Kami no Sensou – Cravo Branco (Volume 6: Prólogo)

Sem saber como reagir, Kuroshi acabou não fazendo nada até Kurona separar os lábios de ambos e se levantar.

“Ah, acabei exagerando, desculpe.”

Kurona se dirigiu até o quarto para se vestir, não era possível ver nada de onde Kuroshi estava, e ele permaneceu sentado no chão com o olhar distante.

Então realmente… Kurona…

Seu cérebro começou a voltar a funcionar. Imediatamente algumas memórias do passado vieram a sua cabeça.

Está certo… Naquela época, meus pesadelos costumavam serem centrados nela… Quando meus pesadelos com ela pararam?

Kuroshi estava se lembrando de quando chegou no Colégio Aohoshi, naquela época ele ainda tinha pesadelos que mostravam Kurona, quando ainda criança, sempre sendo morta por ele.

Era esperado, afinal, apenas pessoas importantes apareciam nesses pesadelos, não seria diferente… Com minha amiga de infância.

“Kuroshi? Ei, Kuroshi!”

A mente de Kuroshi, que vagava no passado, voltou ao presente com aquela voz nostálgica. Ele olhou para cima e viu que Kurona já estava vestida com o uniforme do Colégio Aohoshi.

“Tudo bem? Me ver foi tão chocante assim?”

Kuroshi se levantou com uma mão no rosto.

“Não, está tudo bem… Acho que não é tão surpreendente assim, mas eu não esperava te reencontrar aqui.”

“Realmente. Digamos que eu dei meu jeito, haha.”

Kurona, já arrumada, pegou sua bolsa e se dirigiu até a porta.

“Eh? Você está saindo?”

“Sim, até eu tenho o bom senso de notar seu estado, não acho que te fará bem dormir no mesmo quarto que eu hoje… Ou talvez faça, hmm… Enfim, vou dormir em um hotel hoje, depois conversamos melhor, tchau tchau, Kuroshi.”

Kurona abriu a porta.

“Kurona!”

E parou após o chamado de Kuroshi.

“… Obrigado…”

“Hm? Pelo o que?”

“Pelo aviso para ir até Julie e mostrar onde ela estava, só o seu poder seria capaz de fazer o aroma de uma flor chegar tão longe a ponto de eu sentir, certo?”

“Haha, fui descoberta? Em todo caso, que bom que acabou tudo bem. Então, estou indo.”

Sem mais nenhuma palavra, Kurona saiu e fechou a porta.

Kuroshi ficou um tempo olhando para a porta antes de ir até sua cama e deitar.

Então é por isso que as cartas que eu enviava para ela voltavam para cá… Como eu nunca percebi antes?

Kurona… Porque você voltou agora?

Sentimentos difíceis de organizam se acumularam no peito de Kuroshi. Ele ainda não sabe as motivações dela, nem se ela ficará de vez por aqui…

Kuroshi levou a mão até o peito, seu coração pulsava violentamente. Ele então levou a mão até a boca.

Mas logo depois sacudiu a cabeça para ambos os lados.

Não, não, não… Estou ficando confuso… É melhor não pensar nisso agora…

Kuroshi tentou pensar em outras coisas para esquecer o que acabou de acontecer.

Mas o que realmente vinha a sua cabeça eram memórias do passado.

Da sua infância, do início da sua adolescência.

Eu nunca a entendi completamente… Uma garota realmente misteriosa, sempre foi e pelo visto continua sendo tão enigmática quanto antes…

Mas são coisas do passado, eu decidi viver uma nova vida depois de tudo que aconteceu, e é nisso que preciso me focar agora…

Kuroshi se levantou e foi até o banheiro, chegou próximo a pia e jogou água no rosto, para assim então se olhar no espelho e—

“Huh? O que…”

Ao se olhar no espelho, ele se surpreendeu. Seu rosto estava como sempre, mas… Seus olhos estavam vermelhos. Não como “olhos vermelhos de sono” ou algo do tipo, suas pupilas estavam da cor vermelha, da mesma forma que ficam quando ele atinge 20% de poder.

Mas seu poder estava definitivamente abaixo dos 5%, então como—

Ei, Hades! O que isso significa?!

Hades? Responda!

… Nenhuma resposta, huh. O que diabos está acontecendo?

Decidindo que era melhor descansar por enquanto, Kuroshi foi se deitar.

As coisas definitivamente ficarão ruins…

Fechando os olhos, Kuroshi foi dormir com aquele pressentimento de que a tempestade estava apenas começando.

 

 

O mais belo e perfeito jardim, algo impossível para a humanidade, flores jamais antes vistas e com belezas sobrenaturais ocupavam toda a visão. O vasto céu azul oferecia luz solar por toda a área, que consistia apenas de um mar de flores.

Essas flores ficavam logo na frente de um grande portão negro e vermelho escuro, não havia muro nem nada do tipo, apenas um grande portão parado diante do jardim.

No meio do jardim, uma bela garota de longos cabelos negros dançava com os braços abertos.

Era difícil imaginar uma cena mais bela que essa, qualquer um ficaria com um sorriso no rosto ao ver algo assim.

Após um tempo dançando, a garota, Kurona, se jogou no chão, deitando no jardim.

“Kuroshi… Acho que essa é a hora perfeita para você saber toda a verdade, huh. Você vai me amar? Ou você vai me odiar?”

Kurona pegou uma flor do jardim e ameaçou começar a jogar “Bem me quer, mal me quer”.

“… Só brincando.”

Mas desistiu e colocou a flor de volta no solo, de alguma forma suas raízes se juntaram ao solo novamente.

Ela ficou séria enquanto olhava para o céu. Levantando uma das mãos na frente do seu rosto, ela cobriu parcialmente a luz solar. Uma onda de vento passava e mexia nas flores e trazia algum som para aquele mundo. Mas logo depois o vento parava e o silêncio tomava conta.

 

 

No dia seguinte. Kuroshi tinha um compromisso marcado de se encontrar com seus amigos na árvore que fica logo em frente ao edifício de ensino médio do Colégio Aohoshi. Hoje, Ryoka irá contar uma história do seu passado para todos, ou seria mais preciso dizer que é a história de Masaya?

“Kuroshi? Kuroshi!”

Enquanto caminhava em direção ao lugar indicado, Kuroshi, muito distraído, teve sua atenção chamada.

“Uh?! Ah… É você, Seira…”

Seira se aproximou por trás e lançou um olhar de curiosidade para a reação dele.

“Uhm? Estava esperando que fosse outra pessoa?”

“Er, não, só estava um pouco distraído mesmo, haha…”

“Entendo…”

Aquela resposta foi bem estranha se combinada com as reações meio sem jeito e desviando o olhar dele, mas Seira não persistiu no assunto.

Ao chegar no local, Ryoka, Masaya e Julie já estavam presentes.

Após os cumprimentos—

Ryoka começou a introdução.

“Bem, reuni todos aqui para contar uma parte do meu passado que vocês ainda não conhecem. Eu gostaria que vocês conhecessem mais sobre nossas histórias, e também me sentirei mais próxima de vocês sabendo que vocês realmente me conhecem e sabem tudo sobre mim.”

Kuroshi olhou para o chão com um olhar dolorido para as palavras de Ryoka, mas foi por apenas um instante.

“Pois então, tudo começou quando—“

E assim, uma história do passado começou a ser exposta para Kuroshi, Seira e Julie.

Kami no Sensou – Mudanças (Volume 5: Epílogo)

Os dias mais ou menos voltaram a ser como eram antes depois de tudo aquilo.

A princípio, depois da adrenalina do momento passar, Julie ficou bem constrangida de ficar perto de Kuroshi, Seira, Ryoka, Masaya ou qualquer outro dos seus amigos, apesar de ter sido uma experiência que a levou a evoluir, ainda era algo constrangedor de certa forma, mas rapidamente ela deixou isso de lado.

Em relação ao treinamento, eles continuaram treinando a terceira fase do controle de [Reisei], só que dessa vez com a Julie inclusa. Quando souberam que Julie também já tinha um bom controle sobre o [Reisei], todos ficaram surpresos, mas é possível que graças a isso ela tenha conseguido vencer a última luta.

Depois de alguns dias, as buscas de Karl, Thomas e Max geraram resultados, e eles encontraram a família de Kogane, devido ao seu nome japonês, eles puderam reduzir completamente a área de busca. Foi uma grande comoção pelas duas partes quando se reencontraram, Kogane não parecia se lembrar de nada sobre sua vida como [Avatar de Deus], apenas que se perdeu da sua família em outro país e que precisou morar na rua por muitos anos.

Tudo havia se ajeitado, e lentamente esses eventos recentes começaram a fazer parte do passado.

 

Em uma certa segunda-feira.

Na sala do conselho estudantil, um grupo de pessoas estava reunido. Mas não era o conselho estudantil atual (Kuroshi, Seira, Julie e Alicia), mas sim o grupo de sempre, com Ryoka e Masaya presentes, e Alicia ausente. Isso porque o horário de aula já havia acabado, e o forte laranja do sol se ponto atravessava as janelas da sala.

“Eeh, vocês combinaram isso?”

Julie comentou, surpresa. Ela estava sentada na cadeira do presidente do conselho estudantil, vestindo um sobretudo preto ao invés do blazer de sempre, que era uma vestimenta específica do presidente do conselho estudantil, além disso, ela estava usando óculos. Não é como se ela tivesse problemas de vista, talvez ela apenas tenha achado que pareceria mais “intelectual” dessa forma, ou talvez—

“Sim, como você estava ausente no dia, decidimos esperar você voltar.”

Ryoka respondeu, ela e Masaya vieram explicar para Julie o que tinha sido combinado enquanto ela estava fora. Que era contar toda a história que envolve o passado dos dois juntos.

Além de querer compartilhar tudo sobre si com seus amigos, havia algumas coisas que eles tinham o direito de saber.

“Ooh, entendi. E então, como vai ser?”

“Hoje já foi um dia bem cansativo, vamos combinar um outro dia, preferencialmente em um fim de semana, já que estudamos em locais diferentes.”

“Certo.”

Após tudo estar combinado, Ryoka e Masaya se despediram e todos e se retiraram.

“Vocês podem ir também, Kuroshi, Seira-senpai.”

“Uh? Você vai ficar bem terminando tudo sozinha?”

Kuroshi perguntou, preocupado. Até por fazer só alguns dias desde que tudo aquilo aconteceu, e eles estarem treinando todos os dias.

“Mas é claro! Vocês podem depender de mim, jovens!”

Levantando um punho fechado, Julie incentivou seus amigos, que por alguma razão, ambos reagiram com um olhar desacreditado.

“Sim, sim. Estamos indo então. Até amanhã, Julie.”

“Até amanhã, Julie.”

“Até amanhã, vocês dois!”

Kuroshi e Seira também se retiraram.

Ao saber que estava sozinha, Julie apoiou suas costas totalmente na cadeira e virou ela em direção as grandes janelas atrás dela, olhando a paisagem lá fora.

Um silêncio total tomou conta do lugar, sua expressão estava escondida. Alguns segundos depois, ela suspirou e virou novamente em direção a mesa.

“Hora de trabalhar!”

 

Após se despedirem de Julie, Kuroshi e Seira caminharam juntos até próximo ao dormitório feminino, onde eles se despediram. Kuroshi caminhava ao por do sol em direção ao dormitório masculino.

Contar todo o passado sobre você para seus amigos, huh…

Ele lembrava as palavras de Ryoka. O [Analyzer] é realmente uma técnica bem perigosa, Kuroshi de certa forma estava contente que Ryoka não esteja mais utilizando ela nos últimos tempos, com ela, Ryoka conseguia facilmente ver através dos outros, verdadeiramente um poder sinistro.

Me pergunto o que devo fazer.

Kuroshi parou e olhou para o céu. Um sentimento de culpa tomou conta dele naquele dia.

 

 

Mais alguns dias depois.

Após um dia cansativo de treinamento, Kuroshi voltou para o dormitório masculino. Diferente dos outros dias, Kuroshi faltou algumas aulas para ficar treinando, por isso ele estava voltando mais cedo que o normal para o seu quarto.

Ultimamente, toda vez que ficava sozinho, alguns pensamentos específicos vinham à cabeça de Kuroshi.

A conversa de depois de amanhã em que Ryoka e Masaya contarão sobre o passado deles.

Certas palavras e certos sentimentos que Seira irá eventualmente passar adiante para ele.

A razão para que tudo aquilo que aconteceu no dia do resgate de Julie fosse possível, principalmente.

Ao entrar no seu quarto, estava tudo escuro como de costume, exceto por um barulho.

Era o barulho de água caindo, que logo parou.

A luz do seu banheiro estava acesa.

Meu colega de quarto…!

Quanto tempo já faz? Desde que ele entrou no Colégio Aohoshi, ele nunca teve a chance de conhecer seu colega de quarto, quando perguntava para os outros, ninguém sabia dizer ao certo, uma situação bem estranha. É difícil imaginar que uma escola desse porte não tenha essa informação, então Kuroshi sempre suspeitou que seu colega de quarto fosse um [Avatar de Deus].

E agora, pela primeira vez, uma chance clara de descobrir quem esse cara é.

Ansiedade tomava conta de Kuroshi, ele se posicionou na frente da porta sem fazer absolutamente nenhum barulho. Certos pensamentos circulavam sua cabeça.

Será que é uma pessoa completamente normal e aleatória?

Ou talvez um [Avatar de Deus] aleatório?

Um plot twist e na verdade sempre foi o Masaya?!

Ou talvez um inimigo?

Enquanto considerava as varias possibilidades, Kuroshi aguardava. Esse evento poderia estar sendo usado por Kuroshi para esquecer das coisas que ele vinha pensando recentemente, mas de qualquer forma—

A porta se abriu.

Será que o tempo parou? Não havia mais reações, tudo estava parado, até a mente de Kuroshi parou de trabalhar, o brilho dos seus olhos desapareceu.

A pessoa na sua frente—Uma toalha enrolada no corpo, e outra secando o cabelo, uma garota. Longos e lindos cabelos negros que passavam da cintura, além de olhos profundamente negros.

Certo, numa situação normal, teriam muitas coisas para processar na cabeça de uma vez só. Primeiro o fato de uma das garotas mais bonitas já vista nesse território escolar estar só de toalha na sua frente, já que a informação que a visão fornece é geralmente o que funciona primeiro no cérebro. Segundo, ter uma garota em um quarto do dormitório masculino, que é totalmente contra as regras. Terceiro, saber como uma garota conseguiu um quarto no dormitório masculino.

No entanto, nada disso passou pela cabeça de Kuroshi naquele momento. O que realmente o deixou paralisado foi—

“Kurona?!”

A garota, que foi chamada pelo nome de Kurona, também parecia surpresa com o desenvolvimento, mas logo agiu, embora talvez não da maneira esperada.

“Kuroshi!”

Ela saltou em cima de Kuroshi, o abraçando, que em um momento de surpresa, não conseguiu manter o equilíbrio e os dois caíram. Sua mente realmente se recusava a funcionar.

Kuroshi estava basicamente sentado no chão com ela em cima dele. Colocando as mãos no ombro dele e se afastando um pouco, ela olhou diretamente nos olhos dele, nas partes mais profundas do seu ser.

“Eu queria poder olhar novamente para você assim…”

Após dizer o que queria dizer, Kurona aproximou o rosto e conectou os lábios dos dois, dando o mais sentimental beijo que poderia dar.

Uma grande mudança na situação do grupo principal estava para começar.

Eraba Remashita – (Volume 1: Capítulo 1)

Capítulo 1

O Poder Divino

 

Enquanto eu andava pelas ruas de Tóquio sem nada para fazer naquela noite um tanto peculiar, talvez por causa do ar obscuro e distorcido que havia no céu, como se o mundo estivesse sendo ligado a outra dimensão, algo aconteceu e tudo ficou escuro.

 

– Onde eu estou? O que aconteceu?

 

– Você foi o escolhido para mudar o universo e todos os mundos nele existentes – disse uma voz que vinha em meio a escuridão na qual eu me encontrava.

 

– Como assim escolhido? Você deve estar falando com a pessoa errada! Nunca fiz nada para que isso acontecesse. Espera, isso deve ser um sonho.

 

– Realmente você é um preguiçoso, porém eu venho observando atentamente este mundo, por ser o único no qual não há anomalias e estou em busca de alguém que sempre tome sábias decisões para ajudar os que necessitam – disse a voz que vinha da escuridão, cada vez mais próxima.

 

– Não achei ninguém com as características exatas que eu procurava, porém você é muito interessante garoto. Eu estive te observando e percebi que quando deseja algo, corre atrás e consegue, sempre almeja mais e mais. Porém diferente de muitos, você faz isso sem pisar em quem está a sua volta, ajuda a todos e cresce junto com eles. Acredito que se tivesse poder, nunca se contentaria com o que tem, sempre iria atrás de mais, porém você o usaria para o bem de outras pessoas. O que você não sabe é que há outros mundos além deste, que precisam de muito mais ajuda, pois vivem em guerras e assim boa parte de seus habitantes acabam morrendo. Meu objetivo é mudar esse cenário e trazer a paz, sem escolher um lado certo e sim convencendo todos a ficarem do mesmo lado – continuou.

 

– E-eu não estou entendendo direito, como isso seria possível para alguém como eu?

 

– Você entenderá assim que retornar Caed-kun. Apenas concentre-se nas imagens que em breve aparecerão em sua mente e verá a mágica acontecer.

 

– Q-quem é você? Além disso, como sabe meu nome?

 

Finalmente o dono da voz mostrou seu rosto, parecia mais jovem do que eu imaginava, devia ter no máximo uns 20 anos. Possuía cabelos bem longos e prateados e emanava uma aura calma que fazia com que parecesse a de uma divindade.

 

– Meu nome é Erictónio, sou filho de Atena e Hefesto e decidi tentar mudar o universo confiando em você para isso, antes que acabe ocorrendo a Grande Guerra, afinal, por ser um Deus, eu não posso interferir em ações humanas.

 

– Isso ainda não faz sentido algum para mim. E o que seria essa grande guerra? – Na verdade eu não sabia nem o porquê de eu estar conversando com uma ilusão.

 

– Um dia você descobrirá. Agora lhe mandarei de volta, não se esqueça do que te falei. Nos vemos em breve, conto com você – encerrou Erictónio mandando Caed de volta.

 

– Espere, me explique isso direito!

 

De repente, acordei em minha cama. Eu estava completamente suado, confuso e assustado.

 

– Isso só pode ter sido um sonho. Aliás como voltei para casa? Ah legal, agora estou falando sozinho, devo estar mesmo ficando louco.

 

Pra piorar ainda mais a situação, já é de manhã e hoje começa um ano escolar.

 

Era o início do meu segundo ano no Ensino Médio. O Colégio no qual estudo é o Gakushuin, um dos melhores de Tóquio.

 

Bom, apresentando-me, meu nome é Helik Caed e tenho 16 anos. Meu cabelo é loiro com uma grande franja e quanto a meu físico sou alto e estou em forma, mas digamos que meu estilo é um pouco diferente do dos outros daqui, talvez por eu ter nascido no Canadá, onde morei até meus 14 anos, mas sinceramente, esse meu jeito até que faz sucesso com as garotas.

 

Me mudei para o Japão através de um programa de intercâmbio, afinal sempre foi um dos meus sonhos conhecer a Terra do Sol Nascente. Após o termino do primeiro ano, eu deveria ter retornado ao Canadá, mas continuei aqui e decidi não voltar mais. Isso porque me identifiquei muito com o país e fiz diversos amigos. Além disso eu nunca havia me dado bem com minha família e eles não viram problemas quando eu pedi para ficar, apenas passaram a me mandar dinheiro para cobrir meus gastos.

 

Na escola apesar de não me esforçar muito, minhas notas sempre foram muito altas e eu me dou muito bem com todos, principalmente com as garotas, o que é ótimo.

 

Retornando, após aquela espécie de visão que eu tive, acabei não conseguindo prestar nem um pouco atenção nas aulas, a única coisa que eu queria entender o que significou tudo aquilo. Por algum motivo eu não consegui apenas deixar isso de lado.

 

PEEEEEEEENNN!!! – finalmente o sinal pro almoço.

 

– Bom dia Caed-kun – disse Hayashi Kanisa, uma linda garota de olhos azuis e cabelos castanhos e longos, além de belos seios, coisa que sempre me chamou a atenção. Ela era a minha melhor amiga desde que nos conhecemos no início do ano anterior, em parte por sermos vizinhos, mas principalmente por ela ser sido a minha primeira amiga desde que cheguei aqui. Por esse motivo, muitos achavam que tínhamos um caso, mas isso nunca havia acontecido, apesar de parecer que ela gosta de mim.

 

– Bom dia Kan-chan.

 

– Quer almoçar no terraço comigo hoje?

 

– Claro, aliás, quero te contar uma coisa.

 

Nessa hora percebi que muitos na sala começaram a olhar em minha direção. Deviam estar imaginando o que eu iria falar para Kanisa, como sempre. Então a puxei até o terraço para irmos logo, afinal eu queria muito falar sobre meu sonho.

 

– Então Caed-kun, o que você tem pra me falar? – Por algum motivo ela estava corada, além de parecer muito mais gentil do que geralmente é.

 

– Eu tive um sonho estranho essa noite e quero sua opinião. – Então ela, a garota mais bipolar que conheço e que estava toda feliz segundos atrás, parou de sorrir e me olhou com ódio. Acho, só acho, que ela esperava outra coisa.

 

Enfim, decidi não ligar muito para isso e contei tudo o que aconteceu em meu sonho, detalhadamente, afinal Kanisa era a pessoa com quem eu sempre pude contar, mas ela não parecia estar prestando atenção ao que eu dizia.

 

– Então você acha que isso possa realmente ter acontecido?

 

Nessa hora ela levantou-se olhando fixamente para mim.

 

– Idiota! – murmurou num tom triste e bravo, e foi embora sem me responder.

 

Apesar de eu imaginar o que ela esperava que eu dissesse, Kanisa era mais como uma irmã para mim.

 

Depois dessa, acho melhor eu nem voltar para a sala, não que seja apenas um motivo para matar aula nem nada, vou ficar aqui e pensar em como consertar tudo sem deixá-la triste novamente, é isso.

 

Em vez disso, acabei voltando a pensar em minha visão, quando, de repente, vieram à minha mente imagens de um lugar e de pessoas que eu nunca havia visto. Após isso escutei uma frase parecida com a que Erictónio havia dito: “Imagine-se neste local se quiser começar a mudar o universo”. Então eu comecei a me imaginar naquele local, mas acabei indo parar novamente no meio do nada e lá estava Erictónio.

 

– Você tomou a sua decisão, estou feliz, vejo que escolhi a pessoa certa. Bom, agora vou tirar aquela sua dúvida dizendo como você será capaz de mudar o mundo. Eu lhe darei todos os 3 poderes que possuo, não serão o suficiente para salvar todo o universo é claro, porém confio em você para buscar novos poderes e habilidades em outros mundos. É por isso que eu precisava de alguém que almejasse se tornar cada vez mais forte.

 

– Isso é loucura cara!

 

– Me escute e irá entender. Bom, dentre os poderes, o primeiro te tornará capaz de aprender qualquer tipo de magia ou habilidade, isso irá facilitar para que se torne cada vez mais poderoso. É o poder da cópia. Mas de qualquer forma é preciso muito treino e conhecimento para copiar cada habilidade, será um caminho árduo. Os outros mundos são repletos de seres, objetos e diversas outras coisas sobrenaturais, então você poderá aprender muitas coisas em cada lugar. O segundo, te tornará especialista no uso de algum tipo de arma que você escolher.

 

– Espera, como assim?! – A cada palavra dele, eu apenas ficava mais confuso, mas também mais convencido.

 

– Espadas, machados, lanças, arcos, armas de qualquer tipo. A escolhida será a que você dominará melhor que qualquer um.

 

– Espada. – Foi a primeira coisa que veio à minha cabeça e instantaneamente eu falei, não sei porque, mas fiquei com uma enorme vontade de ter habilidade com uma espada.

 

– Sua determinação e confiança são realmente incríveis garoto – enalteceu o jovem Deus.

 

– Calma, ainda estou confuso e sem entender direito. Pra falar a verdade, eu realmente acho que isso é apenas um sonho, mas apesar de tudo, parece legal sonhar com a possibilidade de mudar o mundo.

 

– Esse é o espírito garoto. Pra te convencer que isso é real, lhe darei uma espada feita pelo meu pai. Ela é de titânio e reforçada por garras de dragão, uma espada indestrutível e que corta tudo que vê pela frente, a melhor espada já feita dentre as armas não sagradas.

 

– Não… sagradas?! O que seriam então as sagradas?!

 

– São armas feitas para Deuses, que possuem um poder acima do normal e são capazes de matar até mesmo divindades, porém é necessário muito potencial para conseguir usufruir do poder delas, caso contrário não passarão de armas normais. Além disso elas consomem sua força vital, então é quase impossível para humanos normais dominarem-nas.

 

– Hmm… E há alguma espada sagrada?

 

– Sim, a mais forte delas é a Excalibur, assim como a da mitologia. Se você quiser obtê-la, terá um grande desafio pela frente, tanto para consegui-la, quanto para utilizá-la, mas se existe algum humano capaz disso, é você. O mundo que você viu antes de vir até mim, chama-se Realm of Swords, é onde a Excalibur se encontra.

 

– Como grande fã da mitologia, seria bem legal ter uma espada como essa em mãos.

 

– Até eu gostaria haha. Enfim garoto, o terceiro e mais importante poder, é o de se teletransportar entre mundos. Para usá-lo você precisará apenas imaginar o lugar de um mundo para o qual deseja ir e conseguirá viajar até o mesmo.

