me perguntava por quanto tempo você planejava dormir, garoto.”

A desconhecida voz grave e potente espantou Kuroshi, que olhou de maneira brusca para a direção de onde a voz veio.

Lá estava uma pessoa que ele nunca havia visto antes… Não, embora já tenha visto uma vez há pouco tempo atrás, aquela pessoa era alguém que ele já havia visto incontáveis vezes.

“… Hades?”

“…”

O homem, que parecia ter mais ou menos duas décadas e meia de vida, encarava Kuroshi diretamente.

Seus cabelos possuíam uma forte cor violeta, e seus olhos brilhavam na mesma cor do céu, um forte vermelho. Ele era mais alto que Kuroshi, e seu corpo aparentava ser bem mais treinado e com músculos mais definidos que o de Kuroshi, mesmo debaixo da sua exótica vestimenta que combinava grevas e manoplas negras com uma túnica medieval preta e dourada. Além dos seus braços cruzados, a pessoa demonstrava imponência com a espada embainhada presa na sua cintura.

Ele estava encostado em uma árvore morta negra, com um sorriso sarcástico no rosto.

Apesar de não ter obtido resposta, para Kuroshi ele definitivamente era Hades, o causador de todo esse problema.

“… O que é essa aparência?”

“Hmph.”

O homem descartou a pergunta de Kuroshi como se fosse algo desprezível.

Aquilo irritou profundamente Kuroshi.

A sua espada de sempre, que também estava na cintura do homem, foi criada na mão de Kuroshi.

“Ei, ei. Está falando sério?”

O homem provocou Kuroshi como se ele estivesse fazendo algo inútil. Mesmo assim, ele se distanciou da árvore e colocou a mão na empunhadura da sua espada.

“Você me ajudou nos momentos difíceis, mas eu preciso alcançar a independência dos meus sentimentos, nem que para isso eu tenha que te derrubar!”

“Hah? ‘Ajudei nos momentos difíceis’? Independência dos sentimentos? Hahaha. Você é mais ignorante do que eu imaginava. É como um rato dando voltas em uma gaiola achando que conseguirá sair dessa forma.”

“…?”

Era difícil para Kuroshi compreender as palavras do homem, mas cada uma delas causava uma sensação ruim no peito dele, por alguma razão…

Não gosto disso.

Odeio isso…

As palavras dele, o olhar dele, é como se tudo me condenasse por algum crime grave.

O que diabos?

Foi ele que influenciou minha vida negativamente.

Minhas dificuldades na vida foram causadas por ele.

Um Deus que se acha no direito de intervir na minha vida. Um absurdo!

E mesmo assim, sou eu quem está sendo acusado?!

Imperdoável.

Definitivamente imperdoável!

Lutar é a única saída. E o vencedor ditará o futuro, os rumos das minhas emoções.

Eu quero voltar…

A mente de Kuroshi estava funcionando de maneira feroz.

Para os meus amigos…

Focando no seu objetivo. O que veio a cabeça de Kuroshi foi…

Voltar para…

“..sa…am….ro….ri…”

Para…

“…lo….ad….od…..mb…..dad……sa……..”

?!

Certas imagens que não deveriam surgir, estavam brotando na sua cabeça.

O coração de Kuroshi começou a bater violentamente enquanto neblina começava a surgir em volta do seu objetivo.

Ou seria o contrário?

 

 

Desde aquele dia, a criança, Kuroshi, e sua mais nova amiga, Kurona, começaram a passar mais e mais tempo juntos.

“Porque você nunca sorri, Vaeinborah-kun?”

“É Kuroshi… Ku-ro-shi.”

“Kuroshi.”

A menina chamou pelo nome da criança. Seus pais adotivos raramente o chamavam pelo nome, então para ele foi uma experiência estranha ter seu nome chamado sem nenhum tipo de repulsa ou desprezo envolvido.

“Kuroshi.”

Olhando para o céu e refletindo, a menina chamava o nome da criança de novo e de novo.

“Ku,ro,shi.”

“Kuro..shi.”

“Kuroshii…”

“… Kuroshi.”

“Quando você pretende parar com isso?”

Sem olhar para  a menina, a criança reclamou. Ela não estava realmente irritada, apenas fingindo.

“Seu nome soa como ‘kurushii’.” (Kurushii = doloroso; difícil; agonizante em japonês)

“…!”

A criança olhou para a menina, chocado.

“Você está sofrendo, Kuroshi?”

As palavras dela atravessaram o peito dele como uma flecha—Não, como uma lança.

Mas como se uma corda estivesse apertando seu pescoço, ele não conseguiu dizer absolutamente nenhuma palavra.

“Você está chorando, Kuroshi?”

Um “Ah!” ecoou na cabeça da criança, finalmente compreendendo porque seus olhos estavam quentes.

“Não estou chorando!”

Kuroshi rapidamente passou a manga da sua camisa nos olhos.

“Definitivamente não estou—Huh? Porque você está chorando, Kurona?!”

Quando percebeu, a menina diante dele estava derramando lágrimas.

A criança ainda não entendia os motivos, mas sua amiga era bem estranha.

A partir daquele dia, os dois começaram a conversar mais naturalmente.

Eles não tinham muito que dizer um para o outro. Algumas vezes falavam de assuntos aleatórios, algumas vezes Kurona se gabava de como seu pai estava preparando para se lançar como um político de sucesso, outras vezes Kuroshi se gabava de como seus pais eram inteligentes.

A vila continuava a mesma, era como se aquelas duas casas vizinhas fossem um mundo separado.

“… E a Lótus consegue ter todo esse simbolismo, fora seu papel na mitologia!”

A menina adorava falar sobre flores.

“Como você sabe tanto sobre flores, Kurona?”

“Eu li em alguns livros… Minha mãe disse que um certo dia que ela me levou para a cidade enquanto eu ainda era um bebê, eu insisti em querer pegar um certo livro sobre o significado das flores que estava na vitrine de uma loja de livros. Ela decidiu comprar e desde então eu venho estudando.”

Enquanto olhava para o céu com um olhar distante, a criança perguntou: “Qual flor você usaria para me definir?”

E a menina, como se tivesse praticado essa resposta há muito tempo, respondeu de imediato: “Dente-de-leão!”

“Dente-de-leão? Por quê?”

Com uma risada adorável, ela apenas respondeu “Segredo” e correu de volta para casa.

Kuroshi certamente não compreendia a maneira que ela via o mundo.

Mas uma coisa era certa. Por algum tempo, ele viveu o que pode ser chamado de “felicidade”.

Certo dia, Kuroshi foi visitar a mesma Alstroemeria que havia nascido perto da sua casa. Mas a flor estava completamente morta.

 

E então, algum tempo depois, um incêndio aconteceu na vila.

Apenas duas vítimas naquele incidente. Os pais adotivos de Kuroshi.

“Filho, ajude aqueles que precisam de ajuda, que pedem por ajuda. Não dê as costas para as pessoas. E então, confie. Se deixe confiar nas pessoas, nessas pessoas. Assim como o ódio cria ciclos, o amor também cria. Escolha o ciclo certo para fazer parte.”

As últimas palavras do homem ficaram encravadas no coração da criança.

“É culpa da criança demoníaca.”

“Nós avisamos.”

“Eles teriam sobrevivido se não tivessem se envolvido com ele.”

“Todos que ficarem perto do filho de satã sofrerá o mesmo destino.”

As palavras de maldição foram atiradas na direção da criança.

Todos os passos dados em direção a um desenvolvimento saudável foram destruídos naquele evento.

Começar do zero é muito difícil, mas recomeçar do zero é muito pior.

Mesmo assim…

O casal abraçou a criança. Os pais de Kurona Yoshida.

“Vamos, Kuroshi. Você vai ficar com a gente agora. Vamos embora dessa vila.”

Cuidar de uma nova criança, além de se mudar para uma casa decente na cidade, o pai de Kurona, Yuuto Yoshida, teve que parar temporariamente seus planos para sua carreira como político.

Era um sacrifício que ele estava disposto a fazer. Seus amigos fizeram um sacrifício muito maior pela vida da criança de um casal de estranhos, isso em comparação não era nada demais.

No entanto, ele temia o crescimento de Kuroshi. A criança novamente inexpressiva parecia pior que antes.

O que será dessa criança no futuro?

A família Yoshida acolheu a criança da maneira mais quente possível, tentando quebrar uma barreira com várias camadas.

Demorou. Demorou muito tempo. Mas lentamente eles estavam conseguindo convencer Kuroshi que a culpa não era dele, que foi apenas um acidente e que ele deveria tentar ser feliz pelo bem dos seus pais adotivos.

Camada por camada.

A barreira foi sendo destruída.

Mudanças começaram a acontecer e a criança tentou, mais uma vez, se abrir ao mundo.

Talvez eles estivessem certos, não foi culpa dele, foi apenas uma infelicidade que aconteceu por um acaso. Foi uma atitude heroica que os pais de Kuroshi escolheram tomar, não algo gerado por uma maldição.

Kuroshi começou realmente a acreditar nisso.

Não tem como ser verdade, certo?

Afinal, tal como os pais de Kuroshi sempre disseram…

O sobrenatural não existe.

Se o sobrenatural não existe, é impossível uma força maior ter influenciado em todas aquelas mortes.

E Kuroshi adotou essa visão, pois era o mais saudável para a sua mente.

Até que finalmente chegou o dia do seu décimo segundo aniversário.

 

Sim, os pais de Kuroshi, os pais de Kurona, todos estavam errados.

De fato, o sobrenatural existe.

Ao completar 12 anos, Kuroshi finalmente descobriu.

Sobre os superpoderes.

Sobre a [Guerra Divina].

Sobre os [Avatares de Deuses].

E sobre ele representar o Deus dos Mortos.

“aaaAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH”

Com as mãos na cabeça e lágrimas saindo dos seus olhos arregalados, Kuroshi gritou.

Desespero engoliu completamente o seu ser.

No fim das contas, as pessoas da vila estavam certas. Ele de fato era o “filho” do demônio. Do rei do inferno.

Sua mente entrou em colapso e sua visão ficou branca.

Quando percebeu, sua amiga de infância o abraçava, tentando o acalmar.

Ele não conseguia dizer nada, não podia. Na sua cabeça, ele havia acabado de confirmar a sua traição à confiança de Kurona e seus pais. E agora, essa família que estendeu a mão para uma criança amaldiçoada, irá eventualmente sofrer o mesmo destino que todos os outros.

Sua mente já havia colapsado, seus sentimentos vieram em seguida.

Nos braços de Kurona, e eventualmente nos braços dos pais dela que logo viriam ver o que havia acontecido, tudo que ele queria era viver com eles, ter um lar, uma família, um lugar que aquecesse o seu peito.

Na sua cabeça, tudo que ele queria era desaparecer para sempre, pois seria demais ver essa família ser destruída pela sua maldição.

Mas no fim, diante de um mundo pronto para rejeitá-lo com todas as forças, e um outro mundo simultâneo pronto para caçá-lo e matá-lo em uma [Guerra Divina], ele simplesmente ficou apavorado demais para fugir. E apavorado demais para contar a verdade.

Ele escolheu colocar aquela família em risco, seu medo foi maior.

Pois apenas a mão estendida deles o mantinha sano. E era apenas deles que ele precisava.

Sendo assim…

Kuroshi se fechou ao resto do mundo.

Kami no Sensou – Jacinto Roxo (Volume 6: Capítulo 4)

Diante dos olhos negros de Kuroshi, um lugar muito familiar se mostrava. Céu vermelho, solo vermelho escuro, quase preto, nenhum sinal de vida seja humana, animal ou vegetal. Uma gigantesca lua escarlate iluminava tudo.

Não haver sinais de vida não significa que não havia nada ali… Muito pelo contrário, em todas as direções que se olhava, corpos humanos sem vida ocupavam espaço no solo morto. Não era uma cena inédita para Kuroshi, mas ver aquilo o encheu de repulsa e vontade de vomitar. Talvez pelos corpos estarem completamente negros, quase como sombras ou como se tivessem acabado de sair de dentro do solo, ele conseguiu resistir.

Ele não estava perdido, ou sem saber o que fazer, essa era uma situação pela qual ele já passou inúmeras vezes no passado, embora que ainda com algumas diferenças.

Kuroshi foi caminhando adiante, evitando pisar nos corpos ou sequer olhar para eles.

É como meus antigos sonhos… Só que…

Sim. Seus sonhos eram totalmente padronizados, sempre se repetindo da mesma forma com apenas uma mudança ou outra. Isso é, até o momento da “morte” de Seira chegar. Naquele dia, seu sonho foi diferente. Dessa vez este sonho também está sendo diferente de todos os outros, ele pode se mover, ele pode agir livremente. Não há Hades, nem a morte de—

“…!”

Após caminhar por um tempo, Kuroshi viu uma pessoa na sua frente. Ela estava de costas pra ele, mas reconhece-la era a coisa mais fácil do mundo.

Kurona—!

Kurona estava com as mãos nas costas, olhando para a lua escarlate.

A forte luz vermelha atingindo a garota que poderia ser denominada como uma bela flor negra combinava perfeitamente. Como se ela pertencesse a aquele mundo—Não, como se aquele mundo pertencesse a ela.

Ela olhou para trás, como se já soubesse que Kuroshi estava ali.

Isso é um sonho? Ou é real?

Enquanto tentava controlar sua mente em confusão, Kuroshi começou a andar em direção a ela. Só havia um problema… A partir do momento em que os olhos dos dois se cruzaram, os movimentos de Kuroshi aconteciam contra a vontade dele. Cada passo que ele dava não era feito porque ele queria, era como se seu corpo estivesse sendo controlado por uma força maior. Logo, sua espada de sempre surgiu nas suas mãos.

Espere… Espere! Esper—

Os dois ficaram há um metro de distância um do outro. Kuroshi se preparou para perfurar diretamente o coração da garota diante dele, e o que aconteceu depois—

 

 

Kuroshi abriu os olhos.

Ele estava deitado na sua cama, o dia já estava amanhecendo.

Não é como se a volta desses sonhos fosse algo bom ou tolerável, mas Kuroshi acordou bem. Sem gritar, sem suar, sem angústia e sem ver ninguém sendo morto. Ele se sentia relaxado e nostálgico.

Ao se sentar na cama, ele aproveitou por alguns segundos o ótimo perfume que havia no quarto.

Logo em seguida, ele se dirigiu até o banheiro e se olhou no espelho. Talvez ele tenha tido alguma esperança de que seus olhos não estariam naquele forte tom escarlate. Seria um pensamento em vão, no entanto, já que as coisas continuavam as mesmas.

Depois da conversa que ele teve com Axel ontem, sua mente ficou tão pesada que não demorou muito para ele cair no sono. Talvez ele tenha dormido até rápido demais, já que ele mal se lembra do que aconteceu após ter voltado para seu quarto. Mas uma boa noite de sono é sempre essencial, já que ele acordou bem mais leve.

“… Preciso resolver essa situação de uma vez por todas.”

Conseguindo a calma necessária para dar um passo adiante, Kuroshi decidiu começar a agir.

Sem perder muito tempo, ele tomou banho, se arrumou e saiu do quarto.

Ainda era bem cedo, por isso, os corredores do dormitório estavam vazios, silenciosos e um tanto quanto desnecessariamente escuros.

Era um cenário um pouco assustador, mas não tanto quanto lutar contra alguém mais perigoso que uma bomba atômica. Por isso, Kuroshi continuou seu caminho rotineiro normalmente.

Andando e andando em um corredor que parecia interminável, Kuroshi começou a sentir uma sensação estranha e parou de andar.

“…”

Era como se alguém o observasse.

Aquela pressão invisível era altamente desconfortável.

“…!”

Subitamente, Kuroshi se virou, tentando ver se havia alguém atrás dele. Mas nada havia ali.

Estou ficando paranoico ou…

“?!”

Ao se virar para frente novamente, ele deu de cara com um homem. O susto o fez saltar cinco metros para trás. Mas logo após essa ação, ele percebeu que não havia mais ninguém lá. Com o nascer do sol, os corredores ficaram mais claros.

Ele só se lembra de ter visto alguém desconhecido, de cabelos roxos. Foram as únicas coisas que aquela fração de segundo permitiu sua memória gravar.

Eu…

O que diabos está acontecendo comigo?

Quando isso se tornou uma história de terror psicológico?!

Droga!

Eu preciso—

“O que houve, Kuroshi?”

Com um forte toque no ombro, Kuroshi foi trazido a realidade novamente e ao olhar para trás, lá estava um amigo bem recente seu, Masaya.

“Masaya? O que…”

“Ryoka-chan me pediu para buscá-lo. Ela queria fazer uma nova reunião…”

Entendo… Acho que entendo o rumo que isso está tomando…

Vendo a cara de desgosto de Kuroshi, Masaya arregalou os olhos, surpreso.

“Woah woah, achei que você gostasse das garotas, ao menos um pouco.”

“Eh?”

Dessa vez foi a vez de Kuroshi ficar surpreso.

“Do que está falando?”

Ele não percebeu?—Pensou Masaya por um momento.

“Não, é… Você parecia descontente com a ideia.”

Ele propositalmente usou a palavra ‘descontente’ para parecer menos grave.

“Uh…”

No entanto, pela reação (Ou falta dela) totalmente confusa de Kuroshi, ele percebeu que não foi proposital.

“Bem, esqueça isso. Nós vamos para um local diferente de qualquer forma.”

“Huh? Como assim?”

“Ao invés de fazer o que a Ryoka-chan me pediu, pensei em termos uma conversa a sós. O que me diz?”

Kuroshi não tinha ideia do que estava passando na cabeça de Masaya, mas ele era alguém de confiança. Talvez por causa da sua personalidade, ou pela sua história, mas Kuroshi sentia que ele era até mais confiável que a própria Ryoka.

“… Certo.”

Tendo a confirmação que queria, os dois se dirigiram até o terraço da escola.

Kuroshi já estava uniformizado, mas como Masaya não era mais um estudante do ensino médio, ele vestia roupas casuais como uma calça e uma jaqueta preta junto com uma camisa azul. Ele estava com as mãos no bolso, embora parecesse relaxado, o ar em volta dele era completamente o oposto disso.

“Tem certeza que irá ignorar o pedido de Ryoka?”

“Ela parece durona por fora, mas quando você a conhece mais de perto, percebe que não é tão complicado assim lidar com ela.”

“…”

A pergunta de Kuroshi não era realmente algo que ele estava preocupado. Ele estava mais preocupado com o que Masaya queria falar com ele, e por isso decidiu falar a primeira coisa que veio a sua mente. Uma atitude incoerente considerando que ele já havia aceitado vir até aqui para conversar de qualquer forma. Mas talvez ainda seja melhor do que ter uma reunião com as garotas, ele pensou.

“O que eu tenho a dizer é algo simples.”

Masaya olhou diretamente nos olhos de Kuroshi, ele estava totalmente sério. Por isso, Kuroshi nem sequer o interrompeu.

“Nos conhecemos há pouco tempo, mas sendo um grande amigo da Ryoka-chan, não hesitei em te dar um voto de confiança. Mas…”

O que Kuroshi ouviu em seguida o deixou perplexo.

“… Se você fizer algo que cause um impacto negativo muito forte, não só na Ryoka-chan, mas no [Partenon] em si, não hesitarei em te chutar para o planeta mais próximo.”

Não havia tom de brincadeira, nem exageros. Sem tirar nem por, Kuroshi acabou de ser ameaçado por um aliado.

“Eu não sei sua história ou suas circunstâncias, mas você é a principal causa das preocupações do nosso grupo atualmente. Você já soube sobre meu passado, então talvez já tenha alguma noção, mas eu não pretendo ter respeito por alguém que não é verdadeiro aos seus próprios sentimentos.”

“… Espere um momento!”

Claramente irritado por algo no discurso de Masaya, Kuroshi deu dois passos adiante e agarrou a camisa dele pela gola. Ele não tirou as mãos do bolso em nenhum momento.

“O que? Quer lutar contra mim? Não sou tão piedoso com quem faz a Ryoka sofrer, você pode perguntar ao Noah se duvidar.”

Nenhuma das palavras de Masaya foi dita com um sorriso no rosto, muito pelo contrário, Kuroshi sentiu uma pressão ao ouvir aquilo.

Aquele momento de reflexão deu a oportunidade para Kuroshi notar que, apesar das ameaças, Masaya está apenas protegendo o grupo.

Eu sou o vilão da história agora?!

Kuroshi soltou Masaya e recuou.

“… Eu me exaltei um pouco. Embora me chamar de falso logo após dizer que não sabe nada sobre mim tenha sido realmente insultante…”

O que está acontecendo comigo? Eu não deveria ser tão agressivo… Apesar da culpa ser dele também. Meus sentimentos são absolutamente verdadeiros, ao menos os que criei aqui.

“Hmph, lamento por isso, mas é o que eu acredito.”

O rosto de Kuroshi se contorceu ao ouvir a resposta dele, mas dessa vez ele respirou fundo e decidiu continuar a conversa.

“Você disse que lutou contra Noah? Não imaginei que você fosse tão violento…”

Por algum motivo, Kuroshi puxou outro assunto com um tom de provocação.

“Isso é óbvio. Ele não só fez a Ryoka-chan chorar ao matar a Sayaka-chan, como feriu a Ryoka-chan vencendo-a em um duelo. Eu tinha que despejar a raiva nele de alguma forma.”

Ele responder como se fosse a coisa mais natural do mundo pegou Kuroshi de surpresa, já que o mesmo esperava que ele caísse na provocação.

“E agora você está seguindo o mesmo caminho, para prejudicar o [Partenon] direta ou indiretamente, mesmo que não seja proposital.”

Novamente essas acusações…!

“… Já deu. Cansei disso.”

Kuroshi declarou, se virou e caminhou em direção a porta para voltar para dentro da escola. Masaya não fez nada para impedi-lo. No entanto, ao abrir a porta, Kuroshi parou e olhou para Masaya mais uma vez.

“Só mais uma coisa. Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

Para a pergunta de Kuroshi, um silêncio de alguns segundos. Segundos esses que pareceram uma eternidade.

“… Hah…”

Masaya suspirou, como se estivesse cansado.

“Isso importa? Eu sou eu independente da existência de uma influência externa ou interna. Diria até que essa influência pode nada mais ser que parte do nosso subconsciente. Querer justificar ações, desejos ou características suas colocando a culpa em algo sobrenatural não é nada mais nada menos que insegurança ou covardia.”

“…”

Kuroshi não respondeu nada. Apenas se virou e se retirou do local.

Masaya, agora sozinho, encostou-se à grade de proteção e olhou para o céu.

Sim… Você é você independente de qualquer coisa. O que você faz, o que você pensa, o que você sente, sempre será ‘você’. Mesmo que exista uma influência por trás disso, é irrelevante. Afinal, porque você saber disso e mudar a si mesmo também não seria parte dessa influência?

Você falhou em um dos princípios básicos, Kuroshi. Aceitar-se do jeito que você é.

 

 

Droga… Droga… Droga…!

Kuroshi caminhava rapidamente.

A discussão com Masaya claramente o afetou bastante.

Mais importante ainda, com as faíscas geradas pelos dois, uma reunião de grupo inevitavelmente trará problemas.

Nos corredores do dormitório, Kuroshi parou e se encostou à parede.

Não é culpa minha… Eu não fiz nada de errado… Sim. A culpa é toda do… Hades. Ele que está mexendo comigo e tentando colocar meus amigos contra mim…!

O que pode ser feito contra algo que está dentro de você?—Kuroshi pensou. Se o problema de tudo for Hades, a única solução seria—

Maldição… Não vou ganhar nada gastando minhas frustrações aqui…

Decidindo se mover, Kuroshi foi em direção ao seu quarto.

Mas ao abrir a porta, ele deu de cara com alguém que ele realmente não esperava ver dentro do quarto dele.

“… Seira…?”

 

A situação era a seguinte: Kuroshi estava sentado na sua cama, braços apoiados nas coxas e olhando para o chão. Seira estava próxima a ele explicando o motivo dela estar lá.

“… Então basicamente por estarmos demorando demais para aparecer, Ryoka pediu para você vir até aqui e a Julie até o parque onde eu estava no outro dia, enquanto ela espera para ver se eu apareço no lugar combinado.”

Não havia como ter certeza de onde Kuroshi estaria, então o melhor a se fazer seria dividir. Kuroshi reagiu de maneira estranha a informação, sua cabeça estava abaixada então não tinha como ver o seu rosto, mas Seira não se sentia bem-vinda ali.

“… Sim… Nós precisávamos fazer uma reunião para resolver melhor sua situação, Kuroshi…”

“Minha situação?”

“… Você sabe, você tem agido estranho ultimamente, então… Queremos te ajudar.”

Até você…?

“Vamos, Kuroshi. Quanto mais cedo resolvermos o seu problema, melhor, né?”

Seira esticou a mão para Kuroshi, mas…

Meu problema… Isso não é…

Um estalo ecoou pelo quarto. Kuroshi deu um tapa na mão de Seira.

“Eu não preciso da ajuda de vocês!”

E levantou o tom de voz.

Aquilo foi tão “fora de personagem” que Seira ficou completamente paralisada.

“… Uh… Eu…”

Ela segurou sua mão atingida na altura do seu peito.

“… Acho que você precisa pensar um pouco… Quando se acalmar, pode… Sempre nos procurar!”

Com dificuldades, Seira terminou de falar e imediatamente se virou e saiu correndo, saindo por onde veio, a janela. Kuroshi não sabe se foi impressão dele ou não, mas pareceu ter visto uma lágrima cair do rosto dela.

O silêncio tomou conta do quarto.

Kuroshi colocou a mão no rosto.

O que… O que diabos eu estou fazendo?

Seus amigos estão obviamente preocupados com ele. Eles querem ajudá-lo.

Para Kuroshi ser ajudado, eles primeiro precisam descobrir qual a fonte do problema. E para isso, Kuroshi precisa conversar com eles. Para uma pessoa ser ajudada, ela primeiro precisa ajudar a si mesma.

Quanto tempo havia passado? Kuroshi estava há horas sentado na mesma posição.

Dessa forma eu acabarei sozinho… Eu preciso ir até meus amigos e falar tudo que eu preciso dizer… Se continuar assim…

“Kuroshi? O que aconteceu?”

Sem nem sequer notar a familiar presença entrando no quarto, a voz de Kurona fez Kuroshi levantar a cabeça, surpreso.

Já são essas horas?!

Kurona sempre aparece no quarto em horários específicos.

“…”

“Kuroshi?”

Eu…

“Tem algo de errado comigo?”

Kuroshi perguntou, preocupado. Mas Kurona apenas entortou de leve a cabeça para o lado, confusa.

Ela então se aproximou dele e colocou suas mãos nas bochechas de Kuroshi, logo em seguida se aproximando do rosto dele até ficar a centímetros de distância.

Kuroshi estava surpreso, mas Kurona olhava seriamente para os olhos dele.

Após alguns segundos, ela se afastou e colocou as mãos na cintura.

“Não há absolutamente nada de errado com você!”

Isso é uma piada?! NADA de errado? Será que ela… Nem sequer nota mais as diferenças em mim…?

Ele ficou incrédulo, e logo em seguida confuso. Ela não comentar nem sobre a cor dos seus olhos era um sinal de que ela nem sequer olha para ele direito… Ou ao menos era o que se passava na mente de Kuroshi.

“Não sei o que aconteceu, mas você parece estar criando um grande labirinto na sua cabeça para algo extremamente simples.”

“…?”

Kuroshi realmente ficou perdido com o que Kurona estava falando, apenas observando ela pegar algumas roupas.

Mas é a Kurona… Então talvez faça algum sentido…

“Nessas horas o melhor a se fazer é agir sem pensar muito.”

“…”

“Bem, era só isso que eu queria dizer. Faça o que você quer fazer. Força, Kuroshi!”

Kurona fez sinal de positivo com o polegar enquanto piscava o olho para ele e então se virou.

“… Você… Já está saindo?”

“Uhum. Você precisa de um tempo sozinho para refletir e decidir sua próxima ação, certo?”

Ao terminar de falar, ela levantou a mão acenando para ele e saiu do quarto.

Diante do silêncio novamente, Kuroshi refletia sobre o que Kurona havia acabado de dizer para ele.

 

 

Algumas horas depois. Kurona Yoshida se encontrava no seu quarto de hotel, deitada de barriga virada para baixo na cama, lendo um livro. No seu título dizia, em inglês, A Victorian Flower Dictionary.

Enquanto lia—

“Hm?”

A campainha do quarto tocou.

Kurona estranhou, já que a recepção nem sequer ligou para ela para pedir permissão para deixar alguém passar. Mas mesmo assim, ela se levantou e se dirigiu até a porta.

Ao abri-la.

“Ohh, que surpresa.”

Para o trio na sua frente, Kurona ofereceu uma reação natural. Ela então se virou e voltou para a cama, deixando a porta aberta.

Interpretando isso como um convite, as olharem umas para as outras, as três garotas entraram no quarto.

Kurona se sentou na cama. Com seu corpo um pouco jogado para trás, apoiado nos seus dois braços, e suas pernas cruzadas, ela sorriu para as três.

“O que a íris amarela, a jacinto azul e a cravo vermelho desejam?”

Ryoka, Seira e Julie não estavam gostando muito do tom de voz de Kurona, mas ignoraram por enquanto. Seira em especial parecia um pouco para baixo.

Kurona pensou em questioná-las como subiram até o quarto dela sem interferências e até cogitou a possibilidade do uso dos seus poderes como [Avatares de Deuses], mas ao olhar para Ryoka ela percebeu que, tal como ela, era bem óbvio os meios usados para chegar até aqui.

Ryoka fechou os olhos por um momento para considerar a melhor maneira de perguntar o que iria perguntar, e então ao se decidir, abriu os olhos novamente, dando um olhar perfurante na direção de Kurona.

“Nós viemos apenas para encontrar uma maneira de ajudar o Kuro-kun. Já que você é a amiga de infância dele e a única com conhecimento do passado dele, nós—“

“Eu recuso.”

Antes que pudesse terminar sua explicação, Kurona já descartou a proposta dela, o que deixou Ryoka bem surpresa.

“Você não nos ouviu? Nós estamos agindo pelo bem do Kuro-kun! Ou você não se importa com ele?!”

Kurona se ajeitou um pouco e levantou um dos braços, e com o punho fechado, levantou dois dos seus dedos.

“—Duas coisas.”

A ação de Kurona fez as três pararem e esperarem ela continuar.

“Primeira. Eu jamais irei contar para vocês algo que o Kuroshi escondeu até então.”

A escolha de palavras dela irritava todas as três, sem exceções. Ryoka deu um passo a frente.

“Não é como—“

“Segunda.”

Mas foi interrompida antes mesmo que pudesse dizer algo.

“Você disse ajudar o Kuroshi… Mas não é justamente o contrário que vocês vem fazendo? Quer dizer…”

Por um momento, as três ficaram sem reação, o que deu tempo para Kurona concluir seu pensamento.

“… Se vocês realmente quisessem ajudar, deixariam ele em paz.

Seira foi a primeira a reagir, e a com mais ferocidade. Ela já tentou andar em direção a Kurona com a intenção de lutar.

—Tentou.

Ryoka, que estava um passo a frente, colocou seu braço no caminho para impedi-la.

“Ryoka?!”

“Acalme-se, Sei-chan. Eu disse, não disse? Não viemos para lutar.”

Ao olhar para Seira e ver que ela recuou, Ryoka olhou novamente para Kurona.

“Você está dizendo que deveríamos deixar Kuro-kun do jeito que ele está agora?!”

Dessa vez, foi Kurona que expressou surpresa para o comentário de Ryoka.

“’Do jeito que ele está’? Eu não sei do que você está falando, mas agora eu sei quem andou fazendo a cabeça do Kuroshi para fazê-lo acreditar que tem algo de errado com ele.”

A expressão de Ryoka se contorceu. Ela não conseguia acreditar que a garota diante dela estava falando sério. Mas ela era obrigada a isso… Afinal—

Meu [Analyzer] não detectou nenhuma mentira, essa garota—

“Vamos embora, Sei-chan, Julie-chan.”

As duas concordaram, e sem se despedirem, as três se retiraram do quarto.

Kurona suspirou.

Me pergunto o porque das três terem vindo se não pretendiam lutar… Bem, elas não pretendiam lutar, talvez tenham considerado que eu poderia começar uma luta e vieram em maior número por precaução?

Além disso, elas nem fecharam a porta. Que rude.

Suspirando novamente, Kurona se levantou para fechar a porta.

 

Nos corredores do hotel, as três caminhavam em direção a saída.

“Está tudo bem sair assim, Ryoka-senpai?”

“Mhmm.”

Ao ouvir a pergunta de Julie, Ryoka apenas “afirmou” positivamente com um som. Aquilo ainda mexia com a cabeça dela.

“Sei-chan, Julie-chan.”

As duas pararam ao serem chamadas, Ryoka então parou e se virou para elas.

“Era só uma hipótese antes, mas agora é possível dizer que é quase certo que a causa do Kuro-kun estar daquele jeito é aquela garota.”

Seira parecia estar esperando por isso, uma vez que ela balançou a cabeça para cima e para baixo imediatamente.

“Ela não mentiu em nenhum momento da nossa conversa.”

Tal revelação surpreendeu as duas.

“Mas isso não significa que ela esteja falando a verdade também.”

“Ryoka… Você quer dizer—“

“Eh? O que vocês pensaram?”

A explicação é simples.

“Meu [Analyzer] pode perceber uma pessoa que esteja mentindo… Mas eu não sou onipotente, nem tenho controle sobre a verdade. Mesmo que ela não esteja dizendo a verdade, se ela acreditar que não está mentindo…”

“Ahh!”

Julie então percebeu.

O [Analyzer] não pode analisar palavras, mas sim comportamentos. Uma pessoa que está mentindo e sabe que está mentindo quase sempre irá apresentar sinais, por mais banais que sejam, de que ela sabe que não está falando a verdade.

Mas e se a pessoa em questão não achar que está mentindo? Uma pessoa que ouviu uma mentira de alguém de extrema confiança pode acabar considerando tal mentira como verdade, e ao contar para outra pessoa, na sua cabeça ela estará apenas expondo um fato, sem chances de ser falso.

O mesmo vale para pessoas com certos tipos de distúrbios ou problemas mentais e emocionais. Em muitos casos específicos, não importa o quão absurdo seja o que a pessoa está falando, dependendo do problema psicológico, ela pode ter certeza que está falando algo normal.

Se por um acaso a teoria de Ryoka estiver certa—

“Então ela está afetando o Kuroshi e fazendo-o ficar daquele jeito, mas na sua cabeça nada mudou?”

Sim, é como Seira diz.

Ryoka acenou positivamente com a cabeça.

“O maior problema é… Sem saber quase nada sobre o passado dela com o Kuro-kun, não tem como sabermos exatamente a fonte do problema. Logo, não tem como agirmos para solucionarmos esse caso. Nessa situação, se continuar a piorar, a única saída seria—“

Ela não precisou terminar de falar para Seira e Julie entenderem.

Seguindo essa linha de pensamento, provavelmente Kuroshi está naquela situação por algo que Kurona fez. Ou seja, uma habilidade da [Avatar de Perséfone]. Além disso, se ela realmente tem algum problema psicológico, grandes são as chances de isso ter sido causado pela [Guerra Divina]. Então, a solução mais simples seria—Matá-la.

As três ficaram em silêncio.

Fosse uma pessoa qualquer, seria uma opção mais considerável. Mas sendo a amiga de infância de Kuroshi, a situação se torna muito mais delicada.

Ryoka imaginou como ela se sentiria se fosse o Masaya no lugar da Kurona, e ela no lugar do Kuroshi.

Sua face distorceu só de imaginar.

Quanto tempo nós ainda temos?—O pensamento de Ryoka se referia até Kuroshi passar do ponto crítico.

Toda essa situação de hoje aconteceu por causa da atitude agressiva de Kuroshi em relação a Seira.

Quando Ryoka ouviu isso dela, ela ficou incrédula.

Nesses quase um ano que ela conhece Kuroshi, se tem uma coisa que ela tem certeza absoluta que nunca aconteceria, é ele tomar uma atitude agressiva em relação a Seira em uma situação comum.

Se o Kuro-kun não quer revelar seu passado, e a Kurona Yoshida também não, eu…

Para alguém como Ryoka, com um forte senso de justiça, algumas coisas são intoleráveis.

Invadir o quarto do Kuroshi para tentar achar algo que desse pistas da fonte do problema já era uma ação que ela muito repudiou.

Mas…

Existe uma maneira de descobrir sobre o passado dos dois facilmente.

Sim—[Zenchi Kūkan: Oujibyoubou].

Uma técnica que Ryoka possui, que pode “reviver” qualquer história, tendo algo que faça a conexão para uma história específica. Se ela forçasse Kuroshi a se submeter a tal técnica, ela poderia investigar o passado dele sem dificuldades.

Absurdo. Eu nunca, nunca irei recorrer a isso.

Ela já se sentiu enojada só de considerar a possibilidade.

“Ryoka?”

Só ao sentir um toque no seu ombro e ouvir a voz de Seira que ela voltou a realidade.

“… Desculpe. Vamos indo.”

As três se retiraram do hotel.

Está certo. Eu não falei para a Sei-chan, mas o maior problema desse caso e o motivo para ele estar tão difícil de resolver é…

Era algo óbvio, que Ryoka percebeu assim que parou para pensar. Talvez Seira já tenha percebido também, ou talvez ela simplesmente não queira perceber. O tal estopim, o motivo que formou essa situação, não é algo atual.

A verdade é que…

Nós não sabemos absolutamente nada sobre Kuroshi Kouji.

Admitir era doloroso. Isso para Ryoka, ela nem imagina como Seira iria se sentir.

Mas era um fato.

Claro, teve toda a história de quando Kuroshi era uma criança, e seus pais morreram em um incêndio.

Mas e depois disso? O que aconteceu nesse intervalo de cerca de 10 anos desde as mortes dos pais dele até o dia em que ele se transferiu para o Colégio Aohoshi?

Não é necessário um relatório super detalhado sobre a vida pessoal da pessoa, mas dentro dessa roda de amigos, Kuroshi é o único que ninguém sabe absolutamente nada de parte da sua infância até metade da sua adolescência.

Aquilo estava colocando Ryoka contra a parede.

Seu grande amigo, que já lutou muitas lutas ao seu lado, agora é um grande ponto de interrogação para ela.

Por já estar acostumada a trabalhar sobre pressão, Ryoka conseguia esconder esse fato. Mas por quanto tempo essa bomba ficará desarmada?

Talvez ele esteja com medo de revelar seu passado justamente por pensamentos como esse… Tch!

Sentimentos obscuros que estavam tentando ocupar o coração de Ryoka foram expelidos pela luz da justiça. Antes de qualquer coisa—

Eu preciso confiar nos meus amigos, para que eles possam confiar em mim.

A determinação de Ryoka foi renovada naquele momento.

 

 

No dia seguinte—

“Ryoka!”

“Uuh… O que foi?”

Ao ouvir sua colega de quarto chama-la, Ryoka relutantemente acordou. Ainda era cedo demais para levantar, mas como sua colega de quarto pratica exercícios constantemente, ela acorda mais cedo que o normal.

Ryoka se sentou na cama e olhou para sua colega.

Ela estava com um papel na mão, entregando para Ryoka.

“… O que é isso?”

“Uma carta. Para você.”

As duas ficaram paradas em silêncio por alguns segundos.

Ryoka então mexeu nos seus cabelos da cabeça como se estivesse pensando em algo.

“Não podia se confessar em um horário mais normal?”

“Hahaha, se você tem tempo para fazer piadas a essa hora, então pode vir correr comigo!”

“… Desculpa.”

Ryoka pegou a carta ao se desculpar.

“Agora se me dá licença, até mais!”

Sua colega de quarto se virou e rapidamente saiu do quarto.

“… Hah…”

Ela então olhou para carta, a parte frontal estava selada.

Quem envia cartas hoje em dia?

Ryoka então olhou a parte de trás da carta—

“?!”

Entendo! Então foi isso que você decidiu…!

 

 

Ryoka imediatamente reuniu todo mundo na sala do conselho estudantil.

Todo mundo, exceto Kuroshi.

“O que aconteceu, Ryoka?”

Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, então Seira perguntou.

“Eu recebi essa carta. Eu ainda não a abri.”

Ela mostrou a carta de longe.

“O que tem ela, Ryoka-chan?”