 

– Acho que tem um erro nisso. Eu não conheço outros mundos para poder imaginá-los.

 

– Se você aceitar essa missão, por meio de um tipo de telepatia, você passará a receber imagens desses lugares quando estiverem em guerras. Quero que você viaje para esses diversos mundos e busque a paz em cada um, mesmo que precise tomar medidas drásticas. Além disso, quero que se torne a pessoa mais poderosa do universo.

 

– Aliás, eu já ia me esquecendo, o terceiro poder possui algumas regras, então você deve tomar cuidado – alertou-me.

 

– E quais seriam?

 

– Primeiro, você não pode ser visto se teletransportando. Se as pessoas erradas descobrirem sobre seus poderes, precisarei retirá-los imediatamente, então caso precise contar a alguém, deve ser apenas para a pessoa em quem você mais confia. Segundo, o tempo continuará correndo onde vive, então você precisará inventar alguma desculpa para justificar sua ausência em seu mundo. Terceiro, você pode teletransportar no máximo uma pessoa com você, um número além disso lhe causaria efeitos colaterais. E por fim, quarto e mais importante, você só pode fazer dois teletransportes no mês, ida para um mundo e volta para o seu mundo, ou seja, você irá apenas a um lugar diferente por mês, entendeu?

 

– E-está bem, acho que entendi. – Por algum motivo, eu estava passando a acreditar em tudo que era dito, era tudo muito real e surreal ao mesmo tempo e não era só questão de acreditar, eu realmente queria que tudo aquilo realmente estivesse acontecendo.

 

– Muito bem, então, você irá aceitar a sua missão?

 

– Não sei. Tipo, eu quero, mas… como vou saber que tudo isso é verdade?

 

– Você entenderá assim que voltar, não se preocupe, eu te darei uma prova de que tudo isso realmente aconteceu.

 

– Ok, se eu tiver uma prova de que isso é real, irei aceitar essa missão.

 

 

Até o próximo minna ^.^

Nota de Republicação

NOTA DE REPUBLICAÇÃO

 

 

Caros leitores,

 

publicamos essa nota para avisar a todos que o autor da light novel original, Eraba Remashita, nos pediu para republicarmos sua obra desde o primeiro capítulo pois tratou de reescrever trechos e acrescentar conteúdo de forma que, vocês leitores, pudessem apreciar ainda mais a obra.

Obviamente ficamos muito orgulhosos com tal compromisso e atendemos ao seu pedido com muita satisfação. Por esse motivo, recomendamos que os leitores releiam, desde o início, Eraba Remashita, aqui no ItadakiNovel.

O primeiro capítulo será publicado dentro de instantes enquanto o segundo e o terceiro virão, cada um, em 15 e 30 dias respectivamente sendo que o terceiro capítulo virá acompanhado de uma pequena carta do próprio autor direcionada aos leitores. A partir do quarto capítulo a obra terá periodicidade mensal.

 

Atenciosamente,

Equipe ItadakiNovel

Kami no Sensou – Meu Próprio Destino (Volume 5: Capítulo 11)

Ao abrir os olhos, tudo que era possível ser visto era uma vastidão branca. Ela estava estirada no chão com os braços abertos. Levantando a parte superior do seu corpo, ela notou que o chão, assim como o “céu”, era totalmente branco e infinito. Era difícil saber se aquilo era o céu ou um teto, ou até onde ia, o único fato era de que tudo era branco. Coçando seus cabelos ruivos em confusão, a garota se levantou.

“Onde eu estou?”

“Julie.”

Ao ouvir seu nome ser chamado, a garota, Julie, se virou para a direção da voz, arregalando os olhos e ficando boquiaberta com o que ela via.

“… Liliana onee-chan?”

“Sim, já faz um tempo… Embora você provavelmente não tenha essa noção.”

“Você é…!”

“Certo, a [Avatar de Shai].”

Ao confirmar suas duvidas, Julie correu e abraçou Liliana.

Que sentimento estranho. Julie sabe que sua irmã está nesse momento na casa dos seus pais, mas ela também está aqui. Um fenômeno que só pode existir graças a [Guerra Divina], a capacidade de criar duas entidades que consistem em uma única pessoa. Ou talvez seja mais preciso dizer que a vida comum e a vida de um [Avatar de Deus] são separadas, embora um [Avatar de Deus] vá lembrar da sua vida comum, alguém que morre na [Guerra Divina] realmente “morre” no sentido de ter uma parte da sua vida apagada. Por isso, a Liliana que está na frente de Julie é única da sua própria forma, alguém que sacrificou sua vida para salvar seus irmãos, algo que não existe para a outra Liliana.

Ao se separar de Liliana, Julie se afastou um pouco, existiam outras coisas que ela precisa se preocupar agora.

“Que lugar é esse? O pós-vida?”

“Bem, de certa forma.”

Liliana olhou para cima por um momento e depois olhou para Julie novamente.

“Pode se dizer que aqui é o caminho entre a vida e a morte, ou algo do tipo.”

“Então porque você…”

“Para ajudar meus irmãozinhos, óbvio.”

Dando um passo a frente, Liliana colocou a mão na cabeça de Julie.

“O que isso quer dizer?”

“Nos meus últimos momentos… Quando eu me sacrifiquei para salvar vocês do ataque de Kogane, eu criei uma contramedida para garantir a segurança de vocês. Eu não sabia se vocês conseguiriam fugir em segurança, então usei meu poder pela última vez em vocês quatro, para caso morressem, eu pudesse mudar esse destino mais uma vez. Felizmente nenhum de vocês apareceu… Até agora.”

Julie ficou surpresa por um momento, mas depois colocou as duas mãos na cabeça e começou a se descabelar.

“Waaah, não pode ser!!”

“Hmm??”

“Se eu soubesse disse eu não precisaria me preocupar já que o Thomas onii-chan seria revivido e poderíamos lutar todos juntos contra o Kogane!”

“Não, isso é algo meio cruel de se dizer haha. Espere, vocês estão enfrentando o Kogane?!”

Vendo o choque de Liliana, Julie se lembrou de coisas desagradáveis.

“Ah… Sim… Ei, Liliana onee-chan…”

E então, Julie contou toda a história de Kogane para sua irmã mais velha. Para a surpresa de Julie, Liliana não parecia tão surpresa com as revelações.

“Eu fiz algo bem ruim para ele, não é?”

Liliana comentou com um sorriso autodepreciativo.

“Sim, mas… Liliana onee-chan só tinha 8 anos na época, era impossível saber de algo assim!”

“Realmente, naquela época eu não agia totalmente dentro de mim, e sim guiada pelos efeitos dos meus poderes… Porém, quando eu despertei totalmente como uma [Avatar de Deus] 4 anos mais tarde, eu cogitei a hipótese de ter afetado o destino de outras pessoas. Afinal, existiam outros nomes lendários envolvidos na mitologia das quatro bestas sagradas, que eu desconhecia quando tinha 8 anos, mas depois que descobri sobre eles e resolvi investigar, já era tarde demais para encontrar algo.”

O Dragão Amarelo do Centro, apesar de fazer parte do mito das bestas sagradas, não é uma figura que costuma ser muito lembrada e usada como referência, tal que as informações sobre ele não são tão extensas, diferente das quatro demais bestas. Todas as mitologias funcionam como diversas histórias diferentes, histórias essas que, assim como todas as outras, carregam personagens mais importantes, e personagens menos importantes, a conexão entre as quatro bestas é muito alta, mas o Dragão do Centro nem tanto.

Liliana deu uma pausa antes de continuar.

“Honestamente, quando Kogane apareceu e se apresentou, eu suspeitei que era realmente minha culpa por tudo que estava acontecendo. Mesmo que ele não tenha dito com clareza, ficou bem explicito que ele veio fazer eu colher o que plantei.”

“Onee-chan…”

Julie não tinha palavras de consolação para oferecer a Liliana, era algo que ela apenas tinha que aceitar.

“Mas, onee-chan! Tem algo estranho em toda essa história, porque ele iria nos deixar viver, se ele realmente carregava tanto rancor, ele teria matado todos nós logo em seguida!”

Na mente de Liliana, outras coisas pesaram mais ainda nas palavras de Julie. Por causa daquela situação em que eles estavam, ela nunca pôde contar isso para eles, mas…

Realmente… Algo não está certo nessa história… As palavras dele naquele dia…

“Porque você só apareceu agora? Depois de todo esse tempo?”

“Eh? Demorou muito para eu conseguir convencer meus pais a me trazerem para cá. Eu moro bem longe, na China pra ser mais exato, sabia? Não é barato não!”

“Já está na hora de terminarmos isso, preciso voltar para casa antes que meus pais fiquem muito preocupados.”

Liliana se lembrava dos diálogos com Kogane.

Nada daquilo faz muito sentido sabendo a história que Julie me contou. Parando para pensar “Kogane” sequer é um nome chinês, um [Avatar de Deus] conseguiria atravessar uma distância dessa sem problemas, e o mais importante… Se ele se perdeu da sua família, como ele mesmo disse, porque naquele dia ele dizia que tinha uma família?

“Onee-chan?”

Liliana estava com uma das mãos no queixo, bem pensativa.

“Ah… Talvez…”

“Hmmm?”

“Escute bem, Julie. É possível que a resposta desse mistério seja mais simples e surpreendente do que você imaginava, preste atenção—“

Ao ouvir a resposta que Liliana encontrou, Julie realmente ficou bem surpresa, era até difícil de acreditar. O que realmente havia por trás de Kogane, algo que Julie nunca imaginou que seria.

“Agora, você já ficou tempo demais aqui, Julie. Está na hora de voltar, venha, irei alterar seu destino mais uma vez.”

Liliana estendeu a mão para Julie, pronta para usar seu poder novamente.

Julie não queria se separar da sua irmã novamente, mas não havia outra escolha. Levantando sua mão lentamente, ela dirigiu sua mão em direção a mão de Liliana. Mas—

Memórias e mais memórias passavam pela cabeça de Julie. Tudo que sua irmã passou na infância, todas as coisas que aconteceram, seus irmãos, Kogane, toda a situação atual e os motivos de tudo isso ter acontecido.

A mão de Julie parou.

“Julie?”

“… Desculpe, Liliana onee-chan.”

Julie afastou sua mão e se virou de costas para Liliana.

“Eu não quero mais que você use esse poder, aliás, você não devia mais usá-lo. Já causamos dor e sofrimento demais a muitas pessoas com toda essa alteração de destino.”

Liliana abaixou a mão, tal como abaixou a cabeça.

“Onee-chan, eu vou seguir meu próprio destino a partir de agora, assim como você queria que seguíssemos! Voltarei para lá com minhas próprias pernas e vencerei o vilão em uma luta épica, como uma heroína!”

Julie se virou, sorridente, e levantando um punho fechado, mostrando sua determinação, antes de se virar novamente e caminhar adiante. A frente de Julie havia surgido uma massa de escuridão, o caminho de volta. Aos poucos Julie foi caminhando em direção a escuridão e desaparecendo.

“Realmente se passou muito tempo, ela realmente cresceu… Vá Julie, tenha seu momento como protagonista dessa história.”

Vendo sua irmã mais nova seguir seu próprio caminho com um sorriso no rosto, Liliana… A [Avatar de Shai] finalmente pôde descansar em paz.

 

 

“Está na hora de colocar minha estratégia de fuga em ação.”

Kogane murmurou enquanto observava todos os seus próximos oponentes, completamente curados, do céu.

Suas chances de vitória contra todos aqueles [Avatares de Deuses] é zero. Porém, ele já sabia disso desde o início, e estava pronto para ser morto no pior dos casos, mas aparentemente o estado de choque deles funcionou a seu favor. É provável que se ele fugir agora, ninguém irá perceber.

No chão, o ar pesado tomava conta da área. Os irmãos Alberta em lágrimas, Kuroshi e Seira olhando para o chão, desacreditados…

“… Ryoka-chan?”

Masaya olhou para Ryoka, que olhava fixamente para o céu, de boca aberta. Seus olhos refletiam uma luz.

Ao acompanhar o olhar de Ryoka, Masaya ficou chocado.

A luz ficou mais forte, e aos poucos, todos que olhavam para o solo, desolados, começaram a ser atingidos pela luz, que ofuscava a luz solar. Todos olharam para o céu.

Kogane, também chocado, olhava para frente, na altura que ele estava, havia uma grande esfera de luz laranja avermelhada tomando a forma de uma grande ave de fogo.

Vendo aquilo, Ryoka murmurou.

“… Fênix…”

No centro daquela grande ave de fogo—

“JULIE!!”

Max gritou o que estava na cabeça de todos.

A ave de fogo se desfez em várias partículas, revelando a figura no centro da ave, Julie.

Sua aparência estava bem diferente do normal, os seus olhos antes vermelhos se tornaram alaranjados e um pouco brilhantes, lembrando as chamas. Seus cabelos antes ruivos e amarrados em um rabo de cavalo, agora eram loiros com a parte frontal e de trás do cabelo da mesma cor dos olhos (Alaranjado brilhante), além disso, seus cabelos agora eram muito mais longos, quase do tamanho do seu corpo e estavam obviamente soltos. Seus 30% de poder alcançados eram iminentes.

Aquela aparência fantástica relembrou a todos que Julie jamais havia lutado com tudo até hoje. Um reflexo da sua mentalidade antiga, sempre dependendo mais dos outros do que de si mesma, impedindo ela de lutar uma luta nessa escala.

“COMO?! COMO VOCÊ ESCAPOU DO MEU PODER?!”

Kogane não conseguia acreditar no que via.

Era natural, seu poder era quase indefensável, e ela foi atingida em cheio. Era impossível prever a existência de uma técnica como a [Mansion Number 23: Guǐ (Ghost)].

A [Mansion Number 23: Guǐ] garante a capacidade do usuário conseguir reviver caso seja morto após a ativação da técnica. Uma técnica crucial que só pode ser usada uma vez por dia, e que garante uma nova chance para mudar o rumo da batalha. Seu fim como [Avatar de Deus] é impedido pelo efeito da técnica, e por isso o corpo de Julie não reapareceu após a [Dimensão Reversa] ter sido fechada, pois ela estava fadada a voltar, quebrando as leis da [Guerra Divina].

Agora é a minha vez…!

Julie recriou sua lança e reutilizou seu [Yí], recriando as asas de fogo, e voou em direção a Kogane em uma velocidade impressionante.

Atacando ferozmente, Kogane tentava se defender com seu cajado, mas sentia dificuldade em cada golpe.

Conseguindo uma abertura, Julie deu um chute no peito de Kogane e jogou ele para longe.

“Vamos acabar com isso de uma vez, Kogane! A partir de agora, nossos destinos serão apenas nossos!”

“NÃO ME VENHA COM ESSA!!!”

Kogane, enfurecido, se cobriu em uma esfera levemente transparente—O poder de vácuo. A esfera começou a se expandir mais e mais, consumindo a existência de tudo que a tocava.

“Eu já sei a verdade por trás de você, Kogane, eu já sei porque você nos deixou viver naquele dia!”

Se mostrando assustado ao ouvir aquilo, Kogane estourou de vez.

“NÃO BRINQUE COMIGOOOOOO!!!!!”

Colocando toda sua energia nesse ataque, Kogane tentou mandar tudo pelos ares.

Ryoka se preparou para evacuar todos, mas—

Julie apontou uma das suas mãos em direção a todos no chão, indicando para eles “ficarem tranquilos”.

“[Mansion Number 25: Xíng (Star)]!!”

Saindo diretamente do seu peito, uma esfera de energia—Uma esfera de fogo começou a se expandir e engoliu Julie, aumentando muito rapidamente.

De acordo com velhos textos chineses, o caráter chinês para “estrela” (xing 星) não só se referia às luzes no céu noturno, mas também tinha o significado de 布 (bu) que significava propagação ou disseminação. Outros textos antigos deram o significado da estrela como 散 (san) que teve o significado similar para distribuir ou doar.

Apesar de não ser exatamente esse o ponto, a técnica de Julie funcionava de maneira similar—

O nascimento de uma estrela acontecia no céu, e a estrela ia crescendo infinitamente. Talvez pelo controle de Julie sobre a técnica, mas o calor que a estrela emitia ao invés de queimar todos que estavam no chão, aquecia seus corações.

Afinal, nesse exato momento, uma luta entre [Avatares de Deuses] está acontecendo fora da [Dimensão Reversa], há riscos deles afetarem os humanos comuns, mesmo estando lutando no meio do nada.

A estrela e a esfera de vácuo se colidiram.

A esfera de vácuo emitia uma certa frieza e um grande vazio, a estrela emitia calor e fortes sentimentos, era quase como—Uma colisão de corações.

Assistindo aquela cena incrível, depois do que acabaram de passar, todos se sentiram atraídos pela luz. Kuroshi se levantou, sem conseguir mais se segurar.

“VAI, JULIE!!”

Os outros olharam surpresos para Kuroshi, que usou toda sua voz para gritar. Sorrisos tomaram conta nos rostos de todo mundo, que o imitaram.

“VAI, JULIE-CHAN!!”

“VAI, JULIE!!”

Todos começaram a gritar as mesmas palavras.

Você consegue ver, Liliana onee-chan? É aqui que eu quero estar!

Colocando um grande sorriso no rosto, Julie colocou tudo de si no seu último ataque.

“AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!!!”

A esfera de vácuo consome, a estrela aumenta infinitamente, um impasse era criado. Era definitivamente uma batalha de determinação, uma batalha de sentimentos. Rachaduras surgiram na esfera de vácuo. As vozes de todos atingiam Kogane como navalhas, ele entedia sua posição nessa batalha.

A pessoa que perdeu tudo que tinha, cresceu em meio a solidão e a desgraça, foi consumido pelos sentimentos negativos, em uma batalha contra aquela garota, que conseguiu encontrar seu próprio caminho, se desprender da sua própria miséria, a diferença entre os dois se encontrava na superação.

Kogane não vai ser derrotado por Julie, vai ser derrotado por si mesmo. O que ainda há para ele? Qual é o seu futuro? Viver essa vida infortuna? Não existe motivo para ele sair vitorioso, comparado com o futuro da garota a sua frente—

A esfera de vácuo quebrou em milhares de pedaços, a estrela, crescendo mais e mais, o engoliu completamente.

 

 

Subitamente, um estranho fenômeno aconteceu na Terra, toda a Ásia podia ver uma pequena esfera de luz no céu, mesmo durante o dia. A maioria saiu das suas casas para observar e filmar.

Em uma certa casa onde uma família observava—

“Liliana? Porque você está chorando?”

A mãe de Liliana, preocupada, perguntou. Liliana não conseguia conter as lágrimas enquanto observava aquela esfera de luz.

“Não faço ideia, mas… Estou simplesmente feliz.”

Seus pais, sem entender, apenas olharam novamente para aquela esfera de luz que viria a desaparecer logo depois.

 

 

Kogane foi atingido completamente pelo ataque, seu corpo estava desaparecendo lentamente.

No meio de toda aquela luz, uma sombra veio voando em sua direção.

Sem hesitar nem parar pra nada, Julie foi direto até o corpo de Kogane e o abraçou.

“Eu sei que não é o bastante para compensar tudo o que aconteceu, mas desculpe… Apesar de ser tão normal para os humanos ferirem outras pessoas sem perceberem, para nós, [Avatares de Deuses], a escala acabou sendo um pouco demais.”

“…”

As pernas de Kogane já haviam desaparecido, seus braços também estavam sumindo aos poucos, nenhuma palavra saia da sua boca, ele estava sério.

“E obrigado… Você se separou da sua família, mas fingia ter uma família normalmente por medo de usarem isso contra você, não é? Já que naquela época você ainda estava traumatizado com aquilo…”

Julie começou a dizer o que Liliana disse para ela.

“… No fim, você usou essa mentira para nos deixar vivos, pois ao ver nossa família unida daquela forma, mesmo com a alteração do destino, e o sofrimento de perder a Liliana onee-chan, lembrando da sua própria família, você se comoveu e desistiu de matar todos nós, por isso, obrigado.”

E aquilo acabou sendo o motivo da sua derrota. Quase como se o destino estivesse ironizando o que sobrou de bondade no seu coração.

“Nós não vamos deixar isso acontecer novamente, então, você pode ser livre agora, deixe tudo com a onee-chan aqui!”

Soltando Kogane, que já estava prestes a desaparecer, sem demonstrar seus olhos, ele pela primeira vez demonstrou um sorriso genuíno, e suas palavras finais foram:

“Eu te odeio.”

Julie só conseguiu dar um sorriso sem jeito para aquilo, e Kogane desapareceu completamente no meio da estrela, que desapareceu junto dele. O corpo de Kogane reapareceu no chão, mas ao invés do Kogane que ela conhecia, apareceu um rapaz de cabelos castanhos e roupas comuns, a personificação dourada desapareceu completamente.

Agora que a influência da Liliana onee-chan se foi, vamos fazer o possível para encontrar sua família, Kogane.

Julie sorriu gentilmente, mas logo depois deu seu clássico sorriso mais expressivo e fez o sinal de vitória para os seus amigos.

Descendo até o solo, todos se aproximaram, exceto Max.

Entre abraços da Seira, e carinhos na cabeça da Ryoka, todos se acalmaram finalmente. Kuroshi se aproximou dela.

“Julie, antes de voltar ao normal, vamos nos conectar através do [Soul Linker], assim evitará que aconteça algo similar como o que aconteceu comigo na luta contra Noah.”

Usando o [Soul Linker], é possível aliviar a carga do uso excessivo de poder dividindo com todos os conectados. Fazendo todo o processo, Julie conseguiu voltar ao normal sem sofrer efeitos colaterais. Ela pediu um momento para todos e se dirigiu até Maxwell.

“Onii-chan.”

“Sim, eu entendo.”

Palavras não eram necessárias.

Max primeiramente se dirigiu até Kuroshi e os outros, e se curvou imediatamente.

“Me perdoem pelas ações anteriores, não sei o que o futuro nos guarda, mas não irei mais tentar mudar o destino de ninguém forçadamente.”

Kuroshi deu um passo à frente.

“Podemos deixar tudo isso para trás, mas acho que há alguém que precisa mais desse pedido de desculpas do que a gente.”

Max acenou positivamente com a cabeça e se virou para Julie novamente.

“Julie, me perdoe. Honestamente, pude ver que você é mais forte que eu, não existe razões para eu interferir em nada mais.”

“Hehe, está tudo bem, onii-chan. Sei que queria o meu melhor, apesar dos meios duvidosos. Mas não se preocupe, independente de qualquer coisa, agora que me tornei a protagonista, posso chutar até mesmo a bunda do Kuroshi se for necessário!”

“Ei!”

Kuroshi chamou a atenção de Julie, o que fez todos rirem.

Em seguida, Thomas fez questão de pedir desculpas para todos, assim como Max fez. Embora Karl também tivesse tentado fazer o mesmo, ele foi impedido por Ryoka dizendo que eles entendiam a posição de Karl na situação, e que não era necessário se desculpar.

“Nós vamos voltar para o Colégio Aohoshi agora, o que vocês farão?”

Ryoka perguntou para o trio Alberta. Karl tomou a frente como o mais velho.

“Iremos procurar pelos pais de Kogane para reunir a família novamente, e depois provavelmente ficaremos na nossa casa no Canadá.”

Carregando Kogane, que estava desamaiado, Karl se preparou para ir embora junto de Max e Thomas. Eles se despediram uma última vez de Julie e partiram.

Julie já havia coletado seus pertences e estava pronta para finalmente voltar a sua vida comum.

Kuroshi, Seira e Ryoka estavam com um sorriso no rosto, vendo que recuperaram sua preciosa amiga.

Correndo e passando todos os quatro, Julie acenou para todos antes de levantar voo.

“Vamos pessoal, de volta para casa!”

Voando na frente com um grande sorriso no rosto, Julie fechou os olhos por um momento.

A partir de hoje eu preciso corresponder as expectativas que a Ryoka-senpai colocou em mim, e agir como uma verdadeira líder substituta.

Sentindo uma grande mudança no seu interior, Julie abriu os olhos novamente e olhou toda a vastidão azul na sua frente. Feliz pelas amizades que conseguiu, amigos que a levantaram a um novo patamar, agora ela pode voltar para sua segunda casa como alguém livre das amarras do passado.

 

A esfera de luz no céu foi dita ser “só um balão” pelo governo, mas muitas pessoas desacreditaram e postaram filmagens na internet dizendo terem visto óvnis.

Kodomo no Haiburiddo (Volume 3 – Capítulo 5)

Finalmente acabou… pelo menos por agora. Meio que sem pensar muito, ando de volta até a sala com toda a adrenalina de agora a pouco ainda a tona, o que acaba me deixando muito fixado ao redor pra conseguir relaxar. Sinto como se conseguisse sentir qualquer coisa se mexendo ao meu redor, e isso é muito irritante. Imagine como se estivessem te cutucando de todas as direções com agulhas sem parar, ao mesmo tempo que usam algumas caixas de som no volume máximo com estática. Depois de algum tempo dessa tortura, o efeito finalmente começa a passar e meus sentidos começam a voltar ao normal… até que alguém cai do meu lado.

– Uuuuuhhhh… – é a Karin, que caiu de cara no chão.

– Hã… o que cê tá fazendo?

– E-eu fui chamar você, já que parecia estar preocupado com alguma coisa, mas você saiu da frente na hora que coloquei a mão no seu ombro… – ela se levantou e começou a massagear o nariz.

– Do que cê tá falando? Eu nem me mexi.