Agora foi a vez de Masaya perguntar.

Como resposta, Ryoka virou a parte de trás da carta para todos verem.

“Vejam.”

[De: Kuroshi

Para: Todos

Sobre minha vida—Meu passado.]

Dessa vez todos reagiram com surpresa.

“Aqui nesse envelope está, provavelmente, tudo que precisamos saber sobre o Kuro-kun. Com sorte um jeito de ajuda-lo.”

Além disso, outra coisa que passou pela cabeça de Ryoka, foi que de fato ele se sentiu inseguro em relação ao seu passado.

Não era realmente tão diferente de uma pessoa que prefere confessar seus sentimentos através de uma carta ao invés de falar com a pessoa diretamente.

Ryoka nem sequer consegue imaginar o motivo dele ter escondido seu passado esse tempo todo, ou o motivo dele não ter tido a coragem de falar com eles diretamente. Mas ela irá aceitar uma carta de bom grado se for para descobrir a fonte do problema.

Ele propositalmente enviou a carta para Ryoka, sabendo que ela sem duvidas apenas leria a carta com todos juntos.

E cumprindo com essas expectativas, ela abriu a carta e tirou um grande papel dobrado, com uma grande quantidade de texto. Não só um, mas sim dois deles. Ambos numerados com ‘1’ e ‘2’.

“Pois bem—“

O que todos estavam ansiosos para saber, começou a ser revelado.

 

 

Enquanto isso, Kuroshi andava pelo campus.

Sua mão estava no seu rosto, seu olhar direcionado para o chão—Não, para algum lugar distante.

Ele andava um pouco torto.

Para onde você está indo?

A voz o atacou novamente, ao olhar para trás, ele viu sua sombra se estendendo em um tamanho surreal. Além da forma humanoide, sua sombra tinha um sorriso e olhos maléficos.

Kuroshi começou a correr.

Você não pode correr de mim.

Correr de mim é o mesmo que correr de você mesmo.

Impossível.

Sem dar ouvidos para aquela coisa, ele continuou correndo.

Eu sou eu, você é você! E você está tentando acabar comigo! Tentando me consumir! Eu não deixarei!

Antes que percebesse, a voz já havia sumido.

Ele estava na praça novamente, diante do chafariz.

Kuroshi então olhou para a água. O que ele viu—

Um homem de cabelos roxos e olhos vermelhos, uma pessoa que ele nunca havia visto antes.

Quem diabos é você?!

Furioso, ele atingiu a água com um tapa e caiu de joelhos no chão.

Quem diabos é você? Quem diabos é você?

Você está falando comigo? Ou consigo mesmo?

A voz novamente o atormentou.

Cale-se! Eu não vou mais cair na sua farsa!

Eu… Eu sou… Eu definitivamente… Uh… Quem…

“… Ah… Hah…”

Kuroshi colocou as duas mãos no rosto, deixando visível apenas seu par de olhos escarlate.

Subitamente, uma [Dimensão Reversa] foi aberta.

“HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! AAAAH HAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!”

Ali, naquela [Dimensão Reversa], apenas um [Avatar de Deus] residia.

Apenas uma pessoa presente ali dentro.

Quem era essa pessoa?

Kami no Sensou – Cravo Amarelo (Volume 6: Capítulo 3)

O que está acontecendo comigo?

Voltando rapidamente para seu quarto, Kuroshi se deitou na cama de braços abertos e começou a encarar o teto.

As aulas do dia nem sequer passaram pela sua cabeça.

Eu estou… Confuso?

Ouvir a história de Ryoka e Masaya fez Kuroshi se sentir mal. Mas o motivo não estava claro na sua mente.

Amigos de infância?

Relações complexas?

Problemas familiares?

[Guerra Divina]?

Esses sentimentos não identificáveis… Uma possível causa para eles é…

“Kuroshi?”

Ao ouvir uma voz muito familiar, Kuroshi se sentou na cama no susto e olhou em direção a saída.

Na sua frente estava uma linda garota de olhos e cabelos pretos.

“Kurona…”

“Você não deveria faltar aulas após tanto tempo sem ir.”

Enquanto falava, Kurona casualmente foi até uma gaveta e começou a pegar algumas roupas.

“Aah, me pergunto por que alguns dias me sinto mais a vontade com certas roupas…”

“… Kurona.”

“Hm?”

Ver aquela garota na sua frente fez seus sentimentos entrarem em conflito. Muito embora a garota olhasse para ele com um olhar de curiosidade, algo nela parecia dizer que seu nível de inocência era zero.

“… Você… Mesmo podendo dormir neste quarto, você ainda fica em um hotel… É porque você se recusa a dormir sobre o mesmo teto que eu?”

… O que diabos eu estou dizendo?

Ela nem sequer devia estar morando no dormitório masculino…

Porque eu perguntei isso…?

Percebendo que a pergunta já estava feita, Kuroshi colocou a mão na testa em frustração.

Nenhum dos dois falava mais nada, e Kuroshi não tinha coragem para olhar para a cara dela depois de uma pergunta estranha dessas, então ele não sabia o que fazer. Até que—

“Pfft! Hahahahaha”

Ao ver a reação dela, a frustração de Kuroshi aumentou.

“Hahaha… Desculpa, não precisa fazer essa cara.”

“…”

Kurona colocou algumas peças de roupas em uma bolsa e se preparou para sair.

“Não fique mal-humorado. Mas não tinha como eu reagir diferente a uma pergunta dessas, certo? Afinal…”

Ela então se virou para Kuroshi e terminou:

“… Nós já até dormimos na mesma cama. Dormir sobre o mesmo teto seria o de menos.”

A resposta espontânea e natural dela pegou Kuroshi de surpresa.

Ela não estava tentando provoca-lo, tal como ela também não estava envergonhada pelo próprio comentário. Essa naturalidade fez Kuroshi se sentir extremamente estúpido por estar agindo daquela forma. Mas é justamente por isso—

Ah.

Era tão óbvio…

“Então, nos vemos em breve. Até mais, Kuroshi.”

Repentinamente, Kurona se despediu e se dirigiu até a saída.

“Kurona!”

Mas Kuroshi a impediu antes.

Ela somente parou, sem olhar para trás.

“Porque… Porque você voltou para o Japão?”

Se virando apenas o suficiente para olhar na direção dele, Kurona respondeu:

“Para corrigir um erro.”

“Um erro? Que erro?”

“Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.”

E então se retirou do quarto.

Kuroshi, agora sozinho, só pode amaldiçoar a si mesmo.

Veja esse meu estado patético…

É óbvio que ela não ficaria aqui quando ela sabe que é a causa desse meu estado…!

Para me dar espaço para organizar meus sentimentos, ela mantem a devida distância…

Era como uma bola de neve.

Cada vez maior e mais difícil de parar.

Kuroshi estava errado, e ele saber disso só o faz se sentir pior.

Talvez a história de Ryoka e Masaya tenha servido para guia-lo para alguma direção.

Ele só precisa segui-la.

 

 

Uma bela cena acontecia escondida dos olhos de todos.

Kurona dançava. Girando seu corpo de braços abertos com um leve sorriso no rosto.

Ao redor dela, o mais perfeito jardim se encontrava. Flores das mais comuns até as mais exóticas ou mesmo flores completamente desconhecidas, todas elas com uma coisa em comum: O perfeito estado de beleza e bom cuidado, independente da raridade, todas elas brilhavam de maneira sobrenatural.

Dizem que “nada é perfeito”. Ao menos não quando relacionado aos humanos e suas criações.

Talvez isso se aplique a essa situação também, dependendo do ponto de vista.

O jardim de fato é perfeito. A beleza natural de Kurona não mancha em nada a aparência do jardim, muito pelo contrário, até auxilia.

No entanto, fazendo um contraste surreal com o grande jardim, o céu escarlate criava uma atmosfera extraordinária no local.

Do jardim, era possível ver na distância, um portão de tamanho colossal, completamente negro e que passava um ar sinistro.

“Realmente não irá desfazer a lótus, Kurona?”

A pergunta direcionada a ela a fez parar de dançar.

Ao olhar para uma área especifica do jardim, Kurona avistou uma moça.

A beleza de Kurona já não é novidade para ninguém, isso é um fato. No entanto, a mulher diante dela chega a um nível além. Kurona realmente é muito bonita, mas ainda dentro dos padrões comuns da sociedade. Já a mulher diante dela possuía uma beleza exorbitante, algo que a maioria das pessoas normalmente nunca veriam diretamente no seu curto tempo de vida. Embora alguém como ela certamente seria usada como modelo para alguma pintura famosa, expondo sua aparência quase divina ao mundo.

Ela estava sentada na grama, mexendo nas flores. Seus cabelos, assim como os de Kurona, eram negros. A diferença é que eles eram surpreendentemente longos. Ao contrário de Kurona cujo cabelo não passa da cintura, os cabelos da dama muito provavelmente chegariam até os seus pés. Como tal, por estar sentada, seus cabelos se estendiam pelo chão, criando uma imagem verdadeiramente pitoresca combinado com o jardim.

Seus olhos eram verde esmeralda, e seu longo vestido era uma túnica grega de cor verde água-marinha.

“Eu não posso voltar atrás até nisso… Se ele não se reencontrar sozinho, de nada adiantará. Entendo o que quer dizer, mas independente da escolha que ele fizer, eu o apoiarei.”

“Imagino se ele também se envolverá nisso…”

A mulher olhou para a distância com um olhar solitário.

“… O que exatamente são vocês?”

O sorriso de Kurona já havia sumido quando ela terminou a pergunta. Mas como se tivesse sido trazida de volta para a realidade, a mulher apenas sorriu gentilmente ao olhar para Kurona e disse:

Isso—É um segredo. Ao menos por enquanto você não deve saber.

“… Haa… Você me pegou nessa.”

Kurona rapidamente desistiu e deu de ombros ao ouvir exatamente a mesma frase que ela havia dito pouco tempo atrás.

“Em todo caso, mesmo no escuro minha promessa de trazê-lo de volta para você se mantém.”

“…”

“Não faça essa cara. Eu sei o que isso significa e estou pronta para lidar com isso, principalmente quando um dos motivos para eu reconhecer meu erro ter sido você.”

Com o sorriso de volta no rosto, Kurona declarou antes de se virar.

Não foi muito depois que Kurona simplesmente desapareceu daquele lugar.

“Essa garota… O quanto ela consegue aguentar sozinha?”

 

 

“Ainda restam duvidas de que há algo de errado com ele?”

No dormitório feminino, mais especificadamente no quarto de Ryoka, três garotas, ela incluso, conversavam.

“Mhmm, depois da história da Ryoka-senpai, ele não deu mais as caras ontem…”

A pergunta foi de Seira e a resposta de Julie. Havia se passado um dia desde que Ryoka contou sua história com Masaya.

Após aquilo, Kuroshi não deu mais sinais de vida, ao menos não pessoalmente. As garotas mandaram mensagens para ele, as quais ele respondia, mas sempre tentando evitar se explicar.

“O melhor jeito de se resolver isso é falando diretamente com ele. Masaya me enviou uma mensagem há pouco tempo atrás avisando que avistou Kuroshi se dirigindo até a praça.”

Como de costume, Ryoka sempre era a voz da razão nas discussões.

“Então…!”

“Espere, Sei-chan. Eu irei até ele.”

Ao ver a cara de decepção da sua grande amiga, Ryoka até ficou com um pouco de pena, mas era apenas a escolha mais lógica.

“Você ir até ele provavelmente só irá criar uma pressão desnecessária e o fará ficar na defensiva. Por outro lado, se a Julie for, ele provavelmente vai dispensá-la sem leva-la a sério, como sempre.”

“Fueh? Porque eu tenho a impressão de que estão tirando sarro de mim?”

Julie olhou para cima, refletindo seriamente. Ryoka apenas decidiu ignorá-la por enquanto.

“Enquanto eu dialogo com ele, vocês duas farão outra missão.”

Ao ver que conseguiu a atenção e curiosidade das duas, Ryoka continuou.

“Não é algo que eu goste ou ache certo, mas nossas circunstâncias não são normais, então pedirei para que vocês deem uma olhada no quarto dele, da maneira menos invasiva possível. Vocês podem recusar, se quiserem, claro.”

Invadir a privacidade alheia deixava Ryoka aflita, pior ainda é passar essa tarefa para suas amigas. Mas ela preferiu seguir o lema ‘não me arrependo do que faço, mas sim do que deixo de fazer’. Quando for tarde demais, não terá mais volta.

“Nós faremos.”

Seira afirmou sem hesitar, Julie acenou positivamente concordando com a resposta.

“Nesse caso…”

 

 

Kuroshi estava sentado no banco da praça olhando para o céu.

Ele não escolheu vir para cá aleatoriamente, havia um motivo para isso.

E este era—

“Kuro-kun.”

Seu par de olhos vermelhos imediatamente demonstraram surpresa ao arregalarem e olharem para direção da voz.

Alguém que ele jamais esperava ver ali, justamente a essa hora, apareceu.

“… Ryoka…”

Sem esperar nenhum convite, Ryoka se sentou do lado dele. Ao fazer isso, ela olhou diretamente nos olhos dele, que tentou desviar o olhar como resposta.

“O que está acontecendo com você?”

“… Não é nada…”

Dada a situação, tal resposta devia até mesmo ser considerada inútil, mas mesmo assim ele a usou.

“Não tente mentir. Você sabe que eu posso identificar mentiras com o meu [Analyzer], certo?”

Ao ser lembrado disso, Kuroshi notou que já estava em um beco sem saída.

“… Você tem razão… Eu… Contarei a verdade…”

“Hah… Francamente. Devia estar com essa mentalidade desde o começo. Somos amigos, não somos?”

Ryoka suspirou, como uma mãe tendo que lidar com o filho que fez alguma besteira, mas está com medo de contar.

“Por sinal. O que eu disse sobre o meu [Analyzer] era só um blefe, jamais usaria algo assim para tentar desmentir algum amigo, isso só significaria que eu não tenho confiança na pessoa.”

Ryoka não sabia se estava explicando isso para dizer como se sente ou por se sentir culpada por conta da missão que deu para Seira e Julie.

Eu realmente caí nessa… Devia ter imaginado…

Amaldiçoando sua própria ingenuidade, Kuroshi apenas aceitou que caiu facilmente nos jogos mentais de Ryoka. Se é que pode ser chamado disto.

“E então?”

Novamente pressionado, Kuroshi decidiu revelar a verdade.

“… Eu já te contei sobre a minha amiga de infância, Kurona Yoshida, certo?”

Era uma pergunta retórica, por isso, Kuroshi não esperou resposta e continuou falando.

“Bem, nossa história é um tanto quanto mais complicada do que eu fiz parecer para vocês…”

Ryoka ficou um pouco surpresa. Não por essa revelação, no entanto.

“Entendo, então por isso minha história com o Masaya te afetou mais do que deveria.”

“Sim… Não esperava algo tão relacionável naquele momento…”

“Desculpe, Kuro-kun.”

“Huh?”

“Originalmente eu iria apenas contar as partes mais importantes do meu passado, como o efeito colateral do [Analyzer] ou a minha relação com o Masaya… Mas ao te ver agindo estranho ali, decidi contar tudo e tentar te dizer indiretamente que você podia contar conosco, seus amigos.”

“…”

As palavras ditas por Ryoka ontem vieram a mente de Kuroshi.

Existem alguns motivos para eu ter decidido mostrar essa história a vocês… O primeiro e mais óbvio, é a confiança e afinidade do nosso grupo. Todo mundo tem uma coisa ou outra que gostaria de esconder, mas creio que conhecer a origem do que somos hoje é algo necessário.

O quão perceptiva e o quão longe essa garota consegue pensar…?

Ele tentou evitar, mas desde sempre esteve no alcance dela. Se o dissessem que Ryoka não precisa do [Analyzer] para ser inteligente e perceptiva, ele usaria essa situação como exemplo. E o mais importante de tudo, a atenção que ela deu a ele mesmo enquanto se concentrava em mostrar seu passado para todos era insana, ainda mais por se tratar dela, que certamente deu a mesma quantidade de atenção para todos os outros.

Definitivamente uma pessoa que luta no melhor estilo “um por todos”. Essa é Ryoka Illsbert.

“Então, o que essa amiga de infância tem a ver com a situação atual? Você não se sentiria mal se esse segredo não nos afetasse de alguma forma.”

Ryoka conduzia a conversa cautelosamente, mas cada pergunta dela era feita com uma boa expectativa de qual seria a resposta.

“Ela também é uma [Avatar de Deus]. E ela, que estava morando no exterior, está aqui na cidade agora.”

A expressão de Ryoka não sofreu mudanças, tudo dentro do esperado.

“Desde que ela voltou, coisas estranhas começaram a acontecer comigo… Como esses olhos…”

Ou como essa maneira insegura de agir—Pensou Ryoka no momento. De fato ele estava muito fora do comum, e de fato a maior causa provavelmente é a tal garota.

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é…”

 

 

“Você realmente está bem com isso, Seira-senpai?”

Julie questionou Seira, já demonstrando um pouco de hesitação enquanto as duas estavam de pé diante do dormitório masculino, logo debaixo da janela do quarto de Kuroshi.

“Não estou. Mas é como dizem, há males que vem para o bem. Então vamos logo.”

Decidindo não gastar mais tempo já que não sabiam quando Kuroshi voltaria, as duas saltaram do chão até a sacada. Rapidamente descendo na pequena varanda e entrando no quarto, as duas—

Encontraram uma pessoa, uma garota, deitada na cama de Kuroshi, abraçada com o travesseiro dele.

A virada inesperada de eventos fez Julie simplesmente congelar. Enquanto Seira ficou duas vezes mais séria ao ver aquela situação.

A garota apenas olhava casualmente para as duas com um olhar de surpresa.

“… Quem é você? Entrar no dormitório do sexo oposto em permissão é passível de expulsão…”

A jovem moça de cabelos pretos diante de Seira e Julie cobria toda a parte inferior do seu rosto com o travesseiro enquanto se sentava. Não era possível ver sua boca, mas seus olhos pareciam rir das palavras de Seira.

“Ora? Eu tenho permissão, este é meu quarto, afinal. Vocês duas por outro lado… Talvez eu devesse avisar alguma autoridade sobre essa invasão?”

A expressão de Seira instantaneamente mudou de seriedade para choque.

Se o que a garota disse é verdade, Seira acabou de pisar em um campo minado.

O choque fez ela ficar totalmente sem reação.

Uwaaah, o que eu faço? O que eu faço?!

Julie começou a entrar em estado de pânico ao ver a tensão no ar subir.

Só há um jeito…!

Julie.exe parou de funcionar.

Quando Seira conseguiu se recuperar do baque, ela deu um passo a frente.

“Nós somos amig—“

Julie usou suas habilidades físicas sobre-humanas para se mover rapidamente para trás da garota.

A estratégia de ‘apagar as testemunhas’. Colocá-la para dormir e resolver o problema a partir daí.

Quando o braço de Julie, claramente agindo sem pensar, se aproximou da garota—

“Espere, Julie!”

Ela instintivamente parou ao ouvir a voz de Seira.

Todas as 3 pararam de se mover. Não tinha como Seira deixar aquilo passar.

“… Quem é você?

Seira repetiu a mesma pergunta de antes, porém, com uma entonação completamente diferente. Mais ameaçadora.

“S-Seira-senpai…?”

Visto que nenhuma resposta vinha da misteriosa pessoa, Seira estendeu seu braço para frente e no momento seguinte—

Todas as cores se inverteram completamente.

—[Dimensão Reversa].

Julie se surpreendeu ao ver a ação de Seira, mas levou um real susto ao ver que a garota de cabelos pretos ainda estava presente.

“Você… Acompanhou os movimentos da Julie com os olhos, nenhum humano normal teria essa capacidade.”

“… Haa… Você é muito séria. E você agora está bem mais energética do que antes, huh.”

A garota—Kurona—soltou o travesseiro após se dirigir primeiro a Seira e depois a Julie.

O maior choque para Julie foi finalmente poder ver o rosto da pessoa.

“Você é… A garota da flor…”

A garota que deu uma flor para ela, a mesma que guiou Kuroshi e os outros até o local onde ela estava escondida.

Ao ouvir as palavras de Julie, até Seira se surpreendeu.

Indiretamente, a pessoa diante dela ajudou no resgate de Julie.

Vendo que conseguiu desarmar as duas, Kurona se levantou da cama.

“Podemos parar com as hostilidades? Vocês atacam os outros do nada normalmente assim mesmo ou é algo pessoal contra mim?”

Kurona levantou os dois braços na altura dos ombros, enquanto mantinha um sorriso no rosto.

Seira a encarou por alguns segundos, antes de respondê-la.

“Nós nem sequer te conhecemos, não temos nada pessoal contra você. Mas é apenas natural manter a cautela diante de um [Avatar de Deus] desconhecido, certo?”

A discussão novamente se tornou entre Kurona e Seira, Julie não conseguia ver brecha para dizer algo.

Ao ouvir a resposta de Seira, Kurona olhou para ela, surpresa, talvez tão surpresa que parecia um tanto quanto falso.

“Ora. Kuroshi não deve ter contado sobre mim para vocês, então.”

Uma única frase foi o suficiente para destruir o equilíbrio que Seira estava reconstruindo depois do choque inicial.

“Pela terceira vez… Quem diabos é você? Você tem alguma relação com as mudanças que aconteceram no Kuroshi?”

Ela não esperava uma resposta assumindo culpa nem nada do tipo, mas a fez mesmo assim. No entanto—

“Hah? Mudanças? No Kuroshi? Ele não sofreu absolutamente nenhuma mudança até onde sei, ao menos não recentemente. Tem certeza que não é só impressão sua?”

Ela não parecia estar mentindo, mas por alguma razão, cada resposta de Kurona deixava Seira mais no limite da paciência.

“Definitivamente não é só impressão minha, eu já o conheço há muito tempo, algo desse nível não passaria despercebido por mim.”

“Heh~ Será mesmo? Me pareceu que você nem sequer conhece ele direito, no entanto.”

“… O que você disse?”

As palavras de Kurona atingiram Seira violentamente. Aquilo foi praticamente uma afronta a tudo que os dois já haviam passado para ela.

Com o braço estendido, um tridente dourado se formou na mão de Seira e a ponta dele ficou há poucos centímetros do pescoço de Kurona.

“E-Ei, Seira-senpai… Não está exagerando um pouco…?”

Julie finalmente viu uma brecha para tentar impedir as duas.

Mas ela foi ignorada por ambas.

“Desafio você a repetir o que disse.”

O sorriso que estava até agora presente no rosto de Kurona desapareceu.

“Você acha que é próxima dele, mas pelo visto isso é apenas uma ilusão de uma garota imatu—“

Antes de conseguir terminar a frase, o tridente se moveu violentamente em direção horizontal mirando o pescoço de Kurona.

“Seira-senp—Eh?!”

O estrondo, seguido da ventania que se espalhou pelo quarto, foi originado pela colisão do tridente com o lado externo do pulso de Kurona. Tudo que o ataque de Seira conseguiu fazer foi mover os cabelos de Kurona com a onda de impacto.

Em um momento de susto, mesmo em um local fechado, Seira saltou para trás. No entanto—

Rápida?!

Em um movimento quase imperceptível, Kurona já estava extremamente próxima de Seira, ela então aproveitou o movimento precipitado da oponente e usou o seu antebraço, atingindo o pescoço de Seira e empurrando ela contra a parede.

“Criar uma [Dimensão Reversa] desse tamanho foi um equivoco. Não que o tamanho dela fosse fazer diferença, de qualquer forma.”

“Seira-senpai!”

Já com sua lança criada, Julie partiu para o ataque. Vendo o movimento feroz da lança na sua direção, sem tirar o antebraço do pescoço de Seira, Kurona levantou sua perna e defendeu o ataque com a sola do pé. A força da colisão jogou Julie para trás. Porém—

“?!”

Kurona saltou para trás ao sentir uma queimadura no seu antebraço. Ao olhar, ela percebeu que tal queimadura era simplesmente gelo, seu antebraço estava congelado.

“[Water Whip]!”

Um longo chicote de água atacou Kurona incessantemente, que tentava desviar de todas as investidas.

“Uh!”

No entanto, em um dos seus rápidos movimentos, ela acabou chegando em uma das quinas do quarto, sem espaço para desviar.  O que ela disse antes acabou se voltando contra ela mesma.

Saltando no último momento, ela evitou um ataque certeiro, mas o chicote amarrou seu tornozelo. Com a habilidade especial do constante fluxo da água, o chicote puxou Kurona em direção a Seira.

“Não ache que conseguirá algo lutando de mãos vazias!”

Na direção que Kurona estava sendo puxada, a ponta do tridente de Seira avançava na direção dela. Quando os dois estavam prestes a se encontrar, Kurona usou a palma da sua mão para colidir com a ponta do tridente.

O barulho de vidro quebrando ecoou pelo quarto, e através dos fragmentos do tridente destruído era possível ver a expressão de choque de Seira.

Se aproveitando do efeito do [Water Whip], Kurona conseguiu chegar até Seira rapidamente e com um giro do seu corpo, ela atingiu o rosto de Seira com o lado externo da mão, jogando ela contra a parede.

Seira conseguiu se levantar sem problemas, para alguém que destroçou seu tridente, o ataque dela até que foi fraco.

Nesse caso, eu—Huh?…

Enquanto pensava no seu próximo movimento, o corpo de Seira ficou pesado e caiu de joelhos no chão. Assim que isso aconteceu ela notou que Julie também estava caída no chão, ainda consciente, mas sem conseguir se mover.

Kurona se aproximou de Seira e empurrou ela contra a parede, sua mão acima do seu ombro e seu rosto há meros centímetros do rosto dela.

“Desculpa, não lutei de mãos vazias por subestimar vocês. Eu simplesmente não sou uma [Avatar de Deus] especializada em lutas.”

Seira não soube como reagir. Seu corpo não se movia.

“Muito bem, agora…”

Kurona colocou sua mão no rosto de Seira, quando—

“!”

Um feixe de luz passou pelos seus olhos e perfurou o chão entre as duas.

“Se afaste dela, Kurona Yoshida.”

Em frente a janela—

“Ryoka!”

Exato, Seira estava perfeitamente certa.

Kurona se levantou lentamente e levantou os braços, como um gesto de “cessar fogo”.

“Mais qualquer tentativa de agressão as minhas amigas e serei obrigada a travar uma batalha de verdade contra você.”

O sorriso de Kurona já havia voltado ao seu rosto a essa altura, mas ela não dizia nada.

Um leve olhar no cenário já dava para dizer o que estava acontecendo, então Ryoka afirmou:

“Seus poderes não funcionarão contra mim. Não sei o que te fez atacar Sei-chan e Julie-chan, mas em questão de conhecimento, podemos concluir que eu estou na frente, não acha… [Avatar de Perséfone]?”

Ryoka propositalmente revelou a identidade de Kurona para demonstrar superioridade na situação, mas ainda não foi o bastante para quebrar o seu sorriso. Muito pelo contrário, por algum motivo, Kurona parecia até mais confiante. Mantendo-se calada, ela conseguiu o feito de deixar Ryoka um pouco impaciente. Como se tivesse sido atingida por uma premonição, a face de Seira se contorceu.

Ryoka então disse:

“Parece que você não entendeu ainda… Cancele essa [Dimensão Reversa] de uma vez, caso contrário considerarei isso uma declaração de guerra.”

Era exatamente o que Kurona estava esperando ouvir.

“Uwah, que medo. Medo de como nossa sociedade se tornou tendenciosa e ignorante, não é mesmo, Seira?”

Kurona por algum motivo dirigiu-se a Seira, o que deixou Ryoka confusa.

“… Eu fecharei a [Dimensão Reversa]…”

As palavras de Seira deixaram Ryoka chocada.

“Definitivamente hoje não foi um bom dia, huh? Invadem o meu quarto, me atacam e ainda tentam me colocar como a vilã da história, esperava mais do famoso [Partenon]…”

O tom de voz dela era provocativo, mas as palavras e sua expressão eram sinceras.

“…”

Ryoka ficou totalmente sem ação.

Seira cancelou a [Dimensão Reversa]. Kurona fechou os olhos e pegou suas coisas, se dirigindo até a saída sem dizer mais nada ou olhar para qualquer uma das três.

Após a saída de Kurona, o quarto ficou em silêncio por um bom tempo.

“Desculpa, Ryoka…  Por eu ter agido de cabeça quente, eu acabei fazendo você fazer uma falsa acusação. Sei o quão forte é o seu senso de justiça, então imagino o quanto isso deve ter te afetado… Desculpa…”

Seira já não conseguia mais dizer nada. Nem Ryoka. Nem Julie.

A princípio, entrei em choque por medo de ser expulsa do Colégio Aohoshi e ter que voltar para casa do meu tio… Mas então, deixei meus sentimentos falarem mais alto quando ela disse aquelas coisas e comecei uma luta desnecessária…

Refletindo suas ações, Seira colocou a mão no rosto em frustração.

Enquanto isso, a única coisa que Julie conseguia pensar era: Como uma única pessoa pode desestabilizar tanto um grupo?

O mais frustrante para ela era que não havia provas contra Kurona, e ela em nenhum momento agrediu ou atacou ninguém. Seria isso realmente um efeito colateral de deixar uma amizade falar mais alto do que o justo?

Ryoka se dirigiu até a varanda do quarto, onde o vento balançava seus cabelos, e olhou para o céu.

Ela se lembrou da sua conversa com Kuroshi…

 

 

“Me diga, Kuro-kun… Qual deus ela representa?”

“Ela é… a [Avatar de Perséfone]…”

Essa era a primeira informação que surpreendeu Ryoka de verdade.

A esposa de Hades, huh…

Perséfone—A deusa da agricultura que sempre se preocupava apenas em colher flores, mas foi crescendo e com isso sua beleza foi encantando a todos, e encantou o deus Hades, o senhor dos mortos. Posteriormente se tornando a rainha do inferno. Sempre disposta a receber e atender os mortais que visitavam o reino dos mortos à procura de ajuda, era uma deusa do bem, mas ao mesmo tempo temida.

“… Influência, talvez?”

“Huh?”

Kuroshi, sem entender o que Ryoka quis dizer, olhou para ela com seus olhos vermelhos.

“Inevitavelmente todos nós, [Avatares de Deuses], sofremos influência dos deuses que representamos. Podendo ser algo mais forte ou mais fraco dependendo da pessoa, mas que pode nos atingir a qualquer momento.

Lembra da história da irmã mais velha da Julie? Talvez o mesmo esteja acontecendo com você. Talvez esse conflito de emoções seja, na verdade, suas emoções entrando em conflito com as emoções de Hades.”

Ouvindo tal resposta, Kuroshi olhou para o chão.

É claro… Só pode ser isso…

Hades está tentando impor suas emoções em cima das minhas…

Aceitando até que fácil demais, Kuroshi deu um fraco sorriso.

“… Para ser sincero… Eu só vim para essa praça pois nesse momento a Kurona deve estar no meu quarto…”

As palavras de Kuroshi surpreenderam Ryoka.

… Droga! Cometi um erro!

Ryoka se levantou bruscamente.

“Ryoka?”

“… Sugiro que você reflita sobre o que eu falei, eu preciso resolver outras coisas agora, mas lembre-se: Pode sempre contar com seus amigos…”

Inconscientemente, Ryoka desviou seu olhar enquanto dizia a última frase.

Ela então se retirou do local, deixando Kuroshi sozinho novamente.

 

 

“Maldição!”

Ryoka socou a sacada controladamente para não quebrá-la.

Eu não só acusei injustamente uma pessoa, eu invadi a privacidade do meu amigo e ainda menti para ele…!

Ela não conseguia se conformar.

Por quê? Por quê?! Onde as coisas começaram a dar errado?

Em algum momento, todos foram condicionados a cometerem erros ao mesmo tempo. Qual foi o estopim?

Qual exatamente é o problema desse caso?

Ryoka tentou pensar o mais longe que conseguia.

Tem que haver uma resposta. Era o que ela pensava.

Até que—

“…”

O olhar de Ryoka ficou distante, sua raiva e frustração desapareceram.

Ah…

Entendo…

Ha…Haha… Se eu contar isso para a Sei-chan, ela certamente irá chorar…

Todos nós estávamos fadados a cometer erros nesse caso desde sempre…

Talvez… Talvez eu tenha cometido um erro maior do que eu imaginei…

 

 

O sol já estava se pondo. As aulas já haviam acabado.

Em um dos banheiros masculinos da escola—

Kuroshi se olhava no espelho.

Ele olhava diretamente para os seus próprios olhos escarlates.

“Eu achei que você estava do meu lado… Mas parece que não…”

Não havia absolutamente mais ninguém no banheiro, talvez nem na escola.

Kuroshi estava falando com seu próprio reflexo.

“Tentando me manipular, me induzir a ser você… Foi realmente um plano venenoso e que conseguiu me confundir…”

“Mas eu não pretendo cair mais nessa… Eu sou eu… Eu definitivamente serei eu…”

Somos um só, garoto. Você sou eu, eu sou você. Lembra?

“!!”

Absolutamente do nada, um fantasma apareceu atrás de Kuroshi. Cabelos roxos um pouco mais compridos que o de Kuroshi, olhos vermelhos, túnica negra com detalhes dourados, manoplas e grevas totalmente negras. Seu rosto não era visível, apenas seus olhos, mas era possível dizer que ele estava sorrindo.

“… Hades!”

Kuroshi expressou raiva, ainda olhando para o espelho.

“Sua falcatrua foi exposta! Suas mentiras não me afetarão mais!”

Hou? Minha falcatrua foi exposta, você diz? E a sua falcatrua? Quando ela será exposta? Quando suas mentiras não te afetarão mais?

Você é o farsante, garoto.

No limite da sua paciência, Kuroshi se virou já invocando sua espada e atacando o fantasma.

Porém, o ataque atingiu apenas o ar. Não havia mais ninguém.

Kuroshi colocou a mão na testa e andou para trás até encostar em uma parede, escorregando por ela até sentar no chão.

Minha nova vida… A que eu trabalhei para construir aqui… Os sentimentos que cultivei e as relações que criei, esse sou o verdadeiro eu… Sem dúvidas, aqui representa minha vida verdadeiramente… Sem dúvidas…

 

 

Um bom tempo depois…

Kuroshi estava voltando para o seu quarto, já estava de noite.

“Oh, Kuroshi.”

“Kuro-chan!”

Ao olhar para trás, Kuroshi viu Axel e Alisha vindo na sua direção, de mãos dadas.

Axel estava maior a cada mês que passava, daqui há um tempo ele já deverá estar até maior que Kuroshi.

“Huh? Seus olhos…”

“… Estou fazendo um treinamento pessoal, é por isso.”

Ao ouvir o comentário de Alisha, Kuroshi usou uma desculpa que ele já havia preparado de antemão.

“Está voltando para o quarto agora? Eu já irei me despedir da Alisha, se quiser podemos voltar juntos.”

Ao ouvir a proposta de Axel, Kuroshi aceitou naturalmente e se sentou em um banco enquanto observava os dois de longe, se despedindo como um casal normal.

Após dois minutos, Axel veio até Kuroshi.

“Vamos indo.”

Caminhando lado a lado, Kuroshi perguntou:

“Axel… Você acha que a influência de um deus pode alterar completamente uma pessoa?”

“Huh? De onde veio isso?”

“… É só uma coisa que estive pensando em momentos de tédio…”

“Hmm…”

Enquanto Axel refletia, os dois caminhavam em silêncio debaixo do céu estrelado.

“Eu diria que tudo depende do avatar.”

“… Do avatar? Como assim?”

“Sim… Eu não acho que os deuses tentem moldar o avatar ao seu gosto, mas acredito que eles naturalmente possuem uma presença divina que talvez induza a pessoa a fazer certas coisas ou pensar de certa forma, mas no fim das contas, quem decide se vai permitir essa indução é a própria pessoa.”

Kuroshi ficou sem palavras para a resposta complexa de Axel.

“Eu acho que você não se conectaria com algum [Avatar de Deus] apenas porque uma mitologia dita essa conexão. Se isso acontecer, é porque você já estava propício a isso desde o começo. É o que eu acredito.”

“… Isso foi um pouco específico demais…”

A primeira parte da breve teoria de Axel foi natural, mas a segunda ressoou diretamente em Kuroshi. Era como se Axel pudesse ler mentes.

“Hahaha, desculpe. Talvez as memórias do meu passado tenham tido influência na minha resposta.”

Kuroshi arregalou os olhos em surpresa, pois ao ouvir a explicação dele, ele se lembrou daquele determinado dia, um tempo antes da sua luta contra Noah.

Está certo…

Axel perdeu a pessoa que ele amava para Loki no passado…

Essa pessoa era… a [Avatar de Sif]. Sif era a esposa de Thor na mitologia nórdica…

A semelhança era tão forte que Kuroshi esqueceu de continuar andando.

No entanto…

Kuroshi conseguia se lembrar. Naquela época, eles tiveram uma conversa bem similar.

Só que, naquela época, a resposta de Axel foi totalmente oposta. Segundo o palpite dele, dois [Avatares de Deuses] conectados pela mitologia só se conectariam realmente por causa do que a mitologia dita. Hoje ele diz que não é a mitologia que conecta as pessoas, mas seus próprios sentimentos. O que mudou de lá pra cá? Porque ele mudou o ponto de vista? Kuroshi queria perguntar, mas acabou desistindo por se tratar de um assunto delicado.

“E se…”

Por ter parado de andar, Axel estava um pouco mais na frente que Kuroshi. Ele também parou ao ouvir a voz de Kuroshi.

“… E se nossos sentimentos fossem ditados pelos deuses em si e não pelo que realmente sentimos?”

Diga, e se as coisas forem exatamente como a Ryoka previu?

Axel se virou lentamente com um sorriso no rosto.

“Bom, nesse caso, por exemplo, sua relação com a Seira seria uma farsa, não?”

Naquele momento, Kuroshi entendeu porque Axel mudou seu modo de ver as coisas.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 6)

É engraçado, apesar de achar que ia acordar e voltar pro colégio com os outros (ou seja lá onde eles levaram meu corpo enquanto estou desmaiado), agora estou em um lugar que não sei onde é, e olhando ao redor só dá pra ver terra plana pra todo lado. Até onde minha vista alcança não tem nada relevante que chame a atenção, exceto o fato do céu estar completamente branco. Tento me mexer pra ter certeza que tenho controle do meu corpo, e aparentemente tudo está normal.

Começo a andar pra frente sem nada em mente, já que não acho que vou conseguir “sair” daqui, porque provavelmente é só uma projeção da minha cabeça ou algum efeito colateral de algo que estejam fazendo pra melhorar minha situação lá fora. A dor que senti antes de desmaiar ainda tá aqui, bem mais leve, mas só me lembrando o estado que eu fiquei. Apesar de tudo, a habilidade da Karin pode vir a ser bem útil, e bem assustadora. Lutar contra alguém que não vai recuar por dor ou sentir fatiga é uma coisa bem medonha de se pensar, mas também é bem perigoso pra seja lá quem estiver sob efeito disso.

Por algum motivo, aqui eu sinto como se minha mente estivesse leve, quase como se nada do que realmente estava me dando dor de cabeça antes existisse, e uma… serenidade? É, serenidade. Enfim, é como se isso me atingisse em cheio. Mal quero pensar em como vai ser difícil voltar pra lá e ter que lidar com toda aquela merda de novo. Agora que paro pra pensar, me meti em muita maluquice deu uma vez só praticamente sem garantia nenhuma de que vou saber o que aconteceu com a Haruka, ou o que aconteceu naquele dia. É bem possível que isso termine com todo meu esforço sendo em vão, mas é a única chance que tenho…

Foi mal, mas vou precisar de uma coisa sua. Não liga, você nem vai se lembrar do que ouviu aqui.

A voz ecoa alto por todos os lados, como se não fosse uma pessoa falando comigo, mas sim algum tipo de ser que está em todos os lugares ou algo do tipo. É uma sensação estranha, porque apesar de estar alerta direto depois de toda essa loucura começar, por algum motivo não sinto que corro perigo ou estou intimidado por essa voz. Ela até mesmo me parece familiar… mas não consigo reconhecer. Como quando sabe que deixou alguma coisa pra trás, sente a falta dela mas não sabe dizer o que esqueceu.