– Se mexeu sim, provavelmente é o efeito colateral do que você fez dentro do Hogo dōmu . – a Tatsumi logo a frente, com os fones ainda na cabeça.

– Como assim?

– Ela tá certa, cê tá sentindo os efeitos do treino de agora a pouco. Sua dor e medo provavelmente sumiram em um nível consciente durante o processo, mas seus sentidos, a adrenalina e a tensão do corpo continuam aí. – a Haruka diz, na cadeira ao lado.

– … cês combinaram pra terem essa sincronia enquanto eu tava viajando ou o que? E o que diabos isso tudo tem a ver com a sua queimada sádica?

Ela revira os olhos, obviamente sem paciência de responder ou explicar.

– Pra um idiota como você, é mais fácil mostrar… – então ela pega uma borracha e joga na minha direção.

Engraçado que ela parecia vir especialmente devagar, então eu achei que nem valeria me dar ao trabalho de sair da frente… até meu corpo se mexer sozinho. Quando percebo, já estou de pé e alguns passos pro lado e a borracha passa ao lado rápido, acertando a parede inofensivamente e caindo no chão. Minha respiração tá acelerada, e consigo sentir a tensão nos músculos mostrando como meu corpo ficou estressado rápido.

– Mas que diabos…?

– Eu te falei, não falei? Aquilo ali não foi puramente por sadismo meu ou só pra tentar testar alguma coisa: era pra “marcar” os reflexos instintivamente no seu corpo. Você pensa demais pra agir e reagir, o que acaba inibindo seus reflexos e sua velocidade de serem usados a 100%. Ainda não tá perfeito, já que os efeitos colaterais tão aparecendo e mesmo o tempo dos seus instintos não estão nem perto do ápice, mas isso é uma amostra pequena.

Minhas mãos estão tremendo, e minha respiração ainda tá rápida… tenho que esperar uns 10 segundos até conseguir me estabilizar e conseguir falar direito de novo, e uma questão surge na minha cabeça na hora, como diabos a gente tá falando isso no meio de uma aula? Começo a olhar ao redor sem pensar muito, e vejo que na verdade o sol já está se ponto e não tem mais ninguém dento da sala.

– Deixa eu adivinhar, você tá pensando que a gente falou tudo isso em voz alta no meio de uma multidão? Não seja idiota, óbvio que esperamos todos irem.

– Mas como o tempo passou tão rápido…?

– Você ficou as últimas duas horas com uma das mãos na cabeça e com uma cara de sofrimento, e uma garota até tentou falar com você depois do horário letivo, mas cê simplesmente não respondeu.

– Eu passei todo esse tempo tentando me recompor pra tirar todo aquele barulho e sensações estranhas que tavam me bombardeando.

– Hmm… que sensações…? – a Karin pergunta.

– Era como se… é difícil de explicar, mas é como se todos meus sentidos tivessem aumentado em mil vezes, e isso tava quase me enlouquecendo. O menor barulho e menor movimento pareciam que tava tendo um festival inteiro na minha cabeça… peraí, cê não passou por isso?

– N-não…

– Nenhum dos outros passou por isso, vai ser só você. – e dessa vez foi a Haruka respondendo, de novo.

– Só eu? Mas por que?

– Normalmente, instintos de combate é uma coisa que se consegue com muita prática, basicamente apenas ensinando seu corpo a reagir sozinho aos poucos e com paciência, fazendo com que isso seja mais algo natural pra pessoa do que uma técnica implantada…

– Então você É mesmo sádica, no fim das contas.

– … mas mesmo pras pessoas mais aptas e talentosas, esse método leva anos pra ser implementado sutilmente. Nós não temos a luxúria de gastar tanto tempo e ter tanta paciência de esperar seu corpo se acostumar devagar, então basicamente cicatriza-lo em você é o jeito mais rápido. Claro, eu só escolhi isso porque sei que você tem uma mente bem resistente e provavelmente passou por várias coisas, do contrário alguém com a resolução e mente fraca acabaria enlouquecendo bem antes de chegar a qualquer lugar…

– Não sei se cê tá esperando isso, mas eu tenho algumas coisas pra diz…

– … e a dor provavelmente vai vir agora.

De repente uma dor absurda me atinge, muito pior do que qualquer coisa que eu já tenha sentido. Eu já tive o braço quebrado, a perna arrancada, e fui mutilado várias vezes nas últimas horas… mas nada chega nem mesmo perto disso, tenho que me segurar pra não gritar.

– Você não achou mesmo que toda a dor e cansaço tivessem simplesmente sumido, né? Toda aquela adrenalina e foco obviamente ajudaram a diminuir, mas não seria nem de perto suficiente pra cê conseguir continuar naquele ritmo por horas.

– … q-que… você… dizer… isso… – toma quase toda minha concentração só pra conseguir soltar algumas palavras.

– É outra habilidade da Karin…

Delayed Payment… eu posso anular qualquer dor e cansaço de alguém por 12 horas, mas o efeito de tudo vai vir acumulado assim que o efeito passar… desculpa, Tsuna. – ela diz, com o rosto obviamente cheio de arrependimento.

Eu não consigo aguentar mais, e meu corpo simplesmente desiste, caindo no chão e me fazendo apagar.

– – – –

Estou sentado numa cadeira, com uma mesa e um pote de biscoitos a frente, e tudo ao redor é escuridão até onde a visão alcança, pra qualquer direção. Já vi esse cenário mais vezes do que gostaria, e sei mais ou menos o que vai acontecer em seguida, então nem perco meu tempo pensando em como sair ou o que fazer. Simplesmente me levanto e pego um dos biscoitos, me sento de novo e como devagar antes de falar qualquer coisa.

– Cê gosta de umas entradas dramáticas, né não Shin?

Você sabe que esse lugar é decorado com o que sua mente quer, não comigo, certo?

– Acho que agora ela tá mais ocupada tentando não fritar com aquela técnica que a Karin usou, já que eu tive que vir pra cá só de desmaiar de dor.

Então você veio aqui pra matar o tempo? Aqui não me parece um lugar que se tenha muito o que fazer, acredite, afinal sou eu que vivo por aqui.

– Bom, na verdade essa é uma boa oportunidade, já queria ter um papo com você faz um tempo, então senta aí.

Não é como se eu tivesse algo melhor pra fazer mesmo, então tudo bem. – uma poltrona preta surge atrás dele, então ele senta e fixa o olhar em mim.

– Primeiro, vamos tirar isso do caminho, que é algo que cê simplesmente não respondeu. Como diabos tu usou aquela coisa da sombra da Touka? Só porque os dois são dois malucos macabros tem habilidades parecidas ou porra assim?

Na verdade, você também pode usar, só não sabia disso.

– Mas eu pensei que era alguma técnica que precisava de treinamento ou algo do tipo, não simplesmente “ah quero fazer” e tá feito, explica direito isso ai.

É complicado explicar isso em detalhes. Basicamente, todas as habilidades ou técnicas vem da mesma fonte, o Fukuõchi, certo?

– Uhum.

Então pense como se o Fukuõchi fosse uma caixa de Lego, e as habilidades e técnicas fossem uma construção. Não importa o quão complexa ela seja, se for uma casinha de 10 peças ou uma réplica de um Imperador antigo, tudo é feito de peças de Lego do mesmo jeito. Ou seja: se você entender e souber como fazê-las, é fácil replicar, diferente de produzir algo completamente do zero.

– Ah claro, super simples, como nunca pensei nisso… já sei, porque isso não é tão simples.

E por isso mesmo é uma analogia, estúpido. O processo é muito mais complicado, envolve descobrir a estrutura do que você quer copiar, a quantidade e pureza usada, entre outros fatores. Enfim: o fato é que eu consigo fazer essas análises bem rápido de maneira geral, e quando eu consigo usa-las pensando, você pode usa-las por instinto. Tudo que eu sei fazer, você vai saber também e vice-versa. A diferença é que eu tenho consciência disso e consigo acessar sua mente mais facilmente do que você consegue acessar a minha.

– Pera, pensava que você fosse só uma segunda personalidade minha ou alguma coisa do tipo, como diabos cê tem uma mente própria?

Eu não sou parte de ninguém, sou uma criatura com mente e existência própria. Não consigo lembrar direito do meu passado, mas só lembro que quando me dei por conta já estava aqui. É por isso que consigo controlar seu corpo enquanto você “vê de fora”, isso não seria uma troca de personalidade, mas sim uma troca de controle.

– … pensando bem, até que faz sentido. Então, deixando o papo da sua existência de lado, cê consegue copiar qualquer técnica? Se tu tem uma capacidade tão absurda devia ter me avisado ant…

Não é bem “qualquer técnica”, já que certos aspectos de algumas eu simplesmente não consigo entender ou decifrar como funcionam, então mesmo que tente usar ela provavelmente vai sair incompleta e com efeito bem inferiores a original. Essa “Delayed Payment“é um bom exemplo, já que até agora estou empacado com ela, e acho muito interessante como a pessoa mais atrapalhada desse novo grupo de conhecidos é a que tem a capacidade cerebral mais alta. O mundo é um lugar muito estranho as vezes…

– Ok, eu não entendi quase merda nenhuma do processo, mas saquei que não é qualquer coisa que você consegue me fazer usar direito. Próximo tópico: quem diabos é você?

… o que? – a surpresa no rosto dele era bem evidente.

– Tá surdo por acaso?

Acho que respondi isso agora a pou…

– Não me vem com essa merda de papo de “não lembro do meu passado”, quero saber quem é você. Pelo que tu falou, já tá aqui faz muito tempo… diabo, provavelmente você é aquela sensação estranha que eu tenho desde sempre, e eu só não sabia que tinha forma e era algum tipo de demônio. Desde quando você consegue ver as mesmas coisas que eu, ou ouvir o que eu ouço?

… onde você quer chegar com isso?

– Você sabe muito bem onde eu quero chegar com isso. O que caralhos aconteceu no dia do acidente do carro? Como a Haruka sumiu? Quem nos buscou?

– ele parecia tentar falar, mas som não saia da boca dele. Quando ele percebe isso, tenta colocar a mão na garganta, mas nada muda.

– Mas o que…?

Que estranho…

– Que aconteceu aí?

Não faço ideia do porque, mas não consigo falar sobre isso. As palavras simplesmente não saem da minha boca… curioso.

– Você tá tirando uma com a minha cara?!

Eu não teria porque esconder isso de você, e nem quero… mas eu não posso falar sobre isso por algum motivo. Imagino se é alguma trava psicológica sua que causa esse efeito, ou se…

– Pode parar com as teorias, Einstein, eu preciso de uma respo…?!

A escuridão começa a trincar, e algumas frestas de luz passam a aparecer pelos quebradiços.

Aparentemente nosso tempo acabou por agora… é melhor você se preparar, vai ter uma surpresa quando acordar.

– Espera aí, eu não termin…

Tudo desmorona, e uma luz cegante encobre tudo.

Kami no Sensou – Kogane (Volume 5: Capítulo 10)

“Thomas onii-chan!!”

Thomas, já nos braços de Julie, estava com dificuldade até de continuar vivo. Havia um buraco no seu estomago, e a perda de sangue era grande o bastante para ser um risco por si só.

“Aguente firme, Thomas onii-chan! Eu vou cancelar essa [Dimensão Reversa] para trazê-lo ao normal agora mesmo!”

“Opa, você não vai. Alguns fragmentos de terra ficaram implantados no corpo do seu querido irmão no meu último ataque, se você tentar desfazer essa [Dimensão Reversa], eu garanto que a vida do seu irmão será desfeita junto.”

As ameaças de Kogane paralisaram Julie.

“Meu plano original era te colocar como refém, mas pelo visto ele também serve. Hah~ Que bom que anunciou seus planos antes de fazer algo, pois eu teria o matado instantaneamente caso agisse sem dizer nada e perderia o refém. Oh, mas vendo por esse lado, você pode ter salvado a vida do seu irmão, huh?”

Kogane continuava a falar com um tom irônico, naquela situação ninguém se atrevia a se mexer.

“Não se preocupem, eu não pretendo tirar a vida deste rapaz. Mas eu garanto que algum de vocês morrerão. E por ‘vocês’ eu obviamente me refiro a essa família amaldiçoada. Aaah… É uma pena, não é mesmo? Ter uma família dessas deve ser complicado.”

Max estava dando o seu melhor para conter sua raiva, até por sua condição física.

“Felizmente graças a brilhante imundice de vocês, o palco foi preparado perfeitamente para minha entrada, e agora poderei dar o que vocês merecem.”

Kogane sabia que lutar contra todos presentes era suicídio, por isso esperou as lutas terminarem. Quase todos presentes estavam feridos, com essas condições, a situação muda.

“Cale a boca, maldito!”

Não se aguentando mais, Max avançou para cima de Kogane, que apenas apontou a mão na direção dele, com um sorriso sádico no rosto, e utilizou seu poder. Várias rachaduras se estenderam pelo solo, atingindo uma grande área, inclusive onde todos os outros estavam, e uma luz branca saiu da rachadura.

“Cuidado pessoal, isso é—“

Antes do recado de Julie terminar, sua voz foi consumida por um agoniante som acompanhado de um flash e logo em seguida o grito de várias pessoas.

Julie, que já conhecia esse poder, havia ativado suas chamas especiais que queimam poderes, o [Mansion Number 22: Jing], cobrindo Thomas e a si mesma. Mas infelizmente o mesmo não podia ser dito para os outros.

Repletos de ferimentos por todo o corpo, todos estavam caídos no chão.

O ataque surpresa não iria funcionar com quem já conhecia o poder, mas Karl e Max não conseguiram minimizar tanto o dano com suas técnicas. Já Kuroshi e os outros não podiam prever o que ia acontecer, e por isso foram atingidos em cheio, o único que poderia evitar o ataque era Masaya, mas com sua perna ferida, ele não pôde se mover a tempo.

“Está na hora de vocês aprenderem uma lição de uma vez por todas.”

Kogane já estava sério, olhando para Max de cima, com um olhar de desprezo.

“Parece que o que você passou no passado não foi o bastante para criar decência na sua mente.”

O comentário frio de Kogane veio carregado com um tom de voz completamente oposto do que ele usava antes. Max só conseguiu olhar, chocado, para Kogane.

Talvez ele tenha entendido a mensagem.

Kogane se abaixou próximo a Max e apontou sua mão para ele, pronto para fazer algo, sem dó.

“Uh—!”

Porém, uma lâmina se aproximou pelo lado esquerdo do seu rosto, o forçando a saltar para trás e se esquivar. A lâmina pertencia a uma lança, e a lança pertencia a uma garota ruiva.

“Não permitirei que faça mais nada de ruim para meus irmãos!”

Julie se posicionou na frente de Kogane de maneira desafiadora.

“Julie, espere, nós também vamos lutar!”

A voz de Kuroshi não fez Julie se virar para trás, ela não queria olhar para trás.

“Você vai ser minha oponente? Mesmo sendo a vítima do caso?”

Kogane perguntou em um tom de voz suave, surpreso por ela estar no seu caminho.

“Sim. Portanto, Kogane-san, eu te desafio para um duelo!”

“Entendo… Eu aceito seu desafio.”

Palavras ousadas saíram da boca de Julie, Kogane foi desafiado para um duelo, o que significava que a partir de agora era um contra um não importa o que.

Kuroshi e os outros ficaram chocados com tal ação.

“Kuroshi, Ryoka-senpai, Seira-senpai, Masaya-senpai, eu quero voltar a conviver com vocês, então apenas observem, tá?

Karl onii-chan, Max onii-chan, obrigado, e desculpem pelo trabalho que dei.”

Sem olhar para trás, Julie apenas virou um pouco o rosto, demonstrando um sorriso, e deu seu recado antes de voltar o olhar novamente para Kogane.

Os dois se encararam por alguns momentos. Julie estava séria e determinada, Kogane tinha um sorriso no rosto e estava relaxado.

Repentinamente, um grande sorriso surgiu no rosto de Kogane, que estendeu a mão em direção a Julie. Várias rachaduras brancas começaram a surgir no solo em direção a ela.

“[Mansion Number 26: Zhang]!!”

Atingindo o solo com sua lança, Julie ativou sua “Rede Estendida”, várias rachaduras vermelhas surgiram no solo e se encontraram com as rachaduras brancas.

No instante seguinte, o  solo se partiu.

Incontáveis pequenas pedras começaram a serem lançadas para cima, cruzando a vista dos dois.

Kogane abriu os dois braços e gerou diversos espinhos rochosos a partir do nada, controlando-os e os jogando em direção a Julie, que ativou sua [Mansion Number 22: Jing] e se cobriu nas suas chamas especiais. As pedras evaporavam assim que entravam em contato com o fogo, nenhum poder podia passar por aquelas chamas, como uma bola de fogo, Julie avançou em direção a Kogane, invulnerável, mas—

“Ugh!”

Um espinho atingiu seu ombro, perfurando na mesma hora.

Como?!

Focando sua vista em Kogane, ela notou. Os espinhos pararam de surgir no ar… Os espinhos estavam sendo tirados do próprio solo!

Meu Jing não pode queimar coisas que não sejam técnicas especiais… Pedras comuns aprimoradas com [Reisei] irão me atingir—!

Começando a se esquivar dos ataques, Julie teve um mau pressentimento, no mesmo segundo—

“De baixo!”

Julie inclinou o corpo para direita logo antes do seu corpo ser empalado por um grande espinho de terra originado diretamente do solo abaixo dela. O mesmo ataque que Kogane usou para atingir Thomas—Apesar da esquiva, o espinho ainda atingiu de raspão o canto direito do seu corpo. Outros espinhos seguiram o mesmo padrão, mas dessa vez Julie estava preparada, e girou seu corpo para direita uma, duas—Várias vezes, se esquivando dos primeiros espinhos antes de saltar em alta velocidade em direção a Kogane. Ela finalmente o alcançou!

Atacando horizontalmente com a lança, o ataque de Julie foi interrompido na ultima hora pela própria arma de Kogane recém-invocada, seu cajado dourado. Insistindo na investida, Julie atacou várias vezes, mas todos os ataques foram repelidos por Kogane, que saltou para trás ao mesmo tempo em que criava vários espinhos ao redor de Julie, criando um círculo e fechando todas as suas saídas.

Se eu continuar lutando no solo—

“[Mansion Number 27: Yì]!”

Duas asas de fogo surgiram nas costas de Julie, que levantou voo instantaneamente, desaparecendo da vista de Kogane.

“Onde—?!”

Quando ele notou e tentou se virar para se defender, já era tarde demais, Julie já estava atrás dele o atacando com a lança. Apesar da reação de Kogane ter sido rápida e ele ter desistido da defesa e tentado se afastar, por usar uma lança como arma, o alcance de Julie é bem maior que o normal, por isso não foi possível evitar um corte horizontal na sua barriga.

Os pés de Julie não tocavam o solo, ela estava em constante voo, tal era uma das características da sua técnica [Yi] (Asas), ela ficava em um “estado de voo” permanente. Isso porque as asas de fogo aumentavam sua velocidade drasticamente enquanto no ar, nesse estado ela é comparável, ou até mesmo superior a Kuroshi em velocidade.

Batendo as asas, Julie subiu rapidamente aos céus, ela notou a expressão de ódio que Kogane fez ao notar o ferimento, e resolveu levar a luta para o céu, afinal, lá ela teria menos desvantagens.

Kogane a seguiu sem hesitar. Sua expressão já havia voltado à serenidade.

“Você é melhor do que eu esperava, mas—“

Levantando os dois braços para o céu, diversas rochas começaram a subir em alta velocidade do chão da ilha. Julie desviou delas tranquilamente… Mas ela tinha a sensação que ela não estava sendo mirada, quase como—

Impossível!!

Julie olhou desesperadamente para o céu, o que fez Kogane sorrir de maneira perturbadora. As milhares de pedras desapareceram no céu, mas logo voltariam a aparecer.

“Como lidará com isso!!”

Kogane desceu uma das mãos violentamente, e junto com o gesto, milhares de meteoritos começaram a vir em direção a Julie.

As pedras foram levantadas até o espaço, e trazidas de volta, gerando uma chuva de meteoros. Normalmente pedras desse tamanho desintegrariam, mas graças a proteção do [Reisei], ao invés disso os meteoritos ficaram infinitamente mais potentes e velozes que um meteoro comum.

Sem ter para onde fugir, Julie tentou se esquivar voando. Um dos meteoritos passou perto dela, e a onda de impacto fez ela perder o balanço, o que deu tempo o suficiente de um dos meteoritos atingir seu estomago em cheio e empurrar ela de volta para o solo, causando uma grande explosão.

Ela conseguiu concentrar o [Reisei] na parte atingida antes do meteorito acertar ela, caso contrário a luta teria acabado.

Ou talvez—

Usando o antebraço para apoiar seu corpo e se levantar, Julie começou a tossir com força, ela estava sem ar por conta do ataque.

Sua visão ficou um pouco embaçada. Ela sentia como se seus órgãos internos estivessem todos bagunçados.

 

“JULIE!!”

Max tentou se dirigir até Julie o mais rápido possível, mas foi impedido por Karl.

“Você não pode interromper o duelo, Max!”

O desespero de Max, o desespero de alguém que estava vendo uma pessoa da sua família sofrendo na sua frente, Kuroshi observava aquilo e fechava seu punho com força o bastante para quase ferir sua própria mão. Apesar da luta que Julie estava passando, Kuroshi se sentia enfurecido por dentro com Max.

Sem aguentar mais, ele virou para Max e disse:

“O que houve? Pensei que você tinha mais convicção na visão da sua namorada… Agora você teme a segurança da Julie? Ela não ia ser morta por mim? Se preocupar agora contradiz o que você defendia antes.”

Os olhos de Kuroshi não eram visíveis da posição que Max estava, mas ele estava sério, estava frio, o que surpreendeu Max.

Exato. Max estava extremamente preocupado com a segurança de Julie, vendo aquela luta na sua frente, se lembrando do que aconteceu com Liliana no passado, a visão de Selina não importava mais, todas aquelas lutas foram inúteis.

“Você foi egoísta, presunçoso e inconveniente, o que nos fez chegar até essa situação atual, pois não queria confiar nas pessoas que a Julie confiava, dizendo que uma visão aleatória era um fato, e agora está desesperado com medo da morte dela?!”

Se preparando para socar Max, o braço de Kuroshi foi impedido por Masaya.

“Não é necessário ir a tanto, Kuroshi, só o que você disse já foi o bastante. Mais importante que isso—“

Masaya olhou na direção da luta, Kuroshi seguiu seu conselho e também olhou para lá. Max ficou de cabeça baixa, sem pronunciar uma palavra sequer. Ele apenas virou o rosto lentamente em direção a Julie.

 

“Hah…Hah…”

Julie conseguiu se levantar, mas já estava ofegante e bem ferida.

“Porque? Porque você está fazendo isso conosco pela segunda vez?”

Ela direcionou a pergunta para Kogane, que apenas devolveu um olhar frio para ela.

“Vocês que fizeram algo de ruim para vocês mesmos e agora estão colhendo o que plantaram.”

“Do que você está falando?!”

“De vocês adorarem brincar com o destino dos outros. A irmã de vocês fez isso no passado, e não satisfeito, seu querido irmão decidiu cometer o mesmo erro. Te privando do seu próprio futuro por causa das suas convicções egoístas. Vocês são uma perdição.”

Julie não conseguiu comentar nada para aquilo, apenas ficar surpresa. O silêncio tomou conta de toda a área.

A sua maior surpresa não foi pelas palavras de Kogane em si, mas o que elas trouxeram para ela, em um estalo da sua mente, ela se lembrou das últimas palavras de Kogane depois de matar Liliana.

“Escutem! Vocês ficarão vivos por enquanto, mas num futuro não tão distante eu voltarei! Quando vocês estiverem para mudar o destino de alguém, podem ter certeza que as ações daquela pessoa voltarão para assombra-los!”

Essas foram as exatas palavras de Kogane naquela época, e pelas palavras dele, aconteceu exatamente o que ele disse.

Max decidiu que iria “mudar o destino” de Julie e basicamente a forçou a ir com ela, usando a dependência dela a seu favor, e graças a essa ação, Kogane reapareceu como o prometido para cobrar deles.

As palavras de Kogane e lembranças carregadas juntas, além das palavras anteriores de Kuroshi, destruíram completamente o espirito de Max, ele não conseguia nem mais sequer apontar seu ódio para Kogane.

Julie estava de cabeça baixa, séria.

“Não é isso.”

“Hm?”

Kogane olhou confuso para ela.

“Estou perguntado por que diabos VOCÊ está nos atacando?! Quem diabos é você?!!”

Kogane pareceu surpreso com a pergunta, como se a pergunta não fizesse sentido.

“Eu sou Kogane, o Dragão Amarelo do Centro.”

“Isso você já disse! O que eu quero saber—Ah”

Os olhos de Julie se arregalaram em um forte choque que seu corpo sentiu.

Ela nunca recebeu um choque de realidade tão forte na vida dela.

Kogane… O Dragão Amarelo do Centro…

Impo…ssível...

Era algo tão simples que nunca passou pela cabeça deles. Essa apresentação diferente de Kogane, sempre carregou um significado bem profundo. Ninguém se apresenta daquela forma, Kuroshi nunca iria dizer “Eu sou Kuroshi, o Deus do mundo dos mortos” ou algo do tipo, existe uma razão para Kogane fazer isso—

“Você… Você também era uma das crianças atraídas pelo poder da Liliana onee-chan, não era?”

A pergunta de Julie surpreendeu a todos, mesmo Max no estado que estava, até Thomas que recobrou a consciência em algum momento da luta.

Kogane apenas olhou em silêncio para Julie por alguns segundos, até então fechar os olhos e responder.

“… Está certo. Não é uma história que gosto muito de reviver, mas a irmã de vocês definitivamente reuniu todas as bestas sagradas… Incluindo o Dragão Amarelo do Centro, no caso, eu.”

Com a confirmação, Julie não conseguia mais falar nada.

“… É uma boa oportunidade. O mínimo de cortesia que eu posso ter por vocês é explicar o que levará a segunda morte nessa família.”

Olhando para todos que estavam ali, um por um, Kogane começou a contar sua história.

“Tudo começou quando vocês se reuniram pela primeira vez…”

 

 

Vários anos atrás, um pequeno grupo de crianças, controladas pelo destino, se reuniu em um único ponto. Kogane era um deles. Ele era uma criança comum, cabelos e olhos castanhos, tal como muitas por aí. Quando seus pais decidiram uma viagem de ultima hora, já era a engrenagem do destino funcionando.

“Papai? Mamãe??”

Optando por ir a um parque de diversões, o lugar lotado somado com uma pequena distração dos pais, separou a família.

É claro que os pais de Kogane começaram a procurar pelo filho imediatamente, mas enquanto eles iam para uma direção, Kogane ia para outra.

Depois de alguns minutos, eles resolveram pedir ajuda para qualquer um que vissem na sua frente, já desesperados.

Enquanto isso, Kogane continuava a se afastar do publico.

“O que… o que está acontecendo… papai… mamãe…”

Kogane via algumas estranhas distorções no espaço.

“Ei garoto, você se chama Kogane?”

Até que um rapaz se aproximou.

“… Sim…”

“Seus pais estão procurando desesperadamente por você, venha, vou leva-lo até eles.”

“Obrigado, moço!”

Com a esperança voltando aos seus olhos, Kogane segurou a mão do rapaz e foi guiado por ele… Para longe dos seus pais. Já um pouco longe dali, outra pessoa comunicou aos pais que havia visto a criança em uma determinada direção… Totalmente oposta a onde Kogane estava. Essas pessoas obviamente não sabiam o que estavam fazendo, aquilo era apenas a extensão do poder de Liliana, controlando até as ações das pessoas para que o destino escolhido possa ser realizado.

“Já estamos chegando, moço?”

“Sim, acho que seus pais se perderam procurando por você. Fique aqui, vou comprar algo para você beber.”

“Sim…”

Vendo o rapaz se afastando até desaparecer, Kogane ficou sozinho em uma rua. O rapaz nunca mais apareceu, o tempo foi passando, até a criança notar que ela estava completamente sozinha. Então ele começou a atravessar aquela rua, sem motivo aparente… Até notar algo estranho acontecendo. Assustado, Kogane se escondeu e ficou no meio de uma rua com quatro outras ruas, uma para cada direção. Ele notou uma garota no centro daquela rua, e outras quatro crianças vindas uma de cada direção. Chocado, ele observou as crianças se reunindo e sendo levadas por aquela menina, ele queria segui-las, mas ao mesmo tempo estava com medo e receio de fazer aquilo.

Apesar da influência do poder de Liliana, Kogane não estava sendo 100% afetado, isso porque a própria causadora daquilo não tinha noção da existência de mais uma criança, ao reunir Karl, Thomas, Max e Julie, ela acreditou que já tinha feito o que tinha que ser feito.

Depois daquilo, Kogane resolveu fugir, procurar por seus pais.

“Senhor, me ajude a encontrar meus pais…!”

“Saia daqui, está óbvio que você é só um menino de rua, não cairei nessa!!”

Sendo chutado toda vez que pedia ajuda, ninguém estava disposto a ajuda-lo a recuperar sua vida normal, os dias foram passando, sem ter o que comer e beber Kogane teve que começar a morar na rua.

Certo dia, ele decidiu vasculhar a região para onde as crianças haviam ido, e após muito procurar, ele encontrou elas. Vendo-as entrando em uma casa, ele se aproximou do muro e olhou para janela, e tudo que conseguia ver era uma família feliz.

“… Se eu tivesse ido com eles…”

Porque ele tinha que passar por aquela miséria? Porque tudo aquilo aconteceu? Sua vontade de viver ia diminuindo a cada dia.

Mas aos poucos Kogane foi percebendo algo incomum. Pessoas que batiam nele não conseguiam o fazer sentir dor, ele nunca se feriu, ele percebeu que tinha uma força incomum. Aquilo deu meios para ele mudar sua situação, e ele recorreu ao meio mais viável para ele naquele momento—Roubar. Invadindo lojas para roubar comidas e bebidas, ele percebeu que conseguia fazer isso sem dificuldades.

A partir dali, sua personalidade foi sofrendo grandes mudanças, assim como sua maneira de ver o mundo, e ao completar 12 anos—

“… Entendo… Entendo… Huhuhuhu… Entendo… HAHAHA!!”

A existência [Guerra Divina] trouxe as respostas que ele sempre quis saber. Toda aquela situação impossível foi causada pelo poder de um [Avatar de Deus], e era muito simples conectar as coisas.

Ele já sabia quem eram os culpados. Tudo que ele precisava agora era vingança.

Sua vida naquele momento era uma onde ele já conseguia dinheiro da sua própria maneira, ele fez uma grande mudança no seu visual, pintando seu cabelo, usando lentes, comprando novas roupas e acessórios, tudo de uma única cor, que representava o Dragão Amarelo do Centro.

Antes de por sua vingança em prática, ele passou um bom tempo treinando para refinar seus poderes.

Até que o tão aguardado dia chegou.

 

 

“E o resto da história é o que vocês já presenciaram.”

Ninguém era capaz de pronunciar uma única palavra, aquilo fez Kogane sorrir maleficamente.

“Hahahahaha, parece que vocês mesmos notaram que merecem sofrer, não é mesmo?!”

Levantando uma das mãos para o céu, vários pedregulhos começaram a sair do solo e se unir no céu, formando uma pedra do tamanho de uma grande casa.

“Julie-chan, não deixe a história do inimigo tirar sua determinação para lutar!!”

O grito de Ryoka tirou Julie do transe, que levantou voo com seu [Yì] rapidamente.

Se tudo o que ele disse é realmente verdade… Então ainda há uma inconsistência—

A pedra foi lançada para o espaço e puxada para a Terra novamente, formando um meteoro.

“Adeus, garota.”

Julie iria conseguir desviar do meteoro, porém… Kogane apontou sua mão para o meteoro, que começou a ficar completamente coberto de rachaduras brancas, a mesma que ele usou para atacar a todos anteriormente.

Quando o meteoro estava a uma altura similar a de Julie no céu, Kogane fechou a mão que apontava para o meteoro, e no momento seguinte—

“Ah—“

Julie só teve tempo para suspirar. O meteoro inflou e no momento seguinte explodiu. Um grande flash cobriu todo o oceano e um som ensurdecedor atingiu todos que estavam no solo.

Quando o flash passou, todos olharam para o céu imediatamente, preocupados. Incluindo Max.

Porém, Julie estava coberta por suas chamas, [Jing], que queimaram a explosão e evitaram o dano.

“Ela conseguiu!”

Seira gritou, com um sorriso no rosto.

Mas—

O fogo se extinguiu e revelou a figura de Julie, de cabeça baixa, e com ferimentos graves pelo corpo, partes da sua roupa no ombro, braço, barriga e coxa estavam rasgadas, e tinha sangue por várias partes do seu corpo, incluindo na cabeça. As asas desapareceram, e Julie caiu lentamente até atingir o chão.

“JULIE!!”

Kuroshi gritou por ela, algo que todos ali queriam fazer.

“HAHAHA, o segredo da minha técnica não é a explosão, mas sim a chuva de meteoritos lançadas em todas as direções como consequência! HAHAHAHA!!”

Julie moveu apenas a cabeça em direção ao céu, olhando para o oponente… Não, olhando para algo além disso.

Minha determinação para agir, justo quando eu finalmente a consegui…

Tentando usar seus pequenos braços feridos para se levantar, Julie estava fazendo o máximo de esforço que conseguia.

Acho que foi desde aquele tempo, não é? Quando eu o vi lutando pela primeira vez…

O que vinha na mente de Julie era a imagem de Kuroshi.

Eu sempre soube que havia algo de errado comigo. Foi justamente por isso que…

Ela lembrava, apesar de não ter tido uma história muito grande ao lado de Kuroshi, ela pôde ver de perto algo que ela almejava ser. O garoto independente que lutava as batalhas mais impossíveis sozinho, buscando alcançar seus objetivos. Na luta contra Lisbeth, Julie não conseguiu aceitar de cara como Kuroshi era o oposto dela, conseguir carregar todo o peso por si só, encarar as possíveis consequências, lutar sozinho em uma luta de vida ou morte, sabendo que não importa a situação que esteja, não terá ninguém lá para salvá-lo no último momento, um dia ela se imaginou estando nessa mesma situação, quase como um sonho de uma criança, e graças aos seus amigos, os amigos tão queridos que ela conquistou, ela finalmente chegou aqui.

Finalmente de pé, Julie encarava seu oponente, ela já mal conseguia segurar a sua arma.

Não haverá ajuda, o duelo não pode ser interrompido, apenas quando um dos dois morrer que isso acabará. Portanto—

Kogane estendeu uma mão para frente em silêncio, uma esfera levemente transparente girava na sua mão, essa técnica era…

“Eu admiro sua determinação, por isso, te matarei usando o mesmo ataque que usei para matar sua irmã.”

Max entrou em total estado de choque ao ver aquilo.

“Julie!” “Julie-chan!!”

Kuroshi, Seira e Ryoka chamaram por Julie.

Na situação dela, era impossível desviar. Será que é possível defender o ataque usando [Jing]? Até nisso ela tinha dúvidas, afinal, esse ataque barrou até mesmo o poder de manipulação de destino de Liliana, embora não completamente.

Aquilo representava o quinto elemento—Vácuo. A anti-existência de todas as coisas.

Kogane atirou a esfera em direção a Julie.

Kuroshi, eu… Eu quero ser como você!

“[Mansion Number 22: Jing]!!”

Julie usou suas chamas e as lançou em direção a esfera—

Um esforço em vão.

Mas… Talvez eu não seja capaz por não ser tão legal quanto você, hehe.

As chamas foram dissipadas. Um último sorriso no rosto de Julie.

“JULIEEEE!!”

Max tentou sair correndo em direção a sua irmã caçula, mas Karl conseguiu ser rápido o bastante para segurá-lo no último momento.

A esfera se expandiu e engoliu Julie, assim como tudo que estava próximo dela, logo em seguida desaparecendo sem deixar nenhum rastro.

Kuroshi não tinha voz para nada, e apenas caiu de joelhos no chão.

Max começou a chorar desesperadamente, pensamentos que culpavam a si mesmo ocuparam seu coração. Karl e Thomas também caíram em lágrimas.

O sinal final dava fim ao duelo, a [Dimensão Reversa] começou a desaparecer.

As pernas de Seira também não resistiram e cederam. Masaya fechou os punhos com força enquanto estava de cabeça baixa, apenas Ryoka continuava olhando para o céu, incrédula.

“HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA, ISSO É O QUE ACONTECE QUANDO SE TENTA MEXER NO DESTINO DE QUALQUER QUE NÃO SEJA VOCÊ MESMO!!”

Com uma mão no rosto, Kogane ria descontroladamente.

As cores do mundo voltaram ao normal.

Tudo voltou ao normal, incluindo os ferimentos de todos.

Porém, a única diferença era a falta de alguém que sempre esteve lá.

As chamas da ave de fogo que aqueciam a todos, se apagaram.

Kami no Sensou – Deuses vs Bestas (Volume 5: Capítulo 9)

Três lutas estavam para começar no mesmo local. Um clima de tensão se espalhou por duas delas apenas, no entanto.

Apesar de Karl e Masaya estarem encarando um ao outro, a atmosfera não era pesada ali. A prova disso era que Karl sorriu ao notar a situação.

Ele notou que Masaya estava equipado com um par de botas exóticas, douradas com asas nos calcanhares. Essa era uma informação muito específica, qualquer pessoa com conhecimento básico de mitologia reconheceria algo assim.

“Hmm… [Avatar de Hermes], huh?”

Masaya permaneceu em silêncio, embora ainda sorridente. Notando que ele estava pronto, Karl ‘deu o sinal’ para o início da batalha.

“Vamos começar de uma vez. Mostre-me o quão forte você é!”

Com um tom desafiador, Karl iniciou a batalha. Seu primeiro movimento foi—

“Huh…!”

Sua visão forçadamente se moveu para o lado… Mais precisamente falando, seu rosto foi atingido. Só quando a leve dor o afetou que ele percebeu o que aconteceu.

A marca de que algo o atingiu com força estava marcada no seu rosto.

“Parece que velocidade não é o seu forte, heh.”

Falando de maneira provocativa, Masaya comentou. Karl não tinha resposta para aquilo, pois, de fato, ele não havia enxergado absolutamente nada.

Talvez, apenas talvez—

“…!!”

Karl foi atingido novamente. No ombro esquerdo, no lado direito do peito, na coxa direita e por fim, na nuca. Na sua perspectiva, Masaya ainda estava parado no mesmo lugar, mas talvez ele tenha visto resquícios de movimentos, ou talvez tenha sido apenas impressão dele.

“Tch!”

Karl avançou em direção a Masaya, vendo-o se aproximar, Masaya mostrou os dentes em um grande sorriso. Tentando atingi-lo com um soco, Karl atingiu o ar, apenas a imagem de Masaya existia ali.

Aparecendo vários metros atrás de Karl, os dois estavam costa a costa. No instante seguinte—

“GAH—!!”

Dessa vez Karl sentiu diversos pontos do seu corpo ser atingido. Apenas confirmando o óbvio, Karl percebeu que era literalmente impossível atingir Masaya. Ambos se viraram e olharam um para o outro.

Não é como se Karl fosse lento, ele tem plena confiança em sua velocidade, é apenas que—

“Como pensei, você é realmente surreal.”

“Heh~ Você não está em muita posição de dizer algo assim… Eu já te atingi 162 vezes e você está tão machucado quanto alguém que tropeçou e caiu no chão.”

“É verdade, apesar de eu só ter sentido 7 ou 8 desses 162 ataques.”

“… Meu primeiro ataque eu acertei seu queixo com toda a força, buscando te nocautear em um único ataque, você não teve tempo de concentrar seu [Reisei] para se defender, e mesmo assim saiu só com um machucado leve, me pergunto qual de nós é mais inumano.”

Da mesma forma que Karl não é lento, Masaya está longe de não ter força física, se Kuroshi fosse atingido por esse mesmo ataque desprotegido, ele teria desmaiado imediatamente.

Isso era devido a uma habilidade passiva de Karl. [Mansion Number 12: Wei], uma técnica que torna seu corpo dezenas de vezes mais resistente, por fora e por dentro, o próprio Karl se torna uma fortaleza, protegido pela poderosa casca da tartaruga negra da mitologia chinesa.

Super velocidade vs Super defesa, definitivamente uma luta difícil de prever o resultado. Os dois tinham noção disso, e justamente por isso…

“Essa provavelmente seria uma luta bem estendida, Masaya-san, mas temo que terei que encurta-la… [Mansion Number 11: Xu].”

“Huh?”

Karl apenas pronunciou o nome da técnica casualmente, no instante seguinte, Masaya sentiu uma diferença no seu corpo. Karl não iria esperar o reconhecimento da técnica para atacar, por isso, ele novamente avançou em direção a Masaya, que por sua vez se moveu para se esquivar e atacar mais uma vez—Porém.

“O que?!”

Seu corpo não se movia da maneira que ele queria, e ele começou a flutuar no ar. A sensação era como—

O punho de Karl encontrou o estomago de Masaya e o atingiu de maneira feroz, jogando-o para longe… Mas não houve impacto com o solo, Masaya apenas flutuou no ar.

“É como se eu estivesse debaixo d’água!”

“Essa luta infelizmente não durará muito, Masaya-san.”

[Mansion Number 11: Xu] é uma habilidade que transforma a atmosfera do local, fazendo-a se tornar como se fosse debaixo d’água, ainda é possível respirar e falar normalmente, mas a locomoção se torna extremamente limitada, exceto para o próprio Karl. Essa é apenas uma das habilidades da tartaruga negra, [Genbu].

“[Mansion Number 9: Níu]!”

Um touro de água foi gerado a partir do nada e avançou em uma super velocidade em direção a Masaya.

Impossível desviar—!

Sem opções restantes, Masaya colocou os dois braços na frente do corpo em forma de “X” para defender o ataque, com todo seu [Reisei] focado ali.

No entanto—

“Forte!!!!”

Atingindo o corpo de Masaya com a potência de um grande meteoro, o touro de água começou a empurra-lo para trás, ambas as mangas da roupa de Masaya foram desintegradas antes do touro de água o lançar para o céu e continuar seguindo em frente, quase como um touro real.

Selando a velocidade de Masaya, a luta mudou de rumo completamente.

Masaya sentia seus dois braços dormentes, apesar de não estarem quebrados, ele provavelmente não poderá usa-los por alguns segundos, se ele for atingido novamente por essa técnica—

Nesse caso…!

Dobrando suas duas pernas, Masaya se preparou para se mover.

“É inútil, mesmo sua velocidade sendo de nível divino, sua locomoção dentro do meu [Xu] é quase zero!”

Inclinando seu punho para trás, como se estivesse pronto para dar um soco, Masaya ativou sua técnica especial—

“… [Instant Ride]!”

O mundo mudou diante dos olhos de Masaya, e apenas dele.

“Eh?”

Quando Karl notou o rastro de luz vindo em sua direção, já era tarde demais. Não tarde demais para reagir ao rastro de luz, mas sim porque já havia acontecido.

Talvez ele não fosse conseguir reagir a um raio de luz dessa distância, pois a velocidade da luz é algo impressionante até mesmo para [Avatares de Deuses], mas se Karl conseguiria reagir ou não é irrelevante, muito antes da luz chegar nele, ele já havia sido atingido.

Havia um buraco no seu ombro, e Masaya estava atrás dele.

Seu [Xu] havia sido rasgado a força pela velocidade do ataque—Não, olhando de perto, havia rachaduras por toda a dimensão ao redor de onde Masaya passou.

Ele realmente se moveu rápido o bastante para quase destruir a [Dimensão Reversa]?!

Se essa técnica for usada novamente, Karl não conseguirá evita-la não importa o que… Na mente de Karl, ele se perguntava se alguém realmente conseguiria esquivar de algo assim, se realmente existe um [Avatar de Deus] capaz disso, ele provavelmente é invencível.

Antes que ele use o [Instant Ride] novamente—

Mesmo sem poder usar um dos braços, Karl ainda tinha o outro! Se virando rapidamente—

“[Mansion Number 9: Níu]!!”

O touro de água foi lançado novamente, porém, dessa vez Karl se fundiu com o touro de água, mais especificadamente na cabeça do touro, essa é sua combinação ofensiva mais poderosa. Combinando o poder do touro com a força do seu punho com [Reisei] concentrado, mais a força extra que ele ganha por ser carregado pelo touro de água em alta velocidade. Apesar de não ter controle sobre o ataque e só se mover em linha reta, sua força aumenta em várias vezes comparado ao [Níu] normal.

Um grande touro de água se aproximava das costas de Masaya em alta velocidade, que se virou rapidamente para contra-atacar.

Esse ataque é mais poderoso que o [Jupiter Thunder] de Noah… Mas—

Masaya levantou uma das pernas, se preparando para um chute. O [Níu] já estava praticamente em cima dele.

“[Instant Ride]!”

Apenas sua perna se moveu diagonalmente de baixo para cima, acertando o antebraço de Karl.

Uma grande onda de choque foi gerada, desintegrando completamente o touro de água.

“… Eu perdi.”

Vendo um rasgo na [Dimensão Reversa], Karl se rendeu. Seu braço estava quebrado, sem poder usar os dois braços, não havia porque lutar mais. Sua técnica mais poderosa foi destruída, isso foi mais do que o suficiente para considerar como uma derrota para Karl.

“Aquela maldita técnica era realmente mais poderosa do que eu esperava, hehe.”

Masaya então caiu com um dos joelhos no chão. A perna que ele usou para parar o touro de água estava ensanguentada, sua bota e até mesmo sua roupa da canela para baixo haviam desaparecido.

“O que teria acontecido se você não tivesse conseguido inutilizar meu outro braço?”

“Mesmo sem uma das pernas, eu ainda iria vencer.”

A resposta de Masaya foi bem séria, ao notar isso, Karl admitiu total derrota e sentou no chão. Apesar do buraco no ombro, ainda era possível mover um dos seus braços, apesar da forte dor, mas era aconselhável não movê-lo até a [Dimensão Reversa] ser fechada.

“Parece que as outras lutas estão perto do fim também, vamos até onde a Julie está.”

“… Certo.”

Seguindo a sugestão de Karl, Masaya se levantou e ajudou ele a levantar, e os dois foram em direção ao local onde Julie estava.

 

 

Outras duas lutas ocorriam ao mesmo tempo da luta de Karl e Masaya. Uma delas era—

“Vamos, Sei-chan!”

Ao mesmo tempo que chamava sua melhor amiga, Ryoka ativou seus poderes e atirou raios de luz em direção a Thomas.

“[Mansion Number 6: Wei]!”

Thomas, no entanto, já ativava sua técnica antes do ataque de Ryoka, o que lhe deu tempo de fazer uma grande árvore sair do solo e entrar na frente dos raios de luz.

Ele sempre foi conhecido por ser muito sensível e conseguir pressentir as coisas antes delas acontecerem.

“[Water Colossus]!”

Seira, se movendo ao mesmo tempo, invocou uma grande mão de água que colidiu com a árvore.

“Hah! [Mansion Number 5: Xín]!”

Causando uma estranha pulsação na árvore, ela começou a brilhar levemente em uma cor verde claro, ao ser atingida pelo ataque de Seira, o [Water Colossus] foi absorvido pela árvore, que cresceu ainda mais por causa disso.

“O que?!”

Surpresas, a reação das garotas ficou um pouco atrasada, Thomas aproveitou para controlar a árvore, que possuía uma ponta pontuda, e dirigiu ela em direção a Seira, atingindo seu peito diretamente e carregando ela para o céu, para lança-la para longe em seguida.

Ao cair no solo com força, Seira se levantou rapidamente, sem ferimentos.

“Impossível! Nenhum ferimento?”

Olhando de perto, Thomas percebeu uma barreira de luz na frente do peito de Seira, e nas costas também.

A barreira era, obviamente, de Ryoka. O que mais surpreendeu Thomas era a barreira ser forte o bastante para parar o ataque dele sem nem ser arranhada.

Ele claramente não sabe dos antigos feitos de Ryoka, principalmente na luta contra Magna.

“[Mansion Number 3: Dí]!”

Várias raízes de árvores começaram a sair do chão, e das raízes saiam outras raízes, se multiplicando rapidamente.

“[Cold Space]!”

Seira saltou no ar e ativou sua técnica, congelando parcialmente a floresta que estava sendo criada, mas o gelo foi partido por novas raízes que estavam nascendo.

“Sei-chan, atrás!”

Com o aviso de Ryoka, Seira se virou e viu uma raiz vindo sem sua direção como um chicote, então ela atacou com seu tridente e cortou a raiz com facilidade, porém, outras raízes saíram daquela raiz e amarram um dos pés de Seira.

“?!”

Sendo jogada em alta velocidade em direção à outra raiz, Seira foi atingida nas costas e lançada em direção a outra raiz, que repetiu o processo e várias raízes ficaram atingindo Seira continuadamente, sem dar espaço para ela reagir.

Ela não estava se ferindo, no entanto, pois estava sendo protegida pela barreira de Ryoka.

Esse tanto já estava nos planos de Thomas, justamente por isso—

“Você não pode defender as duas ao mesmo tempo, não é?!”

Thomas se moveu rapidamente e apareceu na frente de Ryoka, atacando ela fisicamente. Com a palma aberta, e os dedos dobrados, ele atingiu o centro do rosto de Ryoka com a parte debaixo da palma da mão, que é a parte mais dura, e jogou ela para longe.

Enquanto isso, Seira controlou a água debaixo do solo e fez um grande pilar de água subir até onde ela estava no momento certo para atingi-la e tira-la do controle das raízes.

“Ryoka!!”

Ao olhar na direção onde sua amiga foi jogada, Seira a viu levantando.

Ryoka se levantou, com sangue escorrendo pelo canto da boca, virou o rosto e cuspiu o sangue da boca no chão.

“Eu não perderei a Sei-chan novamente, você pode me atacar o quanto quiser, mas não importa que tipo de técnica você use, não irá causar um arranhão sequer nela.”

“Ryoka… Tsc, [Cold  Space]!”

Uma forte onda de frio veio em direção a Thomas, congelando as raízes no caminho, mas Thomas não se preocupou em fugir, aquele tanto de frio não seria o bastante para congela-lo.

Seira saltou em direção a ele sem se preocupar com as raízes que saiam do gelo.

“[Mansion Number 6: Wei]!!”

Uma grande sombra cobriu Seira, era uma raiz gigantesca, como se fosse um arranha-céu, e desceu com toda velocidade em direção a ela, que continuava a seguir em frente.

Não havia preocupação, pois—

Quando a raiz estava prestes a atingi-la, foi impedida por uma barreira de luz. Seira finalmente alcançou seu alvo e o atacou com o tridente, mas Thomas estava mais do que pronto, atacando da mesma forma que antes, com a palma da sua mão, a arma e a mão colidiram… A vitória foi—

“Fraca!!”