De repente, como se estivesse sendo puxado para cima, um buraco branco se abre no céu, e inúmeras esferas brancas começam a sair do meu corpo em direção aquela luz. Não dói, mas posso sentir que é como se minha essência estivesse sendo sugada, tento lutar contra mas meu corpo não me obedece. Cada vez mais minhas forças vão sendo drenadas, até que então tudo para, e o buraco começa a se fechar, mas não sem antes lançar o que parece um “raio” branco na minha direção, acertando minha testa com uma força que nunca senti antes, e tudo escurece.

– – – – –

Meus olhos abrem devagar, meu corpo dolorido como se tivesse sido atropelado por um rolo compressor… duas vezes. Engraçado que não é como a dor de quando tive pedaços arrancados, ossos quebrados, ou até mesmo quase esquartejado como naquele inferno de treinamento… é mais como se minhas forças tivessem sido completamente esgotadas. Será que é um efeito colateral além dos meus sentidos quase explodindo meu cérebro?

Olhando ao redor, percebo que estou em casa, deitado no sofá da sala, coberto e a TV está ligada. Com algum esforço consigo me sentar direito, e só então sinto o cheiro forte de chocolate que está no ar, vindo da cozinha que está com a luz acesa. A Haruka vem lentamente de lá, soprando uma caneca de leve e vestindo um pijama. É um simples macacão preto, mas não sei se ninguém avisou ela quando foi comprar ou fazer aquilo que é bem apertado no corpo. As curvas estão beeeeem visíveis, mas tento desviar o olhar porque prefiro meus olhos no lugar e minha cabeça grudada no pescoço, obrigado.

Pelo visto meus esforços dão certo, já que ela não diz nada e senta do outro lado do sofá, também se cobrindo e olhando para a televisão. Estranho, eu jurava que ia levar um sermão ou alguma explicação sobre o tal treinamento, mas aparentemente ela está me ignorando completamente, então pelo jeito sou eu que vou ter que tomar a iniciativa aqui…

– Não, não precisa. Eu vou explicar, mas estava só me aproveitando dos utensílios na sua casa. Você até que vive bem pra uma criança órfã, não? – ela diz, sem nem piscar ou virar o rosto.

– … eu gostaria MUITO mesmo que você parasse de ler minha mente.

– Por que eu faria isso?

– Primeiro, porque isso é uma invasão de privacidade enorme. Segundo, porque é errado de tantas maneiras que nem sei por onde começar. Terceiro, porque vamos viver juntos por algum tempo pelo menos, então acho que seria bom pra nós dois se você parasse de monitorar meu cérebro.

– … é, faz algum sentido. Vou deixar disso, não é como se eu estivesse cavando na sua mente também, não fiquei rastreando pra achar nenhum segredo seu, pode ficar tranquilo. E caso eu suspeite que esteja escondendo algo importante, posso só se forçar a contar graças ao nosso pequeno trato. – novamente, sem tirar os olhos da televisão.

– O que diabos você tá assistindo que é tão interessante assim?

Ela não responde, só aponta um dedo em direção a TV enquanto toma um gole de chocolate. É engraçado como ela é (em teoria) uma “mandante” daquela dimensão de seres super-poderosos que poderiam acabar com a vida na Terra em um estalar de dedos, mas agora tá agindo como uma adolescente desinteressada de 16 anos.

– Um tal de “Gravity Falls”, parece bem bobinho no começo mas depois vai ficando bem profundo e pesado. Por que?

– … hã… – sinceramente, não tava esperando uma resposta séria pra isso.

– Eu imagino que você não esperava me ver agindo desse jeito, certo?

– Você não acabou de dizer que não ler…

– Não li, mas pela sua reação isso fica mais que claro pra qualquer pessoa com mais de dois neurônios. Deixa eu esclarecer uma coisa: não sou um tipo de chefe de máfia como você devia ter pensado, nem ameaço pessoas de prendê-las num satélite e lançar no espaço só porque poderia. O único motivo de todos eles me tratarem como algum tipo de “mestre” é porque estão desesperados pra reverter essa situação, e por algum motivo pensam que sou a única esperança deles.

– Espera, e por que seria? Ou melhor, por que eles pensam isso?

Mesmo só podendo enxergar uma parte do rosto dela, fica bem claro que esse deve ser um assunto delicado.

– … vamos só dizer que tem um motivo pra isso. Mas eu sei que não sou capaz de fazer isso sozinha, então precisávamos de ajuda pra ter alguma chance de reverter essa maldita maldição de torneio. Foi então que você simplesmente surgiu, sem mais nem menos, alguém com um potencial de poder desconhecido e que aparentemente evolui muito rápido.

– Então nada do que aconteceu foi planejado?

– Óbvio que não, eu já estava praticamente conformada que vencer seria uma tarefa impossível até alguns dias atrás. Mesmo que nesse momento você não seja alguém com poder suficiente pra fazer o que quero, tenho a impressão que chegará lá em breve.

– E de onde diabos vem toda essa confiança em mim?

– … não sei. Intuição feminina, talvez? – ela responde, mas algo me diz que está escondendo alguma coisa.

– Se você diz… espero que esteja certa.

– Ou estou certa, ou estamos mortos.

– Otimista você hein?!

– Estou mais pra realista. – ela dá de ombros.

Pelo jeito, nada do que eu fizer ou disser vai convencê-la a abrir o bico, e mais uma vez vou ser deixado no escuro com assuntos que provavelmente me afetam diretamente. Mas o que diabos tem de errado comigo que sempre fico de fora desses detalhes importantes, ou não noto algo na minha cara até ser tarde demais?! Acho que é melhor desistir por hoje, mas ainda vou conseguir arrancar tudo que ela possa me dizer… um dia.

– Tá, me explica aí o que tá acontecendo nessa série aí. – ela se vira pela primeira vez, um pouco surpresa pela pergunta.

– Hã… então tá né. Então, esses dois são irmãos que vão passar as férias na casa do tio-avô e…

– – – – –

São cinco da manhã, e a gente ainda tá assistindo séries. Não sei se é porque não costumo ter companhia, mas nem lembro a última vez que fiquei acordado até tão tarde, e dessa vez sinto que vou ter que pular o dia no colégio. A essa altura minhas pálpebras parecem que tão pesando uma tonelada cada, e tenho certeza que devo estar com a maior cara de morto sem nem precisar olhar no espelho.

Por incrível que pareça, a Haruka também não está 100%, e dá pra ver nas olheiras que se formaram e estão bem visíveis. Já tentei chamar ela algumas vezes, mas ou ela entrou em um transe e na verdade tá dormindo de olhos abertos, ou tá tão concentrada na TV que desligou completamente qualquer sensação do mundo real. De qualquer jeito, não acho que ela vá a lugar algum tão cedo. Acho que vou simplesmente é dormir aqui, já que praticamente nem aguento me levantar pelo cansaço.

– Boa noite. – eu digo, sem esperar uma resposta pra desmaiar no sofá outra vez.

Kami no Sensou – Gardênia (Volume 6: Capítulo 2)

Em pouco tempo o treino diário de artes marciais de Masaya começaria, mas ele se encaminhava adiantadamente até Yan Quon. Era com ele que Masaya buscaria respostas.

Antes de chegar até o campo de treinamento, Masaya cruzou com Daisuke.

“Masaya, precisarei de você hoje.”

“Tio Daisuke?”

Ao ouvir seu chamado, Masaya olhou para Daisuke, expressando um pouco de pressa.

“Teremos uma festa para ir hoje a noite, precisarei que tome conta da Ryoka para mim. Tudo bem por você?”

Era um pedido simples, mas que dada a situação atual de Masaya e Ryoka, se tornava muito mais complexo do que Daisuke poderia imaginar.

“… Sim, claro.”

“Obrigado. Contarei com você.”

Daisuke agradeceu e colocou a mão na cabeça de Masaya antes de se retirar.

Ryoka… Huh, tenho que ir de uma vez.

Voltando a se focar no seu objetivo, Masaya foi até Quon.

 

“Mestre, tem um momento?”

“Umu.”

Conseguindo a confirmação de Quon, Masaya pensou em como perguntar o que queria.

“Mestre… O que fazer quando alguém perde o propósito para lutar? O que fazer quando você não consegue destruir a parede diante de você?”

“Hmm…”

Quon, que até então estava olhando para a distância, finalmente se virou e olhou para Masaya diretamente.

“Lute por sua família, Masaya. Assim como por aqueles que são preciosos para você.”

A resposta de Quon irritou um pouco Masaya. Seu mestre claramente não entendia sua situação…

“Nem sempre as coisas funcionam dessa forma! E se você for forçado a lutar?! E se você não tiver uma família?!”

Deixando seus sentimentos fluírem para fora, Masaya levantou o tom de voz.

Quon fechou os olhos e esperou o jovem se acalmar.

“Você está se perdendo, Masaya. Deixar os sentimentos negativos serem a fonte dos seus movimentos servirá apenas para te cegar e eventualmente leva-lo a autodestruição. Lute pelos sentimentos positivos, pela sua família. Nós humanos instintivamente tentamos criar laços uns com os outros, por isso, a não ser que você se isole do mundo, sempre existirá pelo menos uma pessoa que se importa de verdade com você. Essas pessoas que tentam de verdade conseguir um espaço nos nossos corações—É o que significa “Família”. Não são só os laços sanguíneos que formam uma família, mas também os laços emocionais.”

Dando uma leve pausa no discurso, Quon continuou.

“Masaya, quando eu digo para lutar por sua família, isso também significa lutar por você mesmo. Pense, alguém que se importa muito com você ficará triste caso você sofra, talvez essa pessoa até tente lutar por você para te ajudar. É por isso que lutar pelos outros também pode significar lutar para se proteger. Nesse momento parece que você está falhando nesse ponto, mas você ainda pode mudar isso.”

“…”

Masaya não tinha palavras para responder a visão de Quon. Mas definitivamente mudou algo dentro dele.

“… Obrigado, Mestre!”

Se curvando para Quon, Masaya se virou e se retirou.

 

Talvez realmente seja melhor esquecer tudo isso e seguir em frente…

Sentado no fim da cidade, Masaya olhava em direção ao mar e o horizonte. Não havia nenhuma praia ou algo do tipo, por isso, se ele pulasse dali cairia direto na água.

O vento ia e vinha constantemente, o que criava uma atmosfera tranquila e relaxante.

Repentinamente ele sentiu algo gelado no rosto e olhou para trás.

“Agir assim não combina com você.”

Ryoka estava ali, encostando um picolé no rosto de Masaya. Ele pegou o picolé e olhou para o horizonte novamente.

“Você poderia não mais machucar a si mesmo?”

“Huh?”

O comentário de Ryoka, que estava de pé do lado dele, o deixou confuso e o fez olhar para ela.

“Toda vez que eu o vejo machucado, física ou psicologicamente, sinto como se meu corpo estivesse sendo perfurado constantemente…”

“…”

“Se realmente estiver precisando de ajuda, pode sempre contar comigo!”

Tentando suavizar a atmosfera, Ryoka deu o sorriso mais espontâneo que conseguiu.

Ah…

Está certo… Essa garota também pode ser considerada minha “família”.

Famílias não são formadas apenas por laços sanguíneos, mas também por laços emocionais.

“Desculpe. Irei me cuidar mais a partir de hoje. Embora não possa prometer que não vou me ferir caso seja uma situação sem saída.”

“Masaya… Obrigado!”

Ryoka, bem feliz, se jogou em Masaya e o abraçou. Um forte sentimento tomou conta do seu peito ao ver Masaya voltando ao normal.

“Ei! Você vai me derrubar no mar!”

Apesar das reclamações, Masaya não desgostou da situação. Pela primeira vez em muito tempo ele sentiu uma leveza no peito.

Ah… O melhor é deixar tudo isso para trás mesmo.

Tomando sua decisão, Masaya finalmente conseguiu sorrir de verdade.

 

 

Apesar de tudo, o destino parecia não estar do lado de Masaya naquele dia.

Ele terminou de vestir suas roupas de guarda-costas, o que parecia mais um cosplay do que realmente uma roupa de trabalho em uma criança como ele.

Seu próximo passo foi ir conferir se Ryoka estava pronta.

“Ryoka, já terminou de se arrumar? Não podemos nos atrasar.”

Batendo na porta e chamando por ela, Masaya aguardou por uma resposta, mas não recebeu nenhuma.

“Ryoka?”

Ele bateu mais duas vezes, agora com mais força.

Estranhando a situação, ele colocou o ouvido na porta para tentar ouvir algum som, mas não conseguiu escutar nada.

“Estou entrando.”

Decidindo dar uma olhada no quarto, Masaya colocou a mão na maçaneta.

Talvez por estar muito em paz consigo mesmo, ele por algum motivo se lembrou de como em animes e mangás de comédia romântica, situações assim sempre levam a cenas inusitadas.

Mas ao abrir a porta—

Ele se lembrou que vive uma história de um gênero diferente.

A janela aberta foi a primeira coisa que chamou a atenção de Masaya. O quarto estava todo em ordem.

Inspecionando direito, ele encontrou um bilhete.

“Não se preocupe, Masaya. Como uma aliada da justiça, eu salvarei o seu pai!

– Ryoka”

Naquele momento, Masaya congelou.

De tantas e tantas possibilidades, havia uma que ele não parou para considerar—Ryoka tentar resolver tudo sozinha… Novamente.

O motivo para ele não ter parado para pensar nisso era bem simples. A realidade da [Guerra Divina] ainda não havia atingido ele… E muito menos ela. Lutar um contra outros [Avatares de Deuses] até a morte, algo que inevitavelmente eles teriam que fazer, nunca passou pela cabeça de Masaya que Ryoka participaria de algo brutal como isso.

Sem perceber, Masaya estava amassando o papel violentamente.

Sem pensar duas vezes, ele saltou pela janela, torcendo para não ser tarde demais.

Talvez ele estivesse sendo presunçoso demais, mas graças a derrota humilhante que ele sofreu antes, Masaya simplesmente assumiu o pior para Ryoka também.

Maldição… Maldição… Maldição!! Porque!!

Enquanto estava no processo de aceitação com o que aconteceu com o seu pai, ele acaba tendo que passar por isso. Se ele perder Ryoka também—

Viajando pela cidade a uma velocidade absurda, ele procurou incessantemente. Quanto tempo já se passou? 1 minuto? 2? Talvez pareça pouco tempo, mas para alguém na velocidade que ele estava viajando, era tempo até demais.

Eis que repentinamente todas as cores do mundo se inverteram.

“…!”

Finalmente! … Ryoka!

Agora dentro da [Dimensão Reversa], Masaya procurou por Ryoka.

Felizmente a dimensão não era muito grande, então encontra-la foi uma tarefa bem simples.

Mas—

“Ora ora, o que temos aqui?”

“… Vocês…”

Ao ouvir a voz da garota de cabelo violeta, o cérebro de Masaya começou a processar a situação lentamente. Ela estava levantando o corpo caído de Ryoka pelo cabelo quando parou o que estava fazendo para olhar na direção de Masaya.

Perto dela estava seu parceiro com sua grande espada—Zinon.

Ryoka estava coberta de ferimentos e lágrimas escorriam pelo seu rosto, limpando algumas manchas de sangue no caminho.

“Ma… Masaya… Corra…”

Ryoka tinha dificuldades para falar, mas conseguiu dizer o que queria.

Corra? Corra?!

Ele não conseguiu acreditar no que ele havia acabado de ouvir.

Corra… Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra. Corra.

Ah……

Masaya olhou para o chão, e viu seus pés equipados com um par de botas douradas com pequenas asas nos calcanhares.

É isso que eu posso fazer? É só disso que [Hermes] é capaz? Correr?!

Ele notou que sua própria existência como um [Avatar de Deus] estava errada. Ele queria proteger, lutar por quem ele preza, por sua família. Mas… Ele é apenas um mensageiro, no fim das contas. A pessoa que deveria lutar pelos outros está ali, no chão.

Acalme-se.

Masaya deu um passo adiante.

“Hmm?”

Em resposta a ele, Zinon também deu um passo adiante e preparou sua espada de duas mãos.

“Não o mate, Zinon. Quero testar onde fica exatamente o limite da mente dele, hehe.”

“Entendido.”

Masaya não conseguiu se dar ao luxo de ligar para o que Antonia estava dizendo.

Toda a euforia de antes desapareceu.

Ou melhor dizendo, ela foi escondida. Seguindo os conselhos do seu mestre, emoções negativas são apenas mais um obstáculo em uma luta.

“Vamos lá, cara, não me decepcione dessa vez!!”

Fazendo um forte movimento horizontal, Zinon nem precisou sair do lugar para atacar Masaya. A rajada de energia que voou na direção dele era perigosa por si só, mas a onda de impacto que a acompanhava também era.

No entanto—

“Huh?!”

Antes de Zinon completar o movimento do seu ataque, Masaya já havia se movido para trás dele.

Por isso, não havia como ele se defender do ataque de Masaya, que acertou um chute certeiro na cabeça dele, o jogando para longe.

Zinon se levantou rapidamente, com um pouco de sangue no canto da sua boca.

“Agora está falando minha língua!”

Segurando a sua espada com uma única mão e a puxando para trás como se fosse a linha de um arco, Zinon preparou um ataque que Masaya já havia visto.

“HAH!”

Dando uma poderosa estocada no ar, todo o espaço na frente dele se distorceu. Mas—

“Muito lento!”

Masaya novamente já estava atrás dele.

Dando um chute com toda a forte nos calcanhares do oponente, ele conseguiu derrubá-lo. Mas antes de cair de costas no chão, Masaya ajudou a gravidade socando o estomago de Zinon com todas as forças e explodindo o chão no processo.

Ele saltou para trás e esperou o inimigo se levantar. Através da cortina de fumaça, Masaya via apenas a silhueta dele se levantando.

“Huhuhu…”

Assim que a fumaça se dispersou, o rosto sorridente de Zinon foi revelado. Sangue e saliva escorriam pelos dois cantos da boca enquanto ele segurava a espada com uma das mãos e o estomago com a outra.

“… Muito bom. Eu estava mesmo querendo testar a fúria da [Durga] em alguém. Você é a cobaia perfeita!”

Durga. Deusa guerreira da mitologia Hindu. Um aspecto guerreiro da Devi Parvati com 8 braços, cavalgando em um leão, carregando armas e assumindo mudras, ou gestos simbólicos com a mão.

Os olhos de Zinon se tornaram vermelhos e começaram a brilhar fortemente.

“Vamos continuar.”

“…”

Repentinamente, a tensão da atmosfera aumentou em 10 vezes.

Zinon saltou e segurou sua espada como se fosse um arpão. A espada começou a brilhar e mudou de forma.

“[Rudra]!”

Se tornando um tridente azul, ele jogou a arma em direção a Masaya com toda a força.

A velocidade do arremesso era assustadora, mas ainda não era o bastante para ultrapassar a velocidade de Masaya, que saltou e desviou do ataque em cima da hora.

Porém—

“Isso é—!”

Incontáveis raios começaram a sair do tridente e do solo ao redor dele, indo do chão para o céu. Era como se estivessem no meio de uma tempestade , com o céu e o chão tendo os lugares trocados.

O ataque repentino pegou Masaya de surpresa, que só conseguiu se defender enquanto via raios rasgarem algumas partes do seu corpo.

Graças ao dano, Masaya não conseguiu aterrissar direito e caiu capotando no chão.

Antes que conseguisse se levantar, ele viu o tridente começar a brilhar novamente e tomar um formato circular.

Um chakram—!

O chakram voou até a mão de Zinon, que o pegou e o jogou em direção a Masaya.

“[Vishnu]!”

Apesar de ter conseguido se esquivar a tempo, o chakram continuou perseguindo ele sem parar. O alvo era especificadamente o pescoço de Masaya.

Se isso me acertar…!!

“Corra! Corra! Hahaha!”

A provocação de Zinon chegou até o ponto mais profundo de Masaya.

Me dizendo para correr novamente…

Ele parou e encarou a direção em que o chakram vinha.

Isso é algum tipo de piada?!

Essa não é minha única arma!

Masaya atingiu o chakram com a sola da bota.

O sorriso da certeza da vitória chegou ao rosto de Zinon.

Ele tinha certeza que tentar parar o chakram seria suicídio.

Mas—

O barulho de vidro se quebrando ecoou pela área. O chakram foi partido em milhares de pedaços.

“Como?!”

Zinon não conseguiu esconder o choque ao ver sua arma destruída.

“Desculpe, mas acho que eu sou um trapaceiro divino.”

Existe um motivo por trás do evento que acabou de ocorrer, mas é muito arriscado deixar os inimigos ficarem sabendo dele.

“Huh!”

Se movendo a uma velocidade ainda maior, Masaya apareceu diante de Zinon dando uma joelhada no estomago dele com toda a força, exatamente no mesmo ponto que havia atingido antes.

Zinon foi jogado para longe, capotando no chão e parando apenas na parede invisível do limite da [Dimensão Reversa].

Ele é muito mais lento que eu, graças a sua espada de duas mãos, ele era capaz de se defender dos meus ataques… As variações de armas foi uma surpresa, mas embora o poder destrutivo dele tenha aumentado muito, sua defesa foi sacrificada no processo.

Se ele não usar a espada, eu posso continuar atingindo ele constantemente. Mas se ele usar a espada, ele não poderá me atingir. Xeque-mate.

Zinon se levantou e recriou sua espada de duas mãos. Ele segurava seu estomago enquanto agonizava de dor.

Desculpe, mas… Eu já tomei minha decisão. Sairei daqui com a Ryoka custe o que custar!

Masaya avançou com toda a velocidade em direção a Zinon.

Um dos combatentes moveu sua espada para tentar afastar o oponente enquanto ele estava longe, mas o outro respondeu indo para o céu e evitando a onda de impacto.

Usando o “teto” da [Dimensão Reversa] como impulso, Masaya se aproximou rapidamente de Zinon, que usou a espada para se defender.

Ele evitou o dano, mas por estar segurando com apenas uma das mãos, foi jogado para trás e bateu novamente no limite da [Dimensão Reversa].

Com um braço só, você não—

Se movendo para atacar novamente, Masaya notou seu erro tarde demais. O sorriso no rosto de Zinon mostrava evidência do momento em que a luta mudava de rumo.

Puxando seu braço para trás como a linha de um arco—

Masaya parou seu movimento forçadamente, mas era tarde demais.

Um ataque de área que destrói tudo que está no caminho.

Da última vez, Masaya se esquivou do ataque se movendo para trás de Zinon, a única área segura.

No entanto—Ele se encontra atualmente no limite da [Dimensão Reversa]. Não existe meios para se mover para trás de Zinon nesse momento.

O que significa…

A estocada de Zinon lançou uma catastrófica onda de impacto, Masaya só pode usar os braços para se defender e tentar resistir ao dano.

“U-UUUAAAAAAAAAAHHHHHH!!!!”

Todo o solo sendo despedaçado e a atmosfera tremendo, Masaya foi engolido pela onda de impacto e jogado para longe.

“Masaya!!”

Ryoka gritou por ele. Ela queria poder fazer algo, mas no momento era impossível.

“Aah… Ahhaahh…”

Masaya se levantou lentamente. Sangue escorria pela sua cabeça. Todo seu corpo estava dolorido. Sua roupa estava totalmente desgastada.

“KAH…”

Quando conseguiu se levantar, ele tossiu sangue. Seu corpo estava totalmente ferido não só por fora, mas por dentro também.

“… Huh?!”

Antes de conseguir recuperar o fôlego, Masaya viu Zinon se preparando para lançar seu ataque novamente.

Eu…

A distância entre eles era enorme.

Naquele momento uma certa ironia da vida o atingiu.

Só há um jeito de evitar o próximo ataque e eventualmente a total derrota.

O que ele tanto rejeitou pouco tempo atrás agora voltou para pegar no seu pé.

Existem certas coisas na vida que você só precisa aceitar que são do jeito que são.

Masaya se preparou para avançar.

Parar de tentar nadar contra a maré, achando que é a única solução viável. Diante de uma situação de risco, Masaya foi forçado a mudar algo dentro de si.

Masaya…

Falando consigo mesmo, ele avançou.

Corra!

Correr nem sempre é algo com conotação negativa.

Zinon estava no meio de concluir seu ataque.

Corra! Mais rápido! CORRA!!

Mais rápido que o som. Mais rápido que a luz.

Mesmo aquela distância tão grande entre os dois não seria um empecilho. Não importa a distância, as barreiras ou qualquer que seja o obstáculo. Como o deus mensageiro, transgredir todas as fronteiras não é uma possibilidade, é uma obrigação!

Como se o tempo tivesse parado, Masaya conseguiu alcançar seu inimigo. Seu punho atingiu pela terceira e última vez o estomago de Zinon. Por estar logo na frente do limite da [Dimensão Reversa], o corpo de Zinon foi imprensado pela parede invisível e o ataque de Masaya, multiplicando ainda mais o dano. Sentindo suas entranhas quase saírem pela boa, Zinon apenas cai no chão sem forças para fazer mais nenhum movimento.

“Haa… Haa…”

A luta acabou.

Ao menos a luta contra Zinon.

“Huh?!”

Sentindo uma presença se aproximar, Masaya saltou para trás.

Só então ele ouviu o som das palmas se batendo.

“Oooh, incrível. Ver como sua mente funcionava naquela situação foi a coisa mais incrível que eu já presenciei!”

Antonia abriu os braços e expressou toda sua felicidade.

Ela se aproximou de Zinon que estava caído e se abaixou.

Levantando um pouco o corpo dele, ela percebeu que ele ainda estava consciente. Ele provavelmente não conseguia sequer falar, mas não importava para ela.

“Você cumpriu bem o seu papel, Zinon.”

Antonia então aproximou seu rosto beijou os lábios dele como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Por um segundo tanto Zinon quanto Masaya expressaram surpresa, mas a expressão de Zinon rapidamente se tornou de choque. Como se tivesse provado de um veneno mortal, o brilho nos olhos de Zinon desapareceu e ele entrou imediatamente em estado vegetativo.

Antonia o soltou descuidadamente e se levantou. Ela então se espreguiçou e alongou o seu corpo como alguém prestes a começar a se exercitar.

Masaya estava completamente confuso enquanto observava a garota olhando suas próprias mãos com um sorriso no rosto.

“… O que você fez?”

Ele estava com receio de fazer tal pergunta, mas precisava saber.

“Eh? Ah, isso? Bem, agora você irá lutar contra mim, certo? Mas eu não era uma lutadora, então eu precisava fazer alguma coisa para render uma luta digna, não acha?”

Ela explicou casualmente, mas Masaya ainda não havia juntado os pontos.

“Eu repliquei todos os atributos físicos e características do Zinon em mim, agora eu posso lutar contra você!”

Com um sorriso no rosto, Antonia disse algo surpreendente.

Masaya já sabia que os poderes dela eram relacionados a mente, mas nunca imaginou que algo assim seria possível.

Isso significa que em troca de conseguir os atributos físicos de outra pessoa…

Ela destruiu a mente dele… Essa garota é insana…

Certo. É como se ela sugasse a mente de outra pessoa para ela, uma espécie de refeição.

Isso é ruim…

Com seu dedo indicador, Masaya afrouxou a gravata da sua roupa de guarda-costas.

Mas se eu vencê-la, tudo estará seguro.

“Venha! Vamos brincar!”

Espere só mais um pouco, Ryoka!

Mesmo no estado em que se encontrava, Masaya avançou com todo o vigor para cima de Antonia, atacando o rosto dela diretamente—

Ou era o plano dele, seu ataque foi redirecionado e atingiu apenas o ar.

Essa brusca mudança o deixou totalmente aberto, o que obviamente não seria desperdiçado por Antonia, que socou o peito de Masaya com toda a força, jogando ele em direção ao limite da [Dimensão Reversa].

Masaya ficou sem ar por um momento, tossindo e com a mão no peito. Quando percebeu, Antonia já estava na frente dele o atacando novamente.

Felizmente a velocidade dela era a mesma que a de Zinon, o que permitiu que ele se esquivasse a tempo.

Ataques diretos não funcionam…!

Masaya saltou para trás e pisou no chão com força, levantando um grande pedregulho, do qual ele chutou em direção a Antonia. Ela vinha caminhando casualmente em direção a ele, sem sequer se dar ao trabalho de desviar, ela viu o pedregulho passar direto por ela.

Eu errei?! Não… Droga!

Ele tentou avançar novamente, dessa vez tentando atacá-la por trás, mas o resultado foi o mesmo. Não só isso, Antonia virou seu corpo e atingiu o rosto de Masaya em cheio com um chute.

Ela não precisava ver o ataque, todos os ataques a erravam. Além disso, seu timing era perfeito na hora de contra-atacar, era como se ela previsse o futuro.

Masaya se levantou e colocou a mão no nariz, percebendo que ele estava sangrando.

Não havia tempo para descanso, Antonia já estava correndo em direção a Masaya, pronta para atacá-lo novamente. Quando ele foi desviar mais uma vez, perdeu um pouco do equilíbrio e sua visão ficou embaçada.

Meu corpo está cedendo…

Todo o dano recebido estava o afetando drasticamente. Ele não conseguiu desviar e Antonia não perdeu a chance.

Um soco na barriga, um soco no rosto, um chute no abdômen e outro nas costas. Por alguns segundos Masaya apanhou sem conseguir reagir.

Ela o pegou pelo rosto e bateu sua nuca no chão com toda a força.

Quando o controle do seu corpo voltou ao normal, já era tarde demais. Antonia havia pegado o seu tornozelo e saltado o mais alto que conseguia o carregando. Já no céu, ela atirou Masaya em direção ao solo com toda a força, causando uma grande explosão na área.

Caído de cara no chão, Masaya já estava sem forças para reagir.

“Masaya!!”

Ao levantar a parte superior do seu corpo, ele viu Ryoka correndo em sua direção.

Mas Antonia apareceu diante de Ryoka logo em seguida.

Ryoka!

“Ei.”

Ela falou com Ryoka em um tom bem humorado.

“…”

Ryoka, em choque, não conseguiu responder.

“Você quer salvá-lo, não quer? Vamos fazer um trato.”

Ryoka ficou confusa com o comentário de Antonia. Já Masaya…

Não… Estou com um péssimo pressentimento…! Ryoka…!

Ele estava tentando levantar seu corpo, um dos seus joelhos já estava no chão.

Meu corpo já não me obedece mais direito…

“Eu farei. Se for para salvar o Masaya, eu farei! O que você quer?!”

Não faça isso, Ryoka!

Ele queria gritar, mas não conseguia.

Pela primeira vez, um sorriso maléfico surgiu no rosto de Antonia.

“Venha comigo. Se torne meu pertence e eu pouparei a vida dele. Nós iremos para bem longe daqui.”

“…”

Claramente espantada, Ryoka não conseguiu reagir a proposta de Antonia.

Até Masaya parou de se mover.

“Não se preocupe, não te maltratarei, muito menos te matarei.”

“… Então porque?”

Respirando fundo, Ryoka perguntou as razões de Antonia.

“Hmm? Isso é óbvio, para observar como a mente daquele jovem se quebrará e se reconstruirá hehe.”

Anormal.

A garota era claramente perturbada. Tudo que ela fez, faz e fará é simplesmente para estudar a mente humana.

“Eu…”

Ryoka já estava decidida sobre o que fazer. As palavras que ela ouviu naquele sonho vieram a sua cabeça.

Recuse, Ryoka! Se lutarmos juntos conseguiremos vencer, sem duvidas!

“Tudo bem… Eu aceito.”

Masaya estava incrédulo, sua boca permanentemente aberta.

Por quê?

Por quê…?

É por eu ter sido incapaz de te proteger?

Não… Não é isso…

Ryoka…

“Hehehehe. Trato feito então. Vamos indo?”

As duas deram as costas para Masaya e começaram a andar, se afastando mais e mais.

As lembranças do dia em que viu seu pai sendo levado voltaram a sua cabeça.

Ela está se sacrificando por mim. Para me salvar. Pela justiça que ela acredita.

“PAREM!!”

Dando um forte grito e um violento soco no chão, Masaya forçou as duas a pararem.

Mesmo no limite do limite, ele se levantou mais uma vez.

As duas garotas olharam para ele. Uma com grande interesse, outra com grande tristeza.

“Masaya… Pare, por favor…”

O pedido de Ryoka entrou por um ouvido e saiu por outro. Masaya respirou fundo e gritou…

“Cale-se, Ryoka!”

“Eh?”

De todas as coisas que ela esperava ouvir, essa não estava nem sequer listada.

Com suas roupas sujas e rasgadas, Masaya removeu a sua gravata. Sua blusa já estava aberta, todos os botões já haviam arrebentado durante a luta. Ele só precisava estar o mais confortável possível.

“Eu não dou a mínima para seus ideais ou qualquer que seja a justiça estúpida que você encontrou! Meu trabalho é um e único… Te proteger!”

Conveniência ou não, o papel de guarda-costas que Masaya recebeu de Daisuke veio a calhar no último momento.

“Mas…”

“Não é só meu trabalho! Meus sentimentos também! Você é a coisa mais importante que eu tenho hoje, definitivamente não permitirei que tomem você de mim!”

O rosto de Ryoka corou após tal afirmação, seu coração batia violentamente. O velho conflito entre a lógica e os sentimentos fez Ryoka hesitar.

“Woah! Não esperava um discurso desses!”

Antonia bateu palmas novamente para Masaya e se colocou na frente de Ryoka.

Fuu… Essa gritaria me custou mais energia do que eu esperava. Agora…

A última parede diante de Masaya.

Eu queria dizer algo legal como “mesmo que eu perca meu corpo, jamais permitirei ferir aqueles que amo”, mas eu não posso me sacrificar aqui.

Lutar por minha família, as pessoas mais queridas para mim. Mas ao mesmo tempo lutar por mim mesmo, não é mesmo, mestre?

“Venha, vamos acabar com isso de uma vez!”

Com um sorriso assustador no rosto, Antonia avançou em direção a Masaya.

“Hehehehehehehe”

Antonia começou a atacar Masaya descontroladamente. Ela não tinha com o que se preocupar, afinal.

Masaya estava desviando facilmente de todos os ataques. Mas quanto mais ele esticava a luta, mas difícil de se manter de pé ficava.

“Huh?”

Enquanto tentava atingir Masaya, Antonia viu ele desaparecer completamente da sua vista.

Ele reapareceu alguns metros atrás dela e começou a correr.

Correndo em alta velocidade, ele formou um circulo cujo Antonia era o centro dele.

“Hehh, acha mesmo que isso vai funcionar?”

Antonia parecia bem confiante.

Todo e qualquer ataque eu direcionar a ela será desviado. Após atacá-la por trás eu percebi… Ela consegue manipular o subconsciente, por isso é impossível atingi-la. Não é que o ataque muda de direção, ela nos força a errar nossos próprios ataques…

Nesse caso…

A velocidade de Masaya aumentava mais e mais.

O nível que eu atingi quando derrotei Zinon, preciso alcança-lo novamente… Não, preciso superá-lo!

Quanto mais rápido ele se movia, mais seu corpo doía.

Ele teria no máximo a chance de mais um ataque.

Se o ataque falhar ou não for o bastante para derrotar Antonia, tudo estará acabado.

Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido!

Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido!

AGORA!

O círculo foi quebrado e Masaya avançou com toda velocidade em direção a Antonia.

Ela sequer estava o enxergando. Não era necessário. O ataque de Masaya será desviado pelo próprio subconsciente dele—

Quando Antonia percebeu, ela apenas sentiu a dor se espalhando por todo seu corpo.

Um chute certeiro atingiu o corpo dela.

Ela pode programar nosso subconsciente a nunca atingi-la… Mas ela não pode prever o futuro.

Nossas ações são alteradas sem nós percebermos.

Mas—

Rachaduras se espalharam por toda a dimensão.

Ryoka viu algo de outro mundo. Uma visão impossível.

A dimensão foi destruída na força bruta.

Antonia foi lançada a vários metros de distância. Por grande parte da força ter sido gasta na dimensão em si, ela não foi jogada tão longe.

Mudar nossas ações, ou realizar uma determinada ação, não significa que ela certamente será concretizada.

Se minha velocidade de movimento for alta demais, será impossível mudar o curso do meu ataque.

Entretanto, com grande dificuldade, Antonia se levantou.

Masaya estava perplexo.

“Hehe…”

Não existe mais espaço  para continuar a luta. Masaya está de pé agora, mas se ele se mover mesmo que um centímetro, seu corpo cairá.

“Você se superou. Observar sua mente valeu muito a pena hehe…”

Masaya não sabia o que dizer, então apenas esperou.

“Mas… Não há muita felicidade te esperando adiante.”

Naquele momento, Ryoka havia se aproximado de Masaya e apoiado o corpo dele.

“Vocês dois… Ideais opostos… Talvez vocês não entrem em conflito entre si… Mas sem duvidas entrarão em conflito com a história que estão criando.

Alguém que luta por vários e alguém que luta por poucos lutando juntos só pode terminar em tragédia.”

“…”

Masaya não entendia totalmente o que ela estava falando, mas algo dentro dele o fazia concordar um pouco com ela.

Não é como se ela conhecesse os dois o suficiente para fazer afirmações desse tipo. Mas ele sabia que devido ao poder dela, era bem provável que esses comentários que ela está fazendo sejam baseados em algo que só o poder dela consegue enxergar.

“Eu gostaria de observar a reação de vocês para o que ainda está por vir nos seus futuros, hehehe…”

Antonia então caiu de joelhos e logo em seguida de cara no chão.

“Acabou…”

Todos os ferimentos no corpo de Antonia desapareceram completamente, o mesmo já havia acontecido com Zinon.

Mas Masaya…

“Masaya!”

Usando Ryoka como apoio, Masaya deixou seu corpo cair.

Porque os ferimentos dele não sumiram?!

Por conta da destruição irregular da [Dimensão Reversa], os danos causados em Masaya não foram revertidos.

Aquela batalha. Aquela noite. Definitivamente ficaria marcada no corpo de Masaya para sempre.

 

Após aqueles eventos, Ryoka conseguiu ajuda para carregarem Masaya, Antonia e Zinon.

Quando questionada pelo seu pai, Daisuke, ela inventou uma história dizendo que precisou ir na casa de uma amiga e levou Masaya junto, mas que se distraiu na rua e quando ia ser atropelada, foi salva pelo Masaya que sofreu o atropelamento no lugar dela.

Graças a esses eventos, Daisuke deixou Ryoka ficar com Masaya no hospital ao invés de irem para a festa.

Quando diagnosticado, relataram que Masaya sofreu ferimentos gravíssimos. E que era um milagre ele ter sobrevivido.

No dia seguinte—

“Ei, Ryoka. Acorde.”

“Umm…”

Ryoka foi chamada, depois sacudida. Então foi obrigada a abrir os olhos.

“… M-Masaya?!”

Ela ficou surpresa ao ver Masaya sentado na cama. Ela estava sentada em uma cadeira do lado dele, mas acabou pegando no sono.

“Isso está ficando rotineiro, não acha?”

Masaya se referia a um dos dois desmaiar, e o outro tomar conta.

“Haha… Mas mais importante, você está bem?”

“Hmm, meu corpo ainda dói em todos os lugares, mas sobreviverei.”

Ryoka encarou Masaya firmemente por alguns segundos.

“O que?”

“Você disse que ia se cuidar para não se ferir tanto!”

“Err… Não é como se eu tivesse alguma escolha…”

“…”

“…”

Um silêncio tomou conta do quarto do hospital por algum tempo.

“Ei, Ryoka.”

“Diga…”

“Sei que é egoísta da minha parte, mas quero que você evite o máximo possível usar aquela técnica ocular.”

“…”

[Analyzer]. Uma técnica que talvez seja crucial para mudar o rumo de uma batalha, mas o custo dela não é baixo. Uma técnica contraditória, que concede uma visão poderosa o bastante para ver o futuro, mas também consome a visão lentamente até a pessoa ficar cega.

“… Tudo bem.”

Ryoka aceitou o pedido de Masaya.

Ela não pretende parar de usar a técnica, seria ingenuidade demais. Mas ela ao menos tentará deixá-lo menos preocupado.

Após mais algum tempo com os dois em silêncio…

“Ei, Masaya.”

“Hmm?”

“Sobre aquilo que você disse ontem…”

“”Aquilo”?”

“Sim.. Uhm… Sobre eu ser a pessoa mais importante para você…”

“…”

Ryoka estava totalmente corada, olhando de um canto para o outro.

Uma certa tensão se levantou no local.

“… Eu realmente disse aquilo, não disse? Afinal, você é uma grande amiga!”