O tridente se partiu em pedaços, fazendo Thomas acreditar na vitória.

“[Cold Space: Focus Point].”

Mas Seira apenas pontou a mão em direção a Thomas, que sentiu que seria seu fim caso não se movesse.

Focando toda a baixa temperatura em uma pequena área, Seira pode alcançar níveis incríveis.

Congelando até mesmo o oxigênio, um círculo de gelo apareceu no ar.

“[Cold Space: Focus Point]!”

Ela continuou usando consecutivamente, mas a sensibilidade de Thomas o permitia desviar bem a tempo de todas as técnicas, que apenas criavam círculos de gelo no ar.

“Não brinque comigo!!”

Thomas moveu seu braço e apontou em direção a Seira, controlando todas as raízes para se moverem de uma única vez!

Mas nada aconteceu.

“O que?!”

“Essa luta não é um contra um…!”

As palavras de Seira fizeram Thomas arregalar os olhos e olhar rapidamente na direção de Ryoka.

“[Divine Shooting Stars]!!”

Uma das técnicas mais fortes de Ryoka! [Divine Shooting Stars] transforma qualquer coisa em uma grande área em luz, que se formam como estrelas no céu e depois atacam todas ao mesmo tempo com grande poder destrutivo. As raízes de Thomas apenas serviram como combustível.

Sem ter para onde fugir, Thomas só conseguiu aceitar seu destino ao ser atingido por infinitos raios de luz.

Uma grande cortina de fumaça se levantou na área.

“[Mansion Number 4: Fáng]”

Elas só ouviram a voz de Thomas. Uma luz verde saia da fumaça.

Quando a poeira se dissipou, elas puderam ver o que estava acontecendo, o corpo de Thomas estava todo coberto por raízes que brilhavam com uma forte luz verde. As raízes foram deixando seu corpo aos poucos e entrando no chão.

“Impossível!!”

A indignação de Seira era esperada, pois… Thomas não possuía mais nenhum ferimento!

“Vocês realmente me tiram do sério!”

Irritado, Thomas falou em alto tom de voz. Na cabeça dele, Ryoka, Seira, Kuroshi e Masaya são apenas pessoas que não entendem a situação deles e querem se intrometer mesmo assim.

As duas se prepararam para o recomeço da luta, mas Thomas apenas fechou os olhos e respirou fundo.

“Você tem razão, garota de óculos.”

“…?”

“Nenhuma técnica minha seria capaz de causar dano na sua tão protegida amiga.”

Ryoka arregalou os olhos e moveu seu braço, criando um raio de luz e atirando em direção a Thomas, que teve uma das coxas perfuradas, mas ele sorriu, como se estivesse extremamente satisfeito com essa reação.

“[Mansion Number 4: Fáng]!”

“Huh!”

A voz de Seira fez Ryoka olhar assustada para ela, apenas para notar raízes que emitiam uma forte luz verde amarrando o pé dela.

As mesmas raízes que cobriram o corpo dele antes—

A luz verde cobriu o corpo de Seira instantaneamente e—

“Ah—AAAAAAAHHH!!”

Um grito de dor. Diversos ferimentos apareceram por todo o corpo de Seira. Ela ficou em um estado completamente bagunçado, como se tivesse tomado uma surra de várias pessoas, a dor impediu ela de ficar de pé, que caiu parcialmente no chão ,só se apoiando com o tridente.

“Sei-chan!!”

“Mas pelo visto você possui uma técnica forte o bastante, hahaha.”

Quando Ryoka desferiu um olhar de raiva para Thomas, notou que a ferida na sua perna já havia sumido.

“[Mansion Number 4: Fáng]!”

Uma raiz saiu rapidamente do chão e amarrou o braço de Ryoka, que foi coberta pela luz verde e no instante seguinte, havia um furo na sua perna.

“!!!”

Sangue escorreu pela perna de Ryoka. O poder daquela habilidade ficou evidente… Transferência de danos.

“Ryoka.”

Ryoka olhou para Seira, que ainda olhava para Thomas enquanto estava ajoelhada no chão. Comunicação não era necessário.

Fechando os olhos e sorrindo, Ryoka se acalmou.

O que há para me preocupar, essa garota já é mais forte que eu.

Renovando sua confiança, Ryoka abriu os olhos e olhou para Thomas.

“Está na hora de acabar com isso.”

“Concordo.”

Os dois se encararam antes de Ryoka atirar um raio de luz para cima. Isso surpreendeu Thomas, pois o ataque passou longe dele, mas—

“Agora, Sei-chan!”

“Aquilo é?!”

Círculos de gelo espalhados pelo campo—Espelhos.

Refletindo a luz o ataque de Ryoka viajou instantaneamente por várias direções.

Onde?! – Se perguntou Thomas.

Ryoka atirou o segundo raio de luz para outra direção. Vários espelhos de gelo estavam espalhados pelo campo, a precisão dela precisava ser perfeita para atingir os certos, isso é—

[Analyzer]. Se Thomas por um lado possui uma alta sensibilidade e pode pressentir certas coisas, Ryoka pode literalmente prever o futuro.

Ao mesmo tempo, os dois raios de luz atravessaram as duas pernas de Thomas, levando ele ao chão.

“Sei-chan!”

Seira saltou para o céu, mesmo com todos os ferimentos.

“[Cold Space: Focus Point]!”

Inevitável, os braços e pernas de Thomas foram congelados, Seira se preparou para jogar o tridente em direção a ele.

Mesmo que ele recupere os ferimentos das pernas, não vai evitar o congelamento.

O tridente voou em direção a sua cabeça em alta velocidade… Mas passou apenas do lado do seu rosto, criando um corte na sua bochecha e atingindo o solo atrás dele.

Se ela quisesse, poderia ter o matado.

“A luta acabou.”

Ryoka anunciou. Seira desfez o gelo do corpo dele, fazendo-o cair de quatro no chão. Havia algo que Thomas não conseguiu enxergar durante a luta por sua própria ignorância. As duas garotas na sua frente não estavam lutando com tudo. Ele nunca teve chances de vitória desde o início.

“Ryoka, como estão as outras lutas?”

“Masaya já venceu, enquanto Kuro-kun…”

Ao analisar as lutas, Ryoka desativou seu [Analyzer], afinal, ela prometeu a Masaya usar o mínimo de [Analyzer] possível.

“Ryoka?”

“Vamos até onde Julie está, Masaya e Karl estão se dirigindo para lá também.”

Sem entender muito, Seira aceitou e levantou Thomas, dando suporte a ele, para os três irem para o topo do morro.

 

 

Não sei que tipo de poder você tem, mas definitivamente não irei perder aqui.

Kuroshi confirmou isso consigo mesmo.

“Eu não ia dizer absolutamente nada, mas mudei de ideia, estou disposto a ao menos saber seus motivos… Porque você está enganando a Julie e a todos?”

A pergunta de Max foi totalmente ofensiva, ele não tentava esconder a hostilidade.

“… Não sei do que está falando, não estou enganando ninguém.”

“Está dizendo que você é algum tipo de exceção ao poder de Selina? Que o futuro que ela viu não é real? Acha mesmo que eu vou cair nessa?”

“Huh, não seja tendencioso, da mesma forma que você não quer confiar em mim, eu não tenho que confiar na sua namoradinha, quem me garante que ela não está mentindo para você?”

A expressão facial de Max se distorceu completamente ao ouvir tamanho desaforo.

“… Parece que foi um erro tentar me comunicar com alguém como você…”

“Hah, você pode dizer que eu sou um traidor que vai matar meus preciosos amigos, mas eu não posso dizer que sua namorada está mentindo que eu me torno o errado, huh? Qual parte do ‘não seja tendencioso’ você não entendeu?”

“Cala a boca e vamos começar isso de uma vez.”

Max entrou em posição de combate, provavelmente uma pose de artes marciais. Kuroshi preparou sua espada igualmente.

“Não se preocupe, irei usar minha melhor técnica imediatamente, prepare-se para sentir dor!”

Max fez questão de adicionar mais essa linha. Ao mesmo tempo, ele se posicionou, um braço na altura da cabeça, dobrado, pronto para receber o ataque, e o outro atrás do seu corpo com o punho fechado, com uma perna na frente e outra atrás, sendo a perna de trás com o pé apoiado apenas na ponta, uma postura que permitia Max girar o quadril para receber o ataque de qualquer direção frontal, mas caso o ataque viesse de trás, ele poderia tirar a perna da frente do chão e girar seu corpo para receber qualquer ataque vindo de trás.

Kuroshi não sabia, mas ele apelidou (Propositalmente) essa postura de [Postura do Tigre].

“Você fala demais.”

Kuroshi avançou em direção a Max sem mais esperas e o atacou, mas Max colocou o braço na frente da espada.

“[Mansion Number 16: Lóu].”

O braço de Max se tornou metal puro, ossos, músculos, pele, até mesmo a roupa. O barulho de metal batendo com metal ecoou pela área, e a espada de Kuroshi rachou. Usando seu braço receptor para empurrar o ataque de Kuroshi para fora, ele consegue empurrar o oponente para trás e desequilibrá-lo por um momento, criando a abertura perfeita para atacar.

Com o [Lóu] no seu outro braço, Max moveu seu corpo para frente e aplicou um soco no estomago de Kuroshi com toda a força, Kuroshi sumiu da sua vista como se tivesse se teletransportado, e uma grande onda de destruição se espalhou para a direção que ele foi jogado.

Kuroshi só parou após atingir a base de uma montanha, onde uma grande cratera foi criada por conta do impacto.

Ele não imaginava que a “técnica mais forte” de Max se referia a uma técnica de artes marciais, e não uma técnica de [Avatar de Deus].

“Kuh….Kuh…”

Caindo da cratera, Kuroshi tossiu sangue.

“Arh… Arh… Se eu não tivesse protegido a área atingida com [Reisei], eu provavelmente teria sido derrotado…”

Kuroshi se levantou e colocou uma das mãos na barriga.

Nunca pensei que um soco pudesse causar tanto estrago…

Apesar da surpresa, Kuroshi podia ter uma noção. [Avatares de Deuses] são naturalmente fortes e resistentes, dependendo do [Avatar de Deus], um soco dele pode ser muito destrutivo, e seu corpo pode ser resistente o bastante para sobreviver a uma bomba atômica. Porém, imagine que isso seja possível através do [Reisei], e que corpos de carne e osso já sejam resistentes dessa forma, Max eleva isso a um outro nível, transformando seu corpo em metal puro e aprimorando com o [Reisei]. Se carne e osso já é capaz de tanta coisa, quantas vezes mais forte isso seria se fosse metal puro?

Porém, esse ataque surpresa foi apenas uma exceção…

“Fuu….”

Kuroshi respirou fundo e exalou o ar do seu peito, pegando seu ombro e girando o braço, como se estivesse se aquecendo.

Alguns minutos já devem ter se passado desde que a luta começou, embora só esteja no começo ainda, as outras lutas já estavam no fim.

“Vamos lá!”

Kuroshi segurou sua espada com força e avançou em direção a Max.

Eu fui jogado realmente longe!

Após voar um pouco, ele finalmente avistou Max, ainda parado no mesmo lugar, na mesma [Posição do Tigre].

Kuroshi girou no ar e atacou com a espada, mas Max defendeu o ataque novamente, exceto que dessa vez a espada quebrou completamente. Por causa da quebra da espada, o movimento onde Kuroshi é empurrado e fica com a guarda aberta foi impedido. Apesar da surpresa, Max estava pronto para isso—

Os olhos vermelhos de Kuroshi foram perdidos de vista.

[Helm of Eternal Darkness]!

Kuroshi desapareceu, deixando Max sem ação. A próxima coisa que ele sentiu foi um soco no estomago, seguido de um no rosto e um chute na costela que o jogou para o céu, para então finalizar com um soco no meio da face, que jogou Max como um míssil em direção ao solo. Um vasto rastro de poeira foi gerado, junto de uma fissura no solo.

Os golpes aprimorados com [Reisei] de Kuroshi provavelmente causaram um bom estrago, já que não havia como saber onde ele ia atacar, e por consequência, não era possível defender.

Vou ter que abrir mão da espada… Mas meus punhos são mais que o bastante.

Naquele momento, todos os outros já haviam se reunido no topo do morro, junto de Julie, que apenas assistia em silêncio.

“KOUJIIII!!”

Um grito ecoou pela ilha, dissipando a poeira. Max estava de pé, com sangue saindo de ambos os cantos da boca.

Kuroshi desceu até o solo.

“Ele—!!”

Os cabelos negros de Max se tornaram brancos, e seus olhos azuis. Max aumentou seu poder até 30%.

Esse idiota! Não há necessidade de ninguém morrer aqui!

Kuroshi explodiu o chão ao se movimentar em direção a Max, o mesmo fez a mesma coisa.

Ao se aproximarem um do outro em uma velocidade incrível, Kuroshi concentrou todo o [Reisei] no punho, os seus cabelos se tornaram roxos, indicando seus 30% de poder também. Max transformou o seu punho em metal e também concentrou o [Reisei], os dois punhos se encontraram.

Uma onda de vento passou pela ilha, um terremoto veio logo em seguida, a ilha estava se dividindo em duas!

Os dois foram lançados em direções opostas pelo impacto e capotaram no chão.

No topo do morro, inquietação ocupava a todos.

“Incrível! Eles partiram a ilha em dois!”

Seira exclamou.

“Max onii-chan… Kuroshi…”

Julie parecia muito confusa. Ryoka notou o estado dela.

No campo de batalha, Kuroshi se levantou e olhou para Max, mas não o encontrou.

Acima!

Olhando para o céu, ele viu Max descendo com o calcanhar de metal em direção a ele, Kuroshi saltou para trás no último momento, e ao atingir o solo, várias rachaduras gigantescas se estenderam por todos os cantos dessa parte da ilha.

Kuroshi aproveitou o momento e levantou ao mesmo tempo seu dedo indicador e do meio.

“[Dark Sword of Death]!”

Das rachaduras, Max viu uma luz violeta, se não fosse por isso, talvez ele não tivesse reagido a tempo, mas ao saltar para trás, ele apenas viu uma gigantesca lâmina violeta destruindo completamente esse lado da ilha. Florestas, rios, montanhas, tudo se tornou apenas escombros sendo jogados para o céu.

Max estava em cima de um desses escombros indo em direção ao céu. Entre os diversos escombros, ele avistou Kuroshi o encarando.

Os dois começaram a saltar de pedra em pedra até se encontrarem e trocarem socos, pousando em outros escombros e repetindo o processo.

Kuroshi concentrou o [Reisei] nas pernas e começou a saltar de escombro em escombro em uma velocidade ainda mais alta. Max só conseguia enxergar um laser púrpuro em todos os cantos.

“… Rápido demais!”

Kuroshi repentinamente surgiu na frente de Max, que só teve tempo de colocar os dois braços na frente do corpo e transforma-los em metal. Kuroshi atacou com toda a força que conseguia exercer, a onda de choque pulverizou todos os escombros no céu e quebrou o bloqueio de Max.

Mesmo que defenda com seus braços, o resto do seu corpo fica desprotegido, se não souber balancear sua defesa—

Kuroshi girou o corpo e atingiu o peito de Max com o calcanhar, empurrando ele de volta para metade intacta da ilha.

Descendo até o chão, Kuroshi esperou Max se levantar.

Apesar de ter levantado, Max parecia exausto e bem ferido.

 

No morro, outra coisa estava acontecendo.

“Você entende o que está acontecendo, Julie?”

O tom de Ryoka era muito sério, até mesmo não usando sufixos para falar com Julie.

Julie olhou para ela assustada.

“Esqueça o Maxwell, você tem que andar com suas próprias pernas, mesmo se for para você morrer por isso, valerá mais apena do que viver como uma dependente.”

“Mas… Max onii-chan vai me proteger…”

Ryoka fechou os olhos, respirou e abriu os olhos novamente.

“Ele não vai, ele não é capaz, ele não é forte o bastante, nem maduro o suficiente.”

Karl e Thomas ficaram surpresos com as palavras de Ryoka, enquanto Julie ficou mais chocada do que surpresa, balançando a cabeça para ambos os lados lentamente, se recusando a acreditar, aquela cena de dar pena irritou profundamente Ryoka.

No momento seguinte, um alto estalo ecoou pela área, Ryoka deu um forte soco no rosto de Julie, forte o bastante para derruba-la no chão.

“Eu não escolhi uma covarde como essa para me substituir! Isso não é a Julie que nós acolhemos! Agora olhe bem para aquela luta!”

Apesar dos gritos de Ryoka, Julie permaneceu com o rosto no chão.

“Tch!”

Ryoka pegou Julie pelo cabelo e levantou a cabeça dela forçadamente.

“Olhe bem, Julie! Você precisa ver com seus próprios olhos o Kuro-kun chutando a bunda do seu irmão, você precisa ver com seus próprios olhos que esse que vai apanhar não é aquele que vai te proteger!”

A imagem de Kuroshi era refletida nos olhos de Julie.

Uns passos atrás dali, Seira e Masaya se afastaram com um sorriso congelado no rosto.

““… Assustadora.””

Os dois falaram ao mesmo tempo, em perfeita sincronia.

 

De volta a luta…

“Vamos acabar com isso, Maxwell. Use sua melhor técnica. Eu vou te destruir enquanto você usa sua melhor arma.”

Max devolveu um olhar de ódio para Kuroshi, e entrou na [Posição do Tigre].

É uma jogada arriscada, Kuroshi sabe que se for atingido em cheio novamente, a situação ficará péssima.

Mas—

Não há nenhuma chance que eu vá perder essa luta.

Isaac… Magna… Loki… Noah. Comparado as lutas que eu passei para chegar aqui, você é… Fraco.

Kuroshi não queria desmerecer Max, ele definitivamente era bem poderoso. Mas essa luta nem se compara a tensão que ele passou nas lutas passadas, em momentos onde ele não tinha certeza se sequer sairia vivo, comparado a isso, essa luta—

A vitória é certa.

Kuroshi avançou em alta velocidade, sua espada foi criada.

[Helm of Eternal Darkness]!!

Kuroshi desapareceu.

“Eu já vi através dessa técnica, KOUJI!! [Mansion Number 21: Shen]!!”

Três esferas brilhantes apareceram ao redor do pulso de Max, girando em alta velocidade.

[Shen] é uma técnica especial de Max, que o permite atingir o intangível. Nada escapa desse ataque, e por isso—

Atacando o ar, a dimensão foi destruída. Não para voltar ao normal, mas para encontrar Kuroshi, abrindo o caminho para onde Kuroshi ‘se esconde’ enquanto no [Helm of Eternal Darkness].

Não era esperado, mas Kuroshi já tinha um plano B planejado. No momento em que a dimensão foi aberta e Kuroshi foi revelado, ele lançou a espada em direção a Max.

Um dos pontos fortes de um artista marcial, também pode ser um ponto fraco—Reflexos.

Max saiu da sua postura para defender a espada, abrindo espaço para Kuroshi atacar.

Após defender a espada, Max notou que caiu no plano de Kuroshi e tentou se recuperar, mas—

Tarde demais, eu sou mais rápido!

Kuroshi já estava dentro do alcance necessário. Vindo de baixo, o punho de Kuroshi subiu com velocidade total em direção ao queixo de Max. Um gancho!

Seu queixo se tornou de metal, era impossível defender, mas ele ainda reagiu a tempo! Se seguir assim, esse não será um ataque definitivo. É por isso—

[Open: Meikai]!

A dimensão mudou completamente, o poder de Max foi reduzido para 10%!

10% vs 30%, uma diferença tão absurda que mesmo com o corpo de metal—

O ataque foi perfeitamente aplicado, lançando Max para o ar. A visão de Max escureceu…

Julie… Desculpe.

Caindo no solo desmaiado, Max estava fora de combate. A luta acabou.

A aparência de Kuroshi e Max voltaram ao normal.

Apenas um ficou de pé.

Ao olhar para direção do morro, Kuroshi esperava ver Julie, mas ela não estava lá.

Ao invés disso—

“Está pronta para voltar conosco… Julie?”

Ela já estava próxima dali, em frente a Kuroshi, que perguntou sorrindo gentilmente.

Lágrimas escorriam pelo rosto dela, um sentimento muito forte de leveza cobria seu corpo. Como se tivesse sido libertada de correntes de verdade que a prendiam.

Kuroshi conseguia ver isso nos olhos dela, por isso se sentia realmente feliz.

Ele abriu os braços para ela, e ela correu em sua direção como esperado.

Obrigado—

Apenas um agradecimento para apenas ele ouvir.

“Julie—!”

Quando ela estava prestes a abraçar Kuroshi, quem apareceu foi Thomas, entrando no caminho e empurrando ela para trás.

Thomas, o mais sensível de todos ali, sentiu um momento antes.

Um grande espinho de terra saiu do solo e atravessou a barriga de Thomas.

“Thomas…onii-chan…!”

A cara de espanto de Kuroshi e a cara de surpresa de Julie refletiam a reação de todos.

“Você…!”

Kuroshi olhou para trás ao ouvir a voz de Max, que aparentemente havia acordado, ele estava olhando para outra direção, ao acompanhar o olhar de Max—

“Aah, vocês todos são realmente muito estúpidos.”

Alguém havia entrado na área, a sua aparência não deixava duvida para Kuroshi, mesmo só tendo ouvido a descrição de Karl—

Roupa dourada, cabelos dourados, olhos dourados—

“KOGANE!!”

Max gritou o nome dele. O dragão amarelo do centro, Kogane. O assassino da irmã deles, Liliana Alberta.

Kami no Sensou – O Maior Inimigo (Volume 5: Capítulo 8)

O treinamento de Kuroshi, Seira e Ryoka continuava.

Ayane caminhava lentamente em direção a Kuroshi e Ryoka, ainda perplexos pelo ataque de antes que jogou Seira longe.

Caminhar lentamente em direção aos oponentes não condizia com o estilo de luta de Ayane, até pelos poderes dela, mas era uma ação necessária para o treinamento. Tentar de alguma forma demonstrar superioridade nem de perto seria o suficiente para fazer aquelas três pessoas recuarem, mesmo sendo uma situação de risco eles provavelmente continuariam a lutar com tudo. Mas isso não quer dizer que eles podem escapar dos seus instintos humanos, é natural sentir receio diante de uma situação assim, mesmo que não seja um sentimento forte o bastante para impedi-los de continuar lutando.

Um pouco mais distante dali, Seira já havia se levantado. Apesar de ter recebido dano, não causou nenhum ferimento no seu corpo.

Ayane olhou para cada um dos três enquanto caminhava, e depois olhou para Noah, que acenou com a cabeça positivamente. Voltando seu olhar para os oponentes, Ayane, que já estava a uma distância ameaçadora de Kuroshi e Ryoka, se moveu.

Em um instante era desapareceu e apareceu novamente na frente de Kuroshi.

Rápida…! Porém, eu posso desviar—

“?!”

Ayane, com a palma da mão aberta, atingiu a barriga de Kuroshi e jogou ele para uma distância mais longa de onde Seira estava.

Antes que Ryoka pudesse fazer algo, Ayane saltou para trás e se afastou novamente. Na verdade, Ryoka teve tempo de fazer algo, mas ficou chocada com a situação o bastante para ficar sem reação. Não pelo ataque de Ayane, mas por Kuroshi ter sido atingido por Ayane.

Ela se moveu mais lentamente que o normal, sendo o Kuro-kun com controle sobre o [Reisei], ele devia ter conseguido desviar normalmente…

Enquanto perdida tentando entender a situação, Noah deu um passo a frente.

“Não fiquem tão surpresos, o [Reisei] é parte de vocês, afinal. Seu estado psicológico pode afetar seu controle sobre o [Reisei].”

Ryoka olhou para Noah, surpresa.

“Então nós podemos não conseguir controlar o [Reisei] caso estejamos psicologicamente abalados?”

“Certo… Imagine uma pessoa comum que se deparou com uma situação onde um carro que ela não havia notado por estar distraída está vindo em sua direção, apesar de variar de pessoa para pessoa, essa pessoa em questão poderia ficar chocada com aquilo, e mesmo que sua mente funcione claramente, seu corpo pode simplesmente congelar diante daquilo e ela não conseguir desviar do carro. Funciona da mesma forma que os instintos naturais, exceto que de forma contrária.”

Qual a propriedade do [Reisei]? Ryoka não conseguia pensar em uma explicação para essa energia, apesar de entender claramente o que Noah quis dizer.

Talvez fosse como um “segundo corpo” que existe em outro plano e que é movido pela pessoa da mesma forma que o corpo real. Talvez fosse uma espécie de “alma” invisível e intocável, que existe dentro do corpo de cada um. Talvez fosse até mesmo uma “sensação”. Mas não adiantava buscar uma resposta, uma vez que nem mesmo a pessoa que está ensinando eles sabe.

“Obrigado pela explicação, era só o que eu precisava saber.”

Kuroshi voltou, junto de Seira, para o lado de Ryoka.

“Esse treinamento já está ficando um pouco preocupante, com a Ayane enfrentando nós três sem sequer usar o poder dela e tudo mais… Está na hora de mudar isso, não?”

O comentário de Kuroshi possuía um tom sarcástico, mas por alguma razão ele olhou para Ryoka ao comentar, que olhou para ele com um olhar curioso, parecia um pouco surpresa, mas também parecia entender o significado por trás daquelas palavras.

Ainda sorrindo, Kuroshi olhou diretamente para Ayane.

“Nós forçaremos você a usar seu poder.”

Ayane pensou em dizer: “Acho que você esqueceu o propósito do treinamento”, mas mudou de ideia e resolveu carregar um pouco mais a luta.