A tensão que existia no ar evaporou naquele momento.

“Então era isso que você queria dizer…”

“…”

“… I…”

“I?”

Já tremendo, Ryoka se levantou e pegou o travesseiro da cama.

“IDIOTA!!”

E começou a atacar Masaya.

“Woah! Era uma piada! Espere! Me escute!”

Depois de conseguir acalmar Ryoka.

“Hah, eu estava apenas tentando quebrar a tensão, não precisava reagir daquela forma…”

“Hmph. Não é como se eu me importasse!”

Eu chamo isso de se importar multiplicado por 100…

Respirando fundo, Masaya começou a falar sério.

“O que Antonia falou no final continua na minha cabeça até agora…”

“Masaya…”

“Escute, Ryoka. Eu quero te dizer o que eu sinto direito. Mas quero que seja em um momento onde possamos realmente nos focar nesses sentimentos. Eu quero primeiro terminar essa [Guerra Divina]… Você esperaria até lá?”

Ryoka ficou surpresa, ela não esperava algo tão sincero.

“Hmm, não posso fazer nada, não é mesmo? Irei aceitar esse egoísmo seu, fique agradecido.”

A conversa terminou ali, principalmente porque—

“Masaya!”

Ao ouvir alguém vindo correndo pelo corredor e abrindo a porta violentamente, os dois viram uma figura que não esperavam ver tão cedo.

A única coisa que Masaya conseguiu dizer foi:

“Pai?!”

Suguro correu para abraçar o seu filho, que ainda chocado, o abraçou de volta.

Tudo que foi causado pela Antonia se desfez.

Suguro foi solto e seu nome foi limpo como se fosse a coisa mais normal a se fazer. E Suguro disse que havia “voltado de viagem”, o que Masaya sabia que não era verdade.

De alguma forma a realidade foi remodelada, as memórias de todos os humanos normais envolvidos foram alteradas e tudo voltou ao normal.

E então, os dias de grande felicidade daquelas duas famílias voltaram.

 

 

Voltando ao presente…

O [Zenchi Kūkan: Oujibyoubou] desapareceu lentamente, e logo a [Dimensão Reversa] também.

Ryoka suspirou ao cancelar seus poderes.

“Bom, acho que é isso. Essa é nossa história.”

Seira e Julie estavam impressionadas com o que viram.

“Existem alguns motivos para eu ter decidido mostrar essa história a vocês… O primeiro e mais óbvio, é a confiança e afinidade do nosso grupo. Todo mundo tem uma coisa ou outra que gostaria de esconder, mas creio que conhecer a origem do que somos hoje é algo necessário.”

Após uma leve pausa, Ryoka continuou.

“O segundo é para vocês conhecerem melhor o Masaya. E o terceiro… O terceiro foi mais um experimento.”

“Experimento?”

Julie perguntou enquanto virava a cabeça um pouco para o lado, curiosa.

“Eu precisava testar se minhas capacidades haviam evoluído agora que eu posso controlar o [Reisei], e eu estava certa. Eu posso de fato observar o passado, mas antes eu não era capaz de mostrar o que eu via para os outros.”

“Então isso significa…”

“Exato, Sei-chan. É possível aprimorar nossas técnicas para um nível além usando o controle de [Reisei].”

Em suma. Ryoka quis mostrar para Seira, Julie e Kuroshi que ela confia neles tanto quanto ela confia no Masaya, apresentá-lo para eles e testar as possibilidades do controle de [Reisei].

“Eu tenho algumas ideias de coisas que podemos treinar e gostaria de discutir com vocês em breve.”

Enquanto Ryoka discutia tais assuntos com Seira e Julie, Kuroshi estava em silêncio.

“…”

Passado.

Confiança.

Algumas palavras afetaram Kuroshi da maneira errada.

Diante daquilo, sua mente começou a viajar para longe. Bem longe—

“Se continuar assim, elas irão perceber.”

Com um toque no ombro, Masaya trouxe Kuroshi de volta para a realidade.

“Huh? O que você está fazendo, Kuroshi?”

“Eh?”

A pergunta e o rosto confuso de Masaya deixaram Kuroshi sem saber como reagir.

“Você aumentou seu poder para 20%, não? Seus olhos estão vermelhos.”

“Ah…”

Kuroshi deu um passo para trás.

“Kuroshi?”

“Ahaha… É que eu tinha esquecido que eu precisava ir em um certo lugar, então aumentei meu poder para chegar lá mais rápido. Até mais!”

Praticamente fugindo, Kuroshi se virou e se retirou rapidamente.

“O que aconteceu, Masaya? Porque Kuroshi foi embora sem falar conosco?”

Notando a estranha situação. Seira perguntou.

Masaya pensou em simplesmente falar o que aconteceu de fato, mas algo dizia que era melhor não falar sobre isso por enquanto.

Pensando em uma maneira de livrar Kuroshi sem comprometê-lo, Masaya respondeu:

“Hmm… Dor de barriga, eu acho?”

PARAGOBALA 25 – Subodai vs Índio

PARAGOBALA 25 – Subodai vs Índio


Pouco mais de 1 mês depois

Era mais uma noite quente e úmida na floresta quando Índio finalmente chegou ao seu destino: a Cabana. Deitou-se no chão e olhou as estrelas, satisfeito. Havia atravessado uma grande distância a pé, e teve o cuidado de sempre apagar sua trilha e criar rotas falsas para qualquer perseguidor, o que lhe custou muito tempo. Seu braço ostentava mais duas marcas novas, vigias Kaapors que tinha encontrado no caminho. Foi até o pequeno depósito que ficava escondido perto da construção que abrigava J.B, e pegou a comida que era coloca ali semanalmente para o gigante. Geralmente caçava o que comia, mas estava cansado. Comeu até se fartar, o que não significava grande quantidade, pois estava acostumado a sobreviver com pouquíssimo alimento, e foi buscar um colchão velho que usava para dormir.

Acordou rejuvenescido e se sentindo inteiro novamente. Pegou o seu facão e treinou alguns golpes básicos no ar, um ritual que repetia quase todos os dias. Sabia que tinha que preparar a fogueira para chamar os seus companheiros e reportar tudo o que passou para o Doutor, mas faria isso apenas mais tarde. Não estava preocupado e nem se perguntava porque a polícia estava atrás dele, além de não sentir ansiedade ou pavor por estar na lista negra da tribo Kaapor. Fez todas as suas atividades com naturalidade e pouca preocupação.

No fim da tarde, pegou alguns galhos, montou uma fogueira, e depois do fogo aparecer, jogou a erva que gerava a fumaça branca. Logo os seus companheiros veriam o filete de mancha branca no céu e se dirigiriam para lá. Estava sentado das chamas quando ouviu um som vindo da mata. Imediatamente se levantou, com a faca em punho. Viu um homem sair de trás das folhas. Ele tinha pele clara, cabelo ruivo e olhos negros. Usava um colar e alguns ornamentos nas mãos e nos pés. A roupa parecia típica Kaapor, mas era mais elaborada. O saiote era um pouco mais comprido que o tradicional, e tinha mais detalhes e ornamentos. “Como ele me seguiu até aqui” – pensou.

Seus olhos percorreram todo o corpo da figura, e ele não encontrou nenhuma marca ou grande cicatriz, a pele era lisa. Parecia ser jovem, e sem muita experiencia. Índio caminhou até ficar na frente do intruso, a distância de não mais que 7 metros. O sujeito era um pouco mais alto que ele, e logo abriu a boca:

– Vim em nome da tribo Kaapor. Nosso líder exige sua presença para lhe aplicar a punição devida pelo crime de assassinato e invasão de território proibido.

Índio sorriu.

– Eu me recuso.

– Eu conheço sua fama, exilado. Você não tem chance contra mim em uma luta. Existe um abismo de diferença entre nossos treinamentos.

O sorriso aumentou no rosto de Índio. Já tinha escutado aquela conversa outra vezes, e o final era sempre igual: um corpo estendido na sua frente. Jovens arrogantes eram suas vítimas preferidas.

– Eu já matei homens melhores do que eu – disse.

– Mas nenhum melhor do que eu – respondeu Subodai, com convicção.

Após um silencio tenso, o jovem falou:

– Então é isso.

Subodai fechou os olhos por um instante, e quando os abriu, avançou em direção ao seu inimigo. Executou 3 ataques rápidos com o seu facão. Índio se defendeu do primeiro com a sua arma, e desviou dos outros dois. Subodai deu um pulo para trás e se afastou. Traçou uma linha no chão. Depois, ergueu sua faca, e a apontou horizontalmente para Índio.

– Já matei homens que lutavam como você. Lutadores que são espertos e experientes. Esperam os adversários atacar e no momento certo contra atacam e vencem.

Índio cerrou os olhos e analisou o seu adversário mais uma vez. O ataque que acabará de receber não o impressionou. Estava ansioso para fazer uma marca nova no braço.

– Isso é uma estratégia para lutadores inferiores, retomou Subodai. Quando eu ultrapassar essa linha no chão, eu vou te atacar. E vou te massacrar. Te atacarei de uma maneira que você nunca viu. Sua defesa não vai aguentar. Vou te cansar, vou te cortar, vou te machucar e vou te humilhar. Ou você pode largar a sua arma e se render. Te levarei até a aldeia e lá você poderá se defender – disse calmamente.

Índio não pensou duas vezes e respondeu:

– Então venha.

E Subodai foi. Correu até entrar na área de alcance dos golpes e começou a atacar. Seus movimentos eram limpos e rápidos. Um observador poderia até chamá-los de plásticos. Mais uma sequência de 3 golpes, o primeiro central, e os subsequentes laterais. Índio conseguiu defletir os 3, mas o seu atacante continuou. Atacou com um movimento pesado, vindo do alto, na diagonal. Após o contato com o facão de Índio, Subodai puxou a sua arma com extrema rápidez, e deu uma estocada. Índio pulou para trás instantaneamente. Quando aterrissou, percebeu um pequeno corte na barriga. Se preparou para sorrir e troçar de seu adversário, mas não teve tempo. Subodai já havia se aproximado mais uma vez, e continuou a série de ataques. Dessa vez, foram 7 golpes sem descanso. Índio defendia ataque após ataque, e não conseguia enxergar uma brecha para contra atacar. Os ataques eram rápidos demais, e vinham em ângulos difíceis. Depois do sétimo golpe, Subodai deu um passo para trás, e um segundo depois, se aproximou novamente para outra série de ataques.

Índio teve que se concentrar muito para ver cada golpe. Seus olhos estavam fixos na espada e no pulso de seu inimigo, e reagia instintivamente a cada ataque. Conseguia ver a trajetória de cada golpe instantes antes deles chegarem, e os bloqueava sempre a tempo. Os golpes vinham de cima, de lado, de frente. Veio outro golpe da esquerda, e então ele sentiu uma pancada no lado direito de seu rosto e caiu no chão.

Caiu assustado, piscou, e engatinhou para trás. Olhou a frente e só via Subodai, parado, com o seu facão erguido. Se levantou e caminhou para trás. Entendeu o que tinha acontecido. Ele havia se concentrado tanto em defender o seu flanco esquerdo de uma série de ataques, que ficou vulnerável a um soco do inimigo.

– Já percebeu que você não vai conseguir me vencer? – disse Subodai, que avançou outra vez.

Índio voltou a se defender e esquivar, esperando por uma brecha. Mas não estava dando certo. Subodai atacou na direita, e em seguida conseguiu fazer uma estocada na esquerda. Índio deu um passo lateral, mas não saiu impune. Tinha sido cortado mais uma vez. Subodai seguiu atacando, e Índio recebeu mais um corte, dessa vez no ombro. E depois no ante braço, na perna, no peito e outro na cintura. Agora, já ofegava.

– Contra atacar pode funcionar contra adversários ligeiramente melhores que você. Mas não é o caso. Eu sou muito melhor do que você. A diferença entre nossa técnica é enorme. Você não tem habilidade o suficiente para propor uma luta a mim. Vai se defender pateticamente até eu resolver te matar.

Subodai de um passo para atacar outra vez, e então, dessa vez, Índio também deu um passo, tentando surpreender com uma estocada inesperada. Subodai encolheu seu braço, deu um passo lateral e defletiu o facão de índio para o outro lado. Com isso parte do corpo dele ficou exposta, e Subodai não perdoou. Executou um golpe vertical, em toda lateral de tronco de Índio, que gritou ao receber o corte.

– Eu consigo ver todos os seus golpes.

Subodai avançou. Levantou o seu facão e deu um golpe poderoso, vindo de cima para baixo. Índio virou o seu Facão na horizontal para amortecer o golpe. Mas estremeceu e escorregou e dobrou um joelho. Subodai deu um sorriso triunfante, e Índio pensou “isso!”. Fingir um escorregão era uma um movimento que ele usava com frequência e já o havia salvado muitas vezes.

Subodai atacou com volúpia, e, pela primeira vez, Índio viu uma brecha. Gritou e repentinamente deu uma estocada com a sua faca, no peito desprotegido de seu atacante. E então seu Facão voou de sua mão. Atônito, percebeu que havia caído em uma armadilha. Subodai nunca esteve vulnerável, e havia se preparado para defender um golpe, e não finalizar a luta.

De joelhos, ele olhou aquele homem, de expressão fria e cabelos vermelhos. E pela primeira sentiu algo diferente. Era medo. Ele já havia estado naquela situação dezenas de vezes. Porém do outro lado. Dessa vez, ele era a presa indefesa.

Desesperadamente, Índio caminhou para trás e quando vez menção de correr até sua faca, levou um chute no rosto e caiu. Se levantou no mesmo instante e caminho de quatro, como um animal. Não se conteve, e virou o rosto para olhar para trás e procurar alguma saída.

– Homens que se guiam puramente pelo instinto nunca vão me vencer. Seu instinto lhe disse que era a chance de me matar?

Índio calculava o que fazer naquele momento. Não carregava consigo nenhum valor de honra, e sairia correndo na primeira oportunidade. No entanto, não achava que conseguiria fugir daquele homem. Mas algo o contagiou, mais um sentimento que ele desconhecia: ele não queria morrer. Queria sobreviver e lutaria até o fim pela sua vida.

Um estrondo fez Subodai olhar para trás, e viu um homem gigante correndo sua direção. Deu um pulo para o lado, e por centímetros conseguiu desviar da investida. A criatura se virou e tentou lhe acertar com um soco, e Subodai mais uma vez desviou do ataque com uma esquiva. Continuou se afastado, com dificuldade, enquanto recebia os golpes. A explosão muscular do agressor era impressionante. “Mesmo com todo esse tamanho, ele é rápido demais”. A cada golpe que se livrara, sentia que estava mais perto de ser acertado. Veio mais um golpe, e então Subodai de um passo a direita e contra atacou com sua faca, fazendo um corte no braço do monstro. Para sua surpresa, foi como se o inimigo não tivesse sentido o ataque, e usando o próprio braço ferido, deu um empurrão no guerreiro Kaapor, que foi lançado para trás e por pouco não caiu no chão.

Subodai não lembrava da ultima vez que foi tocado em uma batalha. Com um grito, J.B avançou novamente, com seu ombro à frente. O índio deu um giro e fez outro corte no gigante, agora nas costas. Mais uma vez, a criatura não parou e seguiu atacando, sem descanso. O Kapoor sabia que caso fosse acertado e perdesse o equilíbrio, poderia morrer. Percebeu que Índio se movia discretamente, e estava em busca de uma brecha para mata-lo. J.B tentou um chute, e Subodai desviou com uma cambalhota, aproveitando para fazer um corte em sua perna plantada no chão. Nem isso diminuiu o movimento da criatura. “Esse monstro parece imune aos meus ataques. Mas não passa de um homem forte.” Na nova investida, conseguiu outra vez girar, e dessa vez mirou atrás do joelho. Dominava a arte de machucar o corpo humano, e sabia os botões exatos para fazer cada parte dele parar de funcionar. J.B gritou e quando tentou correr, mancou e o seu joelho dobrou. Teve que apoiar a mão no chão para não cair, e Subodai viu a chance de atacar o seu pescoço. Nesse exato momento, Índio deu uma avançou por trás. O seu braço estava todo estendido, e só tinha acertado o ar. Subodai estava ao seu lado, com um sorriso triunfante. Segurou o pulso do braço de Índio e o puxou para baixo ao mesmo tempo em que deu uma joelhada. Índio gritou depois do estalo no osso, e soltou o seu facão. Com a empunhadura da faca, acertou a nuca, e o homem a sua frente caiu.

J.B estava arrastando uma perna, vindo em sua direção. Subitamente, ambos foram iluminados por um faról de carro. Um homem saiu do veículo com uma pistola apontada para Subodai, que rápidamente se agachou e puxou o corpo de Índio para sí. O segurava, com a faca colada na sua garganta.

O homem que veio do carro chegou mais perto, e disse:

– Você é o da tribo Kaapor, não? Solte o meu companheiro.

Subodai deu um riso de escárnio.

– Arrisque o tiro.

Bal ficou observando a cena por alguns instantes, e depois abaixou a arma.

– Me leve ao seu líder. Tenho uma proposta para vocês.

Após nenhuma resposta, continuou:

– Eu trabalho com o promotor da cidade. Posso ajudar os Kaapor.

A feição do rosto de Subodai mudou.

– O que oferece? – perguntou.

– Sou assistente dele. Acompanho de perto tudo que ele faz, e tenho sua confiança. Posso passar a vocês informações sigilosas e avisar de qualquer movimento que ele faça.

Subodai ficou em silêncio por alguns instantes.

– Abaixe sua arma. Se você for digno, talvez possa ter um encontro com Kerexu.

***

Os dois seguiam Subodai mata a dentro, estavam com as mãos amarradas nas costas, e Índio caminhava com alguma dificuldade. Subodai havia feito um curativo na perna de J.B, que ficou deitado repousando na cabana. Havia prometido enviar um curandeiro até lá caso o acordo de Bal tivesse sucesso.

– É bom te ver vivo – disse Bal a Índio.

– Não sei por quanto tempo – respondeu.

– Confie em mim. Dará tudo certo.

Índio assentiu e confiou em seu líder. A única pessoa que Índio seguia e acreditava. Percebeu no rosto do Doutor uma determinação que não via a algum tempo.

– Como foi a perseguição da polícia? – quis saber Bal. Aquele era um mistério que ele havia se esforçado muito para desvendar no último mês. Julgava já entender tudo e queria confirmar a história.

– Eu estava na rua, e a polícia apareceu querendo me levar. Fugi de moto até a floresta. Fui perseguido por Kaapors, os matei, e depois fugi, até chegar aqui na cabana. Apaguei todo o meu rastro…mas não adiantou nada – resumiu rapidamente.

Bal sabia que dificilmente Índio daria mais detalhes. O seu companheiro enxergava qualquer evento com simplicidade. A versão do amigo bateu com tudo que tinha descoberto. Sua confiança de que o acordo daria certo aumentou.

O progresso dos três não era rápido. Índio tinha dificuldades para caminhar, e em determinado ponto, Subodai parou e disse:

– Vamos descansar aqui por um tempo, depois retomamos a caminhada. Sentem ali e não se mexam.

Saiu da vista da dupla e desapareceu.

– Posso soltar as nossas minha amarras, Doutor.

– Não. Mesmo se matássemos esse homem, os Kapoors continuaram vindo atrás de nós. É uma briga que não podemos vencer. Eles são muitos. Usaremos outra abordagem.

Pouco tempo depois, o Kaapor retornou com alguns galhos na mão. Colocou os no chão, e depois pegou um isqueiro na sua bolsa para acender a fogueira.

– E eu achando que veria como um legítimo índio acende uma fogueira – troçou Bal.

Subodai apenas o olhou e não respondeu nada. Levantou e entrou na mata outra vez. Retornou um tempo depois com duas cobras mortas na mão. As colocou no solo, pegou o seu facão e removeu a cabeça dos animais mortos. Em seguida, cuidadosamente retirou a pele delas e as cortou ao meio. Descartou algumas partes dos bichos e separou a carne, que espetou em um graveto. O deixou acima do fogo por algum tempo e o puxou. O levou até perto de Bal e falou:

– Essa é sua comida. Coma.

– Você vai dar de comer na minha boca? – riu.

– A viagem é longa. Morda a carne ou vai ficar sem nada.

Bal assentiu e mordeu a carne branca. Escondeu todo o seu receio, pois não queria demonstrar fraqueza. O gosto foi surpreendentemente bom. Depois de acabar de comer o pedaço, o Kapoor também alimentou Índio, que comeu sem dizer nada. Após a refeição, Subodai os instruiu a dormir um pouco, e ambos deitaram na própria mata.

Era escuro quando eles voltaram a andar, e foram guiados pela luz forte da lanterna que Subodai segurava.

– Conhece esse homem? – perguntou Bal a Índio.

– Nunca o vi antes – respondeu o lacônico companheiro.

O Doutor estava analisando o sujeito desde que o tinha visto pela primeira vez. Fisicamente era diferente dos índios. Um pouco mais alto. Cor da pele, cabelo e olhos diferentes do habitual. Alguns traços ainda lembravam os outros Kapoors que ele já tinha visto. Concluiu que era um mestiço. Era alguém altamente treinado e preparado. Um guerreiro de elite. Não tinha visto a luta dele contra Índio e J.B e não sabia se tinha sido uma emboscada ou um confronto direto. Não achava que alguém poderia vencer os dois em uma luta. Seu colega não era conhecido pelo orgulho, mas Bal sabia que ele gostava da sensação de ser superior às suas vítimas, por isso evitou perguntar sobre o combate.

Em determinado ponto, Subodai amarrou tiras de pano ao redor da cabeça dos dois, para bloquear a visão. Bal teve alguma dificuldade em andar, e Índio se adaptou rapidamente. Subodai os guiava, indicando o caminho e avisando o momento de parar ou quando existia um obstáculo a frente. O Doutor não fazia ideia de quanto tempo já estava andando, mas se sentia cansado. Não estava acostumado com o calor da selva e nem a caminhar distâncias tão grandes. Sem poder enxergar, perdeu a noção do tempo.

Quando a faixa do removida da sua vista, o céu estava mais claro. Bal presumiu que era o início do dia, por volta de 5 ou 6 da manhã.

– Esperem aqui, disse o Índio ruívo.

Os dois sentaram e relaxaram. Mais de uma hora depois, Índio levantou a cabeça e olhou para os lados.

– O que foi? – perguntou Bal.

– Estão vindo. Muitos.

Ele começou a olhar ao redor, buscando uma saída.

– Vamos esperar. – disse o Doutor ao perceber a movimentação de Índio.

10 índios armados com arcos e flechas apareceram na frente dos dois. Bal ouviu ruídos as suas costas, e imaginou que existiam vários outros escondidos ao redor deles. Um dos índios tomou a frente e falou:

– Vamos ver se você merece falar com o nosso líder, homem da cidade.

Eles seguiram o grupo, e depois de uma caminhada, finalmente era possível ver ocas ao longe. Enfim, estavam na aldeia. Um índio apareceu por trás da dupla e soltou as amarras.

– Você vai enfrentar um dos nossos. Se vencer, pode falar com Kerexu.

Bal titubeou. Não estava esperando esse tipo de coisa. “Tinha pensado que esses índios eram minimamente racionais, mas não passam de um bando de selvagens!” pensou com raiva.

Foi caminhando até o local apontado, e viu que um grande círculo foi formado, por dezenas de índios. “Será que finalmente encontrei o meu fim? Não há muito a se lamentar”.

Um índio musculoso e alto apareceu na frente de Bal. Estava a 20 metros de distância. Apesar do receio, a expressão do Doutor era de confiança. Assim que percebeu quem era o seu adversário, começou a escrutina-lo com sua visão. Pouco prestou atenção nos rituais ao redor ou a um juíz dando início a batalha. Sua mente estava focada no homem, que agora corria em sua direção. Bal permaneceu imóvel. O índio estava agora a poucos metros de distância, quando deu o impulso final para pular. O Doutor percebeu a intenção instantes antes e pulou para trás. O grandalhão agarrou apenas o ar, e Bal emendou uma cotovelada no supercílio, antes de se afastar mais uma vez. O seu adversário atacou com uma sequência de socos, que foram aparados pelos braços de Bal em posição de guarda. Ainda assim cada pancada doia. No quinto soco, ele conseguiu se agachar, e contra atacou com um soco nas costelas do selvagem, que aparentemente não se abalou pelo golpe, tentando mais uma vez agarrar Bal. Outra vez o golpe falhou. Bal conseguia ler aquele homem sem problemas. Durante toda sua vida, Bal sempre se envolveu em brigas, na escola, na rua, nos bares. Nunca foi o mais forte, o mais corajoso ou mais rápido. Nunca tinha treinado artes marciais. Mas geralmente levava vantagem, mesmo contra adversários maiores. Ele sempre teve facilidade para prever os movimentos dos seus inimigos, e com o tempo, foi aprendendo os pontos mais frágeis do corpo humano. Seu soco podia não ser o melhor, mas ele sabia onde aplicá-lo. Após mais um agarrão frustrado do índio, Bal deu um chute no mesmo ponto do corpo que havia socado antes, na costela. O homem recuou e ficou mais cauteloso.

– Está doendo? Vai quebrar já já – disse Bal.

O comentário irritou o homem que se aproximou. Bal ameaçou socar a costela uma terceira vez, e o Índio se protegeu. Foi o seu erro. O ataque era uma falso, e a defesa precipitada abriu uma brecha, que foi muito bem explorada. O Doutor lhe acertou uma joelhada no meio das pernas, e o índio gritou de dor. Em seguida, puxou sua nuca em direção seu outro joelho, usando toda força que tinha. Por fim, vendo o adversário de joelhos e sangrando, desferiu socos no seu rosto. O homem caiu desacordado.

Ouviu gritos ao redor. Alguns apontavam para ele e tinham expressões agressivas. Outros batiam lanças no chão. Logo alguém puxou o seu braço e o levou para fora do círculo. Bal foi escoltado por mais um tempo, até ficar na frente de uma grande oca. Ela era guardada por dois Índios grandes, ainda maiores do que o seu adversário na luta. Cada um segurava uma lança, e contavam com um facão preso na cintura. O índio ao seu lado falou:

– Entre. Kerexu o espera.

PARAGOBALA – Capítulo 24 – Preparativos

Capítulo 24 – Preparativos

– Mas como vamos fazer isso funcionar, Vincent? Vou atuar nas sombras, investigando sozinho? Quer que eu monte uma equipe?

– Eu estava pensando em algo mais ousado amigo. Você vai trabalhar como delegado. Oficialmente.

– Como!?

– Vamos inserir a nomeação no diário oficial.

Nathan riu.

– Isso não pode dar certo… – parou de falar, olhando fixamente para frente, tentando imaginar como o plano poderia se concretizar.

– Já tenho tudo planejado. O salário não vai cair na sua conta, claro, mas me comprometo a te pagar o salário de um delegado. O que importa é que você vai assumir o comando da delegacia, e vamos ter recursos e mão de obra para alcançar nosso objetivo. Tenho amigos importantes em cargos importantes. Te protegerei a qualquer custo e…

– Pare com essa bobagem irmão. Eu estou aqui para vingar Victus e dane-se as consequências. Vou com você até o fim. Agora, me passe tudo que você tem, e me relate tudo que descobriu até agora.

***


– Senhor, já estabelecemos um novo chefe para o tráfico. Será conhecido como Xingu. Homem nosso, inteligente e leal. Tivemos sorte que muitos concorrentes acabaram se matando…foi mais fácil que o esperado. Logo agendaremos a primeira reunião com a polícia e estaremos operando com total capacidade.

– Muito bem Kiary. Conduziu muito bem nossa reconquista. Continue me informando semanalmente do andamento.

– É uma honra, senhor – disse Kiary, emocionado com um mero elogio do Chefe da tribo.

Após a saída de Kiary, Kerexu se levantou e saiu da oca, marchando em direção a floresta. Dois Índios altos e fortes, acima da média da tribo, seguravam lanças e o seguiram à distância de alguns metros. Eles ficavam o tempo inteiro na frente de sua oca, e o acompanhavam a qualquer lugar. Em certo ponto, Kerexu parou, e fez um sinal para eles voltarem até a aldeia. Os dois homens não titubearam e obedeceram. As ordens do chefe eram absolutas.

Kerexu caminhou mais um pouco, observando as árvores, até chegar em um tronco caído e sentar. Instantes depois, 5 pessoas apareceram, como se fossem teletransportadas para aquele local. Alinharam-se à sua frente e fizeram uma grande venia, apoiando um dos joelhos no chão.

– Levantam-se. O trabalho de vocês, como sempre, foi exemplar na cidade. Já colocamos um novo homem forte no controle da venda de drogas em Paragominas, e nem mesmo o comandante da operação desconfia que estavam atuando. Com esse obstáculo removido, podemos avançar.

Subodai, Tolui, Batu e Sorhatani se levantaram, eretos em posição impecável, aguardando as ordens.

– Um incidente infeliz ocorreu a algum tempo atrás. O exilado invadiu o território Kaapor, fugindo da polícia, que também transpassou o limite, e foram impedidos pelos nossos guardas de fronteira. Não sei como, mas no meio deles tinha um exaltado promotor, que teve de ser contido a socos. Certamente isso terá uma volta. Esse tipo de gente se acha acima de muitas coisas, principalmente de nós, os nativos. Um grupo está perseguindo o exilado. Certifiquem-se que ele foi capturado ou morto. E investiguem quem é esse promotor e se ele pretende fazer alguma coisa contra nós.

Kerexu fez uma pausa, inclinou a cabeça para frente, e continuou a falar:

– E tem mais um assunto que me preocupa. Alguém estava bancando Bezerro do Acre. Descubram.

Depois de uma batida de coração, os 4 já não estavam mais à vista.

***

Bal acordou assustado e se levantou rapidamente. Olhou ao redor, não reconheceu a sua casa, e começou a relembrar sua noite anterior. Sorriu ao ver Rosemari, nua, dormindo na cama. Se vestiu e saiu da casa, sem se despedir. Tinha muito o que pensar. Sabia que aquilo não era certo com a sua namorada, Clara, mas não conseguia se sentir mal por isso. A noite tinha sido fantástica. Muito melhor que o sexo com a inexperiente companheira. Rosemari era uma mulher de verdade, que sabia muito de como dar prazer a um homem. Uma autêntica fêmea. Ele queria transar com ela mais mil vezes. Bebeu uma garrafa de cerveja para dar uma apaziguada no turbilhão de pensamentos em sua cabeça e se preparou para ir trabalhar.

– Como foi sua conversa com a sua amiga?

A pergunta rompeu a concentração de Bal, que já estava trabalhando em um processo desde que chegou, a mais de uma hora. Virou a cabeça na direção de Agha, sem ter uma resposta.

– Conversam muito ontem, a noite e sozinhos? – insistiu o estágiario.

– A noite foi boa, e não te interessa.

– Pela sua cara a conversa foi boa mesmo.

Bal se levantou, irritado e apontou o dedo:

– Eu sou um homem! Sou homem. Faço coisas que homens fazem. Pare de me julgar.

Agha respondeu de bate pronto com uma coragem inesperada:

– Só se for homem sem caráter.

– Seu moleque, você não sabe nada sobre a vida adulta. Não me conhece, não sabe o que eu faço pelas pessoas! Eu ajudo um orfanato! As crianças de lá me adoram.

– Até um relógio quebrado acerta duas vezes por dia.

Bal fez um esforço para se controlar e sentou-se novamente. “Como esse garoto consegue me tirar do sério dessa maneira? Quem é ele perto de mim”.

– Fique com os seus pensamentos, e eu fico com os meus – concluiu Bal.

– Eu te avisei ontem o que iria acontecer.

– O que aconteceu ou não só diz respeito a mim.

– E a sua namorada também, não?

Bal rangeu os dentes, e não sabia o que responder.

– Eu tenho mais o que fazer! – e levantou-se e saiu da sala.

Ele não tinha realmente nada para fazer. Caminhou pelo fórum tentando esfriar a cabeça e refletindo sobre Clara. “No final das contas, só fiz mal a essa garota. É óbvio que eu não sirvo para nenhum tipo de relacionamento”.Depois de bater perna sem destino pelos corredores do edifício, chegou até a sala onde costumava trabalhar antes de virar assistente de Vincent e viu que as pessoas estavam entretidas em uma conversa. Mais precisamente, fofoca:

– “Dizem que o promotor estava perseguindo o bandido junto dos policiais…!”.

Quando perceberam que Bal estava na sala, se silenciaram e olharam.

– Bal! Como vai? Faz tempo que não vem aqui – disse João, um escrevente do fórum.

– Vou bem. O trabalho lá não é moleza, mas não me arrependo da mudança.

– Como é trabalhar com esse promotor? – Perguntou Janaína, que era a colega mais próxima de Bal nos tempos em que ele trabalhava por lá.

– Ah…quando você conhece o homem percebe que não tem nada de outro mundo. É só um profissional que entende do que faz.

As pessoas o olharam com desconfiança. A fama do Pelicano era enorme, e era tratado dentro do fórum como uma celebridade.

– O que sabe desse perseguição que ele se envolveu? Ele te contou alguma coisa?

– Não me falou muita coisa…o que vocês sabem? – perguntou fingindo desinteresse.

– A Joice do outro departamento tem uma amiga que é esposa de um policial. Dizem que o promotor quis comandar pessoalmente uma perseguição a um bandido extremamente perigoso.

– Isso não é atribuição do Ministério Público, deve ser apenas um boato. E o que esse bandido fez?

– Isso ninguém sabe…

Bal terminou a conversa de maneira cordial, e saiu de lá com muito o que pensar. “Achei que Vincent confiava em nós, já que ele nos pediu ajuda no caso do serial killer. Mas não disse uma palavra sobre isso…”. Faria o possível para investigar o caso. O primeiro passo era descobrir quem era essa tal de Joice e extrair tudo que ela sabia. O episódio da perseguição de Índio o corroía por dentro. Não tinha pesar e nem ficava ansioso ao pensar o destino de seu colega. Mas temia que alguma investigação poderia chegar até ele e as atividades do seu bando.

***

Vincent chegou no seu apartamento depois do trabalho, e viu Nathan no sofá, extremamente concentrado, observando diversos papéis espalhados pelo chão. Muitas anotações e uma bagunça generalizada, com direito a folhas coladas na parede.

– Vejo que fez algum progresso – disse Vincent.

– Teremos muito trabalho aqui – respondeu Nathan. Essa tribo Kaapor é muito peculiar. Conheci muitos povos indigenas pela região do Amazonas, mas esses são diferentes. Preciso investigar melhor, no campo. As principais perguntas que temos de descobrir são: 1) Esse suspeito é um índio Kaapor? 2) A tribo compactua com o que ele faz? 3) Se sim, qual seria o interesse dessa tribo em eliminar os bandidos da cidade?. Não sei se tudo isso se encaixa Vincent. Esse bando de justiceiros deve ter deixado mais rastros. Cometido algum outro erro. A partir de amanhã começarei a minha própria investigação.

Vincent assentiu, satisfeito. Ver a determinação de Nathan o revigorava.

– Até semana que vem vou preparar sua nomeação. A polícia daqui é muito corrupta, mas sinto que muito disso era por causa do antigo delegado que partiu.

– Tenho experiência em lidar com corruptos, com um promotor no bolso então, será um passeio no parque, disse sorrindo.

 

Após uma pausa, perguntou:

Vincent, quero saber um coisa de você. Quando acharmos os responsáveis, o que você vai fazer?

O Pelicano ficou em silêncio, e já tinha ponderado muito sobre essa questão. Sabia exatamente o que iria fazer.

– Vou levá-los à justiça. A minha justiça. Os matarei, e não de forma rápida. Está comigo?

Nathan olhou para o seu amigo, com um olhar sério e respondeu:

– Até o fim.

***

Bal chegou em casa animado. Não se passou 5 minutos, e ele estava batendo na porta de sua vizinha. Não teve nenhuma resposta. Incomodado, pegou o celular e mandou uma mensagem. Não conseguiu evitar diversos pensamentos negativos, e em sua cabeça via flashes de imagens de Rosemari com outros homens. Dizia a sí mesmo “pare de pensar besteira. Não tenho motivos para pensar uma bobagem dessas”. Pegou o celular e enviou uma mensagem a ela:

Como vai? Cheguei do trabalho e acho que daqui umas horas estarei livre. Quer fazer alguma coisa?

Antes do esperado, uma resposta chegou:

Olá querido. Hoje não estou em casa. É dia do meu culto. Só voltarei muito tarde. Amanhã nos vemos…ou então toco sua campainha quando eu chegar…se você deixar.

A mensagem deixou Bal excitado. Aquela mulher mexia com ele.

Pode tocar. Caso eu não atenda, é porque dormi, rs.

Imediatamente já começou a relembrar do sexo fantástico da noite passada, e fantasiava como seria o de hoje. O seu celular vibrou novamente, e ele foi ver a resposta de Rosemari. No entanto, a mensagem era de outra mulher: Clara.

Bal, onde está? Não falou comigo ontem. Está tudo bem meu amor? Queria muito ve-lo hoje.

Estou fazendo plantão no trabalho está noite. Marcamos algo para outro dia. Estou muito bem e com saudades.

Escreveu a mensagem quase automaticamente, de maneira fria. Preferia não pensar nas consequências e muito menos nos sentimentos da garota. A única certeza que tinha é que não sairia da sua casa hoje, e aguardava ansiosamente a sua nova amante.

– Muita saúde e muita fé para vocês. Acreditem, as coisas vão melhorar, se vocês acreditarem. Boa noite. E assim, o Pastor encerrou mais um culto, depois de um discurso inflamado. O número de fiéis só aumentava. A igreja já era pequena, e ele planeja a construção de uma nova. No próximo encontro, recolheria mais dinheiro do público, tudo em nome do Senhor. Já mentalizava as palavras, e explicaria como era importante para Deus a criação de uma igreja maior. Sua linha de pensamento foi interrompida quando percebeu Rosemari na platéia, e acenou a ela. Pouco tempo depois, ela estava a sua frente.

– Pastor, tenho muito a te contar, e a te agradecer. O senhor é muito sábio.

– Imagina. Eu apenas propago a palavra de nosso senhor.

– Eu confesso que quando me fez aquele pedido achei muito estranho…e até duvidei de você, que Deus me perdoe. Não se deve duvidar de um servo do senhor você. Agora…agora eu entendo.

– Conheceu o seu vizinho?

– Sim…e…nós nos conectamos de uma forma que o senhor não imagina! Não sei como sabia disso…mas parece que fomos feitos um para o outro. Nunca fui tão feliz! Como posso te agradecer, Pastor?

– Não precisa me agradecer…agradeça a Deus. Ele é o responsável por tudo. Eu sou apenas um meio em que ele age. Fico feliz com as suas novas.

Rosemari se despediu e foi embora, alegre. O Pastor a observou caminhar, com olhar fixo em suas nádegas. “ Eu sabia que o meu irmão não iria resistir a essa gostosa. Se já comeu, vai logo largar aquela namoradinha dele. Ele foi sempre muito reticente com essa história de pagar puta…não sabe o que perdeu, são as melhores na cama, e agora ele vai descobrir isso da melhor maneira. Ele sabe ler todo mundo, mas é inocente em relação a si mesmo. Bal, um namorado fiel, haha, faça me rir.”

Tolui examinava agachado um corpo sem vida de um índio Kaapor e disse:

– Esse aqui tem um corte na garganta. Parece que 4 morreram com golpes de Facão. O outro com uma flechada. O exilado é bom.

Subodai andou em silêncio e observou os Kaapors mortos.

– Ele atacou por trás, e primeiro matou esse aqui, falou apontando. Depois avançou contra esse arqueiro, o mais jovem do grupo, que provavelmente errou o tiro e matou aquele ali, que devia ser o segundo melhor lutador do grupo. Matou esse arqueiro e se virou para enfrentar aqueles dois que…tentaram um movimento de ataque duplo. O exilado partiu para ofensiva e matou esse, e depois se envolveu em uma demorada luta contra o líder do grupo, Ru’i, que foi morto com um golpe na nuca. O exilado tem astúcia e teve sorte. Eu vou encontrá-lo e o tratei até Kerexu, vivo.

Batu se virou e disse:

– Você vai sozinho? É melhor pelo menos irmos em dupla para garantir.

– Não. Eu vou sozinho. Começem a investigar esse promotor. Vou seguir essa trilha e em breve o encontrarei. Será interessante.