Afinal de contas, os comentários de Noah eram feitos com o propósito de tentar facilitar para os três a extensão do [Reisei] para suas respectivas armas e, eventualmente, técnicas.

Retomando a luta, Kuroshi e Seira começaram o ataque.

“[Cold Space]!”

Ativando seu [Cold Space] ao redor de Ayane, Seira forçou ela a se mover.

Apesar de ter evitado o [Cold Space] se movendo para esquerda, o que esperava Ayane era Kuroshi, que tentou atingi-la com a espada, mas como da primeira vez, ela estava desviando sem dificuldades.

“[Cold Space]! [Cold Space]!!”

Usando consecutivamente o [Cold Space], Seira começou a controlar os movimentos de Ayane.

Não é como se o [Cold Space] fosse o bastante para derrotar Ayane, porém, mesmo que por um milésimo, se Ayane se permitir congelar em algum ponto, esse atraso pode ser o bastante para mudar o fluxo da luta.

“Te peguei!”

Kuroshi finalmente conseguiu achar uma abertura nos movimentos de Ayane e ataca-la de forma com que fosse impossível esquivar.

Colocando o antebraço no caminho da espada, Ayane defendeu o ataque de Kuroshi, que gerou uma grande onda de impacto pelo local.

O [Reisei] concentrado na área atingida impediu que sequer um arranhão fosse criado na pele de Ayane, mas existia um motivo claro para ela evitar todos os ataques de Kuroshi.

O efeito da espada—A corrosão da alma.

Apesar de não ter um efeito muito forte, ser atingida muitas vezes pela espada lentamente vai destruindo a alma dela, que por consequência vai enfraquecer o seu corpo e torna-la mais vulnerável.

Forçando seu braço para direção oposta da espada, Ayane se livrou do ataque, o que deixou Kuroshi com a guarda totalmente aberta. Movendo seu outro braço em direção ao torso de Kuroshi, ela tinha tudo para dar um golpe certeiro, no entanto—

“—!!”

Se surpreendendo e saltando para trás, Ayane se afastou de Kuroshi. No instante seguinte, um raio de luz caiu onde seu braço estava antes.

Ela não precisava olhar para saber quem lançou o ataque. O sorriso de Kuroshi dizia que tudo ia como o planejado. O que se passava na sua cabeça era:

Honestamente… É algo estranho de se pensar, mas estou feliz de não ser quem mais avançou nesse treinamento. Mesmo que eu estivesse em um patamar superior, o máximo que eu poderia fazer é ajudar a mim mesmo… Mas no caso dela é diferente, na vantagem ou na desvantagem, Ryoka sempre luta por todos—Esse é o poder de uma líder!

Kuroshi avançou novamente em direção a Ayane, que tentou saltar para trás, mas parou no último momento ao notar um raio de luz caindo para onde ela estava se movendo.

Esquerda, direita, atrás, todas as rotas de fuga estavam seladas. Kuroshi só precisava atacar!

Cumprindo seu papel, Kuroshi tentou atingir Ayane novamente, que se abaixou e se esquivou do ataque. Pronta para se levantar aplicando um ataque direto em Kuroshi, Ayane tentou se mover, no entanto—

O chão que servia de suporte para ela se partiu em pedaços, uma pequena quantidade de água vinda de baixo do solo pulverizou o chão e pegou Ayane em uma armadilha.

Caindo de costas no buraco cheio de água, o que vinha do céu na sua direção era mais um raio de luz, naquela posição era impossível desviar do ataque. Quando o raio de luz chegou a centímetros do seu rosto, ele bateu em uma barreira de luz e se desfez, essa mesma barreira impediu Ayane de cair no buraco.

“Que tal nos levar um pouco mais a sério agora?”

Apesar do comentário de Kuroshi, não é como se Ayane não estivesse levando eles a sério, apenas que não fazia parte do treino usar seus poderes.

Mas Ayane entendia e reconhecia, fosse essa uma luta de verdade, ela já estaria morta. Conhecendo o poder de Ryoka, seus raios de luz atravessariam seu corpo facilmente, ela estava prestes a cair em uma poça de água, da qual Seira tinha total controle, e Kuroshi estava em uma ótima posição para fazer o que quisesse naquela situação. Foi uma derrota completa para o trabalho em equipe dos três.

Ayane se levantou, saiu da barreira e caminhou até um pouco longe dali em silêncio.

Os três acompanharam ela com os olhos, meio curiosos.

Ayane olhou mais uma vez para Noah.

“Não há muito o que se fazer, Ayane, pode seguir em frente.”

Conseguindo a confirmação que precisava, Ayane olhou em direção aos três.

“Vocês… Vocês sabem sobre Hera?”

“A Deusa dos casamentos, das esposas, da maternidade e esposa de Zeus, certo?”

Ryoka respondeu rapidamente, mostrando seu amplo conhecimento do que andou estudando nos últimos anos. Apesar de ter falado resumidamente, Hera ainda possuía vários mitos e representações diferentes, mas não era uma situação onde pudesse ter uma aula de história.

Aparentemente satisfeita com a simples resposta, Ayane balançou a cabeça positivamente e levantou sua mão esquerda até a altura do seu rosto. Mostrando a parte de trás da mão para os três, uma aura brilhante surgiu em volta de Ayane enquanto ela fechava os olhos.

“…[Shinseina Kekkonshiki].”

Uma forte luz surgiu da mão de Ayane. Mais surpreendente ainda era o fato da mão esquerda de Noah também ter começado a brilhar.

“Não é algo completamente real ainda, mas…”

Lentamente era possível ver que algo havia sido criado no dedo anelar de Ayane… Uma aliança.

Da mesma forma, a mesma aliança também surgiu na mão esquerda de Noah.

Como o próprio nome da técnica indica, o surgimento temporário do matrimônio sagrado tomava conta da atmosfera do local.

Um poder que apenas a [Avatar de Hera] poderia usar. Apesar de depender da pessoa pela qual ela está pronta para oferecer a vida, os resultados são mais do que satisfatórios.

“Vamos continuar.”

Ayane disse antes de avançar em alta velocidade na direção dos três.

As palavras de Ayane trouxeram os três de volta para realidade—A luta ainda precisava continuar.

O que uma aliança poderia fazer?

Eles logo descobririam… Da pior maneira.

Ryoka foi a primeira a agir, atirando raios de luz para selar os movimentos de Ayane novamente, mas…

Uma coisa não tão comumente vista—Um leve sorriso no rosto de Ayane.

“…[Pantheon Fortress].”

As duas palavras pronunciadas por Ayane chocou violentamente todos os três enquanto os raios de luz de Ryoka atingiam Ayane sem causar nenhum efeito.

Estendendo sua mão em direção a Kuroshi que ainda estava, Ayane deu o golpe definitivo.

“[Lightning Sword of Victory].”

A espada de trovão que se movia mais de 10x mais rápida que a luz passou pelo canto do rosto de Kuroshi, que não conseguiu realizar nenhuma ação.

Da mesma forma que aconteceu com Ayane, se fosse uma luta de verdade, Kuroshi estaria morto agora.

“Hah, não se arrependam de acordar o leão adormecido.”

Noah comentou com um grande sorriso no rosto. Provavelmente se sentindo como se ele estivesse surpreendendo a todos e não Ayane. O que é algo natural, o tipo de alegria e empolgação que você sentiria ao ver a pessoa que você ama se destacando em uma disputa.

Enquanto isso, Kuroshi, Seira e Ryoka ainda não sabiam como reagir.

Ayane, ainda não satisfeita, criou uma lança, uma lança que eles já estavam familiarizados. A lança de Zeus.

As técnicas de Zeus. As armas de Zeus. As coisas que Noah já demonstrou até então, e as coisas que Noah ainda não mostrou até hoje.

O que é seu, é meu. O que é meu, é seu. A união perfeita do casal, onde os dois podem confiar seus mais profundos pertences ao parceiro, seja isso material ou espiritual.

Normalmente um patamar inalcançável para humanos comuns, graças a natureza corrompida que todos possuem, duvidas, desconfiança, uma miríade de sentimentos negativos que podem ser gerados até mesmo pelos motivos mais estúpidos, o verdadeiro sentimento do amor que foi sendo distorcido e esmagado com o passar das gerações, mesmo em um planeta com bilhões de pessoas, poucos casais se destacam pelo quão forte sua união é.

É esse lugar que a Deusa do Casamento almeja alcançar, Noah e Ayane compartilham um sentimento mútuo que sobreviveu durante tantos séculos.

Apesar de não ser tão familiarizada com o trio, Ayane sabia que jamais perderia para esses três nesse quesito.

Principalmente em relação a—

“Vamos lá, não deixem essa demonstração de amor ser em vão, vamos continuar.”

As palavras de Ayane, carregadas com confiança e um pouco de humor, fez os três se moverem.

Pois apesar de tudo, ela realmente mostrou algo como isso para eles. O poder do [Casamento], ter acesso a todos os poderes de Noah.

Isso não seria basicamente enfrentar o próprio Noah?

Não, provavelmente seria pior.

Mas mesmo assim, em respeito a ela, os três se moveram mesmo sabendo os resultados.

 

“Hah… Hah… Estou morto…”

Kuroshi, sentado no chão e pingando a suor, estava ofegante.

Próxima a ele estava Seira, em estado similar. Ryoka também estava nesse mesmo estado, mas estava mais longe dali, esperando algo, provavelmente.

A [Dimensão Reversa] já estava fechada, então eles estavam fisicamente bem, mas há alguns minutos atrás eles estavam completamente destruídos.

A luta prosseguiu de maneira unilateral, como o esperado. Afinal de contas, olhando apenas para Ayane, eles esqueceram que por trás dela estava nada mais, nada menos que a Rainha dos Deuses.

Para piorar, o treinamento não progrediu muita coisa, pois eles esqueceram dessa parte durante a luta, e acabou se tornando mais um teste das suas capacidades de controle de [Reisei] do que o treino em si.

Atualmente eles estavam dando uma pausa para se alimentarem.

Embora Kuroshi estivesse mais interessado em beber água do que comer algo, devido a seu estado.

Após descansar o bastante, Seira notou que estava “a sós”, de certa forma, com Kuroshi. Consciente da situação, ela ficou meio sem jeito. O maior motivo era que havia algo que ela precisava dizer para ele, mas provavelmente não era hora para algo assim, não só pelo treinamento, mas por toda a situação com a Julie.

Kuroshi parecia avoado, ou ao menos era o que ele queria demonstrar externamente. Ele notou o estado de Seira, mas achou melhor não forçar esse assunto agora, por isso agia como se não notasse.

As ações dos dois entraram em perfeita sincronia para criar uma atmosfera desconfortável no local, por causa das coisas que os dois estavam fazendo, com a Seira olhando pro solo e Kuroshi olhando pro céu, mais parecia que um não sabia o que falar pro outro do que duas pessoas descansando de um treinamento pesado.

 

Longe dali, Ryoka observava os dois com um olhar de “O que diabos eles estão fazendo?”, ao olhar em uma direção totalmente oposta, ela viu Noah e Ayane almoçando… Ou melhor dizendo, Noah almoçando… Ayane estava alimentando Noah, para dizer a verdade. Por estarem agindo bem naturalmente quanto a isso, não existia uma atmosfera melosa entre eles, parecia mais algo como “Prove isso, acho que vai gostar” e “Oh, isso é muito bom! O que é isso?!”, mas para alguém que via de fora, provavelmente se sentiria enjoado, vendo o “casal perfeito” sendo feliz, até a mais feliz das pessoas reagiria com “Argh” assistindo isso.

“Hey, Ryoka-chan, o que está fazendo?”

Ouvindo uma nova voz vindo de trás dela, Ryoka olhou para Masaya, que apareceu do nada com duas pequenas marmitas em cada uma das mãos.

“Observando o casal desconforto, e o casal ‘Argh’.”

Ryoka apontou para as duas duplas respectivamente.

“Oh, entendo… E que tipo de casal nós somos então?”

Apesar de estar atrás dela e não poder ver seu rosto, Masaya notou que Ryoka se surpreendeu com a pergunta.

“C-Casal inexistente. Que tipo de pergunta é essa?!”

Ela gaguejou! Ela tentou responder a sério, mas gaguejou!!

Masaya precisou se esforçar para conter a risada.

“Bem, você estava rotulando eles por parecerem casais sentados juntos, não? Já que iremos almoçar juntos, nos olhos de quem vê de fora, pareceremos um casal também, certo?”

Ryoka virou o rosto em direção a Masaya com um olhar de surpresa. Como se sua expressão estivesse congelada, com esse mesmo olhar, ela pegou uma das marmitas, e lentamente se afastou de Masaya, até ficar longe o suficiente para ser vista como um mero ponto na distância pela perspectiva de Masaya.

“Acho que exagerei um pouco, hah~…”

Masaya se sentou sozinho e começou a almoçar.

 

Voltando para Kuroshi e Seira, nenhum dos dois falava nada. O silêncio era desconfortante, mas em breve o treinamento recomeçará e essa situação será enterrada.

Era melhor dessa forma.

Ou será que era?

Seira esteve pensando em se livrar disso que tem guardado com ela de uma vez.

Talvez não passe pela cabeça dela, mas o que ela sente já ficou bem óbvio na luta de Kuroshi contra Noah, no entanto, era algo maior que ela, e ficar guardando isso sempre para algum momento ‘especial’ poderia apenas causar mal a ela, ou mesmo aos dois.

“… Kuroshi, eu realmente preciso te dizer uma coisa…”

Os olhos de Kuroshi se direcionaram para Seira, por ela já estar olhando para ele antes, os olhos dos dois se encontraram.

Kuroshi sabia que esse momento viria cedo ou tarde, e ele esteve se preparando para isso desde que notou os sentimentos de Seira há muito tempo atrás.

Mas como ele irá responder aos sentimentos dela? Só ele sabe como irá responder.

“Kuroshi, eu—“

Naquele momento, os olhos de Kuroshi se arregalaram tamanha a impressão que ele sentiu.

“Kuroshi? O que houve?”

Por estar tão próxima do rosto dele, Seira notou a irregularidade.

“Cheiro…”

“Cheiro?”

Kuroshi se levantou rapidamente, Seira por sua vez tentou sentir algum cheiro no ar, mas tudo parecia normal.

“Nós precisamos ir atrás da Julie agora.”

“Eh?!”

Ele parecia fora de si, mas suas palavras foram certeiras. Seira se levantou e acenou para seus amigos, pedindo ajuda.

Todos se reuniram rapidamente, preocupados. Ao ouvirem a explicação de Seira e verem de perto o estranho comportamento de Kuroshi, Noah deu um passo a frente para falar com ele.

“Nós temos que ir buscar a Julie imediatamente.”

Kuroshi estava apontando para uma direção, supostamente para onde deveriam ir.

“Para lá? Kuroshi, você sabe que essa é a direção para o oceano, certo? Porque a Julie estaria lá?”

Assim que Noah perguntou, foi a vez de Ryoka entrar na conversa.

“Talvez eles tenham levado ela para algum lugar isolado para nos despistar.”

Um palpite inteligente, mas nesse caso, como Kuroshi sabe disso? Era isso que Masaya quis investigar.

“Você disse sentir um cheiro?”

Kuroshi olhou surpreso para Masaya, meio incrédulo.

“Sim… O cheiro de uma flor…”

“Flor?”

Agora todos voltaram a ficar confusos. Ele dizia nada com nada.

“Se o Kuroshi está dizendo, então talvez seja bom conferirmos…”

Seira depositava sempre sua confiança nele, não seria diferente agora.

“Você tem razão, Sei-chan. Seguiremos as direções que Kuro-kun está dando, o que vocês farão?”

A pergunta obviamente era para Noah e Ayane.

“Somos aliados, mas creio que essa luta vocês precisam vencer sem ajuda, talvez na próxima.”

“Nesse caso…”

Com a resposta de Noah, Ryoka olhou para Kuroshi, Seira e Masaya.

As coisas que Kuroshi diziam eram estranhas e confusas, mas suas ações na maioria do tempo eram as mesmas de sempre, ela decidiu seguir o que ele estava dizendo.

Talvez, e só talvez, independente de como isso veio até Kuroshi, algo poderia estar para acontecer com Julie, e eles precisam estar lá para ajuda-la. Era melhor agir e fazer algo inseguro, do que não fazer nada e se arrepender depois caso algo aconteça.

“Kuro-kun, nos mostre o caminho!”

“Sim!”

Kuroshi saltou no ar e começou a voar em alta velocidade em direção ao oceano—Em direção a ilha onde Julie estava.

Os outros três seguiram logo atrás.

Devido a altura, era impossível eles serem vistos por pessoas normais, e assim que chegaram no oceano essa possibilidade desapareceu completamente, era uma preocupação a menos.

Após pouco tempo, uma ilha apareceu a distância.

“Uma ilha no meio do nada?”

Masaya questionou, surpreso.

“Se eles estiverem lá, definitivamente escolheram bem o local. Jamais acharíamos eles normalmente.”

Apesar do que Seira disse, havia algumas alternativas para procurarem caso a situação ficasse realmente grave.

Tudo isso deixavam todos inquietos e sem saber muito o que pensar, com exceção de Ryoka.

A mente de Ryoka era muito rápida, ela já havia pensado em infinitas possibilidades. Supondo que o que Kuroshi disse seja verdade, existe apenas um resultado que ela considera provável.

Ela sabe que se alguém almejar algum mal para Julie, definitivamente não serão seus irmãos, ao menos não intencionalmente, eles amam Julie como qualquer um amaria sua família, e isso é um fato. Kuroshi parecia realmente com pressa, e isso por si só já elimina a possibilidade de ser uma ameaça externa, como algum [Avatar de Deus] inimigo que por um acaso encontrou a ilha. Por quê? A linha de raciocínio de Ryoka era simples, por mais que soubessem da ameaça e quisessem ir até a ilha o mais rápido possível, desespero não era realmente viável nesse caso, pois Julie está perfeitamente protegida, ela tinha duvidas se eles realmente precisariam ajudar a derrotar alguém com Maxwell, Thomas e principalmente Karl lá para proteger Julie, além dela ser forte o bastante para proteger a si mesma, afinal de contas, até hoje Ryoka ainda não presenciou uma Julie lutando com tudo que ela tem, vai saber que tipo de técnicas ela ainda possui guardadas?

Nesse caso, qual seria o problema? Bom, a única hipótese que vinha a mente de Ryoka era também a pior delas, o maior perigo que Julie poderia passar era se o problema fosse ela mesma.

Inimigos podem ser derrotados apenas com poder, mas se o problema for psicológico, dependendo da gravidade do problema eles podem perder Julie para sempre. Tudo bem que comparado com seus irmãos, o tempo que ela passou com Ryoka e os outros foi muito breve, mas na vida de um [Avatar de Deus], um dia é um mês, um mês é um ano e um ano é uma década, ou ao menos funciona nessa linha até onde a intensidade da vida de cada um vai. A conexão deles é forte o bastante para Ryoka acreditar que Julie não ia simplesmente abandoná-los porque confia mais no seu irmão do que nos seus amigos, pensar dessa forma seria aceitar o fato de Kuroshi ser um traidor que um dia irá mata-la sem o menor remorso, essa possibilidade é descartável.

Por isso, Ryoka acredita que o real problema é o estado psicológico de Julie, e que isso está se agravando a cada minuto, então eles precisam agir o mais rápido possível. Infelizmente o treinamento não foi concluído, mas ela confia nas suas habilidades, e nas habilidades de todo mundo que está com ela, o suficiente para não temer nem um pouco um confronto direto com os irmãos Alberta.

Ela já está assumindo que esse confronto irá acontecer—Não, esse confronto PRECISA acontecer. Noah também tinha essa noção, e por isso disse que essa era uma “luta que eles precisavam vencer sem ajuda”. Se as correntes que limitam Julie atualmente são seus irmãos, ou talvez mais precisamente Maxwell, então a melhor solução para essa situação seria destruir essas correntes.

Pode parecer um pouco cruel, mas quebrar a confiança estabelecida entre eles mostrando que eles são incapazes provavelmente é a solução mais eficaz. Todos os quatro entendem isso.

Enquanto viajava em diversos pensamentos, Ryoka notou que a ilha já estava bem próxima.

“Tem certeza que é aqui? Parece ser uma ilha deserta.”

“Não, olhe bem. Há uma grande casa de madeira entre as montanhas.”

Masaya respondeu a duvida de Seira enquanto apontava para direção que ele olhava. Graças a visão aprimorada de um [Avatar de Deus], era possível enxergar esse tanto mesmo nessa distância.

“E então, vamos descer?”

Para a questão de Ryoka, os três acenaram positivamente com a cabeça, e desceram em direção a ilha.

 

 

Algumas horas antes de Kuroshi e os outros chegarem na ilha.

“Você realmente me pegou de surpresa quando sugeriu que viéssemos para essa ilha.”

“Por mais que você seja meu irmão, eu suspeitei que você fosse contatar eles e dar nossa localização, desculpe por isso, nii-san.”

Na sala daquela casa estavam Max e Karl. Enquanto Karl olhava pela janela, Max estava sentado no sofá, em frente a uma lareira.

Quando Max mencionou “eles”, ele obviamente se referia a Kuroshi, Ryoka, Seira e Masaya. Apesar de tudo, Max ainda mantinha um tom bem respeitoso com seu irmão mais velho, que realmente passava a admiração que ele tem por Karl.

“Você tem certeza que irá seguir por esse caminho, Max? Tenho certeza que notou que o estado mental de Julie tem piorado a cada dia.”

Eles estavam de costas um para o outro, então Karl provavelmente não viu o sorriso autodepreciativo no rosto de Max.

“O que eu deveria ter feito? Deixado para lá até ela ser morta por alguém que ela considerava um amigo?”

As visões de Selina sempre foram certeiras, além disso, ela é a namorada de Max, enquanto Kuroshi é um estranho que ele nunca sequer conversou na vida, é uma situação onde é impossível para Max simplesmente confiar que Selina está errada e aquela pessoa está certa.

“Além disso, eu acredito que Julie irá se recuperar, ela é forte. Mesmo que demore um ou dois anos, ela voltará ao normal.”

Agora, isso é só um desejo fantasioso da sua parte, pensou Karl.

“Na pior das hipóteses, estou pronto para sacrificar minha vida para ficar tomando conta dela.”

“… Entendo.”

Julie não é a única que precisa de ajuda, no fim das contas…

Conversar com Max sobre isso deixa bem claro para Karl que da mesma forma que Julie precisa depender de Max, Max precisa que Julie dependa dele. E infelizmente nenhum dos dois percebeu ainda o mais óbvio disso tudo…

“Nii-san, o que você fará? Tentará me impedir? Eu não acho que eu seja capaz de vencê-lo em uma luta, mesmo que o Thomas se junte a mim, mas eu não pretendo mudar de ideia.”

Karl poderia tentar quebrar essa situação na força bruta, na verdade ele seria capaz. Ele poderia derrotar Max e Thomas, pegar Julie e leva-la de volta para seus amigos, ela provavelmente continuaria vivendo com eles como fazia antes. Mas…

“Não, eu ficarei com vocês até o fim disso.”

Não faria sentido ele fazer isso. Fazer isso não mudaria a mentalidade de ninguém aqui, é como se houvesse uma bolha e toda a família Alberta estivesse dentro dessa bolha, não é possível estourar a bolha por dentro, por isso é necessário que algo venha de fora e estoure a bolha.

Foi por isso que Karl disse “até o fim disso”, ele se referia a essa prisão mental que seus irmãos passavam. Ele foi até os amigos de Julie e contou toda a história deles para eles, na esperança que aquilo os fizesse vir até eles para salvar Julie. A melhor maneira de fazer isso, por bem ou por mal, será na base da violência, e ironicamente, Karl também precisa ser derrotado.

Espero que consigam encontrar o caminho até aqui de alguma forma… Embora seja bem improvável, considerando nossa locação.

Karl só podia torcer.

 

As horas se passaram, e o momento finalmente chegou.

“Eles vieram.” As palavras de Karl, que estava fora da casa, foram ouvidas por Max, Thomas e Julie, que estavam atrás dele.

Todos estavam unidos nesse momento por uma razão, Karl possui uma técnica de rastreamento de área, que só pode ser usada na água, e como eles estavam em uma ilha (E justamente por causa dessa técnica Max escolheu esse local), Karl rapidamente sentiu as quatro presenças se aproximando pelos céus.

“Não deixaremos eles levarem a Julie, não importa o que!”

Max anunciou vigorosamente.

Thomas parecia concordar com os sentimentos de Max, enquanto Julie parecia estar confusa com o que estava acontecendo.

Afinal, agora seus irmãos lutarão contra seus amigos.

 

 

Kuroshi e os outros desceram até a ilha, e pousaram logo em frente à casa de madeira. Surpreendentemente as pessoas que eles procuravam já estavam a sua espera.

“Vocês realmente vieram.”

Karl foi quem recebeu o quarteto, enquanto seus dois irmãos expeliam hostilidade em direção a eles.

“Nós viemos buscar a Julie, mas acredito que não será tão simples assim, não é?”

Ryoka como de costume respondeu pelo grupo, como a líder que é.

“C-Como vocês acharam esse lugar?!”

Julie estava nervosa e confusa, gaguejando e falando em um tom desbalanceado, claramente não estando no seu melhor estado.

“O cheiro da King Protea. Ela me disse que você estava passando por um processo de transformação.”

A surpresa causada pela resposta de Kuroshi foi contagiosa, já que aquilo era informação inédita até para seus amigos.

“… King Protea? Do que você está falando?”

“É o nome da flor.”

Julie obviamente não sabia que aquele era o nome de uma flor. Para princípio de conversa, ninguém se quer sabia que o tal cheiro era o aroma de uma flor, por isso todos ficaram confusos.

Todos, exceto, curiosamente, Julie.

Nessa vasta ilha de florestas, rios e montanhas, só existia uma única flor da qual ela tinha conhecimento… A flor que ela ganhou de presente na escola e trouxe para cá, que ela cuida todos os dias desde que chegou aqui.

“Você veio guiado por essa flor? Nunca pensei que fosse um romancista.”

“Cale-se”

Masaya, que estava bem surpreso, ainda encontrou espaço para o humor. É claro que aquilo não explicava nada, mas não era preciso explicações, ao menos não agora. O que era realmente importante era o que estava na frente deles.

Max deu um passo a frente e colocou um braço na frente de Julie.

“Vocês terão que passar por cima da gente para levar a Julie.”

“Era nosso plano desde o começo.”

Ryoka respondeu o tom desafiador de Max a altura.

“Como faremos isso?”

A pergunta de Karl se referia ao prosseguir desse conflito, começar uma batalha entre todo mundo juntos aqui?

“Eu quero ele.”

Max apontou o dedo em direção a Kuroshi.

“Julie, você não participará, então deixaremos a [Dimensão Reversa] por sua conta, crie a maior possível.”

“Mas Karl onii-chan…”

“É lamentável, mas não há meios de evitar essa luta, então, contaremos com você.”

Julie, ainda relutante, balançou a cabeça para cima e para baixo, aceitando a situação.

“Bem… Acho que eu terei que ser seu oponente, certo?”

Com um sorriso no rosto, Masaya direcionou suas palavras a Karl, que sorriu levemente como resposta.

“Parece que sim… Isso significa que Thomas irá lutar contra as duas damas, há algum problema?”

“Não se preocupe, não perderei para duas garotas.”

Thomas respondeu com confiança, mas suas palavras não pareceram afetar nem um pouco Seira e Ryoka.

Olhando toda a construção da situação com desprazer, Julie finalmente criou uma [Dimensão Reversa] ao redor da ilha.

“Vamos nos separar para não criar interrupções nas outras lutas.”

Karl guiou as ações dos dois grupos, fazendo todos se separarem.

Karl e Masaya foram para uma direção.

Thomas, Seira e Ryoka foram para outra.

Maxwell e Kuroshi para mais uma direção diferente.

Cada um na sua própria ‘área’ de batalha.

Falando em direções, na mesma ordem acima, eles foram para leste, oeste e sul. Todos estavam distantes uns dos outros, mas Julie, que estava no centro, subindo em um grande morro próximo da casa, conseguia observar as três áreas onde as lutas ocorreriam.

Ela se sentia péssima com o que estava acontecendo.

Seria tudo por culpa dela?

Talvez não. Mas definitivamente era por causa dela.

Os dois lados queriam o seu bem, e ela sabia disso. Justamente por isso ela não queria que eles lutassem entre si.

Mas apesar de serem [Avatares de Deuses] com superpoderes, eles ainda eram humanos. Algo bem frequente na humanidade é a capacidade de dois lados entrarem em conflito mesmo buscando o exato mesmo objetivo, tal é como funciona a estupidez humana, talvez seja uma luta sem sentido.

A diferença é um outro significado por trás dessa luta que Julie falhou em perceber.

 

 

Karl vs Masaya.

“Você é Masaya, não é mesmo? Essa luta irá decidir o futuro da Julie, e vocês precisam nos vencer… Infelizmente, vocês precisam nos vencer enquanto estamos dando o máximo de nós, por isso, irei lutar com tudo. Esteja pronto.”

Karl estava com os braços cruzados, um pouco distante de Masaya. Enquanto Masaya estava com as mãos na cintura.

“Hah… Não poderia ser de forma diferente. Já faz um bom tempo desde minha última luta, então estou um pouco enferrujado.”

“Inventando desculpas já a essa altura, heh, não tenha tanta pressa.”

“Dá um tempo, é bom ir se acostumando, pois não conseguirá acompanhar a minha ‘pressa’.”

Karl sentia uma certa animosidade em relação a Masaya, de alguma forma os dois pareciam ser os únicos não tão intensamente envolvidos nesse drama. Diferente das outras duas lutas, essa provavelmente será mais divertida do que dramática, ele pensava.

 

 

Thomas vs Seira e Ryoka.

“Espero que não nos leve a mal, por estarmos lutando em uma luta 2 vs 1.”

Ryoka comentou casualmente, com seu cajado invocado na sua mão.

“Hmph, vocês perderão de qualquer forma, tanto faz se são 1 ou 10.”

Thomas parecia confiante nas suas habilidades, conhecendo sua história, ele provavelmente treinou arduamente após a morte da sua irmã mais velha.

“Nessa luta o vencedor é o certo e o perdedor é o errado, nós não perderemos aqui. Levaremos Julie de volta.”

Seira, segurando seu tridente, apontou sua arma para Thomas.

Thomas fechou os olhos e respondeu:

“O ‘prólogo’ antes do início da luta já se estendeu demais, vamos para o que importa de uma vez.”

Palavras não eram mais necessárias, os três já estavam mais do que prontos.

 

 

E finalmente, Maxwell vs Kuroshi.

Eles estavam frente a frente, mas nenhuma palavra era mencionada.

Kuroshi conseguia sentir todo o ódio de Max por ele. Era um ódio justificável? Max sequer o conhecia, mas supostamente Kuroshi será o assassino de sua irmã. Vendo desse ponto de vista, Kuroshi não o culpava.

Mas ele aos poucos estava corrompendo Julie, a garota feliz e agitada de antes já não existia mais, Kuroshi também tinha sua parcela de raiva em relação a ele.

“Eu te desafio para um duelo, Kouji.”

Foram as primeiras palavras ditas. Kuroshi já esperava por elas.

“Acha que pode vencer?”

“Pergunte isso quando eu tiver afundado sua cara no chão.”

As ameaças de Max pouco faziam em Kuroshi, mas ele precisava dar crédito a Max pela determinação.

“Eu aceito seu desafio, essa luta só parará quando um de nós cair.”

Kuroshi invocou sua espada, seu treinamento ainda estava prematuro, mas contra um artista marcial, o alcance e efeito especial da espada irão servir como uma grande vantagem.

 

Naquele momento, sobre supervisão de Julie, as três lutas começaram.

Kami no Sensou – A Importância do [Reisei] (Volume 5: Capítulo 7)

De frente para janela do seu quarto com as duas mãos para trás, o jovem Noah Scalon refletia sobre algo que estava na sua mente.

A princípio ele estava olhando para o céu, mas depois fechou os olhos por alguns segundos e se virou, se dirigiu até uma mesa no seu quarto, onde seu celular se encontrava, e o pegou.

Abrindo um aplicativo de comunicação via chat no seu celular, ele criou um grupo e adicionou alguns números familiares nele.

[Noah: Boa noite, senhoritas e ‘senhoritos’!]

Fazendo o primeiro comentário da maneira mais cômica possível, Noah agora aguardava as respostas. Enquanto esperava, ele colocou o celular na cama e se deitou.

Após alguns minutos viajando no próprio mundo, ele ouviu um curioso som saindo do celular, indicando que ele havia recebido uma nova mensagem.

[Kuroshi: Uh? O que é isso??]

A primeira resposta foi bem o que ele esperava, por isso ele sorriu inconscientemente. Os nomes apareciam no grupo de acordo com o que ele havia adicionado no seu celular.

[Ryoka-san: Noah? “Reunião de treinamento”? Não tinha uma ideia melhor para o nome do grupo? Embora seja pedir demais para o criador do “Clube de Zeus”…]

As respostas logo vieram uma atrás da outra.

[Mitsui-san: Aconteceu alguma coisa? Ainda é cedo para esperar resultados em relação ao treinamento…]

[Kuroshi: Tenho medo só de pensar no que esse cara tem em mente.]

[Ryoka-san: Talvez seja importante, caso contrário ele teria nos reunido como sempre faz.]

[Mitsui-san: Bem, isso é verdade.]

[Noah: Vocês estão certos sobre ser um assunto importante em relação ao treinamento.]

[Noah: Após refletir por um tempo sobre toda a situação em que vocês estão, eu cheguei a conclusão de que nós estamos levando tudo isso de maneira relaxada demais.]

[Ryoka-san: Como assim?]

[Mitsui-san: Não estamos levando a sério?]

[Kuroshi: Explique melhor.]

[Noah: O que quero dizer é que falta ‘senso de urgência’ para vocês evoluírem mais depressa.]

[Noah: Não sabemos o que pode acontecer se demorarmos demais, então é melhor nos apressarmos para trazer a jovem Julie de volta.]

Após quase um minuto inteiro sem nenhuma resposta…

[Kuroshi: Ou seja…]

[Noah: Mudaremos a rotina dessa segunda fase do treinamento.]

[Ryoka-san: Eu entendo o que você quer dizer, mas…]

[Mitsui-san: O que você tem em mente?]

[Noah: É bem simples, na verdade.]

[Noah: Daqui a exatamente uma semana, irei esperar vocês no terraço da escola às seis da manhã. Dominem o controle de [Reisei] no corpo de vocês nesse tempo e apareçam lá para começarmos a terceira fase.]

[Kuroshi: O QUE?!]

[Ryoka-san: Isso é pedir demais…]

[Noah: Deixarei por conta de vocês, daqui a uma semana, se vocês não dominarem o [Reisei], nem precisam vir. Era só isso, até semana que vem e boa sorte!]

[Kuroshi: Ei, espere!]

Noah desfez o grupo no aplicativo e desligou seu celular logo em seguida. Ainda deitado na sua cama de olhos fechados, ele tentava imaginar a reação dos três e via imagens muito “interessantes” na sua cabeça.

“Isso será para o melhor. Sinto que não temos tanto tempo de sobra assim… Embora eu não tenha certeza se meu pressentimento tem haver ou não com o caso da jovem Julie.”

Noah abriu os olhos e encarou o teto em silêncio.

Mesmo assim… Sem ela por perto, eu não tenho tanta confiança que serei capaz de guia-los para direção necessária.

Felizmente o Masaya está de volta, então eles ficarão bem mesmo que eu não esteja por perto… Mas, no caso dos primordiais se moverem…

Noah não queria nem considerar aquela possibilidade ainda. Kuroshi e os outros não faziam ideia, e seu único foco era o atual caso da Julie, por isso tinha-se a ideia de que esse treinamento era para essa situação, mas nenhum deles podia prever a grande calamidade que estava por vir.

 

 

“Ayame Hiyori estará fora por um tempo?!”

Kuroshi não conseguiu esconder sua surpresa enquanto falava no celular com Ryoka.

[Sim… Quando fui procurar por ela, foi o que os professores me disseram, que ela precisou ir a uma viagem e ficará um tempo fora. Eu ia questionar Noah sobre isso, mas não consigo entrar em contato com o celular dele.]

“Uh, entendo… Eu vou desligar então. Me mantenha informado caso descubra algo, até mais.”

Desligando o telefone, Kuroshi apoiou seu corpo com ambos seus braços na sacada da varanda do seu quarto, encarando a lua.

“… Me pergunto o que ela está fazendo neste momento…”

Falando consigo mesmo, ele passou a noite pensando.

 

 

Uma semana. Nesse curto período de tempo, Kuroshi, Seira e Ryoka precisam ganhar controle sobre o [Reisei] dos seus corpos, caso contrário serão deixados para trás.

Com uma breve reunião entre os três, a seguinte decisão foi tomada:

Os três deviam se separar durante essa semana e realizar seus treinamentos separadamente uns dos outros.

Existem diversas razões para evitar um treinamento em grupo, mas a principal delas é que, segundo Ryoka, se os três treinarem juntos eventualmente um atrasará o outro, pois cada um tem um ritmo diferente de aprendizado, jeitos diferentes de compreender o que precisa fazer para crescer e até mesmo meios diferentes de treinamento para desenvolver essa habilidade.

Mas não significa que eles precisam se virar sozinhos, por isso, Ryoka também sugeriu que cada um buscasse ajuda de outras pessoas (Do [Partenon] de preferência) nesse treinamento, pois além de facilitar o progresso no treino, ainda possibilitaria os seus amigos a conhecerem essa habilidade e começarem a aperfeiçoa-la eles mesmos.

Dito isso, os três começaram seus treinamentos livremente, apesar de terem escolhido seguir um padrão similar, que era o de treinar individualmente durante o dia, e tentar métodos de treinamento com alguns amigos durante a noite.

Na verdade, a lógica era simples. Nenhum deles queria faltar as aulas por causa do treinamento, apesar de estarem no meio de uma batalha mortal, no momento em que eles morrerem suas memórias desaparecerão e eles voltarão a ser pessoas comuns, se por um acaso a vida escolar deles estiver numa situação precária por causa da negligência deles, quando esse momento chegar eles mesmos estarão se colocando em uma situação apertada sem sequer saber o porque, por isso, tanto a [Guerra Divina] quanto o dia a dia comum eram igualmente importantes.

Durante o horário de aula eles tentariam treinar individualmente, as salas de aula acabavam sendo um bom local para concentração, já que além de ser relativamente quieto em horário de aula, ainda exigia bastante da concentração deles para prestar atenção na aula enquanto tentavam controlar seu [Reisei]. No horário de almoço, os três usavam o tempo para relaxar um pouco antes de retomar o treino.

Após o fim das aulas, que terminam as 15:30 (Exceto aos sábados, que termina as 13:00), eles iriam atrás de algum amigo ou conhecido buscar por ajuda. Pensar em algum meio de treinar o controle de [Reisei] era responsabilidade deles mesmos, e então eles dependiam da boa vontade de seus amigos por um período de tempo que geralmente variavam de 3 a 5 horas e depois ficavam o resto do dia descansando. A média por dia era de 10 horas de treinamento, às vezes usando mais o corpo, às vezes usando mais a mente.

O que nenhum dos três esperava era a grande variedade de coisas únicas que aconteceram durante esse treinamento. Bem, precisaremos olhar esses eventos desde o começo.

 

– Dia 1

Após um dia relativamente exaustivo de aula (Por conta do treinamento), Kuroshi estava se preparando para ir embora.

Seu treinamento ‘individual’ começaria hoje, e ele já tinha alguns planos do que fazer.

Pegando um papel da sua bolsa, Kuroshi conferiu o endereço ali escrito e decidiu seu destino.

 

A viagem foi relativamente longa, tomando dezenas de minutos de caminhada até chegar onde queria.

No atual momento, Kuroshi se via diante de um restaurante. Ao entrar no estabelecimento, era possível notar que, apesar de não ser um grande restaurante, era um espaço bem sofisticado, com várias mesas aparentemente de material de qualidade, e o ambiente do local era bastante agradável.

Embora estivesse um pouco cheio, Kuroshi encontrou uma mesa vazia perto da janela e se sentou. Menos de um minuto depois, uma garçonete veio em sua direção.

“Olá, senhor! Posso anotar seu pedido—Eh?”

“Hm?”

A estranha reação da garçonete fez Kuroshi, que estava olhando pela janela, olhar para ela, curioso.

“Ah! Você é…”

A aparência única da garçonete entregava sua identidade instantaneamente. Não era o único detalhe que se destacava, mas definitivamente algo que deixava uma forte impressão em Kuroshi.

“Hikari-san?”

Hikari Kurayama, a misteriosa garota que Kuroshi conheceu não muito tempo atrás e que ele jurava que não reencontraria tão cedo estava agora na sua frente, vestida de garçonete.

“A-Ah, Kuroshi-san, que coincidência… E-Então, posso anotar seu pedido?”

Meio sem jeito, Hikari tentou manter o profissionalismo antes de mais nada.

“Na verdade eu vim aqui—“

“Oh, Kuroshi! Você veio mesmo. Huh? Vocês dois se conhecem?”

Dessa vez uma nova pessoa entrou na conversa.

“Claire-san… Eu…”

“Olá, Claire. Hikari-san e eu nos conhecemos por um acaso no outro dia, ela mora no quarto ao lado do meu antigo apartamento.”

Notando que Hikari estava confusa com a situação, Kuroshi estendeu uma mão rapidamente explicando a situação.

Claire Schwartz—filha do dono do restaurante—estava vestida com uma roupa de chef de cozinha.

“Oh, entendo. Que desenvolvimento curioso.”

Enquanto respondia, Claire se sentou na mesma mesa que Kuroshi, frente a frente com ele.

“Então, Kuroshi, posso pedir um café para você?”

“Uh, claro.”

“Hikari, traga duas xícaras de café, por favor.”

“S-Sim, Claire-san!”

Hikari se curvou respeitosamente e se dirigiu em direção a cozinha. Kuroshi a acompanhou com os olhos até ela sumir da sua vista, então olhou para Claire e disse:

“Mas devo dizer, isso foi realmente uma grande coincidência.”

“Hm? Eu não acho que tenha sido uma coincidência tão grande assim. Eu ofereci um emprego de meio período para a Hikari justamente por ela ser uma [Avatar de Deus], ainda mais na situação que ela estava. Era natural que, ao interagir mais com outros [Avatares de Deuses] do [Partenon], eventualmente descobriríamos sobre mais [Avatares de Deuses] de fora, já que o [Partenon] em especial é um grupo que oferece auxilio a outras pessoas que estão na mesma situação.”

“É realmente uma boa observação… Mas então você também tentou oferecer suporte a ela?”

“Sim, eu a conheci por um acaso enquanto ela procurava um emprego, então eu a acolhi aqui no restaurante do meu pai… A Hikari está às cegas, mas ela insiste que não é necessário eu me dar ao trabalho de ensina-la tudo que ela precisa saber, e que ela vai ficar bem do jeito que está…”

Kuroshi ficou pensativo por um momento. O que aquilo deveria significar exatamente? Por alguma razão Kuroshi tinha curiosidade em saber o que havia por trás daquela garota, Claire parecia saber de algo.

“Mudando de assunto, eu imagino que você não tenha vindo aqui só para pegar algumas receitas novas, certo?”

Antes que pudesse perguntar, Claire mudou de assunto. Como aquilo pareceu intencional, Kuroshi não teve escolha.

“Eh? Como você sabe?”

“Vocês estiveram bastante ocupados nos últimos dias, imaginei que estivessem com algo importante para fazer.”

“Para dizer a verdade…”

Kuroshi então começou a explicar toda a situação para Claire após Hikari voltar e trazer as xícaras para ambos. Sobre Julie, sobre a família dela, sobre o [Reisei] e por fim sobre o treinamento. Claire ouviu atentamente e esperou ele terminar de falar para comentar.

“Acredito entender completamente a situação agora. Mas devo dizer, vocês realmente gostam de fazer as coisas por baixo dos panos, huh?”

“!!…”

Surpreso, Kuroshi tentou refutar a crítica que havia acabado de receber, mas nada saia da sua boca, simplesmente porque não havia contra-argumentos.

“Eu entendo que a intenção do grupo é fornecer uma vida tranquila para todo mundo, mas se apenas três ou quatro individuais ficarem encarregados de resolver todos os problemas que aparecerem, cedo ou tarde vocês vão sobrecarregar, ou mesmo alguma tragédia acontecer como foi com você da última vez, diminuindo o número de pessoas para resolver os problemas e repetindo tudo o que eu acabei de dizer como em um ciclo, até chegar o momento em que o grupo entrará em colapso.”

“… Você tem toda a razão, porém… Dessa vez esse é um problema inteiramente pessoal, seria errado da nossa parte depender do [Partenon] para resolver um problema pessoal, além de que o objetivo dessa vez depende mais de outros fatores além do número de pessoas. Mas é considerando o que você disse que eu vim aqui hoje.”

“Certo. No que eu posso ajudar?”

“No meu treinamento.”

Após alguns segundos de silêncio, Kuroshi pegou sua bolsa e retirou um pequeno caderno de anotações dali.

“E algumas das receitas aqui do restaurante também, se possível.”

“Heh… Que tal então eu te passar nossas receitas secretas a cada vez que você conseguir me atingir?”

Claire disse com um tom de sarcasmo, querendo fazer uma piada sobre a proposta, mas Kuroshi pareceu bem surpreso ao ouvir as palavras dela.

“Não, não. Eu sei bem a diferença entre nós para não cometer um erro desses, haha… Além do mais, não é desse tipo de ajuda que eu preciso no treinamento.”

“Hmm? Pelo que deu pra tirar das suas explicações, o jeito mais fácil de conseguir mover o [Reisei] é em situações de alto risco, não? Já que tecnicamente agora o [Reisei] faz parte do seu corpo, faria sentido ele se mover baseado nos seus instintos.”

“Provavelmente. Porém, nossos ‘inimigos’ dessa vez não são os vilões, nós provavelmente não lutaremos numa batalha de vida ou morte, técnica vai ser bem mais necessário do que instintos se quisermos sair por cima.”

Claire pareceu concordar com a linha de raciocínio de Kuroshi e decidiu mover o assunto adiante.

“Nesse caso, o que devo fazer?”

“Eu já tenho algumas ideias em mente, só preciso de alguém para me acompanhar no treinamento.”

“Hmm, nesse caso, eu tenho uma sugestão…”

 

Algumas horas depois, o restaurante já estava fechado.

“Eh? Eeeehhh???”

Em frente ao restaurante havia um trio de pessoas.

Frente a frente estavam Kuroshi e Hikari, e logo mais ao lado Claire estava encostada na parede com os braços cruzados.

Após coloca-los frente a frente, Claire disse: “Faça seu treinamento lutando contra a Hikari.”

E a reação da Hikari foi a mencionada acima. Kuroshi ficou em silêncio, mas claramente surpreso.

Então era essa sugestão que você tinha em mente…

Ele não sabia o que exatamente Claire tinha em mente, mas as palavras de Hades no outro dia o deixava curioso e interessado em levar isso adiante.

Antes que percebessem, o local já havia tido suas cores invertidas, Claire abriu a [Dimensão Reversa].

“E-Espere, Claire-san?!”

Hikari olhou para Claire pedindo ajuda, mas ela apenas sorriu e balançou a cabeça, impedindo ela de sair dessa situação.

“Hikari-san, por favor, me ajude no meu treinamento!”

Vendo Kuroshi se curvar levemente enquanto fazia seu pedido, Hikari se viu sem saber o que fazer.

Notando que podia seguir adiante, Kuroshi ajeitou sua postura e invocou sua espada.

Honestamente, por alguma razão estou nervoso, mas realmente quero testar os limites do meu poder…

Decidindo que os dois estavam prontos para começar (Exceto que Hikari não estava), Claire deu o sinal para seguirem em frente.

“Aqui vou eu, Hikari-san!”

Kuroshi não poupou tempo e avançou em direção a Hikari sem hesitar, atacando ela com sua espada em um movimento vertical de cima para baixo, porém…

“?!”

O que Kuroshi viu, foi uma garota com os olhos fechados e os braços cobrindo o rosto, exatamente como uma criança reagiria quando prestes a ser atingida por alguém.

Quase sem tempo para reagir, Kuroshi usou toda sua força pra mudar a direção do seu ataque, que passou do lado de Hikari e atingiu o chão.

Ela…

Kuroshi desfez sua espada, e olhou para Hikari, surpreso. Vendo que ela estava desviando o olhar, aparentemente desconfortável, Kuroshi rapidamente se curvou novamente.

“Desculpe, Hikari-san! Eu fui insensível e não pensei que você não gostaria de lutar…”

Após se desculpar, Kuroshi olhou para Claire, confuso. Se a Hikari possui esse tipo de personalidade, porque ela faria eles lutarem?

Mas a expressão de Claire não podia ser lida, ela estava séria e quieta, como se estivesse esperando algo.

“N-Não… sou em quem devo me desculpar…”

A voz de Hikari trouxe o olhar de Kuroshi de volta para ela.

“Não se preocupe, nunca iria te culpar por ter medo de lutar—“

“Não é que eu tenha medo de lutar… É por isso que preciso me desculpar com o Kuroshi-san…”

“Huh?”

“Eu não posso te ajudar no seu treinamento… Pois você é fraco demais… Desculpa!”

Hikari se curvou para Kuroshi.

Nesse momento, a [Dimensão Reversa] foi cancelada por Claire, quando Hikari olhou para ela, Claire deu sinal dizendo para ela ir para casa, Hikari então se curvou novamente para Claire e Kuroshi, e se retirou do local rapidamente.

Kuroshi permaneceu de pé, sem reação.

Claire se aproximou dele e colocou uma mão no ombro de Kuroshi.

“É por esse motivo que ela não quer se envolver com o [Partenon], quando eu a convidei foi mais ou menos a mesma coisa que ela me disse… Embora ela tenha aceitado se envolver comigo, provavelmente por acreditar nas minhas habilidades.”

Mesmo assim Kuroshi não respondeu nada, Claire notou a leve tremedeira nas mãos dele.

“Não se sinta mal. O que ela disse, na perspectiva dela, é apenas natural, afinal… Estamos falando da [Avatar de Deus] mais forte de todas.”

As palavras de Claire pareceram trazer Kuroshi de volta pra realidade.

Ele levantou a cabeça e olhou para Claire, buscando uma resposta.

“Hikari é Avatar da entidade que originou tudo, a primeira que veio a existência, a [Avatar de Caos], não só um dos deuses primordiais, mas o mais importante e poderoso deles.”

 

Após aquilo, Kuroshi se despediu de Claire e terminou o dia por ali, sem treinar. Ao chegar no quarto do dormitório…

“Merda!!”

Rapidamente abrindo uma [Dimensão Reversa] só no seu quarto, Kuroshi chutou sua própria cama, que partiu em dois e voou até a parede do quarto. Logo depois disso ele socou a parede, afundando ela em uma pequena cratera.

Frustrante, huh?

“Hades…”

Ao se virar para trás, o que ele viu foi, de certa forma, um reflexo de si mesmo, após atingir certo nível de poder. O mesmo rosto, mas com cabelo um pouco mais longo e roxo, manoplas e grevas totalmente negras que exalavam uma fumaça igualmente negra, e uma túnica medieval negra e dourada… A sua aparência como “Hades”.

“… O que você quer?”

Oras, nós somos lados diferentes da mesma moeda, sua frustração também é minha, e estar frustrado me incomoda.

“…”

Mais do que ninguém, eu sei o quão frustrante é se sentir rebaixado dessa forma. Afinal, você não quer continuar com seu catálogo de falhas por falta de poder, não é?

“…”

Contando com a [Avatar de Poseidon], já foram três vezes, não? A [Avatar de Caos] é apenas uma amostra do quão longe podemos chegar. Use suas falhas passadas como escada para alcançar um lugar que ninguém jamais alcançaria sem ter experimentado essa frustração.

Kuroshi olhou muito surpreso para Hades, não… Para si mesmo.

“… Você é um bom conselheiro para um Deus, huh?”

Hah, quem ditou que Deuses não podem servir como bons conselheiros?

Com uma mão na cintura e um sorriso irônico no rosto, Hades olhou para Kuroshi com um olhar que dizia “Parece que não preciso mais me preocupar com você”, e antes que Kuroshi pudesse perceber, a presença dele não podia ser mais sentida e ele já havia desaparecido.

Cancelando a [Dimensão Reversa] e voltando o quarto pro estado original, Kuroshi se sentou na cama.

“Eu realmente devia estar mal, precisando de um Deus para me consolar…”

Deitando na cama e estendendo sua mão para cima, Kuroshi olhou para palma da sua mão.

“Eu preciso ficar mais forte, aos poucos, visando o que ainda está dentro do meu alcance. Primeiro eu preciso trazer a Julie de volta…”

Fechando sua mão com força, Kuroshi se decidiu com sua determinação renovada.

“Mas… Três falhas?”

As misteriosas palavras de Hades ecoaram na sua mente.

 

 

No dia seguinte.

“Me surpreende que você consiga fazer isso tão casualmente, Masaya.”

Ryoka também continuava seu treinamento. Na pequena floresta que fica dentro do campus do Colégio Aohoshi estava Ryoka, que treinava seu controle de [Reisei], Masaya estava deitado em uma grande pedra perto dela, e Alisha, que estava na frente de Ryoka.

“Mesmo? Sempre pareceu fácil para mim.”

Se sentindo debochada, Ryoka lançou um olhar mortal para Masaya.

“Mas você já fez bastante progresso, Ryoka.”

O comentário de Alisha se dava devido ao fato de Ryoka já conseguir mover seu [Reisei] conscientemente, o único porém era a velocidade com o que isso ocorria, em uma batalha de verdade seria lento demais.

“É verdade, Ali-chan, vamos continuar, venha com tudo!”

“Já que insiste…!”

Alisha recriou a arma de Ryoka com seu poder como [Avatar de Hefesto], sendo uma arma não letal, ela poderia usar para atacar sem problemas. Ao mesmo tempo, Alisha também recriou um par de botas com asas.

“Ooh, minhas botas.”

Apesar do comentário de Masaya, ele não estava realmente surpreso.

“Vamos recomeçar, Ryoka!”

Se movendo em uma velocidade impressionante, Alisha começou a atacar Ryoka em vários pontos do corpo.

As [Botas de Hermes] é um equipamento que garante um grande aumento na velocidade do usuário, ao usar elas, Alisha consegue se mover em uma velocidade que normalmente seria impossível para ela. No entanto, mesmo a velocidade atual de Alisha não era o suficiente para passar pela velocidade de reação de Ryoka, que consegue acompanhar até mesmo a velocidade da luz, e a intenção do treinamento é exatamente essa, Ryoka não pode usar seus poderes para se defender, apenas seu próprio [Reisei], sendo atacada em vários pontos, ela tem que dominar completamente esse poder para se defender de todos os ataques.

Era um treinamento um pouco pesado, já que Ryoka passava horas apanhando, mas estava gerando resultados, isso porque Ryoka é a que tem a maior capacidade de aprendizado para um poder como esse.

O ritmo seguia, sem parar o treinamento, e o progresso continuava.

 

 

 

Ao mesmo tempo, na sala do conselho estudantil, duas pessoas estavam presentes.

Seira e Alicia.

“O processo mental é um fator essencial para um poder assim, pelo o que você me contou, Seira. Então preciso que se concentre bem.”

“Certo…”

Seira estava sentada, com os olhos fechados. Alicia se posicionou atrás dela e colocou suas duas mãos nos ombros de Seira.

“Visualize uma imagem do seu corpo feito de [Reisei].”

“Mas eu não sei como o [Reisei] é…”

“Não tem problema, apenas imagine do jeito que quiser.”

“Sim…”

Alicia permaneceu em silêncio por alguns segundos, Seira estava realmente se concentrando o máximo que conseguia.

“Isso pode doer um pouco, mas resista.”

Em uma das mãos de Alicia, uma pequena explosão de fogo foi criada, atingindo o ombro de Seira, que abriu os olhos, surpresa.

“Ai…”

“Hahaha, faz parte do treinamento, agora volte a se concentrar.”

“Tem certeza que isso vai funcionar…?”

“Hmph, certeza absoluta! Pode confiar, pois você vai sair com uma nova habilidade.”

“E com bastante dor nos ombros, pelo visto…”

Após ouvir a explicação de Seira sobre o que é o [Reisei], Alicia teve a ideia de por esse treinamento em prática. É difícil tentar controlar algo que de certa forma sequer existe nessa realidade, desligar seus sentidos e se concentrar em uma imagem mental sobre o que seria a energia conhecida como [Reisei], para criar um controle sobre a energia se baseando em um “mundo imaginário”, era a ideia de Alicia. Obviamente que apenas isso não seria o bastante, fazer Seira sentir dor em alguma parte do corpo foi o jeito que ela encontrou para conectar o mundo real com o mundo imaginário, de forma que o mundo imaginário proteja ela do que está acontecendo no mundo real, ou algo do tipo.

Se ela de alguma forma conseguir enxergar o [Reisei] na sua mente, mesmo não sendo como ele verdadeiramente é, ficará muito mais fácil de imaginar controlando aquela energia, pois a maior dificuldade está em mover algo que você não pode ver, nem sentir fisicamente.

Outra explosão aconteceu, agora no outro ombro.

“Ai…”

O treinamento continuou a partir dali.

Por sinal, apesar de ter tido uma boa ideia, Alicia esqueceu de um pequeno detalhe. O uniforme de Seira foi destruído nas áreas atingidas por causa das explosões.

 

 

“Haa!”

Uma luta ocorria na noite daquele dia.

“Eh? Uaah!”

Sendo atingido e jogado longe, Kuroshi se levantou.

“Mais uma vez, Claire!”

“Haah… Sinto que você me vencerá no cansaço.”

“Por favor!”

Eles já estavam nesse processo há duas horas. Tentando aprimorar seu controle através de batalhas, Kuroshi recriava situação que aconteceriam em batalhas reais, necessitando defender, esquivar e/ou atacar, ele tentava controlar o [Reisei] durante todas as situações, as vezes dependendo dos seus instintos, as vezes dependendo da sua própria habilidade. O progresso parecia estar realmente lento, no entanto.

Mas depois do que aconteceu, Kuroshi estava determinado a conseguir.

“Vamos continuar então, não pegarei leve.”

“Sim, obrigado!”

Apesar dos ferimentos no corpo desaparecerem quando a [Dimensão Reversa] se fecha, a fatiga continua, os dias de treinamento foram exaustivos para Kuroshi, assim como também foram para Claire.

 

 

Uma semana se passou.

Seis da manhã, no terraço da escola.

Noah estava de pé, olhando o sol nascer. Do seu lado, como sempre, estava Ayane.

“Acha que eles conseguiram?”

“Quem sabe. Para ser sincero, tenho certeza absoluta que Ryoka e Seira irão conseguir, minha maior preocupação é o jovem Kuroshi.”

“Eu acredito que todos eles conseguiram, afinal, essa é só a segunda fase do treinamento, é mais uma questão de costume do que talento.”

“Bom ponto. A partir daí, o quão longe eles chegarão só dependerá deles mesmo.”

O barulho da porta do terraço se abrindo ecoou pelo local. Noah se virou para receber seus “discípulos”.

“Bem a tempo, Ryoka, Seira.”

Ryoka e Seira estavam lá, lado a lado.

“Kuro-kun ainda não chegou?”

Ryoka perguntou enquanto inspecionava o local.

“Temo que não tivemos nenhuma noticia dele ainda.”

“Kuroshi…”

Seira olhou para o chão.

“Só depende dele, nada que possamos fazer sobre isso. Mas e vocês? Conseguiram?”

“Obviamente. Sei-chan e eu estamos mais que prontas. Precisa de demonstrações?”

“Não, confiarei em vocês, haha.”

Um silêncio tomou conta do lugar por um instante.

“Kuroshi… Iremos esperar por ele?”

Seira perguntou, um pouco apreensiva.

“Iremos esperar mais uma hora, se ele não vier, continuaremos com a próxima fase do treinamento.”

E então o jogo de espera começou. 15 minutos, 30 minutos, 45 minutos… Finalmente uma hora se passou, mas nenhuma notícia sobre Kuroshi. Ryoka ainda enviou algumas mensagens para ele, mas ele nem sequer viu as mensagens, quem dirá responde-las.

“O tempo já se esgotou, infelizmente teremos que começar sem ele.”

“…”

“Vamos, Sei-chan.”

Relutante, Seira aceitou a situação.

“Me sigam.”

Noah e Ayane saltaram do topo da escola, em direção a uma área mais aberta do campus. Mais precisamente, em frente ao shopping que existe lá, o mesmo lugar onde ocorreu a batalha contra Isaac.

Ryoka e Seira seguiram os dois até lá.

“Aqui que nós iremos continuar o treinamento?”

Ryoka perguntou, Noah acenou com a cabeça positivamente, confirmando.

“Vamos começar agora, a terceira fase do treinamento de [Reisei], e também a última que ensinarei para vocês.”

“A última?”

“Exato, essa é a mais importante, não é o fim, mas é o básico que vocês precisam para estarem nesse patamar superior, que é ter controle sobre o [Reisei]. Mas é sempre bom continuar se aprimorando, pois as possibilidades do [Reisei] são infinitas.”

Terminando os comentários, Noah invocou sua lança, o que surpreendeu Ryoka e Seira.

“Bem, a terceira e última fase do treinamento é—“

“ESPERE!!!”

Em um instante, uma explosão aconteceu próxima a eles.

Ryoka viu. Não foi uma explosão qualquer, um objeto se movimentando em alta velocidade

colidiu com o solo.

Um objeto não, uma pessoa.

“Déjà vu?”

O comentário de Ryoka foi pertinente, pois ela se lembra de ter passado pela exata mesma sensação, nesse mesmo lugar, muito tempo atrás.

E obviamente, a mesma pessoa aparece diante de todos.

“Bem pontual, você.”

Noah comentou, de maneira sarcástica.

“Cale-se, o importante é que eu cheguei.”

“Kuroshi!”

Seira chamou pelo nome da pessoa que havia acabado de chegar.

Kuroshi, com um sorriso no rosto, estava ofegante e bastante suado.

“Você não parece muito bem, Kuro-kun. Embora eu consiga imaginar o motivo.”

Só de olhar para ele, Ryoka conseguia dizer. Kuroshi estava treinando até instantes atrás.

“E então? Conseguiu dominar seu [Reisei]?”

Noah fez a mesma pergunta que fez para Ryoka e Seira.

“Não está perfeito, mas acredito estar em um nível ‘passável’.”

“Entendo. Então vamos seguir adiante agora que todos estão reunidos.”

Kuroshi se juntou as duas, ao ver o sorriso de Seira por ele ter chegado a tempo, Kuroshi levantou o polegar, fazendo sinal positivo para ela, antes de voltar a atenção para Noah.

“A última fase do treinamento será a extensão do seu [Reisei] para além do seu próprio corpo.”

“Para fora do corpo? Tipo rajadas de energia ou algo do tipo?”

A pergunta de Seira refletia o que vinha a mente dos três no momento.

“Não, embora é provável que seja possível fazer isso usando o [Reisei], eu honestamente não sou capaz de fazer isso. Me referia a estender para sua arma, ou suas técnicas, como minha lança que estou segurando no momento.”

A explicação de Noah fez Kuroshi entender melhor o que aquilo significava.

“Oh, então na nossa luta, quando você conseguia demonstrar feitos absurdos apenas com o balançar da lança era por causa do controle de [Reisei]?”

O que Kuroshi lembrava eram momentos tensos, onde Noah conseguiu partir a escola inteira em quatro e ainda estender o dano em uma área muito maior, apenas movendo a lança em alguma direção.

“Bom, sim. Esse é apenas um dos usos que o [Reisei] tem em um combate.”

Os três conseguiam enxergar onde Noah queria chegar.

A primeira fase do treinamento era o despertar do [Reisei].

A segunda fase do treinamento era o controle do [Reisei].

A terceira fase do treinamento então seria as maneiras de se usar o [Reisei].

“Controlar livremente o [Reisei] pelo corpo já é uma tática defensiva bem poderosa, da qual vocês agora tem posse. Essa técnica também pode ser usada ofensivamente, porém, para isso vocês teriam que abrir mão das suas armas e técnicas especiais ofensivas, já que sua habilidade só se limita a controlar o [Reisei] pelo seu corpo. Nessa terceira fase vocês aprenderão a encantar suas armas e técnicas de ataque com o [Reisei] para torna-los muito mais fortes que o normal.”

“É possível fazer isso até com nossas técnicas?”

A pergunta de Ryoka era natural, já que [Reisei] não parece ser maleável dessa forma.

“Mas é claro, é possível aprimorar as magias que vocês podem usar a níveis bem maiores com o [Reisei], mas o nível de controle de [Reisei] precisará ser aumentado muito mais ainda.”

Os três pareciam não ter mais duvidas, e esperaram Noah continuar.

“Nessa terceira fase, o [Reisei] que cobre o corpo de vocês deverá se estender através das suas armas completamente, podemos dizer que vocês precisarão considerar suas armas como parte do próprio corpo de vocês, fazer isso será essencial para aprender a embutir [Reisei] nas suas técnicas.”

Noah tinha noção do quão complicado seria para os três dar o próximo passo nesse treinamento, após despertar, o [Reisei] já passa a fazer parte de você, eventualmente você se acostuma com aquela energia e começa a movê-la instintivamente, mesmo se eles não parassem para treinar em nenhum momento, depois de alguns meses os três já estariam controlando o [Reisei] pelo corpo como se fosse a coisa mais comum do mundo.

Porém, nessa terceira etapa, os três precisariam fazer essa energia, que existe apenas dentro do seu próprio corpo, passar adiante para um ‘objeto’ que eles estão segurando, é um conceito complexo e impossível de se explicar, mas o que seria o mais próximo disso seria eles terem que compartilhar os sentimentos mais profundos do peito deles, que nem eles mesmo compreendem perfeitamente, para um objeto que eles estão segurando.

Honestamente, mesmo que treinem arduamente todos os dias, Noah não espera que eles consigam concluir a última etapa pelos próximos meses.

Enquanto se perdia na própria reflexão, Noah notou que Kuroshi parecia ter uma duvida.

“Quer perguntar algo, Kuroshi?”

“Uh, sim… O quão importante na [Guerra Divina] é ter total controle sobre o [Reisei]?”

Aquela parecia ser uma pergunta que não era muito necessária, já que com as explicações que Noah deu até agora, já era possível ter essa noção, mas ele percebeu que a pergunta de Kuroshi tinha um sentido mais profundo, de alguma forma ele conseguia ver através de Kuroshi.

“Hmm, vejamos… É importante o suficiente para que alguém não tão poderoso possa derrotar alguém extremamente poderoso apenas por ter um controle muito superior de [Reisei]… Vamos dizer, um [Deus Primordial], por exemplo, poderia ser derrotado por qualquer um aqui se tivéssemos um controle muito grande sobre o [Reisei].”

Os olhos de Kuroshi se arregalaram em surpresa, as palavras de Noah pareciam atravessa-lo exatamente onde ele não queria ser atingido.

“Basicamente, a energia, ou seja o que for, conhecida como [Reisei], está acima de qualquer [Avatar de Deus]. É impossível saber qual o limite do que o [Reisei] pode fazer.”

Aquilo era mais do que o suficiente para Kuroshi.

Nesse caso… Eu irei evoluir por esse caminho, e me tornarei forte o bastante para evitar qualquer tragédia que se aproxime daqueles próximos a mim…!

Fazendo um juramento a si mesmo, Kuroshi retornou ao silêncio.

“Antes de mais nada, deixe-me dar uma demonstração simples. Vocês três irão agora lutar contra alguém com um bom controle sobre o [Reisei].”

“?!”

Os três ficaram surpresos. Estaria ele falando dele mesmo? Os três irão lutar contra Noah?

“Eu quero que vocês façam uma batalha amistosa contra a Ayane.”

“Eh?”

Reagindo em sincronia, os três ficaram confusos e olharam para Ayane, que apenas se curvou como se estivesse educadamente dizendo “Estarei aos seus cuidados”.

“Ei Noah, isso é sério?”

Ryoka perguntou para Noah, incrédula, afinal, não importa como vejam, a Ayane não é alguém voltada para lutas.

“Hou~ Imagino que tenha bastante confiança nas suas habilidades para subestimar a Ayane desse jeito.”

Noah se afastou enquanto falava, fazendo os três ficarem frente a frente com Ayane. A [Dimensão Reversa] já estava aberta.

“Podem começar quando quiserem.”

Eles olharam uns para os outros e depois olharam para Ayane, que estava parada, nenhuma arma nas mãos.

Naquele momento eles entenderam porque precisavam ir para um local aberto.

“Nesse caso…!”

Seira foi a primeira a se mover, invocando seu tridente.

Ativando imediatamente seu [Water Blessing] para tornar a água muito mais potente, ela criou uma grande quantidade de água para atacar.

“[Water Colossus]!!”

A água se moldou como uma mão gigante com o punho fechado e voou em direção a Ayane. A potência do ataque era igual a de um meteoro vindo em direção a Terra, porém—

Um grande estalo ecoou pela área, era como o barulho de um balão estourando, a mão gigante de água explodiu com um tapa de Ayane.

“O que?!”

Mesmo as gotas de água espalhadas pela explosão do [Water Colossus] voltaram na direção dos três, por causa do [Water Blessing] as gotas vieram como uma chuva de balas de uma metralhadora, mas foram paradas por uma barreira de luz.

“Noah não estava mesmo brincando, não é!”

Ryoka já partiu para ofensiva imediatamente, atirando raios de luz em direção a Ayane, mas ela desviou dos ataques sem dificuldade.

“Mesmo os ataques da Ryoka são ineficazes?”

Kuroshi estava espantado, quem diria que ela seria forte assim? Mas eles também estavam apenas começando.

Avançando na direção de Ayane, era a vez de Kuroshi atacar. No entanto, mesmo sua maior característica sendo a velocidade, ele não conseguia atingir Ayane de nenhuma forma.

Atacando de várias formas e direções possíveis usando sua velocidade, Kuroshi tentou pressiona-la para achar um ponto cego.

Ali…!

Percebendo uma abertura, Kuroshi atacou ela por trás mirando exatamente na abertura que conseguiu.

Mas ele não conseguiu ser rápido o bastante, Ayane notou e se virou rapidamente, desviando da lâmina da espada e segurando o braço de Kuroshi em seguida.

“Guh?!”

Ele sentia seu braço sendo esmagado ferozmente.

É a mesma coisa daquela vez…

Kuroshi se lembrou de quando Maxwell aplicou sua força no braço de Kuroshi.

A diferença é que—

Kuroshi puxou seu braço para trás e se livrou de Ayane, focando seu [Reisei] na parte segurada, ele protegeu seu braço da força que Ayane fazia.

Se distanciando de Ayane, só então que ela notou o que estava acontecendo.

“[Poseidon’s Wrath]!!”

O solo se partiu onde ela estava, e uma grande quantidade de água veio para engoli-la.

Já era tarde demais para reagir, ou então era o que pensavam.

A técnica do [Poseidon’s Wrath] não só permite controle total sobre todas as águas, mas como também eleva as águas a um grande nível de agressividade, literalmente como um mar em tempestade, a fúria de Poseidon, o [Water Blessing] adiciona ainda mais poder a água, e o resultado final é a possibilidade de usar até mesmo pequenas quantidades de água como algo fatal para o adversário. No momento em que Ayane foi cercada por água sobre o efeito dessas técnicas, sua saúde física já ficou gravemente ameaçada.

Com o solo despedaçado, pedras voaram, Ayane chutou uma das pedras que explodiu parte da água que cercava ela, o que por si só já seria espantoso, mas esse não era seu propósito, e sim…

“Sei-chan!”

A pedra voou em direção a Seira fazendo um rastro em linha reta como se fosse um laser. A surpresa atrasou Ryoka por um momento e ela não conseguiu reagir a tempo, enquanto Kuroshi estava longe demais para fazer algo.

A pedra atingiu a barriga de Seira e uma grande onda de impacto se espalhou pelo local, criando uma grande ventania antes de carregar o corpo dela por um longo caminho, arrastando no chão e fazendo um grande rasgo por onde ela passou. Por [Poseidon’s Wrath] ser uma técnica que necessita de controle, ao ser atingida dessa forma tão drástica, Seira perdeu o controle da técnica, que por sua vez caiu no chão como uma água comum.

Ryoka e Kuroshi olharam abismados para direção onde Seira foi carregada, não acreditando que uma simples pedra faria algo assim. Se parar para analisar com frieza, mesmo um trem em movimento não seria o bastante para derrubar um [Avatar de Deus], mas um simples pedregulho causou esse estrago.

“Ser capaz de estender seu [Reisei] para fora do seu corpo também te garante grande controle sobre o cenário, podendo usar qualquer coisa como arma ou escudo. Até mesmo uma pedra.”

Noah explicou para o trio, que estavam surpresos (Exceto Seira, que ainda estava no chão).

“Vamos continuar.”

O comentário curto com a voz leve e bela de Ayane chamou a atenção de Kuroshi e Ryoka de volta. Sem perceberem, um oponente realmente incrível estava na frente deles, alguém que é capaz de dar trabalho para os três juntos sem sequer usar suas habilidades como [Avatar de Deus]. Ayane Tsuma.

 

 

Muito longe do Colégio Aohoshi, em uma casa numa grande ilha deserta…

Julie Alberta observava seu novo lar.

Até alguns dias atrás eles estavam em um hotel, mas Maxwell revelou os próximos passos do que ele tinha em mente.

Prevendo que Kuroshi e os outros viriam atrás deles, ao invés de voltar direto pro Canadá, ele decidiu viver temporariamente em uma ilha isolada do mundo, onde ninguém os encontraria.

Karl foi o único a ser contra a ideia, mas não tinha muito que ele pudesse fazer quando a própria Julie não era contra aquela situação.

A casa, construída com os poderes de Thomas, era toda de madeira e era bem grande e confortável. Coisas como os móveis necessários, alimentos e bebidas e etc já foram resolvidos por Max, e agora os quatro vivem aqui no silêncio da ilha.

Os primeiros dias já foram bem rotineiros para Julie, durante as horas vagas ela costuma explorar a ilha, treinar o controle de [Reisei], ou ficar no seu quarto, são as únicas coisas que ela faz.

Seu quarto já estava completamente arrumado com suas coisas, como um porta-retratos com uma foto dos seus amigos do Colégio Aohoshi, ou algumas outras coisas que ela trouxe da sala do conselho estudantil, como quadros ou a flor que ela ganhou e continua cuidando todos os dias.

Estava de noite, ela olhava pela janela, olhava para o céu.

Ela colocou uma das mãos no vidro da janela.

“Julie…”

Olhando através do reflexo do vidro, ela podia ver que seu irmão mais velho, Karl, estava na porta.

“Apesar de já termos conversado isso algumas vezes, mas eu realmente acho que você não precisa aceitar essa vida…”

“Max sabe o que faz, ele disse que ia me proteger.”

“É bom confiar na sua família, mas você devia confiar mais nos seus amigos também. Você acha mesmo que ele te mataria?”

Por “ele”, obviamente, Karl se referia a Kuroshi.

“…”

“Pense nisso, Julie. Mesmo que todas as previsões da Selina tenham sido concretizadas até agora, talvez ela esteja errada, ou talvez exista algum outro contexto para o que ela viu, talvez até mesmo—Julie?”

Karl notou um sorriso no rosto de Julie.

“… Ele me matar? Impossível, até porque será—”

“Karl! Eu estava te procurando.”

Thomas apareceu, com algumas sacolas na mão.

“Karl, precisamos de você na cozinha.”

“Sim, já estou indo…”

Thomas olhou para Julie, que ainda estava de frente para janela, e se retirou.

“Julie?”

Chamando ela mais uma vez, Julie olhou para trás.

“Eu estou bem Karl onii-chan, eu confio nos meus amigos, mas também confio no Max onii-chan, então acho que tudo isso será o melhor para mim.”

Karl pareceu um pouco confuso, mas vendo que o assunto acabou ali, ele fechou a porta e se retirou.

O total silêncio voltou para o local.

O lugar certo para quem gosta de contar histórias!